29 de out. de 2018

Um dia negro para a democracia


A eleição de Jair Bolsonaro aconteceu sem surpresa e não apenas por causa da sua vitória categórica na primeira volta ou devido às sondagens que o colocavam a grande distância de Fernando Haddad.

Depois de tantos escândalos, da espiral de violência, de crises que foram da economia à ética, de uma destituição (a de Dilma Rousseff) aprovada por um congresso minado pela corrupção, não surpreende que os brasileiros elejam um Presidente que não resiste sequer ao teste da decência mínima que se exige a qualquer cidadão.

Bolsonaro é o derradeiro capítulo de um processo de autodestruição das elites políticas brasileiras.

Como todos os outros capítulos, é uma vergonha e uma desgraça.

Se o novo Presidente do Brasil tem um mérito é o de não esconder a sua homofobia, o seu racismo, ou a sua propensão para a arruaça e para a violência.

Não sabemos o que ele pensa sobre a educação ou as finanças públicas (recusou todos os debates), mas sabemos sim o que ele gostava de fazer aos negros, aos gays ou aos militantes do PT.

E é por conhecermos essas misérias que vai ser fundamental saber se as instituições incumbidas de defender os valores que ele ataca serão capazes de o travar.

Sem uma maioria no Congresso, Bolsonaro vai ter de negociar todas as leis espúrias que lhe passam pela cabeça.

Mesmo que as consiga aprovar, terão se passar pelo crivo do Supremo Tribunal Federal que zela pela Constituição.

Mesmo que se esvazie a Constituição, há no Brasil organizações sociais, sindicatos e a imprensa para escrutinar os seus delírios.

Talvez Bolsonaro tenha de renunciar a parte do seu programa, indo ao encontro das expectativas de uma certa direita inorgânica de Portugal que, de tanto se deleitar com a apologia da liberdade, esqueceu que a liberdade só existe onde existe decência e respeito pelos outros.

Ou talvez o seu temperamento agressivo se exalte com esta extraordinária vitória e o leve a desafiar os mais básicos alicerces do sistema.

Aconteça o que acontecer, hoje é um dia mau para a liberdade, para a tolerância ou para a devoção ao pluralismo e à diversidade humana.

A democracia no Brasil não morreu.

Mas com o PT condenado pela sua própria venalidade, arrogância e cegueira, o PSDB destruído pela sua inconsistência, o MDB minado ainda mais do que todos pelo flagelo da corrupção, a justiça politizada e a sociedade descrente, Bolsonaro pode estar a um passo de a querer matar.

Pobre querido Brasil.

Manuel Carvalho
Do site português Público
No Viomundo
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STF analisará se Bolsonaro, sendo réu, pode assumir presidência, diz Rosa Weber

A presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministra Rosa Weber, afirmou, na noite deste domingo (28/10), que a corte irá priorizar os julgamentos de pedidos de cassação das candidaturas a presidente de Jair Bolsonaro (PSL) - que foi eleito - e Fernando Haddad (PT). Além disso, Rosa disse que o Supremo Tribunal Federal deverá analisar se Bolsonaro, por ser réu, pode assumir o cargo.

A ministra concedeu entrevista coletiva para a divulgação oficial da eleição de Jair Bolsonaro (PSL) ao Palácio do Planalto. Ao abrir espaço a jornalistas, Rosa recebeu várias perguntas sobre a disseminação de fake news durante o pleito deste ano. Ela respondeu que o fenômeno é de “difícil equacionamento” e que o tribunal continuará estudando o tema. “A ênfase de que não há anonimato na internet é reveladora de que há um bom caminho a seguir”, afirmou.

Indagada se o esquema do WhatsApp denunciado nas últimas semanas segundo o qual a campanha de Bolsonaro teria feito uso, por meio de financiamento empresarial, para disseminar informações falsas contrárias ao PT, Rosa afirmou apenas que “vamos esperar que os fatos aconteçam. E quando acontecerem, se acontecerem, a Justiça Eleitoral dará a devida resposta no campo adequado, que é o jurisdicional.”

Sobre ações que pedem a cassação de registro de chapas, Rosa Weber afirmou que “todos julgamentos são absolutamente prioridade para o TSE, que de forma absolutamente célere observa o devido processo legal e, ao tempo necessário, responde às controvérsias que lhe são postas”.

O mesmo vale para a apreciação dos processos envolvendo as duas chapas que concorreram à Presidência da República, mas afirmou não ter como dar previsões de quando isso se dará. “Todas as ações de investigação judicial eleitoral comportam um período de instrução probatória e o nosso corregedor, na condução do processo, vai aferir a necessidade das provas que demandarão maior ou menor tempo”, disse a presidente do TSE.

Ao STF ela afirmou caber a análise da ocupação da cadeira presidencial por alguém que seja réu. Bolsonaro responde a ação penal no Supremo Tribunal Federal por ter dito que a deputada federal Maria do Rosário (PT) "não merecia ser estuprada".

A presidente do TSE foi questionada, também, sobre a possível responsabilidade da campanha do PSL em desacreditar as urnas eletrônicas. A presidente do TSE disse que “que não irá responsabilizar, pelo menos da parte eleitoral, a ninguém”.

Além disso, a ministra destacou a normalidade com que transcorreu o segundo turno da disputa eleitoral.

“Eleições ocorreram dentro da mais absoluta normalidade com as intercorrências próprias do processo eleitoral em país de dimensões continentais como o nosso”, ressaltou a presidente da corte eleitoral. Ela anunciou que, às 19h18, 94,44% haviam sido apuradas. Naquele momento, 55,55% dos votos válidos em favor de Jair Bolsonaro (PSL) e 44,46% de Fernando Haddad (PT).

Ana Pompeu
No ConJur
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1984 - Pilares do Fascismo


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Bolsonaro é fruto do "cansaço democrático", criticou chefe econômico da União Europeia

"Aqueles que têm a democracia no coração deveriam refletir, de modo a organizar um contra-ataque", alertou


O comissário para Assuntos Econômicos e Financeiros da União Europeia, Pierre Moscovici, afirmou que a eleição de Jair Bolsonaro no Brasil é uma ameaça democrática e chamou as democracias a despertar.

"É um fenômeno que está talvez ligado a uma forma de cansaço democrático, sobre a qual aqueles que têm a democracia no coração deveriam refletir, de modo a organizar um contra-ataque", afirmou Moscovici, durante uma entrevista à televisão do Parlamento Francês, Public Sénat.

A declaração do chefe da pasta de economia da União Europeia recebeu destaque a nível mundial porque demonstra que, após se apresentar como a salvação para a crise econômica brasileira, o novo presidente terá dificuldades de dialogar com o bloco econômico europeu.

"Bolsonaro é evidentemente um populista de extrema-direita", afirmou Pierre Moscovici. "Atrás dele, vemos a sombra dos militares que durante muito tempo estiveram no poder no Brasil, constituindo uma ditadura terrível. Ele próprio é um antigo militar. Isso é muito evidente", acrescentou

Abaixo, a declaração de Pierre Moscovici:



Na entrevista ao canal de televisão europeu, o comissário reconheceu que a eleição de Bolsonaro é uma tendência de recuo das democracias liberais em todo o mundo, fruto das crises econômicas que deixarem sequelas graves em diversos países, principalmente com "desigualdades impressionantes".

Para isso, o comissário da União Europeia conclamou as nações a reagir, para que outros países não repitam o que ocorreu no Brasil: "Temos de arregaçar as mandas e atacar as desigualdades", afirmou.

No GGN
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PT supera MDB e governará maior numero de estados. PT também tem a maior Bancada no Congresso

Sobre os estranhos discursos de que o PT teria sido aniquilado nesta eleição. Publico matéria do insuspeito G1. A Frente Ampla, Democratica e antifascista passa nescessariamente pelo PT, que mesmo detonado diuturnamente, segurou a onda fascista, que venceu, mas que já esta identificada até mesmo por quem votou sujeito. Agora virão com a liquidação da Previdência Social e a Venda de todo o Patrimônio Nacional, como já anunciado por Paulo Guedes. Serão desmascarados logo com suas bandeiras ultra neo liberais, e contra a resistência popular usarão dos métodos fascistas da mentira, do medo e da violência. Estejamos preparados.

Governadores eleitos pelo PT estão nos estados do Nordeste: Bahia, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte. MDB, PSDB, PSB e PSL tiveram três representantes eleitos cada um.

Por Gabriela Caesar, G1

O PT é o partido que irá comandar o maior número de estados a partir de 2019: quatro. No 1º turno destas eleições, o PT já tinha eleito governadores na Bahia, no Ceará e no Piauí. Com o resultado do 2º turno, Fátima Bezerra (PT-RN) se soma à lista.

Depois do PT, quatro partidos elegeram três governadores cada um. São eles: MDB, PSDB, PSB e PSL. O PSL, de Jair Bolsonaro, por exemplo, estará à frente de Rondônia, Roraima e Santa Catarina.

Já o MDB, que elegeu sete governadores em 2014, deve comandar Alagoas, Distrito Federal e Pará. O PSB conquistou o governo estadual de Espírito Santo, Paraíba e Pernambuco. Os governadores do PSDB foram eleitos em São Paulo, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul

Nas eleições de 2014, o MDB teve o maior número de vitórias nas disputas estaduais pelo Executivo, com sete governadores. Na época, as vitórias dos emedebistas foram em Alagoas, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rondônia, Rio Grande do Sul, Sergipe e Tocantins.
Depois do MDB, quatro anos atrás, PT e PSDB elegeram cinco governadores cada um. Os petistas estavam sob o comando de Acre, Bahia, Ceará, Minas Gerais e Piauí. Já o PSDB tinha eleito representantes em Goiás, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraná e São Paulo.

Número de governadores por partido
Partido Eleição 2014 Eleição 2018 Saldo
PT 5 4 -1
MDB 7 3 -4
PSDB 5 3 -2
PSB 3 3 0
PSL 0 3 3
PSD 2 2 0
PSC 0 2 2
DEM 0 2 2
PDT 2 1 -1
PP 1 1 0
PCdoB 1 1 0
PHS 0 1 1
NOVO 1 1
PROS 1 0 -1


No Luíz Müller
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Fascismo: deputada bolsonarista incita alunos a delatar professores


Deputada estadual eleita em Santa Catarina, Ana Carolina Campagnolo (PSL) publicou em sua página no Facebook, logo após a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) na disputa presidencial neste domingo (28), uma mensagem para que estudantes catarinenses filmem e denunciem “professores doutrinadores” em sala de aula.

“Segunda-feira, 29 de outubro, é o dia em que os professores doutrinadores estarão inconformados e revoltados. Muitos deles não conterão sua ira e farão da sala de aula um auditório cativo para suas queixas político partidárias em virtude da vitória de Bolsonaro. Filme ou grave todas as manifestações político-partidárias ou ideológica (SIC)”, afirma, deixando um numero celular para o envio de vídeos e informações, garantindo o anonimato dos estudantes.

Na descrição da publicação, Ana Caroline diz que “professores éticos e competentes não precisam se preocupar”. Confrontada nos comentários por um seguidor que disse que uso de celular em sala de aula é crime, “seria ir contra as leis e os bolsominions são contra isso. Ou era apenas discurso?”, ela respondeu que não era “preciso ter medo”. “É só se comportar direitinho que não precisa ter medo, cidadão”.

Professores, estudantes e comunidade escolar em geral: Impugnação Ana Caroline Campagnolo - Impugnação Ana Caroline Campagnolo - https://secure.avaaz.org/po/petition/Professores_estudantes_e_comunidade_escolar_em_geral_Impugnacao_Ana_Caroline_Campagnolo/?zwJXYcb

Bolsonaro já havia convocado alunos a gravarem “professores doutrinadores”

A publicação de uma mensagem no Facebook em que a deputada estadual eleita por Santa Catarina, Ana Carolina Campagnolo (PSL), pede para estudantes denunciarem professores “doutrinadores” que estariam “inconformados e revoltados” nesta segunda-feira (29), teve grande repercussão nas redes sociais. No entanto, a nova parlamentar só estava reproduzindo o discurso de Jair Bolsonaro, presidente eleito pelo mesmo partido.

Em julho, Bolsonaro divulgou um vÍdeo em seu youtube pedindo justamente que os estudantes filmem o que os “professores, entre aspas, fiquem fazendo com vocês em sala de aula”.

O capitão ainda pede para os estudantes enviarem os vídeos para ele, que teria uma “supresinha” para estes professores.







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Uma vitória moral é o prelúdio de uma vitória política


Uma campanha dura, pegada, de rua e enfrentando pela primeira vez em décadas os setores fascistas. A campanha do Bolso se valeu de artimanhas e estratégia de guerra. Contou com apoio dos EUA e Israel, sem falar da miríade de pequenos grupos supremacistas brancos e fascistas. Campanha dos esgotos fez de tudo para vencer no primeiro turno. A ida para o segundo foi tratado por eles como uma derrota. A blitzkrieg não funcionou. Fomos ao 2º turno.

Fizemos a maior e mais ampla campanha desde as Diretas Já e 1989. Foi uma jornada épica. Saímos de 29,3% para um empate às vésperas. Envolvemos um amplo setor de democratas que fez o voto no falso messias ser um voto tímido, envergonhado, preso às fakenews (que deram ao candidato o nome de um projeto de lei anti fakenews no Chile).

O amor entrou no ar e entusiasmou milhares. Nem com a violência que ceifou a vida do mestre Moa, as tentativas de calar Roger Waters e os estudantes, a morte do jovem Charlione, nem o atentado a pouco no MST calaram nossa voz. Uma campanha forte alcançou todo o país.

Não tivemos hoje uma vitória política, mas com certeza moral. Vamos adiante. Combatemos o bom combate. Lutamos até o último minuto. Nossa vitória será estratégica para o mundo. Nossa derrota será de pé e com as melhores condições para uma oposição forte, digna de uma grande resistência nacional. Venceremos. Venceremos!

Ronaldo Pagotto, Advogado trabalhista e sindical, integra a Direção Nacional da Consulta Popular.
No Brasil de Fato
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Haddad venceu na maioria das cidades brasileiras


Apesar de não ter sido eleito no domingo (28), Fernando Haddad saiu vitorioso na maioria das cidades brasileiras. Segundo informações do UOL, o candidato do PT venceu em 2.810 municípios, contra 2.760 de Jair Bolsonaro. O deputado de extrema direita, do PSL, foi eleito com 57 milhões de votos (55% dos votos válidos), ante 47 milhões de Haddad (44%).

Em 2014, Dilma Rousseff foi reeleita com 51,6% dos votos. Isso significa que Bolsonaro teve 3,2 milhões de votos a mais que a presidente deposta com o golpe parlamentar de 2016.

Na eleição de 2018, disparou o número de votos brancos, nulos e abstenções. Na corrida com Dilma contra Aécio Neves, em 2015, esse nicho somava 27,7%. Desta vez, Bolsonaro venceu com brancos, nulos e abstenções somando 30,8%.

"O total de eleitores que não escolheu candidato neste segundo turno corresponde a 73% de todos os votos em Bolsonaro e 90% dos votos em Haddad", destacou a CartaCapital.

No GGN



Bolsonaro foi eleito com votos de 39,5% do eleitorado brasileiro; Haddad venceu na maioria das cidades

Mais de 60% dos eleitores - 89 milhões - votaram em branco, nulo, no candidato petista ou se abstiverem de ir às urnas eletrônicas, contestadas antes e durante a campanha do capitão da reserva.

Com 99,99% das urnas das 454.490 seções eleitorais apuradas, o Tribunal Superior Eleitoral encerrou a contagem dos votos nesta segunda-feira (29).

Mesmo com a vitória nas urnas eletrônicas – muito contestadas antes e durante sua campanha -, Jair Bolsonaro (PSL) foi eleito Presidente do Brasil com os votos de apenas 39,5% do eleitorado do país, que soma 147.306.294 pessoas.

A maioria dos eleitores – 89 milhões – votaram em branco, nulo, no oponente Fernando Haddad (PT) ou se abstiverem de ir às urnas. O número representa um porcentual de 60,5% do total de eleitores.

Com 47 milhões de votos – que representa 31,9% do eleitorado – Haddad foi o vencedor das eleições em 2.810 das 5.570 cidades que disponibilizaram urnas para votação, o que representa mais da metade dos municípios (50,44%). O capitão da reserva saiu vitorioso em 2.760 cidades – 49,66%.

E a promessa de Bolsonaro de exterminar a esquerda do Brasil felizmente não deu certo. Com 4 governadores eleitos, o PT é o partido que teve mais vitórias nas disputas estaduais e vai comandar Bahia, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte – que será governado por Fátima Bezerra, única mulher eleita para os governos de estados em 2018. Além do PT, o campo progressista vai governar outros cinco estados – PSB, com 3 governos, PDT e PCdoB, com 1 cada.

No Congresso Nacional, o PT também manteve o posto de partido com o maior número de deputados federais, mesmo perdendo 13 vagas – de 69 atuais para 56 a partir do ano que vem. O PSol foi o que mais cresceu no campo progressista, dobrando a bancada dos atuais 5 para 10 deputados federais eleitos, ficando à frente até mesmo do PCdoB, que perdeu uma cadeira e terá 9 representantes em 2019.

Plinio Teodoro
No Fórum



‘Seis em cada dez brasileiros não querem Bolsonaro como presidente’

“É inegável que quatro em cada dez brasileiros votaram em Bolsonaro. Mas também é negar a realidade não dizer que seis em cada dez não o querem como presidente”. A observação é do cientista político e professor de Relações Internacionais e Jornalismo da Unisinos Bruno Lima Rocha. Para ele, deve-se compreender que a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) não garante uma “carta branca” com amplo capital político ao novo presidente. “Ele não foi eleito em primeiro turno, como se esperava”, destaca.

A corrida eleitoral acabou, no início da noite de domingo (28), com a vitória do deputado federal sobre Fernando Haddad (PT). Com mais de 57 milhões de votos válidos, o capitão reformado do Exército se elegeu presidente do Brasil. O petista obteve cerca de 47 milhões votos. Por outro lado, brancos e nulos somaram mais de 11 milhões e mais de 31 milhões de eleitores se abstiveram (21,30%).

Bruno Lima Rocha prevê que poderá existir uma ruptura após o primeiro ano de governo Bolsonaro – seja para o bem ou para o mal. “Os primeiros semestres serão fundamentais para que se articulem ações de governo. Não sabemos até que ponto o que foi proposto, e não alterado ao longo da campanha, será de fato feito. Bolsonaro é uma figura de extrema direita. Ao meu ver, sua agenda é pautada pelo ultraliberalismo e pela regressividade em alguns pontos.”

No entanto, o cientista político chama a atenção para o fato de que uma grande parte dos eleitores de Bolsonaro aderiram ao voto no candidato do PSL contra a candidatura do PT. Assim, o capital político é vinculado ao antipetismo, não ao novo presidente. “E esse é um voto de protesto que pode, facilmente, se transformar em um voto de frustração”. Lima Rocha afirma isso por acreditar que uma agenda mais lenta tomará conta da pauta na Câmara e no Senado, especialmente por seu caráter regressivo. “Se formos comparar com os primeiros anos do governo Lula, não percebemos mudanças tão severas e rápidas. Se manteve a mesma política macroeconômica, o país quase não crescia. Isso começou a mudar em 2005. Ou seja, foram dois anos de articulação”, lembra.

Ele avalia que, a curto prazo, um governo Bolsonaro teria grandes dificuldades de corresponder às expectativas de um eleitorado mais ávido por mudanças imediatas. “Isso, é claro, considerando que ele atue como promete, de acordo com a Constituição”, ressalta. Ainda que tente realizar alterações por meio de Emendas Constitucionais, que devem passar por aprovação do Congresso Nacional e pelo Senado Federal, Bolsonaro poderá encontrar entraves na forma como o processo é conduzido e a demora, em si, levar a uma perda de apoio. “Mesmo com uma maioria nominal no Congresso, não se pode atropelar o que já está consolidado.”

O Legislativo e o Judiciário

Lima Rocha vê uma tendência concreta de migração partidária após as eleições de 2018. Se, na atual legislatura, o partido de Bolsonaro, o PSL, constituía uma legenda com pouca significância, na próxima será destaque nas principais votações do Legislativo. O Partido Social Liberal, que só tinha vencido eleições para governador uma vez em toda a história, elegeu, além do presidente da República, a segunda maior bancada da Câmara, com 52 deputados, além de 4 senadores e 3 governadores. Haveria, assim, uma grande capacidade de articulação entre o futuro presidente e sua base legislativa.

Ainda assim, o cientista político afirma que, após a ruptura do Brasil em 2016 com o impeachment de Dilma Rousseff (PT), o Judiciário se fortaleceu. “Não será fácil domá-lo por suas prerrogativas, seus privilégios e suas vaidades”. Para ele, isso representa um “contrapeso” na estratégia de Bolsonaro. “Mas é algo que dependerá muito de conflitos internos, e não arrisco dizer quais”.

Apoio popular

“As pirotecnias não duram tanto tempo”, defende Bruno Lima Rocha. “É uma cortina de fumaça, se não houver uma nova reorganização social, a força política de Bolsonaro poderá minguar”. Ele diz perceber grande anseio da população em pautas relacionadas, principalmente, à segurança – onde abre-se espaço para um discurso mais repressivo. “Observar esse discurso pode ser uma pista de como as pautas serão conduzidas para manter a população polarizada ou não. Se houver um encaminhamento disso para um reforço do autoritarismo, é importante ressaltar que militarização é garantia de privilégios para os militares”. Ele acrescenta que é importante atentar para um conjunto de agendas que podem mudar instituições centrais.

Levando em consideração um contexto em que se cobra pelo fim das vantagens em uma sociedade mais igual, Lima Rocha diz acreditar que é importante manter uma unidade “fraterna e crítica”. Para ele, a maior parte do Brasil, que não votou em Bolsonaro, terá papel central no governo, ao possibilitar uma nova afiliação de discursos, onde a centro-esquerda pode ganhar destaque com a margem de apoio de Haddad. “O posicionamento não pode ser cego e de obediência”, finaliza.

Giovana Fleck
No Sul21
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Vai passar e o fascismo será batido de novo. Esse será nosso melhor momento


O final do filme “22 de julho”, sobre o julgamento do neonazista Anders Breivik, que matou 77 jovens num acampamento numa ilha na Noruega em 2011, contém uma lição importante.

Arrogante, Breivik se gaba de seu feito.

— Outros farão o que comecei, diz ele.

— E nós os derrotaremos novamente, meus filhos e eu, responde o advogado, que encarna a democracia e o espírito humano.

A vitória de Jair Bolsonaro é passageira e será derrotada, como o fascismo foi. Não vai demorar e não vale a pena esmorecer.

É importante não perder isso de vista.

A luta está apenas começando. O DCM será uma das trincheiras. Não sairemos daqui.

A última semana representou uma reação espetacular. A vitória de lavada que as hordas bolsonaristas anunciavam virou uma distância de 10 pontos.

A diferença entre Bolsonaro e Haddad no segundo turno foi de 10.758.376 votos, a terceira menor no segundo turno desde o pleito de 1989.

Collor ganhou de Lula por 4.013.634. Em 2014, Dilma Rousseff superou Aécio Neves em 3.459.963 votos.

Nos válidos, Haddad teve 44,87%, a terceira maior porcentagem de um segundo colocado, atrás apenas de Aécio há quatro anos (48,36%) e Lula em 1989 (46,97%).

Você notou, ao votar, uma rede solidária. Gente que conversava, se abraçava, trocava experiências, torcia.

Uma recuperação da política como atividade cotidiana, exercida com quem está próximo de nós e que deixamos de enxergar por algum motivo.

Isso não vai se extinguir. E eles não vão resolver na bala. O jogo está apenas começando.

Em 1940, na Batalha da Grã-Bretanha, Churchill fez um de seus discursos memoráveis, dirigindo-se à  Força Aérea Real, que tinha menos homens e aviões que os inimigos da Luftwaffe.

“Que nós nos unamos”, disse ele, “para que daqui a mil anos as pessoas digam: ‘Aquele foi seu melhor momento!’”

Foram anos até que o nazismo fosse sobrepujado, mas aconteceu.

Este será nosso melhor momento.

Ninguém solta a mão de ninguém.

Kiko Nogueira
No DCM
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Stedile: "Nós temos que retomar o trabalho de base"

Stedile reforça a necessidade de união da esquerda e a criação de comitês populares contra o fascismo
"Saímos desse processo aglutinados, com capacidade e força organizada para resistir à pretensa ofensiva fascista". A afirmação é de João Pedro Stedile, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), sobre o resultado das eleições presidenciais.

Em entrevista à Rádio Brasil de Fato logo após a vitória de Jair Bolsonaro (PSL), Stedile ressaltou que apesar da derrota eleitoral, a vitória política é do campo progressista, que criou uma forte unidade nas últimas semanas. Na sua opinião, o governo Bolsonaro, com início em 1º de janeiro de 2018, deverá se assemelhar ao governo Pinochet, no Chile, devido a sua natureza fascista. 

"É um governo que vai usar todo o tempo a repressão, as ameaças, o amedrontamento. Vai liberar as forças reacionárias que estão presentes na sociedade. Por outro lado, ele vai tentar dar liberdade total ao capital em um programa neoliberal. Porém, essa fórmula é inviável, não dá coesão social e não resolve os problemas fundamentais da população", diz Stedile.

Confira a íntegra da entrevista.

O que dizer para as mais de 46 milhões de pessoas que votaram no candidato Fernando Haddad, apoiado pelo MST?

Ainda estamos no calor dos resultados e precisamos, acima de tudo, ter muita serenidade e entender o contexto da luta de classe e não nos considerarmos derrotados por esse resultado. Ainda que as urnas tenham dado legitimidade ao Bolsonaro, não significa que ele teve a maioria do apoio da população. Há um alto índice de abstenção, 31 milhões. O Haddad teve 45 milhões. Só ai são 76 milhões de brasileiros que não votaram no Bolsonaro.

Portanto, a sociedade brasileira está dividida. Mesmo o resultado eleitoral, do que eu pude acompanhar já nas pesquisas anteriores, ficou claro que quem está apoiando o projeto do Haddad é quem ganha menos, de dois a cinco salários mínimos. Quem tem até o ensino fundamental, e claramente, os mais ricos e abastados, votam no Bolsonaro. 

Mas também houve uma divisão eleitoral clara, geograficamente. Quando olhamos para o mapa do Brasil com os governadores eleitos, temos 12 candidatos progressistas do campo popular que vai desde o Pará até o governador Renato Casagrande (PSB) no Espírito Santo. O Nordeste e aquela parte da Amazônia são um polo de resistência geográfico que demonstram claramente que aquela população não quer seguir os rumos do projeto fascista de Bolsonaro.

Por último, como um breve balanço, como todos estão comentando, além do que o resultado eleitoral, a última semana consagrou uma vitória política da esquerda e dos movimentos populares. Tivemos inúmeras manifestações de todas as forças organizadas. Sindicatos, intelectuais, estudantes, universidades. 

Nunca antes na história do Brasil tínhamos colocado mais de 500 mil mulheres em todo o Brasil, em 360 cidades, que foram as ruas para dizer "Ele não", "Fascismo não", de maneira que eu acho que o balanço não é de uma derrota política, nós sofremos uma derrota eleitoral, mas saímos desse processo aglutinados, com capacidade e força organizada para resistir com a pretensa ofensiva fascista. 

Apesar dos bravateios de Bolsonaro, sabemos que no campo institucionais, há limitações. Ele já disse que tem a intenção de tipificar o MST e o MTST como organizações terroristas. Enxerga a possibilidade real e institucional que isso realmente aconteça?

Eu acho que o governo Bolsonaro vai se assemelhar, se fizermos um paralelo, com que foi o governo Pinochet no Chile. Não pela forma que chegou, mas pela sua natureza fascista. É um governo que vai usar todo o tempo a repressão, as ameaças, o amedrontamento. Vai liberar as forças reacionárias que estão presentes na sociedade. Por outro lado, ele vai tentar dar liberdade total ao capital em um programa neoliberal. Porém, essa fórmula é inviável, não dá coesão social e não resolve os problemas fundamentais da população. 

O Brasil vive uma grave crise econômica que é a raiz de todo esse processo, desde 2012 o país não cresce. Portanto, ao não crescer, ao não produzir novas riquezas, os problemas sociais, econômicos e ambientais só vão aumentando.

Ele com seu programa ultraliberal, de apenas defender os interesses do capital, pode até ajudar os bancos, fazer com os bancos continuem tendo lucro, pode ajudar as empresas transnacionais para que tomem de assalto o resto do que nós temos aqui, porém, ao não resolver os problemas concretos da população de emprego, de renda, de direitos trabalhistas, de previdência, de terra, de moradia, isso vai aumentando as contradições. 

Isso irá gerar um caos social que permitirá aos movimentos populares retomar a ofensiva, as mobilizações de massa. E, no fundo, além do que está na Constituição, coisa que ele não vai respeitar muito, o que vai nos proteger, não é corrermos para debaixo da tenda. O que vai nos proteger é a capacidade de aglutinar o povo, seguir fazendo lutas de massas na defesa dos direitos, na melhoria das condições de vida e essas mobilizações populares é que serão a proteção aos militantes, aos dirigentes. Não nos assustemos. As contradições que eles vão enfrentar serão muito maiores do que as possibilidades deles reprimirem impunemente. 

Há uma outra luta, que tem relação com as eleições, que desde que começou a campanha eleitoral ficou em segundo plano: a prisão ilegal e injusta do ex-presidente Lula. Qual é a perspectiva dos movimentos populares pra essa outra frente de batalha?

Como todos nós acompanhamos ao longo desse período, o presidente Lula foi sequestrado pelo capital por meio de um Poder Judiciário completamente servil a esses interesses. Ele foi preso ilegalmente. Há muitos outros, não só políticos como cidadãos, que estão respondendo em liberdade, até que se cumpra a Constituição, que só permite a prisão depois que o processo passa por todas as instâncias.

No caso do Lula, ainda falta ser julgado no STJ e depois no STF. Depois não deixaram ele concorrer quando o registro da candidatura foi feito. Outros 1400 candidatos concorreram na mesmas condições do Lula mas a ele foi proibido, e finalmente, o proibiram de falar, quando qualquer bandido de quinta categoria pode dar entrevista na Globo. Ficou famoso aquele caso do ex-goleiro do Flamengo que todo dia estava na Globo só para dar audiência. E ao Lula foi proibido se comunicar com o povo. Na verdade, eles sabiam que o Lula é a principal liderança popular que aglutinaria amplas forças do povo brasileiro, que levaria pro debate a discussão de projeto. É evidente que parte dos eleitores do Lula, que acreditam no Lula, são trabalhadores enganados por uma campanha de mentiras, que acabaram votando no Bolsonaro.

Para a esquerda e movimentos populares, temos um desafio enorme daqui pra frente de organizar comitês populares em todo Brasil, organizar um verdadeiro movimento de massas, e organizar uma verdadeira campanha internacional por sua libertação e pela designação do Prêmio Nobel da Paz no ano que vem, como é a campanha encabeçada pelo [vencedor do] Prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel. 

Vamos ter uma tarefa enorme de organizar esses comitês e transformar a luta pela campanha com uma bandeira popular. Evidentemente haverá outros desafios que nós, da esquerda e movimentos populares teremos que nos debruçar no próximo período para nos aglutinarmos como vem sendo já sugerido que temos que transformar a Frente Brasil Popular, a Frente Povo Sem Medo, quem sabe nos juntarmos todos, em uma Frente Popular pela Democracia e Antifascista.

Poderia ser um instrumento mais amplo ainda do que a própria Frente Brasil Popular. Temos muita luta pela frente. A luta de classes é assim. É muito parecida com um jogo de futebol em um longo campeonato. Tem domingo que se perde uma partida, tem outro em que se ganha. Mas o fundamental é ir acumulando força e organizando nosso povo. É isso que muda correlação de forças. 

Como a esquerda sai dessa batalha? Os partidos, movimentos, o próprio Fernando Haddad?

Eu me envolvi pessoalmente, o nosso movimento e a Frente Brasil Popular, e se notou claramente, nas últimas duas semanas, um novo alento, uma nova interpretação para o que está acontecendo no Brasil. Muita gente se mobilizou independente de partidos e movimentos, ou seja, há energias na sociedade e conseguiremos resistir ao fascismo. 

Agora, não podemos cair no reducionismo da vida partidária e ficar nas especulações do que acontecerá com fulano ou beltrano. As pessoas pouco importam nesse processo. A luta de classes, é de classes, e portanto, é a dinâmica da luta de classes que altera a correlação de forças, que vai resolver os problemas do povo. No meio dessas lutas de classe, vão surgindo novos líderes e novas referências. Não podemos nos apegar a essas leituras.

"O Haddad já se cacifa para 2022", "O Ciro se cacifa". O Ciro Gomes saiu muito bem no primeiro turno, com moral, e depois jogou essa moral na lata do lixo ao se abster da disputa política do segundo turno. A vida útil do Ciro durou três semanas. É assim a lógica da luta de classes.

Acho que a esquerda e os movimentos populares que tem causas bem específicas, de mulheres, moradia, terra e movimento sindical, temos que nos debruçar com serenidade, fazer as avaliações críticas e autocríticas e retomar a nossa agenda história da classe trabalhadora, para enfrentar os desafios da vida e da história.

Ficou claro durante essa campanha: nós temos que retomar o trabalho de base, que até o  Mano Brown puxou a orelha e ele estava correto. Se nós tivéssemos tido a paciência de, ao longo desses seis meses, ter ido de casa em casa, nos bairros da periferia, onde vive o povo pobre, acredito que teríamos outro resultado eleitoral. O povo entende, mas ninguém vai lá falar com ele.

Temos que ter claro que o que altera a correlação de forças, não é discurso, não é mensagem no Whatsapp. O que altera a correlação de forças e resolve os problemas concretos da população é se nós organizarmos a classe trabalhadora e a população para fazer lutas de massa e resolver seus problemas. 

Se falta trabalho, temos que fazer a luta contra o desemprego. Se o gás está muito alto, temos que fazer a luta para abaixar o preço do gás. Isso exige luta de massa. Da mesma forma, a esquerda abandonou a formação política. As pessoas foram iludidas pelas mentiras da campanha do Bolsonaro no Whatsapp, por que? Porque não tem discernimento político para saber o que é mentira e o que fazia parte do jogo. Isso só se resolve com formação política e ideológica, quando a pessoa tem discernimento, conhecimento, para ela julgar por si mesmo e não esperar orientação de ninguém.

Assim como temos que potencializar ainda mais esse belo trabalho que vocês fazem no Brasil de Fato, com rádio, jornal, tabloide, internet, que é potencializar nossos meios de comunicação populares. De fato a televisou parou de pesar na formação de opinião das pessoas. Então, temos que construir os nossos meios de comunicação. Agora é o tempo ideal.

Finalmente, temos que fazer um novo debate no país, sobre um novo projeto soberano para uma sociedade igualitária e justa. Como essa campanha foi baseada na mentira e na luta contra mentira, nós não discutimos programa, não discutimos um projeto estrutural pro país. Agora temos que recuperar esse debate e nos próximos meses e anos, reconstruir uma unidade popular entorno de um projeto. Um programa de soluções para o povo, porque do outro lado, do governo, não virá.

No Brasil de Fato
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Onda mudancista abala sistema político

A principal característica das eleições de 2018 foi a onda mudancista de natureza antissistêmica ou contrária ao sistema político-partidário vigente estabelecido no início da década de 1990. Na maior parte do tempo, esse sistema arruinado pelas eleições tinha a marca da polarização PT-PSDB. Essa marca se desfez no plano nacional mas, ao menos nesse nível, o PT permaneceu nela como antagonista do pólo de extrema-direita. A onda mudancista levou o Brasil para a direita, não porque a maioria dos eleitores são de direita, mas porque os candidatos de direita representavam melhor a ideia de uma oposição antissistêmica, a ideia de uma varredura dos partidos e dos políticos tradicionais. Mas, sem dúvida, desde 2013 vem se constituindo uma extrema-direita política, que se fortaleceu no golpe e, agora, chega ao poder.

A onda mudancista de natureza antissistêmica foi consequência da profunda crise política, econômica, social moral que atingiu o sistema político e os partidos que dele faziam parte como protagonistas desde a Constituição de 1988. O PT, mesmo tendo sido tirado do poder por um golpe, fazia parte desse sistema, tendo governando o país por 13 anos e alguns meses. Em boa medida, tanto no primeiro quanto no segundo turno, foi apontado como o principal responsável pela crise do sistema. 

Em que pese ter sofrido uma dura derrota, o PT, contudo, não saiu destruído. Duas razões foram determinantes para que isto não ocorresse: a herança positiva dos governos Lula e o fracasso retumbante do governo golpista de Michel Temer. Como o governo sempre é o ponto de referência principal numa disputa eleitoral, o PT também se apresentou como força de mudança das eleições, mas como, em boa medida, o contexto político do presente tem também determinações dos governos petistas, a candidatura petista não incorporava uma ideia de mudança tão forte como aquela agregada por Bolsonaro e a direita, aos olhos do eleitorado. E como a conjuntura era extraordinariamente mudancista, as forças que mais representavam essa aspiração protagonizaram a polarização final. Em suma: o fracasso do governo Temer manteve o PT no jogo, destruiu as chances do centro político e viabilizou Bolsonaro.

Além disso, o PT elegeu quatro governadores no Nordeste e conta com mais cinco governadores aliados na região. O Nordeste poderá ser o bastião da defesa da democracia se Bolsonaro descambar para o autoritatismo. Mesmo com a redução do número de deputados, o PT conseguiu eleger a maior bancada e obteve 47 milhões de votos no segundo turno, o que lhe dá uma enorme força de oposição. Fernando Haddad saiu fortalecido como liderança nacional. Mas terá que consolidá-la e, para isto, terá que enfrentar problemas internos ao PT e definir que tipo de relação estabelecerá com Ciro Gomes, que saiu vivo das eleições e disposto a ser um polo de oposição ao governo Bolsonaro. Tanto Haddad, quanto Ciro terão que encontrar maneiras de ter uma presença política nacional permanente para não sofrerem o efeito Marina Silva que aparecia apenas de quatro em quatro anos, minguando seu capital político. Ainda no campo da esquerda, o PSol, que aumentou sua bancada parlamentar, precisa avaliar o seu insucesso na eleição presidencial.

Dentre todos os partidos do sistema, o mais atingido foi o PSDB, mesmo contando as vitórias em São Paulo, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul. No Rio Grande manteve-se a maldição de Borges de Medeiros: até hoje, nenhum governador conseguiu se reeleger depois que este instituto foi implantado. Mas o PSDB amargou o quarto lugar na eleição presidencial e foi o partido que mais perdeu deputados - 20 ao todo. Terá também enormes problemas internos para enfrentar, principalmente com João Dória, que traiu Alckmin e aspira tornar-se dono do partido. 

O PSL de Jair Bolsonaro, sem dúvida, conseguiu um feito inédito ao constituir-se em partido nacional saindo praticamente do nada. Além do presidente, elegeu 52 deputados federais (a segunda maior bancada). quatro senadores e três governadores. A sua bancada na Câmara deverá tornar-se a maior, com novas adesões. A vitória de aliados de direita nos governos de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais também fortalecem o presidente-eleito. Se o PSL se consolidará como um partido forte de forma permanente ou se apenas é um epifenômeno que surfou na onda mudancista é algo que terá que se ver no futuro. Bolsonaro e o PSL ou reformarão o sistema ou capitularão a ele. Tudo indica que a segunda alternativa é a mais provável.

Como será o governo Bolsonaro é uma grande incógnita. Mas o que é óbvio é o risco que ele representa para a democracia. Risco que pode se traduzir em violência dos seus partidários, em censura, em perseguição à oposição, e ataque aos direitos sociais e no reforço dos preconceitos contra os negros, mulheres, LGBTs e pobres em geral. A oposição terá que ser intransigente na defesa das liberdades, dos direitos e da democracia. Duas instituições poderão ter um papel relevante na contenção dos arroubos ditatoriais de Bolsonaro e dos bolsonaristas: o Judiciário e a cúpula das Forças Armadas. 

O Judiciário teve uma atuação desastrada em vários episódios no passado recente e violou a Constituição e as leis. Alguns generais fizeram pressões e manifestações indevidas no que tange às decisões judiciais envolvendo o ex-presidente Lula. Mas agora, momento em que os riscos são grandes, o que se espera e se exige é que o Judiciário defenda a Constituição e que as Forças Armadas se mantenham dentro de uma linha legalista e que impeçam Bolsonaro de agredir a Constituição e as liberdades. 

O PT perdeu a eleição presidencial no primeiro turno. Os erros foram vários: a definição tardia de Haddad como vice e como substituto de Lula; a campanha errou a mão em como apresentar Haddad ao eleitorado como um mero reflexo de Lula; o programa trazia propostas confusas, principalmente na economia; não havia uma estratégia de combate às mentiras e fake news e Bolsonaro foi subestimando, sendo que o PT veio a atacá-lo praticamente na última semana do primeiro turno. Alguns desses erros não havia como consertar e outros foram superados na campanha do segundo turno, com ataques mais duros e diretos a Bolsonaro e com a definição de três propostas que tocavam na vida das pessoas: reajuste do Bolsa Família em 20%, gás de cozinha a R$ 49 e reajuste do salário mínimo acima da inflação. Haddad, por sua vez, apareceu com mais energia, vigor  autoridade.

Mas a campanha do PT enfrentou  e não resolveu um problema que vem se arrastando nos últimos anos: o antipetismo fincado na questão da corrupção e dos erros do governo Dilma. Se o PT não enfrentar estas questões de forma clara e resoluta elas continuarão a contaminar as futuras campanhas até que as gerações que vivem hoje desapareçam. O PT precisa examinar, sem fugir de suas responsabilidades, as razões que, após 13 anos de governos seus, levaram a direita ao poder no Brasil. Em resumo: o PT precisa despir-se das veste do triunfalismo e da arrogância. 

Ademais, o PT precisa renovar-se. A sua bancada parlamentar é constituída por parlamentares das antigas, analógicos, acomodados em seus esquemas de poder, com baixa combatividade e caminhando para o ocaso. Se o PT não se renovar com urgência, apoiando jovens e empoderando-os dentro do partido, o Tempo erodirá o seu poder. Na última eleição, por exemplo, os candidatos jovens e de primeira candidatura receberam migalhas do fundo eleitoral, enquanto que os deputados antigos receberam os maiores nacos, numa clara política de manutenção de uma aristocracia gerontocrática.

Por fim, o PT precisa tirar duras lições das sucessivas derrotas que vem sofrendo desde 2015. Não é mais possível que o partido continue anunciando triunfos vindouros e colhendo derrotas. O partido precisa olhar mais para as dificuldades e as advertências para, prudentemente, prevenir-se, preparar-se e planejar estratégias. Precisa perceber que sem força organizada poderá até ter vitórias eleitorais, mas serão efêmeras, e, nos momentos de  crises e confrontos decisivos, sem forças organizadas, principalmente nas periferias, será derrotado. As forças progressistas serão derrotadas. É preciso saber que sem a virtude da organização, do comando e do combate, o Tempo, a Fortuna e os inimigos arruínam todas as coisas do poder político.

Aldo Fornazieri - Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).
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A eleição terminou, mas a luta está apenas começando: seguimos de cabeça erguida resistindo pelo Brasil!


Vivemos um processo eleitoral totalmente atípico. Desde o encerramento do período militar não tínhamos a prisão política de um líder, como a de Luiz Inácio Lula da Silva, injustamente condenado, e que teve sua candidatura impugnada pelo Tribunal Superior Eleitoral. Um processo em que forças que atuavam, até então, nos porões do país, emergiram a disputa presidencial provocando uma grande onda de ódio e violência contra o povo brasileiro.

Nossa candidatura foi uma resposta democrática ao arbítrio que contamina o cenário político desde o golpe parlamentar que, em 2016, derrubou a presidenta Dilma Rousseff. Enfrentamos abusos e patifarias praticados por correntes comprometidas com mesquinhos interesses antipopulares, antidemocráticos e antinacionais.

A eleição de Bolsonaro representa uma ruptura política, cujos sinais estão representados no assassinato de Marielli, de Moa Katendê – líder capoeirista, Charlione – jovem cearense que ainda ontem participava de uma carreata. Eles ameaçam as nossas vidas por lutarmos por um país igual e justo.

Mesmo sob balas, resistimos em defesa da soberania nacional, violentada de tantas maneiras nos últimos dois anos. Protegido por setores do sistema judicial e da mídia monopolista, o candidato deputado Bolsonaro ficou de mãos livres para financiar sua máquina de mentiras com dinheiro clandestino, incitar a violência contra seus adversários, fugir de debates públicos e burlar regras eleitorais.

Essas forças, através da tramoia e da truculência, com manobras ainda sujeitas a investigações e julgamentos, chegaram à Presidência da República.

Apesar de tantos obstáculos, nossa aliança organizou uma poderosa resistência por todo o país, que levou à realização do segundo turno e a um formidável movimento em defesa da civilização contra a barbárie, da democracia contra a ditadura, do amor contra o ódio.

Nesse segundo turno, que hoje se encerra, homens e mulheres de todos os quadrantes se manifestaram a favor dos pilares constitucionais de nosso país. Essa jornada jamais teria sido possível, porém, sem a dedicação e a valentia dos movimentos sociais e setores democráticos da sociedade.

Continuaremos a defender a Constituição, a tolerância, um Brasil de todos e a combater o perigo da ditadura, a eliminação das conquistas sociais, a venda do patrimônio público, a entrega das riquezas nacionais, o racismo e a misoginia, a homofobia e a ameaça da violência institucionalizada.

Neste momento, é fundamental continuarmos juntos e coesos em torno da democracia, da soberania nacional e dos direitos. Portanto, orientemos que na próxima semana se organizem plenárias em todas as cidades, reunindo a militância e todos aqueles que se somaram nessa batalha. Onde for possível devemos também organizar manifestações, tal como já está marcado para a próxima terça-feira, 30 de outubro em São Paulo.

Não devemos deixar nos abater pelo medo, pois temos uns aos outros. Diferente do que eles pensam, o povo brasileiro saberá resistir.

28 de outubro de 2018

Frente Brasil Popular

Frente Povo Sem Medo
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Mujica: ‘Os únicos derrotados são os que baixam a cabeça’

Pepe Mujica em frente à Superintendência da Polícia Federal em Curitiba
Foto: Ricardo Stucker


O senador e ex-presidente uruguaio José “Pepe” Mujica repetiu neste domingo (28), acerca do resultado eleitoral no Brasil, que “os únicos derrotados são os que baixam a cabeça, que se resignam com a derrota”. Segundo ele, “a vida é uma luta permanente, com avanços e retrocessos”. “Não é o fim do mundo”, emendou.

“Portanto, (é preciso) aprender com os erros que cometemos e começar de novo”, disse o ex-presidente. “E tampouco achar que quando vencemos tocamos o céu com as mãos e que chegamos a um mundo maravilhoso. Não, apenas subimos um degrau.”

Para Mujica, é preciso “ter humildade, do ponto de vista estratégico”. Não há derrota definitiva, nem vitória”, acrescentou.
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Quando a ficha começar a cair...

Laerte


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A ameaça do apocalipse

Os generais apoiam, o Judiciário já se curva. Mas seriam estes os soldados do exército bolsonarista?
Ainda não entendemos se por linhas tortas ou retas o Brasil corre o risco de sofrer um singular golpe dentro do golpe, a confirmar a nossa indiscutível liderança da imbecilidade política mundial. Temíamos que os golpistas de 2016, na ausência de um seu candidato potável, inventassem uma nova exceção para cancelar o pleito.

Prender Lula não era garantia bastante ao projeto posto em prática desde o impeachment de Dilma Rousseff. Erramos, e lá vem Bolsonaro como avalista da continuidade respaldado por fardados e togados.

As ameaças do capitão, proferidas no vídeo exibido domingo 21 na Avenida Paulista, ecoam sinistramente o tempo em que comunista comia criancinhas, enquanto no ar pairava o anátema: Brasil, ame-o ou deixe-o.

Bolsonaro alude aos “vermelhos”, ou seja, amplia o alvo de quantos haverão de escolher entre o exílio e a prisão, se não for a morte. Simples perceber que “vermelhos” são os crentes da democracia e da igualdade.

Bolsonaro não é um hipócrita, diz o que pensa ao negar os valores democráticos baseados no respeito da diversidade, na prática do diálogo e no livre debate. A se ouvir o tonitruante capitão, a democracia passa a ser sonho impossível de um povo que raríssimas vezes se aproximou dela.

Mas, sejamos claros, Bolsonaro sujeita-se à esperteza marqueteira do seu “Posto Ipiranga”, o economista Paulo Guedes, defensor do neoliberalismo extremado, embora seja sincera a continência à bandeira dos EUA. Não está sozinho na ribalta, exalta-o o apoio dos generais, da ativa e os de pijama.

E logo minimiza a fala do filho que não hesitaria em prender ministros do Supremo para apresentá-lo com um sorriso condescendente como um impulsivo afoito por saber que este Judiciário golpista não justifica qualquer resquício de preocupação.

Não é por acaso que a senhora Rosa Weber surgiu ao lado do general Etchegoyen para anunciar ao País que tudo corre às mil maravilhas no mesmo momento em que Bolsonaro esbravejava na Paulista. Mas que esperar de uma baixíssima Corte que desonra o Brasil, encabeçada por um certo Toffoli?

Ele a pretende sentinela de uma Constituição rasgada em mil pedacinhos, literalmente picada. Esta Justiça desvendada é de longe a principal responsável pelo golpe de dois anos atrás. Poderia ter impedido o impeachment e o governo ilegítimo de Michel Temer, e também os desmandos da Inquisição curitibana, e não lhe faltavam o suporte e os motivos oferecidos pela própria lei. Na rota inversa, estreitou a aliança com as quadrilhas no comando dos outros dois Poderes da República.

Aviada a receita bolsonarista, ganharíamos, nós todos brasileiros, o papel de cobaias de nova fórmula golpista que se conecta com o neoliberalismo a infelicitar o mundo e, de certa forma completa e reforça a anterior, com o retoque do autoritarismo elevado à enésima potência.

Recomenda-se anotar que, a despeito de faltar até agora uma definição mais precisa dos rumos de um governo Bolsonaro, a essência está suficientemente clara, graças aos gestos e às palavras do capitão.

Suas ameaças, proferidas em tom militaresco e português capenga, não deixam dúvidas, sem exclusão do anúncio da liberação do comércio de armas em um país recordista mundial em homicídios, cerca de 64 mil no ano passado.

Conforme esta edição haverá de mostrar, Bolsonaro é profissional do WhatsApp que valoriza a versão em vez do fato. É por aí que a nova prescrição golpista adquire sua inequívoca natureza brasileira: a vitória dos imbecis no auge da era digital.

CartaCapital encara a situação com a tranquilidade de quem cumpriu dignamente a tarefa da sua competência, alicerçada na fidelidade canina à verdade factual, no exercício desabrido do espírito crítico e na fiscalização do poder onde quer que se manifeste.

Quem me iluminou a respeito, décadas atrás, foi um notável redator-chefe do New York Times, que talvez Bolsonaro considere jornal “vermelho”. Quanto a nós, continuamos onde estamos e com os mesmos propósitos a nos conduzirem até aqui.

À mídia sempre alinhada de um lado só nos permitimos dirigir um apelo ao senso de responsabilidade que o momento exige. Do antipetismo midiático brotou a terrificante conjuntura em que precipitamos. No fundo, cabe percorrer o enredo desde o início. Primeiro ato: o lançamento da Lava Jato. Segundo: a reeleição de Dilma. Terceiro: o impeachment, a condenação de Lula, enfim a prisão.

Estamos na véspera do quarto e o termômetro da tensão bate no teto. Neste enredo, a mídia entregue ao seu antipetismo uivante traiu deliberadamente a verdade factual para satisfazer os interesses patronais.

Foi decisiva na manipulação da audiência, mas os seus profissionais chegaram, nesta véspera eleitoral carregada de justificados temores, a perguntar aos seus botões se porventura a ameaça Bolsonaro não os inclui.

O caso da Editora Abril, cuja nau capitânia é Veja, implacável veículo de falsas informações (até agora não entendo por que devemos chamá-las fake news em lugar de mentiras): os filhos de quem levou a editora à ruína fugiram para Miami (e onde mais?) com 10 bilhões de dólares em segurança em paraísos fiscais sem  haver cumprido suas obrigações legais com algumas centenas de empregados.

Quantos leitores, ouvintes, telespectadores acreditaram nas falsas informações e assim fortaleceram sua descrença na política e nos políticos e sua certeza de que era indispensável uma mudança radical?

Sem excluir a possibilidade de naufragar na ilusão, CartaCapital acredita que seria de elevada conveniência para o Brasil se a mídia ocupasse a área abandonada pela mediação e recuperasse a verdade dos fatos. Esperamos haver ainda editorialistas, articulistas, colunistas, analistas, comentaristas que conhecem a diferença entre jornalismo e propaganda.

CartaCapital apoiou o candidato Haddad, mas manteve as críticas a respeito de sua peculiar disposição em tecer o elogio de Sergio Moro, algoz de Lula e primeiro motor do golpe de 2016. Segundo Haddad, Moro prestou um serviço ao levantar o problema da corrupção, embora tenha errado ao condenar o ex-presidente sem provas.

A bem do candidato derrotado, evoco algumas passagens do artigo de Luigi Ferrajoli, um dos mais respeitados juristas europeus, publicado com exclusividade por CartaCapital na edição de 22 de novembro do ano passado.

Declarava-se impressionado negativamente “por três aspectos inconfundíveis de práticas inquisitivas”, desde a confusão entre juiz e acusação, até “a demonização do imputado pela mídia alimentada pelo protagonismo dos juízes”, depois de inserir no permeio a denúncia da “premissa de um procedimento dedutivo que assume como verdadeiras somente as provas que a confirmam e como falsas todas aquelas que a contradizem”.

Ao se referir a Moro, Ferrajoli diz ser claro “que uma similar figura de magistrado é a negação da imparcialidade” ao exercer “um poder despótico” para levá-lo inclusive a antecipar o juízo, prática inaceitável em todos os países civilizados, ao expor “motivos óbvios de abstenção e afastamento do juiz”.

E conclui: “Os princípios elementares do justo processo foram e continuam a ser desrespeitados. As condutas aqui ilustradas dos juízes brasileiros representam, de fato, um exemplo clamoroso daquilo que Cesare Beccaria, no § XVII, no livro Dos Delitos e das Penas, chamou processo ofensivo, em que o juiz – contrariamente àquilo por ele chamado um ‘processo informativo’, onde o juiz é ‘um indiferente investigador da verdade’ – se torna inimigo do réu, e não busca a verdade do fato, mas procura no prisioneiro o delito, e o insidia, e crê estar  perdendo o caso se não consegue tal resultado, e de ver prejudicada aquela infalibilidade que o  homem reivindica em todas as coisas; como ‘se as leis e o juiz’, acrescenta Beccaria no § XXXI, ‘tenham interesse não em buscar a verdade, mas de provar o delito’.

É, ao contrário, na natureza do juízo, como ‘busca indiferente do fato’, que se fundam a imparcialidade e a independência dos juízes, a credibilidade de seus julgamentos e, sobretudo, juntamente com as garantias da verdade processual, as garantias de liberdade dos cidadãos contra o arbítrio e o abuso de poder”.

Quando visitei Lula na excelente companhia de Fernando Morais, dia 11 passado, ele queixou-se do tom baixo da campanha do seu candidato, insistiu na necessidade de atacar o “mercado” e, em relação ao juiz que o condenou sem provas, manifestou-se de maneira pouco parlamentar. Haddad tomou a rota oposta, não sei se com a aprovação de alguns ou muitos companheiros do partido.

Sobra para CartaCapital, e para mim, entre o coração e alma, a tristeza pela prisão do ex-presidente e por seu generosíssimo sacrifício. Trata-se de uma dor funda e inescapável para este amigo de Lula por mais de 40 anos e que esteve ao lado dele nas horas boas e más. Sempre fui lulista conquanto não me tenha filiado ao PT, apesar da insistência de outro amigo, Jacó Bittar. Expliquei que jornalistas têm de manter a independência.

Foi o que me permitiu inúmeras vezes ser crítico do partido e do seu líder, mesmo porque, no caso de Lula, a franqueza é própria da amizade verdadeira. Com ele já lamentei a crença na conciliação, de exclusiva frequentação das elites, a admiração com que prestigiou Meirelles, a Carta aos Brasileiros da campanha de 2002, saída da pena de Antonio Palocci, a demora em agir contra a ameaça do golpe desde a reeleição de Dilma Rousseff. E não faltaram outras situações de discordância.

Quanto ao PT, jamais desisti de registrar que, no poder, portou-se como as demais agremiações no Brasil tidas como políticas. Nada disso impedia que, durante os governos petistas, CartaCapital fosse apontada à execração pública na qualidade de “revista chapa-branca”, e tampouco adiantou demonstrar que outros veículos nativos foram muito mais largamente premiados pela publicidade governista do que a esta semanal que tenho a honra e o prazer de dirigir.

Tão logo tenha autorização para tanto, voltarei a abraçar o velho e caríssimo amigo. Neste momento, ocorre-me a figura de outro grande sacrificado, Getúlio Vargas, mais um qualificado “vermelho” para a lista de Bolsonaro. Duas grandes figuras da história brasileira, unidas no empenho e no sacrifício.

Mino Carta
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O Brasil saiu do armário


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Ditadura desavergonhada

Caso o presidente eleito cumpra as suas promessas antidemocráticas, o jornalista Elio Gaspari já pode preparar o quinto volume da sua série sobre a ditatura brasileira: A Ditadura Desavergonhada.

Com efeito, o que mais surpreende em Bolsonaro e no neofascismo que tomou conta do Brasil e derrotou a democracia é a sua total falta de vergonha.

Ele e seus seguidores falam as maiores barbaridades de forma aberta, sem pejo e sem hesitações. Pior: falam com empáfia e estridência. Se orgulham de sua própria bestialidade, da sua truculência tosca, da sua estupidez patente. Se vangloriam da sua total falta de decência, de humanidade.

Chafurdam contentes na lama espessa do seu ódio aos diferentes, aos pobres, aos negros, às mulheres que dizem não, aos indígenas "indolentes", aos "vermelhos", que pretendem banir, encarcerar ou exterminar. Se comprazem no culto abjeto à tortura, à ditadura, às armas e à violência.

Nenhum ditador se comportou da forma como se comporta esse presidente tupiniquim e candidato a ditador.

Nem mesmo Pinochet. Até ele procurava manter um pouco as aparências. Disfarçar a truculência, manter um verniz de civilidade. Perguntado sobre o caráter do regime chileno, declarou: "Esto no ha sido nunca una dictadura. Ha sido una dictablanda" (Isso nunca foi uma ditadura. Foi uma ditabranda). Sim, isso mesmo. A expressão "ditabranda" foi popularizada por Pinochet, a Folha apenas a copiou.

O mesmo aconteceu na ditadura brasileira de 1964. Nossos generais, mesmo os da linha-dura, procuravam disfarçar, em público. As pessoas não eram sequestradas, "desapareciam". Não eram torturadas, eram "submetidas a interrogatórios". Não eram assassinadas, se "suicidavam", como Herzog.

Ninguém defendia tortura ou ditadura, como faz abertamente Bolsonaro. Ao contrário, a simples menção a tais palavras provocava a ira dos generais.

Na Alemanha nazista, os campos de extermínio eram apresentados como "campos de trabalho". Goebbels fez propaganda mostrando sorridentes e fornidos judeus trabalhando alegremente nesses campos idílicos.

Alguns dizem que as barbaridades reiteradas são "da boca para fora". Porém, o político é um ser "da boca para fora". É um ser que, basicamente, fala, discursa, argumenta e debate (nem todos). A palavra é a arma do político democrático. Portanto, é necessário ter muito cuidado com ela. É a palavra que define a identidade de um político e é ela que incita e congrega apoiadores. Palavra autoritária e violenta gera seguidores autoritários e violentos.

Mas, o que causa essa obscenidade política? Essa sordidez despudorada?

Além de preconceitos atávicos, a certeza da impunidade.

Bolsonaro sabe que as instituições dificilmente o coibirão. Provavelmente, não farão nada. Tal como aconteceu na Alemanha. Ele sabe da atual falência institucional e democrática do Brasil. Afinal, ele emergiu desse processo de destruição progressiva da democracia brasileira, iniciado pelo golpismo que se arquitetou ao final de 2014.

Se quisessem coibi-lo, as forças políticas hegemônicas que tomaram de assalto o poder em 2016 o teriam feito bem antes, pois o perigo era evidente. Eu mesmo escrevi artigo sobre tal perigo ainda em fevereiro de 2017. Não o fizeram. Não o quiseram fazer. O insuflaram e depois lavaram as mãos.

PT e aliados históricos ficaram sozinhos na trincheira antifascista. As poucas outras lideranças políticas que deram apoio à causa democrática o fizeram na última hora e de forma tíbia, sem engajamento efetivo. O apoio social, embora expressivo ao final, foi insuficiente para deter o desastre anunciado.

Nessas condições, se tiver qualquer problema para implantar o projeto ultraneoliberal que as grandes forças internas e externas o encarregaram de implantar, Bolsonaro convocará as suas SA, vestidas de amarelo-CBF, para amedrontar as instituições deslegitimadas, seja o Congresso, o STF ou qualquer outra.

Ele sabe também que poderá contar com a atual tutela das Forças Armadas sobre o poder civil, algo que ficou evidente no governo Temer. Em último caso, poderá tentar o "golpe dentro do golpe", como já prometeu, e inviabilizar de vez o funcionamento regular das instituições democráticas.

Mas o despudor autoritário não é, evidentemente, a consequência maior da eleição do candidato a ditador.

Há ameaças concretas e iminentes.

1) A crise política será consideravelmente agravada.

O Brasil atual precisava desesperadamente de alguém apaziguador e conciliador, capaz de negociar racionalmente com todos os setores da sociedade. Bolsonaro é o exato oposto de alguém com esse perfil. Ele tornará o cenário político brasileiro muito mais tenso e conturbado.

A tendência é que ele responda aos desafios da governabilidade com ameaças e repressão.

Em vez de diálogo, iniciará movimentos de bonapartista autoritário. Em vez de procurar fortalecer as combalidas instituições democráticas, procurará fragilizá-las ainda mais e instrumentalizá-las para seus objetivos. Não será, definitivamente, um chefe de Estado republicano.

Com isso, a democracia brasileira poderá entrar num estágio terminal, o sistema político perderia a sua capacidade de arbitrar conflitos e as tensões sairiam de controle.

Por conseguinte, o cenário mais provável, caso Bolsonaro faça o que prometeu, é de uma grande Venezuela, com o sério agravante de que aqui o chefe de Estado não hesitaria em promover repressão massiva e violenta contra opositores.

2) A crise econômica se aprofundará e se tornará crônica.

A agenda econômica do "Posto Ipiranga" de Bolsonaro é a da implantação de um ultraneoliberalismo selvagem.

Embora, num primeiro momento, o "mercado" possa dar soluços otimistas, a tendência é que economia continue na mesmice medíocre do governo Temer.

Sem distribuição de renda, sem crédito barato e sem investimentos estatais, é muito improvável que a economia brasileira saia do buraco. Ao contrário, a tendência desse ajuste ad eternum e das políticas pró-cíclicas é a da fragilização dos vetores que poderiam promover o desenvolvimento do Brasil.

Poderemos ter, é claro, "voos de galinha". Mas jamais teremos, com esse modelo destruidor, um processo sustentado e sustentável de desenvolvimento.

3) O quadro social se deteriorará muito.

A combinação de ultraneoliberalismo selvagem com um Estado repressor acarretaria séria deterioração de um quadro social já muito difícil.

Bolsonaro é um darwinista social radical, um inimigo declarado dos direitos trabalhistas, das políticas sociais e do Estado de Bem Estar. Para ele, é necessário se acabar com o que ele denomina de "coitadismo", ou seja, com as políticas que beneficiam pobres, negros, etc.

Dado o garrote da Emenda Constitucional Nº 95, a sua intenção de aumentar gastos militares e com repressão terá de ser compensada com cortes de investimentos em previdência, educação, saúde, etc. Por isso, fala em ensino à distância, em cobrança nas universidades públicas, etc.

Seu "Posto Ipiranga" já prometeu ao mercado uma "reforma previdenciária radical", com a implantação do fracassado modelo chileno, que dava aos velhinhos aposentadorias de cerca de 40% do salário mínimo de lá.

A tendência inexorável, portanto, é do incremento e cronificação do desemprego e do subemprego, forte aumento da desigualdade, a volta da fome e a expansão da pobreza.

Também teremos contrações na oferta de serviços públicos gratuitos e a privatização de funções essenciais do Estado.

4) O Brasil será posto à venda.

Evidentemente, o governo do golpe já colocou o Brasil à venda. Mas o governo Bolsonaro deverá acelerar e aprofundar a venda dos recursos estratégicos do Brasil.

Além do pré-sal, os recursos estratégicos da Amazônia, por exemplo, deverão entrar na dança do "mercado".

Ademais, ele intentará privatizar bancos e todas as empresas estatais que ainda restam, inclusive a Petrobras, ou parte significativa dela. Afinal, ele foi colocado lá exatamente para isso.

Suas declarações contra a agenda ambiental e contra indígenas e quilombolas visam facilitar essa venda e liberar os "investimentos", inclusive estrangeiros, que espera atrair com a venda do Brasil.

5) O Brasil se tornará uma nulidade geopolítica.

Do ponto de vista geoestratégico, o prometido alinhamento automático de Bolsonaro a Trump, será de grande interesse para os EUA na região. Como se sabe, a prioridade estratégica atual dos EUA é o "grande jogo de poder contra China e Rússia", entre outros. Bolsonaro, que já prometeu doar Alcântara aos americanos e privatizar tudo, será a ponta de lança dos interesses dos EUA na região, intervindo na Venezuela e se contrapondo aos objetivos russos e chineses na América do Sul.

Com isso, o Brasil, que abandonou a política externa ativa e altiva que tanto nos elevou e se tornou um anão diplomático sob Temer, rumará para uma gloriosa nulidade geopolítica.

Além disso, a sua promessa de fechar a Embaixada da Palestina e seu alinhamento a Israel traria inúmeros prejuízos ao Brasil, em sua relação com o Oriente Médio. Seu descarado racismo limitaria qualquer política nossa, em relação à África.

Seu claro alinhamento subordinado aos EUA nos enfraquecerá perante os BRICS e seu descompromisso com a integração regional comprometerá a liderança brasileira no subcontinente.

A abjeta continência à bandeira norte-americana não foi um ato gratuito.
Caso ele seja "bem-sucedido" nessa esfera, a tendência é que o Brasil se transforme num grande Porto Rico, um estado associado dos EUA
6) A imagem do Brasil no exterior será a pior possível.

Sob Temer, a imagem do Brasil no exterior se deteriorou muito. Mas nada se compara ao dano que a eleição do candidato a ditador acarretará à imagem do país.

Todo o mundo civilizado, inclusive a direita civilizada, vê Bolsonaro com um imenso desdém político e nojo moral. Lá fora, se chocam com as barbaridades que diz de forma recorrente. Outros riem de sua figura grotesca. Ninguém o quererá por perto. Ninguém o respeitará.

Não contribuirá para amenizar tal imagem profundamente negativa o seguido desrespeito do Estado brasileiro às decisões da ONU sobre a prisão política de Lula e as declarações desastrosas do próprio candidato a ditador sobre o Brasil sair das Nações Unidas e do Acordo de Paris.

O Brasil, que já teve Lula, uma respeitadíssima liderança mundial, agora tem Bolsonaro, um fascistoide primitivo. Isso diz tudo sobre a situação do país.

Não obstante essas sérias ameaças, a derrota da democracia nesta eleição não é definitiva. Nunca é. Democracia é processo. Ao final das eleições, parte significativa da sociedade brasileira reagiu ante o horror que se avizinhava.

É imperativo não perder esse impulso político e que as forças democráticas se unam de verdade contra a séria ameaça que chega ao poder. Mais do que nunca, a oposição democrática precisa "coesionar" e se fortalecer. Nunca é tarde para se somar a quem está do lado certo da História.

As forças democráticas foram derrotadas desta vez, mas, parafraseando Darcy Ribeiro, detestaria estar ao lado das forças obscurantistas que ameaçam implantar uma ditadura desavergonhada.

Comemoraremos os duzentos anos da independência do Brasil com um entreguista fascistoide no poder e, provavelmente, com Lula ainda como preso político. Essa é a suprema vergonha.

Porém, os brasileiros que têm vergonha na cara não fugirão, não aceitarão ser banidos. Não aceitarão injustiças e arbitrariedades. O PT e todos aqueles que têm compromisso real com a democracia e com o povo não vão desaparecer. Vão lutar. Vão aparecer cada vez mais.

Amanhã será outro dia.

Marcelo Zero
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