30 de out de 2018

Carlos Marighella e o manual do guerrilheiro urbano


São muitas conexões, muitas palavras em conjunto que parecem completamente perdidas, mas tal como uma teia, entrelaçam-se e se explicam. Carlos Marighella, nascido em Salvador, de mãe negra e pai italiano, lutou contra a ditadura até perder a vida, vítima de uma emboscada do regime, em 04 de novembro de 1969.[6] Deixou registrado em seu Manual do Guerrilheiro Urbano: “Eu desejo que todos que leram este manual e decidiram que não podem permanecer inativos, sigam as instruções e juntem-se a luta agora. Eu solicito isto porque, abaixo de qualquer teoria e qualquer circunstâncias, a obrigação de todo revolucionário é fazer a revolução.”[7]

A luta de Marighella foi cruenta, porém à altura das torturas e dos “suicídios”, corriqueiros nos porões da história da ditadura. A ascensão de um outro descendente de italianos, surgido de São Paulo, guarda completa e inteira correlação com Marighella, pois anuncia-se como o combatente do “comunismo” no Brasil, na condição de indivíduo incólume à corrupção e que resgatará o tratamento nada consentâneo aos Direitos Humanos em direção aos infortunados, devidamente etiquetados como tais.

Na Itália, a operação mãos limpas culminou por exterminar partidos políticos que acomodavam discursos dos diferentes espectros da sociedade.[8] O resultado foi a eleição de Berlusconi como primeiro ministro. Mais recentemente, ascendeu ao poder o partido Cinco Estrelas, cujo os propósitos não seriam aceitos sequer em tempos mais recrudescidos, não fossem as circunstâncias na qual o país hoje se encontra. E em momentos de descrença, de desconfiança, tomam a dianteira agentes que provocariam asco enquanto figuras políticas. Jamais poderiam traduzir a emancipação das mulheres, a ocupação de espaço das minorias, discursos que não sejam cartesianos e rasos. São sujeitos anacrônicos, incorretos, para não dizer desajustados. Berlusconi, entre orgias bungabunga e escândalos, deixou como legado um país menor do que o que encontrou.

A operação mãos limpas na Itália, por sua vez, abriu espaço para o espraiamento imperial e neoliberal, tendo por reduto amplificador baluartes de então estados sociais. Os cidadãos passaram a direcionar todo o ódio ao Estado, esquecendo-se do papel relevantíssimo dos conglomerados, projetos de poder que ignoram fronteiras, valores e o Direito. Pois não seriam os negócios escusos de chantagem empresarial tão espúrios quanto notas de dinheiro nas roupas íntimas dos políticos? Não seria a compliance um eufemismo para justificar uma nova organização hegemônica que satisfaz seus próprios interesses munidos de drones-assassinos e mercenários pelo mundo? Quando o Judiciário, Defensoria Pública e carreiras adjacentes forem privatizadas pelo mercado, de nada mais valerá enforcement de tratados internacionais. Pois o processo arbitral estará em alguma câmera de comércio e arbitragem nos Países Baixos, na Suíça ou nos Estados Unidos.

O quase inominável, dedicou o processo excepcional-antidemocrático-jurídico-midiático de impeachment ao coronel Brilhante Ustra. As coincidências não se encerram, o candidato retroalimenta-se do discurso de ódio e eliminação do outro para propugnar por um retorno à colocação das pessoas nos seus devidos lugares. Para os combalidos, melhor mesmo a solução final. Além, minorias devem aceitar o que a maioria propugna. E neste cenário, não servisse a Constituição para proteger as minorias a que serviria mesmo?

Organizar os poderes, andam totalmente desorganizados. Resolver crises, agravou-as. Assim, prescinde-se dos “notáveis” para interrompê-la, pois desde então eliminada estaria. Maiorias “eventuais” no poder poderiam compor uma ágora ensandecida, porém desprovidas do mínimo verniz de democracia, fulcrada na convivência civilizada. Compartilham-se posts, gifs, áudios e vídeos apócrifos, simulados. Simulou-se a realidade, apagou-se o senso de comunidade, e nas fronteiras dos que cabem em grupos, entre viagens a Miami e promenades à Disney, melhor mesmo é conspirar no shopping center. Porque a escolha foi viver na distopia pós-apocalíptica à brasileira, nada que um bom muro e um almoço de comida sintética não resolva.

No Brasil, institui-se Alphaville 1965 como projeto de vida.[9] Mais, a nova Constituição brasileira instituirá a frequência ao shopping center como direito fundamental de todo cidadão com renda compatível à vida condominial. Revogar-se-ão todos os direitos fundamentais daqueles que escolhem a vida da delinquência, não importando se delinquência consubstancie em seu alcance semântico pobreza e vida na favela, cor da pele ou orientação sexual. Viver-se-á o Direito Penal de velocidades quânticas, tendo por direito fundamental o de acordar consensualmente a pena por prazo ilimitado. Afinal de contas, as prisões privatizadas serão uma fonte inesgotável de lucro e a iniciativa privada deverá ser estimulada. O novo primado da ordem econômica será a dominação do homem pelo homem e a arbitrariedade da livre iniciativa. O acesso à justiça será reconfigurado, comportará o pleno acesso aos algoritmos, como oráculos outputs da verdade. Retomar-se-ão também as ordálias e juízos de Deus.

Este é um texto de invocação, a Hobbes, a Esposito e Agambem [10]. Para os menos cientistas políticos, vale também Orwell [11], os bichos inflamam-se e entoam as ementas refundantes do país. Na ausência de coesão, elege-se o ódio como momento sinestésico da bandeira. Na ausência de culpados, uma vez que o lawfare obsta o exercício das nossas capacidades cognitivas, não vemos o inimigo, passamos a repelir nossas próprias células, uma doença autoimune tomou conta do corpo chamado Brasil. 

É um crime de autoria colateral, como não se sabe de onde partiu o ataque, imploda-se tudo que significa coletivo. Dissipa-se a violência do Estado conferindo a cada cidadão o poder de exercer a violência por si próprio, institui-se o exercício indiscriminado da violência, o limite não é o outro. É um ataque ao cerne do que constitui a capacidade humana de conviver, sem vida e sem o outro.

A ditadura brasileira não foi um movimento. Resgatando a biopolítica e a thanatopolítica de Roberto Esposito [12], ela manipula o que concebemos por vida, a existência submete-se à uma vontade não correspondente com a do sujeito titular de direitos. A tortura envolve colocar entranhas para fora, estrangular, despedaçar os corpos, asfixiar indivíduos, devassar-lhe o corpo. Sob tortura, o corpo abandona a condição de emanação da dignidade ínsita à condição humana, para adentrar na escuridão da finitude. Democracia cirúrgica que somente alcança alguns não é democracia, é exceção. 

[1] Debord, Guy. “The SocietyoftheSpectacle.” (1995).

[2] Basta BungaBunga, HaveItalianshadenoughof Silvio Berlusconi—andthecultureheembodies? Disponível em https://www.newyorker.com/magazine/2011/06/06/basta-bunga-bunga.

[3] Lipovetsky, G., &Serroy, J. (2007). L’écran global: culture-médias et cinéma à l’âgehypermoderne.Paris: ÉditionsduSeuil.

[4] Expressão cunhada por Umberto Eco.

[5] Conferir https://www.conjur.com.br/2018-ago-28/tribuna-defensoria-saloes-poderes-sao-povo-nao-lobby.

[6] Magalhães, Mário. Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo. Editora Companhia das Letras, 2012.

[7] Marighella, Carlos. Manual do guerrilheiro urbano. Clube de Autores, 2010.

[8] ConferirGarapon, A. (1996). Le gardiendespromesses: lejuge et ladémocratie. Paris: O. Jacob.

[9] Um filme de Jean-Luc Godard, lançado em 1965. O filme retrata uma sociedade futurística na qual as pessoas devem incondicional obediência ao software Alpha 60. No condomínio-cidade as pessoas são categorizadas conforme uma determinada pauta de valores, mulheres são tornadas objetos e subversivos são eliminados. Em Alphaville a vida não possui qualquer valor imanente.

[10] Uma obra compiladora do pensamento de Agamben pode ser encontrado em Agamben, Giorgio, and Daniel Heller-Roazen. The Omnibus Homo Sacer. Stanford, California: Stanford University Press, 2017.

[11] Orwell, George. A revolução dos bichos. Editora Companhia das Letras, 2007.

[12] Esposito, Roberto. Bíos: BiopoliticsandPhilosophy. Minneapolis: Universityof Minnesota Press, 2008.

Mariella Pittari é defensora publicado Estado do Ceará, alumni do Institute for US Law, Washington DC, mestre pela Cornell University e atualmente mestranda no programa de Direito Comparado, Finanças e Economia na The International University College of Turin, Universidade de Turim.
No Justificando
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Polêmicas - Porta dos Fundos


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Paulo Guedes põe a social-democracia na clandestinidade

Tocqueville (1805-1859) seguidas vezes expressou aversão ao socialismo, arguindo que "a democracia quer a igualdade na liberdade e o socialismo quer a igualdade na extorsão e na servidão". Morto aos 54 anos, o autor de "A democracia na América" – escrito no Século 19 – não chegou a acompanhar nenhuma experiência socialista "real", com as suas perversões burocráticas e totalitárias, nem os monstros gerados no ventre dos capitalismos em crise, como o nazi-fascismo. Nem tomou contato sequer longínquo com as experiências social-democratas que fluíram no Século 20. Socialismo e democracia, segundo Tocqueville não eram compatíveis.

A leniência com que a grande imprensa retratou as posições violentas do Presidente eleito, para que ele e Haddad fossem vistos como representantes de posições polarizadas e extremas, foi apoiada em diversas manifestações vindas do mercado. Neste mesmo processo, porta-vozes informais das agências financeiras privadas mostravam as suas simpatias pelo "programa" de Bolsonaro (que jamais fora apresentado), confortados pela omissão do Ministério Público e do Poder Judiciário – como instituições – quanto ao seu criminoso discurso de ódio. Tudo apontava para a narrativa que agora se desvela, quando emerge a fala de um Tocqueville reciclado, já não mais para proteger a democracia do socialismo, mas para casar o neoliberalismo com o fascismo.

O Brasil vai "enterrar" modelo econômico social-democrata, diz Paulo Guedes, porque ele "corrompeu a política, subiu os impostos (e) nos endividamos numa bola de neve". Como não é ignorância histórica do novo mago neoliberal, pois todas as pessoas medianamente informadas sabem que países social-democratas são os que tem os melhores controles sobre a dívida pública, que o Brasil não conseguiu – até hoje – promover um modelo social-democrata, e sabem ainda que a corrupção é um "mal" em todos os regimes do mundo, mas tem níveis extremamente baixos nas social-democracias, – como não é ignorância do mago – repito, é possível chegar a conclusão que o sr. Paulo Guedes quer dizer é que a democracia não é compatível com a social-democracia. Kautsky, Bernstein, Willy Brandt, Olaf Palm, até Lyndon Johnson e Felipe Gonzales ficariam perplexos! Suíça, Dinamarca, Noruega, Suécia, Costa Rica, rapidamente mudariam as suas instituições de proteção social! O Sr. Paulo Guedes avisou.

Creio que até o vencedores das eleições no Brasil, com as suas respectivas gradações de atenção, sabem que estamos nos movendo num momento tenso e dramático em nosso país. E que estes remédios brutais de eliminação dos adversários, de assassinatos em massa, de promoção do ódio – pregados em algum momento pelo candidato vitorioso – não podem prosperar, sem que campeie a violência em todos os poros do organismo social. E mais: que em qualquer nação em qualquer regime que escolheu estes caminhos – nos quais a democracia é sufocada pela intolerância e pelas armas – perdeu toda a nação, perdeu todo o povo, perderam as crianças. Perdemos o futuro. Ninguém vai se deixar imolar sem luta!

Partir do pressuposto que a social-democracia é incompatível com a democracia, como diz o sr. Paulo Guedes, é dizer que as experiências social-democratas do mundo, que trouxeram as melhores condições de convívio humano no capitalismo não valeram nada. Dizer que a social-democracia deve ser arquivada e defender que ela não deve ser aplicada num determinado país – e vencer no contencioso político – é parte da democracia. Suprimir, todavia, esta possibilidade social-democrata somando ódio e ameaças de morte, para o desterro político da ideia social-democrata, como fez o Presidente eleito durante toda a campanha, não é política: é crime. E bem mais grave do que uma pedalada fiscal.

Tarso Genro, é ex-governador do Rio Grande do Sul. Foi ministro da Justiça, da Educação (ambos no governo Lula) e prefeito de Porto Alegre pelo PT (1993-1996 e 2001-2002)
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Basta! Brasileiros não podem pagar o preço de uma campanha de ódio

Rodrigo, vítima da campanha de ódio
As informações ainda estão confusas, mas com que já foi tornado publico é possível concluir com segurança: Rodrigo Magalhães, morto no município de Piracuruca, interior do Piauí, por disparos de arma de fogo efetuados por um PM, foi vítima de uma tragédia.

E essa frase não é óbvia, embora assassinato seja sempre uma tragédia.

A tragédia de que foi vítima Rodrigo Magalhães é no sentido amplo, vai além do caso dele em si, é a tragédia decorrente do ambiente moralmente tóxico que a campanha e agora a eleição de Jair Bolsonaro criaram.

Rodrigo Magalhães de Brito, aos 29 anos, foi morto a tiros por volta das 14 horas de ontem. Um policial militar confessou a autoria e, segundo o coronel Erisvaldo Viana, comandante da PM em Piriri, região onde ocorreu o homicídio, os tiros foram fruto de um desafio que tem registros públicos.

Rodrigo aparece em imagens divulgadas na rede social exibindo uma arma durante carreata para comemorar a vitória de Jair Bolsonaro.

Disse o coronel, segundo reportagem de Nathalia Amaral, publicada no porta O Dia News:

“Lá na carreata, ele começou a exibir uma arma de fogo e no grupo (de WhatsApp) começou a ameaçar todo mundo, querendo ordem e dizendo que não ia aceitar desaforo. Nesse grupo tinha um PM que saiu em defesa dos integrantes e o Rodrigo começou a ameaçar o policial, dizendo que não tinha medo de polícia.”.

De acordo com o relato do coronel, após a discussão, a vítima teria marcado um encontro pessoal com o PM.

No local, sempre de acordo com o comandante da PM, Rodrigo estava armado e, apesar de advertido, não entregou a arma. Acabou alvejado no abdômen por dois de três tiros disparados pelo policial.

O autor do disparo se apresentou à Delegacia de Polícia e agora responderá a inquérito.

A nota divulgada pela PM:

“A Polícia Militar do Piauí informa que no dia 28/10/18, Rodrigo Magalhães de Brito estava em uma carreata na cidade de Piracuruca, portando uma pistola e mostrando para as pessoas, quando a PMPI chegou ao local o individuo já tinha evadido. Nesta tarde, a Polícia Militar foi efetuar a prisão de Rodrigo em virtude de ameaças no WattsApp. No momento da prisão o policial verbaliza e pede para Rodrigo soltar a arma. Ele sai em fuga e a Policia Militar começa o acompanhamento. Em seguida, houve abordagem policial e acabou sendo alvejado durante a intervenção. O Policial Militar apresentou-se espontaneamente no Distrito Policial e está dando seu depoimento ao Delegado titular de Piracuruca. A Corregedoria da PMPI tomará todas as providências.”

No dia da eleição, Rodrigo postou pelo menos dois vídeos. Em um defende Bolsonaro e, em outro, se dirige a alguém que teria criticado o pastor Silas Malafaia (abaixo).

“Teve uma baixaria nas minhas redes sociais. Eu ordeno ordem e respeito. Difamaram aí uma pessoa que eu tenho uma grande admiração. Uma das mentes mais brilhantes do nosso país. Eu tenho uma grande admiração e um grande respeito ele, o pastor Silas Malafaia”, afirmou.

Em seguida, explica que por trás daquela crítica estaria o apoio de Silas Malafaia a Jair Bolsonaro, candidato que Rodrigo apoiava com grande entusiasmo, chegando a postar uma montagem de uma selfie com o então candidato ao fundo.

O inquérito vai apurar todas as circunstâncias do homicídio, ocorrido cerca de 24 horas depois da divulgação do vídeo, mas é visível que Rodrigo, nascido em São José dos Campos, interior de São Paulo e com curso superior, estava intoxicado pelo ambiente de ódio.

Além do registro em vídeo no qual ele mostra a arma durante a carreata, basta verificar suas postagens na rede social. Em uma, ele mostra Bolsonaro como o exterminador do futuro, atirando em uma estrela do PT.

Publica também vídeos em que o coronel Carlos Alves ataca ministros do Supremo Tribunal Federal.

Rodrigo se apresentava como valentão, evidentemente. Mas, sem que se desse conta, era vítima de uma campanha de ódio criada para levar Bolsonaro ao poder.

É triste, mas é um fato, e é preciso debater à exaustão as consequências dessa campanha de ódio para que outros brasileiros não paguem o preço da ambição desmedida de alguns e da ganância de outros.



Joaquim de Carvalho
No DCM
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Folha e Globo foram covardes com Bolsonaro e isso é uma grave ameaça à democracia

https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2018/10/30/folha-e-globo-foram-covardes-com-bolsonaro-e-isso-e-uma-grave-ameaca-a-democracia/

Além de ameaças aos principais grupos de comunicação do país, Bolsonaro e seus principais aliados também estão ameaçando movimentos sociais, adversários políticos, professores de universidades, artistas e jornalistas, entre outros

Bolsonaro está conseguindo vencer o braço de ferro com a imprensa tradicional nesses primeiros dias após a sua vitória. A capa de hoje da Folha de S.Paulo é o recibo mais claro e evidente dessa postura covarde. Mas há outros indícios.

Ontem Bolsonaro foi ao Jornal Nacional para dizer não só à Folha como também para a Globo que os veículos que viessem a fazer jornalismo crítico ao seu governo não irão ter verba publicitária e ainda sentirão o peso da lei.

Se fossem Dilma e Lula a dizer isso, hoje este seria o assunto de todos as rádios, jornais, TVs e geraria uma quantidade imensa de notas de associações de imprensa nacionais e internacionais.

Ontem, Bonner sequer teve a coragem de dizer a Bolsonaro que essa sua reação era anti-democrática e ilegal. Que o governo federal tem obrigação de adotar a mídia técnica na distribuição de recursos.

Bonner se limitou apenas a fazer considerações positivas acerca da Folha, mas quase que pedindo desculpas a Bolsonaro por não concordar com ele.

Aquele editor do JN de garras afiadas e que não deixava os candidatos a presidente sequer responderem questões se escondeu debaixo da mesa. Sobrou um guaguejante apresentador que rapidamente entregou a palavra a Renata Vasconcellos, quase que pedindo socorro para que ela o salvasse da saia-justa.

Bolsonaro além de ameaçar a Folha disse que o jornal fez fake news no caso da sua funcionária da Câmara que trabalhava vendendo açaí enquanto deveria estar no serviço público. Nada de Bonner falar.

Mas o mais bizarro foi a Folha dar uma nota dizendo que Bolsonaro se enganou em relação ao episódio. Bolsonaro não se enganou pipoca nenhuma. Ele mentiu de forma deliberada. Mas a Folha preferiu ficar pianinho.

Hoje quem esperava um editorial duro do veículo na sua capa por ter sido ameaçado pelo futuro presidente, se decepcionou de novo. A manchete principal ficou para a previdência. E a nota sobre o ataque mereceu pequeno destaque.

A capitulação da Globo e da Folha são sinais claros de que há medo dessas empresas do que possa vir a acontecer com suas empresas com Bolsonaro no poder.

Acontece que além dessas ameaças aos principais grupos de comunicação do país, Bolsonaro e seus principais aliados também estão ameaçando movimentos sociais, adversários políticos, professores de universidades, artistas, jornalistas etc.

Se os grandes se calam e se acovardam os pequenos fazem o quê? Globo e Folha podem ter com suas reações tímidas aberto o caminho para a ditadura de Bolsonaro.

Ainda é cedo para cravar isso. Mas os sinais e a reação de ontem e hoje são absolutamente preocupantes, porque imperou a covardia e o bundamolismo.
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Entrevistas mostram porque o “Mito” fugiu dos debates com Haddad: seria massacrado

https://www.balaiodokotscho.com.br/2018/10/30/entrevistas-mostram-porque-o-mito-fugiu-dos-debates-com-haddad-seria-massacrado/

“Você não acha que quem atua na sombra oculta a escuridão do seu passado?”
(pergunta enviada pelo leitor Heraldo Campos ao Balaio).

As primeiras entrevistas de Jair Bolsonaro depois de eleito a emissoras de TV, na noite de segunda-feira, mostraram que os estrategistas nacionais e estrangeiros estavam certos ao não permitir que ele fosse aos debates com Fernando Haddad no segundo turno.

A diferença de preparo e conhecimento entre os dois candidatos era tão gritante que teria sido um massacre.

Tem toda razão o leitor que me enviou a pergunta que está na epígrafe, com o seguinte comentário: “Essas milícias da nova ordem já estavam aí atuando e agora elegeram um presidente para dar respaldo e legitimidade para elas”.

Passo a palavra ao colega Hélio Schwartsman, que lhe dá a resposta na coluna “Explorando as ambiguidades”, hoje na Folha:

“Jair Bolsonaro conseguiu a façanha de ser eleito presidente sem ter dito o que pretende fazer depois de 1º de janeiro”.

Também não precisou sair de casa no segundo turno para olhar na cara dos eleitores mantidos a distância.

Se escapou de falar do seu passado nada recomendável, como militar e deputado, Bolsonaro também não conseguiu dizer nada sobre o futuro nas entrevistas, pois não tem a menor ideia de como enfrentar os principais problemas brasileiros.

Para se ter uma ideia, até agora o presidente eleito nada disse em discursos e entrevistas sobre a grande tragédia do desemprego, que atinge 12,5 milhões de brasileiros, segundo os novos números divulgados pelo IBGE nesta terça-feira.

Em suas respostas, com dificuldades para dar sentido a duas frases seguidas, o “Mito” só repete platitudes e generalidades, sem sair do varejo para apresentar um programa concreto de governo. “Precisa ver isso aí”, costuma repetir ao responder sobre qualquer assunto.

Eleito sob a bandeira do combate à corrupção, surfando na onda do antipetismo, com uma pauta evangélica nos costumes, a única coisa concreta que conseguiu dizer em cinco entrevistas é que vai convidar Sergio Moro para integrar o seu governo e cortar a verba de publicidade oficial dos órgãos de imprensa críticos e independentes.

A ameaça direta feita à Folha é um aviso para os demais: ou vocês me apoiam ou eu corto a grana.

Repete dessa forma o que Fernando Collor fez em 1989, quando levou para o Ministério da Justiça o então presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Francisco Rezek, que tinha lhe facilitado a vida durante a campanha e sumiu nas horas decisivas daquela eleição.

E também repete o general Hugo Abreu, que no auge da ditadura cortou as verbas oficiais do Jornal do Brasil, um dos poucos que manteve posição crítica ao regime militar.

“Começou mal. A defesa da liberdade ficou no discurso de ontem”, escreveu o ex-governador Geraldo Alckmin no Twitter sobre as ameaças à Folha.

Estamos agora vendo tudo acontecer de novo, as piores práticas anti-republicanas recicladas pelo presidente eleito.

Nomear Moro é mais ou menos como convidar o juiz da partida decisiva do Brasileirão para ser o novo diretor de futebol do clube vencedor.

Não é para menos a gratidão: foi o juiz Sergio Moro, no comando da República de Curitiba, quem mais se empenhou para tirar da disputa o ex-presidente Lula, principal concorrente de Bolsonaro, que liderava todas as pesquisas antes de ser impedido de participar das eleições pelo TSE.

Cada dia o presidente eleito fala uma coisa diferente, desmentindo hoje o que os integrantes da sua equipe anunciaram ontem, como no caso da reforma da previdência, em que ele não tem a menor ideia do que pretende fazer.

Depois de levar um susto com a queda da Bolsa e a alta do dólar, no dia seguinte à eleição, ao contrário do que se esperava, agora Bolsonaro já admite aprovar “ao menos parte” da proposta de Michel Temer, tão criticada pelo futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que disse no começo de outubro:

“O Jair não era a favor dessa reforma, eu não sou a favor dessa reforma, a maioria das pessoas que apoiam o Bolsonaro não são a favor do que o Temer propôs porque ela é ruim, uma porcaria”.

Então, como ficamos? Que parte da proposta ele pretende que seja aprovada ainda este ano? Como não lhe perguntaram, também não se deu ao trabalho de esclarecer o distinto público.

Seus homens de confiança vivem dando trombadas entre si e com ele, dando uma ideia do que nos espera quando todos forem para o Palácio do Planalto em janeiro.

Assim como abri a coluna de hoje com uma pergunta do leitor Heraldo Campos, encerro também como uma frase de Carl Sagan que ele me enviou:

“Não seria demasia lembrar que os arautos das devassas ilegais, odiosas e fascistas acabam por ter que quebrar seus próprios espelhos”.

Ainda faltam dois meses para a posse.

Mas agora não há mais o que fazer a não ser rezar, de preferência bem longe do pastor Magno Malta, o capelão oficial, e do coroinha Alexandre Frota.

É o que nos espera.

Os primeiros sinais da nova ordem são assustadores e nada indica que as milícias bolsonarianas deponham as armas tão cedo, como relatei no post anterior.

Vida que segue.

Ricardo Kotscho
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Armas para Todos: Bolsonaro defende posse e porte e define que os “inimigos internos” serão o MST e o MTST

Eduardo Bolsonaro exibe armas nos Estados Unidos.
Reprodução de vídeo
Já passou da hora de parar de usar o termo “populista” para gente como Bolsonaro ou Trump. Não há nada na política deles para a classe trabalhadora, a não ser o racismo e a misoginia. Nacionalista branco — ou neofascista — é o termo correto.

Economista Paul Krugman, colunista do New York Times, no twitter, corrigindo o próprio jornal, que se refere a Bolsonaro como “populista”


O presidente eleito Jair Bolsonaro (veja acima) lançou o que poderia ser chamado de programa Arma para Todos na primeira entrevista dada depois de ser conduzido ao Planalto nas eleições de domingo.

Na mesma ocasião, disse que o Programa Mais Médicos foi criado — pela presidenta Dilma Rousseff — para beneficiar a ditadura cubana.

Afirmou que fará mudanças no programa, com provável exigência de que os médicos cubanos façam o exame do Revalida antes de atuar no Brasil.

Médicos brasileiros fizeram intenso lobby contra o programa de Dilma quando ele foi lançado, em defesa de seu “monopólio” de mercado.

O Mais Médicos se tornou um grande sucesso entre pacientes e prefeitos, especialmente em municípios distantes, nos quais os médicos brasileiros não estavam interessados em trabalhar.

Falando à RecordTV, Bolsonaro disse que pretende aprovar ainda este ano modificações no Estatuto do Desarmamento, que reduziriam a idade mínima para ter posse de armas de 25 para 21 anos e tornariam a posse definitiva — sem renovação periódica.

Um projeto neste sentido já tramita no Congresso, sob intenso lobby da bancada da bala, que ajudou a eleger Bolsonaro.

O presidente eleito também defendeu que algumas categorias, como a dos caminhoneiros, possam portar armas.

Segundo a Pesquisa Nacional de Amostras por Domicílio, PNAD, o Brasil tem cerca de 2 milhões de caminhoneiros.

Com a posse permitida em domicílios e na zona rural, o país teria um fabuloso mercado para a indústria das armas.

Diferentemente do que muitos imaginam, este mercado não seria suprido pela fabricante brasileira Taurus, do Rio Grande do Sul, que hoje praticamente exerce monopólio no fornecimento às polícias.

Nesta segunda-feira as ações da Taurus, que haviam disparado ao longo da campanha eleitoral por conta do favoritismo de Bolsonaro, cairam quase 25% na Bovespa.

Analistas disseram que a empresa tem cinco anos consecutivos de prejuízos e provavelmente terá de enfrentar fabricantes estrangeiros na disputa pelo mercado brasileiro.

O filho de Jair Bolsonaro, o deputado federal Eduardo, um dos mais próximos assessores do presidente eleito, é favorável à quebra do monopólio da empresa, alegando falta de qualidade.

No ano passado, quando o Fantástico, da TV Globo, denunciou problemas com as armas da Taurus, um coronel do Exército protestou.

Ele chegou a atribuir o problema ao DNA da “esquerda internacionalista”:

Esta campanha da Globo de fato busca fechar a Taurus Armas, e representa a vontade de parte da comunidade internacional. Isto é um risco, se não houver patriotismo mínimo nosso, senão pelo menos piedade, com os interesses maiores da nação. A Taurus existe há quase 80 anos, resistiu a tudo, mas não resistirá a falta de patriotismo desta era de cegueira e alienação estratégica, fruto da anarquia plantada pelo DNA da esquerda internacionalista, sem Pátria, em que vivemos. […] Muitos mistérios a desvendar no real motivo desta campanha demolidora da industria bélica nacional. O tempo dirá quem tem razão.

Eduardo Bolsonaro rebateu com sua própria postagem no Facebook:

Sempre digo: um pedaço de ferro pode sair da fábrica eventualmente com um ou outro produto defeituoso? Sim, óbvio. O complicado é fazer um produto defeituoso em série e, pior, esse material tratar da vida das pessoas. Eu trocaria todos os demitidos da Taurus pela vida da PM Izabelle Pereira e de todos os feridos e mortos em disparos “acidentais”. Não quero quebrar a Taurus, mas como fabricantes como Glock, CZ, Sig Sauer e outras têm competência para produzir armamento de qualidade no exterior mas não podem fabricar suas armas aqui no Brasil embora tenham tentado? Essa pergunta sim não tem resposta…

As três empresas citadas por Bolsonaro, da Áustria, da República Tcheca e da Alemanha, estão muito interessadas no mercado brasileiro.

Elas participaram de uma consulta da Polícia Rodoviária Federal, ao lado da Taurus, da Imbel (Exército), da Israel Weapon Industries (Israel), da Beretta (Itália) e da maior fabricante dos Estados Unidos, a Smith & Wesson.

Na entrevista à RecordTV, Bolsonaro ligou a questão das armas ao que chamou de “invasões” do MST e do MTST.

Segundo afirmou, a posse das armas daria aos proprietários o direito de se defender daqueles que o neofascista quer enquadrar como “terroristas”.

O discurso de Bolsonaro parece obedecer ao manual do ex-assessor de Donald Trump, Steve Bannon, que agora se ocupa de promover um “movimento” mundial rumo à extrema-direita.

Trump acaba de deslocar 5.200 soldados para a fronteira sul dos Estados Unidos, alegadamente para “enfrentar” uma caravana de imigrantes civis desarmados que ainda está a milhares de quilômetros de distância.

A jogada do presidente estadunidense é política: ele corre risco de perder as eleições legislativas de meio de mandato marcadas para o dia 6 de novembro.

A “ameaça” dos imigrantes é essencial para mobilizar a base e manter a maioria no Congresso. Além disso, desvia o foco da matança de 11 pessoas, num ataque antissemita a uma sinagoga dos Estados Unidos.

O terrorista era um nacionalista branco — na definição de Krugman — e proprietário de 21 armas.

Assim como Trump faz com os imigrantes, Bolsonaro definiu inimigos externo e interno para alimentar o rancor permanente de seus eleitores: Venezuela e os “vermelhos” do MST e do MTST.

Não por acaso, Trump já convidou Bolsonaro para visitar a Casa Branca.

Segundo a Small Arms Survey, os Estados Unidos são os maiores exportadores de armas leves do mundo, seguidos por Itália e Brasil.

No Viomundo
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Em Mina Gerais, Fundação João Pinheiro cancela aulas após vídeo de Bolsonaro

O vídeo foi publicado no YouTube na última segunda-feira (29), mas parece ter sido gravado antes de o capitão ter sido eleito


As aulas da Fundação João Pinheiro, instituição do Governo de Minas Gerais, foram suspensas nesta terça-feira (30), após circular nas redes sociais vídeo no qual o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) cita nomes de nove de professores da fundação, criticando-os em sua maneira de lecionar.

A fundação oferece curso de graduação em administração pública, e as aulas são realizadas majoritariamente pela manhã.

O vídeo foi publicado no YouTube na última segunda-feira (29), mas parece ter sido gravado antes de Bolsonaro ter sido eleito, no domingo (28), porque, na filmagem, o capitão aparece mais fortalecido e em frente de um restaurante, semelhante ao bandejão da Câmara dos Deputados. Além disso, Bolsonaro veste uma camisa branca, tipo de roupa que parou de usar desde que começou a portar a bolsa de colostomia.

A reportagem optou por não publicar o vídeo para não expor os professores citados. A Fundação João Pinheiro confirmou que todos os nomes citados por Bolsonaro são realmente de professores da instituição. O cancelamento das aulas também foi confirmado pela assessoria de imprensa da fundação.

Ainda de acordo com a assessoria, os profissionais da Fundação João Pinheiro estão reunidos para definirem qual será o posicionamento da instituição a respeito do vídeo, que deve ser enviado à imprensa ainda nesta terça.

Diretório Acadêmico

Alunos da Escola de Governo Professor Paulo Neves de Carvalho, instituição ligada à Fundação João Pinheiro, por meio de seu Diretório Acadêmico, publicaram uma nota no Facebook declarando que não reconhecem “nenhum tipo de doutrinação ou imposição de pensamento por parte do corpo docente da Fundação João Pinheiro”.

O posicionamento, segundo a assessoria da fundação, entretanto, vem exclusivamente dos estudantes e não reflete o da instituição.

Posição de Bolsonaro

A reportagem entrou em contato com a assessoria de Bolsonaro e ainda aguarda retorno.

Leia o que disse Bolsonaro

“Se nós vivêssemos no regimes que vocês defendem, você não estaria vendo esta mensagem através deste aparelho maravilhoso, que não é fabricado na Coreia do Norte ou Cuba. Caiam na real! Parem de se enganar a si mesmos. Tenho certeza que, agindo desta maneira, vocês não serão só mais respeitados, bem como poderemos trabalhar por um Brasil melhor. Podem não concordar comigo, mas na maioria das coisas eu sou muito melhor daquilo o que vocês ensinam”, diz, ao concluir: “Acredito na recuperação de vocês”.

Leia a nota publicada pelo Diretório Acadêmico

“O D.A. CSAP vem, por meio desta nota, reconhecer a Escola de Governo Paulo Neves de Carvalho como ambiente plural e democrático. Nós, alunos, não reconhecemos nenhum tipo de doutrinação ou imposição de pensamento por parte do corpo docente da Fundação João Pinheiro. O ambiente educacional é composto por pessoas de diversas ideologias políticas e diferentes opiniões, essenciais para a construção de um pensamento crítico independente, base para a formação de pessoas que buscam atender o interesse público. Prezamos pela liberdade de expressão e por um espaço no qual o diferente seja sempre aceito e respeitado e nos esforçamos todos os dias para que isso seja possível. Repudiamos, portanto, qualquer tentativa de minar essa construção, essencial para a democracia”

Posiocionamento da FENECAP

Após a divulgação do vídeo, a Federação Nacional dos Estudantes do Campo de Públicas (FENECAP) também se posiocionou desejando que as "conquistas do povo brasileiro sejam preservadas".

Leia, na íntegra, o que eles disseram:

A FENECAP, entidade máxima representativa do Campo de Públicas, vem através desta, demonstrar o respeito pela decisão majoritária do povo brasileiro, que escolheu Jair Bolsonaro como Presidente da República. Esperamos que a democracia, o estado laico, os direitos dos povos tradicionais, o grande patrimônio cultural e natural do Brasil e todas as conquistas do povo brasileiro, sejam preservadas.

Apesar do então candidato não ter nos recebido e nem demonstrado interesse em assinar a Agenda do Campo de Públicas, com pautas importantíssimas para a profissionalização da Administração Pública e do progresso de toda a área, ficamos na esperança de que o candidato eleito reconheça a importância de nosso campo de conhecimento, que se aprofunda no estudo da res publica e tem como objetivo a supremacia do bem comum.

Com tristeza, vimos na última semana a repressão violenta e autoritária realizada a manifestação e organização dos alunos, principalmente aos centros e diretórios acadêmico, em todo Brasil. Compreendemos que esses atos são uma forma de censura e controle da liberdade política e de expressão. Esse fato é comprovado com base na Lei 9.504/1997, no artigo 24, que prevê que “a legislação eleitoral veda a realização de propaganda em universidades públicas e privadas; e no artigo 37, que diz que “a vedação dirige-se à propaganda eleitoral e não alcança, por certo, a liberdade de manifestação e de expressão preceitos tão caros à democracia, assegurados pela Constituição Cidadã de 88." Assim, reafirmamos e lutamos pelo direito de que movimentos estudantis possam se manifestar livremente.

Também declaramos nossa repulsa ao vídeo em que Jair Bolsonaro cita nomes de professores da Fundação João Pinheiro e os acusam de doutrinadores. Independente de o vídeo ser ou não recente, não podemos acreditar que foi postado com inocência por seus seguidores, justamente no dia de ontem após o candidato ser eleito, a fim de causar medo em nossos colegas e docentes. Acreditamos na pluralidade de ideologias e opiniões dos professores que compõem o corpo docente da Escola de Governo e prezamos pela liberdade de expressão em todo o ambiente educacional. Reconhecemos assim, a importância da FJP para a construção do Campo de Públicas e jamais a queremos silenciada.

Por fim, repudiamos qualquer ato contra nossa democracia, tão jovem e conquistada a duras penas, bem como todo desprezo pelas minorias sociais existentes em nosso país.

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Como prova a mãe que “fantasiou” o filho de escravo, o eleitor de Bolsonaro não assimilou a Lei Áurea

Sabrina Flor. Foto: Reprodução/Instagram
Em Natal, uma mãe fantasiou o próprio filho como escravo. Entusiasmada com o resultado, postou a foto no Instagram e aconselhou a seus seguidores: “Vamos abrasileirar esse negócio”.

Sabrina Nóbrega da Rocha Flor é eleitora de Bolsonaro. Será que alguém se surpreende com essa revelação?

Ela possui 1.454 seguidores no aplicativo, é branca, bem de vida e não tinha nada melhor para fazer do que postar fotos de seu filho caracterizado como um negro escravizado. 

Com requintes de acessórios como correntes presas aos pés e cicatrizes nas costas similares às provocadas por chibatadas.

A ‘brincadeira’ era para a festa de Halloween. O que bruxas têm a ver com escravos é algo que talvez essa mãe algum dia possa explicar. 

O que não é difícil deduzir, é que trata-se de uma recatada e do lar que não titubearia em incentivar que o filho fizesse uma foto black face como a que alunas de um curso de medicina fizeram durante uma competição universitária em setembro de 2015.

Ou ainda que participasse de alguma festinha como a esdrúxula “Se nada der certo”, na qual alunos de uma escola da elite de Porto Alegre foram fantasiados de faxineiras, atendentes do McDonalds, vendedores ambulantes, lixeiros, motoboys.

Todas essas brincadeiras ‘inocentes’, de inocentes não têm nada. Isso é brincar com o que não é brinquedo.

“Brincar com a raça é um privilégio. Frequentemente um privilégio racial, são os brancos que podem brincar de serem negros por uma noite”, disse o sociólogo francês Eric Fassin, professor da Sorbonne, quando confrontado com o tema.

A postagem da seguidora do inominável traz ainda a sugestão abjeta de retomada do ‘negócio’.

O ‘negócio’ da escravidão vigorou por muito tempo e há comprovação de que ele ainda sobrevive em algumas fábricas e fazendas. Na cidade, sua perpetuação se dá de maneira dissimulada. São os trabalhadores como os das funções satirizadas pelos estudantes ricos do “Se nada der certo”, como – e principalmente – pelos empregados e empregadas domésticas.

É sem dúvida nenhuma a essa categoria que Sabrina Nóbrega da Rocha Flor referiu-se quando foi ‘espirituosa’. 

Sabrina Flor certamente não gostou nem um pouco da PEC das domésticas e, na hora do voto para presidente no último domingo, foi fiel ao candidato que votou contra todos os benefícios e ainda gaba-se de ser ‘o único’ parlamentar a ter cometido a desumanidade.

Sabrina Flor é gente que concorda com o capitão quando ele diz “tem que acabar com isso daí”. Esse negócio de empregada doméstica trabalhar 8 horas por dia e ainda ter direito a férias, décimo terceiro salário, onde já se viu?

O sociólogo Jessé Souza tem uma análise inequívoca para o assunto:

“Há aqui uma multidão, mais de 50% da população brasileira, exercendo atividade semiqualificada. É trabalho manual, é trabalho sem grande incorporação de conhecimento, exatamente como o trabalho escravo. Essas classes populares são odiadas e desprezadas, como os escravos eram. Você pode matar um pobre no Brasil, que não acontece nada. A polícia mata com requintes de crueldade e ninguém se comove porque os pobres são percebidos de modo desumanizado, como os escravos eram. A escravidão perpassa o núcleo da sociedade brasileira. E boa parte da classe média tem preconceitos de senhor de escravo e da elite com relação a esse povo”.

Sabrina Flor não deve nunca ter ouvido falar em Jessé Souza, mas discordaria do sociólogo. Ela dirá que sua empregada “é alguém como se fosse da família”.





Sabrina Flor. Foto: Reprodução/Instagram

Mauro Donato
No DCM



Sabrina Nóbrega da Rocha Flor é eleitora de Bolsonaro e “fantasiou” o próprio filho de escravo pro Dia das Bruxas.

Não surpreende sua declaração “genial” no Twitter com esse episódio de racismo.

O Dia Nacional do Livro foi ontem, 29 de outubro.

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Quem é Caroline Campagnolo, deputada fascista que quer a denúncia de professores 'doutrinadores?

Definindo-se como “antifeminista, conservadora, cristã e de direita”, entrou na Justiça contra sua orientadora após ser reprovada no mestrado

Ela
A recém-eleita deputada estadual pelo PSL de Santa Catarina Ana Caroline Campagnolo, de 28 anos, ficou famosa em todo o País ao incentivar a denúncia de "professores doutrinadores". Definindo-se como “antifeminista, conservadora, cristã e de direita”, teve uma carreira política meteórica: segundo a imprensa catarinense, é cotada para ser a futura secretária de Educação em Santa Catarina. A vida acadêmica inclui acionar a Justiça contra sua orientadora no mestrado. 

Filha de um Policial Militar da reserva, evangélica, professora de história do município de Chapecó, oeste de Santa Catarina, Campagnolo é graduada pela Universidade Comunitária Regional de Chapecó. Disputou pela primeira vez um cargo eletivo e jamais ocupou qualquer função pública.

“Eu tenho a sensação que ela construiu um personagem com o intuito de buscar um espaço na carreira política” afirmou uma colega de faculdade que falou a CartaCapital sob condição do anonimato. “Na sala de aula, nos debates ela era comedida, mas polêmica e muita agressiva nas redes sociais. Chegou a ter a página no Facebook suspensa em função de suas posições”.

Depois de concluir o curso de História, estudou enfermagem na Universidade Federal Fronteira Sul, mas desistiu. Criada no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quase totalidade dos alunos são oriundos de escolas públicas. “Ela dizia que os professores eram doutrinadores de esquerda. Daí, resolveu abandonar a universidade”, lembra a colega.  

A partir de 2013, Campagnolo leva seu discurso para a internet ao criar um canal no YouTube. Fã do filósofo Olavo de Carvalho, sugere livros, resenhas e “obras clássicas” que considera fundamentais para o “crescimento cultural e que não são indicados na faculdade”. Defende o projeto da “Escola Sem Partido”, critica a política da “ideologia de gênero” e passa a nominar os integrantes da comunidade LGBT da cidade.

Neste mesmo ano, envolveu-se em outra enrascada que acabou nos Tribunais. Após ter seu projeto de mestrado selecionada pela Universidade do Estado de Santa Catarina - cujo título era “Virgindade e Família: mudança de costumes e o papel da mulher percebido através da análise de discursos em inquéritos policiais da Comarca de Chapecó - teve desentendimentos com sua orientadora, Marlene de Fáveri, ao acusá-la de “perseguição ideológica”. Alega ter sido vítima de “estresse emocional e sofrimento psíquico, situação de humilhação e sensação de cerceamento”.  

Fáveri pediu afastamento e substituição da condição de orientadora da mestranda, alegando que não poderia orientar alguém que não acredita naquilo que estuda. A então mestranda seguiu adiante em seus estudos até maio de 2016, quando foi reprovada pela banca final da UESC. Foi aí que resolveu acionar a ex-orientadora na Justiça por danos morais. Em 5 de setembro último, o juiz André Alexandre Happke, do 1º Juizado Especial da Comarca de Chapecó, arquivou o processo. Julgou a ação improcedente por falta de provas.

Filiada ao PSL, Campagnolo passou então a arquitetar sua candidatura à sombra do ex-capitão e agora presidente eleito Jair Bolsonaro. Não sem antes transferir o domicílio eleitoral para Itajaí, no litoral catarinense. “Até agora ninguém sabe porque ela foi embora para Itajaí se sua base eleitoral é Chapecó. Um mistério”, reitera a amiga.

O discurso foi do antipetismo, o combate à corrupção, contra a ideologia de gênero, a favor da escola sem partido, comunismo e, naturalmente, a franquia ao uso de arma pelo cidadão comum. Durante a campanha, ela fez questão de posar com armas nas redes sociais. Campagnolo, que obteve 34.825 votos.

Até domingo 28 a fama virtual restringia-se ao seu Estado. Às 19:44 de domingo, porém, Ana Caroline publicou em sua página do Facebook um post incentivando os estudantes a filmar ou gravar “na semana do dia 29 de outubro (...) todas as manifestações político-partidárias ou ideológicas que humilhem ou ofendam sua liberdade de crença e consciência”.

Justificou a medida em função de “muitos professores doutrinadores estarão inconformados e revoltados com a vitória do presidente Bolsonaro” e, portanto, “não conseguirão disfarçar sua ira e farão da sala de aula uma audiência cativa para suas queixas político-partidárias”. Em outra mensagem, mais recente, ela justifica o ato como “promessa de campanha”.



As opiniões pelas redes sociais se dividiram. Comunidade acadêmica e adversários reagiram contrários, enquanto seus eleitores, a maioria dos comentaristas, apoiaram. No segundo turno das eleições, Jair Bolsonaro obteve 75,92% dos votos válidos em Santa Catarina. O governador eleito, comandante Moisés, do mesmo PSL, conquistou 71,09% - a maior votação da história catarinense.

Na segunda-feira 29, uma petição online com mais de 200 mil assinaturas de todo o País denunciava a medida, tratada como “tentativa de cerceamento dos professores”. O Ministério Público de Santa Catarina anunciou que vai apurar a conduta da deputada eleita. A 25ª Promotoria de Justiça de Florianópolis instaurou, de oficio, procedimento para verificar "possível violação ao direito à educação dos estudantes catarinenses para adoção das medidas cabíveis".

Na segunda-feira 29 uma nova agressão envolvendo o nome da nova deputada: o diretório do PCdoB, em Florianópolis, recebeu uma encomenda pelo correio contendo panfletos com imagens de Ana Caroline de armas em punho. No alto, os dizeres: “petistas, não se metam com o Bolsonaro. Depois falam que não avisei”. Na parte externa do envelope veio colado um lembrete: “domingo as urnas encerram às 17 horas”. O número de Bolsonaro na eleição. O diretório registrou o Boletim de Ocorrência e constatou que o endereço do remetente, na vizinha Balneário de Camboriú, não existe.


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Diretório do PCdoB em Florianópolis recebeu correspondência com imagens de Ana Caroline

René Ruschel
No CartaCapital
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Bolsominions já estão se dando mal





Após carreata, jovem desafia PM e é morto com dois tiros em Piracuruca

Segundo a PM, Rodrigo Magalhães chamou o policial para duelar e acabou sendo morto. A vítima era filho de um comerciante do município.

Um jovem de 29 anos, identificado como Rodrigo Magalhães, foi morto a tiros por volta das 14h desta segunda-feira (29), após desafiar um policial militar em um grupo de Whatsapp. O crime aconteceu no município de Piracuruca, localizado a 208 km de Teresina.

Segundo informações da Polícia Militar, o jovem participou de uma carreata em favor do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), ocorrida na noite de ontem (28), ostentando uma arma de fogo e teria proferido ofensas e ameaças contra os integrantes de um grupo a favor de Bolsonaro.

Rodrigo Magalhães participou da carreata em comemoração à vitória de Bolsonaro com uma arma na cintura. Foto: Reprodução

“Lá na carreata ele começou a exibir uma arma de fogo e no grupo começou a ameaçar todo mundo, querendo ordem e dizendo que não ia aceitar desaforo. Nesse grupo tinha um PM que saiu em defesa dos integrantes e o Rodrigo começou a ameaçar o policial, dizendo que não tinha medo de polícia”, relata o coronel Erisvaldo Viana, comandante da PM de Piripiri.

Após a discussão, a vítima teria marcado um lugar para confrontar o policial. Contudo, no momento em que o PM pedia apoio para a guarnição local para prender Rodrigo, a vítima encontrou o policial na rua em frente ao quartel do município.

“Ele parou o carro e já desceu com a espingarda em punho. O policial verbalizou para que ele soltasse a arma diversas vezes, mas ele não soltou a arma”, conta o coronel Erisvaldo Viana, acrescentando que após a negativa da vítima, o policial desferiu três tiros em sua direção, dois destes atingiram Rodrigo Magalhães na região do abdômen.

A vítima não resistiu aos ferimentos e veio a óbito ainda no local do crime. O policial se apresentou na Delegacia de Polícia Civil de Piracuruca e está prestando depoimento ao delegado titular. O comando da PM da Piripiri abrirá um inquérito militar para investigar a suposta prática de crime militar.

Nathalia Amaral
No O Dia


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Lula reafirma Haddad como liderança pós-eleição


Em seu primeiro recado ao PT depois do final das eleições, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu ao partido para ter calma, esperar a poeira baixar e não se precipitar na avaliação do cenário pós-eleição, e reafirmou a posição de liderança no partido que o presidenciável da sigla, Fernando Haddad, conquistou depois do segundo turno.

Convocada pela presidente do partido, senadora Gleisi Hoffmann, a Executiva da sigla, acrescida de parlamentares e outros petistas graúdos, se reúne nesta terça-feira em São Paulo para fazer uma primeira avaliação de cenário. No entanto, embalada pelo recado de Lula, a tendência Construindo um Novo Brasil (CNB) — da qual o ex-presidente e Haddad fazem parte — ecoa a posição lulista.

“A maioria (da CNB) avaliou que a reunião de amanhã é precipitada. Vamos recomendar que não se tenha nenhuma avaliação. Precisamos ter calma”, defendeu o presidente do PT do Rio, Washington Quaquá. “Todo mundo que ganha uma eleição tem legitimidade democrática. Precisamos fazer oposição a coisas concretas.”

Um dos coordenadores da campanha de Haddad, o deputado Emídio de Souza esteve nesta segunda-feira com Lula em Curitiba e fez um relato aos membros da CNB em uma reunião nesta tarde. O recado do ex-presidente foi entendido.

Sua avaliação foi de que o resultado eleitoral não foi bom, obviamente, pela derrota, mas permitiu ao PT liderar um processo que reuniu gente para além dos partidos, em uma frente que envolveu a sociedade, e ir além do que se esperava em uma eleição em que Lula foi impedido de concorrer pela Lei da Ficha Limpa.

Antes de definir um discurso de atuação, o partido tem que decidir como trabalhar para manter isso, contou uma fonte. 

Haddad foi derrotado no segundo turno da eleição presidencial para Jair Bolsonaro (PSL), que teve 55,1 por cento dos votos válidos, contra 44,9 por cento do petista. Apesar da derrota, foram 47 milhões de votos.

O ex-presidente coloca Haddad, que foi seu substituto na chapa, no centro das discussões daqui para frente. Recomendou que o ex-prefeito de São Paulo seja consultado sobre seus planos e como planeja liderar essa frente de oposição ao governo Bolsonaro.

Alinhada com os desejos do ex-presidente, a CNB — e outros petistas aliados diretamente a Haddad — avaliam que o ex-candidato conquistou um espaço que precisa ser usado para que o PT possa continuar liderando essa frente de oposição.

“Haddad saiu como uma grande liderança, saiu com estatura para ser uma liderança nacional. Antes só tinha Lula”, disse Quaquá. “Haddad passa a ser um grande interlocutor com a sociedade e se credenciou para liderar uma frente democrática. Essa é a posição do Lula também.”

O tamanho e o papel que Haddad irá desempenhar nesse futuro PT está no centro das preocupações de Lula e do próprio partido. Seus defensores crêem que o tempo de resistências ao ex-prefeito acabou e reconhecem que foi a capacidade dele de conversar com diferentes setores que levou o partido a conseguir ampliar seu leque de apoios — além, claro, da rejeição a Bolsonaro.

Ainda assim, reconhecem fontes petistas, há setores no partido que temem a perda de liderança e de holofotes para um “novato”.

“A discussão é mais complexa que uma avaliação de cenário. Que papel Haddad terá? Isso terá que ser discutido mais profundamente. Que espaço tem? Para cumprir esse papel virá para a estrutura do partido?”, disse uma das fontes. “Precisa pensar o que vai ser feito... as coisas precisam ter um compasso.”

Em seu discurso depois do anúncio da eleição de Bolsonaro, Haddad se colocou à disposição para liderar uma oposição mas, lembra a fonte, não foi conversado com ele ainda até que ponto pretende colocar seu envolvimento.

Nesta segunda, o ex-prefeito não foi à reunião da CNB. Pela manhã, saiu de casa apenas para ir até o Insper, onde dá aulas, e perguntado sobre o que faria daqui para frente, disse que voltaria a trabalhar porque tinha apenas tirado uma licença de 90 dias para a campanha.
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Xadrez de Haddad e Ciro, o negociador e o guerreiro


Peça 1 – o antipetismo e o antibolsonarismo

Depois do golpe que depôs Dilma Rousseff, o único fator de coesão dos seus articuladores foi o antipetismo. Era a bandeira maior, em nome da qual deixavam-se de lado diferenças em relação aos temas nacionais.

Agora ocorrerá o foco inverso. Com a vitória de Jair Bolsonaro para a presidência da República, há um motivo maior que deverá unir todas as forças democráticas, jogando para segundo plano quizílias pessoais, diferenças em relação a políticas econômicas e políticas públicas em geral: a defesa da democracia.

O grande pacto nacional pela democracia foi firmado nos últimos dias de campanha. Alguns jornais celebraram o fracasso do pacto, pela recusa de Fernando Henrique Cardoso e Ciro Gomes em aderir à candidatura Haddad. Bobagem! O pacto foi firmado de maneira horizontal, juntando petistas, antipetistas, ciristas, ex-ciristas, tucanos tendo em comum a defesa da democracia.

Mesmo com a derrota do candidato Fernando Haddad, a última semana de campanha ficará indelevelmente na mente de todos os que participaram, da mesma maneira que os comícios das diretas e outros momentos cruciais da vida nacional.

Esse movimento eclodiu devido a uma série de ameaças à democracia, às declarações de filhos de Bolsonaro contra o STF (Supremo Tribunal Federal), às ameaças de Bolsonaro no comício da Avenida Paulista, às invasões de universidades por juízes dos Tribunais Regionais Eleitorais.

Parece ter caído a ficha do STF, da Procuradoria Geral da República, do próprio Alto Comando das Forças Armadas, sobre os riscos à democracia da partidarização das respectivas corporações.

O resultado foi uma ADPF (Ação de Descumprimento de Preceitos Fundamentais) da PGR, para impedir a repetição das invasões de universidades. A ADPF foi aceita pela Ministra Carmen Lúcia, depois de constatar que grande parte de seus pares, mais a mídia, haviam se insurgido contra as violências praticadas e contra as tentativas da base – juízes e promotores de primeira instância, delegados, policiais em geral – de passar a formular suas próprias leis, seguindo o exemplo do Supremo.

Foi um despertar tardio, posto que não impediu a vitória de Bolsonaro. Mas antes tarde do que nunca, ficam postas na mesa política as condições para o grande pacto nacional, juntando partidos políticos, movimentos sociais, e instituições ameaçadas, como o STF e a própria mídia, em defesa da democracia.

Peça 2 – o formato do pacto

Nos próximos dias, haverá um debate intenso – e infrutífero – sobre os culpados por jogar o país nos braços do atraso.

A mídia insistirá nos erros de Lula e do PT – que, para manter o protagonismo político nas esquerdas, minimizaram o antipetismo.

Há uma enorme conta a ser assumida pela própria mídia, que criou o fantasma da guerra fria, do radicalismo de esquerda e outros factoides que ajudaram a alimentar o exército das trevas. Usou as prerrogativas da mídia, em uma democracia, para ajudar a destruir a democracia. Só no final da campanha se deu conta de que, em um ambiente de exceção, ela fica a reboque.

Nada será cobrado de Fernando Henrique Cardoso, porque a única coisa que teria a oferecer, caso apoiasse Haddad, seria sua impopularidade. Mas a idade ajudou a acentuar as piores características de sua personalidade, um egocentrismo vazio e uma inveja profunda.

A grande questão é a maneira como irá se montar o pacto em defesa da democracia.  Haverá fusões de partido, em função das cláusulas de barreira – que impõem condições para partidos terem acesso aos fundos partidários. Mas especialistas não veem condições, no curto prazo, para o aparecimento de um grande partido social democrata. Ou mesmo para uma refundação do PT, único partido que sobreviveu ao cataclismo das eleições, abrindo espaço para aliados de outros partidos.

O pacto se dará em torno de bandeiras comuns, das quais a mais relevante será a defesa da democracia, dos direitos sociais. Não haverá condutores de povos, mas organizadores do pacto, tarefa que exige sabedoria, discernimento, desprendimento e humildade.

Nesse quadro, despontam dois candidatos a liderar a oposição, ambos com perfis diametralmente oposto: Fernando Haddad, se propondo a ser o pacificador; e Ciro Gomes, pretendendo-se o condutor dos povos.

Peça 3 – o papel de Haddad, o conciliador

Nas últimas semanas de campanha, Haddad assumiu uma envergadura pública inédita.

Conhecidos os resultados das eleições, fez um discurso histórico, de improviso, conclamando à união de todos contra as ameaças de arbítrio representadas por Bolsonaro.

Relembrou seus antepassados, em uma lição pedagógica de que o país pelo qual se luta é resultado da construção de gerações que fincaram princípios, depois seguidos pelos filhos que os repassaram para os netos. Por isso, a luta é também por respeito aos nossos antepassados. No fundo, a grande batalha será entre os descendentes daqueles que plantaram sementes civilizatórias, de boa vontade, de respeito ao próximo, contra os bárbaros e os desinformados.

Levantou bandeiras comuns a todos os democratas, ampliou a conclamação para todas as forças da Nação, não apenas para o PT, ofereceu amparo aos que sentem medo. Antes, na fase final da campanha, mostrou desprendimento ao insistir no apoio de Ciro Gomes – sabendo que, em caso de derrota, Ciro seria candidato certo a disputar a liderança dos democratas.

Em suma, comportou-se como um líder nacional.

Peça 4 – Ciro e a estratégia dos conflitos

Já sobre Ciro Gomes recairá uma conta pesada, por ter exibido um personalismo, um egocentrismo incompatível com o que se espera de um grande líder nacional.

E aí entram embates e interesses específicos que ajudaram a enterrar (momentaneamente) os avanços democráticos no país.

Desde o início, o PT pensou em Ciro como seu candidato. Mas pretendia apoiá-lo mantendo o controle do processo político – como vice de Lula, posteriormente como candidato. Tinha esse direito, na condição de único grande partido brasileiro que resistiu ao desmonte político.

De seu lado, Ciro e seu irmão Cid sempre foram refratários a partidos políticos. Seu voluntarismo, ainda que esclarecido, não cabe no figurino de um partido político. Aceitar a proposta do PT significaria se submeter a pactos com a Executiva do partido.

Tudo era uma questão de negociação. Mas elas não aconteceram.

Nem se atribua a vitória de Bolsonaro à ausência de Ciro: os ciristas votaram em peso em Haddad; o grande pacto aconteceu, mesmo com a ausência do líder. A falseta de Ciro foi contra seus próprios apoiadores.

A última semana de campanha foi um momento histórico na vida de todos os democratas, período em que aflorou uma solidariedade do nível dos grandes comícios pelas diretas, com artistas, intelectuais independentes, juristas, youtubers se irmanando em uma ação emocionante contra o arbítrio. Foi um momento inesquecível de solidariedade democrática, marcando o nascimento do novo contra o atraso do governo Bolsonaro e suas milícias.

Depois de um primeiro turno brilhante, Ciro seguiu para Paris abandonando seguidores, artistas e, especialmente, governadores aliados. Não atendeu sequer os telefonemas de governadores aliados. Enquanto isto, no Twitter, sua candidata a vice-presidente, Katia Abreu, dirigia todos seus ataques a Lula e ao PT, com uma falta notável de senso de oportunidade, não entendendo que a grande bandeira, aos olhos de seus seguidores, é a resistência a Bolsonaro, não a disputa por espólios da oposição.

A estratégia de Ciro será dividir a oposição, para cavalgar o antipetismo contra o antibolsonarismo, mostrando notável capacidade de dispersão de energias. O que pretende?  

Caso tivesse se empenhado no segundo turno, conseguiria juntar o antipetismo democrático com o petismo agradecido. Teria muito mais condições que Haddad para consolidar o grande pacto nacional pela democracia, por não carregar a herança petista.

Mas, enfim, preferiu o caminho solitário de quem não negocia: comanda. A incapacidade de negociar o impediu de ser presidente e dificultará bastante suas pretensões de liderar a oposição.

Luís Nassif
No GGN
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Bolsonaro comprou Moro com carguinho


O casamento do Bolsonaro com Sérgio Moro foi sacramentado.

Ele, Bolsonaro, “O eleito”, convidou Ele, Moro – “O sem-voto” mais atuante na arena política – para integrar seu governo.

Bolsonaro, o déspota, esbanjou: Moro poderá ser tanto ministro da justiça como juiz do STF. Para o nazi é ele, Moro, quem escolhe [sic] o cargo.

E então Ele, o déspota, apenas confirmará a escolha que o Soberano Moro fizer [simples assim].

Moro, afinal, tem de ser recompensado pelos inestimáveis serviços prestados ao avanço fascista.

Sua atuação confirmou o posto de zagueiro-mor do fascismo jurídico.

Moro foi um autêntico kamikaze na defesa dos interesses estratégicos do fascismo; um defensor canino do fascismo.

No dia 4 de março de 2016, Moro praticou haraquiri ao gravar ilegalmente e divulgar criminosamente conversas telefônicas da presidente Dilma com o ex-presidente Lula.

Se Moro cometesse tal crime na pátria à qual serve e se dedica com incrível devoção – os EUA – ele seria exonerado do cargo, processado e condenado à prisão perpétua. Em determinados estados norte-americanos, ele poderia ser condenado à morte, por traição.

Em 8 de julho de 2018, o reincidente Moro agiu ilegalmente, e interferiu na decisão do desembargador Favreto, do TRF4, e orientou a polícia federal a descumprir decisão judicial e prevaricar.

Moro, definitivamente, é um cara fora-da-lei e que abusa da impunidade. Ele, porém, não fez isso em vão.

Bolsonaro, mais que todo mundo, sabe o quanto Moro foi importante para que ele pudesse chegar aonde chegou.

Um carguinho para Moro no STF, portanto, é um preço muito baixo a pagar.

Moro, cujo preço a ser pago é baixo, ou seja, é o cargo, já mandou recado ao Bolsonaro: prefere ser indicado para o STF.

É o que seu espelho escolhe.

Jeferson Miola
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Resultados oficiais das Eleições 2018

Rio Grande do Sul


Santa Catarina


Paraná




São Paulo


Rio de Janeiro


Minas Gerais


Espírito Santo




Bahia


Sergipe


Alagoas


Pernambuco


Paraíba


Rio Grande do Norte


Ceará


Piauí


Maranhão




Tocantins


Pará


Amapá


Roraima


Amazonas


Acre


Rondônia




Mato Grosso


Mato Grosso do Sul


Goiás


Distrito Federal




Brasil - 2º Turno


Brasil - 1º Turno


Fonte: TSE
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