10 de nov de 2018

A revanche dos ressentidos

Depois da eleição de Bolsonaro, os demônios interiores saíram para passear

Eleitores comemoram vitória de Bolsonaro
Eu acompanhava uma amiga no aeroporto, em São Paulo. Os elevadores que levavam do estacionamento aos terminais demoraram. Quando finalmente entramos, estava lotado. Um homem com um bebê no colo, possivelmente seu neto, gritou: “Quando Bolsonaro assumir, isso aqui vai andar rápido!”. E acrescentou: “Pá! Pá! Pá!”. Abri a boca para perguntar: “Você está atirando no seu neto?”. E então percebi que não poderia fazer isso sem me arriscar a sofrer violência. O homem e a família que o rodeava realmente pareciam acreditar que Bolsonaro dará “um jeito em tudo”, dos “comunistas” que supõem existirem aos milhões, à velocidade dos elevadores.

A eleição de Jair Bolsonaro, o populista de extrema direita que será o próximo presidente do Brasil, liberou algo no país. Um ressentimento contido há muito – por muitos. Todo o tipo de recalque emergiu dos esgotos do inconsciente e hoje desfila euforicamente pelas ruas, escolas, universidades, repartições públicas, almoços de família.

Gays são ameaçados de espancamento se andarem de mãos dadas, ou simplesmente por existir, mulheres com roupa vermelha são xingadas por motoristas que passam, negros são avisados que devem voltar para a senzala, mulheres amamentando são induzidas a esconder os seios em nome da “decência”. Aquele amigo de infância de quem se guardava uma boa lembrança escreve no Facebook que chegou a sua vez de contar o quanto o odiava em segredo e que pretende exterminá-lo junto com a sua família de “comunistas”. Um conhecido que passou a vida adulta acreditando merecer mais sucesso e reconhecimento do que tem, agora espalha sua barriga no sofá da sala e vocifera seu ódio contra quase todos. Outro, que se sempre se sentiu ofendido pela inteligência alheia, sente-se autorizado a exibir sua ignorância como se fosse qualidade.

Mensagens no Facebook anunciam que vão caçar todos os que votaram contra Bolsonaro e jogá-los na fronteira. Aqueles que se opuseram ao autoritarismo são tratados por essa multidão enraivecida como se fossem estrangeiros – e o país tivesse deixado de pertencer também a eles. Como nos princípios do regime totalitário do cada vez mais atual 1984, clássico de George Orwell: “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”.

A atmosfera tóxica do Brasil atual pode ser resumida por um trecho da carta que chegou ao Centro Acadêmico da Geografia, na Universidade Federal do Pará, em Altamira: “Bem vindos ao fascismo! Agora é a nossa vez, agora é o nosso momento, vocês vão ter que engolir porque vamos passar por cima de cada um de vocês, cada gay, cada sapatão, preto e preta. Vamos exterminar cada um de vocês. (...) Vão morrer um por um, cada preto e preta que acham que podem sair da senzala”. A carta anônima termina com: “Viva Bolsonaro! Viva a ditadura! Viva o Fascismo! Viva o Carlos Alberto Brilhante Ustra!”.

Como as palavras se esvaziaram de sentido no Brasil, “comunismo” e “comunista” virou o nome para tudo e todos que se odeia, seja pela orientação sexual, pela cor da pele ou pela atuação política. O termo não tem mais nenhuma relação com seu conceito, mas foi apropriado como o pecado da parcela da população que denunciou o autoritarismo criminoso de Bolsonaro, um apologista da tortura e dos torturadores. E assim o Brasil inaugura um outro tipo de Guerra Fria.

O pacto civilizatório, aquele que permitia a convivência, já vinha sendo rompido nos últimos anos no país. Agora foi rasgado por completo. Este é o primeiro sinal.


Eliane Brum
No El País
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O constrangimento nacional das súplicas de Magno Malta ao “irmão” Bolsonaro por um ministério

Malta implora por uma boquinha ao “irmão” Bolsonaro
Não que a concorrência não seja grande, mas Magno Malta é o emblema acabado do governo Bolsonaro.

Malta bajulou todos os presidentes, desde Lula. Essa é sua grande especialidade.

Quando não lhe interessa mais, solta o saco e embarca numa outra canoa.

A maneira como está implorando por um cargo a Jair Bolsonaro é de fazer corar qualquer cristão.

Constrangedora até para os padrões da turma.

Em suas redes, Malta vive dando recado ao amigo JB, cobrando-lhe sabe Deus o que lhe foi prometido e em que circunstâncias.

São imagens para dar sensação de intimidade e cumplicidade. 

Postou uma foto dos dois tomando café com uma legenda sabuja. Vou reproduzir sem corrigir o português desgraçado do sujeito. Perdão.

Aí vai: “Ha 6 anos atras quando só existe nos 2 , o cafezinho feito por ele fazia parte desse sonho, o sonho chegou, e continua tudo igual ! Valeu meu presidente”.

Quando não o faz lui même, passa a tarefa de implorar pela boquinha à mulher Lauriete, cantora gospel.

“O Brasil é muito mais importante do que qualquer comentário maldoso ou bisbilhoteiro que postam por aí”, escreveu ela no Twitter, provavelmente com o marido olhando por cima de suas costas.

“Magno Malta deve sim ser ministro, não por suas convicções religiosas ou amizade com o Presidente, mas pela dedicação às suas bandeiras, às causas que defende com  coragem”.

Em maio, Bolsonaro o chamou de “vice dos sonhos”. MM preferiu tentar a reeleição no Senado e quebrou a cara.

Gastou, oficialmente, 2,7 milhões de reais e obteve 17% dos votos, perdendo para Marcos do Val (PSS) e Fabiano Contarato (Rede).

A vitória de Contarato, homossexual assumido, sobre o moralista Malta contém uma justiça poética.

Malta supostamente ocuparia um tal “Ministério da Família”, fusão de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos, ou a Secretaria-Geral da Presidência.

A conversação está parada.

Defende os valores do cidadão de bem temente a Deus etc etc, mas sua trajetória nesse campo é, para usar um eufemismo, controversa. O DCM já contou parte dela.

É capaz de vilezas absurdas. Em 2009, durante a CPI da Pedofilia, acusou um cobrador de ônibus de abusar sexualmente da filha, que à época tinha apenas 2 anos.

O homem ficou preso durante nove anos e foi inocentado das acusações. Hoje processa o senador.

No dia 7, criticou o aumento de salário do STF. “Vamos lutar forte e não permitir essa indignidade contra o pais”, escreveu.

Não apareceu no dia da votação. Sua assessoria alega que estava num check-up.

O general Mourão, que não tem superego, deu uma canelada no ex-cantor de pagode gospel e em suas súplicas.

Bolsonaro, segundo Mourão, “está com outros assuntos mais prementes, né. Isso aí [para onde Malta vai] é mais fácil de resolver, pode ver depois”, declarou ao Globo.

“O instinto punitivo de uma ala da transição tenta convencer o presidente eleito a deixar o senador fora da Esplanada pintando seu perfil de ‘adesista’”, diz a reportagem.

Em nome de Deus, Magno Malta não vai desistir.

O irmão Bolsonaro vai dar um jeito. Sem Magno Malta no governo, o desastre não fica completo.

A arte da bajulação, segundo Magno Malta

Kiko Nogueira
No DCM
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Escócia é o primeiro país a incluir aulas LGBTI em todas as escolas


O objectivo das aulas é fazer com que “todos as crianças e jovens LGBTI se sintam seguros, apoiados e incluídos na escola”. Mas também "promover a tolerância e as relações positivas” entre todos. Iniciativa governamental é estreia mundial.

A Escócia vai ser o primeiro país a leccionar, em todas as escolas públicas, os direitos das pessoas lésbicas, gay, bissexuais, transgénero e intersexo. O plano curricular vai passar a integrar a história dos movimentos que lutam pela igualdade da comunidade LGBTI, bem como discutir formas de explorar a terminologia e a identidade de género e combater a homofobia, bifobia e a transfobia.

O vice-primeiro-ministro escocês, John Swinney, apresentou no Parlamento, a 8 de Novembro, o relatório e as linhas de recomendação do grupo de trabalho Educação Inclusiva LGBTI. Estabelecido em Abril de 2017, o grupo foi liderado pelos representantes da campanha Time for Inclusive Education (TIE) e juntou dez comissões e associações tanto governamentais como não-governamentais — e até católicas. O governo escocês “aceitou por completo” todas as 33 propostas que resultaram da discussão.

“A Escócia já é considerada um dos países europeus mais progressivos na igualdade das pessoas LGBTI”, começou por dizer o vice-primeiro-ministro, referindo-se à sua protecção legal. “Estou encantado por anunciar que vamos ser o primeiro país no mundo a introduzir educação inclusiva no currículo escolar.”

Um dos cartazes produzidos pelo governo e pela polícia escocesa
O governo comprometeu-se a assegurar formação para actuais e futuros professores, melhorar a monitorização para assegurar a inclusão e facilitar o registo de queixas de bullying. As aulas dedicadas à inclusão e igualdade vão ser “transversais a diferentes idades e diferentes disciplinas, agrupadas em vários temas”. Os “factos vão ser apresentados de foram objectiva e sensível”. O objectivo é fazer com que “todos as crianças e jovens LGBTI se sintam seguros, apoiados e incluídos na escola” mas também “apoiar todos os estudantes para celebrarem as suas diferenças, promovendo a tolerância e as relações positivas”.

“Estas recomendações representam esforços para adoptar uma abordagem educacional para lidar com o preconceito contra jovens LGBTI”, escreve a LGBT Youth Scotland, uma das associações de voluntários que trabalha na área da inclusão social. “Os jovens LGBTI dizem sentir-se excluídos ou sub-representados da própria experiência de aprendizagem. A implementação das recomendações do grupo de trabalho são uma excelente oportunidade para assegurar que a Escócia é o melhor país para estas crianças e jovens crescerem e atingirem o seu potencial máximo”, disse o director executivo da organização.

Jordan Daly, co-fundador da TIE, campanha que se iniciou em 2015 e que vê aqui a sua “maior vitoria”, descreveu a aprovação das aulas de inclusão LGBTI como “um momento histórico” para o país que mostra, aos jovens desta comunidade, “que são valorizados na Escócia”. “A educação é uma das principais ferramentas ao nosso dispor para lidar com o bullying, preconceito e discriminação — é assim que se dá forma ao tecido da nossa sociedade.”

A Escócia descriminalizou a homossexualidade apenas em 1980, 13 anos depois da Inglaterra e do País de Gales. Até 2000, era proibido por lei "promover intencionalmente a homossexualidade" nas escolas escocesas.

Em 2016, relembra o Guardian, o antigo líder do Partido Trabalhista Escocês disse que o país tinha “o parlamento mais gay do mundo”, já que quatro dos seis líderes dos principais partidos ali representados se identificavam como lésbicas, gays ou bissexuais. No entanto, o mesmo jornal publicou esta semana uma reportagem que denunciava "o falhanço iminente das propostas de educação sexual" do governo escocês, para as escolas.

Renata Monteiro
No Público
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Quando a ignorância provoca orgulho

Coreografia na Praia de Iracema, Fortaleza (CE), para demonstrar apoio ao então candidato Bolsonaro Reprodução Youtube
Aqueles que observam o fenômeno Bolsonaro de forma mais crítica e, por que não dizer, com certo humor, revelam uma discordância sobre as eleições e a ressaca pós-eleitoral. Um dos grandes nomes da fotografia, o brasileiro Sebastião Salgado, acha que o Brasil “ficou louco”. No seu diagnóstico, o país já dava “sinais de insanidade”, dois anos atrás quando operou um impeachment sem crime de responsabilidade. Quadro patológico que, agora, se agravou. Muita gente também entende que o Brasil não enlouqueceu, mas foi assaltado por um surto incontrolável de idiotia.

Bem, as duas hipóteses não são excludentes. Até porque, tanto a loucura quanto a burrice podem se enamorar do fascismo. Nos dois casos, os sintomas do paciente são similares: negacionismo, intolerância, brutalidade. Para quem sofre as consequências pouco importa se o motor daquilo é demência ou disparate.

Os italianos, que conviveram por décadas com o fascismo, primeiro apaixonadamente e depois com uma raiva que acabou dependurando Mussolini num gancho de açougue, sempre gostaram de discutir o assunto.

Federico Fellini, por exemplo, tratou dele no cinema e numa antiga entrevista ao El País, da Espanha. “A época do fascismo elevou a imbecilidade ao nível de pensamento político”, comentou o diretor. Para nós, 73 anos após a derrota do fascismo de Mussolini, é uma descrição que parece bem familiar, não?

Outro italiano, Umberto Eco, notou que, sob o prisma fascista, “pensar é uma forma de castração”.  O escritor e filósofo explicou que, por isso mesmo, a cultura é suspeita na medida em que é identificada com atitudes críticas.

“Foram tempos em que caía bem apresentar-se como ignorante”, agregou Fellini. O que nos aclara outro ponto: numa sociedade regida pelo fascismo, a cultura não só é suspeita como deplorável. Mais vale cultuar o corpo do que o espírito. Na Itália fascista, reparou Fellini, todo mundo se pôs a fazer ginástica e os músculos, desde logo, ganharam mais importância do que o saber. Para ele, “o fascismo foi triste porque fez com as pessoas se tornassem estúpidas e más. O italiano, em geral afável, despreocupado e generoso, tornou-se venal e instável”.

Logo, se a cultura é suspeita, cultiva-se a ignorância. O que Fellini e Eco testemunharam, na Itália fascista, reproduz-se em Pindorama. Aqui, turbinado pelas fake news que fazem vítimas aos milhões e instantaneamente. Sob bombardeio, figuras antes até doces, transformam-se. Convertidas, buscam a verdade que mais se adapta a sua transformação. Da cogitação partem em velocidade de trem-bala para a convicção sem um pit-stop na reflexão.

Então, fica mais fácil entender a existência de pessoas que, ainda hoje, acreditam naquela montagem da capa da revista Forbes apresentando Lula como o sujeito mais rico do país. Ou que o ex-presidente também é dono da Folha de S. Paulo. Juram que Dilma importou 50 mil haitianos para votarem nela em 2014. É a mesma massa que, em 2018, acreditou na existência do kit gay e que Haddad distribuiu mamadeiras em formato de pênis. Muitos professam a teoria da terra plana. Aos terraplanistas juntam-se os criacionistas e os que rejeitam a vacinação, expondo suas crianças a doenças que podem ter consequências trágicas.

Nenhuma dessas tolices – e dezenas de outras – é admitida em voz baixa, quase em sussurro, em particular. Muito pelo contrário. São gritadas para o mundo na rua, no WhatsApp, no Facebook, no Instagram, nas caixas de comentários.

Há uma espécie de orgulho de ser burro. Como escreveu um amigo, é a “burrice-ostentação”. Algo que não exige maior esforço. Afinal, não é necessário estudar para ser fascista. É uma ideologia absorvida mais pelo emocional do que pelo racional. Mais pelos bíceps do que pelo cérebro. E, para azar do Brasil, muito mais vem a caminho.

Ayrton Centeno
No Brasil de Fato
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11 militares são condenados no Chile por crimes durante a ditadura de Pinochet

O gal. Cheyre, comandante-chefe do Exército pinochetiano, acobertou crimes e ele próprio torturou
Militares faziam parte da "Caravana da Morte", comitiva militar comandada pelo general Sergio Arellano Stark, conhecido como "delegado pessoal" de Pinochet,e que assassinou 100 presos políticos

O juiz especial Mario Carroza sentenciou nesta sexta-feira com penas de prisão 11 militares reformados por envolvimento nos assassinatos de 15 opositores, cometidos na cidade de La Serena pela chamada "Caravana da Morte", em 1973, durante a ditadura de Augusto Pinochet, informaram fontes judiciais.

A "Caravana da Morte" foi uma comitiva militar comandada pelo general Sergio Arellano Stark, conhecido como "delegado pessoal" de Pinochet, que percorreu o Chile e assassinou 100 presos políticos que retirou das prisões.

Entre os condenados destaca-se o general Juan Emilio Cheyre, ex-comandante-chefe do Exército entre 2002 e 2006, que foi sentenciado a três anos e um dia de prisão pelo crime de acobertamento e poderá cumprir a pena em liberdade condicional. Por sua vez, o coronel Ariosto Lapostol Orrego, chefe do regimento na época, foi condenado a 15 anos e um dia de prisão como autor do homicídio dos 15 presos.

Vários militares condenados já estão na prisão cumprindo penas por outros casos de violações dos direitos humanos.

Os presos políticos foram assassinados no polígono do regimento e seus corpos foram jogados em uma vala comum do cemitério local. No dia seguinte, as autoridades publicaram uma nota relatando a execução "de 15 extremistas, em cumprimento do que foi decidido por tribunais militares em tempos de guerra". Os restos mortais das vítimas foram descobertos e identificados em 1998.

Durante a ditadura de Pinochet (1973-1990), conforme dados oficiais, 3.200 pessoas foram mortas por agentes do Estado, sendo que 1.192 ainda constam como detidas desaparecidas.
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Vereador quer substituir nas sessões leitura da Bíblia pela da Constituição

O vereador Lucas Gotardo (PSB), do Balneário Camboriú, pretende substituir a leitura obrigatória de trecho da Bíblia no início das sessões pela de partes importantes da Constituição.

A cidade fica no litoral norte de Santa Catarina, a 80 km de Florianópolis, e cerca de 125 mil habitantes. O prefeito é Fabrício Oliveira (PSB).

Gotardo colocou a proposta em uma enquete no Facebook. Se a maioria dos internautas for favorável, ele pedirá à Câmara a substituição da leitura bíblica.

O vereador diz reconhecer a importância da Bíblia e das religiões, mas o que está em jogo, acrescenta, e a obediência ao Estado laico, o que pressupõe liberdade religiosa e liberdade de consciência.

Ele argumenta que muitas pessoas não acreditam na divindade das religiões majoritários e outras que nem sequer têm religiosidade, e elas merecem respeito.

A democracia não é a ditadura da maioria sobre as minorias, afirma.

Gotardo diz que os seus colegas que quiserem continuar a ler a Bíblia e só fazê-lo quando forem à Tribuna, para falar sobre temas livres.

Até agora, a maioria (62%) dos participantes da enquete quer a leitura a Constituição.


No Paulopes
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A prisão de Joesley é um absurdo!

Imagina o que a PF do Moro ainda vai fazer!


A Polícia dita Federal de Minas desfechou a Operação Capitu e prendeu Joesley Batista, dono da JBS e interlocutor do presidente ladrão, naquele memorável diálogo do "tem que manter isso, viu?", no escurinho da varanda do Palácio Jaburu.

A prisão, agora, de Joesley é um absurdo e um prenúncio do que a Polícia dita Federal e ex-republicana poderá vir a fazer quando estiver sob o comando do implacável Judge Murrow.

Em resumo:

- prenderam Joesley com base nas informações que ele mesmo forneceu em sua colaboração que a Justiça aceitou;

- Joesley já esteve três vezes na sede da PF de Belo Horizonte para prestar informações;

- prisão preventiva se presta a preservação das provas;

- mas, que provas?

- o delator está à disposição da Justiça, com uma tornozeleira eletrônica!
Delatar?

Quem que vai confiar nessa geringonça que o Judge Murrow desvirtuou?

Você delata e sua delação se volta contra você mesmo, na suposição de você fraudou a delação!

Mas, há uma hipótese a considerar nessa significativa reação da Polícia dita Federal de Minas: o presidente ladrão teria encontrado uma forma de se vingar de Joesley...

Hipótese e nada mais que uma hipótese:

- “Esse filho... vai passar o Natal longe da família “, teria dito o anjo mau que habita a parte predominante do cérebro do presidente ladrão...

Em tempo: sobre as peripécias da PF do Moro, acompanhe aqui os passos da condução coercitiva a que a PF submete o ansioso blogueiro.

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O passado garimpeiro de Bolsonaro – e o perigo que essa paixão representa para a Amazônia

No passado, Bolsonaro e o pai tentaram a sorte como garimpeiros em Serra Pelada.  
Ilustração:Rodrigo Bento
Em momentos de folga, Jair Bolsonaro costuma estacionar perto de algum rio, arregaçar a barra da calça e entrar na água. Leva junto um jogo de peneiras e uma bateia, recipiente com fundo cônico usado para revolver água e cascalho, que carrega no carro. Ele vai em busca de ouro. “Sempre que possível eu paro num canto qualquer para dar uma faiscada”, disse ele em um vídeo que gravou para garimpeiros, de julho deste ano. “Faiscar” é o ato de procurar metais preciosos. Ele já expressou algumas vezes que “garimpo é um vício, está no sangue” – apesar de não ter permissão para isso.

Não é à toa que Bolsonaro é entusiasta da atividade: o garimpo já ajudou no sustento da família. Seu pai, Percy Geraldo Bolsonaro, foi um dos garimpeiros de Serra Pelada. O próprio Jair esteve lá, como o próprio presidente eleito afirmou no vídeo citado acima. Os representantes do clã Bolsonaro se juntaram aos mais de 100 mil garimpeiros que buscavam fortuna fácil na selva do Pará nos anos 80. Mais de 56 toneladas do metal precioso foram encontrados na região.
‘O garimpeiro é um ser humano e não pode continuar sendo tratado como algo de terceira ou quarta categoria.’
Eleito presidente, Bolsonaro sinaliza que irá ceder aos apelos dos garimpeiros, diminuindo restrições ambientais e liberando o garimpo em terras indígenas ou quilombolas. Ele também disse que quer flexibilizar a legislação que regula a exploração econômica de áreas verdes preservadas, como na Amazônia.

Garimpeiros que ainda hoje vivem na região de Serra Pelada dizem que o pai de Jair, que atuava como dentista protético sem diploma no interior de São Paulo, foi garimpeiro no começo da década de 1980, no auge da corrida do ouro. “O povo mais antigo lembra do pai do Bolsonaro por aqui, já faz muito tempo. Agora recentemente um dos filhos dele veio nos visitar durante a campanha”, me disse José Henrique Botelho Marques, 62, um dos diretores da Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros de Serra Pelada, que representa cerca de 40 mil garimpeiros.

Marques se mudou do Maranhão para Serra Pelada em 1982, após ouvir falar das facilidades em encontrar metais valiosos no local. Ele calcula ter recolhido cerca de um quilo de ouro em um ano – o equivalente a R$ 148 mil em valores atuais. “Isso foi pouco. Imagina quem pegou uma tonelada, 700 quilos…”, compara.

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Em abril de 1982, mais de 20 mil homens trabalham no garimpo de Serra Pelada.
Foto: Luiz Novaes/Folhapress

Em julho, Jair Bolsonaro recebeu em mãos um abaixo-assinado de mais de 500 garimpeiros de Serra Pelada, que pedem o fim das restrições ambientais que proíbem o trabalho de garimpo mecanizado em uma área de 100 hectares que compreende a antiga mina.

Os signatários sonham com a possibilidade de uma nova corrida pelo ouro e acreditam que a antiga mina, submersa desde 1992, ainda guarda toneladas do minério e seus derivados abaixo de 190 metros de profundidade. De acordo com a Cooperativa dos garimpeiros, o máximo alcançado até agora foram 150 metros.

“O garimpeiro é um ser humano e não poder continuar sendo tratado como algo de terceira ou quarta categoria. Se Deus quiser, vamos buscar meios para que vocês possam trabalhar com dignidade e com segurança”, disse Bolsonaro ao receber o abaixo-assinado.

É impossível precisar o número de garimpeiros que atuam de modo ilegal no país – a estimativa é entre 80 mil e 800 mil. Eles se concentram em regiões ermas, em terras indígenas preservadas, muitas vezes só acessíveis por helicóptero ou barco. A atividade clandestina destrói a vegetação e os rios. Um relatório recente da Polícia Federal mostrou que o garimpo de ouro no Pará despeja o equivalente a um desastre do Rio Doce a cada 11 anos.
‘O que seria do Brasil sem os bandeirantes que exploraram os diamantes?’
O mercúrio (usado no garimpo para “grudar” partículas de ouro) contamina águas e peixes por milhares de anos e causa uma série de doenças. O último levantamento sobre o assunto mostra que até 160 toneladas de mercúrio foram emitidos à atmosfera apenas em 2016.

O Ibama se esforça para combater os garimpos ilegais, colocando fogo em máquinas e destruindo pistas de pouso ilegais. Mas a tarefa parece infinita. Só neste ano, agentes do instituto realizaram ao menos três grandes operações de combate ao garimpo ilegal. Uma na Terra Indígena Tenharim do Igarapé Preto, no Amazonas, outra na Terra Indígena Munduruku, no Pará, e uma terceira na Terra Indígena Ianomâmi, em Roraima. O Exército, inclusive, instalou bases fixas de vigilância ao garimpo no local, na fronteira com a Venezuela.

Outra promessa de Bolsonaro, a de unir os ministério do Meio Ambiente e da Agricultura, pode dificultar as ações e aumentar os conflitos.

Em várias ocasiões, Bolsonaro já disse que as riquezas minerais devem ser liberadas para extração pelos brasileiros. “O que seria do Brasil sem os bandeirantes que exploraram os diamantes? Teríamos um terço do território atual se não fossem eles. É preciso parar de tratar o garimpeiro como bandido no Brasil”, já afirmou.

A associação de garimpeiros levou suas demandas apenas a Bolsonaro. Segundo Marques, houve tentativas de diálogo com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas ele não cedeu aos apelos. Por isso, o petista Fernando Haddad nem foi procurado.

Por causa da receptividade à causa, Bolsonaro é idolatrado em Curionópolis, cidade que abriga Serra Pelada. Algumas montagens na internet alteram o nome da cidade para “Bolsonópolis”, como uma brincadeira. Moradores de um bairro sem asfaltamento fizeram uma vaquinha para instalar um outdoor em apoio a ele. Esperam que, no governo do militar, a bonança volte a reinar.

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Foto: Reprodução/Facebook

“Ambição e imaturidade”

Um kit para garimpo, como o usado por Bolsonaro, é vendido por R$ 310 no Mercado Livre. Se tiver sorte e achar três gramas de ouro, o equivalente ao peso de uma moeda de um centavo, já se paga o kit e ainda sobram R$ 134. A cotação do ouro em 1° de novembro estava em R$ 148 o grama.

A atividade garimpeira é tida por muita gente como promessa de dinheiro fácil e rápido. A ambição de enriquecer rapidamente e ter poder chegou a constar na ficha de Bolsonaro no Exército Militar. Em 1983, ele resolveu passar as férias em Saúde, na Bahia, para garimpar. Estava com outros cinco militares, sendo que dois “estavam sob seu comando”.

A situação foi registrada na avaliação feita pelos superiores na época. Segundo as anotações, eles atestaram que Bolsonaro tinha grande “ambição e imaturidade”, e que se percebeu “pela primeira vez sua grande aspiração em poder desfrutar das comodidades que uma fortuna pudesse proporcionar”. Na época, Bolsonaro respondeu aos superiores que não teve lucro.

Ligação antiga

Em 1986, o então deputado federal Sebastião Rodrigues de Moura, o Major Curió, do PMDB, enviou uma carta cheia de elogios a Bolsonaro. Dizia que desejava “passar o bastão” ao capitão, que na época tinha 31 anos. Curió era o interventor da região de Serra Pelada. A cidade que abriga a mina, de 18 mil habitantes, foi batizada de Curionópolis em sua homenagem. Ele comandou o massacre da guerrilha do Araguaia, no Sul do Pará, entre 1972 e 74, em que pelo menos 52 pessoas morreram. Bolsonaro e Curió se conheceram em Serra Pelada, segundo o próprio Bolsonaro.


Na carta, que faz parte dos registros do Arquivo Nacional, em Brasília e pode ser lida na íntegra aqui, Curió afirma que reconheceu em Bolsonaro um parceiro na luta contra a “maior das ditaduras, o comunismo”. “Competirá a você, meu jovem companheiro, carregar este bastão, levando-o à vitória, com a graça de Deus e a ajuda dos homens de bem desta Nação”, diz o texto.

Na época, Bolsonaro ainda era um desconhecido. Sua única ação de projeção nacional havia sido escrever um artigo na revista Veja reclamando do salário baixo dos militares. Acabou sendo preso pela crítica, acusado de “transgressão grave”. Poucos meses depois, a mesma Veja revelaria que ele planejava explodir bombas em quartéis para pressionar o comando – o que ele sempre negou.

Major Curió é hoje coronel da reserva. Aos 83 anos, vive em Brasília praticamente isolado, tem problemas de saúde e quase não se comunica mais com a população de Curionópolis.

Ex-agente do Serviço Nacional de Informações, o SNI, Curió tinha prestígio junto à ditadura militar por causa do “bom serviço” prestado na guerrilha do Araguaia. Por isso, foi o indicado para administrar Serra Pelada quando o local teve um boom demográfico durante o apogeu do garimpo. Como uma espécie de interventor da comunidade, ele definiu regras rígidas, como a proibição de bebidas alcóolicas e de mulheres na região do garimpo. Costumava dizer que “o seu revólver soava mais alto”.
‘Cantamos não a canção da infantaria, mas o Hino Nacional. E as vozes daqueles homens mal barbeados e sujos pela lama avermelhada da maior mina de ouro do planeta, ecoaram pela selva amazônica.’
A mão de ferro garantiu ordem e estabilidade. Em 1980, o presidente João Batista Figueiredo visitou o local. O Jornal Nacional da época noticiou que uma multidão de garimpeiros recebeu Figueiredo cantando o hino nacional diante da bandeira do Brasil.

O momento é narrado por Curió na carta a Bolsonaro: “Vibrantes, patriotas, dignos e honrados, cantamos não a canção da infantaria, mas o Hino Nacional Brasileiro. E as vozes daqueles homens mal barbeados e sujos pela lama avermelhada da maior mina de ouro do planeta, ecoaram pela selva amazônica, impressionando o mundo”.

Em 2000, Curió foi eleito prefeito de Curionópolis. Em 2008, teve o mandato cassado por compra de votos e abuso de poder econômico. Ainda assim, os moradores lembram com saudade do cacique político. “Naquela época não tinha bagunça como tem hoje”, disse Marques, que ainda mora na localidade.

Grupo Especializado de Fiscalização do Ibama realiza operação de combate ao garimpo ilegal de ouro no rio Jamanxim, no Pará. Balsa usada para extração ilegal é destruída na Floresta Nacional Itaituba 2.
Grupo Especializado de Fiscalização do Ibama realiza operação de combate ao garimpo ilegal de ouro no rio Jamanxim, no Pará. Balsa usada para extração ilegal é destruída na Floresta Nacional Itaituba 2.

Hoje, os ex-garimpeiros que permanecem na região se dedicam principalmente à lavoura, à criação de peixes e abelhas. “Não sobrou nada de todo o dinheiro que fizemos naquela época. A gente pensava ‘vou gastar tudo hoje, que amanhã tem mais’. Mas uma hora acabou”, conta o diretor da cooperativa.

Depois do garimpo, Bolsonaro e Curió voltaram a se cruzar em Brasília. Curió foi deputado federal até 1987 e continuou residindo na capital federal durante a década de 1990. Bolsonaro foi eleito pela primeira vez para a Câmara em 1989. Eles não se cruzaram nos corredores da Câmara, mas em momentos de lazer. Partilhavam, pois, dos mesmo ideais.

Foi Curió o autor da frase “quem procura osso é cachorro”. Ele tentava desqualificar a tentativa de encontrar os corpos de mortos da guerrilha do Araguaia. A frase de Curió estampou um cartaz que Bolsonaro pendurou na porta de seu gabinete como tentativa de afrontar os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, que buscava recuperar a história do Araguaia.

Na época, alguns deputados disseram que o hoje presidente eleito estava tentando aparecer na mídia. “Seria uma omissão tratar o caso apenas como desequilíbrio mental. Até os desequilibrados mentais têm limite”, disse a então deputada Jô Moraes (PCdoB) ao Estado de São Paulo. De qualquer maneira, a busca pelos desaparecidos não tinha muito como prosperar: os militares desenterraram os corpos, arrancaram os dedos e os dentes e jogaram tudo em rios para não serem identificados.

Amanda Audi
No The Intercept
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A fronteira incandescente de Walter Benjamin e Bolsonaro


Lembro de um conto remoto sobre o dilema de Benjamin fugindo do nazismo.”Não use: ainda tem saída, teria escutado Walter Benjamim de Artur Koestler,  quando este lhe entregou a dose letal de morfina para que a mesma fosse usada em situação extrema, na sua busca de asilo em Portugal”. O lugar de passagem era em  Portbou, na fronteira da Espanha com Portugal, que jamais seria atravessada depois de Benjamin caminhar pelos caminhos de fuga da resistência nos Pirineus. Aquela pequena cidade espanhola já estava em mãos franquistas e quando a Polícia foi buscá-lo, na manhã azul de setembro – no pequeno Hotel onde aguardava a permissão para atravessar – Benjamin já havia se suicidado. Era o dia 26 de setembro de 1940 e as tempestades da guerra se projetavam sobre os povos como uma chaga maldita, um castigo dos deuses do mal, levado pelos sopros doentios da ira do capital.

Hoje sonhei com o conto. Nele, aquela fronteira já não era mais um limite geográfico, mas um símbolo incandescente que separava a vida e a morte de um judeu socialista, filósofo da melancolia e da liberdade que, ou seria eliminado ali mesmo ou mais tarde num dos campos da morte. Já se disseminava em toda a Europa o tacão nazista. O sonho – como o desta noite – é uma forma de loucura contida em épocas de paz e também uma forma de sanidade reprimida, em épocas de repressão, onde as pós-verdades são cautelosamente montadas para dar coerência à mentira: o sonho, neste tempo,  é uma fronteira do medo transgredido pela coragem da imaginação.

No sonho eu entrava numa das “Passagens” do livro de Benjamin sobre Paris e o via num bar. Ele estava atrás de uma vitrine macilenta, com seus óculos redondos e sua vasta cabeleira  escura e conversava com alguém que lhe interrogava de forma incessante e lhe fazia observações mais ou menos pomposas e perguntas imprudentes para sua situação de acossado. Estas eram tanto profundas e estranhas, como simples e diretas, voltadas para a educação, a aura da obra de arte, os brinquedos de crianças, temas que ele tratara  em sua obra genial, influenciada pela mística de Gerson Scholen e pelo velho Marx. Eu não escutava Benjamin atrás do grosso vidro meio embaçado, mas as suas respostas ecoavam diretamente na minha mente, como se eu estivesse ao seu lado.

Dei-me conta que sonhava porque Benjamin falava em português – sem sotaque e sem vacilações – usando as nossas palavras mais sutis e também as mais simples e certeiras. A  última frase que ouvi dele, mentalmente – ainda de fora do bar – foi a seguinte: “a informação só tem razão no momento que é nova”, porque “a construção da vida” – prosseguia ele – “encontra-se atualmente mais em poder dos fatos do que das convicções”. O sonho era estranho e dentro dele comecei a refletir, se o que eu vivia era mesmo um sonho no qual eu refletia, ou se eu refletia acordado tentando sonhar

Benjamin quando decidiu morrer o fez num ato supremo de integridade lúcida e considerou a sua viagem fora das auras da vida como uma passagem para a luz que se esvaia radiante nos breves arcos das passagens de Paris. Mais além da melancolia com que compreendeu e amou a vida, sua partida foi escolhida por uma decisão moral para um adormecimento eterno, sem som dentro do sono. Assim, ele escolhera uma opção de resistência pela negação para que seu corpo não fosse profanado pelas mãos sujas do fascismo. Ele estaria, ora em diante, sempre ali para o repouso definitivo na memória do mundo.

Benjamin lembrou – ainda pensei no sonho – um velho texto escrito há alguns anos sobre o aprendizado dos homens de circo para dominar os animais. No texto ele concluía que, no treino para a subjugação das feras os domadores ficavam sempre regulados pelos impulsos do animal, que acabavam por limitar a inteligência dos treinadores, então cercados pelo instinto das feras. Ou seja, o “objeto” descrevia para o “sujeito” em que  contornos ele poderia ser eficaz, pois a natureza e a animalidade não são inteligentes, mas adaptáveis. E nem nos limites da sua ira os animais distinguem o bem e o mal,  pois não julgam nem a dor nem o prazer.

No meu sonho entro no bar e vejo Benjamin ouvir, meio enfastiado, um interlocutor que me lembrava vagamente um Foucault mais moço do que nas fotografias que circularam no final da sua vida, ou quem sabe um Agamben mais juvenil do que nas suas fotos atuais. Seu fastio era de um cansaço misturado com uma certa impotência, mas isso não me impediu de escutar – mentalmente – mais uma sentença de Benjamin, que o bar aspirou cheio de leveza e elegância: “Nunca ninguém se torna mestre num domínio em que não conheceu a impotência, e quem oculta esta ideia saberá também que tal impotência não se encontra nem no começo, nem antes do esforço empreendido, mas sim no seu centro”.

Ainda não acordado, tento por uma ordem no meu sonho catártico: a construção da vida está mais “subordinada aos fatos do que às convicções”; quando não se pode vencer o animal faz-se o que ele não pode  prever, no exercício da sua animalidade; quando nos sentimos impotentes estamos no “centro” do esforço a ser empreendido e podemos vencer. Entre no bar e permaneço agora encostado no balcão de madeira escura. Não sei se estou numa Berlim imaginária, num boteco amável da Lapa, num bar em Barcelona ou numa tasca afável de Lisboa. Reconheço então -miserável e gloriosamente- que na verdade estou no centro “impotente” do esforço e passo a lembrar, ainda no sonho, o que Koestler disse a Benjamin, quando entregou-lhe a morfina que o levaria aos arcos livres da morte. Ele disse: “não use, ainda tem saída!”

Concluo que, quando hoje falamos abstratamente em “resistência”, estamos falando em bloquear só a animalidade da violência anunciada, o que é necessário, mas insuficiente. O Bolsonaro que está falando hoje é o mesmo de antes, mas ele já é também – como Presidente – não somente uma fúria irracional, mas igualmente a fusão do seu “ethos”  domado e primitivo – que anunciava matar trinta mil – com o projeto ultraliberal que precisa reformar a Constituição para debelar a democracia. E que também precisa ter confiabilidade internacional para lidar com o dinheiro global do “rentismo”: sua missão agora é usar a fúria para fazer as reformas, não somente para satisfazer a sua pulsão de ódio aos diferentes.

Por isso, a cada anúncio de medidas que estruturem as políticas do seu Governo, temos que mostrar ao povo quais seriam as nossas. As medidas de uma nova Frente Política – livre dos corruptos e corruptores que já estão todos ao seu lado – para mostrar que podemos resolver os problemas mais graves do país, com menos desigualdades e mais Justiça.

A fusão explícita do fascismo – autoritário e conservador na política e nos costumes – com a modernização capitalista liberal que impulsiona e modela novas forças produtivas e serviços, é uma experiência de opressão social que pode criar sua base de sustentação nos próprios excluídos, com o apoio feroz do oligopólio da mídia. Podem construir aquela famosa sociedade dos três terços: 1\3 do povo como caso de Polícia; 1\3 com baixos rendimentos, assalariados, precários, intermitentes, que sobrevivem na pobreza e nas bordas da miséria; 1\3 de integrados, ou razoavelmente integrados na sociedade feérica de consumo básico ou suntuário.

“Ainda tem saída” sim!,  mas ela não é simplesmente resistência.

Tarso Genro foi Governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil
No Sul21



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Solidariedade ao Acampamento Quilombo Campo Grande em Minas Gerais


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A crítica à ditadura militar na obra da Legião Urbana

“E tem gente no Brasil com esses papos de ‘ah, não, os militares têm de voltar’. (…) Será que nós esquecemos como é ruim não ter liberdade?”


A mais conhecida banda da História do rock brasileiro abordou os militares e a ditadura por eles comandada em seu repertório, sempre de forma muito negativa. Tendo sido punk em Brasília, nos anos 1970, Renato Russo era alvo constante da repressão nas ruas e nas festas que frequentava com a turma de jovens da cidade que gostava de rock. Inclusive, sofreu agressão física cometida por um soldado ao tentar argumentar contra as arbitrariedades praticadas esse último.

Certa vez, em um bar, pegou um microfone ligado ao amplificador e xingou a ditadura, o que foi uma atitude corajosa. E ainda viu canções de sua autoria censuradas por técnicos da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), sendo elas: “Baader-Meinhof Blues” (com Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos), “O Reggae” (com Bonfá), “Tédio (com um T bem grande pra você)” e “Dado Viciado”. [2] Depois liberadas, as duas primeiras foram incluídas em Legião Urbana (1985), a terceira em Que país é este 1978/1987 (1987) e a última no álbum Uma outra estação (1997).

Não foi por acaso que o combate à ditadura tenha aparecido nos discos da Legião. O artista confirmou em entrevistas ser em si muito do que escrevia.[3] “Que país é esse” é uma crítica direta à experiência dos militares no poder. Escrita por Renato em 1978, foi inicialmente tocada pela banda punk Aborto Elétrico, por ele liderada. O seu refrão é inspirado na indagação do então presidente da Aliança Renovadora Nacional (Arena, partido de sustentação da ditadura), Francelino Pereira: “Que país é esse em que o povo não acredita no calendário eleitoral estabelecido pelo próprio presidente?”. Essa frase de 1976 se referia à dúvida lançada pela oposição quanto à promessa do general presidente Ernesto Geisel no sentido de abrir gradualmente o regime de exceção, com eleição direta para governadores dali a dois anos.

A letra critica elementos caros à ditadura, como a questão social “Nas favelas” (que cresceram junto à explosão das megalópoles em tais anos) e “na Baixada Fluminense” (com os seus grupos de extermínio, que surgiram antes do Golpe de 1964, mas incrementaram a sua atuação depois dele); a iniquidade política representada por um Senado onde há “Sujeira”; o descrédito com a Constituição autoritária que “Ninguém respeita (…)”; o nacionalismo ufanista que levaria todos a acreditarem “no futuro da nação”, apesar do desalentador cenário; a visão negativa do país que integrava o Terceiro Mundo e era motivo para “Piada no exterior”; o genocídio indígena, que levaria o Brasil à riqueza caso todas as almas fossem vendidas “num leilão”, tendo em vista a construção de rodovias superfaturadas que conectavam longínquas regiões do país e faziam a felicidade das empreiteiras. Isso tudo, além de lembrar a resistência armada à ditadura “no Araguaia” e a luta de classes na subversão do trabalhador cujo sangue “anda solto” mesmo após a sua morte, e é capaz de manchar documentos secretos “Ao descanso do patrão” – naquela época o fenômeno do Novo Sindicalismo indicava a reorganização da classe trabalhadora.[4]



Mais amplamente, o questionamento de Renato era potencializado pela crise do “milagre brasileiro”, que propiciava a escalada da dívida externa e da inflação, se não bastasse o próprio arrocho salarial, que financiara internamente tal política econômica e, consequentemente, depauperara as condições de vida da classe trabalhadora. Essa indignada avaliação sobre o cenário nacional foi revalorizada segundo o contexto do ano de 1987, quando foi lançada ao grande público. A pergunta do título ganhou enorme força diante dos repetidos escândalos de corrupção, da crise decorrente do Plano Cruzado II – que levou à superinflação e a uma nova corrosão do salário mínimo –, da falta de legitimidade do presidente José Sarney – ex-dirigente da Arena, e que chegara ao poder ilegalmente na condição de vice de Tancredo Neves (morto antes de tomar posse) –, e da decepção com a Nova República, mais amplamente.

“Que país é este” é uma canção de três acordes – copiados de “I don’t Care”, (Ramones), de 1977 –, melodia simples e poesia crua, compatível com a aspereza musical evidenciada pela guitarra distorcida de Dado e influenciada pelo punk. A dramaticidade da interpretação vocal cresce nos versos que antecedem o refrão e explode nessa parte, com o questionamento político sendo realizado de forma gutural. A gravação chegou ao primeiro lugar do programa Globo de Ouro – que reproduzia semanalmente na televisão as paradas de sucesso das rádios nacionais –, ganhou o prêmio de melhor música de 1987 na votação dos leitores da Bizz (a revista de música mais importante do país), e contribuiu para que o LP Que país é este 1978/1987 atingisse o topo da lista dos mais vendidos, em março de 1988.[5]

O maior sucesso de álbum foi “Faroeste Caboclo”, que arrebatou um bloco inteiro do programa televisivo anteriormente citado, devido aos seus 9 minutos e 10 segundos de duração, o que foi considerado um marco da consolidação do rock brasileiro pela crítica especializada daquela época. A canção foi composta por Renato, em 1979, durante duas tardes, apesar de conter 159 versos. Essa facilidade foi relacionada pelo autor com o ritmo fácil na língua portuguesa, baseado na divisão do ritmo do repente.[6] Os diferentes momentos da trajetória de João de Santo Cristo são acompanhados por mudanças no ritmo da música, que oscila entre o sertanejo, o reggae e o rock. A letra faz referência ao abismo entre os mundos rural e o urbano no Brasil, enquanto a sua vida é atravessada pela violência, pela brutalidade das relações humanas e pelo preconceito classe e cor.[7]



Entre os trechos que justificaram a proibição de sua radio-fusão – contornada pelos programadores das FMs, que tomaram a iniciativa de editar os palavrões cantados –, encontra-se a crítica à covardia dos atentados terroristas praticados pelos militares da “linha-dura”, que promulgavam um discurso anticomunista e anticorrupção, e almejavam por maiores prazos para completar os expurgos iniciados em 1964 (a chamada “operação limpeza”).[8] Entre os exemplos mais conhecidos desse tipo de ação militar estão o Caso Para-Sar (plano de explosão do gasômetro da cidade do Rio de Janeiro, suspenso após a denúncia de Sérgio Macaco, incumbido por um brigadeiro de colocá-lo em prática), a carta-bomba enviada ao presidente da OAB e que matou a secretaria Lyda Monteiro da Costa, em 1980, e o frustrado Atentado do Riocentro, cujas bombas originalmente destinadas ao publico presente às comemorações do Dia do Trabalhador estouraram acidentalmente no colo dos militares terroristas designados para a missão, em 1981.

Na letra, o narrador observador revela a visita de um emissário ao personagem João de Santo Cristo:

“O tempo passa e um dia vem na porta um senhor de alta com dinheiro na mão/ E ele faz uma proposta indecorosa e diz que espera uma resposta/ Uma resposta de João”. Com o objetivo de acentuar a indignação do protagonista da história, esse assume o discurso na primeira pessoa, enquanto a parte musical transita para um rock mais pesado: “– Não boto bomba em banca de jornal nem em colégio de criança/ Isso eu não faço não/ E não protejo general de dez estrelas, que fica atrás da mesa/ Com o cu na mão”/ E é melhor o senhor sair da minha casa/ Nunca brinque com um Peixes de ascendente Escorpião”. O narrador observador retoma o seu lugar para citar a promessa de retaliação feita pelo representante da ditadura, para, em seguida, ceder a palavra a esse último: “Mas antes de sair, com ódio no olhar, o velho disse: – Você perdeu sua vida, meu irmão”.

O tema da ditadura militar voltou a ser abordado pela Legião no álbum subsequente, As Quatro Estações (1989), o seu maior sucesso comercial (que conquistou o disco de platina, com mais de 2 milhões de cópias vendidas). “1965 (Duas tribos)” foi escrita por Renato, Dado e Bonfá, com um ritmo de rock intenso e a instrumentação básica desse estilo, composta por guitarra distorcida, baixo e bateria. No seu título há um recurso poético, que avança um ano na História brasileira para fugir ao óbvio e assim evitar a grafia do famigerado 1964.



A experiência da tortura é tratada nos versos em que a brutalidade da ação sofrida pelo narrador é inteligentemente contraposta pela ideia de normalidade, essa sugerida pela citação da estação do ano associada às férias e ao lazer – além da lembrança de que o mesmo tipo de atrocidade poderia ter acontecido aos seus familiares:

“Cortaram meus braços/ Cortaram minhas mãos/ Cortaram minhas pernas/ Num dia de verão/ (…) Podia ser meu pai/ Podia ser meu irmão”. A letra também cita o extermínio de militantes de organizações de esquerda que empregavam a luta armada, enquanto o narrador lembra objetos lúdicos de sua infância – nesse ponto, poeticamente, Renato se refere à realidade de que os jovens estudantes engrossavam as fileiras do polo mais extremado da resistência à ditadura[9]: “Mataram um menino/ Tinha arma de verdade/ Tinha arma nenhuma/ Tinha arma de brinquedo/ Eu tenho Autorama/ Eu tenho Hanna-Barbera/ Eu tenho Pêra, Uva e Macã/ Eu tenho Guanabara/ E modelos Revell”.

Outra dimensão da ditadura vista na letra diz respeito à propaganda política ufanista, que amparava ideologicamente a repressão e buscava encobri-la:[10]

“O Brasil é o país do futuro/ (…) Em toda e qualquer situação/ Eu quero tudo pra cima (…)”. Além disso, há a ideia de inversão de valores no Brasil desse período, relacionada com o estigma lançado contra os setores que se opunham ao arbítrio: “Quando querem transformar/ Dignidade em doença/ Quando querem transformar/ Inteligência em traição/ Quando querem transformar/ Estupidez em recompensa/ Quando querem transformar/ Esperança em maldição”. Por fim, o narrador cobra o posicionamento dos brasileiros diante da violência de Estado, apelando para o discurso bíblico: “É o bem contra o mal/ E você de que lado está?/ Estou do lado do bem/ (…) Com a luz e com os anjos”.

A canção mais inflamada da Legião contra os militares e a ditadura não foi um sucesso radiofônico, ao contrário de “1965 (Duas Tribos)”. Incluída no álbum Uma outra estação, o último da banda, a canção “La Maison Dieu” foi composta por Renato, Dado e Bonfá.



Com ritmo arrastado, teclados fazendo a cama e guitarras pesadas carregadas de efeitos, lembra na primeira estrofe uma prática comum na ditadura: a deleção de opositores. Ao não aceitar ser um “dedo-duro”, o narrador indiretamente crítica essa prática dos setores da direita nos chamados Anos de Chumbo:

“Se dez batalhões viessem à minha rua/ E vinte mil soldados batessem à minha porta/ À sua procura/ Eu não diria nada/ Porque lhe dei minha palavra”. Saltando para a quarta estrofe, vemos o narrador contando que pensou ter visto a sua morte, sendo essa uma personagem que lhe faz recordar os horrores da ditadura militar. Ela assume o discurso na primeira pessoa e aborda a brutalidade da tortura e das execuções perpetradas pelos militares: “Eu sou/ A pátria que lhe esqueceu/ O carrasco que lhe torturou/ O general que lhe arrancou os olhos/ O sangue inocente/ De todos os desaparecidos”. O realismo segue no trecho seguinte: “O choque elétrico e os gritos/ – Parem, isso dói”.

A estrofe mais ácida da letra é a sétima, em que há: o xingamento explícito à experiência do golpe de 1964 (chamado de “revolução” com o provável objetivo de zombar do vocabulário adotado pelos militares), e também às tropas e às altas patentes do Exército brasileiro; a ideia de manutenção de uma memória antibarbárie na sociedade; e a reprovação da Lei da Anistia, uma estranha figura jurídica que afirma uma falaciosa reciprocidade entre opositores políticos e agentes de Estado, através dos chamados “crimes conexos”.[11] Eis os versos:

“Eu sou a lembrança do terror/ De uma revolução de merda/ De generais e de um exército de merda/ Não nunca poderemos nos esquecer/ Nem devemos perdoar/ Eu não anistiei ninguém”. A estrofe subsequente alerta para as continuidades da repressão e da ditadura, décadas depois, sendo possível que se trate de uma crítica à Polícia Militar, tendo em vista o emprego da palavra “uniforme”, no sentido do vestuário utilizado por uma determina corporação: “Abra os olhos e o coração/ Estejamos alertas/ Porque o terror continua/ Só mudou de cheiro/ E de uniforme”. Os últimos versos são perturbadores por soarem atuais e darem a entender que o mal estaria por chegar para os que continuassem vivos: “Eu sou a tua morte/ E lhe quero bem/ Esqueça o mundo, vim lhe explicar o que virá/ Por que eu sou, eu sou, eu sou”.

Além das contundentes críticas à ditadura militar, a Legião abordou a temática antiguerra e antimilitarista nas canções de Renato. “Soldados” (com Marcelo Bonfá) – com o significativo verso “A gente não queria lutar” – [12] e “A canção do senhor da guerra” – cujo personagem central “(…) não gosta de crianças” –, ambas de 1985, foram compostas e gravadas quando ainda existia ditadura. São, portanto, materiais culturais que indiretamente combatiam a presença dos militares no poder. Já “Plantas embaixo do Aquário” – com mensagem “Não deixe a guerra começar”, no refrão –, de 1986, estava, provavelmente, mais relacionada com o temor da eclosão de uma guerra nuclear entre os EUA e a URSS.



A reprovação da ditadura pelo letrista da Legião foi declarada em entrevistas. Em 1994, no Programa Livre, do SBT, ele disse:

“A gente se esquece que, até pouco tempo atrás, dependendo das ideias que seu pai tivesse, seu irmão, seu namorado tivessem, ia bater gente na sua casa, e eles iam pegar essa pessoa e você nunca mais ia saber o que tinha acontecido com essa pessoa. Ficou por isso mesmo e não se fala nisso. Tá uma coisa muito perigosa, eu acho, de tipo assim: ‘não, a gente era feliz naquela época’, tipo assim… Gente, eu não me lembro de ser feliz naquela época não. Fazer redação dizendo que o presidente era maravilhoso e muito tempo depois a gente descobre que pessoas estavam sendo mortas, sabe? Em nome de uma grande coisa que não se sabe o que que é. E eu acho isso muito péssimo”.

No mesmo ano, falou ao programa MTV no Ar: “E tem gente aqui no Brasil que está com esses papos de ‘ah, não, os militares têm de voltar’. (…) Será que esse povo esqueceu? (…) Será que nós esquecemos como é ruim não ter liberdade?”. Não obstante, referiu-se ao fascismo, sobre o qual acreditava ser necessário debater:

“Eu acho que a grande imprensa está vacilando, tá pisando na bola e tem grandes jornais aqui do Rio de Janeiro dando página inteira pra fascista e pra careca. Então faz aquela reportagem de moda, entendeu? ‘Não, é porque eu gosto de dar porrada, sabe qual é?’ Isso em reportagem de moda. Você lê aquilo e ninguém faz nada, sabe? É nazista em tudo quanto é canto. (…) Quer dizer, são sexistas, são intolerantes, são idiotas, e o problema é que são idiotas com ideologia. E, de repente, eu, como pessoa, como indivíduo e como artista, pra manter, eu achei que, pra eu manter a minha consciência tranquila, seria legal dar uma resposta a isso. (…) Eu acho que o importante é a informação. E a base do fascismo, e do preconceito e da intolerância, é a falta de informação”.

A prática política de Renato ia além dos combativos conteúdos presentes na Legião, uma vez que ele era militante dos direitos gays e eleitor da esquerda brasileira. Em 1989, ele manifestou intenção de voto em Roberto Freire, candidato do Partido Comunista Brasileiro, e em 1994, decidiu-se por Lula. Concluindo, o repertório musical resistente à ditadura não é composto apenas pelas importantes obras engajadas de compositores dos anos 1960 e 1970. Os materiais culturais da Legião, nas décadas de 1980 e 1990, podem ser acionados em eventuais tempos sombrios.

[1] Aos participantes da Domingueira Artística, Edição Festival de Música, da Escola SESC (2018).

[2] MARCELO, Carlos. Renato Russo: o filho da revolução. Rio de Janeiro: Agir, 2012. p. 284-86.

[3] MERCURY, Julliany. Uma legião de poemas. Revista Brasileira de Estudos da Canção, Natal, n. 3, 2013.

[4] Trecho levemente modificado de: MATTOS, Romulo Costa. “DJ Coxinha”: a apropriação do rock pelo movimento pró-impeachment. Blog Junho, 28 de março de 2016.

[5] MATTOS, Romulo Costa. “Que país é este”: a dupla historicidade de uma canção engajada do rock brasileiro. Blog Junho, 28 de jun. 2015.

[6] SIQUEIRA JÚNIOR, Carlos Leoni Rodrigues. Letras, músicas e outras conversas. Rio de Janeiro: Gryphus, 1995. p. 72.

[7] VILLA-LOBOS, Dado, DEMIER, Felipe, MATTOS, Romulo. Dado Villa-Lobos: memórias de um legionário. Rio de Janeiro: Mauad X, 2015. p. 134.

[8] FICO, Carlos. “Espionagem, polícia politica, censura e propaganda: os pilares básicos da repressão”. FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucília de Almeida Neves (Orgs). O Brasil Republicano, v. 4. O tempo da ditadura: regime militar e movimentos sociais em fins do século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 198.

[9] RIDENTI, Marcelo. O fantasma da revolução brasileira. São Paulo: Unesp/Fapesp, 1993. p. 66.

[10] FICO, Carlos. op. cit. p. 174.

[11] No caso dos primeiros, sempre se soube os crimes a eles imputados, assim como a maioria respondeu a processos na Justiça, enquanto no caso dos segundos nunca houve processo ou nomes oficialmente trazidos a público. Não obstante, a tortura é crime imprescritível e inanistiável. COIMBRA, Cecília Maria Bouças. Tortura ontem e hoje: resgatando uma certa história. Psicologia em estudo, Maringá, vol.6, n.2, 2001, p. 17.

[12] Nessa faixa, é possível enxergar a temática gay inserida em meio aos discursos antimilitaristas. Renato pacientemente explicava aos que se espantavam com essa afirmação que os dois meninos mencionados na letra descobrem que se gostam no campo de batalha. DAPIEVE, Arthur. Renato Russo: o trovador solitário. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. p. 74.

Romulo Mattos
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O mistério de Marielle Franco


Por que, o assassinato de Marielle Franco ainda não foi solucionado?

Os desavisados poderão alegar não haver mistério em tamanho atraso, sendo essa a norma no Brasil, onde a maioria dos assassinatos nem ao menos é investigada. Ocorre, no entanto, que quando existe interesse na solução do crime, os assassinatos no país são investigados e esclarecidos, embora, com respeito à maioria deles, não haja interesse em esclarecê-los, havendo, frequentemente, mais empenho em ocultar os fatos e encobrir os assassinos que em apontá-los. As fortes pressões internacionais, somadas às frequentes manifestações locais, no entanto, têm garantido o esforço na solução do assassinato de Marielle, de modo que, se as investigações ainda se arrastam por tão longo tempo – já se vão quase 8 meses da execução –, é porque pressões igualmente intensas têm se manifestado em sentido contrário, dificultando a solução do crime e tentando proteger os assassinos, diligentemente poupados, até agora, dos menores contratempos.

Lembremos que, embora houvesse indícios de que Marielle tivesse sido executada por policiais – ou talvez por isso –, as testemunhas do assassinato foram sumariamente dispensadas pelos policiais que compareceram à cena do crime.

De qualquer modo, os assassinos já foram apontados pelo jornal O Globo – veja reportagem ao final desse texto –, que revelou detalhes do crime, como o preço cobrado pelos matadores e a cobrança de adicional posterior, a título de ágio, decorrente da inesperada publicidade internacional recebida pelo caso.

O que resta, de fato, descobrir, ou melhor provar, é toda a imensa rede de apoio aos assassinos, que permite que eles atuem tão desembaraçadamente quanto mostrado pela reportagem de O Globo e Extra.

Dentre as várias ações de encobrimento dos assassinos, durante esses quase 8 meses, a mais descarada tinha sido a escolha de 2 bois-de-piranha, transformados, desde então, em judas tascados pelos meios de comunicação. A ação foi desencadeada 2 dias após a revelação, pela TV Record, de que a arma utilizada no crime havia sido uma submetralhadora de tipo utilizado pelas forças especiais da polícia, e quase exclusivamente por elas, no país.

Essa ação de encobrimento dos assassinos consistiu em desencavar uma das denúncias feitas semanas antes por um policial que costumava fazer bicos dando cobertura a grupos paramilitares conhecidos como milícias. Posteriormente, agastado com seus ex-patrões, o policial acusou-os do assassinato de Marielle, com base em lembranças de uma cena presenciada um ano antes, em um restaurante, quando um dos acusados teria se referido de forma irada e chula a uma mulher ligada ao deputado Marcelo Freixo, referência interpretada como direcionada a Marielle. Ironicamente, a acusação pífia alçou seu delator à categoria de “testemunha chave” do caso!

Tal frivolidade foi suficiente para lançar o foco dos meios de comunicação sobre os 2 bois-de-piranha apontados como mandantes do crime – curiosa e sintomaticamente, os outros citados pelo delator, vários deles policiais, não tiveram seus nomes divulgados nos meios de comunicação, tendo sido poupados do assédio direcionado exclusivamente aos 2 supostos mandantes do crime.

Um dos citados, Orlando de Curicica, encontra-se encarcerado em presídio desde agosto de 2017.

Interrogado por policiais e jornalistas sobre o assassinato de Marielle, o detento – fora de ação a mais de um ano –, reproduziu a notícia de que o “Escritório do Crime” teria se encarregado da execução de Marielle, repassando as informações detalhadas veiculadas pelos jornais.

Surpreendentemente, agora, a Procuradoria Geral da República (PGR) retoma, não só a denúncia pífia do policial empregado dos criminosos, mas a do próprio condenado acusado por ele, que se encontra cumprindo pena em presídio federal desde 9 meses antes do assassinato!

Assim, dias atrás, a PGR baseou-se em “denúncias gravíssimas” sobre as investigações do crime ocorrido 9 meses após a detenção do delator – denúncias, aliás, baseadas na reportagem citada acima e reproduzida abaixo, para iniciar uma “investigação da investigação”, nas palavras do ministro da segurança pública.

Distorcida, a “denúncia gravíssima” teve seu alvo transferido pela PGR aos investigadores do crime, transformando a farsa em uma bufoneria bizarra e tresloucada.


A galhofa

O cerne da pantomima consiste em uma denúncia baseada em conversa ouvida em um restaurante. Quase um ano antes do crime, enquanto fazia um bico trabalhando para os acusados – ou melhor, dando-lhes cobertura, da maneira descrita na reportagem elucidativa do caso, reproduzida abaixo –, o delator teria ouvido uma manifestação irada de um dos acusados direcionada a uma (então) desconhecida, Marielle.

Ironicamente, a denúncia pífia foi alçada a “testemunho chave do caso”, enquanto 2 dos acusados na denúncia – uma dezena de outros citados na denúncia foram esquecidos pelos meios de comunicação – foram citados em centenas – ou talvez milhares de notícias –, como suspeitos de mandantes do crime. A ironia se sustentava na convicção de que mesmo a mais ridícula chacota levantada com o propósito de encobrir os verdadeiros assassinos seria entusiasticamente divulgada pelos meios de comunicação, garantindo-lhe ares de seriedade.

A zombaria seguia de vento em popa quando O Globo e Extra, em um deslize, permitiram-se vazar o desvendamento do assassinato, revelando o Escritório do Crime, e trazendo à luz detalhes da execução de Marielle Franco; tudo sob o mesmo espírito sarcástico que já pautava o caso.

Estranhamente, um manto de silêncio foi derramado sobre o caso, transformando o “Escritório do Crime” em uma espécie de tabu para os meios de comunicação do país, que se viram, então, impedidos de aventar qualquer referência à organização criminosa.

Demonstrando não ter perdido o humor após um ano encarcerado, e reconhecendo, ele também, o disparate da acusação que lhe era imputada, o próprio acusado – que responde por 12 homicídios –, não se furtou a participar da burla, desvendando, ele mesmo, o crime, trazendo à baila, novamente, para a imprensa caolha que insiste em omitir qualquer referência aos assassinos, o impublicável Escritório do Crime.

A bufoneria ganha ares de seriedade: entram em cena PGR e o ministro da segurança pública

Houve, no entanto, quem não tivesse achado a menor graça na zombaria, que além de evidenciar os matadores e revelar a naturalidade com que certa classe de crimes são cometidos no Rio de Janeiro, expunha a intimidade com que os assassinos se relacionam com os meios de comunicação e a polícia.

Em vista disso, e com base na denúncia de um dos acusados pelo assassinato – condenado e encarcerado desde muitos meses antes de toda a burla –, direcionada a um bando de assassinos denunciados nos jornais, a PGR resolve então incriminar os investigadores do caso! Quem poderia contar com tamanha astúcia?

E assim, dias atrás, o ministro da segurança pública anunciou o início de uma “investigação da investigação”. Longe de lançar desconfianças sobre os investigadores, a ação esclarece a causa da demora na elucidação do caso, revelando não só o fogo cruzado sob o qual estão expostos os investigadores, mas a extensão e poder da rede de proteção com que contam os tão veneráveis assassinos.

Atentemos que a zombaria transcorre simultaneamente à farsa moralizante que assola o país.

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19 de agosto, O Globo, pág.14 e Extra, pág.10: 






Gustavo Gollo
No GGN
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