3 de nov. de 2018

Bolsonaro e o autoritarismo líquido: como a extrema direita se move para perseguir opositores no Brasil

Pedro Serrano
Há cerca de dois meses e meio, estive com o professor Pedro Serrano, no apartamento dele, em São Paulo. Falamos durante cerca de duas horas, e realizei uma entrevista que, em parte, vai ao ar na semana que vem, no documentário “Crônica de Uma Sentença Anunciada — Como Lula Foi Tirado das Eleições.”

Serrano é professor de Direito Constitucional da PUC de São Paulo e tem pós-doutorado na Universidade de Lisboa. Ele estudou formas de governos totalitários e, durante a entrevista, usou muitas vezes uma expressão que eu estava ouvindo pela primeira vez: “autoritarismo líquido”.

Segundo ele, não existe mais uma ditadura concentrada na figura de um ditador, mas ondas autoritárias que se manifestam em determinados situações e se desfazem. Está muito presente no Brasil, como ficou claro na Lava Jato, mas existem também em outras partes do mundo.

É, na opinião dele, um avanço para destruir o mundo civilizado nos padrões que surgiram após a Segunda Guerra Mundial.

Pode ser uma onda passageira, mas pode não ser. A frequência do autoritarismo líquido vai depender da resistência dos setores democráticos da sociedade, que também se conectam, a exemplo da onda de caráter fascista, só que hoje com muito menos intensidade.

Lembrei da entrevista quando recebi hoje uma gravação de cerca de sete minutos, com uma entrevista que ele concedeu à rádio Brasil Atual.

A entrevista foi realizada depois que Sergio Moro aceitou ser super ministro de Bolsonaro. O que ele disse nesta entrevista é muito similar ao que disse no nosso encontro, dois meses atrás.

Ou seja, quando conversamos, é como se ele já anunciasse o que viria por aí. E não deu outra. É preocupante, mas tem saída.

Bolsonaro se aproveitou do autoritarismo líquido para alcançar a vitória eleitoral. Sob certo sentido, é uma contradição.

É anacrônico como ditador, daí porque manterá a fachada de legalidade em suas ações, mas está aprendendo muito bem a manejar os mecanismos do autoritarismo líquido.

O acerto com Moro se enquadra nesta estratégia.

Alguns pontos da entrevista de Pedro Serra à rádio Brasil Atual:

Sobre semelhanças com a Alemanha nazista:

Ele (Hitler) tinha uma estrutura concentrada de poderes, mecanismo que se faz como hoje, por exemplo, no Ministério da Justiça, que vai trazer o COAF para dentro de sei e a Controladoria Geral da União e vai tratar ao mesmo tempo do exercício das forças policiais de Estado e da aplicação de uma legislação de exceção que está se construindo, que busca perseguir as esquerdas e os movimentos sociais, como declarou já o presidente eleito.

Ou seja, as condições estão dadas. O presidente eleito declarou que vai perseguir a oposição, vai prender ou expulsar do país. Declarou isso claramente. Agora está construindo a estrutura legislativa para isso, o que já se iniciou com o decreto no governo Temer, que cria o sistema concentrado de inteligência.

O próximo passo é criar uma estrutura estatal própria de perseguição dos inimigos, que é esse Ministério da Justiça e coloca para capitaneá-lo o maior agente público de produção de medidas de exceção e de autoritarismo líquido no período anterior (Sergio Moro).

Portanto, está tudo estruturado nesse sentido. Para mim, é muito semelhante ao caminho que Hitler percorreu na década de 30.

PT, PSOL e movimentos sociais

O repórter pergunta: “E sem falar da atitude do senador não eleito Magno Malta de tentar fazer com que a legislação anti-terrorismo fique cada vez mais dura, não é. professor?

Isso é um dos passos. O primeiro passo foi você concentrar uma atividade de inteligência, dizendo que ela se destina a combater organizações criminosas. Só que, na lei, não está claro o que é organização criminosa. Essa lei tem sido usada para perseguir também movimentos sociais.

Aí fica uma estrutura de estado nesse super ministério que  concentra uma série de atividades de polícia e fiscalização da cidadania. E força física para poder realizar  o armamento e exercer o poder de polícia. E você tem agora essa modificação que vai haver nessa lei anti-terrorismo. O presidente eleito já declarou que não tem o objetivo de perseguir verdadeiras organizações criminosas, PCC, isso ele não está muito preocupado. Ele quer perseguir lideranças do PSOL e do PT. Ele acha que têm que ser trancafiados, o MST e o MTST. Ele quer perseguir a oposição. Não quer críticas.

O totalitarismo de Bolsonaro

Ele fala em nome de Deus se achando Deus, não sujeito a críticas. Não se julga um ser humano. É típico do ser totalitário isso. E agora escolhe para gerir a sua Gestapo esse juiz que teve um comportamento estranho à magistratura. Eu me lembro da capa da Veja com ele num ringue de pugilato, com ele de um lado e o Lula de outro. Isso não é papel de juiz. Papel de juiz não é brigar com réu. Papel de juiz não é ficar brigando com advogado de defesa. Papel de juiz é ouvir a defesa.

Semelhanças com o totalitarismo de Stálin

O que nós tivemos contra Lula é algo semelhante aos processos de Moscou, de Stálin, onde havia juízes, havia advogados, havia tribunal, havia recurso, mas no fundo era tudo uma pantomima armada para obter uma finalidade política de tirano. O que estamos vendo hoje é isso.

Os processos contra Lula e contra algumas das pessoas que foram aprisionadas na Lava Jato é isso. Alguns dos processos são corretos, outros não. Outros foram forma de pavimentar o acesso dessa extrema direita ao poder. E hoje estão sendo premiados por isso.

O dever da resistência democrática

Isso que estamos vendo hoje é o prêmio pela pavimentação do caminho que esse segmento do Judiciário fez para que a extrema direita pudesse assumir o poder.

É bom porque agora está explicito. Acabou. Caíram-se os véus. A função era política desde o começo e isso hoje é a consagração desse ponto de vista e cabe a nós rezar para Deus e pedir para a sociedade brasileira resistir a esse avanço do totalitarismo, porque vamos ter tempos negros pela frente.

Acabou a Lava Jato com a ida de Sergio Moro ao governo?

Perdeu o que havia ainda de supedâneo (base) moral possível numa sociedade democrática. A democracia não é só um procedimento de escolha, com base em decisões majoritárias. Ela é uma moralidade, que foi constituída no pós-guerra com a Declaração Universal dos Direitos Humanos e uma série de opções políticas e morais que a democracia liberal faz.

O que havia ainda de sustentação ético-moral a esse tipo de operação caiu agora, porque ficou demonstrado que a finalidade todo tempo foi fazer espetáculo, fazer marketing, com vistas à pavimentação do caminho ao poder da extrema direita, considerada pelo mundo extrema direita, não sou eu que estou falando.

Totalitarismo de Bolsonaro perverte o liberalismo

Inclusive a direita européia considera Bolsonaro um exemplo de extremista e procura nele se legitimar e diz: extremistas não somos nós, é o Bolsonaro do Brasil.

Há diversos artigos, editoriais de jornais. A Economist, que é uma publicação liberal, fala que há uma perversão do liberalismo no Brasil, porque se junta liberalismo de mercado com totalitarismo.

Ou seja, o mundo está observando o que está acontecendo: a extrema direita chegar ao poder. Isso foi pavimentado por uma parte do Judiciário e por essa operação. A fidelidade era política, ficou claro agora. E dles vão ocupar uma parte do poder de Estado.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Editorial do El País

Moro tira a máscara

A decisão do juiz de ser ministro de Bolsonaro macula retroativamente suas decisões sobre Lula e o PT

O juiz Sergio Moro, após reunião com Bolsonaro nesta quinta.
Mauro Pimentel - AFP

A decisão de Sérgio Moro de aceitar a pasta da Justiça no futuro governo do ultradireitista Jair Bolsonaro exige uma análise retrospectiva de suas ações, exame do qual o superjuiz, percebido como o paladino nacional da lei no Brasil nos últimos anos, não sai ileso. Sua elevação ao status de herói da justiça começou em 2014, quando suas investigações sobre a corrupção na Petrobras abalaram a política nacional ao prender dezenas de executivos, empresários e políticos, entre eles o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O presidente eleito, Jair Bolsonaro, pode ter marcado um gol notável entre seus eleitores. Mas Moro maculou sua carreira e fez um débil favor à Justiça ao aceitar o cargo de ministro.

Para começar, como revelou em uma entrevista o vice-presidente eleito, Hamilton Mourão, o cargo foi oferecido a Moro há algumas semanas. Mas depois de 1º de outubro, seis dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais, o juiz tomou uma decisão surpreendente que já naquele momento causou polêmica: tornou pública uma declaração de Antônio Palocci, ex-ministro de Lula de 2003 a 2006) e de Dilma Rousseff (em 2011), na qual este acusava o ex-presidente de ter conhecimento de todas as tramas corruptas da construtora Odebrecht e da Petrobras durante seu governo.

As revelações de Palocci, que tinham sido produzidas em março deste ano, foram reveladas pouco antes do primeiro turno sem que o juiz explicasse os motivos processuais para isso. Moro deveria esclarecer agora, no mínimo, se tomou a decisão antes ou depois de receber o convite para ocupar o ministério.

Não é este o único movimento estranho no longo histórico de Moro com Lula, a quem mandou prender em abril passado após sua condenação em segunda instância. Na ocasião, o ex-presidente liderava as pesquisas e Bolsonaro já se apresentava como candidato, segundo nas preferencias dos eleitores.

Moro condenou o ex-presidente por ter recebido um apartamento tríplex de uma construtora em troca de facilidades para negociar com a Petrobras. Durante os quatro anos que durou a instrução, o juiz deu mostras claras em várias ocasiões de agir por motivações políticas, afetando o processo eleitoral, principalmente contra o Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula.

Moro sempre negou que tivesse motivações diferentes das do direito e da lei, ou intenções de deixar a magistratura para passar diretamente à política. “Jamais, jamais. Sou um homem da justiça e, sem querer criticar, não sou um homem da política”, declarou ao jornal O Estado de S. Paulo há dois anos, em sua primeira entrevista como instrutor do caso Lava Jato. Já faz tempo, no entanto, que só os mais incautos acreditavam nisso de pés juntos.

Como resumiu de forma irônica Ciro Gomes, que concorreu à presidência este ano: “Moro tem de aceitar o convite [para fazer parte do Governo] porque não é um juiz, é um político e precisa assumir de vez sua vocação”. E a vocação não parece ter limites: em dois anos pode ser promovido ao Supremo Tribunal Federal (STF), como afirmou o próprio Bolsonaro, e alguns acreditam que o juiz também nutra aspirações para as eleições presidenciais de 2022.

Em uma declaração estranhamente premonitória, Moro garantiu no ano passado para a revista Veja: “Não seria apropriado da minha parte postular um cargo político, porque isso poderia, digamos assim, colocar em dúvida a integridade do trabalho que fiz até o momento”. O juiz tem toda razão. A democracia se baseia, entre outras premissas, em uma estrita separação de poderes e no império da lei. Os acusados têm direito a um juiz imparcial. A mera aparência de parcialidade pode ser causa de conflito de interesses, e a decisão do juiz Moro de se unir ao governo do presidente eleito, a cujo rival processou e condenou à prisão tão recentemente, sem dúvida inquieta os defensores de tal processo. O fato de Moro ser ministro de Bolsonaro joga de forma inevitável uma sombra retrospectiva sobre se Lula teve ou não um julgamento justo, ou se desfrutou do direito de ter um juiz imparcial. Mas o ex-presidente, hoje na cadeia, não é o único prejudicado. A imagem da justiça no Brasil, como um dos pilares da democracia, é a principal danificada pelo caso Moro.

El País
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Sergio Moro apaga debate sobre sua parcialidade com gasolina


“Fui convidado pelo senhor presidente eleito para ser nomeado ministro da Justiça e da Segurança Pública. Após reunião pessoal na qual foram discutidas políticas para a pasta, aceitei o honrado (sic) convite.” Assim, em breve nota redigida no (ainda) habitual juridiquês, o juiz federal de primeira instância Sergio Moro anunciou sua adesão ao governo do ultradireitista Jair Bolsonaro a partir de janeiro próximo.

“A perspectiva de implementar uma forte agenda anticorrupção e anticrime organizado, com respeito à Constituição, à lei e aos direitos levaram-me (sic) a tomar esta decisão. Na prática, significa consolidar os avanços contra o crime e a corrupção dos últimos anos e afastar riscos de retrocessos por um bem maior”, prosseguiu o em breve o futuro ex-juiz.

Descrito por quem convive com ele como homem de “timidez quase patológica”, Moro vinha sendo anormalmente falante em sua relação com o militar reformado. Na segunda, horas após a eleição de Bolsonaro, e sem que ninguém lhe perguntasse nada, o juiz resolveu que era seu dever “congratular” publicamente o presidente eleito.

A mulher dele, a advogada Rosângela Wolff Moro, foi bem mais efusiva. Em dois posts no Instagram, celebrou abertamente a eleição de Bolsonaro. Rosângela e Sergio podem, naturalmente, divergir politicamente – acontece com frequência entre casais.

Rosangela Moro comemora vitória de Bolsonaro no Instagram.
Reprodução Instagram

Mas as redes sociais dela já foram usadas como um canal direto de comunicação de Moro com sua legião de fãs pelo menos uma vez. Não parece estranho supor que, se achasse prudente que seu nome não fosse associado ao do militar de ultradireita, o juiz pedisse à mulher que evitasse a celebração pública.

A sinalização – agora transformada em adesão – de Moro a Bolsonaro certamente fez a alegria de quem acusa a Lava Jato de ser seletiva e partidarizada – o PT e, em especial, o núcleo duro de Luiz Inácio Lula da Silva.

O raciocínio é óbvio: ao aceitar a convocação ministerial (a vaga no STF é algo bem mais distante no horizonte) feita por um político dado a chutar bonecos do ex-presidente em comícios e a se referir a ele como “presidiário”, o juiz deu o sinal definitivo aos críticos de que agiu mais como acusador que como julgador.

“Creio que o convite é o reconhecimento do trabalho de Sérgio Moro. Quanto à argumentação de que a operação seria maculada, me parece mais fruto da pouca institucionalidade com que esses assuntos são tratados no Brasil. [Isso] não pode comprometer de qualquer forma a operação, pois em nenhum momento teve qualquer influência sobre as decisões [de Moro], já que posterior a elas”, defendeu o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, hoje afastado da Lava Jato, a quem pedi um comentário antes de Moro aceitar o convite.

Analistas políticos, porém, foram bem mais críticos já naquele momento. No UOL, Josias de Souza avaliou que seria “absurdo” Moro trocar a Justiça Federal do Paraná pela Esplanada dos Ministérios. “O juiz passará o resto da vida explicando por que ladrilhou com pedrinhas de brilhante a avenida que levou Bolsonaro ao Planalto. A Lava Jato jamais será a mesma”, cravou o analista.

Mordaça

Enquanto Moro e Bolsonaro ainda trocavam olhares enamorados pela imprensa, o Conselho Nacional de Justiça vem tentando, sem sucesso, botar um freio nas manifestações político-partidárias dos juízes, que explodiram nas eleições presidenciais. Para o CNJ, responsável por fiscalizar a atuação de integrantes do Judiciário, isso inclui “situações que evidenciem apoio público a candidato ou a partidos políticos”.

O CNJ já abriu nove processos para apurar a conduta de magistrados que se manifestaram politicamente. Na maioria dos casos, seis, trata-se de posicionamentos pró-Bolsonaro.

Responsável pela Lava Jato no Rio de Janeiro, o juiz Marcelo Bretas é investigado por ter parabenizado os políticos Flávio Bolsonaro, do PSL, filho do presidente eleito, e Arolde de Oliveira, do PSD, eleitos senadores. O desembargador Ivan Sartori, do Tribunal de Justiça de São Paulo, por colocar em seu perfil do Facebook uma foto com o slogan do ultradireitista.
O CNJ fingiu que não via os saracoteios políticos do astro paranaense da toga.
O próprio Moro é alvo de processos no CNJ, todos movidos por integrantes do PT. Um deles questiona a decisão do juiz de tornar pública, a seis dias do primeiro turno, parte da delação premiada do ex-ministro Antonio Palocci. Para os autores – os deputados federais Paulo Pimenta, Paulo Teixeira e Wadih Damous –, houve “escancarada tentativa de tumultuar o processo eleitoral, por quem tem (ou deveria ter) o dever constitucional de preservá-lo”.

Ao CNJ, Moro respondeu dizendo que “agentes do Partido dos Trabalhadores” buscam “criminalizar a atividade jurisdicional” e “cercear a atuação independente da Justiça através de ofensas, mentiras e representações disciplinares”. O Conselho ainda irá julgar o caso. Para o jornalista Elio Gaspari, porém, o juiz “ofendeu a neutralidade da Justiça”.

Esse episódio aparentemente secundário ganha proporção inédita agora que o falante vice-presidente eleito Hamilton Mourão afirmou que as primeiras sondagens a Moro foram feitas ainda durante a campanha eleitoral – ou seja, o juiz pode ter tomado uma decisão que prejudicou o PT já sabendo que seria chamado a trabalhar para seu principal adversário.

Antes mesmo de Moro responder ao convite informal feito pelo presidente eleito, o Intercept pediu ao CNJ que se manifestasse a respeito da nota emitida pelo juiz de Curitiba para saudar a eleição do ex-militar de ultradireita. Ainda esperamos a resposta.

Ao juiz, havíamos perguntado se a nota de congratulações também viria a público se o eleito fosse o petista Fernando Haddad (segundo a repórter Cleide Carvalho, de O Globo, é provável que não), e por que ele mudou de ideia em relação a agosto, quando afirmou que não se manifestaria sobre outro convite para ser ministro – de Alvaro Dias, do Podemos – pois “a recusa ou a aceitação poderiam ser interpretadas como indicação de preferências políticas partidárias, o que é vedado para juízes”.

Ao aceitar o convite de Jair Bolsonaro, o juiz responde, ainda que sem fazê-lo diretamente, a ambas as perguntas. Agora que se tornou político (algo que, há dois anos, dissera ser totalmente fora de cogitação), Moro desce do pedestal de vetor moral da nação em que fora colocado por admiradores e, de certo modo, pela própria vaidade.

Os danos à operação Lava Jato – que, afora alguns excessos, expôs o funcionamento do submundo político brasileiro como nunca antes na história desse país, como diria seu alvo principal – são ainda desconhecidos, mas certos. Por um lado, é saudável que as decisões de Moro – algumas bastante criticáveis, como a condenação de Lula no caso do tríplex – sejam revistas a partir de seu agora assumido posicionamento político. Por outro, corre-se o risco de ver maculado todo o trabalho da operação, dando a investigados como o atual presidente Michel Temer, o senador não reeleito Romero Jucá, o senador rebaixado a deputado federal Aécio Neves e o encarcerado mentor do impeachment, Eduardo Cunha, a chance de dizer que ela tinha como alvo o establishment político, e não a corrupção.

Quando divulgou a delação de Palocci, Moro julgou-se dispensado da obrigação de prestar contas de seus atos à opinião pública. Também calado, o CNJ fingiu que não via os saracoteios políticos do astro paranaense da toga.

Agora, o juiz será obrigado a fazer algo de que nunca gostou: dar satisfações à imprensa. E é bom que se acostume rápido ao escrutínio, pois, ao despir-se do uniforme de super-herói para se ombrear com gente como Onyx Lorenzoni e – provavelmente – Magno Malta, ele também deu de ombros a um mandamento valioso no universo político: tão importante quanto ser honesto é parecer honesto.

Rafael Moro Martins
No The Intercept
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Praga do século: fake news nos EUA hoje ultrapassa eleição de Trump


O diagnóstico de que o uso de fake news nos Estados Unidos em 2018 já ultrapassa a eleição de Donald Trump é da Universidade de Oxford. E não é só fake news, mas também material de ódio distribuido em redes sociais sobre assuntos políticos. E está crescendo. A informação é de Bruno Benevides, na Folha.

O levantamento foi divulgado na quinta, dia 1º, e analisou o material compartilhado no último mês pelo Twitter e no Facebook contemplando a eleição americana, que se dará no dia 6, quando democratas tentarão tirar dos republicanos o controle da Câmara e do Senado.

A conclusão é de que tudo o que foi prometido pelas duas empresas para combater disseminação desse tipo de material, não surtiu o efeito esperado. Assim, notícias falsas ou não confiáveis distribuídas atualmente superou em muito o de 2016, quando o assunto veio à baila.

"As plataformas tomaram medidas, mas enquanto pessoas continuarem a divulgar desinformação, o problema vai continuar", disse Nahema Marchal, doutoranda do Instituto de Internet de Oxford e uma das autoras do estudo.

Nahema e mais três colegas estudaram as 'junk news' ou notícias lixo, classificação que engloba não só conteúdo falso mas também teorias da conspiração e material ofensivo. O grupo analisou cerca de 2,5 milhões de tuítes e encontrou as contas que mais espalharam esse tipo de notícia. De posse do material, buscaram os perfis de Facebook ligados a este sites e observaram 7 mil páginas da plataforma.

A equipe criou, então, um site que mostra em temporeal o material que está sendo divulgado por estas páginas. E, como exemplo, lá é possível achar um artigo que acusa Barack Obama de financiar organizações terroristas, ou então que um imigrante da caravana de centro-americanos tentou derrubar um helicóptero a pedradas no México.

Segundo os pesquisadores, se antes a distribuição de notícias falsas se restringia a perfis ligados à Rússia ou a sites de extrema-direita, em 2018 o modelo se disseminou entre grupos mais moderados, em especial do lado conservador.

No estudo, os perfis de extrema-direita, dentro de uma avaliação que varia de 0 (nenhuma interação com 'junk news') a 100 (só interage com esse tipo de material), receberam 89, enquanto a direita tradicional recebeu 83. Este último engloba o Partido Republicano.

Páginas ligadas a causas progressistas, como o feminismo, receberam 46. E a esquerda institucional, de oposição a Trump, recebeu 24, nota mais alta somente que o 20 recebido pelos sites jornalísticos.

A distribuição de 'junk news' sse refletiu também na proporção em que o material pode ser encontrado no Twitter. Se em 2016, 20% das notícias foram assim classificadas, agora tem-se 25%, contra 19% das notícias feitas pelo jornalismo profissional e 5% de fontes oficiais, como partidos políticos, governos e universidades.

Os pesquisadores de Oxford se depararam com uma realidade bem mais extensa. Nunca houve um número tão alto de 'junk news' nos países pesquisados, e aí se inclui a eleição presidencial brasileira e outros cinco países em campanha.

No GGN
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Rio Centro, de novo?


Antes, o general Augusto Heleno, o futuro Ministro da Defesa, vazou um vídeo de reunião onde especulava sobre a existência de um novo atentado contra o capitão Jair Bolsonaro. O vídeo foi divulgado na semana final do segundo turno e, naquele momento, foi secundarizado e tratado como um lance eleitoral. O general Augusto Heleno ainda não havia sido indicado formalmente Ministro da Defesa e agia como um homem da campanha.

No entanto, já na condição de futuro Ministro da Defesa, o general Augusto Heleno voltou ao tema do atentado, novamente sem prestar qualquer informação concreta. Segundo ele, ao jornal O Globo, “o serviço de inteligência do país descobriu indícios de um plano, que qualificou como ‘terrorista’, contra o presidente eleito Jair Bolsonaro”. Ao mesmo tempo, circulou na capital federal a informação de que Bolsonaro planeja tomar posse em carro fechado e blindado, ao contrário dos presidentes anteriores, que chegaram ao Palácio do Planalto em carro aberto.

Ainda de acordo com o jornal, o general não disse quem poderia ter sido o autor do plano e nem quais as providências tomadas em relação ao caso. Na mesma matéria, o Globo afirma que as informações sobre o suposto plano de ataque contra Bolsonaro foram discutidas em reuniões na PF e da Abin. As reuniões já devem ter contado, certamente, com o “homem de confiança” de Bolsonaro, o delegado Daniel França que, depois de ausente no dia do atentado em Juiz de Fora, retornou, a seu pedido, ao comando da sua equipe da segurança.

Diante da insistência do general Augusto Heleno, é de se perguntar qual interesse está por trás desse tipo de divulgação feita de forma irresponsável e sensacionalista. Estranho ao papel de um Ministro da Defesa, a insistência do general dá margem para pensar que se trata de estímulo para que alguém cumpra a sua agenda “terrorista”. Ou, mais grave, gerar a desconfiança de que alguma armação criminosa estaria em curso com objetivo de responsabilizar a oposição, como se tentou no caso da “facada”.

A nova declaração do general Augusto Heleno aconteceu exatamente no momento em que a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado Federal adiava decisão sobre a “Lei Antiterrorismo” (PLS 272/16). Por iniciativa do senador Magno Malta, o governo pretende criminalizar lideranças políticas e sociais e entidades por “motivações” de ordem “política, ideológica e social”. “Esse texto é um violento atentado à democracia brasileira”, alertou o Líder do PT, Lindbergh Farias (RJ).

A difusão desse tipo de informação ocorre no momento em que segue sem esclarecimento o assassinato da vereadora Marielle, nas barbas do Exército. Ou que estranhos fatos se sucedem em Juiz de Fora, incluindo novas mortes, tiroteios entre policiais e “pagamentos” com dinheiro falso. É de esperar que a mídia busque apurar com mais rigor esse tipo de informação para evitar que o país seja surpreendido por ações do tipo “Rio Centro”.

Fernando Rosa
No Senhor X
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Ministro da Justiça será subordinado a um defensor da tortura

É o crime no poder


O Conversa Afiada publica artigo de seu colUnista exclusivo Joaquim Xavier:

A partir de primeiro de janeiro, o Brasil terá mais um (...) na presidência da República. Sim, bandido. Se assim preferirem os exegetas, um "acusado" de crimes. Mas o fato é que Jair Bolsonaro já foi condenado em vários processos, mas, para ele, vale o “trânsito em julgado”, que para Lula não serve.

Além das ações por ofensas contra parlamentares, por apologia do estupro, uso de dinheiro público para sustentar funcionários fantasmas e até tentativa de explodir instalações do Exército, Bolsonaro é militante assumido e entusiasmado da tortura, tipificada como crime internacionalmente. Existisse ainda o tribunal de Nuremberg, estaria sentado no banco dos réus a caminho da forca.

Não bastasse isso, encarregou outro (...) para cuidar do ministério da...Justiça: Sérgio Moro. Para não falar de todo o resto, deixemos a palavra com Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, ao comentar a interceptação do juizeco de Curitiba de conversas entre a então presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula. “ Ele não é o único juiz do país e deve atuar como todo juiz. Agora, houve essa divulgação por terceiros de sigilo telefônico. Isso é crime, está na lei. Ele simplesmente deixou de lado a lei.” Era o que afirmava também Teori Zavascki, o ministro do Supremo que morreu num acidente de avião muito mal explicado.

Querem mais? Onyx Lorenzoni, outro superministro do capitão (...) admitiu publicamente que recebeu dinheiro ilegal da JBS em sua campanha. Oficialmente, foram R$ 100 mil. Está sendo processado. Réu confesso.

Já chega, não? Não. Outro superministro, Paulo Guedes, nesse momento é alvo de ações judiciais suspeito de ter roubado dinheiro em transações com fundos de pensão. É apenas a ponta do iceberg das negociatas desse admirador de gente como o ditador chileno Augusto Pinochet.

Ufa! Parece o suficiente. E nem se cita aqui o general Hamilton Mourão, vice de Bolsonaro e até hoje chefe de torcida dos tempos da ditadura militar. Escapou de ser preso, mas teve que passar para a reserva. Aposentou a farda, mas não a saudade dos porões.

É essa turma de (...) que se apresenta agora para governar o Brasil para “livrar o país da corrupção e do crime organizado”. É até possível entender que uma parte dos eleitores –a minoria, diga-se de passagem: 39% para ser mais exato—possa ser iludida pela cantilena de um capitão de segunda linha e seus asseclas. Hitler também foi “eleito”.

O que não se pode perdoar ou esquecer é ver gente que se vende como esclarecida calar-se ou, pior, encarar tudo isso com normalidade ou resultado do andar da carruagem do “jogo democrático”. De acadêmicos empanturrados de dinheiro do povo por baixo do pano e baseados na avenue Foch em Paris aos barões da grande mídia, ouve-se um silêncio ensurdecedor.

O país está diante de um escárnio que mesmo em sociedades primitivas causaria asco. A nomeação do criminoso Moro vem sendo tratada por este pessoal como uma “opção” polêmica, e não como um atentado vulgar ao que restou à Constituição ou normas democráticas elementares. O amanuense de Curitiba, travestido de juiz, fez campanha aberta pelo idólatra da tortura, chegando ao cúmulo de vazar “delações” contra o líder disparado nas pesquisas quando já havia sido convidado para integrar a (...) que espera ocupar o Planalto a partir de janeiro.

Serviço feito, serviço pago. Com Moro ministro, o Brasil passa a ser a primeira “democracia” do mundo em que o responsável pela justiça é subordinado a alguém que elogia sevícias, choques elétricos e o pau de arara contra opositores, simpatiza com estupros “desde que a mulher não seja feia”, odeia pobres, acha normal “matar 30 mil” e tem como livro de cabeceira as memórias de um dejeto como Brilhante Ustra.

Pode ser que o povo, mantido na ignorância pela ação deliberada das “elites” locais e internacionais, demore um pouco para perceber o tamanho do estrago. Mas não vai demorar muito.

O motivo é simples. A maioria humilde e que representa o Brasil verdadeiro é amante da liberdade e quer saber como sair da miséria a que foi novamente rebaixada desde 2016, do desemprego galopante mascarado de “trabalho informal”, da vigência de regras trabalhistas que recolocam o país no patamar da semi-escravidão e eliminam na prática o direito a uma aposentadoria digna.

Sobre isso, a (...) que pretende assumir os destinos do país nada tem a falar. Procure-se quantas vezes as palavras “povo”, “social”, “emprego”, “casa própria”, “educação”, “trabalhador”, “liberdade” e outras parecidas surgem no discurso de Bolsonaro e seus asseclas. No lugar delas, vai-se encontrar fogo nos pobres, franco-atiradores e milícias legalizadas, armas a granel, perseguição a opositores e combate à corrupção... sob o comando de corruptos de papel passado!

Não há diálogo possível. Nem como esperar até 2022.



Por que Moro será ministro de Bolsonaro?

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Governo eleito orgulha-se de exibir sua falta de pudor

Quando a deposição de Dilma foi sacramentada pelo Senado, eu estava participando de um congresso acadêmico. Um clima de revolta e tristeza generalizados. Mas um "colega" particularmente desprovido de caráter dizia nos corredores, para quem quisesse ouvir:

- Esses que estão por aí falando de golpe vão mudar de discurso logo que seus financiamentos de pesquisa começarem a ser cortados.

O governo Temer de fato cortou financiamento para pesquisa. Até onde pude ver, porém, foi um corte ecumênico: não usou critérios de perseguição política. Mas agora o risco é real.

A pasta da ciência e tecnologia está sendo entregue a alguém que não tem a menor vivência na comunidade de pesquisadores e que, em sua primeira declaração pública após ser oficialmente convidado para o cargo, anunciou a intenção de "combater inimigos internos e externos".

"Inimigo interno", como se sabe, era a denominação dada pela ditadura militar aos dissidentes políticos.

E o governo eleito, como também se sabe, orgulha-se de exibir sua falta de pudor - como mostrou ao nomear o futuro ministro da Justiça.

É fundamental que a comunidade científica se mostre intransigente na defesa de sua autonomia - que é condição básica para a realização de seu trabalho - e que garanta que as agências de fomentos ficarão imunes à instrumentalização política.

Luis Felipe Miguel
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Os custos da guinada na política externa


O presidente eleito Jair Bolsonaro já definiu os ocupantes de pastas estratégicas como Casa Civil, Economia e Justiça, mas não o de Relações Exteriores, geralmente um dos primeiros anunciados, até para que os governos estrangeiros tenham logo um interlocutor.

Ele segue fixando, pessoalmente, as linhas de uma política externa que pode ter custos elevados para o Brasil e comprometer décadas de esforços diplomáticos. O convidado terá que aceitar o prato feito.

O alinhamento com os Estados Unidos deve alcançar o nível das “relações carnais”, definição do ex-presidente argentino Carlos Menem para a submissão de seu governo.

Ao bater continência para a bandeira americana, Bolsonaro disse gestualmente a mesma coisa.

Na quinta-feira, ele anunciou a transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, seguindo os passos de Donald Trump e contrariando a posição historicamente assumida pelo Brasil, de respeito às aspirações do povo palestino ao seu próprio Estado, tendo a cidade sagrada como capital.

Haverá alinhamento também nos órgãos multilaterais, disse Bolsonaro, na entrevista ao jornal “Israel Hayom”: “Podem contar com o nosso voto”. O premiê Benjamin Netanyahu louvou o “passo histórico” e prometeu vir à posse.

O custo da hostilidade aos palestinos pode ser uma drástica redução das exportações brasileiras para os países árabes, que são o quarto maior destino de produtos nacionais, atrás da China, EUA e Argentina.

Elas somaram US$ 1,01 bilhão em 2017.

Má notícia para os exportadores de frango e açúcar, que representam quase a metade das vendas para os árabes.

Bolsonaro quer comprar briga também com a China, maior parceiro econômico do Brasil, com quem Trump está em guerra comercial.

Durante a campanha chegou a dizer que não privatizaria a Eletrobras para que nossa energia não ficasse “nas mãos dos chineses”, grandes investidores no setor.

Foi à Ásia em fevereiro, pulou Pequim, mas foi a Taiwan, irritando os chineses, que consideram a ilha parte de seu território. O Brasil reconheceu isso no reatamento das relações diplomáticas por Geisel, em 1974.

Se a relação desandar, pior para o Brasil, que exporta US$ 50 bilhões anuais para a China, com saldo comercial de US$ 32 bilhões.

Passemos às relações com a Argentina, que estão na base do surgimento do Mercosul.

Devemos aos presidentes Sarney e Alfonsín, os primeiros civis após o fim das respectivas ditaduras, a negociação de um acordo estratégico que pusesse fim às antigas rivalidades entre Brasil e Argentina.

Foi a Declaração de Iguaçú, que cobri como repórter. Seguiram-se vários acordos.

Um deles pôs fim à disputa armamentista e nuclear entre os dois países, outro lançou as bases para a criação de uma área de livre comércio, à qual aderiram depois Uruguai e Paraguai, dando origem ao Mercosul.

Mas para que o bloco chegasse a ser o que é hoje, perto de firmar acordo com a União Europeia, foram anos de trabalho, negociação e superação de dificuldades e conflitos.

Esta semana o futuro ministro Paulo Guedes respondeu com estupidez à repórter argentina que perguntou sobre o bloco.

“Não é prioridade. É isso que você queria ouvir? Não é prioridade”.

Há problemas que devem ser corrigidos, mas o que se pretende, como disse o ex-chanceler Celso Amorim, é esfacelar o Mercosul, lembrando que o bloco compra 25% dos manufaturados brasileiros.

Na relação bilateral com a Argentina não haverá mais a “aliança estratégica”, tão importante para o progresso e a paz na região. A primeira viagem de Bolsonaro não será a Buenos Aires, mas a Santiago do Chile, numa deferência ao também direitista Sebastião Piñera, cuja política econômica ultraliberal é semelhante à que Guedes implantará.

Mas o Itamaraty, dirigido por uma carreira de Estado específica e altiva, é menos aberto ao aparelhamento.

Talvez consiga retardar os movimentos mais arriscados, até que o bolsonarismo passe.

Pois tudo um dia passa.
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Erotismo, pornografia e Sérgio Moro

A manchete é do jornal O Estado de S. Paulo de 6 de Novembro de 2016: “Jamais entraria para a política.” Quem proferiu frase tão clara foi o juiz Sérgio Moro, o grande responsável pelo processo Lava-Jato, cujas ondas de choque ainda hoje se fazem sentir na política brasileira e que teve um contributo essencial na construção da imagem do PT como partido de políticos corruptos.

Neste sábado soubemos que a declarada abstinência do juiz terminou e que ele aceitou integrar o Governo do recém-eleito Jair Bolsonaro para liderar o Ministério da Justiça e da Segurança Pública. E, assim, o que ontem era erotismo hoje é pornografia.

De forma simples, a diferença entre erotismo e pornografia é que tudo se trata de relações sexuais, mas enquanto no primeiro elas não são explícitas, antes sugeridas, no segundo tudo fica à vista. Ora há muito que se sugeria que a relação entre a condução do processo judicial Lava-Jato e o momento político tinha pouco de inocente. Afinal, foi Sérgio Moro que mandou prender o candidato que seguia à frente nas sondagens, Lula da Silva, o que facilitou, e muito, a vitória da extrema-direita. O mesmo juiz que interrompeu férias para evitar a libertação de Lula, o mesmo que, na última semana da primeira volta das eleições, decidiu libertar as declarações da delação premiada do ex-ministro petista Antonio Palocci, que claramente afectavam a candidatura de Fernando Haddad.

Para os militantes do PT, há muito que isto era pornografia, mas para quem ainda coloca esperanças no discernimento da Justiça e no seu papel positivo para desmontar o ciclo da corrupção, isto poderia ser uma relação sem nexo, um flirt sem dolo. Agora, depois da aceitação do convite, depois de sabermos que o juiz já tinha sido sondado durante a campanha, o PT ganhou força para se ensimesmar na sua teoria de cabala política, e os amantes de Bolsonaro e Moro para acreditarem num casamento que favorecerá o combate à corrupção.

Para qualquer amante da democracia, resta tapar os olhos perante um espectáculo tão indecoroso. A nu fica a fragilidade do regime brasileiro, que continua a necessitar, como nunca, de gente capaz de entender o que é serviço público, as obrigações que advêm de ocupar um cargo de relevo e a absoluta necessidade de reafirmar o princípio da separação dos poderes. Sérgio Moro mostrou claramente que não é uma dessas pessoas.

David Pontes
Editorial
No Público
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Bolsonaro sai das urnas do tamanho de Dilma em 2014

https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2018/11/03/bolsonaro-sai-das-urnas-do-tamanho-de-dilma-em-2014/
Os quase 61% que não embarcaram na canoa do capitão são força suficiente para desestabilizar seu governo se ele radicalizar e a democracia prevalecer.

O resultado que vem sendo difundido pela mídia de 55% para Bolsonaro e 45% para Haddad é o dos votos válidos e não é falso, mas não dá conta da complexidade das urnas nestas eleições de 2018.

Neste ano houve um aumento de 3% nos votos nulos, brancos e abstenções que elevaram este eleitorado que não escolheu nenhum candidato no segundo turno para quase 30%.

Segundo as contas do professor Marcio Pochmann, publicadas no seu perfil do Twitter, em 2014 Dilma teve 38,2%; Aécio, 35,7%; N/B/A, 26,1%. Agora em 2018, esses índices foram de 39,3% para Bolsonaro; Haddad, 31,9%; N/B/A, 28,8%.

Ou seja, 60,7% do país não votou em Bolsonaro em 2018. Como 61,8% não havia votado em Dilma em 2014. Números muito parecidos e que apontariam para um governo que deveria buscar o diálogo com setores que o rejeitaram. Exatamente ao contrário do que Bolsonaro vem fazendo.

Esses quase 61% que não embarcaram na canoa do capitão são força suficiente para desestabilizar seu governo se ele radicalizar e a democracia prevalecer.

Acabo de publicar um texto em que digo que “depois da vitória do capitão, já começam a surgir análises de que seu governo não se sustentará por muito tempo. Que em seis meses estará desmoralizado. A chance de essa análise estar equivocada é tão grande quanto àquela que subestimou o seu potencial eleitoral”.

Isso precisa ser levado em conta para que a oposição a Bolsonaro não venha a ser feita sem a seriedade que o momento exige.

Mas também é verdade que se a radicalização à direita de Bolsonaro vier a levá-lo a perder uma parte de sua base de eleitores, como ocorreu com Dilma, seu governo pode se deteriorar rapidamente.

A situação de Bolsonaro é muito menos confortável do que parece e do que ele faz parecer. A análise dos dados eleitorais deixam isso claro.

PS: Outro dado interessante quando se olha os votos totais e não apenas os válidos é que a diferença de Bolsonaro para Haddad foi de 7% e não se 10%. Isso não muda em nada o resultado, mas permite verificar que a diferença entre os que escolheram as propostas de um e de outro no conjunto total do eleitorado é menor do que parece.
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Polícia Federal manda cinegrafista apagar imagens de Bolsonaro


Um cinegrafista da TV Globo foi forçado por um agente da Polícia Federal a apagar imagens que gravou do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) nesta sexta-feira. O profissional da imprensa acompanhava a visita de Bolsonaro ao Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia (Cadim), área da União administrada pela Marinha, no Rio de Janeiro, e embarcou junto com o presidente eleito e aliados no cais do Clube Náutico de Itacuruçá.

Bolsonaro foi à Restinga de Marambaia e passou a tarde com sua esposa Michelle e amigos. O cinegrafista estava a trabalho, com seu equipamento, gravando imagens do presidente eleito. Na Restinga de Marambaia, foi abordado pela PF e forçado a apagar as imagens. Depois, foi obrigado a voltar imediatamente para o local onde embarcou. O policial federal coletou dados e tirou foto do cinegrafista.

Procurada, a PF informou que não havia como falar com a reportagem porque hoje não tem expediente.

No Iate Clube, onde Bolsonaro embarcou, a imprensa foi expulsa pelo diretor social da instituição, que se identificou apenas como Valdir. O diretor disse ser militar e ameaçou prender repórteres que esperavam Bolsonaro no pier do clube.

A reportagem procurou a Marinha para obter mais informações sobre quem pode ter acesso à Restinga de Marambaia e quantas pessoas estavam na comitiva de Bolsonaro, mas não obteve essa resposta. Também não foi informado o custo dessa visita, com o deslocamento e refeições, além do efetivo de segurança.

Na nota divulgada pela Marinha, a instituição afirma apenas que o Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia (CADIM), localizado na Costa Verde do Rio de Janeiro, recebeu a visita de Bolsonaro. “O político visitou a Organização Militar da Marinha que, tradicionalmente, oferece privacidade e segurança para autoridades nacionais e estrangeiras”, afirmou.

“Cabe destacar que o local é o único em todo o Estado do Rio de Janeiro onde navios, aeronaves e veículos militares podem fazer uso de armamento real para adestramento. Em função da proximidade com várias outras OM, o deslocamento das unidades a serem adestradas é feito de forma rápida, economizando tempo e recursos”, diz a nota.
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Não toquem nas reservas internacionais



Depois de o governo Temer ter detonado com mais de 200 bilhões de reais deixados pelo governo Dilma nos cofres do BNDES, criminosamente esterilizados com sua devolução “antecipada” ao Tesouro - quando havia um prazo de 30 anos para serem pagos - no lugar de tê-los investido em infraestrutura para a a geração de renda e emprego e a retomada de obras paralisadas - muitas dela pela justiça- chegou a hora do Presidente do Itaú, banco que lucrou mais de 20 bilhões de reais neste ano, propor a “saudável” diminuição das reservas internacionais do país - também economizadas pelo PT - para “diminuir” a dívida pública brasileira, que já é das mais baixas entre as 10 maiores economias do mundo.

Ora, não é preciso ser Mandrake para saber que diminuir a poupança nacional é saudável para os banqueiros.

A alegação de que o país precisa contrair dívida para manter as reservas e que o PT teria aumentado a dívida pública para criá-las é furada e uma das principais fake news criadas contra o Partido dos Trabalhadores - uma agremiação absolutamente incompetente do ponto de vista de comunicação - nos últimos anos.

A dívida bruta quando o PT chegou ao poder, em 2002, e o país devia 40 bilhões de dólares ao FMI, era de 80% do PIB e quando Dilma saiu, em 2015, estava em 65%.

Logo, a balela de que manter as reservas aumenta a dívida - que repassa dezenas de bilhões de reais a bancos como o Itaú todos os anos - é tão falsa quanto aquela que diz que o PT, que deixou quase dois trilhões de reais para o país em caixa, apenas de reservas internacionais e nos cofres do BNDES, quebrou o país que pegou na décima-terceira economia do mundo e que devolveu na oitava posição, em 2015, em quarto lugar entre os principais credores individuais externos dos Estados Unidos.

Basta ver a situação da Argentina, obrigada a voltar a passar penico para o FMI, para aferir o tamanho da incompetência neoliberal e lembrar que cautela, reservas internacionais e canja de galinha não fazem mal a ninguém - como diria Tancredo.
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New York Times prevê banho de sangue no Brasil


O jornalista Bernardo Mello Franco estampa em seu Twitter a foto do The New York Times, em sua versão imprensa do dia 2 de novembro de 2018, em que aparece uma matéria assinada por Ernesto Londõno e Manuela Andreoni, intitulada "In Brazil, a blood bath foretold", ou "No Brasil, previsão de banho de sangue". O prognóstico vai se tornando consenso internacional, uma vez que o discurso belicista e policialesco de Bolsonaro e de alguns governadores eleitos indicam uma nova onda de violência do estado.

Confira aqui a matéria do jornal americano e abaixo, o Twitter do jornalista:



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Com snipers e drones assassinos, Witzel copia filmes para ‘mostrar macheza’


Após declarar que quem portar fuzil deve ser abatido pela polícia, o governador eleito pelo Rio de Janeiro, ex-juiz federal Wilson Witzel (PSC), pretende realizar uma viagem com o senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL), filho de Jair Bolsonaro, à Israel para conhecer um modelo de drone equipado com arma, capaz de atirar enquanto sobrevoa uma região. O equipamento pode ser utilizado em operações de segurança no Rio, de acordo com coluna de Berenice Seara, no jornal Extra.

O uso desse tipo de aparato costuma ser empregado pelo exército israelense em ações na fronteira em territórios palestinos.

O futuro governador pretende montar equipes de atiradores (snipers) e havia afirmado que membros das forças de segurança que abaterem criminosos não serão responsabilizados, já que se trata de “morte em combate”, em legítima defesa, e que não se configuraria como homicídio.  “O correto é matar o bandido que está de fuzil. A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e… fogo! Para não ter erro”, afirmou em entrevista ao Estado de S. Paulo. A proposta, que já estava registrada em seu plano de governo, passou a ganhar repercussão na última semana.

Para a antropóloga e professora da UFF (Universidade Federal Fluminense) Jacqueline Muniz as alternativas encontradas pelo ex-juiz federal é uma “cortina de fumaça” para o problema da segurança pública no Rio. “Essas ações só têm um objetivo que é fortalecer o mercado da guerra, adquirindo equipamentos para mostrar força e macheza sem ter reais propostas, pois possibilita compras com comissões vultosas e instrumentalização política do temor que ameaça e engana consciência dos cidadãos”.

Segundo a antropóloga, investir em aparato bélico é uma forma de “reproduzir roteiros de filmes de ação, que trazem situações fictícias com snipers salvando a população, o que não vai acontecer”.

A pesquisadora afirma que a medida viola parâmetros legais de preservação da vida e os procedimentos operacionais padrão da polícia que prevê o escalonamento do uso da força. “Com o mesmo gasto se poderia treinar os policiais do Rio de Janeiro em tiro defensivo e estático por modalidade de armamento e garantir superioridade de método da polícia. Mas não é isso que parecem querer. Preferem pagar comissões milionárias, esquentar a chapa e transformar a morte de policiais e cidadãos em esporte local”, analisa.

O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, também criticou o abate ao declarar que a medida não tem respaldo na legislação e dependeria de uma mudança na lei federal. Entidades de direitos humanos, como a Anistia Internacional, repudiaram as declarações de Witzel.

“Tal medida tem um potencial impacto desastroso de aumento dos homicídios e da violência armada nas cidades. Não se combate violência com mais violência, confrontos diretos e desrespeito à legislação vigente. Violência armada se combate com ações estratégicas de inteligência, investigação, prevenção, e maior controle de circulação de armas de fogo”, diz nota da Anistia.

Jeniffer Mendonça
No Ponte
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A classe média tradicional e as classes populares neopentecostais se deram o abraço dos afogados


A classe média e médio-alta tradicional votou na extrema-direita em boa quantidade. Votou em uma candidatura que flerta com a homogeneização dos costumes, das posturas e da Fé.

A cada esquina dos bairros de classe média e médio-alta paulistana há um espaço de bem-estar esotérico. Muitos da classe média e médio-alta frequentam centros espíritas.

Bem sabemos da visão individualista e decidida pelo cada um por si dessas duas classes sociais. Da vontade de não ser importunado pelo Estado e de viver uma Vida apartada do comprometimento social com as regras, até com as leis mais básicas. De oferecer uma nota fiscal e de viajar para o exterior e comprar/gastar dentro da cota permitida. De a mulher decidir se quer ou não usar a minissaia mais curta. De ser ou não usuário de drogas. De ser ou não cheio de tatuagens e/ou piercings. De decidir se aborta ou não aborta. E se juntam ao extremismo religioso do Malafaia, do Magno Malta e do Edir Macedo. Do fundamentalismo neopentecostal do LGBT tabu e inadmissível, do homossexualismo como doença. Da Educação Sexual como tabu. Da exposição em um Museu censurada por um homem nu. Da questão de gênero abolida do Sistema Educacional. Da escola com partido: o neopentecostal radical.

Quando se diz que é uma doença social o antipetismo estamos no caminho certo. Nenhuma Luta de Classes prescindiria de liberdade total, de individualismo pleno, a mola propulsora da classe média e médio-alta tradicional, se não fosse doença social.

Disseram não votar no PT porque ele “roubou demais”, “quebrou o Brasil” e que queria implantar esse tal de “comunismo”. E levaram para casa um pacotão de liberdades perdidas. Do medo de professar a Fé espírita e seu esoterismo. Do medo de ser importunado por uma tatuagem, um piercing, uma minissaia, pela maconha que fuma, por não ter um filho indesejado, por andar duas pessoas do mesmo sexo de mãos dadas nas ruas e até se beijando, adotando um filho e, assim, por diante.

Eu vejo que em 2018 o antipetismo foi mais doentio do que a racionalidade anterior, do voto da Luta de Classes. Esta doença associou opostos.

O cristão fundamentalista e o sujeito da liberdade total, que se juntaram à extrema-direita e deram a ela a oportunidade do primeiro se contemplar no conservadorismo dos costumes (fundamentalismo religioso) e o segundo no cada um por si da meritocracia. Ambos perdedores: o primeiro pela pauperização absoluta com a perda de vários direitos sociais com o modelo ultra neoliberal do Governo eleito, o segundo pela liberdade restringida.

Nesta Eleição fundamentalismo religioso das classes populares e a liberdade total das classes média e médio-alta tradicionais se deram o abraço dos afogados se juntando no voto à extrema-direita econômica, moralista e neopentecostal.

E tudo para acabar com o PT. E nessa loucura toda, seis memes comandaram a festa das Fake News.

Do lado do fundamentalismo religioso: kit gay, família tradicional e aborto;

Do lado da liberdade total: o PT “roubou demais”, o PT “quebrou o Brasil”, derrotamos o “comunismo”.

Realmente os opostos se atraem quando a doença social do brasileiro é despertada e todos perdemos juntos.

O PT, que já não é mais Poder faz 30 meses, foi saudado na vitória da extrema-direita: - Fora PT é o que gritaram na janela dos prédios perto de casa em bairro de classe médio-alta. E, pasmem, não se comemora a vitória do candidato que votaram, valia qualquer um que pudesse tirar do Poder o PT, que nem no Poder estava.

Na doença brasileira Temer é PT. - Eu não votei nele! Dizem.

No fracasso da extrema-direita no Poder veremos o mais inusitado fato: vão culpar o PT por terem de ter dado a vitória à extrema-direita, para derrotar o PT que já não é Poder faz 30 meses.

Inacreditável Brasil, um Brasil ilógico e adoentado.

Alexandre Tambelli
No GGN
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Você também comprou essa narrativa enlatada?


Bolsonaro nomeou Moro, e Moro até pode ser um bom ministro (calma), mas isso é assunto para outra news. Hoje quero falar sobre a armadilha das narrativas.

Bolsonaro já sabia que Moro diria sim. A cena do juiz viajando ao Rio foi apenas um show para a imprensa. Naquele dia, todas as redes de zap (elas não foram desmontadas depois da eleição, e nem serão) e todos os tuiteiros bolsonaristas amanheceram vacinados. Sem argumentos melhores para rebater a tese de que o juiz agiu com parcialidade evidente no caso Lula – e que por isso foi nomeado ministro da Justiça –, os cabos eleitorais pagos ou voluntários espalharam na praça uma tese quase infantil: "Moro só condenou o Lula na 1ª instância" então "tudo bem" ele aceitar o convite do Bolsonaro pra ser ministro, "nenhum conflito de interesse" já que a "ficha suja se define a partir da 2ª instância".

Milagrosamente, de tuiteiros assessores de políticos do PSL até aquele cara com 2 seguidores brotaram com a mesma tese ao mesmo tempo, redondinha, empacotada, pronta pra ser vendida na feira livre das obviedades. "Quem delimita a ficha suja é o TRF4!", eles escreveram, como se até as portas dos banheiros das rodoviárias não soubessem disso.

Acontece que o argumento jurídico é totalmente irrelevante nesse caso, e só se escora nele quem quer fugir do debate real.

O que importa aqui é o papel que o juiz teve na Lava Jato em relação a Lula, e o cheiro grande de "prêmio" que esse cargo tem para alguém que já havia sido convidado para ser ministro ainda durante a campanha. Vocês leram bem: o vice Mourão disse que já tinham convidado Sérgio Moro antes mesmo de vencerem as eleições, no meio da campanha.

Campanha na qual ele soltou publicamente uma delação do Palocci que nem o MPF quis e que, na prática, não deve servir juridicamente pra nada. Sabem quem disse isso? Um dos principais procuradores da... Lava Jato. Leia o que declarou Carlos Fernando dos Santos Lima em uma entrevista:

"Não tinha provas suficientes. Não tinha bons caminhos investigativos. Fora isso, qual era a expectativa? De algo, como diz a mídia, do fim do mundo. Está mais para o acordo do fim da picada. Essas expectativas não vão se revelar verdadeiras."

Acha pouco? Tem mais: a mulher do juiz, Rosangela Moro, comemorou a eleição do Bolsonaro. No Instagram:


Ou seja: a mulher comemorou a eleição do cara que já tinha prometido um cargo ao marido.

Não ver nesse enredo todo um enorme conflito de interesses, imoral e antiético, é apenas ridículo e sequer digno de debate. E, de fato, as pessoas da feira de obviedades não estão dispostas a conversar. Para parte delas, é uma questão de fé; para outra parte, se o prejudicado foi o PT, vale tudo; outras são pagas para defender o chefe.

Acostumem-se com isso: veremos com frequência um pacote de argumentos prontinhos entregue todas as manhãs na nossa mesa. Quando nos espantarmos com o novo espanto que substituiu o espanto anterior, eles virão repetindo a mesma ladainha, saindo pela tangente, encobrindo as cenas reais.

A Lava Jato fez um trabalho longo, complexo e que tem muitos pontos positivos. Não sou da turma que acha que ela foi concebida para destruir o PT, salvo melhor juízo. A operação colocou na cadeia gente que sequer sabia onde ficavam os presídios das cidades onde moravam e trouxe técnicas usadas em outros países para bater de frente com ladrões históricos do Brasil. Há um legado nisso, se bem usado. Mas seus integrantes estão longe de serem esses santos imaculados que parte da população bajula. O anti-petismo tem dessas: ele santifica por osmose quem fere o PT.

Moro, depois do episódio do grampo ilegal entre Dilma e Lula (o juiz divulgou um trecho que não tinha autorização para ser gravado), meteu os pés pelas mãos outras vezes, sem o menor pudor em esconder sua fixação por Lula. Virou caso pessoal, briga de rua. Eu lamento por quem aplaude isso e acha que em qualquer país decente do mundo a Justiça se comporta dessa maneira. Isso é coisa de republiqueta.

O juiz "herói" e anti-establishment que "jamais entraria para a política", como declarou várias vezes, agora se alinha à parte política que (ainda) está em pé e que se beneficiou diretamente de seus atos e furadas de sinal. Deveria ter sido punido, foi premiado. Virou ministro da Justiça de quem defende tortura e morte.

No auge da euforia da vitória eleitoral de Bolsonaro, criticar isso tudo é apenas mau humor. A gente conversa mais tarde.

Leandro Demori
Do The Intercept
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A queda do mito Bolsonaro já começou


A trajetória pessoal do futuro presidente do Brasil é bem conhecida. Filho de um dentista prático que morava numa das cidades mais pobres do Estado de São Paulo, Jair Bolsonaro ficou impressionado com a operação militar organizada para caçar Lamarca e seus guerrilheiros no Vale do Ribeira. Muito jovem ele resolveu se tornar militar. 

Jair Bolsonaro conseguiu realizar seu sonho de se tornar oficial. Mas o sonho dele se transformou no pesadelo do Exército, razão pela qual ele foi expulso da corporação em razão de ser insubordinado e planejar atentados terroristas. Admirador da Ditadura Militar, o futuro presidente foi considerado radical e mau militar por Jarbas Passarinho e Ernesto Geisel. 

Bolsonaro fez carreira política abusando de um passado militar idealizado que ele criou para si mesmo. Nos últimos anos, todas as vezes que ele tentou falar em nome dos militares o Exército deixou bem claro que ele não falava em nome da corporação. Mesmo assim, em razão do caminho dele para a presidência ter sido facilitado pelo “golpe com o STF com tudo” e pela injusta condenação e prisão de Lula, Bolsonaro conseguiu o apoio de alguns militares da ativa. Vários generais de pijama saudosistas já estavam com ele.

Sieg Heil Führer Jair Bolsonaro é obsedado por hierarquia social e paradoxalmente age como um anarquista. Capitão, ele nomeou um General para ser vice. Esta semana ele conseguiu rebaixar um membro do Poder Judiciário. Sérgio Moro era Juiz Federal, a partir de janeiro se tornará carcereiro de Lula. Suponho que o novo Ministro da Injustiça ficará surpreso e frustrado quando o Judiciário anular o processo do Triplex que foi utilizado por Sérgio Moro para seguir a trilha aberta para o ex-terrorista mentiroso que ele beneficiou ao tirar Lula da disputa presidencial.

A natureza contraditória do Sieg Heil Führer se torna mais interessante em razão dele ser um alpinista social paranóico cujo ideal político (um retorno desordenado ao passado) contradiz o lema da bandeira do Brasil (ordem e progresso). Bolsonaro odeia os comunistas, mas não poderá romper com a República Popular da China. Se fizer isso ele destruirá o presente e o futuro dos ruralistas que o colocaram no poder. Se não romper com a China ele será chamado de comunista imundo por dezenas de milhões de zumbis que criou ao se tornar presidente com um discurso anti-comunista. 

Além de tratar os petistas como inimigos internos, Bolsonaro já começou a procurar inimigos externos (Venezuela, Palestina, Cuba, Rússia, ONU, etc…). Como Hitler, Sieg Heil Führer Bolsonaro nunca conseguirá conviver ou se livrar de seu verdadeiro inimigo. Refiro-me, obviamente, ao inimigo íntimo, interno, que o novo presidente não conseguiu aceitar nem domesticar. A guerra que Bolsonaro trava consigo mesmo e que projeta no munto à volta dele irá inevitavelmente destruir total ou parcialmente o país que ele supostamente queria salvar. 

A posse do Sieg Heil Führer Bolsonaro não é o início do fim, nem o fim do início. Ela será apenas a pausa indesejada entre o fim de uma Ditadura Militar que nunca foi inteiramente destruída (digo isso pensando especificamente nos principais legados do regime militar: as polícias militares e a mentalidade autoritária dos juízes) e o início de um regime verdadeiramente democrático no Brasil. 

"O desastre de Jair Bolsonaro foi ter sido eleito." Esse será o único verbete ilustrando o nome do Sieg Heil Führer do Reich tupiniquim numa lista de presidentes do Brasil daqui a 200 anos. 

Em 2002 quase toda a imprensa brasileira alardeou que Lula não estava a altura da presidência. Jornalistas como Miriam Leitão nunca conseguiram aceitar o sucesso do “sapo barbudo” ou admitir o erro que cometeram. Nesse momento, algumas empresas de comunicação acreditam que Bolsonaro está a altura do cargo que ganhou cometendo fraudes numa eleição maculada pela fraude criminosa cometida pelo Judiciário para impedir Lula de ser candidato. Somente aqueles que se posicionarem contra o Sieg Heil Führer e suas loucuras neoliberais poderão em breve dizer que não foram responsáveis pela catástrofe.

Quando assumiu a presidência, Lula foi obrigado a romper com o legado catastrófico do governo FHC. Essa é a razão pela qual o vaidoso, envelhecido e envilecido líder tucano nunca conseguiu perdoar o ex-presidente petista. Depois que colocar a faixa presidencial, Bolsonaro se tornará mais e mais prisioneiro do legado positivo de Lula que mais de 100 milhões de brasileiros não conseguem esquecer. 

Um fantasma ronda o Brasil – o fantasma do sucesso de Lula. Desde o primeiro dia Sieg Heil Führer será tentado a comparar o declínio de sua popularidade com a altíssima popularidade de Lula que nem mesmo o cárcere foi capaz de destruir. FHC sempre disse que Lula era um mito. Agora ele terá a oportunidade única de ver aquele que se diz um mito desmanchar enquanto a humanidade e a estatura histórica do ex-presidente petista cresce dentro da prisão em que ele foi confinado.

Lula não foi derrotado na eleição de 2018. Aliás, tenho certeza de que a derrota de Jair Bolsonaro começará no dia da posse dele. O medo não venceu a esperança, pois a verdade é que a esperança nunca poderá ser morta.

Fábio de Oliveira Ribeiro
No GGN
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Viraliza tuíte antigo de filho de Bolsonaro, em que ele fala para Moro evitar a política

Ele
Tuíte de 31 de março de 2017 de Eduardo Bolsonaro critica a imprensa que tentou associar Sérgio Moro com Bolsonaro. Um ano depois, o ex-capitão nomeia o juiz da Lava Jato como seu ministro.

A declaração desastrosa do filho do presidente eleito viraliza no Twitter. Alcançou 2,6 mil retuítes e 3,8 mil curtidas.

A imprensa doida p Moro abraçar Bolsonaro e poder gritar “sabia que o Moro agia com cunho político”

Moro, toca a Lava Jato que está 10!


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