12 de nov. de 2018

‘O arranjo institucional que caracterizava a Nova República acabou’

Foto: Lula Marques
O presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) já anunciou desde sua campanha que contará com a presença de integrantes das Forças Armadas em postos usualmente destinados a civis. Entre os 27 primeiros nomes da equipe de transição nomeados oficialmente, sete são militares: três da Aeronáutica, dois do Exército e dois bombeiros.

De acordo com a pesquisadora e professora assistente no Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po) Anaís Medeiros Passos, deslocar membros das Forças Armadas de sua função primordial, que é a defesa externa, para outras áreas, não é a solução ideal. “Colocar militares em áreas não-militares é um ‘tapa buraco’, porque não resolve a falta de preparo de burocratas civis para ocupar os ministérios. Se há corrupção, não temos solução mágica, porque os mesmos incentivos informais para atos de corrupção continuarão presentes.”

Anaís, que tem especialização na América Latina, segurança internacional e política comparada, também lamenta a continuidade de uma “novidade” institucional que teve início no governo Temer: o Ministério da Defesa ter como titular um militar. A pasta, criada em 1999 no governo Fernando Henrique Cardoso, é considerada peça-chave nos regimes republicanos para o exercício da autoridade civil e foi uma etapa importante no processo de redemocratização do país.

“O ministro da Defesa tem a função de atuar como um ‘diplomata’ na negociação entre as demandas dos militares e a política governamental. Portanto, continuar apontando militares como ministros da pasta gera um desequilíbrio nessa relação na medida em que o ministro torna-se um porta-voz unilateral das instituições militares. Não vejo como o país ganha com tal decisão”, questiona.

A pesquisadora ressalta que o processo de politização das Forças Armadas não é um consenso entre seus integrantes e o contexto atual é distinto daquele que resultou na instauração da ditadura em 1964. Como um processo movido de “baixo para cima”, em dado momento pode colocar em risco a noção hierárquica. “Se alguns generais se posicionam pela candidatura de Bolsonaro, o movimento é disperso, concentrado principalmente ao interior do Exército, o que implica em pouco controle da cúpula militar sobre a politização. Isso gera contradições que podem debilitar a hierarquia dos comandantes sobre as tropas, na medida em que esta se identifica claramente com um ‘semelhante’: Bolsonaro, o capitão reformado do Exército.”

“A identificação com militares de baixa patente é clara quando o candidato afirma que: ‘Nesse momento, eu não sou capitão e ele (Mourão) não é mais candidato: somos soldados deste Brasil’. Dissolvendo a hierarquia que separa um capitão, um general de um simples soldado, esse paralelo consolida igualmente a comunicação com a classe média brasileira, a partir de sua fusão em uma massa que estaria servindo a um fim maior, a defesa do que imaginam como a sua pátria.”

Confira abaixo a íntegra da entrevista concedida por e-mail.

No governo Temer, pela primeira vez houve um militar à frente do ministério da Defesa e Bolsonaro vai seguir nessa estratégia, inclusive reforçando as atribuições da pasta. Como você vê isso diante dos objetivos iniciais que nortearam a criação do ministério?

Colocar um militar na direção da pasta é um retrocesso em termos da consolidação do controle das autoridades civis sobre as Forças Armadas. Ou seja, a capacidade dos políticos e sociedade civil de limitar o comportamento autônomo daqueles que detêm as armas. Se as consequências de maior autonomia corporativa não são claras neste momento, ela torna mais difícil o estabelecimento de checks and balances sobre os militares – necessário em qualquer democracia avançada.

O Ministério da Defesa foi criado para centralizar as decisões sobre a política de defesa em uma só instituição. O ministro da Defesa tem a função de atuar como um “diplomata” na negociação entre as demandas dos militares e a política governamental. Portanto, continuar apontando militares como ministros da pasta gera um desequilíbrio nessa relação na medida em que o ministro torna-se um porta-voz unilateral das instituições militares. Não vejo como o país ganha com tal decisão.

Também no governo Temer a pasta do Gabinete da Segurança Institucional, que havia sido incorporada à Secretaria de Governo no segundo mandato de Dilma Rousseff, ganhou status de ministério e passou a ter mais relevância com Sergio Etchegoyen participando ativamente dos rumos da gestão. Agora, o nome anunciado primeiramente como ministro da Defesa, general Augusto Heleno, foi deslocado para o GSI. Como você avalia a importância que essa pasta tem adquirido?

O Gabinete da Segurança Institucional acumulou poder desde as administrações de FHC e Lula e historicamente, desde sua criação em 1999, foi presidido por um general. Claro que isso gera um problema de controle civil, porque a maior agência de inteligência do país, a Agência Brasileira de Inteligência, é subordinada a este gabinete e não tem contato direto com o presidente.

O GSI já tinha o status de ministério, perdeu em 2015 e agora retomou. A pasta tem uma função de assessorar o presidente e é um elo entre os ministérios. Esse órgão ganhou relevância com o agravamento da crise política no Brasil que culminou na renúncia (sic) de Dilma Rousseff, já que no país a diversidade de partidos faz com que o partido do presidente eleito tem menos votos que o necessário para ter a maioria no Congresso. O Gabinete tem ganhado relevância nessa negociação entre partidos que caracteriza o presidencialismo brasileiro, com um espaço de tomada de decisão imediata. Agora, vale lembrar que a equipe do GSI é diversa, e abrange não só militares, mas também diplomatas, engenheiros, burocratas civis etc.

Com a intervenção federal no Rio de Janeiro, entre outras iniciativas, Temer já havia trazido os militares de volta à cena política, e Bolsonaro anunciou que isso será aprofundado. As relações civis-militares ficam abaladas e ainda mais confusas no Brasil?

O envolvimento dos militares brasileiros com a política não é novidade. É verdade que, a nível discursivo, a candidatura de Jair Bolsonaro recorre à mesma argumentação que sustentou a intervenção de Forças Armadas na política entre 1930 e 1964: partindo de uma suposta superioridade moral adquirida por meio da socialização nas escolas militares, estes aparecem, simultaneamente, como imunes à corrupção e capazes de por fim instantaneamente a esta. O corrupto é visto como imoral e mesquinho, que deve ser “varrido do país”, em nome da defesa da pátria. Sua intervenção na política adquire, por consequência, um caráter de urgência.

O paralelo com este passado, entretanto, necessita ser matizado à luz de processos contemporâneos. O primeiro é o maior controle da hierarquia militar sobre o ensino dos oficiais de baixa patente, o que implica, visivelmente, o distanciamento destes soldados em relação a movimentos de esquerda. Por exemplo, não vimos soldados aderirem de maneira massiva a manifestações de 2013 contra as tarifas de transporte público; ou aliados ao PSOL. A segunda modificação é um certo receio de parte da hierarquia militar em se posicionar abertamente em relação ao processo político. Se por um lado o comandante do Exército, General Villas Boas, declarou-se às vésperas do julgamento do ex-presidente Lula estar “atento às suas missões institucionais”, em geral a cúpula militar tem se mantido com uma distância relativa do processo eleitoral. Por esses fatores, não vejo riscos de termos uma nova ditadura militar. O contexto político, a sociedade civil e as instituições militares não são as mesmas dos anos 1960.

A politização das Forças Armadas gira em torno de um candidato em específico e tem um movimento de baixo para cima. Ou seja, a partir de oficiais de média ou baixa patente. Se alguns generais se posicionam pela candidatura de Bolsonaro, o movimento é disperso, concentrado principalmente ao interior do Exército, o que implica em pouco controle da cúpula militar sobre a politização. Isso gera contradições que podem debilitar a hierarquia dos comandantes sobre as tropas, na medida em que esta se identifica claramente com um “semelhante”: Bolsonaro, o capitão reformado do Exército. A identificação com militares de baixa patente é clara quando o candidato afirma que: “Nesse momento, eu não sou capitão e ele (Mourão) não é mais candidato: somos soldados deste Brasil”. Dissolvendo a hierarquia que separa um capitão, um general de um simples soldado, esse paralelo consolida igualmente a comunicação com a classe média brasileira, a partir de sua fusão em uma massa que estaria servindo a um fim maior, a defesa do que imaginam como a sua pátria.

Quais os efeitos para a estrutura da administração pública federal de uma ingerência maior de militares?

Essa pergunta é complexa, até porque não temos a nomeação oficial dos ministros de Bolsonaro. Então, a minha resposta é prospectiva. Colocar militares em áreas não-militares é um “tapa buraco”, porque não resolve a falta de preparo de burocratas civis para ocupar os ministérios. Se há corrupção, não temos solução mágica, porque os mesmos incentivos informais para atos de corrupção continuarão presentes. Além disso, existe o risco latente de que os militares também se envolvam em esquemas de desvio de dinheiro público, como ocorria no Estado Novo. Então, pode mais uma vez diminuir o seu profissionalismo e grau de preparo na sua função principal, que é a defesa externa.

De uma forma geral, esse novo desenho com a nomeação de militares em áreas não relacionadas às atribuições das Forças Armadas significa um retrocesso no arranjo institucional feito durante o período da redemocratização?

O arranjo institucional que caracterizava a Nova República acabou. Isso se deve a uma série de fatores, incluindo uma maior fragmentação partidária e maior competitividade eleitoral. O PSL quebrou um padrão de pelo menos 16 anos, qual seja, a polarização entre PT e PSDB nas eleições presidenciais.

Além disso, vemos emergir uma nova direita que não tem vergonha de mostrar o seu conservadorismo, como o politólogo Timothy Powell notou. Os militares aparecem como uma força auxiliar do presidente nesse novo arranjo institucional, já que estão em última instância subordinados a ele. Mas, como falei, esse processo de politização dos militares não é isento de oposições entre os generais. Então, mais que retrocessos, eu diria que um novo ciclo político, e de disputas, está começando.

Glauco Faria
No RBA
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É a frustração masculina que decide os rumos políticos do Brasil hoje


No calendário das efemérides brasileiras, 28 de outubro será o Dia Nacional em que a extrema-direita saiu do armário. A eleição de Jair Bolsonaro (PSL) – e suas declarações misóginas, violentas e racistas – abriu caminho para um tipo muito característico: o homem branco e rico.

Racismo tão notável, aliás, que até reconhecimento do ex-líder da Klu Klux Klan, movimento de supremacia branca, Bolsonaro ganhou. Estudos e levantamentos apontam que, muitas vezes, homens de extrema-direita culpam as mulheres por seus problemas emocionais e sociais.Para o norte-americano Will Carless, jornalista especializado em cobertura de crimes de ódio e extremismo nos EUA do Reveal, The Center for Investigative Reporting, não é pra menos. “O que o Duke [ex-líder KKK] disse é que Bolsonaro se parece com ele por ser um racista que acredita na superioridade dos homens brancos. Isso diz muito sobre coisas que o Bolsonaro fala e faz”, afirmou em entrevista à VICE.

“Seja na Europa, nos Estados Unidos, ou no Brasil, a extrema-direita racista, autoritária, ou fascista, é predominantemente masculina” – Michael Löwy, sociólogo brasileiro

Provavelmente também diz muito sobre quem o apoia, já que o presidente eleito venceu em 85% dos municípios de maioria branca, foi o mais votado em 94% dos municípios mais ricos e tinha 55% da preferência masculina a três dias das eleições, segundo o Datafolha.

Estudos e levantamentos apontam que, muitas vezes, homens de extrema-direita culpam as mulheres por seus problemas emocionais e sociais.

Nada que surpreenda a quem estuda os movimentos extremistas à direita. Trata-se de um território predominante masculino, como confirma à VICE o sociólogo brasileiro e diretor do Centre National de la Recherche da França, Michael Löwy. “Em todos os países, seja na Europa, nos Estados Unidos, ou no Brasil, a extrema-direita racista, autoritária, ou fascista, é predominantemente masculina”, diz. Ou de um território da frustração masculina, como diz Carless, que hoje vive no Rio de Janeiro. “Muitos estudos complexos que investigam o neonazista identificam um problema grave entre ele e a figura da mulher. Essa conexão com a misoginia é muito sintomática neste ponto.”

Essa extrema-direita também aceitou o convite para encarar as minorias e movimentos opositores como inimigos que devem ser eliminados. Nas palavras do próprio Bolsonaro, em mais de uma ocasião, a mais recente em entrevista à TV Cidade Verde, no Piauí: “Tudo é coitadismo. Coitado do negro, coitado (sic) da mulher, coitado do gay, coitado do nordestino coitado do piauiense. Vamos acabar com isso.” Quase um convite à caça. Para Löwy, brasileiro radicado na França, trata-se de um discurso demagógico e fascista. “Sua demagogia fascista se dirigia sobretudo contra os movimentos sociais, a esquerda, o PT por um lado, e as minoriais sexuais por outro lado.”

“Muitos estudos complexos que investigam o neonazista identificam um problema grave entre ele e a figura da mulher” – Will Carless, jornalista especializado em crimes de ódio

Essa lógica de que aquele que não faz parte do meu grupo deve ser combatido, comum do neonazismo, se lê de forma concretizada no assassinato do mestre de capoeira Moa do Katendê, esfaqueado 12 vezes por um eleitor do Bolsonaro após uma discussão política, em Salvador, Bahia. E no assassinato de Charlione Lessa Albuquerque, morto a tiros em Pacajus, na Grande Fortaleza, também por um eleitor do Bolsonaro, durante uma carreata pró Fernando Haddad, candidato do PT, principal rival do candidato PSL nas eleições. Isso para se ater a apenas dois exemplos de ataques ocorridos no período eleitoral.

“Essa supremacia será mantida com os homens brancos e ricos no poder. É só olhar pro gabinete dele [Bolsonaro] que você tem a prova” – Will Carless

Se não é possível, por um lado, prever se essa onda da extrema-direita dará vida a grupos extremistas que defendem a supremacia branca e o nacionalismo branco como o caso da Ku Klux Klan nos Estados Unidos, para Carless, no entanto, essa supremacia branca será instituicionalizada por Bolsonaro. “Essa supremacia será mantida com os homens brancos e ricos no poder. É só olhar pro gabinete dele que você tem a prova”, disse à VICE em alusão ao gabinete de transição do presidente eleito que conta com 27 nomes, todos homens. E por outro lado, Michael Löwy relembra a perseguição aos comunistas na América Latina, inclusive no Brasil, como o Comando de Caça aos Comunistas, uma organização da extrema-direita que atuou na década de 60 no regime militar. “Não se pode excluir o aparecimento de bandos armados, milicianos, para-militares, ou fascistas, se dedicando à ‘caça aos comunistas’. Isto se deu em vários países da America Latina como Argentina, El Salvador, Colombia.”

Mas essa extrema-direita que mata, agride e flerta com a tendência autoritária em nome da honra, da família, da segurança e do combate à corrupção não é recente na história do Brasil. “Tendências autoritárias, de extrema-direita, intolerantes, sempre existiram na sociedade brasileira”, menciona Löwy. E já era observada nos anos 80 pelo sociólogo Antônio Flávio Pierucci, professor titular e chefe do Departamento de Sociologia da USP até seu falecimento em 2012. Para ele, o medo é um fio condutor daquilo que ele chamou de “a nova direita“ já em 1987 em um texto publicado na revista Novos Estudos. O temor ao qual ele se refere é dos migrantes, especialmente dos nordestinos, das mulheres liberadas, dos homossexuais, dos mendigos em cada esquina da metrópole e de tantos outros grupos sociais que transgridem o padrão no qual essa direita acredita. Para o sociólogo falecido “seu tique mais evidente é sentirem-se ameaçados pelos outros”. E como qualquer animal que se sente ameaçado, no estereótipo do macho alfa, se vê desestabilizado e se prepara para o ataque, mantendo ao seu lado somente aqueles iguais a ele, neste caso, o branco e rico.

Letícia Quatel
No Desacato
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“Excelentíssimos” traz o retrato do congresso nacional


“EXCELENTÍSSIMOS”, de Douglas Duarte, apresenta o processo de impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff e o dia a dia do poder legislativo no Congresso Nacional. Distribuído pela Vitrine Filmes, o longa será exibido no Festival de Cinema Brasília no próximo domingo, e estreia no circuito comercial dia 22 de novembro.

Segundo o diretor, o projeto do filme era fazer um retrato do Congresso, porém o rumo mudou no começo das filmagens. “Em setembro de 2015, meu plano não era retratar a democracia brasileira virando fumaça. No correr de alguns meses, me deparei com um Congresso dominado pela influência de Eduardo Cunha, o qual decidiu que era hora de encerrar o mandato de Dilma Rousseff. No lugar da ideia inicial – meio ingênuo e pitoresco, admito hoje – surgiu diante de nossas lentes e microfones um Congresso onde quem dava as cartas eram figuras desconhecidas do grande público e onde muito era decidido a portas fechadas, fora de nosso alcance. Ninguém falava de outra coisa que não o impeachment. Meu filme havia sido sequestrado junto com nossa democracia.”, explica Duarte.

“EXCELENTÍSSIMOS” evidencia a polarização política entre os partidos PT, PSDB e PMDB. O processo, que se inicia no fim das eleições de 2014 e dura até o afastamento da presidenta no dia 31 de agosto de 2016, marcou a história do Brasil. O filme mostra também imagens das manifestações populares contra o golpe, além de símbolos caricatos do decorrer dos trâmites políticos, como o “Pato da FIESP”, e personagens polêmicos, como Jair Bolsonaro, Eduardo Cunha e Marco Feliciano, além de deputados menos conhecidos, como Carlos Marun, Silvio Costa, Bruno Araújo, Carlos Sampaio, que tocaram o processo de impeachment. “Se antes registraríamos o cotidiano de gente poderosa, peculiar e pouco conhecida, agora cabia registrar esses personagens em ação durante a maior crise política desde o fim da Ditadura. Decidi então deixar os dois lados falarem. O filme não é neutro, mas, espero, tampouco é caricatural”, completa o diretor.

Assista o trailer:



EXCELENTÍSSIMOS é um registro a quente dos fatos, personagens e articulações por trás da maior crise política do país desde a redemocratização. Gravado dentro do Congresso ao longo dos meses em que corria o impeachment, o filme retrata quem, como e porque se derruba uma presidente.

Ficha Técnica

Direção: Douglas Duarte

Produção: Douglas Duarte e Julia Murat

Produtora: Esquina Filmes

Roteirista: Douglas Duarte

Trilha sonora: Ricardo Cutz e Douglas Duarte

Distribuidora: Vitrine Filmes

Tipo/Gênero: Documentário

Minutagem: 152 min

Classificação indicativa: Livre

Ano de produção: 2018

Sobre o Diretor

Douglas Duarte é cineasta, roteirista e produtor. Dirigiu os longas Personal Che (2007), Sete Visitas (2015) e Excelentíssimos (2018), além do média Os Sem-Lula (2012) e dezenas de programas para TV e novas mídias veiculados em canais como GNT, TV Brasil, NHK, BBC, entre outros. Produziu PERSONAL CHE e EXCELENTÍSSIMOS, além do longa Operações De Garantia Da Lei E Da Ordem (Julia Murat, 2017) e CHÃO (Camila Freitas, 2019). Foi também criador do Canal Tomada.Tv. Seu primeiro roteiro de ficção, A Pílula, foi selecionado para o Script Station da Berlinale.

No Desacato
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Relincha Brasil, a república dos burros

Merece atenção uma mensagem publicada pelo juiz Rubens Casara em seu twitter: “O empobrecimento subjetivo, que também leva à regressão do Eu, faz com que o brasileiro busque identificação com políticos, artistas, pastores, padres, comediantes e outras figuras públicas a partir daquilo que os une: a ignorância. Perdeu-se a vergonha de ser ignorante ou burro.”

Casara acertou na mosca: a onda obscurantista que varre o país pode ser comparada a uma espécie de epidemia galopante de burrice. Até há pouco tempo, era comum numa roda de amigos ouvir expressões do tipo “sou apolítico” ou “nada entendo de política, por isso não vou opinar” ou ainda a frase-síntese da alienação: “política, religião e futebol não se discutem.”

Se essa autoexclusão das pessoas do debate político revelava um preocupante déficit de consciência cidadã e participação democrática, hoje observamos um fenômeno inverso. Todos têm opinião pronta e acabada sobre política, mesmo que jamais tenham lido uma linha a respeito, mesmo sem terem visto um filme sequer capaz de lhes fazer saltar a veia crítica, mesmo que sistematicamente seus ouvidos estejam bloqueados para ideias e argumentos fora da mediocridade do senso comum.

É inescapável a constatação de que só um país profundamente ignorante e doente de ódio pode eleger um boçal do calibre de um Bolsonaro. E que fique claro: não me refiro à educação e cultura formais e eruditas. Lula, o melhor presidente da história do país, não tem curso superior, mas sempre demonstrou capacidade para discutir qualquer tema com os doutores que dão as cartas na política há mais de 500 anos. De Inteligência acima da média, Lula, além de um comunicador inigualável, tem sua genialidade política reconhecida até por adversários.

O meu ponto principal é o analfabetismo político que assola inclusive boa parte das classes média e alta, gente que teve acesso à universidade, mas segue iletrada e incapaz de deixar de raciocinar de forma simplista e binária. Não há como fazê-la entender que seu ódio aos pobres só alimenta uma sociedade vergonhosamente desigual e excludente, cujos índices de criminalidade crescentes se voltam contra a própria elite.

Enquanto os bem-nascidos se limitam a repetir os chavões e mantras reacionários do oligopólio da mídia, na parte de baixo da pirâmide os pastores charlatães, apresentadores de programas populares de televisão e o patrão antipetista até a raiz dos cabelos cuidam de fazer a cabeça do povão, naturalizando a violência contra pobres e negros. Pronto, está criado o terreno fértil onde vicejam levas e levas de políticos canalhas, que se elegem com o voto popular para depois colocarem seus mandatos a serviço dos ricos e do roubo dos direitos da maioria.

E neste oceano de estupidez muitos perderam qualquer constrangimento de expressar falta de conhecimentos básicos sobre o que estão falando ou escrevendo nas redes sociais. Babam contra a Lei Rouanet, mas se perguntados sobre o que ela significa emudecem; veem comunismo na própria sombra, mas desconhecem os fundamentos mais elementares dessa ideologia; confundem bandeira de partido com bandeira nacional; tacham a Venezuela de ditadura, mas ignoram que é o país da América Latina que mais realizou eleições na última década; esconjuram Cuba, mas não têm a menor noção dos avanços sociais extraordinários da ilha revolucionária. Ah, e o supra sumo da ignorância da história : eles estão convencidos de que o nazismo foi de esquerda.

Esse quadro ajuda a entender porque na campanha eleitoral os fake news bolsonaristas mais absurdos e grotescos influenciaram tantos eleitores. Afinal, só um completo imbecil pode dar crédito ao “kit gay” ou às mamadeiras simulando a genitália masculina.

Bepe Damasco
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Porta-voz da indisciplina


A entrevista do general Villas Bôas para o jornal Folha de S. Paulo é a confirmação de que o Exército brasileiro tornou-se um partido político, com alas e tendências. Até ela, o atual estágio de degeneração disciplinar, hierárquica e profissional tinha saltado aos olhos com as desastrosas intervenções do general Mourão. Na entrevista, o general Villas Bôas tenta posar de mediador, mas na verdade assume o papel de porta-voz da indisciplina na instituição militar.

Ao disparar seu twitter contra o STF no julgamento do ex-presidente Lula, o general Villas Bôas posicionou-se ao lado dos insubordinados, abrindo mão de seu papel institucional. E mais grave, quem promoveu a insubordinação e a indisciplina foram graduados generais de quatro estrelas. Ao agir assim, antes de coibir a ação dos insubordinados, o comandante que devia zelar pelo respeito à hierarquia nas tropas tornou-se o chefe da indisciplina.

Diferente do que imagina o general Villas Bôas, a principal instituição atingida pelo seu twitter não foi o STF, mas sim o próprio Exército. Nenhuma instituição resiste, principalmente militar, quando a indisciplina é patrocinada e avalizada pela sua cabeça, da forma como ocorreu nesse caso. A partir de agora, a isenção, a autoridade está definitivamente comprometida, desmoralizada para cobrar disciplina de quem quer que seja.

Ainda, ao reclamar das críticas “do pessoal de sempre”, o general Villas Bôas assume de uma vez por todas que tem lado no debate político nacional. Não tem outra leitura a se fazer a não ser aquela em que o general divide a sociedade brasileira em “nós e eles”, desmentindo sua postura de isenção. Aliás, a mesma postura que norteou a campanha do candidato do “partido do Exército” e, pelo visto, seguirá sendo a orientação do novo governo.

Na entrevista, o general Villas Bôas também se diz preocupado com o risco de politização dos quartéis na esteira da eleição, como se isso fosse novidade. Por tudo que fizeram, ou deixaram de fazer, o Exército já está partidarizado, no pior sentido, dividido em grupelhos que se manifestam a seu bel prazer. A campanha eleitoral deixou claro, não apenas o papel de algumas de suas lideranças, mas envolveu e mobilizou forças militares no país inteiro em seu favor.

O governo Bolsonaro é o governo do prêmio à indisciplina que, além dos fatos atuais, ainda traz a marca de seu capitão-presidente afastado do Exército por insubordinação. A tentativa do general Villas Bôas, portanto, de “salvar” a imagem do Exército diante de um antevisto desastre, pode ser louvada por alguns, mas é inócua. O Exército brasileiro foi levado à essa aventura irresponsável e, por conta disso, pagará um alto preço perante a história.

Fernando Rosa
No Senhor X
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Flávio Dino garante Escolas com Liberdade e Sem Censura no Maranhão; veja o decreto

Se há liberdade de expressão, o professor vai entrar na aula de português e vai falar sobre o Corinthians. No segundo grau todo mundo se forma a favor do MST e pensa que Carlos Marighella e Lamarca foram heróis que combateram um regime ditatorial. Bota uma camisa do Bolsonaro e tenta entrar na Faculdade de Direito de São Paulo. Já que na faculdade dele ele acha que tem liberdade, desafio ele colocar a camisa do Jair Bolsonaro e entrar sozinho lá.
Eduardo Bolsonaro, o “ideólogo” da família, em entrevista ao Estadão
Nesta terça-feira (13/11), a comissão especial da Câmara dos Deputados vai tentar aprovar na reunião que começa as 9h o projeto Escola Sem Partido (PL 7180/14), a chamada Lei da Mordaça.

A esmagadora maioria das entidades de trabalhadores e movimentos ligados à Educação, inclusive da rede privada, é majoritariamente contra.

O presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), e a sua futura base aliada são a favor da mordaça nos professores. Portanto, a pressão será grande.

Enquanto isso, o governador Flávio Dino (PCdoB/MA) dá uma lição de liberdade e democracia.

Ele editou nesta segunda-feira (12/11), nos termos do artigo 206 da Constituição Federal,  o decreto que garante Escolas com Liberdade e Sem Censura no Maranhão(veja abaixo)

No twitter, Flávio Dino alerta: ”Falar en ”Escola Sem Partido” tem servido para encobrir propósitos autoritários incompatíveis com a nossa Constituição e com uma educação digna”.


No Viomundo
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“História de Lutas”: Documentário dos trabalhadores do transporte público em Florianópolis e região. Emocionante!


Os trabalhadores e trabalhadoras do Sintraturb têm muitos motivos para se orgulhar. Fazem parte de uma categoria cuja história de lutas e vitórias, solidariedade e resistência, tornou-se exemplo para todo o Brasil.

Essa história precisava ser resgatada e organizada. Era necessário lembrar, pesquisar e contar como se construiu o que hoje têm, como se concretizaram seus sonhos. Houve que sair à busca das batalhas, dos atos heroicos, da solidariedade de classe, do amor pela causa, da certeza das vitórias.

Certos de que sem ter conhecimento do passado se torna mais difícil construir um futuro, decidiram narrar de várias formas, audiovisuais, itinerantes e bibliográficas essa história da qual têm justificado orgulho.

Os protagonistas principais deste documentário são eles. Com suas virtudes e defeitos, com seus triunfos e suas derrotas. Com a alegria e a responsabilidade de quem aceitou sem reticência todos os desafios. Com a humildade de quem falhou muitas vezes e a sobriedade de quem também soube acertar na defesa da sua categoria.

A inspiração que deu lugar a esta História de Lutas, que o leitor e a leitora vão assistir a seguir, veio dessa classe que soube enfrentar o sistema injusto e a opressão.

Compartilhe esse audiovisual produzido pela Cooperativa Comunicacional Sul.

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As travessuras do “meu garoto”: prender 100 mil sem-terra


Não se pode falar, agora, como na história de fechar o Supremo com “um cabo e um soldado”, em nova “travessura” do deputado Eduardo Bolsonaro,  filho do presidente eleito, quando declara ao Estadão que, com a caracterização como “terrorismo” dos movimentos sociais, não haveria problema algum em “prender 100 mil pessoas”.

Seu irmão, Flávio Bolsonaro, não desgruda do mentecapto eleito para o governo do Rio de Janeiro, inclusive nas tratativas com Israel para a aquisição de drones armados, para promover execuções aéreas de criminosos (ou supostos criminosos), como num videogame de adolescentes.

Ambos, é claro, operam com autorização do pai a quem, aliás, devem os votos que tiveram.

E sabem – os três – que não há a menor viabilidade política no que estão dizendo.

Cumprem o papel de manter “acesa a chama” da propaganda fascista da qual Jair tem, agora, conveniência em manter-se afastado, ao menos por enquanto.

Logo teremos mais disso, quando a bancada eleita pelo arranjo obtido com o aluguel do PSL começar a atuar na Câmara.

É bom que o Dr. Moro se prepare: terá de “entregar” muitos corruptos no campo da política se quiser sobreviver num governo que precisa, acima de tudo, ter uma “pauta moral” para sustentar o entreguismo desvairado e o corte de direitos sociais que praticará, certo que ao mesmo tempo que se proclama nacionalista e “popular”.

Vão construir o discurso de que “os políticos” e “a Justiça” não deixam o “homem trabalhar” e, com isso, não é preciso muito para ver o que deve ser tirado do caminho.

Nada disso, tal como a suposta “espontaneidade” de Bolsonaro em seus tuítes e “lives” é, de fato, espontâneo ou improvisado.

O tamanho do circo deve ser inversamente proporcional à quantidade de pão.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Reitor da UFRGS: Nos EUA, que todo mundo gosta, o financiamento público da pesquisa é pesado

Reitor Rui Oppermann
Depois de uma agressiva campanha eleitoral, o governo eleito para presidir o Brasil nos próximos quatro anos parece já ter escolhido o seu alvo: professores e universidades públicas. Seja por meio de declarações de Jair Bolsonaro (PLS), por informações de membros de seu séquito ou ainda por especulações na imprensa, muitas mudanças na educação e no ensino superior estão sendo ventiladas. Na última terça-feira (6), conversarmos com Rui Vicente Oppermann, reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), para entender que ele espera do futuro governo.

Oppermann diz que ainda é difícil fazer uma projeção, justamente pela quantidade de informações desencontradas que estão circulando. Mas há pelo menos uma certeza: será um governo de “combate à doutrinação”, pois isso constava no plano de governo do candidato. Mas o que isso quer dizer? Como irá modificar as insituições públicas?

“Se doutrinar é você impor o seu modelo de pensar para com os outros, realmente a universidade não tem espaço para isso, muito pelo contrário. Aqui há toda a liberdade para que se possa expressar as mais variadas ideias, todas os matizes ideológicos, religiosos, enfim”, diz o reitor.

Ele reconhece que há um movimento crescente dentro da comunidade acadêmica da UFRGS que defende ideais conservadores e que cobra um espaço, mas pondera que isso nunca lhes foi negado. “Não há nenhuma limitação desse espaço, seja em nossos órgãos colegiados, onde o elemento conservador está presente, seja nas atividades que eles mesmos organizam, e tem toda a oportunidade para fazer isso, seja na própria constituição dos profissionais. O deputado federal mais votado do Rio Grande do Sul é nosso ex-aluno, e ele é da direita”, exemplifica.

Ainda assim, Oppermann expressa preocupação com o avanço da chamada “Escola Sem Partido”. Da mesma forma preocupa-se com o movimento ocorrido na semana que antecedeu o segundo turno das eleições presidenciais, quando ações policiais foram realizadas dentro de universidades federais para coibir atos e manifestações em defesa da democracia. Ele diz, no entanto, que, a partir da posição demonstrada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de restringir tais operações, é possível imaginar que o poder judiciário irá atuar para coibir ataques à liberdade de expressão e de cátedra que possam vir a ocorrer. “Na minha visão, quem faz uma análise dessas também fará uma análise semelhante com relação à Escola Sem Partido. Porque, se tu fores olhar bem, o que o Supremo falou a respeito da autonomia e da liberdade de cátedra vai de encontro ao que o Escola Sem Partido está falando”, diz.

Para além de eventuais decisões que possam ser tomadas pelo governo Bolsonaro, há outra situação no horizonte das universidades que preocupa o reitor: os cortes orçamentários. Se já ocorria desde o início da crise econômica, ainda no governo de Dilma Rousseff (PT), a redução de gastos se acentuou no governo de Michel Temer (MDB), que, para piorar, colocou uma amarra que irá limitar por um período de 20 anos o crescimento dos orçamentos federais, a Emenda Constitucional 95, a chamada Lei do Teto de Gastos. Oppermann diz que os efeitos desses cortes já estão sendo sentidos na prática.

“Pode ser, por exemplo, falta de recursos para manter a universidade, para a compra de insumos básicos para a graduação. Na infraestrutura, a construção de novos prédios e aquisição de novos equipamentos hoje já está reduzida a um mínimo, isso tende a se reduzir ainda mais. Com isso, uma universidade que precisa ter a renovação do seu parque tecnológico, renovação das suas bibliotecas, isso tudo ficará ameaçado pela progressão dessa emenda constitucional no sentido de redução do orçamento das universidades”, afirma.

Caso a tendência não seja revertida, ele diz que poderá se voltar ao período de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), que ele vivenciou como professor da Faculdade de Odontologia. “Era o período do chamado sucateamento da universidade. Era um período em que não havia insumos para a universidade continuar da forma como ela teria que continuar. Eu me lembro de dificuldades tão prosaicas como a compra de papel higiênico”.

Confira a seguir a íntegra da entrevista com o reitor da UFRGS.

Sul21 – O que esperar do futuro da universidade pública? O senhor consegue ter uma ideia do que está por vir no próximo governo?

Rui Vicente Oppermann: Eu acho que estamos todos nessa mesma situação, de que o governo eleito ainda não assumiu e as informações que vêm, vêm em coerência com o que foi a campanha, uma série de informações, algumas que a gente não sabe a origem. Então, nesse momento, é muito difícil afirmar que existe já uma decisão tomada pelo governo que vem aí com relação à educação superior. O presidente eleito tem colocado algumas coisas, dado algumas declarações. Hoje mesmo [a entrevista foi realizada na última terça-feira, 6], eu li em um jornal que ele reiterou que os professores não deveriam ter vergonha de serem filmados. Então, esse tipo de informação não acrescenta muito em relação às nossas expectativas do que será o ensino superior.

– Como o senhor avalia esse conjunto de leis propostas a nível estadual, municipal e federal que ficaram conhecidas como ‘Escola Sem Partido? Como isso pode afetar a universidade?

Eu acho que essa ‘Lei da Mordaça’ é um retrocesso monumental, histórico, para as universidades e para a educação, como um todo. Não é possível você imaginar que a liberdade de cátedra seja condicionada por uma lista de coisas pendurada na parede, isso beira a censura e, de fato, vai de encontro a tudo que nós entendemos que seja a educação. A educação é baseada na construção da crítica. A crítica construtiva é aquela que leva à cidadania, leva as pessoas a terem as suas próprias opiniões, inclusive até favoráveis ao partido do presidente eleito ou a outros partidos. Não se trata de você fazer uma defesa corporativa ou político-partidária. Aqui, nós estamos fazendo uma defesa da liberdade de opinião, da liberdade de cátedra, da universidade como um espaço de reflexão crítica. A nossa definição de universidade está no nosso estatuto como um espaço crítico que a sociedade deve utilizar e vai utilizar para a construção da cidadania. Ora, no momento em que você coloca qualquer tipo de objeção, como essa, você está limitando. Eu faço votos sinceros de que isso não seja aprovado, porque o Brasil vai ficar numa situação muito difícil, inclusive internacional. Como justificar que as universidades estão agora sendo censuradas?

– Esse conjunto de leis e o próprio plano de governo da campanha de Bolsonaro falavam da importância de se combater a doutrinação. É uma das poucas coisas que constavam sobre educação. Isso existe nas universidades públicas? O que o senhor entende por doutrinação?

Acho que tinha que perguntar para o Bolsonaro o que ele entende por doutrinação. Na verdade, o movimento Escola Sem Partido é também uma doutrinação, nesse sentido de que está impondo um modelo, um pensamento sobre outros. Se doutrinar é você impor o seu modelo de pensar para com os outros, realmente a universidade não tem espaço para isso, muito pelo contrário. Aqui há toda a liberdade para que se possa expressar as mais variadas ideias, todas os matizes ideológicos, religiosos, enfim. A universidade se constrói a partir, exatamente, dessa diversidade de opiniões, dessa possibilidade de se olhar, se mirar, cotejar e aprender com aquele que é diverso de você.

– A reitoria recebe reclamações de doutrinação e de manifestações políticas de professores? É algo que chega ao senhor?

Não de forma sistemática. O que nós temos observado é que existe um movimento interno que marca uma presença conservadora e que reclama o seu espaço. Esse espaço lhes é dado. Não há nenhuma limitação desse espaço, seja em nossos órgãos colegiados, onde o elemento conservador está presente, seja nas atividades que eles mesmos organizam, e tem toda a oportunidade para fazer isso, seja na própria constituição dos profissionais. O deputado federal mais votado do Rio Grande do Sul é nosso ex-aluno, e ele é da direita. Essa questão de que estaria havendo aqui uma limitação de espaços e que haveria uma reclamação por isso, de maneira nenhuma.

– Na semana que antecedeu as eleições, houve uma série de ações policiais e na justiça para coibir a realização de atos diversos em defesa da democracia. Um deles foi aqui na UFRGS. Tivemos uma ação que proibiu a realização de um evento que falaria sobre democracia na Faculdade de Educação (Faced), que acabou ocorrendo no Viaduto do Brooklyn. Como o senhor avalia essas intervenções na realização de eventos e discussões dentro da universidade pública?

Tem que diferenciar as coisas que aconteceram. Teve um evento que foi uma discussão sobre os programas dos presidenciáveis que ocorreu dentro da Faced e não havia nada em contrário a essa atividade dentro da lei eleitoral. Outros eventos de natureza semelhante aconteceram dentro da universidade e ninguém poderia tolher porque eles não estavam afrontando a lei eleitoral. Agora, um lançamento de um diretório pró um determinado candidato, no caso pró-Haddad, dentro da universidade, nós, a reitoria, entramos em contato com o DCE [Diretório Central de Estudantes], dizendo que isso não poderia acontecer no interior do campus e que teriam que fazer isso em outro lugar. Claro, ao mesmo tempo, o Van Hattem e o Jerônimo Goergen também entraram com ações pedindo a mesma coisa. Mas, embora a imprensa tenha focado na ação deles, nós já tínhamos notificado o DCE de que não poderia acontecer, porque nós temos que respeitar a lei eleitoral. A lei eleitoral diz que não se pode ter propaganda político-partidária dentro das instituições públicas. Aí foi feito fora da instituição e teve toda a participação, dentro da legalidade.

[Nota da edição: A universidade recebeu no início do ano uma cartilha da Justiça Eleitoral com informações sobre o que era vedado. As iniciativas que iam de encontro às determinações da cartilha receberam a orientação para que os eventos fossem transferidos para outros locais. A reitoria diz que não houve embate interno e que não precisou de ordem judicial para a resolução dessas questões].

– Em outros lugares, acompanhamos a polícia entrando nas universidades, proibindo faixas, interrompendo eventos. O senhor acha que isso é um sintoma de algo maior?

Esses casos realmente foram um abuso de autoridade, foram denunciados e o próprio STF fez uma manifestação primeiramente legitimando a autonomia universitária, a liberdade de cátedra e que a Polícia Federal e demais órgãos deveriam se abster de impedir manifestações dessa natureza dentro do campus. No caso da Faced, teve o seminário sobre os programas, não entrou ninguém para impedir, já nessas outras universidades aconteceram excessos. A Andifes [Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior] condenou, todos nós condenamos, mas devo dizer que fiquei muito feliz que o STF tomou a iniciativa de colocar a garantia da autonomia. Devo dizer também que o Ministério Público Federal também já tinha feito uma manifestação a esse respeito. Para nós, essas manifestações são muito mais relevantes do que aquelas manifestações ou tentativas de autoritarismo de deputados e de outros, porque, no fundo, é uma instituição, isto é o poder judiciário, que está dizendo que nós temos autonomia, temos liberdade de cátedra e que a universidade é um espaço crítico de debates. Na minha visão, quem faz uma análise dessas também fará uma análise semelhante com relação à Escola Sem Partido. Porque, se tu fores olhar bem, o que o Supremo falou a respeito da autonomia e da liberdade de cátedra vai de encontro ao que a Escola Sem Partido está falando.

– Te parece que, mesmo que seja aprovado no Congresso, um projeto desses terá a constitucionalidade questionada?

Com certeza vai ter a constitucionalidade questionada, e vai cair.

– Voltando ao governo Bolsonaro. Por exemplo, ele já indicou o desejo de levar a gestão das universidades, hoje a cargo do Ministério da Educação (MEC), para o Ministério de Ciência e Tecnologia. Isso pode ser positivo ou negativo? Que tipo de consequência pode trazer?

Eu vou fazer duas observações a esse respeito. Primeiro, sob o olhar de um educador, de um reitor de universidade, acho que isso seria um problema muito grande. Nós estamos tentando construir um sistema único de educação, desde a infantil até a universidade, em que haja uma interação tão importante para que a gente possa elevar a qualidade da educação do País como um todo. Todos nós entendemos que a educação básica precisa melhorar. A única maneira é você melhorar as condições de trabalho, de salário e qualificar os professores. Ora, quem qualifica os professores? É a educação superior, as universidades. Quebrar esse elo vai quebrar, sob o ponto de vista administrativo e conceitual, a possibilidade de a universidade participar da melhoria da educação básica. Então, isto é, na verdade, uma perda, exatamente a partir da crítica de que todos nós fazemos de que a educação básica precisa de mais atenção.

Com relação à questão de que a educação básica teria assim maior financiamento, isso a gente não sabe. No momento em que as universidades iriam para o Ministério de Ciência e Tecnologia, levariam o seu orçamento também. Então, acho que a educação básica precisa ter maior investimento, mas não é as expensas da educação superior.

– A respeito da questão orçamentária. O Brasil já passa por um período de cortes na educação superior, que, inclusive, antecede o governo Temer, já vinha da crise do governo Dilma. Como tem ocorrido a evolução nos cortes?

Deixa eu só colocar um dado que é importante sobre a questão da educação básica e do ensino superior. O orçamento da educação superior no MEC corresponde a 3% do que o Brasil investe em educação, enquanto o da educação básica corresponde a 13%. Então, o Brasil investe muito mais em educação básica do que em educação superior. Não dá para você pensar apenas em investimento federal, você tem que acoplar os investimentos estaduais e municipais, que são os entes responsáveis pela educação. A segunda questão fundamental, antes ainda de entrar na tua pergunta, é desfazer a concepção de que a educação superior é cara. Primeiro, que a gente não pode qualificar um bem intangível como é a formação de profissionais em termos de custo monetário dessa maneira tão simplória. Mas o fato é que a educação superior não se dá apenas na sala de aula. Muitos dos críticos que apontam para essa questão dos custos fazem uma comparação de sala de aula. Ora, a educação superior não se resume à sala de aula, tem pesquisa, tem extensão, tem a própria qualificação permanente do corpo docente, o que redunda em custos também.

Você tem que levar em conta também que tem benefícios resultantes desse investimento em pesquisa e extensão. As universidades públicas são os locais onde se produz o principal aporte de pesquisas e inovação no Brasil. Então, esse dado ou esse valor também tem que ser agregado. Hoje, a universidade tem a sua ação na cultura, na arte, na organização da sociedade, na organização das cooperativas, das comunidades. Nós prestamos um serviço social, um serviço comunitário, de interação com a comunidade, em todos os níveis. A própria saúde [o Hospital de Clínicas é vinculado à UFRGS]. Então, não podemos pensar em custos sem, por exemplo, levar em conta que muitas universidades têm hospitais universitários, têm laboratórios, tem custos que não podem ser transportados para o custo de aluno como se fosse comparar tão somente o custo de sala de aula.

Voltando à questão orçamentária. Nós estamos imersos agora na Emenda Constitucional 95, que é a Lei do Teto. Ela tem um aspecto cruel que é o fato de limitar o orçamento ao patamar de 2017 e que prevê apenas a correção da inflação do ano anterior. Nós, em 2019, vamos viver com o orçamento de 2017 e a correção da inflação de 2018, se o governo cumprir isso, porque o Temer não cumpriu. Então, nós estamos com custos com pessoal, com terceirizados, com insumos, que estão aumentando num nível diferente daquele que é estabelecido pela Lei do Teto. Evidentemente, os custos com pessoal também aumentando, se você tem um teto, chega uma hora em que você bate no teto e o nosso orçamento de manutenção não tem como alcançar o que precisamos usar. Isso já está acontecendo. Nós hoje temos uma situação prevista na UFRGS que, ao final do ano, vamos levar para 2019 uma dívida de pelo menos R$ 10 milhões de despesas que não vamos poder alcançar por falta de recursos orçamentários.

– Qual é o orçamento atual da UFRGS?

O orçamento da UFRGS é cerca de R$ 2 bilhões. Porém, o orçamento de pessoal e com benefícios é de R$ 1,8 bilhão. Nos restam R$ 199 milhões para custeio e capital, sendo que, em custeio, nós temos R$ 185 milhões, e, em capital, R$ 14 milhões.

– Capital se refere a o quê?

É construção, equipamento, livros. E esses R$ 14 milhões é o orçamento, não é o que foi liberado. Nós ainda não recebemos a liberação para esse ano e, muito desses R$ 14 milhões, é retido no MEC. Você tem que ir lá buscar.

– Mesmo que tudo seja liberado, ainda irão faltar R$ 10 milhões?

Vai faltar, porque esses R$ 199 milhões, para você ter uma ideia, em 2017 eram R$ 200 milhões; em 2016, R$ 215 milhões; 2015, R$ 214 milhões; 2014, R$ 224 milhões. Isso para o dia a dia da universidade. Então, nós estamos recebendo menos e os custos estão aumentando. Pega energia elétrica, 50% de aumento no ano passado. Quer dizer, não dá para você imaginar que a gente possa ficar com o mesmo orçamento. E tem outro fenômeno que é importantíssimo, as universidades grandes, e a UFRGS é uma delas, geram recursos próprios. Como a gente gera recursos? Pelas taxas que são cobradas por pesquisas, cursos de especialização, enfim, pela interação com a sociedade. A universidade tem vários projetos com a Petrobras. Esses projetos, quando entram, um percentual vai para as unidades acadêmicas onde o projeto é desenvolvido e um percentual vai para a UFRGS. Isso cria um fundo, quanto mais a universidade produz, maior é esse fundo, que a universidade pode utilizar ao longo do ano para custeio e capital. Havia aí um espaço que a gente tinha para compensar a Lei do Teto com a geração de recursos próprios. Pois bem, este ano, o governo Temer estabeleceu que, a partir de dezembro, as contas dos recursos próprios vão ser canalizadas para pagar os aposentados da universidade. Então, pela primeira vez na história, as universidades vão estar pagando o seu pessoal. Isso nunca aconteceu e a gente espera que não aconteça. O governo está dizendo que vai fazer, se ele fizer isso, nós vamos perder em torno de R$ 60 milhões que a universidade produziu ela mesma e que poderia utilizar em reformas, compra de equipamentos, livros, etc e tal.

A ironia dessa questão é a seguinte: você ouve os atuais e os futuros governantes do País dizerem que as universidades públicas são ineficientes, cabides de emprego, que não produzem, que não tem planejamento, pois aqui está um exemplo de que nós produzimos e criamos receita própria, que agora já não é mais possível utilizar e vai ser utilizada unilateralmente para o governo pagar aposentados da universidade.

– Sem levar em conta a possibilidade de mais cortes, existe risco de as universidades não terem mais capacidade de operar da maneira como operam hoje continuando o Teto dos Gastos? Nesse ritmo, que tipo de consequência isso pode ter para a operacionalidade das universidades?

Eu não incluiria só as universidades, mas todo o serviço público. Particularmente sobre as universidades, não há como, com essa previsão de 20 anos, você administrar com os valores orçamentários fixados da forma como foram por essa emenda. Tanto que a maioria dos candidatos no campo da esquerda diziam que iam buscar a revogação da emenda. Já no campo da direita, isso não aconteceu. Como isso vai ser trabalhado, a gente não sabe, mas a previsão é de que haverá sim restrições muito grandes ao funcionamento da universidade.

– Podem ser o quê?

Pode ser, por exemplo, falta de recursos para manter a universidade, para a compra de insumos básicos para a graduação. Na infraestrutura, a construção de novos prédios e aquisição de novos equipamentos hoje já está reduzida a um mínimo, isso tende a se reduzir ainda mais. Com isso, uma universidade que precisa ter a renovação do seu parque tecnológico, renovação das suas bibliotecas, isso tudo ficará ameaçado pela progressão dessa emenda constitucional no sentido de redução do orçamento das universidades.

– Uma proposta da direita que antecede Bolsonaro é a de cobrar mensalidades. O Geraldo Alckmin (PSDB), por exemplo, falava de começar cobrando mensalidade na pós-graduação. Isso faz algum sentido? Como o senhor vê isso?

Até sobre o Alckmin, eu gostei muito quando alguém perguntou para ele sobre por que, tendo sido governador de São Paulo, não fez a mesma coisas nas estaduais, USP e companhia. Poderia ter feito. Aí ele se recompôs e disse que não era bem assim, que não iria cobrar. O fato é o seguinte, essa questão da cobrança parte de um olhar que desconhece a realidade das universidades públicas. O que nós sabemos, a partir do Censo Estudantil de dois anos atrás, é que a ideia de que a maior parte dos alunos são de classe média e alta é uma fantasia. Já era no passado, mas agora é ainda mais. Não vamos nos esquecer que nós estamos com a Lei das Cotas. Então, 50% dos nossos ingressantes hoje têm uma renda menor do que 1,5 salário mínimo. Se você imaginar que alguém que tem 1,5 salário mínimo de renda, que tem que comprar roupa, se alimentar, se transportar, se manter, ainda vai pagar uma mensalidade, é inconcebível. Acho que nem mesmo os conservadores dizem que esse segmento seria cobrado. Seria só o segmento superior. Ora, o segmento superior na universidade é pequeno, aí vem a ideia de que você não vai ter um impacto tão grande na questão orçamentária por essa cobrança.

Segundo, o que eu acho muito importante, nós podemos olhar para o resultado social da cobrança de mensalidade nos Estados Unidos, que todo mundo gosta muito. Sabe qual é a maior dívida pública que existe nos EUA? O financiamento estudantil, que passa US$ 1 trilhão. É uma dívida que muitos consideram impagável. Como essa dívida ocorreu? Porque lá é cobrado, há um financiamento, as pessoas não conseguem pagar, aquilo ali vai rolando, vai subindo, chega a essa um trilhão. Então, não vai resolver o problema orçamentário e você vai endividar a população com essa atitude. Às vezes, uma solução que parece fácil resulta em problemas muito maiores do que a gente imagina. Essa é a visão técnica.

– Mas, fazendo o advogado do diabo, não havendo dinheiro, segundo o governo, para sustentar as universidades como estão, como se resolve essa equação para que elas continuem fazendo o seu trabalho, não entrem em colapso e não coloquem, como se diz, o peso inteiro do financiamento nas costas da sociedade?

Eu vou me reportar à história recente do País para responder a isso. Nós já passamos, e eu era um jovem professor na época, um período em que situação semelhante aconteceu, que foi o período do governo Fernando Henrique Cardoso. Era o período do chamado sucateamento da universidade. Era um período em que não havia insumos para a universidade continuar da forma como ela teria que continuar. Eu me lembro de dificuldades tão prosaicas como a compra de papel higiênico. Eu sou da área da Odontologia, em que faltava insumos básicos de atendimento. Isso fez com que, primeiramente, houvesse uma mobilização muito grande da comunidade universitária para que se organizasse e tivesse aí soluções de superação dessas dificuldades. Então, eu não acredito que a gente vá entrar num caos porque nós vamos nos organizar e vamos superar essa questão nesse momento.

– Superar como? Como seria possível?

Olha, tem várias maneiras. Acho que aí a organização da comunidade que vai dar a resposta melhor. Mas, o que eu entendo dessa questão é que o grande problema não é a nossa sobrevivência apenas, mas é o fato de que enquanto estamos lutando para sobreviver, estamos perdendo margem dentro do cenário internacional nas áreas em que nós somos competentes. Evidentemente que isso vai resultar em diminuição de atividades de pesquisa, de tecnologia, como já está resultando.

– O governo Bolsonaro e Marcos Pontes, indicado para o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), veem como a grande solução para o financiamento da pesquisa na universidade parcerias com a iniciativa privada. Há como fazer pesquisa no Brasil que não seja do modo como é feita hoje pelas universidades públicas, com bolsas e incentivos? Como o senhor enxerga essa questão?

Não há nem no Brasil, nem em lugar nenhum. Em todos os países que eu conheço, e conheço muitos, em todos os continentes, o financiamento público de pesquisa nas universidades é uma realidade. Vou ficar com o exemplo paradigmático dos Estados Unidos. Nos EUA, o governo federal faz um investimento muito pesado na pesquisa básica. Aliás, toda a pesquisa básica nos EUA é com financiamento público. Quando chega no nível da pesquisa aplicada, também se mantém o financiamento público ou, eventualmente, na pesquisa aplicada já na parte de produto aí então entra a iniciativa privada. Então, tem uma escala que tem que ser respeitada. Não tem como você imaginar que possa ser feito de outra maneira.


– Queria que o senhor explicasse como funciona o investimento na pesquisa básica até chegar à aplicada, porque acredito que muita gente não entende essa dinâmica.

Olha, aqui eu tenho esse celular [ergue o aparelho que está ao seu lado durante a entrevista]. É um produto que foi produzido por pesquisas que levaram a esse tipo de aparelho com as suas especificidades. Agora, o celular tem, na sua gênese, Física, Química, Informática, Matemática, que são conhecimentos básicos. Ficam lá as pessoas produzindo conhecimento teórico e esse conhecimento, com novas formulações, permite, por exemplo, que você possa conceber uma internet. A internet é um produto de um conhecimento básico que foi desenvolvido dentro de um laboratório de Física. Você imagina, o sujeito está lá na laboratório de Física Teórica, fazendo formulações que ninguém entende a não ser ele, e alguém muito simploriamente diz: ‘Pô, tá perdendo tempo, isso não adianta para nada’. Só que aí você pega o seu celular, você pega um carro híbrido, você pega um aparelho de diagnóstico de câncer, você vai ver e tem ali todo o conhecimento da ciência básica. Então, a ciência básica é quem produz o conhecimento. O desconhecido, o que nós não sabemos, tem que ser produzido pelo conhecimento básico e teórico, que oferece condições para que, num segundo nível, você comece a fazer a aplicação.

Então, foi lá o indivíduo e descobriu uma molécula da nossa biodiversidade. Vem alguém da Farmácia e diz: ‘Essa molécula aqui eu posso combinar com outra e vou fazer um medicamento contra o câncer’. Começou a aplicação. Aí ele formula o remédio, faz a testagem, que vai passar pelo laboratório, animais, seres humanos, até chegar na farmácia onde o indivíduo poderá ter acesso ao conhecimento. Ora, não pense você que cortando a ciência básica você vai chegar lá. Muito pelo contrário, a ciência básica é protegida na maior parte dos países, porque ela é fundamental do ponto de vista estratégico. Ela custa muito. E quem é que vai investir em ciência básica? Não é o laboratório de farmácia que não sabe o que poderá advir desse conhecimento. Isso é uma coisa importantíssima de se dizer. A pesquisa básica tem financiamento público até nos EUA, ou principalmente lá. É na Europa, é na China, é na Índia, é no Brasil, se você não tem investimento público, não tem pesquisa básica.

E, para complementar, essa ideia de que as universidades não produzem pesquisa com a iniciativa privada também é falaciosa. Se nós considerarmos, por exemplo, a Petrobras. É uma grande parceira das universidades. Nós mesmos temos projetos de desenvolvimento tecnológico e inovação com a Petrobras de milhões. Nós temos investimento com a Brasken, com a Eletrobras, com a Gerdau, com ‘n’ locais. Nós ganhamos royalties, por exemplo, na produção de aveia. Ganhamos royalties numa série de outros produtos que são registrados no sistema privado. Então, não é assim tão fácil dizer que as universidades não produzem interações com a sociedade, muito pelo contrário, há interações valiosíssimas que a gente produz aqui no Estado. E, mais, poucas universidades privadas têm um parque científico em condições de realizar pesquisa no Brasil, porque é muito caro. É muito caro pagar o professor, o pesquisador e o laboratório.

– Por trás de todos os assuntos que estamos abordando, existe um discurso de demonização do ensino público e das universidades públicas, especialmente. Circulam muitas notícias e informações distorcidas sobre as condições e o que acontece dentro dessas instituições. Onde se pode chegar se esse discurso ganhar corpo? De que forma ele pode afetar as universidades?

Eu vou chegar lá, mas por outro caminho. Nós tivemos a Conferência Regional da Educação Superior na América Latina e Caribe agora em maio, em Córdoba [Argentina]. Lá, eu fui um dos representantes na conferência da Andifes, da Abruem [Associação Brasileira dos Reitores das Universidades Estaduais e Municipais] e do Conif [Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica]. Nós apresentamos um dado que é muito preocupante para a América Latina, mas especialmente para o Brasil, que é a progressiva comercialização da educação superior. Não é a privatização, é a comercialização. Veja bem, no Brasil, nós temos dois sistemas de educação superior, o privado e o público. No privado, temos duas formas de financiamento. As comunitárias, do qual PUCRS, Unisinos e algumas municipais são um bom exemplo — no RS, as comunitárias são muito boas. E temos o ensino privado mercantilista, isto é, fundos acionários que são proprietários de instituições de ensino e que têm, como objetivo final, o lucro.

– Um exemplo é o grupo Kroton.

O Kroton, o Anhanguera. O Anhanguera tem mais ou quase o mesmo número de alunos que todo o sistema federal de ensino. Isto é uma privatização, mas uma privatização meio esquisita, porque, no fundo, essas empresas buscam a mercantilização e não a educação. Não é a mesma coisa. Segundo, esses fundos, leio eu, estão em crise, com quase 50%, 60% de ociosidade nas suas vagas oferecidas. Como é que um negócio pode funcionar com 60% de ociosidade? Nem padaria funciona com isso. Pois bem, como é que essas universidades mercantis funcionam? Elas são também financiadas pelo dinheiro público. Então, dizer que no Brasil existe um sistema privado, como é nos EUA ou em outros lugares, não é verdade. Mesmo a rede privada, seja ela comunitária, seja ela mercantil, se nutre de financiamento público, que é muito maior do que o financiamento das federais. Então, se tem que haver uma privatização, que seja de quem é privado. Aí sim eu concordo, realmente é um absurdo nós financiarmos, com dinheiro público, fundos acionários brasileiros e estrangeiros que lucram com a educação superior. Isso é inaceitável e a conferência regional condenou isso, inclusive recomendou que os governos regionais se abstivessem de acordos comerciais com países onde isso acontece. Então, isso é muito grave, é uma privatização e acho que é o grande problema que nós temos, não a universidade pública.

Outro dado que acho importante é que educação só pode ser um bom negócio. Tem tanta proliferação de instituições mercantis no País, com 50% e 60% de ociosidade e ainda assim se mantendo, é sinal de que tem um retorno muito grande. E, eu não quero crer, mas é lógico que possam estar olhando para o sistema federal público com uma cobiça, porque, se é um bom produto, e eles com 60% de ociosidade ainda se mantêm, imagina com os níveis que nós temos de alunado, preenchendo quase 100% das vagas.

– Um dos elementos dessa demonização é o discurso de que os reitores todos são filiados a partidos de esquerda. O Bolsonaro diz que ‘vai mudar isso daí’, mudar a fórmula como serão escolhidos os reitores. Qual a importância da autonomia das universidades na tomada de decisões, na escolha de seus reitores, mas também diretores de faculdades?

Nós temos, no cenário federal, diferentes graus de evolução na forma de escolha, mais ou menos democrática, dos dirigentes. Nós todos somos pautados por lei, que é a LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação], que diz que a eleição dos dirigentes superiores da universidade tem que ser por um colegiado formado em 70% por docentes. Isso é da lei, não tem como fugir. O que nós temos durante muito tempo trabalhado na Andifes, no Proifes, que é a federação do sindicatos, é para derrubar essa lei do 70% e dar uma paridade por lei nos processos seletivos. Isso que está sendo colocado como supostamente uma ideia do governo, ainda na base dos boatos, vai de encontro à essa questão. Exatamente porque o governo estaria avocando para si, o que lhe é de direito, porque é de direito do presidente da República, escolher o reitor. Ele ganha uma lista tríplice e ele escolhe quem quiser. Já faz algum tempo que, dentro dessa visão democrática, o presidente também escolhe o primeiro da lista.

– Se fala também em escolher alguém de fora da lista.

Olha, eu não entendi como de fora da lista, mas alguém que não esteja necessariamente em primeiro lugar na lista, o que dá mais ou menos no mesmo, porque a estratégia seria colocar alguém dentro da lista que poderia aí ser o escolhido. Isso nós temos de ver como vai acontecer. Eu faço voto para que isso não aconteça.

– Quais são os prejuízos de tirar essa autonomia das universidades?

É um prejuízo para a própria democracia, um prejuízo para a construção da cidadania que se faz dentro da universidade. Então, é um retrocesso, porque nós estamos tentando superar esses 70/30 que ainda é uma determinação, na origem, da ditadura militar e que jamais foi modificado, diga-se de passagem, por nenhum governo posterior. Pelo que está sendo colocado, não vai ser mudado. Então, isso é um retrocesso porque as universidades têm hoje a construção de um ambiente democrático que também deveria se expressar na escolha de seus dirigentes.

– Algo a acrescentar?

Eu queria voltar à transferência do ensino superior do MEC para o MCTIC. Tem um artigo do Gustavo Balduíno [ver ao final], que é secretário-executivo da Andifes, que analisou o impacto dessa possibilidade quando o senador Cristovam Buarque, então ministro do Lula, propôs isso. Não foi adiante. A gente leu o artigo agora do Gustavo, que é de 2002, e é absolutamente atual. Ele examinou essa questão e mostra que todo e qualquer argumento que se faça não tem absolutamente nenhuma justificativa. Muito pelo contrário, corre-se o risco de termos maiores gastos, porque você vai criar instâncias burocráticas que hoje não precisa. Você vai afastar interações que hoje existem. Você vai criar conflitos. Por exemplo, o nosso Colégio de Aplicação vai com a gente? Vai para onde? Como é que fica essa questão?

– Os próprios institutos federais, que atuam nos dois níveis.

Exatamente. Então, a ideia de que isso representaria uma redução de custos é absolutamente fora da realidade. Eu tenho certeza que, seja quem for da equipe agora que está pensando junto com o presidente eleito, eles vão se dar conta de que é uma medida inócua até dentro da argumentação deles, que é de redução de custos ou de melhoria disso e daquilo. É muito mais produtivo manter o sistema único de educação e fazer essa interação com a Ciência e a Tecnologia que já é feita há tanto tempo, via CNPq, via BNDES, enfim, todas as instâncias que o próprio MCTIC tem de financiamento à pesquisa. É impressionante como o artigo é atual depois de 16 anos.

Luís Eduardo Gomes
No Sul21
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As pautas identitárias devem se subordinar a isso


O Conversa Afiada publica sereno (sempre!) artigo de seu exclusivo colUnista Joaquim Xavier:

O tema é polêmico, mas não dá para fugir dele.

O capitão eleito presidente num pleito repleto de irregularidades privilegiou um alvo para chegar ao Planalto. A questão dos costumes. Não por acaso. O Brasil é um país conservador por natureza, herança dos tempos de escravidão até hoje sobreviventes.

A enxurrada de propaganda digital de Bolsonaro, financiada ilegalmente, enxergou aí a galinha dos ovos de votos. Seus posts mentirosos, difundidos aos milhões, acusaram a oposição de defender a destruição da família, a ”libertinagem”, o ódio a dogmas “divinos”. Pregaram a repulsa aos gays, condenaram os homossexuais, destilaram a raiva contra feministas, negros, mulatos, quilombolas, povos indígenas e minorias em geral. Embalaram tudo isto com a luta contra a corrupção e mais segurança pública.

Por trás desse conservadorismo, escondeu-se o principal: o ataque à classe trabalhadora.

É evidente que as chamadas lutas identitárias são um sinal de progresso da civilização. A evolução dos costumes, o respeito às opções de gênero e ao direito (não tolerância, direito!) de cada um escolher o caminho que lhe traga felicidade e prazer é algo que só pode ser comemorado. Mas o risco de isso virar uma armadilha divisionista num país como o Brasil é imenso.

Bolsonaro explorou esse risco.

Sua campanha, espertamente, deixou de lado na propaganda os problemas fundamentais. Como eliminar o desemprego? Como combater a fome que assola milhões e milhões de brasileiros? Como assegurar terra e casa própria a quem trabalha de sol a sol? Como impedir a exploração desenfreada do trabalhador responsável pela geração da fortuna de uns poucos bilionários? Como garantir uma aposentadoria digna a quem dedicou a maior parte da sua vida a construir o país?

Finda a eleição tisnada por fraudes mais do que expostas, a verdade começa a aparecer.

Fala-se muito da “escola sem partido”. Um escândalo, sem dúvida. Mas vamos ao atacado. Nem bem acabou a eleição, o povo é informado que o ministério do Trabalho será extinto num país em que pelo menos trinta milhões de pessoas – o cálculo é mais do que modesto — não têm como sobreviver. Suas atribuições serão entregues a gente como Paulo Guedes, um especulador cuja única preocupação sempre foi a de engordar a própria conta bancária.

A toque de caixa, o Parlamento aprova isenções de pai para filho para montadoras, sem nenhuma contrapartida de geração de empregos. O dinheiro do pré-sal, previsto para financiar a educação, será agora distribuído para financistas. A mudança do sistema de Previdência permanece uma obsessão. Em vez do sistema de repartição, a ideia é implantar a regra do cada um por si. A mesma adotada pelo ditador Augusto Pinochet no Chile, sonho de consumo do mesmo Paulo Guedes, seu admirador, e cujo resultado foi o empobrecimento e miséria dos mais velhos.

Para quem acha tudo isso um exagero da “oposição”, basta ver os números da reforma trabalhista aprovada sob o governo golpista de Temer e aplaudida pela turma do capitão eleito. Em vez dos dois milhões de empregos que seriam criados, nem trezentos mil surgiram.

Quem quiser, pode se enganar. Mas os fatos e os números mostram que o programa de Jair Bolsonaro é aprofundar a programa golpista que derrubou uma presidenta legitimamente eleita. Abolir a soberania nacional, transformar a classe trabalhadora brasileira em bóia-fria do grande capital financeiro, suprimir liberdades e entregar as riquezas do país aos abutres das multinacionais.

As pautas identitárias devem se subordinar a isso, em vez de se dividir em minorias isoladas.

A vitória destas está subordinada à vitória maior, da classe trabalhadora da qual depende o país que vale a pena construir.

Joaquim Xavier
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Claudia Leitte reage a Silvio Santos: 'provocação disfarçada de piada' - assista


A cantora Claudia Leitte reagiu na manhã desta segunda (12) em seu perfil no Instagram ao assédio público de Silvio Santos. A cena, no programa do apresentador neste domingo foi ofensiva e causou indignação. Leitte qualificou o atitude como uma "provocação disfarçada de piada" e, em seu texto, relatou as situações de violência, assédio e constrangimento que acontecem "com muitas mulheres todos os dias, em muitos lugares". Ela exclamou: "Mas, nós que somos vítimas!". "Você me deixa excitado com essa roupa", disse Silvio Santos à cantora num dos momentos do assédio.

Depois de produzir e veicular no SBT vinhetas de apoio a Bolsonaro com o slogan "Brasil, ame-o ou deixe-o" da ditadura militar, Silvio Santos conversou ao vivo no domingo com o presidente eleito, durante programa Teleton 2018, que arrecada fundos para crianças com deficiência. Foi uma conversa constrangedora pela explícita adesão do apresentador: “O Brasil precisa de um presidente que tenha vontade de acertar. E o senhor começou acertando”. Silvio previu ainda que Bolsonaro pode ficar 8 anos no governo e seria sucedido por Sergio Moro, que ficaria mais 8 anos. “Você pode ficar 8 anos e depois passar para  Moro, que ficaria mais 8 anos”, disse Silvio.

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A cada entrevista, Moro perde mais um pedaço de sua fantasia e logo está nu


A uma das visitas que recebeu na semana passada, Lula respondeu à perguntado sobre o que tinha achado da indicação de Sergio Moro para o Ministério da Justiça no governo Bolsonaro:

“Não tem surpresa nenhuma. Ele sempre quis fazer política”, disse.

Quando Moro começou a fazer de Lula e do PT alvos de um inquérito da Polícia Federal, Lula comentou com interlocutores:

“Esse juiz ainda vai entrar para a política”, observava.

Era 2014, ano da disputa entre Aécio Neves e Dilma Rousseff, e o inquérito que tomou a direção do PT já corria sob a autoridade de Moro desde 2006.

O alvo inicial era José Janene, deputado federal da região onde nasceu Sergio Moro, no norte do Paraná.

Em 2006, quando a PF grampeou o telefonema entre um advogado e seu cliente, assessor de Janene, havia motivos suficientes para indiciamentos e até denúncias.

Mas Moro deixou correr, mesmo sendo informado de que o telefonema dava conta de o doleiro Aberto Yousseff havia violado o acordo de colaboração celebrado com ele.

Logo depois, um delegado da Polícia Federal, Gérson Machado, o alertou de que Yousseff operava no mercado e havia mentido no acordo de colaboração.

Tinha omitido a existência de um fundo milionário com o qual mantinha suas operações de lavagem de dinheiro.

Moro ignorou o alerta e, um ano depois, Gérson foi afastado da Polícia Federal, em razão de uma junta médica, que apontou desequilíbrio psiquiátrico e recomentou sua aposentadoria

As razões dessa aposentadoria por invalidez nunca ficaram muito claras —é assunto sigiloso —, mas, em 2016, durante o depoimento de Gerson Machado como testemunha num processo da Lava Jato, o episódio quase veio à tona.

O advogado de Alberto Yousseff, incomodado com o testemunho de Machado, fez perguntas muito agressivas e, em uma delas, mencionou problemas mentais do delegado.

Moro proibiu o questionamento, e o advogado foi ousado, ao dizer que o juiz não estava interessado na busca da verdade.

Mais tarde, esse advogado, Antonio Figueiredo Basto, conhecido como o rei das delações na Vara de Moro, foi denunciado por doleiros como achacador.

Segundo Vinícius Claret, o Juca Bala, e Cláudio de Souza, que chegaram a ser presos pela Lava Jato do Rio de Janeiro, Antonio Figueiredo Basto cobrava 50 mil dólares de cada doleiro em troca de proteção na Polícia Federal e no Ministério Público Federal de Curitiba.

Depois da denúncia, Figueiredo Basto saiu de cena, mas antes, claro, negou o esquema, o que era esperado.

Entretanto, ao contrário do que se afirmou na época da denúncia, em maio deste ano, nada foi investigado.

O chefe de Juca Bala e de Cláudio de Souza, Dario Messer, conhecido como o “doleiro dos doleiros”, já tinha tido a prisão decretada, mas, antes que o mandado fosse cumprido, fugiu — no mercado, se diz que estaria vivendo em Israel, país em que tem cidadania.

Detalhe: a prisão não foi pedida por Moro, mas pelo juiz Marcelo Bretas, do Rio de Janeiro.

Dario Messer foi citado na operação Banestado, embrião da Lava Jato, mas nunca foi incomodado pelo titular da 13a. Vara Federal Criminal de Curitiba.

Messer, Yousself, Figueiredo Basto e Janene são esqueletos acumulados por Moro no armário da Justiça Federal em Curitiba.

Ao deixar a Vara, Moro poderá levar muitos dos presentes que recebeu de admiradores — antipetistas militantes —, mas por certo não tocará nesses cadáveres.

O problema é que não estão sepultados e, como acontece no universo dos políticos, são fantasmas que a qualquer momento podem se manifestar.

A partir de janeiro, diga o que disser, Moro não terá mais a toga para exorcizá-los, se tornará, como qualquer um de nós, sujeito à lei que rege a vida dos mortais.

Lula não disse, mas, certamente, sabe que Moro pode ter ido com muita rapidez matar sua sede na fonte do poder.

Vai continuar com a lenga-lenga de que será um ministro técnico, mas já exibe sua face de ministro político, ao blindar futuros companheiros de ministério, como Onyx Lorenzoni, flagrado com 100 mil reais de caixa 2 (qual a diferença entre caixa 2 e propina?) em sua campanha de 2014.

Vão surgir outros episódios como este, e Moro, aos poucos, deixará cair pedaços de sua máscara e de sua fantasia. Até que, um dia, estará totalmente nu.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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