6 de nov de 2018

A canalhice de Sílvio Santos. Assista


O ‘topa tudo por dinheiro’ de Sílvio Santos

Já saíram do ar, tão subitamente como entraram, as esdrúxulas vinhetas do SBT com evocações aos tempos da ditadura militar.

Montagens grotescas, feitas em cima da perna, desenterrando Don & Ravel, “O Cisne Branco” e o que a gurizada traduzia como “Japonês tem Quatro Filhos”, mandadas fazer pessoalmente por Sílvio Santos e sugerindo o tradicional “ame-o ou deixe-o”.

Sílvio, como se sabe, já nos deixou e mora na Flórida.

Mas resolveu candidatar seu SBT a “sub” do bispo Edir Macedo, para ver se sobra algum da publicidade que a Record vai ganhar para suas emissoras.

Sabe como é, né: “eu te amo meu din-din, eu te amo, ninguém segura os picaretas do Brasil“.

Aliás, muito adequadamente, utiliza, se você reparar bem, uma bandeira onde o “e” entre Ordem e Progresso é grafado com o ampersand, o & comercial, como se usa em negócios.



Fernando Brito
No Tijolaço



De olho nas verbas publicitárias do governo Bolsonaro, Silvio Santos exuma slogans da ditadura

Silvio Santos e Figueiredo, que lhe deu a concessão
Silvio Santos nunca poupou esforços para morder verbas publicitárias dos governos federais, fossem quais fossem.

Com Jair Bolsonaro, ele pode recuperar seus anos de bajulação à ditadura, quando inventou uma atração delinquente chamada “Semana do Presidente”.

A primeira estrela dessa excrescência era João Figueiredo, general que lhe deu a concessão de TV.

Ficou no ar até a presidência de FHC, quando tornou-se constrangedora demais até para o padrão Silvio.

Os anos de constrangimento generalizado estão de volta, Silvio é um mestre do assunto e não ia deixar passar esse cavalo selado.

A emissora desenterrou slogans do regime militar em vinhetas com pontos turísticos manjados do país e locução de Carlos Roberto, a voz do dono.

Uma delas termina com o ufanista “Brasil: ame-o ou deixe-o” — chupação de “America, love it or leave it”, usado durante a guerra do Vietnã.

Outra conta com o hino “Eu te amo, meu Brasil”, da dupla Dom & Ravel, nome artístico dos irmãos Eustáquio e Eduardo Gomes de Faria, já falecidos.

Lançada no início dos anos 70, a música servia de propaganda e funcionava como trilha sonora funesta do período mais pesado da repressão.

Silvio não esconde que está se sentindo em casa.

A mulher de Bolsonaro, Michelle, foi convidada para participar de um troço chamado Teleton no fim de semana. Eduardo Bolsonaro estava no “Poder em Foco” de domingo, dia 4.

Bolsonaro afirmou que quer o Brasil de 50 anos atrás.

Isso é música para Silvio, que, como um marqueteiro de agência de fundo de quintal, correu para agradar o chefe.

A grana vai pingar, patrão. Ma-oeeee…

Kiko Nogueira
No DCM
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Professor italiano renega comparação que Moro fez entre ele e o juiz Giovanne Falcone

O juiz italiano Giovanni Falcone
O professor italiano Francesco Guerra desossou no site Next a analogia que Moro fez entre ele e o juiz italiano Giovanni Falcone.

Moro enviou mensagem à Ajufe (Associação dos Juízes Federais do Brasil) sobre sua decisão de integrar o ministério de Jair Bolsonaro.

“Lembrei-me do juiz Falcone, muito melhor do que eu, que depois dos sucessos em romper a impunidade da Cosa Nostra, decidiu trocar Palermo por Roma, deixou a toga e assumiu o cargo de Diretor de Assuntos Penais no Ministério da Justiça, onde fez grande diferença mesmo em pouco tempo”, escreveu.

Falcone morreu assassinado em 1992 por Giovanni Brusca, a mando do mafioso Salvatore Riina.

Guerra criticou “o suposto legado de Giovanni Falcone” reclamado por Sergio Moro.

Alguns trechos*:

A notícia é daquelas de tremer na base. Ontem, durante uma de minhas muitas andanças pela internet, acabei lendo uma epístola aos colegas e magistrados brasileiros do novo Superministro da Justiça Sergio Fernando Moro, o juiz-herói da Lava Jato. (…)

Com base no que Moro se compara a Giovanni Falcone é, realmente, um mistério. Entre as hipóteses: a) ter sido mal aconselhado por alguém que conhece a história recente da Itália como eu a história de Uganda, b) foi traído por uma tradução equivocada do Google Translator, c) seu ego desmesurado.

Infelizmente para Moro, no entanto, a comparação faz a água por todos os lados. É certamente verdade que Falcone perseguiu com sucesso a Cosa Nostra, uma vez que ele, juntamente com outros componentes do pool anti-máfia de Palermo, instruiu o julgamento da maior máfia maior da história. (…)

Mas Falcone atraiu mais inveja, calúnias e venenos de todos os tipos do que os reconhecimentos ou celebrações públicos de Moro. (…)

Abandonar o Judiciário não foi, portanto, uma manobra para irromper na política (…), mas uma escolha extremamente dolorosa (…)

Um magistrado não deve ser apenas honesto, mas também parecer honesto. Houve até quem acusou Falcone, de maneira totalmente infundada, de defender os políticos, mantendo os documentos sobre os chamados crimes políticos de Palermo encerrados em gavetas. (…)

Sergio Moro e sua gestão da Lava Jato, o chamado kit Lava Jato, para usar uma expressão do advogado Rodrigo Tacla Durán, investigação essencialmente política iniciada sistema judicial em 2014 pelo juiz de Curitiba ficam a uma distância abismal do magistrado italiano.

Em suma, o super-ministro Moro, bem como seus numerosos vassalos, devem ter a graça de deixar em paz Giovanni Falcone, olhando possivelmente outros modelos de inspiração. Não é tão difícil quanto parece, basta mover o olhar um pouco mais para o norte, de Palermo a Milão ou, talvez, na direção de Montenero di Bisaccia.

Kiko Nogueira
Tradução de Miguel Enriquez
No DCM
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Lula responde a Sérgio Moro


A declaração do ex-juiz Sérgio Moro, em coletiva de imprensa, de que Lula teria sido condenado por cometer crimes, constrasta com a própria sentença de sua autoria que fala em ‘atos de ofício indeterminados’. Ou seja, Moro condenou Lula sem identificar qual teria sido o ato ilegal que ele supostamente cometeu, em uma decisão onde esse é apenas um dos muitos absurdos jurídicos.

Moro sim, cometeu vários atos ilegais, definidos e comprovados, contra Lula: condução coercitiva, gravação ilegal dos seus advogados, divulgação ilegal de conversas de familiares de Lula, divulgação ilegal de grampo ilegal de conversa com a então presidenta da República Dilma Rousseff, interferência ilegal para que autoridade policial não cumprisse Habeas Corpus determinado por juiz de instância superior, entre outros.

É com essa ‘qualificação’ que ele foi escolhido ministro da Justiça de um político que só venceu as eleições como resultado das ações políticas de Moro, e que prometeu prender ou ‘varrer do país’ a oposição.

Assessoria de imprensa do presidente Lula
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Descompasso estratégico


O tamanho do antipetismo, a extensão subterrânea do bolsonarismo, o poder manipulador do WhatsApp, a profusão de mensagens odiosas e notícias falsas, o financiamento da fraude por empresários corruptos, o peso do neopentecostalismo, a leniência do TSE, a “boca-de-urna” do Moro com a delação forjada do Palocci – são alguns dos fenômenos da eleição que tanto surpreenderam analistas, observadores, a mídia, os políticos e a sociedade em geral.

O fato, entretanto, de haver enorme surpresa e espanto com a ocorrência de tais fenômenos não deixa de ser, em si mesmo, também muito surpreendente.

Isso porque todos esses fenômenos, em graus e magnitudes variadas, estavam presentes na realidade; não brotaram como num passe de mágica na sociedade brasileira e na eleição.

Ou é de se estranhar a estigmatização antipetista enfastiante, fabricada pela Globo e Lava Jato nos últimos 4 anos, que é repetida diuturnamente nos cultos de certas igrejas lideradas por charlatões que manipulam pessoas de boa fé com uma pregação ideológica sectária?

Ou é de se ignorar que eleições sujas como a deste ano são dominadas por fraudes e baixarias inomináveis, corrupção empresarial, derramamento de dinheiro ilegal de caixa 2 e acusações caluniosas e notícias falsas através de mídias sociais manietadas?

Fake news é como Donald Trump – o mentiroso que inspira Bolsonaro – define as mentiras que vitimaram o PT em todas as eleições em que o partido participou: do sequestro do Abílio Diniz e a ameaça da FIESP de fuga de 300 mil empresários do país em 1989 à bolinha de papel na cabeça de José Serra em 2010 ao caos político e econômico em 2014.

Diante desses antecedentes, seria razoável confiar-se que Sérgio Moro e o judiciário, que haviam banido Lula da eleição e cujas trajetórias a serviço da engrenagem do golpe são bem conhecidas, dessa vez haveriam de agir com decência e legalidade para impedir a fraude e a lisura da eleição? É óbvio que não.

É preciso admitir-se que a campanha do PT se ressentiu da falta de inteligência estratégica e de infra-estrutura capaz de ombrear a ilegal campanha bolsonarista – que contou, inclusive, com o aporte de estrategistas, planejadores, conhecimentos e tecnologias militares de geração avançada.

Pelo menos desde 2015 Bolsonaro segue uma estratégia bem traçada para a ciberguerra. A menos de 2 anos da eleição, ele já tinha mais de 18 milhões de seguidores nas mídias sociais – 1 em cada 3 dos 57 milhões de eleitores que o elegeram – cultivados com ódio, associação do PT à corrupção; críticas à “imprensa comunista”, ao sistema, aos públicos LGBTQs, aos “vagabundos” do bolsa-família; com evocação da intervenção militar etc.

É fundamental realizar-se um investimento estratégico para suplantar o descompasso no enfrentamento à sofisticada guerra híbrida que a extrema-direita empreende no Brasil e em várias partes do mundo com técnicas semelhantes.

Esta guerra mescla recursos da ciberguerra, inteligência artificial, pregação religiosa que flerta com a teocracia, disseminação de notícias falsas, promessas de purificação da sociedade com a eliminação de “inimigos” [estrangeiros, imigrantes, árabes, africanos, pobres, negros, petistas etc], desmoralização do sistema, do Estado de Direito e da política.

É difícil predizer se um outro posicionamento estratégico da campanha do PT conseguiria mudar o curso dos acontecimentos.

A verdade, contudo, é que o processo eleitoral evidenciou limitações importantes que, se não forem trabalhadas e superadas, comprometerão a eficácia política, social e cultural da oposição ao nazi-bolsonarismo, que exige outro patamar de preparação estratégica e política.

Jeferson Miola
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Bolsonaro será aquilo que é


Os “bobinhos” seguem achando que teremos, no governo, um Bolsonaro “light”.

O novo integrante do ‘bloco dos hipócritas’, o sr. Sérgio Moro, disse ontem, numa palestra a empresários, que não é “um político”, que terá, no Governo, “um posto predominantemente técnico” e que aceitou o convite de Jair Bolsonaro para um “superministério” da Justiça para “contribuir para afastar receios infundados” de que o novo presidente pudesse flertar com o autoritarismo.

Não é preciso comentar sobre o “político-não-político” Moro, mas é de se registrar sua pretensão de apresentar-se como ‘gendarme democrático’ de um sujeito que mal conhece.

É claro que Bolsonaro fará declarações formais de respeito à Constituição e às instituições. Vive a sua quadra de “bom-moço” e de rapapés.

Mas fará um governo cujas marcas serão a improvisação, o autoritarismo e, tanto quanto puder, o exercício da demagogia obscurantista como ferramenta política de manipulação da opinião pública.

Um governo de, como diz ele próprio, “caneladas”, as quais já distribui sem economia.

Engana-se quem esperar dele um governo “construtor”. É o contrário de sua índole de destruidor.

Não se espere, sequer, que ele seja aglutinador das forças conservadoras majoritárias no Congresso, porque não vai partilhar o Governo com eles, salvo pontualmente.

Bem fará a esquerda se não entrar em diálogos e negociações com ele, porque não pode haver diálogo e negociação com quem não tem o pressuposto da boa-fé.

Não existe Bolsonaro na democracia, da qual como não existe democracia com Bolsonaro.

Ele é a formiga cortadeira, a saúva das liberdades.

E a saúva, dizia a velha frase, ou acaba com o Brasil, se o Brasil não for capaz de acabar com a saúva.

Fernando Brito
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Entre o horror e a demência

DB do doutor Ulysses foi a frente democrática de que o Brasil hoje precisa
Regimes de ultradireita infelicitaram povos diversos. Para citar os mais notórios dos últimos cem anos vale citar fascismo, estalinismo, nazismo, ditadura chinesa no período mais feroz. Mas de ultradireita foram também as ditaduras sul-americanas, inclusive a nossa de 21 anos, erguida à sombra da típica hipocrisia verde-amarela, a manter aberto um Parlamento constantemente sob ameaça e um Judiciário de paus-mandados.

Mas que dizer da divisão do Oriente Médio segundo as conveniências de Grã-Bretanha e França, e das consequências deste jogo de interesses, entre eles Israel de Netanyahu? E que dizer dos EUA, inesgotavelmente inclinados a usar a força das armas com o pretexto de ministrar mundo afora pretensas lições de democracia e liberdade, do Vietnã a Granada, do Iraque ao Panamá, dos golpes latino-americanos ao Afeganistão?

O reacionarismo tem inúmeras maneiras de se manifestar e impor conforme as circunstâncias históricas. O bolsonarismo é fenômeno genuinamente brasileiro ao representar o inescapável resultado do golpe de 2016, desferido pela aliança entre os próprios Poderes da República com o fatal e maciço apoio da mídia nativa.

Trata-se da prepotência em estado puro, baseada em um ideário digno do Ku Klux Klan e de um neoliberalismo elevado à enésima potência a deixar pálidos de espanto os entreguistas de antanho e até os mestres de Chicago.

Seria possível algo similar ao bolsonarismo em países civilizados e democráticos? O nacional populismo de extrema-direita avança na Europa, por razões diversas das nossas, promovido pelos efeitos do neoliberalismo a provocar o enriquecimento de poucos e o empobrecimento da larga maioria.

A imigração dos foragidos de conflitos e da miséria amedronta as populações europeias e excita os políticos oportunistas. Mesmo assim, ali vigora a democracia, as Constituições são respeitadas, as Altas Cortes funcionam com independência total, até mesmo onde a ultradireita está no poder alcançado pelo voto.

O Brasil, um país em vão destinado à grandeza e ao bem-estar, está a uma distância do direitismo europeu que até as botas das 7 léguas não conseguiriam percorrer. O bolsonarismo é construído sobre o avanço tecnológico capaz de embrutecer uma população ignorante e inculta, ricos ou pobres, tanto faz.

O extremo reacionarismo bolsonarista é perfeitamente simbolizado por seu líder de tosco pensamento e fala manquitolante, herói irreparavelmente brasileiro, incapacitado à compreensão do problema central do País, o monstruoso desequilíbrio social, ou, por outra, a desigualdade.

A Europa deixara havia larguíssimo tempo de ser medieval, quando na Alemanha e na Itália surgiram, por razões diversas, ditaduras totalitárias. No Brasil da casa-grande e da senzala vivemos a treva que se seguiu à queda do Império Romano do Ocidente.

Neste Brasil sempre exposto ao risco do golpe, estamos entregues a um exército de ocupação e a uma Justiça que tirou a venda com as próprias mãos. Um terço da população deixa-se explorar de olhos marejados pelos ditos pastores evangélicos, enquanto os postes expõem cartazes de milagreiros em complexos casos de amor e de quem sabe como recuperar a carta cassada dos motoristas infratores.

Desde o impeachment de Dilma Rousseff, a Constituição de 1988 jaz no fundo do lixo e meus imprudentes botões sugerem com alguma malignidade que talvez venha a ser substituída pela Santa Bíblia. Acima de tudo, Bolsonaro coloca Deus. Pergunto-me se sabe que o Filho morreu na cruz por ter defendido a igualdade entre todos os homens.

Gostaria de repetir o poeta Renato Suttana ao falar de um romance em andamento “que, entre a farsa e a paródia, é só bufa rapsódia”. Certa vez escrevi algo parecido a respeito de momentos difíceis, desta vez, entretanto, a situação nada tem de bufo. Estamos a encarar uma perspectiva de extrema violência tanto mais em um país que aprecia brigas díspares, na proporção de 10 contra 1, o solitário inimigo.

Não sei até que ponto estará a oposição com animus bellandi, vontade de lutar. Se for possível, contudo, formar sem preconceitos uma aliança entre os frequentadores da razão, a concordância em torno do objetivo principal apontará um caminho redentor.

Agradou-me, por exemplo, a disposição de Alberto Goldman, que conheci como “vermelho” em tempos de ditadura e que se tornou nestes dias um tucano capaz de alçar voo ao votar, “pela primeira vez”, no PT. Fernando Henrique, em compensação, não sai do chão. Não fosse a ameaça de Mario Covas de abandonar o PSDB, é bom recordar, FHC teria sido chanceler de Collor.

Erros em demasia foram cometidos no chamado campo progressista para favorecer Bolsonaro. Seria a ocasião de corrigi-los em nome do propósito comum, com a devida bonomia que uma respeitável dose de autoironia há de recomendar.

Quando menino, se eu dava uma de sabichão, minha avó materna sentenciava: “Desça do cavalo de Orlando”. Pois a quem está montado, repito como apelo a admoestação da avó. Ah, sim, Orlando, o desassombrado paladino da corte franca, herói da obra-prima de Ludovico Ariosto, “Orlando Furioso”. Creiam, é oportuno descer do cavalo para repensar em tudo.

Ocorre-me lembrar o MDB do doutor Ulysses, reunia todos os opositores da ditadura. Tratou-se de fato de uma frente democrática da qual nasceu a campanha das Diretas Já, o mais importante movimento popular realizado no Brasil, e sem o apoio da Globo, ao contrário daquele pelo impeachment de Collor, quando ao som do plim plim os meninotes da cara pintada foram fazer festa.

Contra o bolsonarismo, o País precisa de uma frente democrática acima dos partidos, empenhada em chegar ao povo para leva-lo à consciência da cidadania e cumprir a tarefa que a dita esquerda nativa não soube ou não quis cumprir.

CartaCapital está onde sempre esteve na prática do jornalismo. Na minha vida de profissional foi determinante o embate contra a censura ditatorial. Compreendi então em profundidade a virtude dos homens “dispostos a contar o que acontece”, como sustenta Hannah Arendt, a serventia da profissão credenciada a deixar uma pista para os historiadores do futuro.

Não tememos o bolsonarismo: veio movido pelo propósito de impor a ORDEM, aquilo que supões ser a ordem para reduzir o País a escombros com o uso crescente da violência. Aí está a semente do seu fracasso. Inescapável, a curto ou médio prazo.

Estamos na iminência de ver Sergio Moro, o torquemadazinho endeusado pelos propagandistas midiáticos, nomeado para um ministério de grande alcance, além da Justiça, em benefício da ORDEM bolsonarista. Um caríssimo amigo de fino intelecto propõe intitular “A Confissão” este quadro da tragédia suspensa entre a demência e o horror.

Mino Carta
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O time de jogadores com episódios de indisciplina que apoia Bolsonaro

Ronaldinho Gaúcho apoiando Bolsonaro
Um dos motes da eleição de Bolsonaro foi o discurso militar, que remete à disciplina – embora próprio presidente eleito tenha no currículo passagens que não o deixam ser sinônimo de bom comportamento, uma vez que foi preso por críticas à corporação e expulso da Escola de Oficiais por arquitetar um plano para jogar bombas sobre quartéis.

Em outro campo, o do futebol, alguns dos jogadores mais conhecidos que apoiam Bolsonaro protagonizaram ao longo de suas carreiras episódios de indisciplina. Estão na lista atletas como Ronaldinho Gaúcho, Felipe Melo e Diego Sousa, e o ex-jogador Edmundo.

Ronaldinho Gaúcho é um dos principais atacantes do time bolsonariano. Durante as eleições, ele postou uma camisa com o número 17 atrás. RG não é exemplo de pontualidade em relação a treinamentos. Em entrevista, o técnico Cuca o entregou dizendo que Gaúcho era o atleta mais “malandro” com quem já trabalhou. Certa vez, conforme Cuca, o jogador colocou a culpa pelo atraso no motorista, com quem teria debatido sobre o horário de início das atividades. “Pô Cucão, o seu Roberto [motorista] me fudeu. Eu falei que o treino era 9h, e ele disse ‘não, é 9h30’”. Quando o motivo não era seu Roberto, era injeção para febre amarela ou coisa do tipo. O técnico Leonardo deu a entender numa entrevista que Ronaldinho era apreciador de “danone” (na gíria do futebol, fermentados de cevada e destilados em geral) – porém, o técnico depois disse que o termo embriaguez usado não se referia ao álcool.

Gaúcho recentemente teve determinada pelo TJ-RS (Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul) a apreensão de seu passaporte, devido ao não pagamento de uma dívida por dano ambiental em Porto Alegre. Ele foi condenado por crime ambiental por causa da construção sem licença de um trapiche e canalização de um arroio no Lago Guaíba, em Porto Alegre. As obras foram feitas em área de preservação. Nisso, parece haver um outro ponto de sintonia com Bolsonaro, que não dá importância ao meio ambiente, a ponto de ter proposto a fusão do ministério responsável pela área com a pasta de agricultura e a retirada do Brasil do Tratado de Paris.

O atacante revelado pelo Grêmio ainda foi destaque num episódio típico de bolsominions secretos de muita gente (aqueles que gostam tanto da família tradicional brasileira que têm duas). Um colunista noticiou que ele casaria com duas mulheres – informação que o atleta desmentiu. Não há notícias de bigamia envolvendo Bolsonaro, o que se sabe, no entanto, é que ele está no terceiro casamento – o que não se pode dizer que seja exatamente uma família tradicional. Naturalmente, nada contra o direito de as pessoas terminarem relações fracassadas e iniciarem outra. O problema está em pregar valores morais, patrulhar comportamentos, ganhar apoio com esse discurso e agir de maneira diferente. Em outras palavras: hipocrisia.

Na retaguarda, outro fã de Bolsonaro, Felipe Melo é contumaz tomador de cartões – o mais famoso, um vermelho na quartas de final da Copa do Mundo de 2010, contra a Holanda, acabando com as chances de a seleção se recuperar na partida. Afastado por Cuca do Palmeiras em 2017, disparou áudio no whatsapp detonando o então comandante. Late alto, mas foi um cãozinho dócil na marcação do lance que gerou o segundo gol do Boca, pela semifinal da Libertadores, no dia 31 de outubro, marcado por Benedetto – ironia do destino, camisa 17 (“quem com 17 fere, com 17 será ferido”, circulou nas redes). Volte e meia entra em discussão com jornalistas – ponto de convergência com o destinatária de seu apoio.

No último final de semana, Diego Souza comemorou um gol homenageando o atual deputado. Ele é outro jogador que aprecia um cartão vermelho desnecessário e que apoia o político. No início da carreira, foi considerado garoto problema e já protagonizou casos de agressão dentro dos gramados. Uma das vítimas foi Domingos, em 2009. O zagueiro, que na época defendia o Santos, levou um chute por trás de Diego após uma discussão.

Não temos conhecimento se Bolsonaro gosta de dar jogar uma bola vez em quando e se em campo tem comportamento violento. Fora dele, contudo, suas declarações revelam um homem com tons de vilania: defende a tortura e diz que é precisa matar uns 30 mil que a ditadura não matou.

A lista de atletas e ex-atletas polêmicos ainda é completada por nomes como Carlos Alberto e  Edmundo. Este teve episódios de confusão em campo e foi condenado em 1999 a quatro anos e seis meses de prisão, em regime semiaberto, pelos homicídios culposos de três pessoas e lesões corporais de outras três em um acidente de carro na madrugada do dia 2 de dezembro de 1995. Ficou apenas um dia preso e segue bem vivo atuando como comentarista na Fox Sports.

Voltando ao território da política, as caneladas de Bolsonaro não se restringem ao período em que foi militar. Ele segue disparando pontapés contra gays, negros (foi condenado por ofender quilombolas, os quais ele disse que pesavam algumas arrobas e não serviam nem para procriar) e minorias em geral. O elenco no seu entorno segue na mesma linha. O filho dele falou em fechar o STF com um soldado e um cabo. O seu vice-, general Mourão, disse que o 13° salário era uma jabuticaba e que famílias sem pai são fábricas de elementos desajustados.

Jogadores contrários

Em outra trincheira, a de futebolistas contrários a Bolsonaro, estão o zagueiro Paulo André e Raí. Paulo André é conhecido pelo profissionalismo e por apresentar boa cultura e articulação durante entrevistas. O atleta do Atlético-PR se recuou a usar camisa especial do Furacão que fazia apologia ao candidato do PSL. O presidente do clube apoia Bolsonaro.

Raí, por sua vez, disse que “depois dos resultados, fiquei triste e até assustado quando vi as reações do povo celebrando a vitória de um candidato que já mostrara valores absurdos e repugnantes”.

O futebol brasileiro, que nos anos 1980 foi símbolo de luta pela democracia, nos tempos recentes dá mostras de alienação. Se antes tínhamos a Democracia Corintiana, liderada por Sócrates, hoje temos movimentos menos engajados, com a turma do Tóis, de Neymar e Cia.

Guilherme Bittar
Do O Revérbero
No DCM
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Para entender a reforma previdenciária de Paulo Guedes


Há dois modelos de previdência pública:
  • Repartição simples: aquele em que as contribuições dos empregados da ativa bancam a aposentadoria dos aposentados.
  • Capitalização: no qual cada trabalhador tem uma conta individual, capitalizada para garantir a aposentadoria futura.
Mas não apenas isso. No caso da capitalização, há dois modelões de previdência:
  • Benefício definido: aquele em que o plano garante o valor do benefício, independentemente dos resultados alcançados.
  • Contribuição definida: no qual apenas a contribuição é definida. O benefício dependerá dos resultados apresentados pelo plano de previdência.
Há tempos, as propostas liberais tentam introduzir o sistema de capitalização no país. A maior dificuldade é como garantir o pagamento dos aposentados.

No início do processo de privatização, defendi o Plano K – uma ideia de criar uma alternativa de capitalização com os ativos das estatais que seriam privatizadas. Não deu certo porque sucessivos governos, Collor, Itamar e especialmente Fernando Henrique Cardoso, já tinham um jogo de cartas marcadas com grupos candidatos à privatização – que garantiam o financiamento das campanhas de seus candidatos.

Agora se tenta voltar à ideia da capitalização com um Estado quebrado. Como ficariam os direitos adquiridos?

A primeira pancada dura na Previdência pública foi a mudança na legislação trabalhista. O financiando da Previdência depende essencialmente do trabalho formalizado. Ao comprometer a formalização do trabalho, a legislação quebrou um dos pilares da Previdência.

Agora, surge a proposta Armínio Fraga de um sistema misto. Ou seja, os novos trabalhadores vão contribuir em parte para a Previdência pública, em parte para a previdência individual.

Ora, se com as contribuições atuais a Previdência está deficitária – por conta do quadro recessivo e do aumento da informalidade -, como ficaria com as contribuições sendo repartidas entre os dois sistemas?

Mais que isso: qual seria o valor da aposentadoria, pelo sistema de capitalização, sendo que a única garantia é a contribuição definida – não o benefício? Provavelmente o mesmo que na previdência chilena, privatizada, e hoje com problemas enormes de déficit atuarial com benefícios irrisórios.

Uma saida seria repetir o que foi feito no setor público, de definir um teto de aposentadoria pelo sistema antigo e uma complementação bancada pelos funcionários, com descontos adicionais de sua aposentadoria.

A diferença essencial é que o teto no Regime Geral da Previdência é muito menor que o mínimo do sistema público. E a intenção explícita do modelo pinochet-Guedes é tentar os da base da pirâmide, inclusive liquidando com os Benefícios de Prestação Continuadas – que amparam idosos em acesso à Previdência e pessoas com deficiência.

Vamos aguardar a explicitação melhor da proposta.

Luís Nassif
No GGN
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Bolsonaro quer acabar com reservas indígenas

Foto: Lula Marques
Em entrevista ao jornalista José Luiz Datena, da Band, o presidente eleito Jair Bolsonaro deixou claro que quer acabar com as reservas indígenas. Ele disse: "se depender de mim, não teremos mais área indígena no país (..) Índio é ser humano igual nós. Ele quer evoluir". Bolsonaro não entende, por exemplo que uma reserva ianomâmi seja "duas vezes maior que o Estado do Rio de Janeiro", o que uma simples consulta a órgãos especializados na questão indígena ligados à pesquisa poderia resolver. 

Ao falar da necessidade de turbinar o agronegócio em seu governo, Bolsonaro reafirmou que não haverá novas demarcações de terras indígenas e que o índio deve ser tratado como 'um ser humano igual a nós (sic)'. 'Ele quer evoluir, quer médico, dentista, internet, carro, viajar de avião. Quando tem contato com a civilização, vai se moldando a outra maneira de viver, que é bem melhor que a dele. O índio não pode ser animal dentro do zoológico. Por que o índio não pode ter liberdade? Se quiser vender a terra, que venda, explore, venda. A Funai participa em laudos para dizer se existe vestígio de índio no terreno. Isso não pode continuar existindo no Brasil".

A reportagem do jornal Valor detalha ainda a ideia que Bolsonaro pretende colocar em prática acerca do tema: "Bolsonaro defendeu ainda a flexibilização de áreas de proteção ambiental para favorecer o turismo e, assim, criar postos de emprego. 'Tudo é estação ecológica', queixou-se, dando como exemplo a região de Angra dos Reis (RJ) - onde já foi multado pelo Ibama por pescar em área de proteção ambiental".
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Ao contrário do que prega Bolsonaro, violência urbana explodiu no Brasil durante a ditadura

O paraíso vendido por Bolsonaro não existiu
Soluções fáceis para um problema histórico, a violência. Bolsonaro conquistou milhões de mentes para chegar à presidência do Brasil. Prometeu acabar com a violência gerando mais mortes, dando carta branca para a polícia.

Seus eleitores acreditaram porque pensam que a explosão do número de homicídios no país, mais de 63 mil em 2017, é culpa do PT. Um engano no qual caíram feito patos. O país repete uma receita que nunca deu certo para a maioria da população.

A primeira das ilusões é que dando aval para matar mais, o crime será amenizado. E que por isso, durante a ditadura militar, o Brasil era mais tranquilo. As estatísticas mostram, no entanto, que foi durante aquele regime que o número de homicídios explodiu.

O Brasil era governado pelo general João Figueiredo. E o índice de assassinatos passou de 11 a cada 100 mil habitantes, nos anos 1980, para 15, cinco anos depois, um aumento de 28%, conforme o gráfico a seguir.


Como isso pôde acontecer se, graças aos militares, o Brasil tinha vivido o famoso “milagre econômico”, um crescimento de mais de 11% do PIB ao ano? Na época, eles abriam a economia para as empresas multinacionais, que para se instalar no Brasil exigiam infraestrutura para funcionar. Para construir estradas, usinas hidro e termelétricas e grandes obras arquitetônicas, o Estado se endividou.

“​​O ‘milagre econômico’ e o desenvolvimento socioeconômico programado durante os governos militares arrastaram o País para um processo inflacionário descontrolado, aumento excessivo da dívida externa e agravando ainda mais a desigualdade social”, explica o historiador Ricardo Bavaresco em ​Estado neoliberal e violência urbana.​

“​​Soma-se a isso o alto grau inflacionário que o país viveu na década de 1970 e 80 agravando-se ainda mais com a crise do petróleo”.

A sensação de tranquilidade também era baseada numa ilusão. A polícia batia e matava sumariamente. O governo perseguia, prendia seus críticos, cassava mandatos de adversários e partidos, exilava e torturava. A violência estatal era legitimada. Mas, por causa da censura, poucos ficavam sabendo.

O regime militar deixava como herança para a era democrática a hiperinflação. E as medidas que os governos Sarney, Collor, Itamar e Fernando Henrique tomaram agravaram a situação.

Na concepção daqueles governos, era preciso fazer reformas neoliberais, desregular o mercado financeiro, o mercado de trabalho, reduzir direitos trabalhistas, congelar salários. Quem perdia com isso era a distribuição de renda. Fragilizado com as reformas neoliberais, era mais “difícil” para o Estado distribuir renda.

“O Estado está sendo manobrado por grandes corporações financeiras e industriais. Enquanto isso, os cidadãos ficam desamparados, abandonados e à mercê da desordem, ineficácia e injustiça de um Estado incapaz de promover políticas autônomas. É que o neoliberalismo supõe o Estado mínimo, que somente fiscaliza”, observa Bavaresco.

As novas tecnologias nas empresas levaram à redução do quadro de funcionários. A massa salarial caia. A exclusão social aumentava. O país entrava na era do “cada um se vira como pode” no mercado informal. Como dizia o professor Gilberto Dupas, autor livro ​O Mito do Progresso​, era preciso “inventar” o próprio emprego.

“A década neoliberal foi tão ou mais anti-social e antipopular do que havia sido o período desenvolvimentista (referência ao regime militar)”, diz o José Luís Fiori no livro ​”60 lições dos 90: 0: uma década de neoliberalismo”​.

Ao fim do governo Sarney, a taxa de homicídios havia crescido 45%, como mostra o gráfico abaixo.


Da década de 1990, quando Collor assumiu a presidência, até o final do segundo governo FHC, o índice de assassinatos crescia 28%.


O número de assassinatos não pararia de subir, mas a curva desse crescimento cairia e se estabilizaria ao longo dos governos do PT.

“Há uma clara mudança na curva de homicídios, que tem sido tratada por pesquisadores como fruto de diferentes políticas e dinâmicas sociais, entre as quais se destacam a entrada em vigor do Estatuto do Desarmamento, que estabeleceu uma política efetiva de controle de armas”, diz Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, professor de direito da PUC-RS em ​Política criminal e encarceramento no Brasil nos governos Lula e Dilma.​

A desigualdade social caia. O índice GINI, que mede a desigualdade, era de 0,5994 no primeiro mandato de Fernando Henrique. Cairia para 0,509 no segundo mandato do governo Lula e início do governo Dilma.

Rodrigo Ghiringghelli observa que, enquanto 85,8% dos municípios brasileiros faziam parte do grupo de “muito baixo desenvolvimento humano” em 1991, a tendência se inverteria durante os governos petistas, caindo para 25%, enquanto quando 74% das cidades se encontrariam nas faixas de “médio” e “alto desenvolvimento”.

De 2003 a 2016, o crescimento do número de homicídios no país foi de 5,2%, quase 6 vezes menos do que na década anterior, do que o registrado durante a ditadura, ou nove vezes menos do que no governo Sarney (MDB).


Não é curioso observar que o índice de assassinatos superou pela primeira vez na história oficial o índice de 30 mortos a cada 100 mil habitantes no ano do impeachment de Dilma Rousseff, quando, mais uma vez, o MDB assumia o poder.

Não se trata de uma coincidência histórica, mas de uma tendência, pois as forças que produziram o golpe se repetem, as velhas oligarquias e elites brasileiras, que, na voracidade por mais poder, sempre geraram massacres ao longo da história brasileira.

Foi assim com a colonização portuguesa, que exterminou índios e marginalizou negros, escravizando-os. Foi assim no Império, esquartejando revoltas por mudanças sociais. Foi assim com os coronéis da República Velha (1889-1930), que promoviam massacres nos campos, empurrando camponeses para as cidades que se industrializavam. Uma urbanização que transformaram favelas em verdadeiros espaços de violência.

Tendência que só se aprofundou com o golpe militar de 1964, que mais uma vez na história, representando os interesses da elite brasileira, caçava e matava. Foi assim de novo na Nova República, a década dos Fernandos, quando o Brasil virou um país de trabalho informal.

O período PT não diminuiu a violência, mas diminuiu seu crescimento atacando uma das raízes dela, a pobreza, a desigualdade social, fazendo com que quase 40 milhões de pessoas passassem a fazer parte da sociedade de consumo.

Mas, como explica Ghiringghelli, não conseguiu incidir suas concepções de justiça em instituições como as policiais estaduais, aquelas que estão mais próximas da gestão da segurança pública. Menos ainda no poder judiciário, onde havia uma dupla seletividade.

“Seletividade na aplicação da lei, com maior probabilidade de punição para os setores sociais desfavorecidos econômica e culturalmente (a maioria jovem e negra), e de favorecimento para as classes superiores, e seletividade na interpretação da lei, com a utilização pelo juiz de seu poder discricionário segundo suas opções políticas e ideológicas”, explica o professor.

O resultado é que mais de 40% da população carcerária do país ainda não foi julgada. Gente muitas vezes acusada de roubo ou tráfico de drogas, “integrados de forma permanente às redes de gerenciamento das ilegalidades”, observa Ghiringghelli.

Ou seja, um ciclo vicioso de violência. Tristes coincidências? O candidato que a elite apoiou, iluminado de verde e amarelo a FIESP, Bolsonaro repete a receita que levou o Brasil ao aumento da desigualdade social e a uma explosão do número de homicídios da ditadura e dos anos 1990.

O Atlas da Violência de 2017 aponta que a cada 1% de aumento na proliferação de armas, o número de homicídios sobe 2%. E é isso que Bolsonaro promete fazer. O Brasil se atira num “déjà vu” de morte, da violência, um banho de sangue no campo, na floresta e nas cidades.

Referências:

http://biblioteca.clacso.edu.ar/ar/libros/reggen/pp15.pdf http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71402008000200006






Willy Delvalle
No DCM
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CNJ vai analisar quatro representações contra Sérgio Moro


O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) deve analisar pelo menos quatro representações apresentadas contra Sérgio Moro, informa a coluna de Mônica Bergamo no jornal Folha de S.Paulo. Uma delas questiona o encontro dele com o economista Paulo Guedes para falar sobre a participação do juiz no governo de Jair Bolsonaro. Outra questiona o fato de o juiz não ter se exonerado e sim tirado férias. Um dos integrantes do CNJ diz que "não existe o sujeito fazer plano de governo de toga" pois a Constituição veda a participação de juízes em atividades políticas. 

O corregedor nacional de justiça Humberto Martins pretende dar celeridade aos processos e deve decidir sobre eles nos próximos dez dias.

Segundo a reportagem, "Martins analisará também o caso em que Moro divulgou conversas de Dilma Rousseff e Lula de forma inconstitucional, como definiu na época Teori Zavascki, do STF. A divulgação dos grampos ocorreu em 2016 mas até hoje a atitude de Moro não foi julgada pelo CNJ".
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Alinhamento automático de Bolsonaro a Trump traz risco para Brasil

https://www.blogdokennedy.com.br/alinhamento-automatico-de-bolsonaro-a-trump-traz-risco-para-brasil/
EUA têm peso geopolítico maior para comprar brigas

O alinhamento automático de Jair Bolsonaro a posições de Donald Trump na política internacional traz riscos para o Brasil, como causar danos no comércio externo. Os Estados Unidos são a maior máquina econômica e militar do planeta. O Brasil tem peso geopolítico, mas margem de manobra mais estreita para comprar brigas na arena global.

Replicando decisão de Trump e o interesse de Israel, Bolsonaro disse que tende a mudar a Embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém. A primeira reação concreta veio do Egito, cancelando em cima da hora viagem ao Cairo que seria feita pelo ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira.

Um dos principais países árabes do mundo, o Egito fez algo inusual do ponto de vista diplomático para demonstrar sua contrariedade com uma eventual decisão de Bolsonaro pró-Israel e contrária aos palestinos.

Os países árabes formam um importante mercado importador de produtos brasileiros, sobretudo de proteína animal. Esse mercado foi conquistado com esforço de anos do Itamaraty durante os dois mandatos de Lula. Não é proveitoso para o Brasil criar atritos com esses parceiros comerciais.

Bolsonaro e sua equipe já produziram ruídos nas relações com Argentina, China, Cuba, Venezuela, Brics e, agora, países árabes. É preciso ter mais cálculo na política internacional, falando menos do que se faz nas questões domésticas.

O presidente eleito deveria indicar logo seu futuro ministro das Relações Exteriores, de preferência escolhendo um diplomata de carreira.

Referendo

As eleições americanas para o Legislativo e governos estaduais terão efeito sobre a política externa brasileira sob Bolsonaro, a depender da força com que aliados de Trump saiam das urnas amanhã.

Idade mínima

Na conversa desta quarta com o presidente Michel Temer, um dos principais temas de interesse de Bolsonaro será avaliar a chance de aprovar a criação da idade mínima para aposentadoria de todos os trabalhadores no Brasil.

A proposta que poderia ser votada prevê 62 anos para mulheres e 65 anos para homens. Não será fácil convencer o atual Congresso. A equipe de transição de Bolsonaro já trabalha com o time de Temer.

Outros temas

Aqui no Brasil, andam a mil as articulações a respeito das eleições para a presidência do Senado e da Câmara, que ocorrerão em fevereiro. Além disso, foi tema hoje na rádio o triste aniversário de três anos do acidente de Mariana, que saiu “barato” para Samarco, a Vale e a BHP Billinton.
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Comparato: Bolsonaro vai fazer o que o Trump mandar

Intrusão americana agora é explícita!


“Bolsonaro foi eleito com apoio dos EUA e seguirá certamente os direcionamentos fixados pelo governo norte-americano. Tal apoio representou a mais recente intrusão explícita do governo norte-americano no funcionamento do Estado Brasileiro”.

A opinião é do jurista e advogado Fábio Konder Comparato, que falou com exclusividade ao DCM sobre os planos do presidente eleito, a chamada Lei do Abate, o projeto Escola Sem Partido, Direitos Humanos e a transferência da Embaixada brasileira para Jerusalém, entre outros temas.

Confira os principais trechos.

O que esperar do novo governo

Penso que ainda é cedo para se saber com precisão as orientações do novo Presidente sobre seu governo. Uma coisa, porém, parece-me incontestável: Bolsonaro foi eleito com apoio dos EUA e seguirá certamente os direcionamentos fixados pelo governo norte-americano. Tal apoio representou a mais recente intrusão explícita do governo norte-americano no funcionamento do Estado Brasileiro.

Na verdade, tudo começou com o seminário internacional Illicit Financial Crimes, que deu origem ao denominado Projeto Pontes; seminário realizado no Rio de Janeiro de 4 a 9 de outubro de 2009, com a presença de membros seletos da Polícia Federal, do Poder Judiciário e do Ministério Público da União Federal e dos Estados, contando também com a participação de representantes do México, Costa Rica, Panamá, Argentina, Uruguai e Paraguai.

Durante o seminário, vários participantes, notadamente o juiz Sergio Moro e o procurador da República Deltan Dallagnol, pediram aos norte-americanos que realizassem o seu treinamento para combater tais crimes, o que não tardou a ocorrer. A estreita ligação de Moro com os Estados Unidos foi afinal revelada quando, em 2016, os meios de comunicação de massa norte-americanos o apresentaram como personalidade de destaque mundial; havendo recebido em agosto de 2006 a Medalha do Pacificador, concedida pelo Exército Brasileiro como reconhecimento pelos “relevantes serviços prestados ao país.

Desmoralizar os representante do Poder Público

A técnica utilizada pelos ianques para se introduzirem no funcionamento do Estado Brasileiro não representou uma novidade: consiste na desmoralização dos principais representantes do Poder Público, mediante a revelação de atos de corrupção; o que enseja a sua rápida substituição por outros personagens, ligados aos interesses norte-americanos. Tal técnica, que se saiba, foi pela primeira vez aplicada contra o Presidente Getúlio Vargas, após a criação da Petrobras em 1953; mas não deu resultado, em razão do suicídio do Presidente no ano seguinte.

Eles querem o pré-sal

Sob o comando de Moro e Dallagnol, a atual intrusão norte-americana foi provocada, sem dúvida, pela descoberta em 2007 da camada do pré-sal, revelando um dos maiores campos de petróleo de todos os tempos. O pré-sal já produziu mais de 1 bilhão de barris, o que representa quase 50% da produção diária nacional.

O dedo do Careca

Em 2010, o Presidente Lula sancionou a Lei nº 12.351, que estabeleceu o monopólio da Petrobras para a exploração do pré-sal; monopólio esse revogado pela Lei nº 13.351, de 2016, originada de projeto do Senador José Serra, conhecido pelas suas estreitas ligações com o norte-americanos. Deposta a Presidente Dilma Rousseff em 2016, teve início o desmonte da Petrobras.

Lei do Abate: não somos animais selvagens

A chamada Lei do Abate (Código Brasileiro de Aeronáutica – Lei nº 7.565/1986, regulamentado pelo Decreto nº 5.144/2004), como me parece óbvio, é francamente inconstitucional, pois infringe o princípio fundamental do art. 1º, inciso III (a dignidade da pessoa humana). Esta não é nenhum animal selvagem, suscetível de abate para proteção humana.

A louca guinada de Sergio Moro

O art. 26 da Lei Orgânica da Magistratura proíbe expressamente aos magistrados a atuação político-partidária. Ao que parece, o juiz Sergio Moro é uma exceção, estabelecida relativamente à aplicação dessa lei.

Direitos humanos para quem, cara pálida

A proteção dos direitos humanos é, hoje, considerada um princípio fundamental para todos os países. No Brasil, porém, como todos sabem, desde o primeiro século da colonização, há dois ordenamentos jurídicos: o oficial, existente em grande parte “para inglês ver”, como se dizia antigamente; e o real, que preserva a divisão da sociedade em duas partes: a dos oligarcas, em que a lei só se aplica quando não os prejudica; e a parte do “vulgo vil sem nome”, como disse Camões.

A quem serve a Escola Sem Partido?

Obviamente, o projeto “Escola Sem Partido” visa no fundo a impedir a educação política do povo, com base nos princípios da República, ou seja, a supremacia do bem público sobre o interesse privado; da Democracia, isto é, a soberania popular efetiva e não meramente formal; e do Estado de Direito, vale dizer, o exercício mediante controle oficial de qualquer poder público, inclusive a soberania popular; a qual, por exemplo, não pode afastar o respeito aos direitos humanos.

Democracia por aqui é lenda

A democracia autêntica, isto é, a efetiva soberania do povo, nunca existiu de fato em nosso país. Em alguns momentos, isto se torna plenamente visível, como ocorre atualmente.

Embaixada em Jerusalém: servidão política

Ao que tudo indica, trata-se de seguir, numa espécie de servidão política, a decisão dos Estados Unidos.
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Sócio de agência ligada a disparos em massa via WhatsApp integra time de Bolsonaro

Marcos Aurélio (mais à direita) com os futuros ministros Onyx Lorenzoni (Casa Civil, à direita)), General Augusto Heleno (Defesa, ao centro) e Marcos Pontes (Ciencia e Tecnologia)
O empresário Marcos Aurélio Carvalho, sócio de uma empresa ligada à investigação sobre envio em massa de mensagens via WhatsApp durante as eleições deste ano, foi nomeado nesta segunda-feira (5) para integrar a equipe de transição do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). Carvalho, que é sócio da maior fornecedora da campanha de Bolsonaro, diz que vai cuidar da área de comunicação da equipe de transição. Seu salário como membro da equipe será de R$ 9,9 mil. 

O empresário é sócio da AM4 Brasil Inteligência Digital. A empresa está envolvida no caso investigado pela Polícia Federal e pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

No dia 18 de outubro, uma reportagem publicada pelo jornal Folha de S.Paulo revelou que empresários teriam comprado pacotes de disparos de mensagens de WhatsApp com conteúdo anti-PT durante o primeiro turno das eleições presidenciais. Essa prática é considerada ilegal.

No dia 26 de outubro, uma reportagem do UOL mostrou que a AM4 contratou disparos de mensagens junto a outra empresa investigada, a Yacows. Inicialmente, a AM4 havia dito que não tinha contratado esse tipo de serviço. 

A reportagem também mostrou que, no mesmo dia em que a matéria da Folha foi publicada, dados das campanhas contratadas pela AM4 junto à Yacows foram apagados. Procurada, a AM4 disse que não foram seus funcionários que apagaram os dados do sistema.

Segundo dados da Justiça Eleitoral, a AM4 é a maior fornecedora da campanha de Jair Bolsonaro. Ela recebeu R$ 650 mil para conduzir a campanha do então presidenciável na internet. Esses valores podem ser ainda maiores porque o prazo final para a prestação de contas de quem disputou o segundo turno termina no dia 17 de novembro.

Nomeado diz que se afastou do comando da empresa

Segundo o cadastro de pessoas jurídicas da Receita Federal, Marcos Aurélio é um dos três sócios da AM4, que tem sede no município de Barra Mansa (RJ). Nesse cadastro, ele aparece como "sócio-administrador" da empresa ao lado do seu irmão, Magno Carvalho, e do amigo Alexandre José Martins.

Na condição de sócio-administrador, Marcos Aurélio estaria, em tese, impedido de assumir o cargo para o qual foi nomeado.

Isso porque a legislação impede que servidores públicos federais atuem como gestores ou administradores de empresas privadas. 

Procurado, o empresário informou que continua sócio da empresa, mas se afastou da sua direção. "Não há impeditivo em ser sócio", disse.

Sobre seu afastamento da direção da empresa, ele afirmou que recebeu o convite para integrar o grupo de transição na quinta-feira da semana passada (1º) e que, como a sexta-feira (2) foi feriado, ele ainda aguarda a atualização dos dados da empresa na Junta Comercial do Rio de Janeiro.

Segundo Carvalho, o convite para integrar a equipe de transição foi feito pelo deputado federal Onyx Lorenzoni (DEM-RS), apontado como futuro ministro da Casa Civil de Bolsonaro. 

A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da equipe de transição de Bolsonaro para questionar os termos nos quais a nomeação de Marcos Aurélio Carvalho foi feita e se o fato de sua empresa estar vinculada à investigação sobre o uso em massa de mensagens via WhatsApp durante as eleições não criaria conflito de interesse.

Até a última atualização desta matéria, a equipe não respondeu as questões. 

Leandro Prazeres, Gustavo Maia, Aiuri Rebello e Flávio Costa
No UOL
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