4 de nov. de 2018

Cientista político francês Olivier Dabène faz um prognóstico preocupante para o Brasil


O Brasil de Bolsonaro: o espectro da "democradura"

No dia seguinte ao segundo turno das eleições presidenciais, três Brasis emergem. Para os 57 milhões de eleitores de Jair Bolsonaro, o radicalismo de seu campeão está à altura dos desafios que se colocam diante dele. O país precisa varrer a corrupção e usar de firmeza para acabar com a violência. Os 47 milhões de brasileiros que votaram em Fernando Haddad, por sua vez, quiseram defender a democracia tanto quanto expressar sua lealdade ao Partido dos Trabalhadores (PT).

Resta o Brasil invisível de mais de 40 milhões de eleitores que não participaram da votação, ou votaram nulo ou em branco. Essa proporção anormalmente elevada reflete certa perplexidade diante de uma perigosa polarização política.

Como chegamos a isso?

Embora ele seja parlamentar há 28 anos, o candidato Jair Bolsonaro conseguiu, durante sua campanha, encarnar a figura do outsider anti-político. É bem verdade que suas posições radicais, o marginalizaram durante muito tempo dentro da classe política, permitindo-lhe colocar-se como alternativa ao mundo corrupto dos profissionais desse meio. Bolsonaro também aproveitou seu passado militar para dar legitimidade às suas propostas autoritárias em matéria de combate à violência e à insegurança. Finalmente, ele ganhou espaço graças à frustração gerada pelo ritmo lento da recuperação econômica.

O radicalismo de Bolsonaro é proporcional à aversão suscitada por toda a classe política, comprometida em escândalos de corrupção. A importância dada à democracia, em queda nas pesquisas, não impediu que os eleitores votassem em um candidato nostálgico da ditadura. Para alguns, o ódio contra o Partido dos Trabalhadores (PT, no poder entre 2002 e 2016), motivou um voto de rejeição do qual Bolsonaro se beneficiou.

Estas eleições fecharam assim um ciclo marcado por uma estratégia de desforra da direita derrotada nas urnas quatro vezes pelo PT (em 2002, 2006, 2010, 2014).

As mobilizações sociais de junho de 2013 (movimento estudantil pela gratuidade do transporte público) foram mal administradas pelo PT, que se isolou da juventude. Elas também foram recuperadas pela direita, que acreditava poder transformá-las em um argumento de campanha eleitoral.

Apesar de tudo, nas eleições presidenciais de 2014, o PT conquistou sua quarta vitória consecutiva. As mobilizações sociais orquestradas pela direita em 2014 atestavam da vontade de partir para o afrontamento. Enquanto isso, as primeiras revelações da vasta investigação contra a corrupção lançada em 2014 (Lava Jato) abalaram a classe política como um todo. No entanto, a justiça se concentrou no Partido dos Trabalhadores e a mídia amplificou esse descrédito que atingiu o partido de Lula. Em 2016, a presidente Dilma Rousseff é destituída, em condições duvidosas, por "crime de responsabilidade fiscal".

Em 2018, a campanha eleitoral de Bolsonaro seduziu três tipos de eleitores: um eleitorado jovem, urbano e formado optou por um voto útil para afastar o PT; um eleitorado popular foi seduzido pelo discurso da segurança; e um eleitorado próximo das Igrejas Evangélicas retém apenas a defesa dos valores neoconservadores.

Todos são membros do WhatsApp, veículo da propaganda extremista com conteúdo odiento.

O risco de uma deriva autoritária

A deriva autoritária do Brasil começou em dois níveis. Ao nível institucional, a politização da justiça e o recurso abusivo ao processo de impeachment contra Dilma Rousseff vieram romper o equilíbrio entre os poderes. Em termos de comportamento, Bolsonaro durante sua campanha traiu o espírito da democracia ao apresentar seu concorrente como um inimigo a ser eliminado. Suas evocações nostálgicas do período da ditadura (1964-1985) podem ser equiparadas a uma confissão.

A democracia pode certamente funcionar na ausência de convicções democráticas de um Presidente da República, mas permanece então subordinada às suas ações. E a este respeito, Bolsonaro inspira todos os temores.

Assim, não é descabido pensar que os adversários de Bolsonaro tentarão desestabilizá-lo nas ruas, o que poderia levar a reações violentas das forças policiais, animadas pelo apoio do Presidente. Todas as opções estão abertas, desde o rápido retorno à calma até uma engrenagem ao estilo venezuelano, comprometendo as liberdades públicas. A democracia brasileira então deixaria de ser liberal.

Não é despropositado imaginar as dramáticas conseqüências da política repressiva que Bolsonaro anuncia para trazer a paz através da violência nos bairros afetados. O uso das forças armadas já foi testado no Brasil e as políticas da mano dura aumentaram a violência em toda a América Latina. A democracia brasileira se tornaria militarizada, uma "democradura" ainda mais violenta.

Um eixo conservador emerge na América do Sul

Pode-se finalmente especular sem muito risco de errar sobre a vontade de Bolsonaro de ser reeleito dentro de quatro anos. O uso de notícias falsas em massa durante sua campanha de 2018 mostra a que ponto ele não recuará diante de nada para tornar a vitória da oposição impossível. O regime dependerá então do autoritarismo eleitoral, como na Venezuela, na Turquia ou na Rússia.

Esses riscos de deriva autoritária poderão acentuar-se em função dos apoios internacionais que virão nutrir ainda mais sua empáfia. A admiração de Bolsonaro pelos Estados Unidos de Trump, para começar, não pode ser posta em dúvida. Bolsonaro procurará estabelecer um vínculo privilegiado com a administração republicana, a fim de tornar seu país um foco de sua influência na região. Ele também apoiará as posições de Trump, particularmente no Oriente Médio (transferência da capital para Jerusalém).

Na América do Sul, o aparecimento de um eixo conservador, incluindo Argentina, Chile e Colômbia, muda completamente os equilíbrios da geopolítica regional. Seu alcance será, no entanto, atenuado pela ênfase de Bolsonaro na defesa dos interesses nacionais (combate ao narcotráfico). A oposição agressiva à Venezuela deveria confirmar-se, mas sem chegar ao ponto de uma ação militar concertada com a Colômbia e os Estados Unidos, considerada um tempo durante a campanha.

Capacidade de resistência na sociedade civil

Desde a noite da derrota do candidato do PT, o Brasil mobilizado para a defesa da democracia entrou na resistência. Não há dúvida de que as organizações da sociedade civil brasileira que se opõem a Bolsonaro exercerão uma vigilância permanente e denunciarão com vigor os eventuais desvios mencionados acima.

Elas poderão contar para isso com o apoio de algumas instituições como o Supremo Tribunal Federal, que já interveio durante a campanha para defender a liberdade de consciência e de expressão nas Universidades. Este Tribunal terá que julgar o respeito à Constituição de certas reformas anunciadas por Bolsonaro. Em alguns casos, como no da redução da responsabilidade penal para 16 anos ou na privatização de empresas públicas, os debates prometem ser renhidos.

O período que se inicia será, sem dúvida, um teste para o Estado de Direito no Brasil e para a qualidade de sua democracia.

Olivier Dabène
Tradução de Sylvie Giraud
No Le Monde
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General Heleno e os impatriotas

https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2018/11/04/general-heleno-e-os-impatriotas/

O amor à pátria foi usado por Hitler para fazer a 2ª guerra mundial, eliminar judeus, ciganos e militantes de esquerda. Foi também a arma de Mussolini e de Franco. Tem sido usado numa lógica diferente por Trump para separar mães e filhos imigrantes em jaulas.


O general Augusto Heleno, que foi nomeado ministro da Defesa antes mesmo de Bolsonaro vencer as eleições, disse ao site oficial da extrema direita brasileira e do futuro governo, O Antagonista, que o ex-ministro da Defesa e das Relações Internacionais Celso Amorim “é o primeiro ex-chanceler a usar vários diplomatas a ele ligados em uma campanha no exterior contra o seu próprio país, mentindo sobre a prisão de Lula. Atitude impatriótica, vergonhosa e injustificável”.

Não se pode dizer que foi uma declaração, afinal soa muito mais como uma ameaça.

Nunca um futuro ministro da Defesa se referiu a um colega que ocupou o cargo desta forma na história do Brasil. Ou seja, sua afirmação antes de mais nada é uma ruptura com o código de ética que prevalece nesses ambientes.

Mas ela é mais grave, por ser uma ameaça não somente a Celso Amorim, mas a todos que porventura ousem discordar do novo governo. A partir de agora, esses serão os impatriotas.

É uma nova categoria da política à la Bolsonaro. Adversários são tratados como inimigos e para que isso possa ocorrer, eles são taxados de inimigos da Nação. Impatriotas é só um dos epítetos.

Na ditadura militar o amor à pátria foi usado como combustível para perseguir estudantes que pichavam a palavra democracia em muros, para massacrar greves e lideranças sindicais que buscavam reajustes salariais, para mandar ao exílio intelectuais e professores universitários que não se calavam, para censurar jornais e artistas em geral.

O amor à pátria nunca moveu países para destinos melhores.

O amor à pátria foi usado por Hitler para fazer a 2ª guerra mundial, eliminar judeus, ciganos e militantes de esquerda. Foi também a arma de Mussolini e de Franco. Tem sido usado numa lógica diferente por Trump para separar mães e filhos imigrantes em jaulas.

O amor à pátria é alma dos governos de inspiração nazi-fascistas.

É muito difícil debater neste terreno, porque o senso comum opera na lógica do “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Que certamente vai se tornar adesivo e camisetas em breve (e de novo).

Os impatriotas serão colocados em listas para serem perseguidos como já está acontecendo com artistas que declararam voto em Haddad.

Os impatriotas terão suas casas pichadas, seus carros atacados, suas vidas vasculhadas por órgãos de segurança. Haverá um chamamento à população para que as pessoas denunciem os impatriotas.

Porque os governos de inspiração nazi-fascistas precisam disseminar o ódio não só na política geral, mas no âmbito das relações familiares, do trabalho, dos espaços de convivência.

E sempre haverá um perigo real para que os impatriotas sejam denunciados. Na ditadura era a ameaça comunista.

Agora, pode ser a declaração de guerra à Venezuela ou ataques terroristas de grupos muçulmanos se o Brasil vier a mudar a embaixada para Jerusalém, contrariando resolução do Conselho de Segurança da ONU.

Mas o fato de ser isso o que esconde a declaração-ameaça do general Heleno, não pode intimidar o lado de cá (aqueles que serão os impatriotas). Esse lado não pode se recolher.

Muito pelo contrário, essa ação num primeiro momento pode vir a obter algum sucesso, mas no médio prazo levará o futuro governo a se isolar na sua bolha inicial. Aquela que foi muito importante para que Bolsonaro vencesse a eleição, mas que não é grande o suficiente para que ele governe.

Não haverá brioches para oferecer ao povo na ausência de pão. E muitos dos que apostaram no capitão querem mudanças nas suas vidas. Querem emprego, saúde, alimentação.

Esses não serão soldados de uma causa sem consequência por muito tempo.

Por este motivo, se a declaração de guerra do general Heleno assusta pelo que tem de fascista, ela pode significar a senha para a sua derrota.

A oposição precisa assumir como mote a defesa do país inteiro. De todos e todas. Dos torcedores de todos os times, e de todas as posições políticas. O todo contra a parte. É assim que se derrota o fascismo. Mas especialmente, sem ter medo.
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A hora da verdade


O deputado Jair Bolsonaro foi eleito presidente da República com cerca de 55% de votos válidos, pouco mais de um terço do eleitorado e um quarto da população. É suficiente para a investidura. Mas não para si mesmo.

A conquista, diz, materializa a verdade e a vontade divina. Três fundamentos da soberania compõem um quadro um tanto confuso: substrato popular, expresso pela vontade majoritária; alucinação dogmática, pela autoidentificação com a verdade; e autolegitimação teocrática.

Os que se apegam ao primeiro aspecto regozijam-se com a “solidez da democracia” brasileira. Debitam os demais na cota de excentricidades e retórica. Ledo engano. O personagem nada tem de excêntrico; ademais, o repertório não é suficiente para estruturar algo que pareça um argumento. O homem, quando espontâneo, fala pelo fígado. Com efeito, mais que nervos, parece ter fígado de aço.

Desconhecemos ainda o prazo de validade, mas não parece descabido dizer que se trata do primeiro líder popular da direita brasileira, desde que povo há por cá. A trajetória da política popular no Brasil teve início com a República de 1946.

Sua história testemunhou o fracasso renitente da direita eleitoral, nas campanhas do brigadeiro Eduardo Gomes (1945 e 1950), contra Dutra e Getúlio, e do marechal Juarez Távora, que se opôs a Juscelino em 1955. O espasmo janista, em 1960, foi o que foi: um experimento etílico falhado.

Carlos Lacerda foi abatido pelo “movimento” que ajudara a deflagrar em 1964, quando acreditava ter uma das mãos na taça para a eleição cancelada de 1965. O regime de 1964, por dispensar o povo, dispensou, por lógica, lideres populares, inclusive os da direita.

Com a democracia, aberta em 1985, Collor viria a ocupar de modo efêmero a função, mas deu-se o que se deu: um experimento tóxico falhado. Do brigadeiro a Collor, impõe-se dizer, por dever de justiça, que nenhum deles teve verdugos como inspiradores.

De lá para cá, a direita brasileira valeu-se de interpostas pessoas, em candidatos que não possuíam DNA direitista originário, por mais que para tal possam ter se esforçado.

Dada a natureza binária da competição política nacional, desde 1989, o PSDB cumpriu importante papel de canalização, para o âmbito da vida constitucional, de parcela significativa do voto à direita do centro. Um dos desastres inscritos no processo político recente é o da implosão desse elemento de filtragem.

Mas era mesmo questão de tempo que, em cenário de competição aberta, a direita brasileira encontrasse expressão eleitoral direta. Há algum sentido na coisa.

Saímos da ditadura, em 1985, inclinados à esquerda. O pacto constitucional de 1988, com suas cláusulas pétreas, entre as quais direitos fundamentais dos brasileiros, bem o indica. Década e meia de governos à esquerda, por sua vez, deram passagem à inclinação à direita, que ora se materializa do modo mais nítido e brutal.

Um naturalista diria que a hegemonia de um campo acaba por preparar, na ordem do tempo e das coisas, o trajeto hegemônico do oposto. Esse truísmo naturalista não está aqui a serviço da crença apaziguadora de que somos governados cosmicamente por movimentos pendulares. Como tudo na vida, o tempo também pode dar defeito, e a espera da volta do pêndulo, mais do que demorada, pode ser em vão.

Não há nada que garanta que o candidato vitorioso em 2018 seja o desaguadouro natural e verdadeiro da direita brasileira. O genérico “direita brasileira”, por sua vez, está longe de ser um compacto dotado de nitidez absoluta.

Há muitas correntes formadoras do caudal, desde verdugos recalcados até pacatos cidadãos de centro-direita. Como de hábito, a unidade é função da ojeriza a algum “inimigo”, produzida por uma repulsa que ultrapassa o diferendo político ordinário e toma a forma de um estranhamento existencial.

A imagem do outro existencial pode conduzir a cenários macabros. Um de nossos melhores sociólogos, José de Souza Martins, se dedica há tempos à observação do fenômeno dos linchamentos, modalidade sociopática na qual temos destaque internacional.

Com ele aprendemos que uma condição necessária para a ocorrência de linchamentos é a formação instantânea de uma multidão movida por ímpetos tanto eliminacionistas quanto autopurificadores.

Consumada a destruição física do corpo do impuro, elimina-se do mundo dos vivos um vetor de malignidade, ao mesmo tempo em que se purifica a multidão-agente. O ápice da purificação dá-se pela incineração do vitimado e sua redução à pura dimensão inorgânica e mineral. Moral da história: mais que matar, é necessário mineralizar; mais que prender, é necessário fazer apodrecer.

O mais perturbador é perceber que a multidão que lincha, uma vez decomposta em suas partes individuais, além de incluir assassinos patológicos, conta com gente pacífica e ordinária, que ama os filhos, comparece aos cultos e paga impostos.

Não se trata de sugerir, de modo alarmista, que algo como uma “lynching mob” esteja em formação. É razoável supor que, embora um ânimo eliminacionista e purificador possa permanecer como cláusula pétrea ou “ideal regulador” de segmentos sinceros e radicais, o corpo mais amplo dos apoiadores do presidente eleito reflua para assuntos comuns da vida e nichos ordinários da sociabilidade.

De todo modo, é fundamental desenvolver um sistema de premonições, avisos precoces e detecção de sinais.

Tal sistema poderia adotar como fulcro a advertência de Primo Levi no prefácio de sua primeira obra-prima, “É Isto um Homem?”: se a proposição “todo estrangeiro é um inimigo” for posta como premissa maior indisputada de um argumento, o campo de extermínio aparece como uma de suas conclusões possíveis.

A ostensão da verdade — coadjuvada pela sanção divina — como elemento de descrição e significação de uma vitória política tem muito mais a ver com a lógica abjeta da “tomada do poder” que da “conquista eleitoral do governo”. Os sinais parecem ser, mais do que inequívocos, primários: a linha demarcatória da verdade distingue o campo da sanidade cívica de um campo estrangeiro composto por sujeitos dispensáveis.

Luis Fernando Verissimo, em seu humor único de homem cético, no artigo “Os omissos” (O Globo, 1º/11), sugere que aos inimigos seja imposto o uso de uma estrela vermelha, costurada sobre a roupa. Ele acrescenta à sugestão a garantia de que a coisa já deu certo em outras ocasiões.

Haverá quem julgue que há exagero no que aqui escrevo. Como cético, não faço questão de estar certo, mas creio poder haver no exagero — se for o caso — uma função esclarecedora. O presidente eleito traz em si uma combinação de fatores de expressão imprevisível e perigosa. É importante tentar decompor os seus elementos.

Os anos que passou no Exército foram diminutos diante do tempo no qual exerceu mandato parlamentar. Há sete legislaturas ocupa uma cadeira na Câmara dos Deputados. Pelo histórico trabalhista, é antes um deputado que um capitão. Como tal, ocupou o mundo do baixo clero legislativo. Seus momentos de destaque se deram por meio de manifestações improferíveis por quem não dispõe de imunidade parlamentar.

A vitória eleitoral em 2018 traz para o proscênio do país um profissional da periferia do sistema político. Isto é inédito entre nós. Sua dimensão periférica é pelo menos dupla: pelo desempenho como deputado e pela negação do espaço parlamentar como expressão do diverso e do contraditório. Em miúdos: o que se diz na periferia, se repetido no proscênio, produz efeitos devastadores.

Ao mesmo tempo, seu sucesso eleitoral só se faz possível em cenário de competição política aberta. Foram as regras do sistema representativo que pavimentaram seu trajeto. Em suma: um personagem cujo sucesso dependeu dos valores e das regras de um sistema político aberto, com o qual, para por de modo moderado, manifesta escassa afinidade pessoal e doutrinária.

A sensação de filme já visto é inevitável, mas pode ser enganadora. Não se trata de usar as regras da democracia para destrui-la, tal como ocorreu na Itália e na Alemanha, mas de reduzir — ou mesmo eliminar — os fundamentos e mecanismos liberais que a ela têm estado associados.

Para tal, basta associar os termos “democracia” e “verdade”. Basta passar a dizer que a democracia, em sua essência, se realiza quando uma vontade majoritária se afirma, fixando um horizonte de verdade.

Basta dizer que os que foram postos fora da jurisdição da verdade devem ser submetidos a um outro tipo de direito, de natureza punitiva ou coisa ainda pior. Um sistema político fundado na verdade dispensa por natureza a operação de elementos internos de contenção, diante do que pensa poder impor aos desviantes.

O léxico da contenção do poder foi fixado no nosso horizonte pela tradição liberal, desde o século 17. A captura do liberalismo por gente que veio ao mundo a negócios fez do tema da liberdade existencial dos humanos uma aspiração microeconômica e utilitária.

Em sua expressão paroxística, tal captura não é hostil à possibilidade de supressão de alguns direitos liberais clássicos para que o regime da liberdade econômica possa ter livre curso.

Por essa via, tal liberalismo “verdadeiro” pode exigir, por exemplo, experimentos de enorme concentração de poder. É ficar a imaginar as reações de Locke, Montesquieu e Tocqueville diante de um superministério da liberdade econômica.

O regime da verdade, turbinado com a expressão majoritária, impõe a desertificação cívica e cognitiva do país. Não por acaso, dois dos alvos preferenciais da recente emergência da verdade são o ativismo social e a vida intelectual e universitária. Mas, para que eliminem Marx e Gramsci do nosso quadro intelectual e existencial, terão que fazê-lo antes com Locke, Montesquieu e Tocqueville.

Cada supressão particular e específica de direitos, para que deixe de ter consequências políticas e sociais, exigirá antes um ataque a princípios liberais. A supressão de cada movimento ou identidade específicos implicará o ataque contundente à liberdade genérica de organização e expressão. A defesa da incolumidade desse ordenamento liberal é crucial para o momento.

Nesse sentido, a decisão unânime do Supremo em condenar ataques “legais” antes cometidos contra universidades nos dá algum alento. Ninguém está a salvo do “esquadrismo” solto nas ruas, mas está nas mãos do presidente eleito escolher entre a desordem do “esquadrismo” e a ordem constitucional.

A prevalecer o quadro constitucional vigente, na plenitude das suas garantias, Jair Bolsonaro exercerá as funções de presidente da República, pois para tal dispõe dos requisitos legais. Em caso de deslizamento para outra lógica de ocupação do poder, tudo pode acontecer; tais requisitos serão de nula valia.

O mais provável é que se façam valer os versos da sábia marchinha “Rainha da Cor”, de Angela Maria: “Sargento manda no cabo/ Coronel, no capitão”.

Renato Lessa
No fAlha
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"Abate" com drone é crime

AVISO AOS PUNITIVISTAS DE OCASIÃO, PRINCIPALMENTE, AO FUTURO GOVERNADOR DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO:

Salvo a hipótese de guerra regularmente declarada, que afasta a aplicação da legislação penal comum, quem "abater" um suposto criminoso através de um DRONE estará praticando um crime de homicídio, qualificado pelo uso de recurso que dificultou ou tornou impossível a defesa da vítima.

Quem instigar ou auxiliar o operador do drone também terá praticado este homicídio, na qualidade de partícipe, sendo regra expressa do nosso Código Penal.

Vejam as regras penais pertinentes:

"Artigo,. 121. Matar alguém:

Pena - reclusão, de seis a vinte anos.

§ 2º Se o homicídio é cometido:

IV - à traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa do ofendido;"

"artigo 29: Quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade. (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984)"

Somente não haverá o crime de homicídio, se a vítima do disparo feito pelo drone estiver agredindo terceira pessoa ou estiver na iminência de fazê-lo. Esta situação deve ser concreta e devidamente comprovada no inquérito policial.

Vejam o que está disposto no artigo 25 do Código Penal:

"Artigo. 25. - Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem".

Evidentemente, a atuação das polícias, do Ministério Público ou do Poder Judiciário continuará a ser pautada pelo nosso ordenamento jurídico e não pela vontade de um Governador de Estado ou mesmo Presidente da República. Eles também devem respeito às leis do nosso país.

Fora disso, teremos instaurado a barbárie em nossa sociedade e assistiremos um absolutamente indesejável "banho de sangue" !!!

Afrânio Silva Jardim, professor associado de Direito Processual Penal da Uerj. Mestre e Livre-Docente em Direito Processual Penal pela Uerj.
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Bolsonaro, WhatsApp y cómo llegar al poder con la mentira


Los ingenuos que creen en la democracia digital han olvidado que la información no fluye en el vacío, sino en un espacio político que ya está ocupado, organizado y estructurado en términos de poder. Y si alguien tenía alguna duda, ahí está Brasil para confirmarlo.

La lección de la reciente campaña electoral, en particular la del candidato Jair Bolsonaro, del Partido Social Liberal (PSL), es haber logrado organizar a una potente cibertropa integrada por individuos con experiencia militar que se han involucrado activa y conscientemente en la manipulación de la opinión pública, junto a usuarios comunes políticamente motivados y compañías de comunicación estratégica locales e internacionales que fueron contratadas para intervenir en las redes sociales durante el proceso eleccionario.

El término cibertropas (Cyber troops) fue descrito en el 2017 por el Oxford Internet Institute como “la acción en redes de grupos de cuentas falsas, robots y/o trolls organizados –ya sea rentados o no- cuyo objetivo es producir algún efecto en la opinión publica, en la circulación de la información o en la persecución de opiniones críticas”.

Son sistemas complejos, no centralizados, que funcionan de forma celular y no necesariamente tienen contactos unos con otros. Sin embargo, demuestran actividad coordinada y una agenda temática común. Para tener éxito necesitan de la convivencia de tres factores: redes sociales (individuos relacionados), una fuerte motivación y plataformas sociales.

Quien haya seguido de cerca las elecciones brasileñas encontrará cientos de evidencias que confirman que, detrás de la retórica antisistema y la aparente torpeza en el uso de las herramientas digitales que mostraba Bolsonaro, hubo un diseño de laboratorio y expertos que aprovecharon el contexto eleccionario para aplicar innovaciones en las tecnologías de comunicación política, como ha venido ocurriendo en otras contiendas de la última década, desde la de Barack Obama (2008), el Brexit (2016), Donald Trump (2016), Macron (2017)… hasta Bolsonaro.

Comento solo tres hechos que, teniendo en cuenta el caso brasileño, nos permiten entender cómo la mentira se ha convertido en la vía expedita para llegar al poder en las “democracias” de hoy.

No hay procesos soberanos de deliberación pública en la red

La imagen falsificada junto a la original del fotógrafo John Duprey, tomada en Columbia University, 1959.
Imagen: Dominio Cuba.

La imagen más compartida en WhatsApp durante la campaña de Jair Bolsonaro muestra a un sonriente Fidel Castro y a una joven Dilma Rousseff, identificada como “pupila, estudiante socialista de Castro”. En realidad, la foto ha sido manipulada de un original de John Duprey, del diario NY Daily News, tomada durante la visita del líder cubano a Nueva York en abril de 1959, cuatro meses después del triunfo de la Revolución Cubana. Dilma tenía entonces 11 años, vivía en Minas Gerais y jugaba a las muñecas.

Este es uno de los ejemplos que recoge un estudio conjunto de la Universidad Federal de Minas Gerais, la Universidad de São Paulo y la plataforma de verificación de datos Agência Lupa, que reveló el estrecho vínculo de las acciones políticas, las cibertropas y las campañas de desinformación en las redes de Brasil durante las recientes elecciones.

Al evaluar el grado de veracidad de 50 imágenes repetidas en 347 grupos públicos que circularon en WhatsApp entre el 16 de agosto y el 7 de octubre, durante la primera vuelta de las presidenciales, los investigadores encontraron que solo cuatro imágenes eran comprobadamente verdaderas. Pero en esos grupos, ​18 088 usuarios postearon 846 905 mensajes, de los cuales 107 256 eran imágenes.

Esta intoxicación informativa no se produce a tontas y a locas. De acuerdo con los investigadores, lo que distinguió la campaña de Bolsonaro fue la combinación de una estrategia de comunicación vertical con el uso intensivo de las plataformas sociales. En otras palabras, existe evidencia abrumadora de que los estrategas del candidato generaron contenido malicioso y lo enviaron a activistas locales y regionales, quienes después comunicaron la información a miles de grupos públicos y privados, utilizando las plataformas más populares en Brasil, fundamentalmente WhatsApp. Desde ahí, los mensajes se diseminaron aún más cuando las personas crédulas los compartieron con sus propios contactos.

Ahora bien, como dice el filósofo vasco Daniel Innerarity, “el actual imperialismo cultural no es una cuestión de contenido sino de protocolos”. La influencia que se ejerce sobre los usuarios de la red no está solo en lo que se dice y se comparte, sino en el marco. La arquitectura técnica define cómo se busca y se encuentra información en Internet, cómo exploran y como se relacionan los usuarios. Esa mediación condiciona los hábitos de las personas que se asoman a Internet o participan activamente en una plataforma social. Por tanto, expresa una ideología, y es cualquier cosa, menos neutral.

“El valor supremo de esta ideología es la ‘libre expresión’ y guarda un sospechoso parecido con los valores de la desregulación, la libertad de circulación o la transparencia entendidos de manera neoliberal”, añade Innerarity. En realidad, WhatsApp, propiedad de Facebook, es una maraña de reglas y procedimientos para clasificar la información; reglas diseñadas por la corporación para el beneficio final de la corporación.

Es evidente que el equipo asesor de Bolsonaro conoce perfectamente estas lógicas.

Empleo de armas de destrucción matemática de la realidad

Para saber qué decir en cada momento, los expertos del PSL apelaron a la escucha social y a “tácticas militares de última generación”, ha dicho el antropólogo Piero Leinier, profesor de la Universidad Federal de San Carlos, en São Pablo, que desde hace más de 30 años estudia instituciones militares.

“Esto no es propaganda; es una bomba semiótica”, añadió en declaraciones al Folha de Sao Paulo: “Estos movimientos crean un ambiente de disonancia congnitiva: las personas, las instituciones y la prensa quedan completamente desconcertadas. Pero, al fin de cuentas, Bolsonaro reaparece como el elemento de restauración del orden, con un discurso que apela a valores universales y etéreos: fuerza, religión, familia, jerarquía.”

Por tanto, la campaña no es resultado del comportamiento “orgánico” en unas redes sociales altamente politizadas, sino del uso de “las armas de destrucción matemática de la realidad”, como las ha llamado el politólogo Katu Arkonada en una frase afortunada. La apropiación de enormes conglomerados de datos (big data) y el procesamiento de esta información con potentes máquinas en operaciones de inteligencia artificial explican el por qué, en el último mes de campaña, Bolsonaro prácticamente duplicó su intención de voto.

Un informe del Centro Estratégico Latinoamericano de Geopolítica (Celag) sobre la distribución entre receptores de redes sociales de Bolsonaro, Haddad y Lula, mostró una clara preponderancia del primero sobre los otros dos, con saltos abruptos que solo pueden explicarse por la intervención de tecnología y dinero en campañas publicitarias en redes, que han estado dirigidas fundamentalmente a los llamados millennials, los más jóvenes que tienen limitada exposición a la TV, no escuchan radio y se informan únicamente a través de nichos segmentados por grupos de interés.

De acuerdo con Celag, la metodología utilizada por consultoras expertas en algoritmos y análisis de audiencias fue la siguiente:
  • Escucha social con big data e inteligencia artificial, más análisis de expertos, que permiten detectar los miedos y rechazos emocionales más profundos que atraviesan el país.
  • Fabricación de mensajes que utilizan esas percepciones y se dirigen de manera diferenciada a públicos altamente segmentados y previamente identificados, para convertirlos en la “militancia” bolsonarista.
  • A la par, se activan miles de influencers de redes (previamente detectados por poseer gran cantidad de seguidores), que diseminan amenazas, mentiras y tergiversaciones.
  • Uso de aplicaciones robotizadas capaces de reanalizar la big data inicial (provista por los ensayos de recepción), y dispuestas a evaluar el éxito o fracaso de las mentiras. Con esa información, los analistas se reorientan y reposicionaban de forma precisa y ajustada en los temas más compartidos.
El resultado es una campaña sin precedente de guerra sucia, que nos hace preguntarnos qué vendrá después de todo esto.

Asesoría internacional

En WhatsApp cada usuario se registra con un número telefónico y puede tener conversaciones privadas y grupos de chat cifrados en el que participan hasta 256 personas. Debido a las fronteras permeables de este tipo de plataforma, no es fácil diferenciar a los participantes locales de los que acceden desde el borde exterior de la frontera nacional, de modo que no hay guerra informativa en la actualidad sin contaminación desde otros puntos de la red global.

Analistas brasileños han logrado identificar en la campaña de Bolsonaro el uso de cuentas y equipos de comunicación varados en otros países, fundamentalmente en Estados Unidos. En WhatsApp, por ejemplo, las cibertropas más activas se organizaron desde los teléfonos +1 (857) 244 0746, de Massachusetts, y +351 963 530 310, de Portugal, que manejaron más de 70 grupos de campaña del ultraderechista; y el +1 (747) 207 0098, de California, que administró más de 100 grupos de esa red.

Entre los expertos internacionales sobresale Steve Bannon, ex jefe de asesores de la campaña presidencial de Donald Trump y fundador de Cambridge Analytica, la filial londinense que ha intervenido ilegalmente en más de 200 procesos eleccionarios en todo el mundo.

De acuerdo con la agencia Reuters, Bannon estaría participando en la campaña desde agosto, después de un encuentro en Nueva York con el diputado Eduardo Bolsonaro, uno de los hijos del candidato presidencial. “Bannon se dispuso a ayudar”, declaró Eduardo. “Nos apoyará con consejos en internet, algún análisis, interpretar datos, esas cosas”, añadió entonces.

El Correio Braziliense informó en septiembre que el equipo de campaña del ultraderechista también tenía tratos con Arick Wierson, el estratega de comunicación digital y asesor de asuntos políticos de Michael Bloomberg cuando se lanzó para alcalde de Nueva York. Como se puede ver en este tweet, el experto sigue asesorando al Presidente electo:

Mientras, Carta Capital dio cuenta de la reunión sostenida en agosto por Eduardo Bolsonaro y los asesores de varios congresistas, entre ellos del Senador Marco Rubio -enemigo jurado de Cuba y Venezuela-. Al parecer esta es la segunda que se produce desde marzo, donde hubo otro encuentro de carácter secreto que ahora ha sido divulgado en los medios. La publicación asegura que el más reciente encuentro duró cuatro horas en Washington, donde definitivamente se fraguó el apoyo político y mediático para la campaña de Bolsonaro, con espaldarazo a la participación de Bannon y Wierson.

La elección brasileña ha servido de laboratorio para la propagación del ideario de un proyecto ultra liberal fundado en el odio y la desagregación social, cuyas consecuencias son impredecibles y no solo para la vida política del gigante latinoameriano.

Sin embargo, las voces más lúcidas de la izquierda en Brasil, entre ellos expertos y comunicadores sociales, han llamado a no salir de las redes sociales, a evitar a toda costa el aislamiento y a crecerse ante las arremetidas de las cibertropas.

El escritor Gilberto Calil ha explicado por qué:
“Sólo se puede enfrentar el fascismo con organización y acción colectiva. Las razones para temer son muy concretas, pero sólo nos fortaleceremos y nos protegeremos colectivamente. El aislamiento nos dejará más vulnerables, más desprotegidos y más imposibilitados de disputar la hegemonía. Avanzamos mucho en los últimos días, es hora de protegernos, pero no el momento de aislarnos.”

Rosa Miriam Elizalde, Periodista cubana. Vicepresidenta Primera de la UPEC y Vicepresidenta de la FELAP. Es Doctora en Ciencias de la Comunicación y autora o coautora de los libros “Antes de que se me olvide”, “Jineteros en La Habana”, “Clic Internet” y “Chávez Nuestro”, entre otros. Ha recibido en varias ocasiones el Premio Nacional de Periodismo “Juan Gualberto Gómez”. Fundadora de Cubadebate y su Editora jefa hasta enero 2017. En twitter: @elizalderosa
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O 18 Brumário de Jair Bolsonaro

Por que Bolsonaro, um deputado medíocre, inexpressivo, foi eleito presidente da quarta maior democracia do mundo?

Pelicano
“Demonstro nesse livro como a luta de classes na França criou circunstâncias e condições que possibilitaram a um personagem medíocre e grotesco desempenhar um papel de herói.”

Assim, com essas palavras, Karl Marx inicia o livro “O 18 Brumário de Luís Napoleão Bonaparte”, publicado em 1852. No texto, Marx se pergunta como um sujeito medíocre e grotesco conseguiu se tornar o líder máximo da sociedade que meio século antes havia experimentado a mais importante revolução social da história moderna.

Aqui, neste ensaio, me inspiro em Marx para formular minha própria pergunta:

Por que Jair Bolsonaro, até então um deputado medíocre, inexpressivo, foi eleito presidente da quarta maior democracia do mundo?

Meu esforço aqui é o de entender o capital político que impulsionou o bolsonarismo. Esse capital político é substância composta e heterogênea. Neste texto, pretendo decompor essa substância, trazendo à luz cada um dos seus elementos.

1°) O antipetismo

Desde o final da década de 1980 que o antipetismo é fator decisivo nas eleições presidenciais brasileiras. Até aqui nenhuma novidade. Porém, dessa vez algo mudou. Ao velho macarthismo, que durante tanto tempo inviabilizou Lula, somou-se uma dupla interdição moral.

A primeira camada de moralidade refere-se ao sentimento anticorrupção. Desde 2005, existe o esforço articulado pela grande mídia e por órgãos do aparato policial e judicial do Estado (Polícia Federal e Ministério Público) de colar no Partido dos Trabalhadores a pecha de partido mais corrupto do sistema político brasileiro. Essa frente antipetista sempre teve um modus operandi muito claro: a espetacularização seletiva dos escândalos de corrupção. É impossível compreender a ascensão de Bolsonaro sem a atuação dessa frente antipetista.

A segunda camada de moralidade refere-se ao plano do comportamento.

Nos últimos 30 anos, vimos no Brasil e no mundo o fortalecimento dos direitos civis das minorias (mulheres, pretos e pretas e LGBTs). Essa discussão já estava presente na cena brasileira desde a redemocratização, nos anos 1980, tendo sido contemplada parcialmente pela Constituição de 1988. Avançamos nessa agenda tanto nos governos de Fernando Henrique Cardoso como nos governos petistas. Poderíamos ter avançado mais, é claro.

É uma obviedade dizer que o Brasil é um país conservador e que, por isso, a pauta dos direitos civis das minorias tem grande impacto ofensor na moralidade dominante. Essa moralidade dominante foi ainda mais radicalizada com a ascensão do cristianismo neopentencostal, do qual a Igreja Universal do Reino de Deus é a principal representante.

Hoje, a formação política de parcela considerável da sociedade brasileira não acontece na universidade, tampouco na escola, muito menos nos sindicatos e associação de moradores. As igrejas evangélicas neopentencostais estão formando a consciência política de milhões de brasileiros e brasileiras, de todas as classes sociais.

Sem dúvida, a aliança costurada entre a candidatura de Jair Bolsonaro e a Igreja Universal do Reino de Deus foi elemento decisivo para o desfecho da corrida eleitoral. No Brasil inteiro, as igrejas se transformaram em verdadeiros núcleos de campanha. A campanha de Bolsonaro conseguiu convencer as pessoas que os direitos civis das minorias representam um ataque à família brasileira e que o PT seria o principal promotor desse ataque.

Resumindo: O velho antipetismo foi turbinado e caiu no colo de Jair Bolsonaro.

Mas por que Bolsonaro e não outro antipetista qualquer?

2°) A sensação da insegurança pública

Nas grandes cidades brasileiras, as pessoas estão assustadas. Os índices de violência urbana são similares aos observados em países em situação de guerra.

Como bem lembrou Marcelo Freixo, as esquerdas brasileiras sempre tiveram dificuldade em discutir o tema da segurança pública, pois costumam enfrentar o assunto com ideias abstratas como “direitos humanos”, ou com projetos que ofendem a tal moralidade da qual falei há pouco, como a “descriminalização do consumo de drogas”.

Enquanto isso, Jair Bolsonaro evocou a velha máxima do “bandido bom é bandido morto”. Foi o bastante para que as pessoas, assustadas, fossem tomadas por certo sentimento hobbesiano, aceitando de boa vontade abrir mão de algumas liberdades em nome de um Estado autoritário e violento, capaz de trazer a sensação de segurança. O medo é afeto político muito poderoso.

3°) A narrativa da ineficiência da democracia

Foram muitos os desdobramentos dos eventos que aprendemos a chamar de “jornadas de junho de 2013”. Ainda não entendemos bem o que aconteceu naquele momento e o próprio significado de “2013” está sendo disputado.

Mesmo diante de tantas incertezas e caminhando em terreno ainda pouco sólido, estou muito convencido de que junho de 2013 passou uma mensagem para a sociedade brasileira: a democracia representativa criada nos anos da redemocratização seria corrupta e ineficiente na gestão dos serviços públicos e na promoção do Bem-Estar Social.

Os números mostram outra realidade. Desde a década de 1990, o Brasil vem caminhando relativamente bem no que se refere à qualidade e a eficiência dos serviços públicos.

Não, leitor e leitora, não estou louco!

Todos os dados apontam para a evolução no acesso à educação e à saúde, no combate à mortalidade infantil, no aumento da rede de atendimento na saúde básica.

Mas como o que importa é a tal da “percepção”, os dados estatísticos são pouco relevantes. As “jornadas de 2013”, tão bem exploradas e cooptadas pela mídia hegemônica, pintaram para a sociedade brasileira um quadro de total colapso e ineficiência na gestão dos serviços públicos. Se o quadro não é totalmente falso, está longe de ser completamente verdadeiro.

A mensagem foi transmitida com sucesso e continuou a alimentar a revolta social em 2015 e 2016. O saldo desse ativismo da sociedade civil pode ser resumido por um sentimento de “fora todos”, de “tudo está errado”, “tem que mudar tudo isso aí”. Temos aqui terreno fértil para o surgimento de lideranças que se apresentam como antissistemas, como “outsiders”. Jair Bolsonaro era um dos poucos políticos que conseguiam caminhar com tranquilidade entre a multidão, justamente porque foi capaz de se apresentar como um crítico ao sistema vigente (a democracia) e um defensor da ordem política superada (a ditadura), que passou a ser objeto de toda tipo de saudosismo.

A percepção geral da ineficiência da democracia alimentou a utopia autoritária representada por Jair Bolsonaro.

4°) A falta de compromisso do capitalismo com a civilização

Uma das principais motivações para o golpe parlamentar que destituiu Dilma Rousseff em agosto de 2016 foi sua recusa em adotar a agenda de desmonte do Estado que na época foi chamada de “Ponte para o Futuro”.

Não há nenhum voo interpretativo aqui. O próprio Michel Temer disse, em palavras cristalinas: “Dilma caiu porque não quis adotar a Ponte para o Futuro”. Essa é uma novidade do golpe brasileiro: os golpistas assumem que foi golpe, sem nenhum constrangimento.

É antigo o projeto de desmonte do Estado brasileiro. Podemos encontrar sua origem lá na década de 1950, com o udenismo. Porém, esse projeto sempre teve dificuldades para se transformar em realidade. Nem mesmo a Ditadura militar o fez. Na década de 1990, os tucanos avançaram, mas nem tanto.

Os governos petistas interromperam a marcha, que foi acelerada com Temer. Em dois anos, Michel Temer conseguiu o que três gerações de políticos e economistas liberais não foram capazes de fazer: tirar do controle do Estado o planejamento do desenvolvimento nacional, entregando-o ao mercado. A famosa “PEC dos Gastos” é o grande símbolo desse sucesso.

As forças do mercado sabiam muito bem que as eleições de 2018 representavam um risco para continuidade desse projeto. O primeiro movimento foi garantir que Lula ficasse de fora da corrida presidencial. Depois, foi colocada em movimento uma campanha negativa, visando a destruição do Partido dos Trabalhadores. O objetivo era fortalecer o outro polo do sistema político, aquele que até então era o dono do antipetistmo: o PSDB.

Jair Bolsonaro atravessou o processo e as forças do capital não hesitaram em abandonar o antigo aliado e firmar matrimônio com um novo amor. A popularidade de Bolsonaro se tornou a garantia da legitimação eleitoral da agenda econômica do golpe parlamentar. Não houve debate econômico, projetos de desenvolvimento nacional não foram discutidos. Jair Bolsonaro foi eleito, exclusivamente, na base do antipetismo repaginado e do sentimento hobbesiano alimentado por uma população assustada. Paulo Guedes foi silenciado durante toda a campanha.

As forças do mercado comemoraram a eleição de Bolsonaro. O ideal mesmo seria Alckmin, mas Bolsonaro, com a chancela de Paulo Guedes, serve também. Machista, autoritário, violento, homofóbico? Sim, não importa. O capitalismo não tem o menor compromisso com a civilização.

A eleição de Bolsonaro inquieta e assusta o mundo inteiro. Dentro e fora do país, aqueles que têm um mínimo compromisso com os valores que fundam a civilização se perguntam: como isso aconteceu? Como foi possível?

Ainda vamos nos debater muito com essas perguntas. Historiadores, sociólogos e cientistas políticos vão propor inúmeras hipótese explicativas.

Fato mesmo é que Bolsonaro não surgiu ontem. Ele está aí há muito tempo, no submundo da política brasileira. Ignoramos, não prestamos atenção, subestimamos, debochamos. Acreditamos que o Brasil não se rebaixaria tanto assim. No fundo, bem no fundo, nos iludimos, achando que o Brasil tinha melhorado. Melhorou não. É isso aí mesmo. Sempre foi.

Rodrigo Perez Oliveira, professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia
No Jornalistas Livres
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A entrevista de Moro tem tudo para ser um desastre


A entrevista convocada para terça-feira pelo sr. Sérgio Moro, a não ser que dê voltas sobre generalidades, será um momento para começarmos a descobrir se teremos um governo único ou, afinal, uma federação de feudos, sobre a qual brilhará uma figura demagógica, a fingir uma autoridade que se dedicará a promover-se com apelos patrióticos, religiosos e autoritários.

Afinal, dos “superministros” anunciados até agora, não se conseguiu saber rigorosamente nada sobre os planos que serão implementados a partir de 1° de janeiro.

Paulo Guedes, o ‘posto ipiranga’ da economia foi desautorizado pela enésima vez na quinta-feira sobre uma CPMF que substituiria a contribuição previdenciária patronal. Onyx Lorenzoni, o chefe da Casa Civil, também vetou as pretensões de aproveitarem-se partes do atual projeto de reforma previdenciária e o general Hamilton Mourão deu um pontapé na proposta “oferecida” pelo queridinho do “mercado”, Armínio Fraga.

Será que Moro será o primeiro a anunciar algo de concreto?

Não se imagina que ele seja capaz de anunciar uma política nacional de Segurança Pública, o que deveria se a primeira preocupação da nova e superpoderosa pasta. Nem que possa definir quais são as peças do “pacote anticorrupção” com que ele estrearia no jogo. Acaso vai falar da liberação da venda de armas de fogo, a mais vistosa das propostas de seu novo chefe? Difícil.

De quinta até amanhã, fechado em seu mundinho curitibano, com quem terá discutido – já nem digo o mérito, mas a viabilidade política – um conjunto de propostas concretas para o setor? Com Deltan Dallagnoll? Com seu amigo Zucolotto? Com a querida Rosângela “Moro com Ele”?

Mesmo a “grande obra” de acabar com a presunção de inocência e tornar obrigatória a prisão após sentença de 2a. instância – além da péssima imagem pública de que se trata de uma decisão “personalizada” para ajudar Bolsonaro a cumprir sua promessa de fazer Lula “apodrecer na cadeia” – é matéria que exige mudar a Constituição e isso não é tão simples quanto assinar um mandado de prisão.

Ao que tudo indica, portanto, não será uma entrevista para mostrar planos, mas para mostrar as garras.

Mas o evento tem tudo para dar errado e nada para agregar algo de positivo a esta montagem.

As explicações que lhe serão mais cobradas não serão sobre seus planos, mas sobre seus atos e suas juras de que não entraria para a política.

E sobre seus planos não para a Segurança, mas para uma cadeira no STF e para as eleições de 2022.

Vai ter de se equilibrar para não exacerbar as contradições entre o papel que teve nas eleições e o que terá no governo. E para afirmar que aceitou o cargo porque recebeu garantias de Bolsonaro de que será “o rei do pedaço” e que, portanto, é ele e não o eleito que governará esta área.

Fernando Brito
No Tijolaço
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A RBS quer “marcar” eleitores de Haddad assim como nazistas fizeram com judeus?


O Jornal Pioneiro (RBS) que circula na Serra gaúcha publica matéria que visa “identificar” os eleitores de Haddad na Serra. Nela os trata como se exóticos fossem. A matéria esconde o fato de Haddad ter ganho as eleições em mais municípios do que Bolsonaro e procura identificar os “invisíveis” eleitores de Haddad. Infelizmente ainda há setores democráticos da sociedade brasileira que parecem não ter se dado conta do caminho sem volta em que estamos entrando e parecem só olhar para as próximas eleições, que se darão justamente nos municípios, incluindo estes onde a RBS pretende que os “invisíveis” sejam detectados, apontados e rotulados, como se já não houvesse mais o sigilo do voto. Este humilde blogueiro, por ler história e informado de que a história se repete, primeiro como tragédia e na segunda como farsa, tem publicado aqui artigos que alertam o que esta acontecendo. É o que dá pra fazer, diante da insensatez das elites que optaram por derrubar um governo que tinha um viés um pouco mais social para instituir o nazifascismo redivivo em terras brasileiras.

Rádios, Jornais e Cinema, a mídia da época, foram usados de forma contundente para manipular corações e mentes pela máquina de propaganda de mentiras de Hitler, capitaneada por Goebels. Os Judeus passaram a ter primeiro suas casas e suas roupas marcadas, depois nos campos de concentração os próprios corpos passaram a ser maracados e por fim milhões deles incinerados. Por isto repito neste artigo o que já havia dito em outros. É estarrecedor ver a política de descosntituição do diferente levada a efeito pela RBS, uma empresa pertencente a judeus, contra o PT, petistas e também aos eleitores do PT. O Brasil marcha célere para o abismo que destruirá a nação e a grande mídia cumpre o nefasto papel de propagador do mal.

Judeus estrela amarela 2
Estrela com as quais os judeus eram obrigados a marcar suas roupas

Judeus Estrela amarela
Judeus com roupas marcadas sendo presos e encaminhados a campos de concentração


Segue a matéria do Jornal Pioneiro na Integra. Leiam e tirem suas próprias conclusões:

Os 134 eleitores de Fernando Haddad em Nova Pádua são praticamente invisíveis. Alguns são conhecidos por nome, sobrenome ou apelido, mas evitam falar por receio de represálias políticas e pelo clima de confronto que se instalou na eleição. Um produtor rural aceitou conversar com o Pioneiro com a condição de não ser identificado, apesar de os amigos saberem de sua opção partidária.

– Aqui é uma cidade pequena e o preconceito é grande – diz no início da conversa por telefone, na noite de quinta.

Apesar da citação ao preconceito, ele ressalta que o grupo de amigos do futebol sempre respeitou sua preferência política.

Eleitor do PT desde jovem, o produtor rural que preferiu não se filiar no partido que governou o país por 14 anos. Segundo o agricultor, o PT é o único partido político com propostas em todas as áreas.

Ele ressalta que o PT foi a sigla que mais investiu no desenvolvimento da agricultura familiar e que isso deveria ter o reconhecimento dos moradores de Nova Pádua.

– Nos governos do PT, conseguimos comprar máquinas com juros baixos. Meu pai tem 50 anos na agricultura e não conseguiu o que conseguimos em 10, 15 anos quando o PT governou o país – argumenta ele.

Para o agricultor, Bolsonaro é igual ao ex-presidente da República, Fernando Collor.

– Não existe quem faça milagre – opina.

Sobre as denúncias de corrupção contra o PT, o agricultor afirma que nem tudo é verdade e destaca que Fernando Haddad é melhor do que Bolsonaro. Apesar da preferência pelo petista, ele diz a eleição de Bolsonaro pode acalmar os ânimos entre os adversários.

– O clima dessa campanha foi de ódio, muito desrespeitoso. Gostaria que o Haddad tivesse ganhado, mas o clima seria pesado.

O BOLSÃO DOS 80%

Jair Bolsonaro (PSL) fez acima dos 80% dos votos válidos em 30 dos 65 municípios da região. Nova Pádua foi o único município onde a votação superou os 90%. Confira o ranking:

1. Nova Pádua: Bolsonaro 1.770 votos (92,96%) / Haddad 134 votos (7,04%)
2. Flores da Cunha: Bolsonaro 16.466 (87,89%) / Haddad 2.268 (12,11%)
3. Monte Belo do Sul: Bolsonaro 2.087 (86,78%) / Haddad 318 (13,22%)
4. Nova Bassano: Bolsonaro 4.980 (86,55%) / Haddad 774 (13,45%)
5. Campestre da Serra: Bolsonaro 1.774 (85,74%) / Haddad 295 (14,26%)
6. Protásio Alves: Bolsonaro 1.315 (85,28%) / Haddad 227 (14,72%)
7. Veranópolis: Bolsonaro 12.103 (85,27%) / Haddad 2.091 (14,73%)
8. Antônio Prado: Bolsonaro 7.131 (85,09%) / Haddad 1.250 (14,91%)
9. Pinto Bandeira: Bolsonaro 1.548 (84,82%) / Haddad 277 (15,18%)
10. São Marcos: Bolsonaro 10.338 (84,06%) / Haddad 1.960 (15,94%)
11. Fagundes Varela: Bolsonaro 1.559 (84,04%) / Haddad 296 (15,96%)
12. Tupandi: Bolsonaro 2.700 (83,75%) / Haddad 524 (16,25%)
13. Nova Araçá: Bolsonaro 2.605 (83,55%) / Haddad 513 (16,45%)
14. Bom Princípio: Bolsonaro 6.741 (83,26%) / Haddad 1.355 (16,74%)
15. Nova Petrópolis: Bolsonaro 10.608 (83%) / Haddad 2.172 (13%)
16. Vista Alegre do Prata: Bolsonaro 994 (82,83%) / Haddad 206 (17,17%)
17. Vila Flores: Bolsonaro 2.193 (82,79%) / Haddad 456 (17,21%)
18. Gramado: Bolsonaro 18.844 (82,50%) / Haddad 3.997 (17,50%)
19. São Valentim do Sul: Bolsonaro 1.380 (82,29%) / Haddad 297 (17,71%)
20. Cotiporã: Bolsonaro 2.252 (82,04%) / Haddad 493 (17,96%)
21. Nova Prata: Bolsonaro 11.842 (82,01%) / Haddad 2.597 (17,99%)
22. Ipê: Bolsonaro 3.466 (81,60%) / Haddad 777 (18,40%)
23. Bento Gonçalves: Bolsonaro 56.142 (81,50%) / Haddad 12.741 (18,50%)
24. Coronel Pilar: Bolsonaro 942 (80,72%) / Haddad 225 (19,28%)
25. União da Serra: Bolsonaro 950 (80,71%) / Haddad 227 (19,29%)
26. Garibaldi: Bolsonaro 15.945 (80,60%) / Haddad 3.837 (19,40%)
27. Boa Vista do Sul: Bolsonaro 1.612 (80,28%) / Haddad 396 (19,72%)
28. Guabiju: Bolsonaro 897 (80,16%) / Haddad 222 (19,84%)
29. Farroupilha: Bolsonaro 34.114 (80,07%) / Haddad 8.491 (19,93%)
30. Carlos Barbosa: Bolsonaro 13.837 (80,01%) / Haddad 3.458 (19,99%)

Luís Müller
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Editorialistas do Estadão têm um problema: a fixação em Lula


Os editorialistas do Estadão devem ter alguma questão psicanalítica não resolvida com Lula e as demais lideranças do PT. Num momento em que Jair Bolsonaro ameaça desconstruir a democracia tal qual a conhecemos, o jornal trata hoje de atacar Lula e o partido.

“O partido de Lula da Silva recrudesceu seu autoritarismo, expondo cada vez mais seu desespero. Depois de passar a campanha inteira a denunciar como “golpe” o impeachment constitucional de Dilma Rousseff, a exigir a libertação de Lula, como se este não tivesse que cumprir pena pelos crimes que cometeu, e a exigir apoio a seu candidato como única forma de “salvar a democracia” ante o perigo do “fascismo” supostamente representado pela candidatura de Bolsonaro, o PT agora trata de dizer que a vitória do oponente resultou de um processo “eivado de vícios e fraudes”, conforme declarou a presidente do partido, Gleisi Hoffman”, diz o principal editorial do jornal hoje”, disse, em um dos trechos.

Vamos por partes:

O que significar recrudescer seu autoritarismo?

O partido foi tirado do poder em 2016, e em 2018 Lula se apresentou à Polícia Federal para cumprir mandado de prisão, mesmo com a sentença de Sergio Moro sendo considerada injusta por mais de 100 juristas.

Havia muita gente que sugeriu a Lula que buscasse asilo em outro país, o que ele obteria facilmente e nem seria um país como Cuba, Venezuela ou alguma ditadura africana.

Onde está o autoritarismo?

Impeachment de Dilma

O impeachment de Dilma sem crime de responsabilidade que o justificasse — ora, as pedaladas fiscais… — é, sim ,um golpe parlamentar, apoiado por setores da Justiça e pela mídia corporativa.

O crime do PT foi denunciar o golpe

Nem isso ele poderia fazer? Teria que se impor uma lei da mordaça?

Lula tem pagar pelos crimes que cometeu

Lula não tem sentença transitada em julgado e uma análise fria do processo em que foi condenado revela a ausência de provas e da descrição de conduta criminosa.

Quem diz isso são os mais de 100 juristas no livro Comentários a de uma sentença anunciada — quase a totalidade dos autores não tem nenhuma relação com Lula e o PT.

Na esfera pública, salvo editoriais de publicações da velha imprensa, difícil encontrar um nome respeitado do Direito que elogie a sentença de Moro (talvez Joaquim Falcão, o jurista da Globo).

Apoio a Haddad como único caminho para salvar a democracia

No segundo turno, havia dois candidatos.

Um, professor de ciência política, de um partido que sempre respeitou as regras da democracia. Foi prefeito da maior cidade do Brasil, elogiado pela responsabilidade fiscal.

O outro que construiu sua carreira política com a defesa da ditadura e do golpe, da tortura e da perseguição a oponentes.

Havia dois caminhos para a democracia?
Claro que Bolsonaro não implantará um governo de viés autoritário por decreto, mas, pelo que já disse, a intenção dele é esta.

Ou há outro nome além de ditadura para quem pretende colocar opositores na cadeia ou mandá-los para fora do país?

Se vai conseguir, dependerá da resistência democrática e, nesse ponto, o PT está certo em anunciar que fará oposição firme.

A oposição é um direito constitucional e, neste momento, mais do que isso, um dever.

A vitória de Bolsonaro como resultado de um processo viciado e eivado de fraudes.

O candidato que liderava as pesquisas e poderia vencer a eleição no primeiro turno foi proibido de disputar as eleições.

Não é apenas Gleisi Hoffmann que diz isso.

Na véspera da campanha, o Comitê de Direitos Humanos da ONU decidiu que o país deveria respeitar os direitos políticos de Lula. Não o fazendo, o Estado brasileiro abriu brecha para que seja criticado e, no limite, até a legitimidade da eleição de Bolsonaro seja posta em cheque.

O PT não pode fazer esse questionado, já que disputou as eleições com candidato alternativo a Lula e, ao fazê-lo, legitimou o processo.

Ponto.

Mas um organismo internacional pode. E talvez o faça, sem consequências práticas, apenas para registro de que o Brasil não respeitou as regras da democracia, ao tirar da disputa quem venceria as eleições.

Para sempre, esta eleição será conhecida como aquela em que o preferido da maioria da população, segundo indicavam as pesquisas, não pôde disputar.

Nem pôde sequer gravar um vídeo, em que manifestaria sua posição política.

Nem pôde dar entrevista a órgãos de imprensa que a haviam solicitado.

* * *

O editorial do Estadão explica por que, na eleição de Bolsonaro, algumas dezenas de brasileiros foram comemorar na frente da Superintendência da Polícia Federal, com rojões e gritando asneiras como “Tiramos a quadrilha do PT do poder”.

Ora, o PT já está fora faz tempo e quem ocupa o Palácio do Planalto executa um projeto político de regressão de direitos que não é o dos petistas, é o de Bolsonaro.

Portanto, a eleição dele é a continuidade do governo Temer, com a radicalização em alguns pontos.

O editorial do Estadão reflete a ideia fixa de setores da sociedade, que já não sabem por que protestam. Parece a jovem brasileira que deu entrevista à TV portuguesa SIC, na comemoração da eleição de Bolsonaro.

A repórter perguntou o que Bolsonaro poderia fazer de bom e a jovem respondeu:

“Muitas coisas. Mudanças. Tirar o PT do poder”.

Mas o PT já foi tirado. O que ele pode fazer de bom?, insistiu a repórter, com o acentuado sotaque português.

“Muitas coisas. Mudanças, Tirar o PT do poder…”, repetiu a jovem.

Percebendo que  não sabia dar as respostas, pediu ajuda a um amigo: “Paulo, vem aqui responder”.

O Estadão está precisando chamar o Paulo para convencer leitores que não sejam analfabetos políticos.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Relativismo – um manual de sobrevivência

Tudo tem dois lados – cada lado não necessariamente tem o mesmo peso – mas isso se ajusta a bico de pena. O relativismo e a Lei de Murici – a Lei de Imprensa de Bolsonaro.


O relativismo como forma de proteção física e intelectual para os tempos de revisionismo histórico que vêm com Bolsonaro. Uma proposta de convivência não adesista com o fascismo para os covardes… que sobreviverão.

Aqui, um estrato do texto Narrativas de Samuel Pessoa para a Folha de São Paulo de 04 de novembro de 2018 que mostra o quão o método pode ser incoerente, mas é safo.

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Leia agora o texto começando do fim para o começo. É um exercício revelador – ele mostrá a real intenção do autor. Foi escrito para ser assim mesmo – leia-se de um lado ou do outro. É a busca do ponto central da quadratura do círculo.

Já seria o suficiente para ilustrar o relativismo nele contido, mas, lendo toda a matéria, ficamos sabendo que:

“Não há simetria entre os crimes…  mas, se é fato que a ditadura torturou Dilma Rousseff, também é fato que toda a guerrilha lutou para instituir a ditadura que considerava correta”.

Falta ao texto dizer que Dilma Rousseff  – torturada – e Rubens Paiva, Wladimir Herzog e Manuel Fiel Filho – assassinados sob tortura – jamais participaram da luta armada. Mas isso, como nos ensina o “manual da redação para tempos de Murici”, é coisa que “podemos tirar, se achar melhor”.

Segue o didático texto de Pessoa e ficamos sabendo ainda que: “se é verdade que o Escola sem Partido pretende instituir práticas em sala de aula incompatíveis com a liberdade de expressão, é forçoso reconhecer que esse movimento reage a um processo de doutrinação nas disciplinas de história e geografia que constrói inúmeras narrativas factualmente erradas”.

Um detalhe: em treze anos de governos petistas, nem o PT, nem os “grupos de esquerda infiltrados na Educação”, buscaram passar uma lei que criminalizasse qualquer professor que ensinasse o contrário. Tampouco, incentivaram pais e alunos a perseguir e execrar tais professores. Detalhes inconvenientes. Um leve toque do bico de pena, e eles desaparecem.

E finalmente: “…  se é verdade que a direita defendeu a ditadura por aqui, é verdade também que partidos de esquerda defendem ditaduras na América Latina ainda hoje”.

Claro está que, neste instante, todos os governantes da América – inclusive Bolsonaro – chegaram e se mantém no poder pelo voto popular. Mas, ditaduras, se escolhem quais sejam e quais não sejam, segundo os interesses de quem pode mais e de quem quer chorar menos.

E para não deixar dúvidas, porque, hoje em dia, não é prudente deixar dúvidas de que a isenção tem lado – o lado certo – o fecho do texto:  “a dita esquerda, se quiser continuar a pertencer ao campo democrático, terá de abandonar suas narrativas mentirosas e buscar os fatos”.

Pessoa completa assim o círculo do relativismo de sobrevivência. Começa o seu artigo com grupos bolsonaristas buscando reescrever nossa história e o conclui acusando a esquerda de usar narrativas mentirosas. Razão para que seja – a esquerda – excluída do “campo democrático” que vigorará a partir de Bolsonaro. Esses são os fatos.

A democracia agradece. E Samuel Pessoa sobreviverá para contar a história.

PS: Lei de Murici: “em tempo de murici, cada um cuida de si”.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Concertos Gerais e Poesia
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O que é ser de extrema direita

A diferença de tratamento a Bolsonaro na imprensa brasileira e na mundial

Capa da revista inglesa ”The Economist” diz que Bolsonaro é ”a última ameaça da América Latina”
Há quem defenda que não faz mais sentido tentar dividir o mundo entre ideologias de direita e de esquerda. O que esses conceitos significam modernamente? É um tema politicamente complexo. O choque entre esquerda e direita, no entanto, é mundial. No Brasil, petismo e antipetismo formam o condimento local, que nem sempre pode ser resumido com exatidão como um confronto entre esquerda e direita.

Limitando a questão ao jornalismo, a Folha vem recebendo cobranças de parcela de eleitores que avalia que o jornal está evitando dar nomes aos bois ou, mais exatamente, qualificar o candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, como de extrema direita.

No início de outubro, dois meses após a campanha estar oficialmente nas ruas, a Secretaria de Redação da Folha distribuiu comunicado interno em que afirma não haver, na atual disputa eleitoral brasileira, nenhuma candidatura que se enquadre na categoria de “extrema direita” ou “extrema esquerda”.

O texto lembra o verbete “Qualificação ideológica” do Manual da Redação, que reserva o uso desses termos para designar “facções que praticam ou pregam a violência como método político”. Orienta a Redação a tratar Jair Bolsonaro, do PSL, como candidato de direita. Assim como Guilherme Boulos, candidato derrotado do PSOL, deveria ser considerado de esquerda.

Não demorou para que o comunicado chegasse a leitores, que escreveram para a ombudsman criticando a orientação editorial da Folha.

Os principais jornais do mundo, de inegável qualidade, usam variações do conceito de extrema direita (far right, ultraderecha, extrême droite) para definir a candidatura de Bolsonaro. São eles: The Economist, Financial Times, The Guardian, El País, The New York Times, The Washington Post, Le Monde, Clarín e La Nacion, entre outros.

É uma discussão que o jornal deve tratar de forma transparente em suas páginas. Para tal, algumas questões têm de ser respondidas. Quais são os elementos objetivos em Bolsonaro, no seu discurso e/ou na sua prática, que permitem classificá-lo ou não como extrema direita? Quais os efeitos jornalísticos de qualificá-lo dessa forma? Em que posição do espectro ideológico a Folha coloca cada candidato?

O editor-executivo da Folha, Sérgio Dávila, afirmou que a Folha não classifica nenhum líder atualmente no poder de extrema esquerda ou extrema direita. Usa a designação para alguns movimentos nos Estados Unidos e na Europa. O jornal usa esquerda radical ou ultranacionalistas/direita radical em casos como Marine Le Pen, na França, e Rodrigo Duterte, nas Filipinas.

“Quando é o caso, escrevemos que usam ou usaram parte do discurso da extrema direita. Nem mesmo o partido das Farc a Folha chama de extrema esquerda, mas de radical. Chamamos de extrema esquerda movimentos que depredam patrimônio e atacam policiais, como os black blocks”, disse Dávila. “O verbete da nova edição do Manual nasceu de um desejo do jornal de regular o que pareciam imprecisões na designação de candidatos na corrida presidencial francesa”, lembrou.

Autor clássico da ciência política, Norberto Bobbio (1909-2004) conceitua com clareza extremismo e moderação. Aponta que esses conceitos obedecem a um critério de contraposição no universo político diferente daquele da dicotomia esquerda/direita. Os conceitos de extremismo e moderação dizem respeito às estratégias empregadas para chegada aos fins desejados, enquanto que direita e esquerda dizem respeito à conotação dos programas que definem esses fins.

Para mim, a leitura do Manual não permite concluir que se reserve o uso dos termos “extrema direita” e “extrema esquerda” apenas para “facções que praticam ou pregam a violência como método político”. Entendo que há uma orientação para que “não se hesite” em utilizá-los nesses casos.

A candidatura do PSL representa corrente política militarista com demonstrações explícitas de defesa da violação dos direitos humanos, de questionamento dos direitos das minorias, que nega a ditadura militar e a ocorrência comprovada de torturas e que mantém reiterados flertes à quebra da normalidade democrática.

Esses pontos factuais somados parecem mais do que suficientes para definir uma candidatura como sendo de extrema direita, aquela que opta por estratégia extrema, além do eixo construído no consenso democrático por direita e esquerda.

Órgãos de imprensa do mundo todo —dos economicamente liberais de direita aos abertamente progressistas de esquerda— concordaram com essa apreciação.

A meu ver, a Folha e os principais órgãos da imprensa brasileira se equivocam em não fazê-lo e não parecem preocupados com a dimensão histórica desse entendimento.

Paula Cesarino Costa
Ombusdman da fAlha



Assinar jornal do PIG [Partido da Imprensa Golpista]? Para defendê-lo do fascista que ele ajudou a entronizar? O candidato do golpe que ele defende?

Só quando fizer autocrítica... Quando sair do partido e voltar ao jornalismo. Pedindo desculpas, sem reincidir.

Temos muito Nocaute, Carta Capital, Brasil de Fato, GGN, 247, Tijolaço, Opera Mundi, DCM, Jornalistas Livres, etc, para apoiar antes de arrependidos do PIG.

PIG que não viu agressão nenhuma à liberdade de imprensa, quando tentou impedir que a mídia independente recebesse publicidade oficial.

Nem quando Eduardo Guimarães, Breno Altman, Paulo Henrique Amorim e Fernando Morais, entre outros, foram constrangidos pelo lavajatismo compadre.

Aquela esquerda recreativa, que não perde chance de fazer festinha com a direita, ganha mais se investir a sua grana em mídia liberal mais decente.

Tipo El País, BBC, Deustche Welle. Ou The Intercept, liberal no conceito americano, mais à esquerda.

Mídia que o coitadinho PIG quer PROIBIR de operar no Brasil...

Liberdade de imprensa é para todos, ou não é liberdade. Nem imprensa.

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