13 de nov de 2018

Moro vai vetar o da Malta?


Se o Lorenzoni pode, o Magno também...


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A lição de Henry Ford: empregado não é colaborador, é empregado

Uma reflexão para quem quer negar o inafastável conflito de classe no Direito do Trabalho


Não duvido que em algum momento próximo a CLT venha a ser substituída por outro diploma, talvez uma CLC, a “Consolidação das Leis do Colaborador”. Pois agora, nesses tempos que correm, muitas empresas decidiram que seus trabalhadores não podem mais ser chamados de “empregados”, mas sim de “colaboradores”. Algumas vão mais além e tratam os seus subordinados como “parceiros”.

Nada é tão emblemático do anseio reacionário de derruição do Direito do Trabalho quanto a tentativa algo patética de empregadores de quererem fazer acreditar que a relação de emprego não é uma relação de subordinação (verticalizada), mas sim de colaboração (horizontalizada). Colaborar, na etimologia latina, significa trabalhar lado a lado. Nesta novilíngua, patrões e empregados estariam assim em uma “parceria”, em comunhão total de interesses, “laborando conjuntamente”. A filosofia subjacente, divulgada inclusive em manuais fajutos de recursos humanos, é de que o patrão é também trabalhador e o trabalhador é igualmente um “sócio” informal da empresa.

Ora, as palavras têm sentido. Muito da interpretação jurídica, aliás, não passa de mera disputa de sentido semântico. O discurso linguístico nunca é neutro e embute, é claro, uma ideologia. A utilização da expressão “colaborador” não é aleatória ou acidental. Ela se contrapõe a “empregado”, voz passiva do verbo empregar, ou seja, aquele que é usado, submetido em sua vontade por outrem. A lógica do eufemismo é claríssima: disfarçar ou suavizar a condição de subordinação e exploração (lícita) do trabalhador.

Não é coincidência que a terminologia surja neste momento em que o legislador procura impulsionar “formas alternativas” (e eu diria eufemísticas…) de contrato de trabalho e em que a jurisprudência vem aceitando bovinamente a desnaturação e reclassificação de relações fático-jurídicas de claríssima subordinação, como é o caso da absurda decisão monocrática do ,inistro Luis Roberto Barroso na ADC 48.

Ou seja, o direito legislativo e jurisprudencial, por via oblíqua, quer estabelecer que o empregado não é empregado. Mas as palavras, mesmo quando sequestradas, não mudam a natureza das coisas. Como lembra Ferdinand Lassalle no clássico “A Essência da Constituição”, se colocarmos uma placa sobre uma figueira dizendo que aquela árvore é uma macieira, dela não brotarão maçãs.

Por isso, não é necessário ser sociólogo para perceber que o vocábulo “colaborador”, criado pelo patronato e não pelo coloquialismo da classe trabalhadora (que no Brasil gerou o termo “peão”), tem evidente caráter alienante, para que o trabalhador não perceba a existência da divisão de classes e de sua posição subalterna; para que não seja lembrado semanticamente de que os seus interesses chocam-se inevitavelmente com o do empregador; para que ele não reconheça a peculiaridade de sua condição de trabalhador sujeito a ordens e a disciplina; para que, enfim, não note a sua identidade “proletária” e, em razão de seu status, não se solidarize (via sindicalização) com os seus iguais. Porque, afinal, o sindicato só serve para atrapalhar a “parceria”, a aliança de “co” “laboração” entre patrões e empregados. Estou ciente, é claro, da crítica ao conceito de “proletariado” como uma ficção sociológica, mas o utilizo aqui para designar a percepção muito concreta de que os trabalhadores têm de pertencimento a uma mesma categoria ou profissão.
É evidente que não estou aqui defendendo que o empregado deva agir como “inimigo” ou “adversário” do empregador. “Consciência de classe” não significa “luta de classes”. O que defendo aqui, pois, é o liberalismo do interesse bem compreendido de Tocqueville, e não uma fórmula marxista de tomada de poder pelo proletariado.
Por isso, creio, realmente, que os trabalhadores possam e devam ver a empresa como uma entidade que, de alguma forma limitada e em certo sentido, também lhes pertence, já que são parte fundamental da produção de sua riqueza. E, consequentemente, claro, devem trabalhar com dedicação e seriedade para que os negócios do patrão prosperem, pois isso lhes beneficiará (pelo menos em tese), com a manutenção do emprego e progressão salarial. Institutos como a participação nos lucros foram oportunamente criados dentro desse propósito.

Mas isso não deve obscurecer o fato essencial de que haverá sempre e inexoravelmente na relação de emprego uma tensão permanente, uma área de conflito de interesses inafastável, um foco de dissenso, que é inerente ao trabalho subordinado: no fim das contas, o contrato de trabalho nada mais é do que um contrato de compra e venda do tempo de vida do empregado. O trabalhador vende e coloca à disposição do empregador valiosas horas de sua finita permanência neste mundo. Para ele, que conhece a preciosidade de cada minuto de sua vida, a remuneração oferecida sempre estará aquém do valor que atribui à sua existência.

Por isso, o indivíduo, enquanto trabalhador, sempre quer maximizar o valor da sua vida, trabalhando o menor número de horas possível ou vendendo esses pedaços do seu caminho no mundo pelo valor mais alto que puder (não é à toa que as principais bandeiras das lutas sindicais foram e continuam sendo a redução da jornada e o aumento de salários). A veracidade desse pressuposto é irretorquível, pois basta perguntar a qualquer trabalhador se ele desejaria trabalhar menos e ganhar mais.

E, em contraposição, o empregador, que legitimamente objetiva maximizar seu lucro, sabe que uma das formas básicas para aumentar sua rentabilidade é comprar mais tempo de vida do trabalhador pelo menor preço possível. E, assim, na mesma linha, basta perguntar a qualquer empregador se gostaria que seus empregados trabalhassem mais tempo por salários menores.
Há, pois, um antagonismo atávico na relação de trabalho, uma tensão dialética intrínseca, um choque de interesses inultrapassável na relação de trabalho, ainda que, repito, patrões e empregados também possam ter interesses comuns, como o sucesso da empresa.
O papel do Direito do Trabalho, é claro, sempre foi o de “normalizar” essa tensão dialética intrínseca, de legitimar e regular, dentro de certos limites, a compra, pelo empregador, do tempo de vida do empregado. Ao fazê-lo, o Direito do Trabalho está conferindo legitimidade ao próprio sistema capitalista de comércio de mão de obra. Nossos liberais frequentemente esquecem deste papel profundamente conservador do Direito do Trabalho, e não se dão conta de que ele foi inventado por capitalistas, para os capitalistas. Como diz o professor Márcio Túlio Viana, “o Direito do Trabalho é um filho do capitalismo; um filho rebelde, mas filho legítimo”.

Pode-se argumentar que certos empregadores visionários não agem assim na lógica do conflito e que pagam espontaneamente salários maiores, mesmo na ausência de demandas sindicais. É claro que isso pode ocorrer, porém certamente não será por mero altruísmo, como ato de parceria ou solidariedade aos “colaboradores”, mas sim como uma medida de autointeresse, visando ganhos de produtividade. E que, de uma forma ou outra, cobrará o seu justo preço aos trabalhadores. É curioso como alguns empregadores jactam-se de conceder sponte propria alguns benefícios aos seus empregados, como se ingenuamente desconhecessem que, de uma forma ou outra, isso é feito para o seu próprio proveito.
Basta recorrermos ao famoso caso de Henry Ford.
É sabido que o ilustre empresário americano, que deu origem à moderna “linha de produção em série” (emprestando seu nome ao sistema “fordista”), por iniciativa própria e sem pressão sindical, adotou, em 1914, uma política trabalhista que chocou os Estados Unidos e o mundo: mais que dobrou os salários de seus empregados de 2,38 para 5,00 dólares a hora (muito além do valor de mercado) e limitou a jornada de trabalho, reduzindo-a de nove para oito horas.

Criou-se a lenda de que esse seria um exemplo perfeito de comunhão de interesses entre empregador e empregados, pois Ford teria melhorado a condição de seus trabalhadores com objetivo de permitir que eles pudessem adquirir o carro que produziam com suas próprias mãos, aumentando ainda mais o mercado consumidor, os seus lucros e o valor da empresa. Mas isso não passa de mero folclore (estimulado pelo próprio Ford) sem base real alguma, muito distante da história verdadeira.

É fato que com o salário de 5 dólares a hora empregados de ‘chão de fábrica’ das indústrias Ford conseguiriam juntar dinheiro para comprar um automóvel em quatro ou cinco meses (se não tivessem nenhuma outra despesa, é claro…). Mas mesmo antes do aumento eles já poderiam fazê-lo, só que no dobro do tempo. No entanto, a falsidade da história decorre do fato de que se todos os 14.000 empregados de Ford em 1914 o fizessem, ainda que ao mesmo tempo (o que não teria como ocorrer anualmente, é claro, especialmente porque os carros então duravam muito na mão do consumidor), isso teria um feito imperceptível no lucro da empresa, que produzia na época cerca de 200.000 mil automóveis ao ano.

E, além disto, vários estudos nos EUA já demonstraram que, na ponta do lápis, o custo de dobrar o salário não compensaria nem de longe os potenciais lucros com aumento marginal da venda de automóveis para os próprios empregados. Na realidade, se o aumento salarial dependesse, como investimento, apenas do aumento de vendas aos trabalhadores da Ford, haveria prejuízo – e imenso.

A verdade é que Ford aumentou salários e limitou a jornada pura e simplesmente para reduzir a altíssima rotatividade de mão de obra da nascente indústria automobilística, que estava comprometendo gravemente a sua produtividade. Como demonstrado na caricatura magistral de Charles Chaplin em Tempo Modernos, a rotina em uma linha de produção fordista era massacrante e pouquíssimos trabalhadores aguentavam mais de doze meses no emprego, optando em trocá-lo por outras ocupações com salário semelhante e tarefas menos desgastantes.

Para se ter uma ideia do altíssimo giro de mão de obra naquele setor, embora precisasse de 14.000 empregados para rodar a fábrica, Ford contratava anualmente cerca de 50.000 trabalhadores! Isso importava em custos tremendos para recrutar e treinar os empregados. Além disto, as linhas de produção frequentemente eram interrompidas por falta de empregados especializados.

A taxa de absenteísmo também era alta, cerca de 10% dos empregados faltavam todo dia ao trabalho, ao ponto de ser necessário um “banco de reservas” permanente de cerca de 1500 trabalhadores, pois se um empregado não aparecia, toda a linha de montagem era prejudicada. Ford não conseguia produzir mais carros por carência de trabalhadores e estava com capacidade ociosa. Esse era o grande drama do icônico capitão de indústria de Michigan.

Então ele encontrou a solução: aumentar salários e diminuir a jornada. Mas isso, evidentemente, tinha um “preço” a ser cobrado dos próprios trabalhadores: maior controle e mais subordinação. Na verdade, o aumento salarial (mais da metade da remuneração, portanto) vinha em forma de um bônus. O empregado só receberia essa bonificação se cumprisse uma cartilha quase militar que a direção da empresa lhe impunha e que incluía, até mesmo, uma completa invasão à sua privacidade.
Ford criou uma “Organização de Socialização”, cujos membros (em geral assistentes sociais) visitavam a casa dos empregados, para ver se ela estava asseada, se os trabalhadores não estavam se entregando ao jogo e à bebida, e se eles estavam seguindo, em suma, o “american way of life”.
As ordens incluíam até mesmo a obrigatoriedade para os trabalhadores imigrantes (um contingente enorme na época) de aprender o inglês. Alguns tinham que frequentar aulas de “americanização”.

E os planos de Ford deram certo, pois no ano seguinte ao aumento salarial, os ganhos de produtividade ficaram evidentes: nas mesmas instalações industriais foram produzidos 20% a mais de automóveis. E a taxa de rotatividade de mão de obra despencou. Todo mundo queria trabalhar para Ford. Os trabalhadores viram sua condição melhorar, mas ao custo de maior intrusão e controle em sua vida pessoal. Isto é, mais subordinação.

Henry Ford era um tremendo gênio e sabia que disciplina, sujeição e ordem eram indispensáveis no mundo do trabalho organizado. Acredito que ele acharia bastante ridícula a ideia de definir como “colaboração” o que os seus trabalhadores faziam na sua empresa. Pois, como dizem muito bem os próprios norte-americanos, “não existe almoço grátis”, nem mesmo no contrato de trabalho com direito a vale-refeição.

No Bem Blogado
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Sobre a vida, sobre nós


Essa foto me tocou como se fossem dois raios. Um, pela maldade. Quem poderia pichar um retrato assim, de alguém que passou a vida – e por isso foi morta – lutando contra o terror? O terror que mira no pobre, no preto, no caído. Atingida no peito, verti lágrimas, que caíram mansinhas, sustentadas num ódio são. Pensei que se tivesse sido alguém da ordem, desses que gosta de matar e torturar, tudo bem. Faz parte do show dele e está dentro do seu script odiar a mulher que estava fazendo uma devassa na Polícia Militar do Rio. Mas, e se não foi? E se a pessoa que manchou o retrato é uma dessas pessoas comuns que trabalham e vão à igreja rezar, ajoelhadas aos pés de um Jesus de amor? Como poderia? Como foi inoculada no ódio aos seus?

O ódio de classe é o motor do mundo. É com ele que aqueles que são oprimidos, roubados, massacrados, pisados, avançam e mudam o estado das coisas. O ódio aos vilões do amor, como dizia o grande poeta Cruz e Souza. E o ódio de classe é o ódio de quem é explorado pelo explorador, assim como o explorador odeia o pobre, aquele do qual visceralmente depende, afinal, só o que trabalha gera valor.

Mas, como odiar aqueles que são como a gente, que lutam com a gente, que buscam cuidar, proteger, garantir a justiça? Que estranho vírus é esse que toma o empobrecido e o faz voltar-se contra os seus, os companheiros de classe? Pois seja esse "vírus" o que for, há que combatê-lo até o último suspiro. Os que trabalhamos e vendemos nossa força de trabalho – tudo o que temos – precisamos andar juntos, sonhar juntos, lutar juntos. Só assim garantimos a vida plena.

O outro raio que me pegou foi o da força, essa que move a luta de classe. Em volta da pintura vandalizada, mulheres negras, abraçadas, em pé, cabeça erguida, pernas retesadas. Protegendo a memória de Marielle, uma mulher que lutou até o dia do seu último suspiro, garantido à bala pelo ódio do opressor. As garotas protegendo Marielle e protegendo-se. Uma posição de batalha. Porque cada uma delas ali sabe muito bem quem são os inimigos, e onde estão. Seus inimigos são os inimigos de todos nós, da classe trabalhadora. Na foto não vemos os rostos da mulheres, mas podemos intuí-los e haverão de estar impregnados do ódio, o ódio são, o que é necessário. Aquele que impele à resistência, ao combate. Porque enquanto houver um mundo em que para que um viva outro tenha de morrer, não teremos tempo para a paz.

Marielle foi assassinada. Outras tantas serão. Mas, como uma incontrolável onda, outras mais virão. Assim, agarradas, retesadas, cabeça erguida e com ódio, muito ódio, contra os vilões do amor.

Elaine Tavares
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Villas Bôas e Bolsonaro: o motim se alastra e chega ao Planalto


A reveladora entrevista à Folha do general Eduardo Villas Bôas traz conclusões de que muitos já adivinhavam mas que são surpreendentes quando afinal vêm à tona em toda a sua realidade. Surpreende a falta de continência (com trocadilho) com que o representante maior das Forças Armadas assume sem pudores o gesto de intervenção militar nas decisões da Justiça.

Da voz do próprio comandante vem a público agora, meses depois, o péssimo exemplo dado aos seus iguais e subordinados. Ao pressionar explicitamente o Supremo Tribunal Federal em abril deste ano via twitter para não libertar Lula e assumir que calculou intervir, Villas Bôas descumpriu o decreto 4.346, de 2002, que proíbe aos militares brasileiros envolver-se em assuntos políticos. De quebra, o general descumpriu também o próprio Regulamento Disciplinar do Exército que classifica manifestação política como transgressão disciplinar.

Se não é para cumprir as regras que o próprio Exercito cria internamente e nem também as que o país determina democraticamente, o que então faz um comandante de Exército? Será que já vivemos um regime de exceção, estamos de volta ao pesadelo da ditadura de 1964? Os militares já controlam de novo os poderes da República? Como era de se esperar, o STF, em tese responsável pela defesa da legalidade, calou-se, submisso. Um general ameaça o poder democrático e nenhum poder o reprime.

O país está diante de uma situação de aberta ilegalidade, incompatível com a democracia. Há uma força militar que já não presta mais contas a ninguém. Criou-se um poder que pode tudo, sem rédeas, sem respaldo na Constituição. Os militares precisam se dar mais respeito. Suas aventuras por trilhas no passado que se julgava hoje superado custaram sérios prejuízos ao país, metido então em problemas de toda ordem que a historiografia registra. Agora o comandante do Exército lança enorme interrogação sobre a pureza das decisões do STF, que votou sob pressão e decidiu afastar a possibilidade do candidato mais bem colocado nas pesquisas, o ex-presidente Lula, disputar a eleições. A eleição vista assim assume aspectos de fraude.

Tão preocupante quanto a prensa militar sobre as instituições da República são as circunstâncias que a cercam. Seu exame revela toda uma cadeia tensa de situações e eventos nas disputas de poder e de espaços internos às Forças Armadas, em particular ao Exército, e que a politização extrema criada pela eleição de Jair Bolsonaro agravou ao ponto do descontrole. Deste quadro, em muito submerso, aparecem apenas alguns sinais que se podem associar em busca de certos contornos.

Emerge que, nas declarações à Folha, o general Villas Bôas quis transmitir uma força e um controle de que já não dispõe. Expressou a opinião de uma corporação vergada pela ameaça da presença de Bolsonaro e de seus adeptos internos. Fez questão de delimitar espaços. Quis fazer crer que Bolsonaro há muito tempo não pertence mais e continua não fazendo parte dessa coletividade, o Exército. Será verdade? Por que fez questão de demarcar essa distância?

Agora, o general Villas Bôas diz ter se valido do famigerado twitter para impedir um golpe maior: a explosão de insatisfação dos militares que seria deflagrada com a libertação de Lula. Revela o que tenta esconder: o Exército encontra-se ao sabor de infiltrações – ou seriam agora unanimidades - bolsonarianas na tropa.

Há elementos vários em jogo, com implicações em diversos planos e vazamentos de influências para outras áreas das forças militares. Na louca escalada que acabou o conduzindo ao Planalto, Bolsonaro valeu-se de todos os métodos, inclusive a rebelião, instrumentos que acompanharam sua trajetória desde os tempos de caserna e que estiveram na origem de seu desligamento do Exército.

O que era uma inclinação inflamatória, indisciplinada e violenta do capitão Bolsonaro em seus tempos de caserna permaneceu após sua expulsão na forma da agitação "sindical", sempre insuflando a insatisfação com as condições de trabalho e soldo para o baixo escalão não apenas das forças armadas, mas também das forças policiais, especialmente das polícias militares.

Como diz Villas Bôas na entrevista, depois de ser forçado a sair do Exército, Bolsonaro "passou a gravitar em torno dos quartéis, explorando questões que diziam ao dia a dia dos militares". O que o comandante não diz é que quebras da hierarquia foram sempre incentivadas por Bolsonaro em episódios de intranquilidade que estão potencialmente presentes também agora e terão que precisam ser contidos, ou absorvidos no contexto de sua nova hegemonia, agora como chefe supremo das Forças Armadas.

Não há "risco" de politização dos quartéis, como diz Villas Bôas. Não há risco porque eles já estão inteiramente politizados. É ele mesmo quem diz.

Villas Bôas declara o seguinte sobre o episódio da pressão sobre o STF na decisão sobre o habeas corpus que poria Lula na disputa eleitoral (com enormes chances de vitória, sendo o preferido disparado do eleitor): "Sentimos que a coisa poderia fugir ao nosso controle" porque "militares da reserva e civis identificados conosco estavam se pronunciando de forma enfática". O quê? O general quer que o país acredite que ele estava preocupado com "militares da reserva e civis identificados conosco"?

O general já tinha então era perdido o controle não dos militares da reserva, mas dos da ativa e corria atrás de retomá-lo. Foi por essa razão que, sem mais, desencadeou-se o novo golpe de abril. A história se repete: o golpe agora via twitter, o twitter da rede, da rede não mais da legalidade, mas da rede da ilegalidade. Como disse o cientista politico Wanderley Guilherme do Santos, para evitar um golpe Villas Bôas deu um golpe.

A chegada de Bolsonaro ao Planalto com ajuda desses métodos coroa toda uma carreira de ataques à ordem legal, e de desrespeito à hierarquia em especial. A politização dos quartéis acompanhou toda a trajetória do capitão reformado, com foco as polícias militares. Sem se revelar, Bolsonaro esteve por trás do motim que paralisou as corporações policiais do Espírito Santo e do Rio Grande do Norte. A rebelião capixaba durou 21 dias em fevereiro do ano passado com um rastro de violência que deixou 215 mortes, uma onda de roubos sem controle e prejuízos incalculáveis.

Movimentos semelhantes e conectados chegaram a contagiar dois quartéis do Rio, provocando alarme antes de serem contidos. O estímulo de Bolsonaro foi detectado nas formas de desencadeamento e sustentação de todos esses movimentos.

Um olhar atento percebe que a intervenção e a militarização da segurança pública do Rio, de resultados ainda duvidosos para a segurança "externa", ou seja, a do cidadão, dirigiu-se também para restabelecer o comando da tropa, depois que todas as autoridades estaduais reconheceram alarmadas ter perdido o controle da situação e entregaram o problema ao governo federal.

Um aspecto não suficientemente destacado, porém, é que essa intervenção tinha dois lados e que o mais importante e oculto deles se volta para dentro das próprias forças policiais, na tentativa de garantir a cadeia de comando e restabelecer o respeito à hierarquia, terceirizada para um general do Exército. O processo foi agora atropelado pelo inesperado fator da eleição de Bolsonaro. O motim foi para o poder.

Ainda como consequência das rebeliões do Espirito Santo e Rio Grande do Norte, para tentar controlar o espalhamento de eventuais levantes parecidos que ameaçavam explodir em outros Estados, criaram-se grupos, inicialmente informais, para troca regular de informações entre áreas de inteligência das forças de segurança de diversos estados. A partir daí, a pedido dos próprios estados, surgiu uma coordenação nacional, agora em torno da Abin e do Gabinete de Segurança Institucional, a cargo do sombrio general Sergio Etchegoyen, e também ao ministério "Extraordinário" da Segurança Pública. Nada disso, porém, é capaz de anular o estímulo representado pelas anistias frequentemente concedidas pelo Congresso a policiais que se amotinam, dando aval político e tornando letra morta o Código Penal Militar.

Uma estrutura que antes incluía uma duvidosa e secreta tentativa de conter o espraiamento dos motins passa agora ao controle do chefe deles. Dessa posição ele terá condições ideais para garantir e até ampliar o regime especial de aposentadorias para militares e policiais, além dos chamados "excludentes de ilicitudes" e suas outras variações e ainda mais degeneradas da licença geral para matar os pobres que assume o Planalto em 1º de janeiro.

Mário Vítor Santos é jornalista. Foi ombudsman da Folha e do portal iG, secretário de Redação e diretor da Sucursal de Brasilia da Folha.
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De modo ilegal, Exército pressionou STF contra Lula

https://www.blogdokennedy.com.br/de-modo-ilegal-exercito-pressionou-stf-contra-lula/
Decreto de FHC veda manifestação política de militares

O comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, confessou que houve no último mês de abril uma ação coordenada da cúpula das Forças Armadas para pressionar o Supremo Tribunal Federal a manter preso o ex-presidente Lula.

Trata-se de ação ilegal, porque os militares foram proibidos pelo decreto 4.346, assinado no governo Fernando Henrique Cardoso, de se manifestar politicamente - o que inclui toda a cadeia de comando na ativa, inclusive o general. Villas Bôas fez tal confissão em entrevista ao jornalista Igor Gielow, da “Folha de S.Paulo”.

Na entrevista, Villas Bôas disse que atuou “no limite” ao usar o Twitter na véspera do julgamento de recurso de Lula no STF a tempo de ser lido no “Jornal Nacional”, o principal noticiário do país.

Ora, é uma interferência política que revela tutela indevida sobre a vida civil. Trata-se de uma ação que envergonha as instituições civis, sobretudo o Supremo, cujos ministros deveriam se manifestar a respeito.

Para piorar, Villas Bôas critica a Comissão da Verdade, endossando um pensamento que predomina na ativa em defesa de crimes cometidos pelo Estado brasileiro durante a ditadura militar de 1964.

O comandante do Exército tem a fama de ser o mais democrata das Forças Armadas. Imaginem se não fosse. É um pesadelo a confissão que deixa o Brasil em posição de destaque no campeonato das Repúblicas de Bananas. Nas democracias, militares não agem como Villas Bôas agiu.
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Declaração de deputado complica Bolsonaro na compra ilegal de dados


O deputado federal Laudívio Carvalho (DEM-MG), ao assumir para o UOL que comprou lista ilegal de celulares para maketing digital, envolvendo a empresa Quick Mobile, não só fez uma confissão de culpa, como acabou por complicar Jair Bolsonaro, que teve 17 indícios de erros em sua campanha. Dentre os indícios, estão os envios de Whatsapp com Fake News, aos quais a própria Quick Mobile estaria envolvida, incluindo a empresa AM4 de desenvolvimento de software e marketing digital.

No caso de Bolsonaro, há um forte agravante no impulsionamento de notícias falsas, em redes sociais e no Whatsapp, os pagamentos teriam sido realizados por empresas como a Havan, que teria investido mais de 12 milhões de reais, o que caracterizaria financiamento empresarial de campanha, portanto, crime eleitoral.

A confissão de Laudívio, utilizando a mesma empresa envolvida no caso Bolsonaro, traria uma pergunta importante: Qual seria a lógica, da mesma empresa que consegue lista ilegal de celulares para mensagens em Whatsapp e SMS para um candidato, fornecer outra lista “pura” e “santa” para Bolsonaro?

O caso deve ser examinado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), quanto aos 17 indícios de fraude, número que, talvez, não seja por acaso.

No A Postagem



TSE aponta 17 indícios de irregularidades nas contas de Bolsonaro

O Tribunal Superior Eleitoral encontrou 17 indícios de irregularidades nas contas apresentadas pela campanha de Jair Bolsonaro. No parecer da área técnica, entregue ao ministro Luis Roberto Barroso, informa-se que a AM4, maior fornecedora da campanha de Bolsonaro e responsável pelos disparos de mensagens muitas vezes falsas por whatsapp, não tinha autorização da Justiça Eleitoral para fazer arrecadação de doações pela internet, maior fonte de recursos da campanha do capitão reformado.

"Com isso, os técnicos pedem que o ministro-relator, Luís Roberto Barroso, dê prazo de três dias para que a equipe de Bolsonaro encaminhe documentos e esclarecimentos sobre os 17 itens levantados, além de outros seis temas em que apontam inconsistências", informa a reportagem de Letícia Casado e Ranier Bragon, publicada na Folha de S. Paulo. "Entre os problemas listados pela equipe de análise de prestação de contas está o descumprimento de prazos para informe à Justiça Eleitoral de receitas e gastos, inconsistências entre dados informados pela campanha e aqueles registrados em órgãos oficiais e recebimento de doações de fontes vedadas."

E agora: o que fará Barroso?
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Como o analfabetismo funcional influencia a relação com as redes sociais no Brasil

Redes sociais no Brasil são populares tanto entre não-alfabetizados quanto entre os chamados 'proficientes'
Três entre cada dez brasileiros têm limitação para ler, interpretar textos, identificar ironia e fazer operações matemáticas em situações da vida cotidiana - e, por isso, são considerados analfabetos funcionais.

Eles hoje representam praticamente 30% da população entre 15 e 64 anos, mas o grupo já foi bem maior: em 2001, chegou a 39%, de acordo o Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf).

O Inaf acompanha os níveis de analfabetismo no Brasil em uma série histórica desde 2001, mas, pela primeira vez neste ano, trouxe informações relacionadas ao contexto digital. Os dados relacionados ao uso de redes sociais foram divulgados nesta segunda-feira com exclusividade para a BBC News Brasil.

O instituto classifica os níveis de alfabetismo em cinco faixas: analfabeto (8%) e rudimentar (22%) (que formam o grupo dos analfabetos funcionais); e elementar (34%), intermediário (25%) e proficiente (12%) (que ficam na classificação de alfabetizados).

Para a pesquisa foram entrevistadas 2.002 pessoas entre 15 e 64 anos de idade, residentes em zonas urbanas e rurais de todas as regiões do país.

O grupo de analfabetos funcionais reúne os analfabetos absolutos, que assinam o nome com dificuldade, mas conseguem eventualmente ver preços de produtos, conferir troco, ligar para um número de telefone e identificar um ônibus pelo nome; e os rudimentares, que só leem o suficiente para localizar informações explícitas em um texto curto, sabem somar dezenas, mas não conseguem identificar qual operação matemática é necessária para resolver um problema, por exemplo.

De acordo com a pesquisa, entretanto, mesmo com suas dificuldades, os analfabetos funcionais são usuários frequentes das redes sociais. Entre eles, 86% usam WhatsApp, 72% são adeptos do Facebook e 31% têm conta no Instagram.

Assim, quando se comparar o índice de uso entre os dois grupos - alfabetizados e não-alfabetizados - a diferença não é tão grande. Entre os considerados proficientes, por exemplo, 89% usam o Facebook.

A falta de repertório dos analfabetos funcionais, contudo, faz com que o acesso a essas plataformas seja mais limitado. "Essas pessoas não vão tirar proveito das redes sociais para conseguir informações, garantir direitos, porque não conseguem discernir conteúdos. Teriam a mesma limitação com um jornal escrito, por exemplo; a diferença é que este elas não vão acessar", afirma a pesquisadora Ana Lima, responsável pela elaboração do indicador.

WhatsApp é a rede mais usada entre os analfabetos funcionais - 86% deles, segundo Inaf, acessam o aplicativo
Os dados da pesquisa corroboram o que a especialista diz: entre os analfabetos funcionais, 12% enviam mensagens escritas e escrevem comentários em publicações do Facebook, 14% leem mensagens escritas e 13% curtem publicações. Para efeito de comparação, entre os que têm nível de alfabetização proficiente, 44% enviam mensagens escritas, 43% escrevem comentários em publicações, 47% leem mensagens escritas e curtem publicações.

"Quem tem mais domínio do alfabetismo usa mais o Facebook, mas o que chama a atenção é a diferença pequena (de utilização entre analfabetos e não), principalmente se você pensar na limitação de um analfabeto funcional. O Facebook está cheio de textos, imagens, exige escrita, por isso revela uma potência desses suportes digitais como estimulador do avanço do alfabetismo", ela afirma.

Já no WhatsApp quase não há diferença de uso entre os grupos divididos por nível de alfabetização. Enquanto 92% dos analfabetos funcionais enviam mensagens escritas, o índice é de 99% entre os alfabetizados; 84% dos analfabetos funcionais compartilham textos que outros usuários enviaram, já 82% dos alfabetizados fazem isso.

Pollyana Ferrari, jornalista, pesquisadora de mídias digitais e professora da PUC-SP, diz que o brasileiro aderiu integralmente ao WhatsApp, até porque é uma plataforma gratuita que substituiu o SMS, que é cobrado pelas operadoras de telefonia celular.

"Todo mundo usa o WhatsApp, do médico ao entregador de pizza, do executivo à faxineira, mas ninguém foi treinado, e cada um usa e propaga da forma que consegue compreender."

Manipulação e mensagens falsas

Um dos reflexos do baixo nível de alfabetismo no contexto digital é que estas pessoas ficam mais vulneráveis à desinformação, especialmente memes, imagens manipuladas e usadas em contexto falso, segundo Christine Nyirjesy Bragale, vice-presidente de comunicação do The News Literacy Project.

"Obviamente elas têm uma capacidade limitada para checar através de pesquisa e leituras paralelas, e seu acesso a jornalismo impresso de qualidade é limitado", explica Christine, que está no Brasil a convite da Embaixada Americana para debater o tema nesta segunda em evento na sede do movimento Todos pela Educação, em São Paulo.

Para a especialista norte-americana, o primeiro passo é garantir que as pessoas, independentemente de seus níveis de leitura, compreendam que a desinformação pode vir por diferentes canais, incluindo imagens manipuladas e vídeo e se espalhar rapidamente.

"Só essa consciência já é um começo para combater a desinformação e diminuir a sua propagação."

Analfabetos funcionais estariam mais suscetíveis à desinformação e a golpes aplicados pela internet
Pollyana Ferrari acredita que o trabalho de conscientização só virá com o amadurecimento do uso das redes sociais, que ainda é recente no Brasil - tem 14 anos -, além de educação. Ela cita o caso de Portugal, que oferece aulas de letramento em mídias digitais nas escolas de educação básica desde os anos 90.

"A pessoa não vai deixar de ver um vídeo e compartilhar, o brasileiro acredita muito no grupo do WhatsApp da família, seja para o bem ou para o mal. As pessoas têm direito de ter um celular, pode ter mais risco de cair em golpes e receber vírus, mas vai aprender usando. Mas não há o que fazer, a responsabilidade é dos governos, das empresas, de treinar, formar, o trabalho é coletivo e de 'formiguinha'."

A professora lembra que, até pela dificuldade de interpretação de texto, as mensagens falsas se propagam mais por mensagens em áudio. "Muita gente acredita nas 'fakes news' porque não tem bagagem, não tem senso crítico, quando há uma escolaridade precária, a pessoa fica muito mais manipulável."

"Somos um país pobre, de baixa escolaridade, a gente saiu da TV aberta, mas houve um deslocamento para as redes sociais sem nenhuma capacidade de discernimento. Numa sociedade democrática com baixa escolaridade, a manipulação de informação é mais fácil de acontecer", explica Pollyana.

Analfabetismo no ensino superior

Os dados desta edição do Inaf mostram que, entre o grupo de 29% dos analfabetos funcionais, 4% estão no ensino superior, nível de ensino em que se pressupõe um aluno plenamente alfabetizado.

A pesquisadora Ana Lima reforça que a escolaridade é o fator determinante do nível do analfabetismo, mas, ao mesmo tempo, ela não garante o que é esperado.

João Batista Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto, afirma que prejuízo é 'gigantesco' para os que não são plenamente alfabetizados
"Para mexer no nível de proficiência precisamos de educação de qualidade. Uma educação que desloque o aluno de um nível mais coloquial para entender ironia, interpretação de texto, capacidade de distinguir fato de opinião. Isso é ir além de leitura mecânica, é saber ler nas entrelinhas", afirma.

A pesquisadora reforça que, para cursar o ensino superior, é óbvio imaginar que as pessoas deveriam estar plenamente alfabetizadas para conseguir discutir, fazer análise, participar e debater. "Sem isso não é possível se formar."

João Batista Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto, diz que o cenário é desolador principalmente porque "melhorias não estão no radar." "O prejuízo é gigantesco, porque compromete a produtividade da economia e as chances de a educação contribuir para a melhoria de vida das pessoas. Para as pessoas situadas entre os analfabetos funcionais, a perspectiva de vida é muito limitada. O Brasil optou pela quantidade, em detrimento da qualidade."

Vanessa Fajardo
No BBC
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O que revelam as eleições dos EUA sobre o conflito interno

As eleições dos EUA a meio-mandato foram interpretadas pelos grandes média em função da clivagem partidária Republicanos/Democratas. No entanto, prosseguindo a sua análise da evolução profunda do tecido social, Thierry Meyssan vê nelas o nítido recuo dos Puritanos face aos Luteranos e aos Católicos. O realinhamento político de Donald Trump está em vias de ser bem sucedido como, antes dele, foi o de Richard Nixon.

O Partido Republicano perdeu a Câmara dos Representantes, mas Donald Trump impôs as suas ideias.
Durante as eleições intercalares dos EUA, os eleitores foram chamados a pronunciar-se para renovar, em bloco, a totalidade de membros da Câmara dos Representantes federal e um terço dos membros do Senado federal. Além disso, a nível local, eles votaram para 36 Governadores, providos de muitas outras funções locais, e responderam a 55 referendos.

Estas eleições são consideradas muito menos mobilizadoras do que as presidenciais. Os politólogos dos EUA não se interessam muito pela taxa de participação, na medida em que é possível participar apenas em algumas dessas eleições agrupadas e não em outras.

Enquanto, desde o fim da Guerra Fria, a taxa de participação na eleição presidencial se situa entre 51 e 61% (com a excepção do voto para o segundo mandato de Bill Clinton, que não reuniu mais do que uma minoria de eleitores), a das eleições intercalares é da ordem de 36 a 41% ( à excepção da de 2018 que teria atingido 49%). Assim, do ponto de vista da participação cidadã, se as regras do jogo são democráticas, a prática não é o de forma nenhuma. Se houvesse um quórum [1], raros seriam os membros do Congresso a ser eleitos. Os Representantes e Senadores são habitualmente escolhidos apenas por menos de 20% da população.

Aqueles que analisam os resultados das eleições, tendo em vista prever as carreiras dos candidatos, salientam as clivagens partidárias. Desta vez, a Câmara dos Representantes será maioritariamente Democrata e o Senado de maioria Republicana. Esta contagem permite, por exemplo, antecipar a margem de manobra do Presidente em relação ao Congresso. No entanto, na minha opinião, não permite de nenhum modo compreender a evolução da sociedade norte-americana.

Durante a campanha presidencial de 2016, um ex-democrata, Donald Trump, apresentou-se à candidatura do Partido Republicano. Representava uma corrente política ausente da paisagem dos EUA desde a demissão de Richard Nixon: os “jacksonianos”. A priori, não tinha nenhuma chance de obter a investidura Republicana. Ora, ele eliminou, um por um, os seus 17 concorrentes, foi investido e ganhou a eleição face à preferida das sondagens, Hillary Clinton.

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Andrew Jackson, cuja efígie figura nas notas de 20 dólares, é o mais 
controverso dos Presidentes dos Estados Unidos.

Os “jacksonianos” (do nome do Presidente Andew Jackson, 1829-1837) são defensores da democracia popular e das liberdades individuais, tanto face ao poder político como ao económico. Pelo contrário, a ideologia então dominante, tanto no Partido Democrata como no Partido Republicano, era a dos Puritanos: ordem moral e imperialismo.

Durante esta campanha, eu havia observado que a subida de importância de Donald Trump marcava a ressurgência de um conflito fundamental: de um lado, os sucessores dos «Pais Peregrinos» (do original “Pilgrim Fathers”- ndT) (os Puritanos que fundaram as colónias britânicas das Américas), e do outro, os sucessores dos imigrantes que se bateram pela independência do país [2].

A primeira componente histórica dos Estados Unidos (os Puritanos) entendia criar colónias com um estilo de vida «puro» (no sentido calvinista do termo) e prosseguir a política externa da Inglaterra. A segunda (os Anglicanos, os Luteranos e os Católicos) fugia da miséria, de que era vítima na Europa, e esperava triunfar pelo resultado do seu trabalho.

Estes dois grupos tinham encontrado um consenso em torno da sua Constituição. Os grandes proprietários fundiários que elaboraram a lei fundamental explicaram, longamente, querer reproduzir o sistema político da monarquia inglesa, mas sem criar aristocracia [3]. Enquanto os segundos, que acrescentaram o Bill of Rights (as 10 primeiras Emendas da Constituição), queriam prosseguir o seu «sonho americano» sem correr o risco de serem esmagados por uma qualquer «Razão de Estado».

No decurso dos últimos anos, os partidos Democrata e Republicano evoluíram para se tornarem os porta-vozes do pensamento puritano, defendendo a Ordem Moral e o Imperialismo. Os Bush são descendentes directos dos «Pais Peregrinos». Barack Obama compôs o seu primeiro gabinete apoiando-se, maciçamente, em membros da Pilgrim’s Society (o clube transatlântico presidido pela Rainha Elizabeth II). Hillary Clinton foi apoiada a 73% por «Judaico-Cristãos» [4] etc. Pelo contrário, Donald Trump representava, sozinho, a outra componente da história política dos EUA. Ele conseguiu em alguns meses tomar o contrôlo do Partido Republicano e levá-lo, pelo menos na aparência, a tomar as suas convicções.

No momento actual, cerca de um terço dos Norte-americanos polarizou-se violentamente entre os pró e os anti-Trump, enquanto os outros dois terços, muito mais moderados, mantêm-se à distância. Muitos observadores consideram que o país está agora tão dividido como o esteve na década de 1850, precisamente antes da guerra civil, dita «guerra da secessão». Contrariamente ao mito, o conflito não opunha um Sul esclavagista a um Norte abolicionista, uma vez que ambos os campos praticavam a escravatura (escravidão-br).

Na realidade, tinha a ver com a política económica e opunha um Sul agrícola e católico a um Norte industrial e protestante. No decorrer desta guerra, os dois campos tentaram recrutar os escravos para os seus exércitos. O Norte conseguiu libertá-los rapidamente, enquanto o Sul esperou, para tal, pelo selar da sua aliança com Londres. Historiadores mostraram que, de um ponto de vista cultural, este conflito prolongava nos Estados Unidos a guerra civil inglesa, dita a «Grande Rebelião» (que opôs Lord Cromwell e Carlos I). No entanto, ao contrário da Inglaterra, onde os puritanos acabaram por perder, quem venceu nos EUA foram os seus descendentes .

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Os métodos de malandro de Richard Nixon fizeram, infelizmente, 
esquecer as suas realizações políticas.

Foi este conflito que ameaçou ressurgir sob Richard Nixon e que se espalha hoje em dia às claras. Não é, aliás, indiferente que o melhor historiador sobre este assunto [5] seja Kevin Phillips, o antigo estratega eleitoral que ajudou Nixon a conquistar a Casa Branca. Nixon reabilitou os eleitores do Sul, reconheceu a China Popular e pôs fim à guerra do Vietname (iniciada pelos Democratas). Ele entrou em conflito com o “establishment” de Washington que o forçou à demissão (escândalo do Watergate).

Pode-se, é claro, ler os resultados das eleições intercalares de 2018 segundo a clivagem Republicanos / Democratas e concluir por um ligeiro êxito do Partido Democrata. Mas deve-se, sobretudo, lê-los segundo a clivagem Luteranos / Calvinistas.

Neste caso, deve-se observar que não só o Presidente Trump participou intensivamente nesta campanha, como igualmente o seu antecessor Obama. O objectivo era, quer apoiar o realinhamento cultural operado por Donald Trump, quer ganhar a maioria do Congresso afim de o destituir, fosse sob que pretexto fosse. O resultado é claro: o “impeachment” é impossível e Donald Trump dispõe do apoio de uma maioria de Governadores tornando a sua reeleição possível.

Os novos eleitos Democratas são jovens, partidários de Bernie Sanders, muito hostis ao “establisment” do seu Partido, nomeadamente a Hillary Clinton. Mas, acima de tudo, entre os candidatos Republicanos, TODOS aqueles que o Presidente Trump foi apoiar no terreno foram eleitos. Aqueles que recusaram a sua ajuda foram batidos.

Os perdedores destas eleições — no primeiro nível dos quais estão a imprensa e Barack Obama — não falharam porque são Republicanos ou Democratas, mas, sim porque são Puritanos. Contrariamente aos comentários dos média (mídia-br) dominantes, deve-se constatar que os Estados Unidos já não estão em vias de se auto-destruir, mas, antes de se reformar. Se esse processo continuar, os média terão que abandonar a sua retórica de ordem moral, e o país deverá regressar duradouramente a uma política de hegemonia, mas não mais imperialista. Em última análise, os Estados Unidos poderão recuperar o seu consenso constitucional.

[1] O quorum é o número mínimo de participantes exigido para que uma eleição seja válida. Aqueles países que têm um, para as eleições por sufrágio universal, fixam-no geralmente pela metade do universo eleitoral.

[2] “Os Estados Unidos vão reformar-se, ou dilacerar-se?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Outubro de 2016.

[3] How Democratic Is the American Constitution ?, Robert A. Dahl, Yale University Press, 2002.

[4] Por «judaico-cristãos», entendo as pessoas que baseiam a sua vida, ao mesmo tempo, na fé das escrituras judaicas (Antigo Testamento) e nas escrituras cristãs (Novo Testamento) sem levar em conta as contradições existentes entre elas.

[5] The Cousins’ Wars, Kevin Philipps, Basic Books, 1999

Thierry Meyssan, Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump. Outra obras : L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación (Monte Ávila Editores, 2008).
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Quem é a deputada, latina e socialista, mais jovem da história dos EUA?

Dez meses depois de deixar seu emprego como garçonete em um restaurante mexicano, a socialista Alexandria Ocasio-Cortez se tornou a congressista mais jovem da história dos EUA


Nas eleições de meio de mandato norte-americanas, realizadas no dia 6 de novembro, os bairros do Queens e do Bronx, na cidade de Nova York, escolheram uma mulher latina de 28 anos, socialista e filha de porto-riquenha para representá-los na Congresso. Dez meses depois de deixar seu emprego como garçonete em um restaurante mexicano, Alexandria Ocasio-Cortez derrotou o republicano Anthony Pappas com 78% dos votos e se tornou a mais jovem congressista da história dos EUA.

Formada em economia e relações Internacionais pela Universidade de Boston, Cortez surpreendeu durante as primárias do partido Democrata ao derrotar o experiente congressista Joe Crowley e iniciar uma campanha vitoriosa para o Congresso, onde, a partir de 2019, irá representar o 14º distrito de Nova York.

Filha de mãe porto-riquenha e pai nova-iorquino, Ocasio-Cortez já havia trabalhado como voluntária na campanha presidencial de Barack Obama, em 2008. No ano seguinte, ainda caloura do curso de bioquímica - o qual abandonou depois de um semestre -, trabalhou no gabinete do então senador democrata por Massachusetts Ted Kennedy (1932-2009).

Em 2016, a então ativista se engajou de vez na atividade política quando ajudou a organizar a campanha do democrata socialista Bernie Sanders para as primárias do partido Democrata, durante quais ele disputou com Hillary Clinton a vaga para concorrer à presidência.

De salão de beleza a comitê de campanha

Em um local que costumava ser um salão de beleza, Ocasio-Cortez organizou o comitê de campanha de Sanders no Bronx. Rapidamente, o lugar se tornou um centro ativo de discussão política. Membros de grupos como o Black Lives Matter, líderes comunitários, sindicalistas de diversas categorias, ambientalistas, feministas, ativistas LGBTs e socialistas democratas passaram a se reunir no comitê montado por Ocasio-Cortez.

Clinton saiu vitoriosa nas primárias dos democratas, mas acabou perdendo as eleições para o atual presidente dos EUA, Donald Trump. A movimentação de base do partido Democrata, porém, ficou, cresceu e prosperou em 2018, quando ocorreram as midterms.

Poucos recursos, diálogo e base

Seguindo o exemplo da campanha de poucos recursos, baseada em diálogo e movimentação de base, apoiadores de Sanders criaram o Brand New Congress, algo como "Congresso Novo em Folha" em inglês, um movimento que adotou esses princípios como estratégia fundamental para lançar candidatos ao Congresso nas eleições de 2018.

Ocasio-Cortez surgiu dentro do movimento como um dos nomes para disputar um assento na Câmara dos Representantes. Ela começou a receber apoio técnico para iniciar sua campanha nas primárias.

À ´época, ela já havia voltado a morar no Bronx e trabalhava em empregos temporários como garçonete e balconista - ocupações que evitavam que ela se afastasse da família: a mãe, Blanca, passava por dificuldades financeiras e trabalhava como faxineira depois da morte do marido.

Com ajuda do Brand New Congress, Ocasio-Cortez deixou de servir mesas em um restaurante mexicano de Nova York e foi fazer campanha - agora, para si própria.

Primárias: campanha na rua

Na disputa pela vaga dentro do partido Democrata, a jovem ativista enfrentou o experiente deputado Joseph Crowley, que vinha de reeleições sucessivas. A campanha modesta de Ocasio-Cortez, sustentada por pequenas doações e forte atividade de base, parecia não representar uma ameaça para o tradicional candidato.

Ocasio-Cortez, então, foi para a rua. A campanha foi marcada por diversas ações diretas para angariar votos, como abordagens em praça pública, parques, estações de metrô, envio de mensagens de texto, telefonemas e, até mesmo, batendo de porta em porta. Voluntários ajudavam a candidata na campanha na rua. Por sua vez, Crowley fazia o que havia garantido sua vitória nos anos anteriores naquele distrito tradicionalmente democrata: apostou em reuniões formais e pouca atividade de base.

Além disso, Ocasio-Cortez recebeu apoio de movimentos que espontaneamente deram suporte à candidatura. À revista New Yorker, Virginia Ramos, uma das coordenadoras da campanha, disse que organizações como Bronx Progressive, Queens Neighborhoods United, Black Lives Matter e, principalmente, os Socialistas Democráticos da América “abriram caminho para a vitória”.

Ocasio-Cortez venceu Crowley com 57,13% dos votos e se credenciou para disputar a eleição geral.

Midterms

O sucesso de Cortez nas primárias confirmou o potencial da candidata democrata perante o rival republicano que enfrentou nas midterms. Anthony Pappas, um professor de economia de 72 anos, filiado ao partido Republicano, baseou sua campanha em um discurso conservador sobre “imunidade judicial”, repetindo que “ninguém está acima da lei” e que estaria em “uma missão”, em uma campanha baseada em postagens simples no Facebook.

Com 78% dos votos, Cortez saiu vitoriosa das eleições de meio de mandato e deu continuidade à hegemonia democrata no 14º distrito de Nova York.

Após eleita, em entrevista ao New York Times, Ocasio-Cortez disse que teme não conseguir bancar um apartamento em Washington e que talvez terá que esperar pelo primeiro salário para se mudar para capital. "Eu tenho três meses sem salário antes de me tornar membro do Congresso. Então, como posso arrumar um apartamento? Essas pequenas coisas são muito reais."

Lucas Estanislau
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A cobertura acrítica e boçal da mídia da demagogia barata do sujeito


Jair Bolsonaro se beneficiará, por um tempo, da cobertura boçal e acrítica de seu cotidiano pela velha imprensa.

O UOL registra que o “presidente eleito foi a uma agência bancária pela terceira vez nos últimos quatro dias”.

Segue:

O político saiu de casa, na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio, com escolta da Polícia Federal, e dirigiu-se a uma agência do Banco do Brasil. O motivo do deslocamento não foi divulgado.

Bolsonaro tem ficado em casa a maior parte do tempo desde que teve alta, após semanas hospitalizado devido ao atentado a faca sofrido em 6 de setembro.

Mesmo na reta final da eleição, o político pouco saiu de sua residência e alegou preocupação com o seu quadro de saúde para não comparecer aos debates do segundo turno.

Na sexta-feira (9), mesmo sob forte chuva, Bolsonaro foi ao banco para sacar dinheiro. Ontem (11), o pesselista foi à mesma agência também para sacar dinheiro, sob pretexto de custear um churrasco de confraternização para os agentes que fazem a segurança.

Esse clássico jornalístico instantâneo concorre com duas matérias do Globo no mesmo teor.

Uma tratava do corte de cabelo que ele repetiu numa semana e outra do “pão à bolsonaro” que teria virado mania entre os cariocas (com leite condensado).

Bolsonaro está fazendo demagogia barata. É o marketing do homem do povo.

Ele é “gente como a gente”: come porcaria, corta o cabelo num barbeiro que cobra 28 reais, vai ao caixa automático, joga na Mega Sena.

Suas redes sociais estão repletas de fotos e vídeos com isso. Os otários acreditam, ou fingem acreditar, na “simplicidade” do “mito”.

JB acabou encontrando nessa mídia preguiçosa e acéfala uma aliada para compor esse retrato. Seve de legenda para a baboseira que ele fala.

As próximas “reportagens” da série: Bolsonaro vai à feira e Bolsonaro vai ao banheiro.

Talvez nem ele esperasse encontrar um terreno tão propício para prosperarem suas imbecilidades.


Kiko Nogueira
No DCM



Bolsonaro começa transição ofuscado por dois superministros, Guedes e Moro, que podem ser solução ou problema daqui a quatro anos – ou menos
“A pasta da Justiça, ainda mais turbinada, deve render a Moro protagonismo inédito para um ministro. Caberá a Bolsonaro, que já terceirizou a política econômica para Paulo Guedes, ter habilidade para não se tornar um coadjuvante do próprio mandato”.
Jornalista Carlos Marcelo, dos Diários Associados
Se você achou, a princípio, estranho um ex-capitão presidente tendo como vice um general quatro estrelas reformado – algo como ter o gerente de estoque promovido repentinamente a presidente da empresa e o ex-CEO rebaixado a seu carregador de malas -, olhe de novo para a extravagante Esplanada dos Ministérios que está se formando às vésperas da posse de Jair Bolsonaro. Mourão e os demais generais que habitarão o primeiro escalão, batendo continência para o ex-capitão, estão deixando os holofotes, e colocando em segundo plano a tese de uma crise militar, looping de hierarquia, etc, depois que Bolsonaro anunciou o tamanho dos poderes de Paulo Guedes e Sérgio Moro. A mídia cita, sem exagero, que são “superministros”, tamanhas as áreas acopladas a suas pastas. São, automaticamente, pré-candidatos presidenciais para 2022, o que pode gerar, com o tempo, um curto circuito com Bolsonaro – que, por enquanto, jura de pés juntos que não vai querer um segundo mandato. Ah, tá. Até lá – ou até antes, se Bolsonaro não repetir a sina de Fernando Collor -, eles terão que conviver, os três, inclusive Moro, que já anda dando recados sobre verbas, pedindo dinheiro de loterias, etc. Lula/Fernando Haddad, Ciro Gomes e até Luciano Huck e Joaquim Barbosa são outros possíveis pré-candidatos, mas suas chances dependem da turma pré-citada. Só para reflexão: Bolsonaro é seis anos mais novo que Paulo Guedes e Moro, 46 anos, dezessete a menos que o patrão.

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Silvio Santos fala com Bolsonaro durante o Teleton. “Sei que o Brasil precisa de um presidente que tenha vontade de acertar e o senhor, nas primeiras medidas que tomou, já começou acertando”, disse SS; General Mourão, a la Figueiredo, na capa de Época, a revista-encarte do Globo; Sérgio Moro na capa do Estadão; e Paulo Guedes, em matéria do mesmo Estadão.

Parte da mídia, a econômica em particular, já elegeu o “Posto Ipiranga” como grande fonte. Neste domingo ficamos sabendo que será ele a herdar o Ministério do Trabalho, a ser extinto, o que coloca a Secretaria de Políticas Públicas de Emprego nas suas mãos, podendo criar a tal carteira de trabalho verde e amarela (a minha segue sendo a azulzinha), que – “expressão da moda” – “flexibilizará os direitos trabalhistas“. Restarão aos contratados, em extinção, os direitos constitucionais, como férias remuneradas, 13º salário e FGTS. Além da carteira, a secretaria concentra programas como seguro-desemprego e abono salarial, e o Codefat (conselho do Fundo de Amparo ao Trabalhador), o que amplia a força de Guedes. Em 2018, o FAT teve previsão orçamentária de R$ 76,8 bilhões. Ah, Paulo Guedes deve ter Joaquim Levy -que está no Banco Mundial – no BNDES e Ivan Monteiro na Petrobras. Mansueto Almeida, atual secretário do Tesouro de Michel Temer, também deve estar no governo Bolsonaro.

Já Moro, ministro da Justiça e da Segurança Pública, terá poder de investigação do governo – será o chefe da Política Federal – e informação sobre crimes financeiros – dono do Coaf, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras. Continua fortíssimo, embora tenha perdido, na última hora, o Ministério da Transparência e a Controladoria-Geral da União, que tendem a virar tapumes para paisagens vazias. As Organizações Globo – O Globo e Jornal Nacional como carros-chefe – já elegeram Moro como seu darling e oferecem a ele um espaço tão desproporcional que constrange. É notícia todo santo dia, independente da taxa de umidade em Brasília.

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O Extra foi escalado para humanizar Bolsonaro e o faz da forma mais evidente e tosca possível. Capas das últimas edições do Extra: “A intimidade dos Bolsonaro”; “A Índia da Tribo de Bolsonaro”; “O pão de todo dia de Bolsonaro”; “A lingerie secreta da primeira-dama”; “A tenente do general (Mourão)”; “A dona do coração de Jair Bolsonaro”, etc.

Enquanto os jornalões do grupo fazem sua parte, o mais popular dos veículos impressos do grupo Globo, o Extra, foi escalado para um papelão diário. Um dos jornais mais lidos do país, tenta humanizar o chefe Bolsonaro. Só que de forma tão evidente, que beira o ridículo. Bom, leia você mesmo (e veja as imagens) com capas das últimas edições do Extra: “A intimidade dos Bolsonaro – Conheça a vida do presidente eleito em fotos e histórias pessoais”; “A Índia da Tribo de Bolsonaro”; “O pão de todo dia de Bolsonaro” (diz o Extra que o pão com leite condensado, preferido do presidente eleito, “está caindo na boca do povo”); “a lingerie secreta da primeira-dama”; “A tenente do general (Mourão)”; “A dona do coração de Jair Bolsonaro”, etc. Onde será que o Extra consegue material para tantos “furos” diários. Acho que Silvio Santos, o dono do SBT, terá que repensar as pautas de seu novo “Semana do Presidente”. O Extra está roubando todas as pautas.

Ricardo Miranda
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Neymar jogou o PSG num abismo

Football Leaks: perfil da dupla que ludibriou o Barça e quebrou o PSG

Filho e pai depois de depor à Justiça da Espanha
O site de esquerda francês mediapart.fr teve acesso a documento do “Football Leaks”, assim como os membros do EIC, European Investigative Collaborations, entre ele a revista alemã Der Spiegel, a portuguesa Expresso, L’Espresso da Itália, Reuters, e France 2 da França.

É uma espécie de WikiLeaks para o esporte.

O título da reportagem de Yann Philippin e Donatien Huet explica tudo: “Neymar jogou o PSG no abismo”.

Há uma descrição minuciosa dos termos da contratação mais cara da história do futebol: US $ 290 milhões!

Um bilhão de reais!

“Os documentos do Football Leaks revelam, sobretudo, como o clã Neymar mentiu ao Barça para tentar arrancar um bônus de US$ 48 milhões na véspera de assinar o contrato com o PSG, o que quase impede a negociação.”

“No PSG, o nome de código da operação era “Gold” (ouro). É a história do encontro de ambições misturadas de frustração do emir do Qatar, proprietário do PSG e detentor de recursos ilimitados; de um jogador brilhante, festeiro inveterado e negociante implacável, que só confia em sua turma."

”Os amigos de Neymar o seguem por toda parte - seu pai, um agente e medico e massagista próprios. O que deixou o PSG muito assustado com a possibilidade de empregar em Paris trabalhadores sem autorização legal."

“Verdadeiro ‘homem sanduíche” (ele faz publicidade para 30 empresas), Neymar não cedeu um centavo de participação ao PSG sobre a exploração comercial de sua imagem. Nem quando faz comerciais com a camisa do clube."

”O atacante vai custar ao PSG, incluídos os salários, US$ 600 milhões nos cinco anos de contrato, três vezes mais que orçamento anual do Olympique de Marselha... Neymar ganha duas vezes mais que seu colega e campeão do mundo Kylian Mbappé.”

“O PSG, delirante, acreditava que Neymar provocaria uma valorização significativa dos contratos de patrocinadores do clube: Nike e Emirates. Mas, as duas empresas rejeitaram de forma brutal as pretensões do clube.”

Ao longo de sete capítulos, a reportagem devastadora descreve os métodos desleais – para ser generoso - de Neymar pai e pilho; a ambição desmedida e irresponsável do Emir do Qatar, dono do clube; e como os dirigentes do Barcelona foram ludibriados.

No CAf
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Os macroeconomistas no centro da tragédia brasileira


Há dois vícios recorrentes marcando a gestão de política econômica no país.

O primeiro, a profunda incapacidade dos gestores em submeter a teoria à analise da realidade. Assim como na medicina, a economia fornece as ferramentas de diagnóstico e de tratamento. Mas não são fórmulas universais. Cada caso exige uma analise individual e um acompanhamento permanente da maneira como o organismo econômico está reagindo.

É uma fé cega nos manuais e uma incapacidade ampla de analisar a realidade. Parece ser um vício da formação brasileira nas ciências humanas, pois ocorre também no meio jurídico.

Os grandes juristas internacionais têm uma visão ampla sobre sociedade, psicologia social, relações internacionais, direitos humanos. Confesso minha total incapacidade de analisar os escritos jurídicos de Luís Roberto Barroso – tido como grande constitucionalista. Mas a visão rasa que ele tem o país, a sociedade, o mundo, as mudanças sociais econômicas é tão rasa que é impossível desse mingau ter saído qualquer manjar substancioso.

Como explicou o Nobel de Economia Paul Krugman em seu artigo no The New York Times, as crises de “paradas súbitas” que abateram diversas economias nas últimas décadas, tinham as seguintes características:
  1. Fuga dos investidores externos por alguma razão objetiva, ataques contra a moeda local, desequilíbrios no balanço de pagamentos, crises políticas.
  2. A saída provoca uma desvalorização na moeda.  Mas, por outro lado, uma explosão nas dívidas locais em moedas externas, travando a recuperação.
  3. A única saída dos países era aumentar substancialmente os juros para segurar os dólares. Mas comprometendo o nível de atividade.
Krugman não entendeu o que o Brasil fez.  A causa maior das paradas súbitas – o endividamento externo – não era expressivo, nem o balanço de pagamento entrou em crise. Por que, então, emular as estratégias de países com problemas externos?

A crise brasileira decorria de dois fatores:
  1. A queda nas cotações das principais commodities brasileiras.
  2. Um endividamento amplo de famílias e empresas, fruto do período anterior de expansão do crédito.
Por outro lado, havia problemas estruturais, mas não emergenciais, nas contas públicas, que deveriam ser resolvidos em prazos longos. A principal causa do aumento do déficit público era a queda da atividade. Por isso mesmo, qualquer estratégia teria que atacar o problema imediato – queda do nível de atividade – e acenar com soluções consistentes de longo prazo para as questões estruturais. Mesmo porque, quem acredita em milagres imediatos para a questão previdenciária é a imprensa, não os analistas sérios de mercado.

Para espanto de Krugman, o pacote Levy consistiu em um fortíssimo choque fiscal, com reajuste de tarifas e de câmbio e cortes expressivos nos investimentos públicos, aumento dos juros e travamento do crédito, o que acentuou a queda da economia.

O discurso de Levy era mágico. Fazendo o ajuste fiscal radical de bate-pronto – e o mercado acreditando – o primeiro sinal de recuperação seria a queda das taxas longas de juros. Quando isso acontecesse, imediatamente retornariam os investimentos privados, independentemente do nível da demanda.

É a maior jabuticaba plantada em terras tropicais. Se fizer um ajuste fiscal que comprometa radicalmente a demanda, ainda assim os empresários vão investir. E vender para quem? Para esse ente mágico chamado superávit fiscal

Com o choque fiscal, se acentuou a queda do nível de atividade – e, com ele, da arrecadação fiscal promovendo a maior recessão evitável da história.

Mais que isso, o impacto do choque tarifário e cambial produziu inflação de custos. Em uma quadra recessiva, esse impacto ecoaria nos meses seguintes, mas, na medida em que o tempo fosse passando, e esses meses saindo da contagem anual, a inflação se          diluiria naturalmente.

Nesse momento, no entanto, o Banco Central entrou em pânico. Não apenas aumentou as taxas de juros, como travou o crédito, visando derrubar ainda mais a atividade econômica, para segurar a inflação.

O resultado foi que Levy conseguiu com que a economia brasileira emulasse as grandes tragédias das “paradas súbitas”, sem necessidade, e sem ter a vulnerabilidade central: a crise no balanço de pagamentos. Ou seja, a menina que pegou gripe forte, e foi tratada como tísica, saiu do tratamento com o organismo tão debilitado quanto a outra, vítima de uma tuberculose.

Dos anos 90 para cá, atrás de cada tragédia brasileira havia um economista neófito e megalomaníaco se julgando portador da bala de prata.

O segundo vício da gestão econômica brasileira é a confusão entre o economista formulador e o gestor. Sobre isso falaremos amanhã.

Luís Nassif
No GGN
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Como lidar com um presidente de extrema-direita

Ilustração: Flora Próspero
Jornalistas da VICE de países que têm ou já tiveram presidentes toscos nos dão suas dicas de como lidar com essa situação já que o Bolsonaro ganhou a eleição.

Bom, já era. Quer você tenha se acostumado ou não, agora é isso, o Boca de Sacola é o presidente eleito no Brasil. Saque o que nossos colegas ao redor do mundo que lidam ou já lidaram com isso têm a nos dizer a respeito duma desgraçada dessas.

REINO UNIDO

Então vocês decidiram eleger um fascista. Não foram os primeiros – no Reino Unido decidimos rasgar o país em duas tribos opostas dois anos atrás, votando pelo Brexit, que era tipo um movimento político de “catástrofe na forma de esperança” que tem sementes enterradas bem fundo no discurso da direita. E parece que o resto do mundo encontrou sua própria força infernal conservadora. Lendo aqui e ali, seu caso... seu caso é muito ruim, mesmo em se tratando de fascismo. Tipo: ruim demais! Um negócio aterrorizante para a oitava maior força econômica do mundo!

Quanto a conselhos: bom, é difícil ser muito otimista agora, desculpe. As próximas duas semanas vão ser tipo um choque amorfo. Aí você vai notar as coisas mudando: encorajadas pela vitória nas urnas, as pessoas vão começar a gritar discursos de ódio passando de carro, vai ter mais incidentes de violência e assédio, e tudo toma uma forma sombria e quebradiça. Por outro lado você vai ver muito mais fascistas sendo convidados para bancar os especialistas em programas matinais e telejornais. Por mais tentador que seja fazer isso em nome de “ouvir os dois lados”, não dê voz pra essa gente!

Depois de um tempo, o estado do discurso público vai parecer aquela dor de dente repentina nas primeiras horas do dia em que você acorda com ela: quando você está na cama, chorando no travesseiro, parecer a maior agonia do mundo, né? Algo de que você não vai conseguir sair, algo que você nunca vai conseguir superar. Aí já são 14h e você não está exatamente confortável, mas está aguentando firme com a boca cheia de algodão e saliva. Agora percebi que essa não foi muito uma mensagem de esperança, exatamente. Mas ei: pelo menos vocês não estão sozinhos. – Joel Golby, redação da VICE Reino Unido.

EUA

Queria poder dar conselhos, mas a verdade é que os EUA teve muita sorte em se tratando de líderes da direita. Claro, Trump tem seus impulsos autoritários – veja as piadas dele sobre prender seus oponentes – mas como tudo mais nele, essas tendências são principalmente para se exibir. Ele é incompetente demais para consolidar o poder mesmo se quisesse, e as instituições construídas em mais de 200 anos de democracia nos EUA vão continuar aqui quando ele se for, mesmo se estiverem num estado pior. Digo isso sem querer minimizar nada do que Trump fez, mas ele é decididamente uma ameaça menos real do que líderes em países onde violência política generalizada, prisões em massa e um tobogã para a ditadura são uma possibilidade real.

Nos EUA, a mídia vem cobrindo Trump agressivamente e documentando toda a corrupção, incompetência e posições extremas que marcam sua administração. As pessoas lembram umas as outras que “isso não é normal”; um mantra contra aceitar o Trumpismo como o novo status quo – é muito fácil ser cínico e dar de ombros enquanto um líder extremista adota posições cada vez mais agressivas. A esquerda parece estar se reenergizando, e a oposição tem ser organizado usando uma série de ferramentas online para ajudar as pessoas a doar tempo e dinheiro estrategicamente. Tudo isso parece que vai valer a pena nas eleições de meio de mandato, onde os democratas devem retomar pelo menos uma parte do Congresso e colocar Trump em seu lugar. A única resposta possível é tentar interessar o maior número de pessoas no que está acontecendo com o país, fazer as pessoas votarem e participarem democraticamente para fazer uma minoria de extrema-direita recuar, por mais vocal que ela seja.

Pelo menos parece que é isso que está funcionando nos EUA – mas novamente, os EUA ainda são uma democracia estável onde votos contam. Em lugares onde líderes de direita não só sobem ao poder mas tentam mantê-lo através de fraude eleitoral, violência e ignorando a constituição... Não faço ideia do que poderia funcionar. Talvez a melhor coisa que você possa fazer é documentar o que está acontecendo, e esperar que o mundo preste atenção. – Harry Cheadle, editor sênior da VICE EUA



ALEMANHA

Os alemães não são as melhores pessoas para dar conselhos sobre isso, óbvio. Temos muita experiência com fascistas liderando nosso país, mas sabemos muito pouco sobre como se livrar deles. (O maior exército já formado na história da humanidade teve que vir aqui e fazer isso pra gente.)

Mas isso não significa que você não pode aprender com os erros dos alemães. A maior dica, acho, é: não espere até ser tarde demais, e não se canse em lutas internas mesquinhas. Se organize. Forje alianças, mesmo entre divisões ideológicas. Eduque as pessoas – especialmente os eleitores dele – sobre por que isso também vai ser ruim para eles. E acima de tudo: não desista. – Matern Boeselager, repórter da VICE Alemanha

RÔMENIA

Sim, sua situação parece bem ruim. E você – sim, você! – uma pessoa decente e não-fascista, provavelmente se sente cercada por um exército de extremistas sorridentes. Sabemos como é. A boa notícia é que vocês não estão sozinhos. A Romênia vem lidando com algo similar nos últimos dois anos. Aqui vai o que aprendemos:

Aumente sua indignação com protestos. Fique – não arrede o pé: somos um dos países mais corruptos e disfuncionais da Europa, tudo graças ao partido no poder, o PSD, e seu Líder Supremo, Liviu Dragnea. O governo dele fez um decreto que efetivamente legalizaria a corrupção, transformando a Romênia num paraíso para déspotas gananciosos. O plano desencadeou as maiores manifestações que a Romênia já viu literalmente desde a revolução 30 anos atrás.

*Quando falo “não arrede o pé”, não quero dizer literalmente. Lembre de se cuidar – tome um chocolate quente ou um drinque com o crush.

Pense fora da caixa: Dragnea não só é (supostamente) supercorrupto, ele também curte uma intolerância. Recentemente ele realizou um plebiscito que faria uma emenda na constituição para proibir o casamento gay. Para combater isso, os jovens boicotaram em massa o plebiscito, conseguindo derrubar a participação para menos de 30%, tornando o resultado inválido. Não estamos recomendando não votar, claro, mas que você tenha uma tática – procedural ou de outra natureza – para atolar esses escrotos. Mas seja lá o que fizer, não desista. Você está lendo isto na VICE.com, você já tem um papel na resistência – Mihnea Lazăr, repórter colaboradora da VICE Romênia

ITÁLIA

Confie em mim, estamos no mesmo barco aqui. Nosso vice-primeiro-ministro, Matteo Salvini – que também é Ministro do Interior e líder do partido de extrema-direita Lega – foi o primeiro líder europeu a parabenizar Bolsonaro.

Salvini pode não admitir ser tão extremo quanto Bolsonaro, mas os dois compartilham muitas ideias. Os dois partidos populistas liderando agora nosso país estão dando voz para algumas ideias pouco saudáveis e reacionárias. No momento, o foco deles é aprovar leis anti-imigração, e em nível local, os representantes do Lega estão fazendo campanha contra o aborto e o casamento gay. E segundo as pesquisas, os eleitores italianos não veem problema nisso.

Enquanto nossos partidos de esquerda estão sendo abandonados para morrer, movimentos de base estão em ascensão e finalmente encontraram suas vozes – desafiando o governo nas ruas, nos locais de trabalho e na internet. Você deve fazer o mesmo, mas não demore tanto quanto nós. Felizmente, tem gente tentando acabar com o racismo, a misoginia e a homofobia desse governo. Onde quer que você esteja, se comprometa a dar voz para esses esforços, e focar meticulosamente em todas as merdas – grandes ou pequenas – acontecendo, sem permitir que fascistas tenham passe livre para fazer propaganda. – Leonardo Bianchi, editor de notícias da VICE Itália

POLÔNIA

Pode não parecer agora, mas com cidadania ativa as coisas podem melhorar. Um ano atrás no Dia da Independência, cerca de 60 mil pessoas marcharam pelas ruas de Varsóvia para apoiar um evento organizado por grupos poloneses de nacionalismo extremo. Os participantes tinham cartazes dizendo “A Europa será branca ou será vazia”, enquanto palavras de ordem antissemitas e racistas enchiam o ar. Bônus: falando sobre o evento, nosso ministro do interior, Mariusz Błaszczak, disse que estava orgulhoso de que “tantos poloneses decidiram participar”.

Mas este ano, o presidente Andrzej Duda e o partido no poder se distanciaram do evento, graças a todas as manifestações antifascistas que aconteceram no país desde então. São em pequenas vitórias que você deve procurar esperança de um amanhã melhor, livre de ódio e preconceito.

Quando um estudante encontrou panfletos pró-fascismo na Universidade de Varsóvia ano passado, eles formaram um grupo chamado Comitê Estudantil Antifascista. O objetivo deles era coletar e registrar queixas sobre exemplos de retórica machista, homofóbica e fascista na universidade, bloquear atitudes fascistas e educar os colegas sobre os perigos do fascismo. Como esses caras, você precisa sair do seu caminho para provar que acredita num mundo livre e tolerante. – Pawel Mączewski, editor-chefe da VICE Polônia

FILIPINAS

Seu novo presidente é muito parecido com o nosso: Rodrigo Duterte e Jair Bolsonaro são misóginos, os dois polarizaram as pessoas, e nenhum deles têm respeito pelos direitos humanos.

Agora estamos no terceiro ano da presidência de Duterte e tenho que te avisar, só piora.

Discussões nas redes sociais e fake news vão se intensificar. As lealdades das pessoas – mesmo de parentes e amigos – vão te surpreender. E se ele manter suas promessas de campanha como o nosso presidente fez, muito sangue vai ser derramado e muitas vidas serão perdidas. Se prepare para os próximos anos e a montanha-russa emocional: você vai se decepcionar, ficar puto e com vergonha. Mas agora é hora de ser vigilante, corajoso e crítico. Fale – online e offline. Proteja a independência da mídia. Se mantenha firme na defesa da democracia. Não se acostume com o discurso de ódio, a crueldade e o desrespeito com a vida humana.

Lembre-se que toda as emoções que você sentir, preocupação, frustração, são porque você se importa muito com o Brasil e seu povo. Como nós aqui nas Filipinas. Vai ser exaustivo. Já ouvi muita gente dizer “Não leio mais o jornal porque é estressante” ou “Parei de ler os comentários no Facebook”. Isso é o pior que você pode fazer – parar de se importar. Emoções geram mudanças. Sinta, se importe e continue lutando. – Natashya Gutierrez, chefe de estratégia de conteúdo da VICE Ásia-Pacífico

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