28 de out de 2018

Barricada

Um dia, irmão, comemoraremos nossa vitória com um banquete. Todos os que lutaram, ou que só usaram o barrete. E bêbados de nós mesmos, a mesa coberta com os destroços do combate — difícil dizer o que é sangue e o que é molho de tomate —, brindaremos as cadeiras vazias dos que lá não estão. Os fantasmas de uma geração.

Um que morreu no exílio e foi devorado por vermes estrangeiros.

Um que enlouqueceu um pouco e tem delírios passageiros. O que comprou um sítio em Cafundós do Oeste e nos manda fotos tristes dos seus pés em tamancos.

O que nós só vemos na rua, esbaforido, correndo entre dois bancos.

O que era anarquista e acabou na IBM. O que era poeta maldito e acabou na MPM.

O que casou com a Vivinha e dizem que come a sogra.

O que era seminarista e dizem que transa droga.

Um que ia mudar o mundo, e se mudou.

O que ia ser o melhor de nós todos, e vacilou.

Nossa Rosa Luxemburgo, que abriu uma butique.

Nosso quase Che Guevara, que hoje vive de trambique.

Restaremos você e eu, irmão.

E os balões circundarão nossas cabeças como velhos remorsos. E o pianista ruirá sobre as teclas como o Império Bizantino. E os garçons olharão o relógio e desejarão a nossa morte.

Seremos sentimentais e um pouco arrogantes.

Danem-se nossas trapalhadas, estivemos nas barricadas!

Esta civilização nos deve, pelo menos, outra rodada.

Um dia, irmão, um dia.

Você proporá um brinde à razão e nossos copos vazios, com o choque, explodirão. Eu cantarei velhos hinos revolucionários, sob protestos dos vizinhos, certamente reacionários.

Brindaremos à fraternidade universal e à luta antiimperialista e à Nena do Tropical, que dava desconto pra esquerdista.

Choraremos um pouco. E cataremos, entre as migalhas da mesa — como oráculos o futuro nas vísceras de um cágado —, vestígios do nosso passado.

O toco de um Belmonte Liso.

Meu Deus, o meu dente do siso!

Bilhetes de loteria que nunca deram e de namoradas que também não.

A letra semi-apagada de Great Pretender.

Um tostão.

Bêbados de autopiedade, brindaremos esta cidade onde nascemos e morremos mais de uma vez (só eu foram três) mas salvamos do inimigo. Nosso reino, nosso umbigo.

Não temos placas na rua como heróis da Resistência, mas temos a consciência de que os bárbaros não passaram.

Mas sei que no fim desses disse-que-disses os dois prostrados como mães de misses já com aquele olhar do Ulysses você me dirá no nariz, com um bafo que, bem aproveitado, seria uma força motriz:

— Como, heróis? Como, não passaram? Meu querido, não te falaram?

E completará com um gargalo, a caminho do assoalho:

— Os bárbaros ganharam!

Luís Fernando Veríssimo
Leia Mais ►

Começou...

Jovem é agredida pela PM em confusão no Rio Vermelho




A estudante Janaína Barata, 19 anos, ficou ferida em uma confusão envolvendo militantes do PT, do PSL e policiais militares na noite deste domingo (28), no Largo de Santana, bairro do Rio Vermelho, em Salvador.

Segundo testemunhas, a jovem diz ter sido agredida por volta das 19h30 por um policial quando a irmã dela, Tainá Barata, 20, tentava evitar uma discussão entre eleitores de Fernando Haddad (PT) e apoiadores do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL).

Segundo contou a irmã da jovem, a agressão aconteceu durante a confusão no local. “Quando vi, Janaína estava discutindo com a polícia. Peguei ela, puxando pra ela parar de discutir. Aí agrediram ela com um cassetete”, contou Tainá.

Uma multidão se aglomerou ao redor de Janaína, que é estudante de Bacharelado Interdisciplinar de Humanidades, na Universidade Federal da Bahia (Ufba), próximo à Igreja de Sant'Ana, antes de ela ser socorrida. Durante a confusão, a Polícia Militar chegou a usar spray de pimenta para dispersar os envolvidos.

A estudante da Ufba foi socorrida pela mãe de uma amiga, que presenciou a agressão, para o Hospital Geral do Estado (HGE), onde passou por um exame de raio-x para verificar a gravidade do trauma na face. A jovem não chegou a perder a consciência e não corre risco.

PM isola área no Rio Vermelho

Procurada para comentar a situação envolvendo militares e eleitores no Rio Vermelho, a Secretaria da Segurança Pública (SSP-BA) informou que a PM isolou um trecho do bairro "após confronto entre militantes de partidos políticos rivais". Em nota, a pasta informou ainda que o policiamento foi reforçado, na região, e confirmou que uma mulher acabou ferida.

"A confusão começou durante passagem de alguns veículos que comemoravam o resultado da eleição para presidente da república. Alguns objetos foram atirados, nos carros, e os PMs agiram rápido evitando brigas generalizadas. Neste momento, os militares foram agredidos e usaram força proporcional. Uma mulher, ainda não identificada, foi detida", informou o comunicado.

Ainda de acordo com a SSP-BA, durante a condução da militante até a viatura, foi dado um disparo de arma de fogo para cima, com objetivo de dispersar o grupo que ameaçava liberar a mulher.
Leia Mais ►

Quem perdeu, quem ganhou.


Haddad sai gigante desta eleição. Mostrou que é muito melhor que o seu partido. Espero que seja o próximo presidente da república, se tivermos eleições. Terá o meu voto, sempre.

Guilherme Boulos cresceu muito, será um líder fundamental na defesa da democracia. Concordo com tudo que ele diz.

Ciro Gomes sai minúsculo, mostrou ser um sujeito desprezível. Votei e fiz campanha para ele no primeiro turno, acreditava que, com o forte sentimento anti-petista no país, havia muita chance da vitória da extrema-direita e, quanto a isto, eu estava certo. Mas estava errado em confiar em Ciro, não imaginei que ele poderia ser um sujeito sem caráter. Ciro encerrou sua carreira política para além do Ceará, é um dos principais culpados, por sua omissão, pela eleição de Bolsonaro.

O PT terá que ser reinventado ou não mais chegará ao poder. Mais uma vez, como em 2014, os líderes do PT pensaram no partido e não no país. São responsáveis, também, pela vitória da extrema direita.

A imprensa brasileira marcha para a insignificância. Foi ignorada na campanha e, ao contrário de vários jornais estrangeiros, acovardou-se e lavou as mãos ante a escalada do fascismo. Principal reaponsável pelo anti-petismo doentio que elegeu a extrema-direita, terá que se rebaixar ainda mais para sobreviver, sem qualquer relevância.

Os partidos da direita tradicional, MDB e PSDB, viraram nanicos. A tão esperada renovação do congresso aconteceu: ficou muito pior.

Os jovens militantes, enchendo as ruas com sua alegria e fúria, são a esperança de um futuro melhor para o país.

A mídia alternativa, blogs, sites, grupos organizados, foram um respiro de democracia no ambiente sufocante desta campanha. Sem eles, estaríamos perdidos. O melhor a fazer agora é garantir que eles cresçam, apoiando e assinando os blogs e jornais alternativos.

O judiciário brasileiro está em frangalhos. Juízes venais, procuradores arrivistas, uma suprema corte humilhada e omissa, deixam os brasileiros órfãos de justiça.

Os artistas, que tomaram as ruas e mostraram a cara em defesa da democracia, terão nossa gratidão eterna.

Ganhou a intolerância, a violência, o racismo, o obscurantismo religioso, a homofobia, o entreguismo, a misoginia, a burrice.

A luta continua.

Leia Mais ►

Tem muito chão pela frente


“Eu acho tudo isso que está acontecendo positivo no macro, embora esteja sendo dificílimo no micro. Explico: todo esse ódio, toda essa ignorância, essa violência, isso tudo já existia ao nosso redor. Agora é como se tivessem tirado da gente a possibilidade de fingir que não viu. Caíram as máscaras. O Brasil é um país construído em bases violentas, mas que acreditou no mito do "brasileiro cordial". Um país que deu anistia a torturadores e fingiu que a ditadura nunca aconteceu. Que não fez reparação pela escravidão e fala que é miscigenado e não é racista. Nós fechamos muitas feridas históricas sem limpar e agora elas inflamaram. Estamos sendo obrigados a ver que o Brasil é violento, racista, machista e homofóbico. Somos obrigados a falar sobre a ditadura ou talvez passar por ela de novo. Estamos olhando para as bases em que foram construídas nossas famílias e dizendo “Essa violência acaba em mim. Eu não vou passar isso adiante.” Como todo processo de cura emocional, esse também envolve olhar pras nossas sombras e é doloroso, sim, mas é o trabalho que calhou à nossa geração.

O lado positivo é que, agora que estamos todos fora dos armários, a gente acaba descobrindo alguns aliados inesperados. Percebemos que se há muito ódio, há ainda mais amor. Saber que não estamos sós e que somos muitos nos deixa mais fortes. Precisamos nos fortalecer. Essa luta ela não é dos próximos 15 dias, é dos próximos 15 anos. Mais: é a luta das nossas vidas. Não cedam ao desespero. Não entrem na vibe da raiva. Não vai ser com raiva que vamos vencer a violência. E se preparem, tem muito chão pela frente."

Peter Pál Pelbart - filósofo, ensaísta, professor e tradutor húngaro residente no Brasil
Leia Mais ►

Rui Tavares, historiador português, agradece aos brasileiros pela luta contra o fascismo


Leia Mais ►

Hoje se define o resultado de uma batalha crucial.

Apesar das pesquisas, há uma chance de Haddad ganhar. Graças à militância que tomou as ruas do país, com garra, com alegria, com coragem. Caso nosso trabalho surta o efeito com que sonhamos, o que temos pela frente é muita luta. Não será fácil governar, na verdade não será fácil sequer tomar posse, com a besta fascista à solta. Mas estamos mostrando que, com nossa mobilização, temos força para vencer o desafio.

O lado de lá também está ativo e nas últimas horas voltaram com forças as mentiras contra Haddad no whatsapp. Caso ele ganhe, é inútil esperar alguma ação da justiça eleitoral para punir uma chapa cuja campanha foi evidentemente sustentada com dinheiro ilegal e baseada da produção deliberada de desinformação. A justiça eleitoral já mostrou de que lado estão suas simpatias, seja por convicção, seja por medo. Teremos que enfrentar um governo de inclinação fascista em situação de instituições democráticas profundamente debilitadas. Vamos depender de nossa capacidade de organização e mobilização.

Será nossa batalha de Stalingrado: temos que proteger cada palmo da democracia com luta encarniçada. Resistir ao medo, que é arma deles, e não abrir mão de exercer qualquer um de nossos direitos.

Estamos todos cansados, mas o horizonte é de muita luta, qualquer que seja o resultado das urnas hoje. Lembro uma vez mais de uma de minhas tirinhas preferidas da Mafalda, na qual Felipe lê a inscrição no pedestal de uma estátua, que descreve o homenageado como “lutador incansável” – e pensa que nem é um grande elogio, pois difícil mesmo é “estar cansado e continuar lutando”. Esses somos nós. Pelo menos temos a certeza de estar na trincheira certa.

Leia Mais ►

Maioria pobre do País não sabe, mas pagará a conta se Bolsonaro vencer

As vítimas inconscientes da treva à vista que se preparassem para o pior. E o PT tem culpa em cartório

A manifestação da terça 23, participam Chico, Caetano e Mano Brown.
Foto: Ricardo Stuckert
Mano Brown, rapper de 48 anos que saiu e entende da favela, tinha jurado para si nunca mais subir em palanque político, mas quebrou a promessa na terça-feira 23 à noite, ao participar, no Centro do Rio, de um ato a favor de Fernando Haddad, ao lado de Chico Buarque e Caetano Veloso.

“Não consigo acreditar que pessoas que me tratavam com tanto carinho, pessoas que me respeitavam, me amavam, que serviam o café de manhã, que lavavam meu carro, que atendiam meu filho no hospital, se transformaram em monstros. Eu não posso acreditar nisso”, discursou o sempre carrancudo Brown, em alusão ao bolsonarismo que seduziu parte das periferias brasileiras.

000_1A936R.jpg
A fala mais aguerrida foi de Mano Brown: “Se o partido do povo
 não sabe entender o que o povo quer, volta pra base e vai procurar saber”
“Se em algum momento a comunicação do pessoal daqui (do PT) falhou, vai pagar o preço. Porque a comunicação é alma. Se não tá conseguindo falar a língua do povo, vai perder mesmo, certo? Falar bem do PT pra torcida do PT é fácil”, prosseguiu, entre vaias e aplausos. “Deixou de entender o povão, já era. Se nós somos o Partido dos Trabalhadores, o partido do povo tem que entender o que o povo quer. Se não sabe, volta pra base e vai procurar saber.”

A desconexão petista com as bases foi causada pela burocratização do partido nos tempos no poder em Brasília e resultou num aparente esquecimento de que a razão primeira de ser do campo progressista no Brasil é melhorar as condições de vida da maioria pobre.

Diante dessa desconexão – exceção feita ao Nordeste, terra de 39 milhões de eleitores, 26% do total –, o candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro, do PSL, chegou favorito às vésperas do dia D. Tinha 50% contra 37% de Haddad em um Ibope da terça-feira 23 e 44% a 39% em um Vox Populi do dia seguinte.

As vítimas inconscientes da treva à vista que se preparassem para o pior. “As pessoas não sabem que estão votando contra si ao votarem no Bolsonaro”, diz Wellington Leonardo da Silva, presidente do Conselho Federal de Economia. O PT, afirma, foi tímido em expor as ideias do adversário, e a mídia não tinha interesse no assunto, para não contrariar seus anunciantes, bancos, grandes empresas.

Em junho, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, um clube de países desenvolvidos, mostrou que é cada vez mais difícil os pobres subirem na vida pelo mundo. A distância deles para os ricos aumenta desde a crise financeira global de 2008.

Se ele for presidente, o país penúltimo no ranking de ascensão social vai ficar pior
Por razões históricas, no Brasil é pior. Somos penúltimos em um ranking de ascensão social com 30 países, elaborado pela OCDE. Com Bolsonaro no poder, teoriza Leonardo da Silva, ficará mais grave. O deputado e seu guru econômico, o ultraliberal Paulo Guedes, planejam aprofundar a reforma trabalhista de Michel Temer, por exemplo. “Imagine uma pessoa trabalhando sem jornada limitada de horas, sem 13º, sem Previdência... Acabará a perspectiva de uma vida melhor, vão trabalhar só para sobreviver”, diz o presidente do Cofecon.

Com pouca grana no bolso, afirma, as pessoas dependerão mais do SUS e da educação pública, e estes vão sucatear com o congelamento de gastos por 20 anos aprovado por Temer e que Guedes promete manter.

Em 2019, a Saúde terá pela primeira vez menos verba em anos, 129 bilhões de reais, 1 bilhão a menos que este ano. Na surdina, o time bolsonarista sopra que quer cobrar mensalidade de universidades federais, ao menos de quem pode pagar. 
Mauricio_macri3.jpg
Guedes reza pela mesma cartilha deste senhor da Argentina
em recessão, dona do maior juro do mundo (AFP/Aldo Dias)

Na quarta-feira 24, protestos contra o corte de gastos públicos terminaram em pancadaria em Buenos Aires. A polícia reprimiu com balas de borracha, gás lacrimogêneo e jatos d’água. A Argentina está em recessão, tem hoje o maior juro do mundo.
Em setembro, o governo anunciou o fechamento de dez ministérios, um deles foi o da Saúde, agora uma repartição de outra pasta.
Marca da gestão neoliberal de Mauricio Macri, a austeridade foi ampliada por um acordo de 57 bilhões de dólares com o FMI este ano. Guedes reza pela mesma cartilha neoliberal. Bolsonaro quer ter boa relação com Macri caso eleito, ambos conversaram por telefone em outubro.
Dá para imaginar como o ex-capitão trataria protestos. Em um ato na Avenida Paulista a seu favor no domingo 21, ele despontou em um telão com um aviso aos adversários petistas. Vai “varrer do mapa esses bandidos vermelhos do Brasil”, “ou vão para fora ou vão para a cadeia”.
E ele ainda quer facilitar a venda de armas. A fabricante de armas Taurus agradece: 400% de valorização de suas ações na Bolsa entre 31 de julho e 22 de outubro. O recorde de 63,8 mil assassinatos alcançado pelo Brasil em 2017 será batido? 
É com retórica violenta e apelos aos valores morais que Bolsonaro entreteve o eleitorado, enquanto fugia de debates na tevê para não abrir o jogo com o povão sobre seus planos econômicos. Nunca um candidato a presidente por aqui foi tão pró-rico quanto ele, ao menos desde o fim da ditadura civil-militar (1964-1985).

O deputado cansou de repetir que vai tirar “o Estado do cangote de quem produz”, que vai reduzir a carga tributária. Paulo Guedes pretende reduzir o Imposto de Renda das empresas para 20% (hoje está em 34%, na soma de IRPJ e CSLL) e unificar em 20% o dos assalariados, alíquota que hoje chega a 27,5% para rendas mais altas.

É verdade, porém, que estuda rever um mimo do governo FHC aos endinheirados, a isenção de imposto nos lucros e dividendos recebidos por sócios de empresas, jabuticaba que também dá na Estônia e só.

Tudo somado, calcula Sérgio Gobetti, economista do Ipea, uma perda anual de 27 bilhões de reais para o Erário. Pior para as combalidas contas públicas. Em 2019, sexto ano seguido de rombo fiscal, 139 bilhões de reais.
Guedes tem planos megalomaníacos para botar as contas no azul nos próximos anos: vender todas as estatais e os imóveis federais. Calcula levantar coisa de 1 trilhão de reais. Uma conta de padaria, dizem alguns economistas, pois ignora, por exemplo, que entre os imóveis existem áreas militares e reservas indígenas, que não são comercializáveis.

Detalhe: na literatura econômica, privatização é tema examinado à luz da eficiência econômica, não de caixa. Um governo Bolsonaro tende a repetir o saldão de estatais visto após o fim da União Soviética, em 1991, um processo que serviu principalmente para produzir uma casta de oligarcas russos.
As pretensões bolsonaristas explicam a adesão empresarial a ele. Na segunda-feira 22, reuniram-se com o deputado no Rio, em sinal de apoio, vários presidentes de entidades do setor industrial. Entre estas, Abiquim (química), Abimaq (máquinas), Anfavea (montadoras), Abit (têxtil), CBIC (construção civil), AEB (exportadores) e Instituto Aço Brasil.

Recorde-se: em uma sabatina com os presidenciáveis, em julho, na Confederação Nacional da Indústria, o candidato da extrema-direita foi o mais aplaudido. Na época, o líder da CNI, o mineiro Robson Andrade, dizia não ter “receio, de forma alguma” de um governo Bolsonaro.

Agora, reclama do plano dele de juntar os ministérios da Fazenda, do Planejamento e do Desenvolvimento em uma superpasta da Economia, com Paulo Guedes à frente. “Quem vai defender as políticas industriais?”, afirmou em nota.
O apoio patronal a Bolsonaro foi tanto, que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) resolveu investigar. Foi a pedido do PT e em decorrência da notícia da Folha de que certas empresas pagaram milhões para difamar Haddad pelo WhatsApp.
Luciano_Hang2.jpg
Hang coage funcionários para votar no capitão

Pacotes de mensagens custariam até 12 milhões de reais. Se houve mesmo a compra desses pacotes, foi ilegal, pois está proibido empresa financiar político. Um dos mecenas teria sido Luciano Hang, da rede de lojas Havan.

Hang é aquele catarinense que coagiu funcionários para votar no ex-capitão. O PT queria que o TSE tivesse mandado recolher papéis na empresa dele, mas aí a Corte não topou. A campanha de Bolsonaro disse ao tribunal que a suspeita não tem cabimento, enquanto Hang decidiu processar a Folha.

O empresário, soube-se nos últimos dias, foi autuado pela Receita Federal em 100 milhões de reais, por ter tomado um empréstimo para sua empresa, mas usado a grana como pessoa física. Bolsonaristas ameaçaram três jornalistas e um diretor da Folha, que pediu investigação ao TSE e proteção policial. 
Essa propaganda empresarial ilegal, se existiu, ajudou a machucar a imagem de Haddad. A rejeição ao petista disparou perto do primeiro turno. Era de uns 30% no início de setembro e chegou a quase 50% em meados de outubro, acima do antes campeão no quesito, Bolsonaro.
Às vésperas do turno final, o índice de ambos empatou, o que devolveu esperança aos progressistas de uma virada no dia 28. Estava em 41% no caso do petista e em 40%, no do ex-capitão, no Ibope. Empate, ao que parece, resultante do combate a uma guerrilha difamatória levada adiante pelo bolsonarismo contra Haddad no submundo do WhatsApp. Um combate feito pelos petistas sobretudo entre evangélicos, bombardeados antes por mensagens a retratar um Haddad depravado.
O símbolo máximo da difamação foi a exploração de uma iniciativa de 2011 do Ministério da Educação, tempos de Haddad lá, de inibir a homofobia nas escolas, ideia batizada no mundo evangélico, e não é de hoje, de kit gay.
Em 16 de outubro, a pedido de PT, o TSE mandou tirar a “informação” sobre o tal kit da web e de onde fosse. Na segunda-feira 22, o Facebook tirou do ar a maior rede bolsonarista, devido a uma reportagem do Estadão a mostrar que ali houve, digamos, violação da boa-fé alheia. A propósito, um senador chileno, Alejandro Navarro, acaba de propor em seu país uma “Ley Bolsonaro”, contra notícias mentirosas.
Historicamente com educação deficiente, o Brasil é um paraíso para as chamadas fake news. Dos 147 milhões de eleitores, 45% são analfabetos, declaram saber ler e escrever ou cursaram no máximo o Ensino Fundamental.
Esses dados do TSE ajudam a entender por que o Brasil é o país que mais crê em fake news. Aqui, 62% admitiram já ter tomado alguma como verdadeira, conforme uma pesquisa global feita entre junho e julho pelo instituto Ipsos. 

Na quarta-feira 24, um membro do QG petista lamentava: “Esta eleição tem muita confusão mental, as pessoas não têm formação mínima capaz de entender as coisas, de processar informações”. Imagine-se o dia, não muito distante, que chegar o “infocalipse”, termo cunhado por um pesquisador americano, Aviv Ovadya, da Universidade Colúmbia. 

Um apocalipse informativo provocado pelo avanço tecnológico, com ameaças para a democracia no planeta. Hoje, já é possível montar um vídeo com uma pessoa a dizer o que ela nunca disse. Aconteceu com Barack Obama em 2017.
No dia em que recebeu os industriais, Bolsonaro conversou com um certo juiz do Tribunal Superior do Trabalho. Um encontro simbólico da pretensão bolsonarista de facilitar a vida dos empresários à custa dos assalariados. 

Foi com Ives Gandra Martins Filho, presidente do TST de 2016 a 2018. O juiz foi um dos mentores da reforma trabalhista de Temer, e ela foi o tema principal com Bolsonaro, conforme o togado contou publicamente. 

Gandra Filho é da opinião de que a Justiça do Trabalho tem de se enquadrar à reforma, do contrário merece fechar, motivo para ter sido declarado, em maio, persona non grata pelos magistrados do ramo. 

Ele também acha que o brasileiro precisa escolher: quer emprego ou quer direitos? Podia dar o exemplo e abrir mão dos 5,2 mil reais mensais de auxílio-moradia e auxílio-alimentação no holerite mensal de 37,3 mil reais. Ou dos 60 dias de férias, mamata garantida em lei para os togados, pertencentes ao 1% mais rico do País. 
No governo Temer, Gandra Filho foi cotado para uma vaga no Supremo Tribunal Federal, quando Teori Zavascki morreu em acidente de avião. No próximo governo, vão abrir duas vagas no STF, e caberá ao novo presidente indicar os sucessores. 

Membro do Opus Dei, ala radical do catolicismo, a visão de mundo de Gandra Filho é bolsonarista. Para ele, quem manda em casa é o homem e casamento gay é pecado. Tem a quem puxar. Seu pai, o jurista de causas patronais Ives Gandra Martins, escreveu em 2013 um artigo no jornal cearense O Povo a se queixar: “Hoje, tenho eu a impressão de que no Brasil o ‘cidadão comum e branco’ é agressivamente discriminado pelas autoridades governamentais constituídas e pela legislação infraconstitucional, a favor de outros cidadãos, desde que eles sejam índios, afrodescendentes, sem-terra, homossexuais ou se autodeclarem pertencentes a minorias submetidas a possíveis preconceitos”.
A visita de Gandra Filho a Bolsonaro levou o Conselho Nacional de Justiça a cobrar explicações do juiz, pois a Constituição e a Lei Orgânica da Magistratura proíbem togado de fazer política. Vai ser algo daí além do aborrecimento do juiz de mandar algum assessor escrever uma resposta ao CNJ? 

A Justiça brasileira parece acovardada diante do bolsonarismo. Eduardo Bolsonaro, o caçula do ex-capitão, ameaçou o Supremo duas vezes em julho. Em uma aula de cursinho no Paraná, disse que bastava um soldado e um cabo para fechar a Corte e que não haveria protesto popular em defesa de nenhum dos supremos juízes. 

Em uma audiência pública no Congresso, afirmou, presumivelmente sobre uma vitória do pai: “Eu acredito que, caso o próximo presidente venha a tomar medidas e aprovar projetos que sejam contrários ao gosto desse Supremo, eles vão declarar inconstitucional. E, aqui, a gente não vai se dobrar a eles, não”.
“Golpista”, reagiu Celso de Mello, o mais antigo do STF, um dos dois que vão pendurar a toga no próximo governo. Dos 11 juízes do Supremo, seis reagiram em público. Um deles, justamente o presidente, Dias Toffoli, apenas de forma escrita: “Atacar o Poder Judiciário é atacar a democracia”. Atitudes retóricas, e nada mais.

Bolsonaro mandou uma carta a Celso de Mello, disse em público que pedia desculpas pelo filho e ficou por isso mesmo. Talvez tenha até ganhado uns pontos com os eleitores, já que o Supremo é aquele lugar que pede aumento de salário, distribui auxílio-moradia de Norte a Sul e desfruta de apenas 24% de confiança popular, conforme uma pesquisa da FGV. 
Certo é que os bolsonaristas mais radicais estão com sangue nos olhos contra o Judiciário. Um tal coronel Carlos Alves surgiu em um vídeo na última semana da campanha a chamar Rosa Weber, a presidente do TSE tutelada pelo chefe do serviço de inteligência federal, general Sérgio Etchegoyen, de “salafrária, corrupta, incompetente”. O Supremo pediu investigação do coronel, que respondeu com outro vídeo, desta vez a ofender Gilmar Mendes, também do STF. 
A ameaça de Bolsonaro de que a oposição a um governo dele teria de se exilar e as afirmações do filho Eduardo sobre o STF arrancaram do ex-presidente FHC novas declarações contra o ex-capitão.

Mas, até a conclusão desta reportagem, na quinta-feira 25, o tucano não tinha manifestado voto em Haddad, um apoio cortejado pelo petista de olhos no 63 milhões de eleitores do Sudeste, 43% do total. Na reta final, Marina Silva, da Rede, enfim declarou voto nele, enquanto Ciro Gomes, do PDT, só voltaria da Europa na sexta-feira 26, sem se saber se faria algum gesto pró-Haddad.

O impacto positivo prático desses apoios ao petista era incerto. Apesar do antipetismo na superfície, Bolsonaro, o “soldadinho de araque” na definição do rival, é um fenômeno de raízes antissistêmicas, antitudo. Fosse o antipetismo a explicação para esta eleição, Lula não teria 39% nas pesquisas até sua candidatura ser barrada pelo TSE. Um índice alcançado mesmo com ele preso e calado fazia quatro meses.
Agora aguenta, Brasil.

Maurício Dias
No CartaCapital
Leia Mais ►

A dor da virada

A conjuntura se acelerou. Mudou. Só estamos virando porque entramos na ofensiva. Nos últimos dias, largamos o medo, a angustia e a depressão coletiva. Em seus lugares vieram o ânimo, a força e uma raiva benigna de não nos deixarmos entregar. O sangue subiu aos olhos.

A cada dia se sucedem os enfrentamentos dos quais não recuamos. Voltamos a usar nossas camisetas de campanha, a nos manifestar publicamente e a pedir votos abertamente.

Tentaram nos intimidar nas ruas, nos empregos e nas universidades. Medíocres juízes querendo aparecer e meganhas buscando autoafirmação apareceram à nossa frente. Caíram no ridículo, deixando suas boçalidades expostas à vista de todos.

Não estamos mais sozinhos. Agora somos multidão, multidões. Coloridas, alegres, enérgicas, confiantes! Cantamos, gritamos, suamos, pulamos e dançamos na cara deles.

O fascismo é o contrário. É cinza, exala ódio por todos os poros, ameaça, chantageia e mente.

Sensibiliza os pobres de espírito, os medíocres, os apavorados, os paneleiros órfãos e os desenturmados.

O fascismo não propõe redenção coletiva, mas um violento darwinismo social, profundamente individual e excludente. Cativa muita gente. Atrai os idiotas cujo brado mais criativo é “minha bandeira jamais será vermelha”. Precisam disso para seguir pesadamente ressentidos em suas imbecilidades seguras e em seu medo de classe.

Nós temos gás e adquirimos confiança em nossos tacos! A 24 horas do dia das urnas, revelamos fôlego de fundistas. Estamos com pique para o final da prova, para a arrancada dos últimos 100 metros.

Sofremos como cão sem mãe nos últimos meses. Hesitamos. Parecia que não ia dar e pensamos em jogar a toalha. Mas ultrapassamos a intimidação e a defensiva.

Estamos vivendo dias e noites épicos, heroicos.

Inegavelmente inesquecíveis!

Gilberto Maringoni
Leia Mais ►

Pelo Brasil, pela democracia e pela paz


É preciso impedir que pesadelo se torne realidade

Sou contra a tortura. Não posso admitir que pessoas sejam fuziladas aqui ou em qualquer lugar do planeta.

Não vou fechar o Supremo ou o Congresso nem censurar a imprensa, tampouco prender ou exilar pessoas que pensam diferente de mim, ao contrário das recentes ameaças feitas pelo meu adversário.

Repudio toda e qualquer ditadura.

Renovo todos os dias a minha fé na democracia e na liberdade.

Respeito todas as crenças religiosas, porque todas que conheço, de uma forma ou de outra, ensinam o mandamento que desde cedo aprendi: “Ama a teu próximo como a ti mesmo”. E acho lindas as cores da bandeira do Brasil.

Jamais imaginei que fosse necessário investir parte preciosa deste pequeno espaço que me cabe à declaração do óbvio.

Mas a escalada de ódio, que nesta campanha eleitoral atingiu níveis intoleráveis, me obriga a fazê-lo.

O que está em jogo é a escolha entre o nosso direito ao futuro ou o retorno a um dos períodos mais sombrios de nosso passado.

Fui ministro da Educação no governo do ex-presidente Lula, investi em todos os níveis de ensino, da creche à pós-graduação.

Construí escolas técnicas e novas universidades públicas. Criei o ProUni e o Fies sem Fiador, para jovens que não podiam arcar com as mensalidades das faculdades privadas.

Tudo isso fiz sem tirar a vaga de ninguém. Pelo contrário: nunca tantos brasileiros, de todas as cores e classes sociais, tiveram tanto acesso ao ensino superior.

​Fui também prefeito da maior metrópole da América do Sul e governei para todos os paulistanos, com medidas inovadoras e internacionalmente reconhecidas em gestão, mobilidade urbana e respeito aos direitos humanos. Posso e vou fazer muito mais.

Meu adversário, ao contrário, é um político profissional.

Nada tenho contra os que fazem da política a sua profissão, mas repudio quem a usa como ferramenta de enriquecimento pessoal e plataforma de disseminação do ódio contra adversários, especialmente mulheres, negros e as minorias.

Ele promete combater a violência armando a população, como se ignorasse o fato de que o Brasil é o país com maior número de mortes por armas de fogo em todo o mundo. São 43 mil mortos a cada ano.

Pessoas que reagiram a um assalto, pessoas que morreram por causa de uma simples briga de trânsito ou uma discussão boba entre vizinhos, além das vítimas de disparos acidentais –inclusive crianças que brincavam com o revólver do pai.

Diante dessa realidade, botar mais armas nas mãos dos cidadãos é o mesmo que dizer: “Matem-se uns aos outros”.

Algumas das mais controversas propostas de meu adversário, reveladas por ele próprio ou pelo comando de sua campanha, dizem respeito à revogação de direitos trabalhistas históricos, a exemplo do 13º salário, cobrança de mensalidades nas universidades federais e imposição de uma reforma tributária que visa beneficiar o grande capital e penalizar ainda mais a classe média e os mais pobres.

No campo da ética, o que se confirmou, a partir de reportagem publicada por esta Folha, é que sua campanha instalou uma verdadeira fábrica de mentiras, irrigada com dinheiro de caixa 2, para tentar fraudar a eleição com base no disparo em massa de fake news contra mim e minha família.

Por tudo isso, e pelo que o Brasil ainda representa no cenário internacional, o mundo inteiro tem os olhos postos sobre nós, para a escolha que faremos neste domingo nas urnas.

Não há espaço nem tempo para indecisões. Isentar-se de tamanho compromisso é abrir mão de todos os nossos avanços civilizatórios e dizer “sim” à barbárie.

Impedir que tal pesadelo se transforme em realidade está ao alcance de nossas mãos, na ponta de nossos dedos. É preciso apertar o 13 e a tecla “confirma”.

E, a partir desta segunda, trabalhar todos os dias pela pacificação do Brasil e pela construção de um país melhor e mais justo, com crescimento econômico e inclusão social, tendo como alicerces a educação e a geração de empregos.

Bom voto, e um Brasil feliz para todas e todos.

Fernando Haddad, Candidato à Presidência da República pelo PT; ex-prefeito de São Paulo (2013-2016) e ex-ministro da Educação (2005-2012, governos Lula e Dilma)

PS do Viomundo: Bolsonaro não só não respondeu ao pedido da Folha por um artigo, como entrou com ação contra o jornal e a repórter Patricia Campos Mello, que desvendou o escândalo do whatsapp.
Leia Mais ►

FHC, Ciro e Simon rasgam a biografia


O Brasil atravessou sua mais bizarra campanha presidencial e chegou ao seu desfecho neste domingo, no segundo turno da eleição, exposto ao abismo escancarado pelo silêncio imperdoável ou pela submissão condenável de algumas de suas maiores lideranças políticas. Em 1964, os generais derrubaram pela força um presidente e mergulharam o País numa treva de 21 anos. Em 2018, pela força inquestionável do voto, um capitão de Exército de retórica truculenta pode arrebatar o Palácio do Planalto e afundar a Nação num período de retrocesso político e de reversões civilizatórias sem precedentes desde a queda da ditadura, em 1985.

O capitão da reserva Jair Bolsonaro, com o apoio de um partido de uma só cadeira no Congresso e ancorado em míseros 8 segundos concedidos ao seu PSL, sem expor a debate o seu vazio de ideias e sem abdicar de suas frases de apologia à violência explícita e incentivo ao preconceito, conseguiu o que parecia impossível: ganhou o primeiro turno com o voto de quase 50 milhões dos 147 milhões de eleitores, agora escoltado por uma sólida bancada de 52 deputados federais, a segunda maior da Câmara dos Deputados.

Por pouco, muito pouco, Bolsonaro deixou de liquidar a eleição ainda na primeira ronda. Teve 46,03% dos votos, contra 29,28% de seu principal oponente, Fernando Haddad, do PT. Agora, na véspera da decisão, as pesquisas apontam a liderança de Bolsonaro, com 48% ou 50% dos votos, contra 38% ou 37% para Haddad, conforme o Datafolha e o Ibope, respectivamente.

Omissão e apatia

Nessa diferença de 10% ou 13%, ecoa forte a omissão, o silêncio, a apatia e a inércia de duas lideranças políticas que poderiam frear a escalada do capitão e livrar o país de uma opção de intolerância: Fernando Henrique Cardoso e Ciro Gomes. Lideranças maiores dos partidos que ficaram em terceiro e quarto lugar no primeiro turno, FHC e Ciro poderiam consolidar a ideia de uma frente antifascista e incorporar os votos necessários para viabilizar a virada de Haddad.

Ciro Gomes saiu da disputa com mais de 13 milhões de votos, ou 12,47% do eleitorado, e o tucano Geraldo Alckmin recebeu apoio de pouco mais de 5 milhões de eleitores, ou 4,76% dos votos apurados. Na soma virtual dos dois candidatos, temos quase 17% dos votos, que poderiam virar o jogo em favor de Haddad. Mas, para isso, seria decisivo o empenho das duas principais lideranças do PDT e do PSDB.

Esse empenho, porém, nunca houve. No dia seguinte à apuração do primeiro turno, Ciro abdicou de sua responsabilidade, fez as malas e embarcou para a Europa. Disse um tímido "Ele Não" nas redes sociais e escafedeu-se, em vez de se incorporar de corpo e alma na campanha que, naquele momento, havia se transformado num embate mortal entre barbárie e civilização. Contrariando as expectativas do País, Ciro voltou em silêncio da França, apenas dois dias antes da eleição deste domingo. Neste sábado, em vez de uma entrevista coletiva retumbante, o líder do PDT preferiu falar pela blindagem de sua página no Facebook, ainda assim evitando falar em nomes, discorrendo de forma tortuosa, sibilina, enunciando platitudes, sem dizer o que precisava ser dito: "Que as pessoas possam votar amanhã compreendendo a necessidade de votar com a democracia, contra a intolerância, pelo pluralismo, mas ninguém está obrigado a votar contra convicções e ideologias", pontificou. "Claro que todo mundo preferia que eu, com meu estilo, tomasse um lado e participasse da campanha, mas não quero fazer isso por uma razão prática, que eu não quero dizer agora...". E mais não disse.

Uma reação enigmática, obscura, que não combina com o político de língua solta que costumava assombrar os brasileiros pelo estilo contundente e agressivo de se expressar. O jeito acovardado e omisso adotado surpreendentemente por Ciro mostra que suas mágoas para com Lula e o PT foram mais fortes do que a necessária compreensão de que havia agora um perigo maior, no horizonte, que justificaria engolir qualquer sapo barbudo para livrar o país de um projeto de intolerância política irreversível. Mesmo na França, nestas três semanas de forçada reflexão, Ciro sempre teria tempo para gravar uma mensagem curta, mas eloquente, de apoio aberto e claro ao adversário do capitão da ditadura. Ciro preferiu calar-se e, quando falou, preferiu ser esquivo, nebuloso. Ciro Gomes jogou sua combativa biografia no chão.

O estilo tucano

O líder maior do PSDB, o ex-presidente Fernando Henrique, não precisou viajar à França para fazer bobagem. Depois de um tímido aceno de aproximação com a 'porta' de Haddad, recuou, dizendo que ela estava 'enferrujada', no mesmo jeito flutuante de Ciro. Aliás, no melhor estilo tucano, FHC tartamudeou nas redes sociais: "O que penso declaro no Twitter e na mídia. Por ora, disse que no Bolsonaro não voto e dei as razões. Nada além disso". Muito pouco a dizer na boca de um respeitado intelectual, sociólogo de renome, autor de mais de 20 livros e de uma centena de artigos acadêmicos, dono de 29 títulos de doutor honoris causa de universidades brasileiras e estrangeiras, citado em 2009 pela revista Foreign Policy no 11º lugar de uma lista dos cem maiores pensadores globais do mundo. Ou seja, FHC tem os instrumentos e o conhecimento necessário para perceber os perigos da política e as necessidades do país num momento decisivo como é a eleição de 2018. FHC optou por ser mais tucano e menos pensador. Uma pena.

No mesmo sábado em que Ciro gaguejava, o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, relator do processo do Mensalão que emparedou o PT, declarou o seu voto com a clareza que faltou a Ciro e com a resolução que FHC não cultiva: "Votar é fazer uma escolha racional", escreveu Barbosa no Twitter. "Eu, por exemplo, sopesei os aspectos positivos e negativos dos dois candidatos que restam na disputa. Pela primeira vez em 32 anos de exercício do direito de voto, um candidato me inspira medo. Por isso, votarei em Fernando Haddad".

Biografia rasgada

Alguns pecam por omissão. Outros, por submissão. Foi o que aconteceu, lamentavelmente, com um campeão de luta pela democracia e uma referência da ética na política, o ex-senador gaúcho Pedro Simon. Três dias após o primeiro turno, numa virada moral inesperada, Simon anunciou o seu "apoio crítico" a Bolsonaro, o capitão da didatura que teve 52,63% dos votos de seus conterrâneos gaúchos. Simon conseguiu ver coisas boas no capitão: "Ultimamente Bolsonaro vem fazendo afirmativas que denotam o seu respeito pela liberdade". Aos 88 anos de vida, com uma passagem de 24 anos pelo Senado que o tornou um campeão da ética, Simon vacila ao citar o grande comandante do MDB que combateu a ditadura: "Eu fico me perguntando o que o doutor Ulysses estaria fazendo hoje..." Estaria fazendo o que fizeram duas referências políticas fortes para Simon: Marina Silva, que saiu da disputa com apenas 1% dos votos, e Jarbas Vasconcelos, eleito de forma consagradora pelo MDB de Pernambuco. Ambos, sem vacilação, declararam o voto em Haddad e o repúdio a Bolsonaro — exatamente o contrário do que fez Simon, rasgando sua biografia.

Envergonhado, Simon não comentou a forte possibilidade de que seu apoio ao capitão seja mera retribuição. O filho, Tiago Simon, acaba de se reeleger deputado estadual pelo MDB, melhorando muito o seu desempenho. Em 2014, Tiago se elegeu por pouco, com 32.717 votos, na 47ª posição entre 55 deputados, pendurado na oitava e última posição conquistada pelo MDB pelo coeficiente eleitoral. Agora, Tiago pulou para a 17ª posição, subindo sua marca para 45.792 votos. A explicação para o milagre se chama Jair Bolsonaro, que Tiago, como o pai, apoiou de forma aberta, sem qualquer restrição crítica. O campeão de votos na eleição para a Assembleia gaúcha foi, claro, o tenente-coronel Luciano Zucco, do PSL, com 166.747 votos, graças ao apoio sólido de seu ex-comandante no Comando Militar do Sul, general Hamilton Mourão, hoje vice da chapa do capitão que tem a bênção surpreendente do clã Simon.

Luiz Cláudio Cunha
Leia Mais ►

Aqui jaz Ciro Gomes

Democracia ou fascismo. Tudo mais é blá-blá-blá


O Conversa Afiada reproduz artigo sereno (sempre!) de seu colUnista exclusivo Joaquim Xavier:

O Brasil nunca esteve diante de uma escolha tão clara: democracia ou fascismo. Tudo o mais que se fale é blá-blá-blá. Neste tipo de escolha, não há muro. Existe lado.

Do lado do fascismo, Temer, FHC, Dória, Rodrigo Maia, supreminho, “acadêmicos” de araque, colunistas de aluguel e tantos outros não vacilaram. Optaram pelo lado das trevas, do massacre aos pobres, da censura, da tortura. Do enterro da soberania nacional.

Do outro, além de multidões cada vez maiores e aguerridas, encontramos a maioria do país: o povo humilde, os desvalidos, um Brasil que há séculos tem sido usado pelas elites apodrecidas como fornecedor de abutres, do grande capital, de uma burguesia parasitária e seus serviçais –uma mídia à la carte, congressistas pilantras, executivo capatazes. Jessé Souza já esgotou o assunto com seu best-seller.

Nada mais natural que, num momento como esse, gente que se manifesta pelas liberdades há tanto tempo –apesar de trajetórias tortuosas e muitas vezes oportunistas—aderissem à democracia. Sem que isto implicasse, ou obrigasse, abrir mão de críticas mesmo ácidas ao tempo em que, durante 13 anos, o país procurou romper com a rotina de exploração incontida do trabalho da maioria assalariada, da perseguição às mulheres, jovens. minorias.

Os governos Lula de Dilma cometeram erros aos magotes. Cederam a banqueiros, afagaram a grande mídia, costuraram alianças mal-cheirosas. Não seria diferente. Nunca se disseram revolucionários, no máximo reformistas. Mas o fato é que o Brasil melhorou. Os números estão aí para quem quiser ver.

Mais e tão importante: preservaram a democracia. Responda à pergunta: quantos jornalistas, oposicionistas, quantos adversários foram perseguidos ou presos naqueles anos? A que censura a imprensa foi submetida? Quantas universidades foram invadidas? Quantos crimes deixaram de ser investigadas mesmo dentro das limitações da polícia?

Quer mais: que governos antes daqueles aprovaram leis e mecanismos capazes de rastrear a corrupção, investigar acusados, identificar culpados?

A resposta fala por si só. Pelo menos para democratas de verdade.

Ciro Gоmes, que se hospedou em vários partidos, sempre se apresentou ao povo como um desses democratas. Vamos combinar, sua biografia é de mediana pra baixo. Criou um curral no Ceará, fez algumas benfeitorias ao lado de seu amigo do peito tucano Tasso Jereissatti e se valeu da incontinência verbal para ganhar visibilidade. Nada contra. A política tem seus códigos, não é um convívio de freiras, espaços são disputados em guerra de gente brutal.

Mas há momentos em que os personagens têm que revelar seu caráter por trás desta cenografia. É como alguém que possui uma arma e tem que decidir se mata ou morre para defender princípios. A não ser que passem de oportunistas interessados apenas neles, danem-se os que nele acreditassem. Getúlio, por exemplo, preferiu morrer. Não sou eu quem vai julgar esta decisão.

Para espanto daqueles que nele acreditavam, Ciro Gоmes e família escolheram o lado do fascismo. Ciro desnudou-se. Quer ser o candidato à presidência, mas esquece que falta a ele o mais importante numa democracia: votos. Ciro perdeu de Haddad, um candidato cuja campanha não durou mais de três semanas.

Sim, Haddad representa um líder popular preso injustamente pelas forças que querem manter o país no atraso de que Lula tentou tirar o Brasil, mesmo com todas as limitações. Na democracia, o que vale é o voto. Como Ciro queria sentar na janela se foi derrotado nas urnas? Há uma frase que resume tudo: o importante não é querer ser candidato; é que os eleitores queiram que vc seja o candidato. E as urnas mostraram que o povo quer que Haddad seja o candidato contra o fascismo de Bolsonaro.

No último domingo, o capitão fracassado do exército expôs seu programa de governo. Em resumo: Lula apodrecer na cadeia, Fernando Haddad e Lindbergh na prisão, opositores enviados ao exílio, fuzilamento dos pobres, venda do Brasil, escolas de caserna, imprensa oposicionista banida e tudo o mais que caracteriza um regime totalitário. Como ele disse, um Brasil de “50 anos atrás”: Faça as contas: 2018-50=1968, ano do Ato Institucional número 5, que despedaçou qualquer liberdade no Brasil. Nem precisa desenhar.

Como lavar as mãos diante disso, Ciro? Fale-se o que quiser de Leonel Brizola, do PDT, partido que hoje abriga o Ciro até o próximo que Ciro encontre para baldear. Derrotado por Lula no primeiro turno em 1989 na luta contra Fernando Collor, Brizola não titubeou: apoiou Lula no segundo turno e descarregou incondicionalmente seus votos no “sapo barbudo”, como ele mesmo chamava. E lembre-se que a plataforma de Collor, comparada à de Bolsonaro, era um conto de fadas. Brizola deixou vaidades de lado e pensou no Brasil. Ciro não chega a ser nem sequer um genérico do grande líder trabalhista. É sua negação.
Leia Mais ►

Só um candidato representa a continuidade da democracia

Com o acelerado avanço de Fernando Haddad (PT) e a queda de Jair Bolsonaro (PSL) nos últimos dias, qualquer dos dois pode ser vitorioso neste domingo (28). Mas só um representa a continuidade da democracia. O outro propõe o Brasil sob um autoritarismo constituído por concepções e violências extintas com o fim da ditadura militar.

Eleições presidenciais não tinham um candidato de extrema-direita há 73 anos, desde que Plínio Salgado disputou com Juscelino, Juarez e Adhemar em 1955. Culto, fundador da Ação Integralista — uma combinação de imitações do fascismo italiano e do nazismo —, o chefe dos “camisas verdes” coletou só 8% da votação com uma campanha quase normal, de nacionalismo de direita e poucos arroubos antidemocráticos.

Bolsonaro não pôde participar nem do último debate por “estratégia”, na sua forma de se referir à própria ignorância nos temas previsíveis em debate pela Presidência. O decorrer de sua campanha também os ignorou. O dia a dia da nossa vida de pessoas comuns ficou tão excluído da campanha quanto os problemas maiores do país. Extensão da sua presença inútil na Câmara, 27 anos de deputado com incontáveis brutalidades e apenas dois projetos aceitos pelo plenário, a campanha de Bolsonaro foi uma sucessão de desaforos e primarismo ameaçador.

Negros, homossexuais, aposentados, atores e artistas, sem-terra e sem-teto, pequenos assalariados, indígenas, empresas de imprensa e jornalistas, favelados expostos a tiroteios, ambientalistas, enfim, são muitos milhões com motivo para se sentirem ameaçados por Bolsonaro. O grande avanço do Brasil em benefício de vários desses campos foi conquista dos ativismos, que são os movimentos por direitos em geral e defesa das minorias. O Judiciário e o Congresso só vieram a reboque, quando vieram. Mas o que Bolsonaro tem a oferecer aos ativismos é “acabar com todos eles”.

O “ame-o ou deixe-o” da ditadura retorna com “o exílio ou a cadeia” na alternativa de Bolsonaro para os que o incomodem como opositores. Em momento de rara contenção, não citou “a morte”. A Folha já precisou requerer investigação da Polícia Federal após ameaças à repórter Patrícia Campos Mello e a Mauro Paulino, diretor do Datafolha. Ambos postos na mira bolsonária em represália a seu trabalho isento. Não são os únicos na mira.

Europeus e democratas americanos estão assombrados com o Brasil. Apesar terem aqui divulgação escassa, ou nenhuma, sendo necessária a procura na internet, manifestos com importantes signatários se sucedem em apelos aos brasileiros para não abandonarem a democracia pelo autoritarismo. E, como se precisando dar um exemplo ainda em tempo, o Parlamento Europeu aprovou por farta maioria, no meio da semana, a recomendação aos países da União Europeia para tornarem proibidos os grupos e movimentos de extrema direita.

Quanto a nós, Fernanda Montenegro resume, “resta-nos esperar que o Brasil acorde, e cante”. É menos poético, e isso não é bom, mas se o Brasil apenas acordar já estaremos, ainda que exaustos, continuadamente livres para agir por nossas consciências.

Em um ou outro sentido, cada voto dado neste domingo será histórico.

Janio de Freitas
No fAlha
Leia Mais ►

A onda Haddad e o maior erro de Ciro


Leia Mais ►