27 de out de 2018

Vira, virou: Haddad presidente reconciliará o país e devolverá golpistas a suas cavernas


Chegou a hora de votar. Brasileiras e brasileiros de todos os rincões do país vão sair de suas casas para o encontro mais especial da democracia: do cidadão com o voto. Não há meio termo e, descontando as exceções de praxe, não cabe omissão numa hora dessas. Até porque não há meio termo. Como poucas vezes na história, temos a colisão de lados diametralmente opostos da esfera política. Mais do que isso, para além da política e mesmo da ideologia, estamos diante de um confronto de dois mundos. Um democrático, representando a renovação das forças progressistas. O professor Fernando Haddad, e sua parceira de chapa, a jornalista Manuela d’Ávila, hoje representam a esperança de um país justo, igualitário, livre, fraterno, pacífico. A eleição de Haddad, que será arrancada no photochart, representará a devolução do país ao curso democrático e, com o tempo, a reconciliação nacional. A única chance de voltarmos a sermos todos irmãos nessa família complicada chamada Brasil.

Do outro lado, está a negação de tudo, o flerte com o fascismo, o divisionismo, uma chapa puro-coturno que prega o retrocesso e ameaça não apenas os programas sociais, mas as liberdades individuais e nosso recente reencontro com a democracia depois da ditadura implantada em 64  – e que os bolsominions idolatram, na maioria das vezes por pura ignorância. O candidato que cresceu no ódio, na pregação antidemocrática, na lavagem cerebral da mídia contra um partido e que criou como simbolo de campanha a morte – representada pelas armas -, lidera uma ultradireita violenta, sectária, preconceituosa. Um lobo tenebroso disfarçado como o cordeiro que devolverá os valores familiares e da pátria. Um candidato que fez a campanha mais suja da história, a ponto de inventar uma nova modalidade de mentira, montando com amigos empresários uma milionária fábrica de fake news pelo whatsapp, para entrar nos lares brasileiros por uma das janelas mais íntimas criadas pela tecnologia. Neste já histórico domingo, 28, poderemos, ao final do dia, desfilar na avenida um samba popular, ou rasgar uma página infeliz da nossa história (obrigado, Chico).

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Universidades invadidas pela polícia, impedindo manifestações democráticas contra o fascismo. O ensaio da orquestra ditatorial que vamos varrer para longe nas urnas

Nos últimos dias, uma das faces nefastas do fascismo, apoiado pela KKK norte-americana e visto até na mídia internacional mais neoliberal como uma ameaça, mostrou de vez a sua cara monstruosa, e hoje assusta até quem estava mais preocupado em destruir um partido, sem perceber que se botava ali o ovo da serpente, vindo na forma de um militar medíocre e de inteligência rasa, que passou a vida disseminando o mal e pregando contra os valores democráticos. E que, numa esquina de nossa vida política, eclodiu, atraindo os saudosistas das torturas, do elitismo e do preconceito vil contra minorias e tudo o que seja diferente com seu conceito doente de país.

No dia que antecede o grande dia, até nossa mídia destacou, entre constrangida e falsamente surpresa, a série de ações policiais e de dublês de fiscais eleitorais contra movimentos e ações estudantis de rejeição ao fascismo, invadindo o espaço sagrado de universidades de todo o país. Pelo menos 30 instituições foram alvo de operações da SS bolsonarista – caso emblemático da retirada da faixa “Direito UFF Antifascista da fachada da universidade em Niterói -, já treinando para o holocausto, sob a justificativa de propaganda eleitoral. Até a via de regra omissa procuradora-geral da República, Raquel Dodge, num soluço de bom senso, ajuizou ação por ver indícios claros de “ofensa à liberdade de expressão, de reunião e de cátedra. Reitores de universidades federais declararam repúdio e milhares de estudantes protestaram nas ruas. Da mesma forma, a ministra Cármen Lúcia concedeu neste sábado, 27, decisão para suspender os efeitos judiciais e administrativos que determinaram o ingresso de agentes da Justiça eleitoral e de policiais em universidades públicas e privadas.

Diante do grotesco Bolsonaro, a virada vai tomando a forma de onda que desafia os institutos de pesquisa.  Com 26,7 milhões de inscritos em seu canal no Youtube, que é um dos maiores do mundo, o youtuber Felipe Neto declarou seu voto em Fernando Haddad. Felipe, que não disfarça suas críticas ao PT, percebeu que existe um mal maior. Haddad também ganhou outros apoios de peso, como do jornalista Marcelo Tas, outro forte influenciador digital, e de Joaquim Barbosa, ex-presidente do STF, que chegou a cogitar ser candidato. Esses votos mostram que o antipetismo está perdendo para o medo da ameaça fascista.

Depois da linda campanha das mulheres pelo #EleNão, da comunhão democrática na Lapa, e de movimentos crescentes de rua de apoio a Haddad em capitais de todo o país, encerrar a campanha com a já conhecida resistência estudantil – revivendo a memória de Edson Luís de Lima Souto, secundarista brasileiro assassinado por policiais militares que invadiram o restaurante Calabouço, no centro do Rio de Janeiro, no dia 28 de março de 1968 – não poderia ser mais representativo. Se o cenário pré-ditatorial não está claro pra você, abra os olhos. Suas viseiras podem estar lhe cegando. E vamos para a virada.

Ricardo Miranda
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Good fellas

Os amigos do capitão Bolsonaro não são flores que se cheirem, com a proteção ancestral de Amaral Netto, ou seja, Amoral Nato

Amaral Netto, um precursor. Ele se chama Julio Lopes, também conhecido como“pavão” nos corredores da Odebrecht
Chegou ao nível do risível, no mundo político, a notícia de que Jair Bolsonaro disputaria a Presidência da República. A primeira conversa dele foi com o Francisco Dornelles, vice-governador do Rio de Janeiro. Do alto de seus 83 anos, este mineiro matreiro na vida política tentou dissuadir o capitão-deputado, já com sete mandatos e oito partidos no currículo. Nove agora, ao mudar para o PSL.

Dornelles perdeu. De franqueza quase sempre violenta e ataques histéricos, como comprovam seus discursos, Bolsonaro, Jair para “os bons companheiros”, em versão próxima à adotada no cinema por Martin Scorsese. Talvez acreditasse ser sustentado por aval divino. Não foi acaso ele ter criado um lema para a campanha presidencial: “Brasil acima de todos, Deus acima de tudo”.

Eis um parlamentar sem cochichos. Foi claro na conversa com o vice-governador do Rio. Disse que andava cansado da Câmara e que seria candidato a presidente, mas “procuraria outro partido” porque o dele, Dornelles, andava implicado demais com a Lava Jato.

E assim foi feito. Deixou o Partido Progressista, comandado pelo conhecido senador Ciro Nogueira.

Nogueira é presidente do partido desde 2013. Foi denunciado em setembro de 2017, acusado de integrar o chamado “quadrilhão do PP”. Ele entrou na mira das delações após suspeitas de que recebia repasses de verbas desviadas da Petrobras.

Bolsonaro participou do PP por um ano, entre 2015 e 2016. Em 1994, os votos dele favoreceram, com o sistema da proporcionalidade, o mandato de Amaral Neto. Ambos do Partido Progressista Brasileiro (PPB), hoje PP.

O favorecido erguia a bandeira da pena de morte, quando o crime corria solto pelas ruas do Rio de Janeiro. Ele batia no peito e se dizia um político “de direita”. Mais ou menos como ocorre agora. Seria Amaral Neto, também conhecido como Amoral Nato, ancestral político de Bolsonaro?

O capitão avançou eleitoralmente. Explodiu nas urnas com 464.572 votos em 2014, número suficiente para eleger deputados de outras legendas. Entre eles, Júlio Lopes e Simão Sessin, primo do poderoso bicheiro Anísio Abrão David, fraternais amigos de Bolsonaro. Júlio, por seu lado, foi um dos mais ativos deputados na manobra do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff.

Nebuloso o passado de Lopes. Era chamado de “pavão” nas salas da Odebrech e, em julho passado, foi delatado pelo empresário Leandro Camargo, ex-secretário de Transportes do Rio. Abriu a boca.

O empresário disse que presenciou quando Lopes recebeu “um saco cinza” que continha 100 mil reais. Recebeu muito mais posteriormente. Ele também foi batizado no meio empresarial de “braço de extensão” de Dornelles, o amigo de Bolsonaro.

Maurício Dias
No CartaCapital
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Curva das três pesquisas Vox no 2º turno aponta para vitória de Haddad


Na corrida de apenas três semanas entre o primeiro e o segundo turno, o Instituto Vox Populi fez três pesquisas, duas com a CUT e esta desta véspera da eleição financiada pelos cidadãos e cidadãs reunidos na comunidade 247. A curva das três pesquisas é inequívoca e aponta para uma possível vitória de Haddad neste domingo. 

Vejamos. 

Na primeira pesquisa cujo campo foi realizado em 16 e 17 de outubro (10 dias depois do primeiro turno), Bolsonaro teve 44% dos votos totais e Haddad, 39% -cinco pontos de diferença. Nos válidos, 53% a 47% - seis pontos de diferença.

Uma semana depois (22 e 23 de outubro) os pesquisadores do Vox Populi voltaram às ruas e constataram que o cenário estava exatamente igual: Bolsonaro teve 44% dos votos totais e Haddad, 39% -cinco pontos de diferença. Nos válidos, 53% a 47% - seis pontos de diferença.

Neste sábado (27), o chão se mexeu. Empate cravado. Nos votos totais, 43% a 43%. Nos totais, 50% a 50%.

A curvas são claras. Depois de duas semanas de estabilidade, o cenário é outro. Bolsonaro caindo e Haddad subindo. Isso quer dizer que Bolsonaro começou a cair este sábado? Não. Ele começou a cair antes, está escorregando lentamente, enquanto Haddad sobe suavemente, sem uma ascensão vertiginosa. É uma onda. Não é uma tsunami, mas forte o suficiente para que um surfista de longboard possa fazer bonito. O surfista é Haddad. Não há qualquer motivo para a onda encerrar sua trajetória abruptamente.

Portanto, o empate de hoje aponta para uma vitória -apertada e dramática, mas vitória. 

De onde estão vindo os votos para Haddad? As indicações até o momento são de duas fontes: dos (poucos) eleitores arrependidos da opção por Bolsonaro e, sobretudo, do grupo que vinha indicando voto branco e nulo até agora.

Sim.

Importante, para analisar o que está acontecendo, é importante olhar os votos totais e não os válidos. 

Veja. Bolsonaro tinha 44% das intenções de voto nas duas primeiras semanas. Perdeu um ponto percentual apenas, dentro da margem de erro, está com 43% agora. Haddad tinha 39% nas duas rodadas anteriores da Vox e agora está com 43% -.quatro pontos percentuais a mais, fora da margem de erro, que é de 2,2 pontos percentuais).

Onde houve a mudança, se a migração de Bolsonaro para Haddad foi raquítica (se é que houve, por conta da margem de erro). Está claro: dos que vinham declarando voto nulo ou em branco. Na pesquisa anterior, eram 12% os eleitores que declaravam voto nulo/em branco; agora, são 9% -três pontos percentuais (fora da margem de erro, portanto). Os que não responderam ou afirmaram não saber continuaram a ser os mesmos 5%.

Haddad ganhou quatro pontos percentuais, portanto, conquistando três deles dos eleitores que vinham declarando voto nulo ou em branco e um ponto percentual da base eleitoral de Bolsonaro.  

O que pode ter levado a esta mudança? São hipóteses frágeis apenas, os números estão muito apertados para uma opinião mais assertiva.

1. A mudança no eixo da campanha de Haddad que, na última semana, finalmente, apresentou Bolsonaro ao país e começou a desconstruí-lo.

2. Do discurso de Bolsonaro a seus eleitores na Avenida Paulista no domingo passado, quando afirmou que os opositores de um eventual governo seu seriam presos ou deveriam buscar o exílio, ameaçando diretamente o outro candidato, Haddad, Lula e o senador Lindbergh Farias; no discurso ele ainda disse: “Pretalhada, vai tudo vocês para a ponta da praia". A expressão "ponta da praia" é a forma como os militares conheciam, na ditadura, a base militar da Marinha na Restinga de Marambaia, em Pedra de Guaratiba, no Rio de Janeiro. O local foi um dos mais terríveis centros de interrogatório e tortura do regime militar, um verdadeiro centro de extermínio, onde dezenas de opositores foram assassinados, frequentemente sob tortura. Parte do país assustou-se com Bolsonaro apresentando-se tal como é, confirmando o que a campanha de Haddad apresentou no programa eleitoral.

 3. O esforço das formiguinhas - os milhares de militantes anônimos e anônimas que arregaçaram as mangas e foram às ruas para conseguir votos. As mesmas formiguinhas que conseguiram uma heroica vitória de Dilma contra Aécio em 2014, por 51% a 48%, depois de passar boa parte da campanha do segundo turno atrás nas pesquisas.

4. Há um efeito que talvez não tenha sido mensurado pela pesquisa ou, se o foi, apenas muito parcialmente: a adesão de algumas figuras importantes a Haddad neste sábado, como o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa (aqui), um nome de forte apelo eleitoral e que chegou a ser lançado como pré-candidato, além do yotuber mais popular do país, Felipe Neto (aqui). Há adesões de última hora chovendo de todo lado, que podem influenciar eleitores indecisos.

Uma observação: a pesquisa Vox/247 realizada na véspera do primeiro turno, em 6 de outubro, foi a que mais se aproximou do resultado das urnas (leia aqui).

Isso quer dizer que Haddad já ganhou? NÃO. Mas a virada está em pleno curso. Para se transformar em vitória depende, sobretudo, das formiguinhas e de alguns apoios públicos importantes nas últimas horas.

O que era considerado impossível até dias atrás, está no horizonte de novo.

A democracia pode ser salva.

Mauro Lopes, Jornalista e editor do 247 e do blog Caminho pra casa
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Tudo sobre Bolsonaro - Documentário


Documentário sobre Jair Bolsonaro e seu grupo de apoiadores mais próximos.

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Xadrez da entrada da PGR e do STF na frente democrática


Peça 1 - As regras informais da democracia

Um dos pontos centrais do funcionamento da democracia são os pactos, as regras informais de conduta. São elas que reprimem das atitudes anti-sociais às tentativas de golpe, das agressões individuais às articulações golpistas.

Sobre a democracia norte-americana, dizem os autores

“As duas regras informais decisivas para o funcionamento de uma democracia seriam a tolerância mútua e a reserva institucional. Tolerância mútua é reconhecer que os rivais, caso joguem pelas regras institucionais, têm o mesmo direito de existir, competir pelo poder e governar. A reserva institucional significa evitar as ações que, embora respeitem a letra da lei, violam claramente o seu espírito. Portanto, para além do texto da Constituição, uma democracia necessitaria de líderes que conheçam e respeitem as regras informais”.

Por aqui, acelerou-se o esboroamento desse modelo a partir da reação de Aécio Neves aos resultados das eleições de 2014. Ampliou-se com a leniência do STF aos desmandos da Lava Jato. Em todo esse processo, o trabalho diário da mídia de desqualificação política dos seus opositores. Completou-se com Ministros do STF, guardiões da Constituição, estimulando as medidas de exceção. Caso claro de Luís Roberto Barroso.

A quebra do pacto leva ao passo seguinte, a implantação da selvageria, com um mesmo padrão nos EUA e no Brasil.

No entanto, estamos preocupados. Os políticos norte-americanos agora tratam seus rivais como inimigos, intimidam a imprensa livre e ameaçam rejeitar o resultado de eleições. Eles tentam enfraquecer as salvaguardas institucionais de nossa democracia, incluindo tribunais, serviços de inteligência, escritórios e comissões de ética.

Peça 2 – os grupos políticos à sombra das instituições

Desrespeitada a Constituição, com os próprios Ministros do Supremo dando o mau exemplo de tomar decisões de acordo com sua vontade pessoal, esse voluntarismo cego se esparrama por toda a estrutura da corporação. E, aí, abre-se espaço fácil par a partidarização de poderes de Estado.

É o que ocorre hoje em dia com grupos de juízes e de procuradores, após a infiltração do MBL (Movimento Brasil Livre) nas respectivas corporações. Não coincidentemente, o alvo principal passaram a ser as universidades, vistas como centros de subversão

Houve três movimentos nítidos de ataques às universidades, provavelmente articulados através de redes sociais, já que não houve nenhuma orientação geral da parte dos órgãos superiores.

Primeiro ato – conduções coercitivas nas Universidades,

O primeiro deles foram as ignominiosas invasões de Universidades por tropas da Polícia Federal, em uma parceria de setores da Controladoria Geral da República, Ministério Público Federal, juízes federais e delegados da Polícia Federal. Ali se escancarou a radicalização na ponta, com cada grupo se articulando entre si para atropelar direitos fundamentais.


Segundo ato – ação sincronizada do MPF contra cursos

Ao lançamento dos cursos sobre o Golpe seguiram-se diversas iniciativas de procuradores da República. Como não houve orientação da Procuradoria Geral da República, restava o óbvio, que era uma ação previamente articulada por procuradores com afinidades políticas, visando intimidade o livre pensamento nas Universidades.


Terceiro ato – ação de juízes eleitorais contra Universidades

A ação articulada de juízes eleitorais contra Universidades, a pretexto de coibir propaganda política, revelou uma das espinhas dorsais do ativismo político no Judiciário.

Não houve participação do Ministério Público Eleitoral, e nenhuma orientação geral do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Logo, se tratou de uma ação de grupo, articulada através das redes sociais ou aplicativos de celular.

A ação teve endosso total do presidente do TRE-RJ, desembargador Eduardo Passos. Mas revelou também o ativismo político, entre outros, do juiz Horácio Melo Junior, da Paraíba, Rubens Witzel Filho, de Dourados, Sandro de Araujo Lontra e Maria Aparecida Bastos, do Rio de Janeiro.

Algumas semanas antes, o juiz de Petrópolis Ronald Pietri, ordenou busca e apreensão em um diretório estudantil que organizaria o 34º Encontro Regional de Estudantes de Direito.

Em todos esses casos, juízes e procuradores partiram de uma interpretação pessoal do conceito de propaganda política, passando ao largo de princípios fundamentais de direito, como a liberdade de expressão, ainda mais em ambientes universitários.

Segundo o colégio de Presidentes de Tribunais Eleitorais, não foi uma ação orquestrada. Apenas, de forma orquestrada, os juízes atuaram em resposta a denúncias orquestradas, provavelmente de integrantes do MBL. E não ocorreu a nenhum deles entender o caráter inviolável das universidades, como centro de liberdade de expressão.


Peça 3 – a reação das instituições

Ontem, finalmente, caiu a ficha das principais instituições, STF (Supremo Tribunal Federal) e PGR (Procuradoria Geral da República) e do próprio TSE sobre os riscos nessas manifestações generalizadas de indisciplina e autoritarismo.

Após uma nota corajosa da PFDC (Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão) a PGR Raquel Dodge ingressou no STF com uma ADPF (Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental), defendendo a livre manifestação de pensamento nos campi universitários, e definindo claramente a diferença entre propaganda política e livre debate de ideias.

Do lado do STF, pipocaram manifestação de repúdio aos abusos contra universidades. E o corregedor geral do TSE, Ministro Jorge Mussi, solicitou informações urgentes ao grupo de juízes que articulou a ação.

Todas essas medidas decorrem da contagem regressiva para as eleições. Tardiamente, as instituições se deram conta do caos que criaram, da indisciplina que passou a grassar em suas corporações, pela falta de posturas mais afirmativas das cúpulas.

Antes tarde do que nunca.

Que a PGR Raquel Dodge e os Ministros do Supremo sejam benvindos a essa operação urgente para salvar a democracia brasileira. Mas, dependendo dos resultados das eleições, não haverá mais forma de resistência institucional.

Luís Nassif
No GGN
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Vox Populi: Haddad empata, tem 50% e disputa será voto a voto


Pesquisa Vox 247 realizada neste sábado 27 aponta empate entre Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL), apontando para uma virada real neste domingo 28, data da votação do segundo turno.

Nos votos totais, as intenções de voto são de exatamente a 43% a 43%. Ninguém/Brancos/Nulos são 9% e "não sabe" ou "não respondeu", 5%.

Nos votos válidos, os percentuais são de exatamente 50% a 50%.

Os votos espontâneos para presidente, quando os eleitores citam o nome do candidato espontaneamente, são de 51% a 49% para Bolsonaro.

Esta pesquisa foi registrada junto à Justiça Eleitoral no dia 21 de outubro, sob o número BR-09614/2018. Foram entrevistados 2.000 eleitores de 16 anos ou mais, em 121 municípios. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais, estimada em um intervalo de confiança de 95%.


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O Império Bolsonaro no vale da miséria


A família de Bolsonaro, que diz “não vai ter um centímetro demarcado para área indígena ou quilombola”, invadiu terras da União, lote de terra devoluta urbana e possui patrimônio-monstro numa das regiões mais pobres do país, o Vale do Ribeira

O cunhado não gostou quando uma parte de sua fazenda, fruto de invasão de terras, virou quilombo. Capangas destruíram a nova plantação de bananas assim que o processo de reconhecimento da área foi finalizado, em setembro passado. Por sua vez, em 2015, uma das irmãs se apossou do lote urbano de mais de 800m2 que foi regularizado por um programa voltado a pequenos posseiros. Seis meses depois, ela vendeu o lote para o prefeito do município. Já o núcleo familiar da caçula dos cinco irmãos de Jair Bolsonaroalugou 3 imóveis, sem licitação e na faixa dos R$ 8 mil por mês, para prefeituras do Vale do Ribeira, uma das áreas mais pobres do Estado mais rico do Brasil.

É nessa região que Jair Bolsonaro morou até os 18 anos de idade, quando saiu para o serviço militar. Filho de um dentista prático e de uma dona de casa, viveu na pacata cidade de Eldorado Paulista. O município hoje tem pouco mais de 15 mil habitantes, 40% deles ganhando menos de dois salários mínimos. Não por acaso, o município sofre com o segundo pior índice de mortalidade infantil do Estado.

Mas Eldorado Paulistatambém é o quarto maior município em extensão territorial de São Paulo. No começo do século passado, foi apelidado de “Amazônia Paulista” e, em 1993, reconhecido pela Unesco como “Reserva da Biosfera do Patrimônio Mundial”. Cerca de 70% do território é coberto por Mata Atlântica protegida por reservas e parques, estações ecológicas e áreas de proteção ambiental naturais tombadas, além de 26 quilombos e cerca de 50 comunidades remanescentes de quilombos. Mas Bolsonaro diz que não quer saber de nada disso. É obcecado por minérios como nióbio (usado em siderurgia) e tório, um elemento químico radiativo.

Natural de Campinas, foi em Eldorado que Bolsonaro se criou. E é aquela região que explica algumas das obsessões do ex-capitão, a começar pela idolatria à caserna. Bolsonaro adora dizer que sua “vocação” militar foi despertada no começo dos anos 1970, quando a região do Vale do Ribeira viu-se ocupada por 2.500 homens do Exército, auxiliados por um contingente não determinado de policiais cedidos pelo governo de São Paulo, que caçavam míseros 17 militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), sob o comando do guerrilheiro Carlos Lamarca, este sim, um mito. Pois não é que os soldados, depois de bloquear a BR-116, a Rodovia Régis Bittencourt, além de estradas vicinais, depois de prender 120 pessoas e varrer a Mata Atlântica com helicópteros, depois – por fim – de bombardear áreas civis suspeitas de abrigarem os guerrilheiros com bombas de napalm jogadas de cargueiro B-26 da FAB; depois disso tudo, Lamarca conseguiu furar o bloqueio do Exército e fugir.

Nada menos do que 41 dias de fome e cerco depois, e Lamarca conseguiu escapar da maior mobilização da história do II Exército, atual Comado Militar do Leste. O baile que o guerrilheiro deu no Exército marcou indelevelmente o psiquismo do menino Jair Bolsonaro, que até hoje promete vingar-se da esquerda.

Exército fecha rodovia, em Eldorado, na busca do capitão Lamarca Exército fecha rodovia, em Eldorado, na busca do capitão Lamarca Exercito brasileiro joga bombas de Napal na região do Vale do Ribeira. 1970

A família do candidato à presidência – que chama ocupantes de terras e fazendas improdutivas de “terroristas” e pretende não “dar nenhum centímetro” de terra para reservas indígenas e quilombolas – está espalhada por todo o Vale do Ribeira. Lá, os Bolsonaros construíram um império. Em municípios como Barra do Turvo (o mais pobre do Estado), JacupirangaPariquera-AçuMiracatu e outros que compõem a área de baixíssimos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), o clã dos Bolsonaro contabiliza mais de 60 imóveis. Agregam-se ao sobrenome presidenciável os dos cunhados José Orestes Fonseca Campos e Theodoro da Silva Konesuk, considerados os mentores financeiros da família. Mas não só de casas, fazendas e terrenos vive a próspera família. Além das propriedades, eles são donos de empresas. Muitas.

Um levantamento na Junta Comercial de São Paulo aponta, pelo menos, 19 foram registradas em oito municípios. Se forem contabilizadas as filiais das lojas “Campos Mais” (Magazine Campos Mais, Campos Móveis e Campos Materiais de Construção), e da “Art’s Móveis”, de móveis e produtos eletrônicos, em 13 cidades, são cerca de 30 empreendimentos, de acordo com uma reportagem da revista Época de setembro passado.

Loja “Art’s Móveis” Loja “Campos Mais”

A crise econômica parece que não abalou a família: 14 lojas foram abertas nos últimos oito anos. À boca miúda, diz-se que o shopping em construção em Eldorado também é do grupo, assim como um empreendimento em hotelaria no centro de Cajati, no litoral Sul.

Um dos negócios mais peculiares da família em Eldorado é a casa lotérica “Trilha da Sorte”, registrada como “Casa Lotérica Bolsonaro ME Ltda”. O empreendimento está no nome do irmão do candidato, Angelo Guido Bonturi Bolsonaro, e desperta a curiosidade. Uma rápida busca no Google, afinal, explica como loterias fazem lavagem de dinheiro sujo: basta o criminoso pagar mais do que o prêmio em troca de um bilhete sorteado.

Na cidade, também fica a loja de sapatos da mãe, dona Olinda Bonturi Bolsonaro, de 92 anos. Ela mora no mesmo prédio do comércio. Todo esse patrimônio, no entanto, não inclui aquele formado pelo próprio núcleo familiar do candidato à presidência e seus três filhos políticos.

Uma série de reportagens publicada no começo do ano pelo jornal Folha de S. Paulo apontou que os quatro acumulariam mais de R$ 15 milhões em 13 imóveis. Entre eles, os de Brasília – apesar de o candidato à presidência e seu filho Eduardo, que é deputado federal, receberem R$ 6,1 mil por mês de auxílio-moradia pela Câmara dos Deputados, benefício a que teriam direito apenas os parlamentares sem casa em Brasília.

A conta feita pra estimar o patrimônio, porém, não contabiliza bens como carros que vão de R$ 45 mil a R$ 105 mil, um jet-ski, além de aplicações financeiras, em um total de R$ 1,7 milhão, como consta na Justiça Eleitoral e em cartórios. As dúvidas sobre transações suspeitas de lavagem de dinheiro e de enriquecimento após começar a atuar na política não foram esclarecidas pelo Bolsonaro-pai nem pelos Bolsonaros-filhos.

Toda a família e seus tentáculos, por sinal, estão proibidos por Jair Bolsonaro de dar entrevistas. Apesar disso, os Jornalistas Livres foram atrás dos personagens, empreendimentos e atividades do clã no Vale do Ribeira. A partir de documentos, relatos, dados fornecidos por cartórios de registros de imóveis, pela Junta Comercial de São Paulo e no Tribunal de Justiça de São Paulo, traçamos, ao menos em parte, pistas do império dos Bolsonaros.

Mapa dos territórios quilombolas. Relatorio do ISA, Instituto Socioambiental Quilombo no Vale do Ribeira

O cunhado fazendeiro que não gosta de quilombos


Theodoro da Silva Konesuk é casado com Vânia Rubian Bolsonaro, a caçula dos irmãos do candidato à presidência pelo PSL. Há pouco mais de um mês, Konesuk perdeu uma área de 55 hectares de uma de suas fazendas para a Associação dos Remanescentes de Quilombos da Barra de São Pedro do bairro Galvão, em Iporanga. A propriedade, em áreas devolutas que pertencem à União e ao Município, foi ocupada por seu pai, que foi prefeito da cidade de Eldorado por dois mandatos, entre os anos 60 e 80. Os quilombolas aguardavam a regularização da terra desde 2013, quando a Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) e o governo paulista entraram como o processo de reintegração de posse. Theodoro Konesuk não se manifestou. Mas parece que não gostou da sentença.

Dias depois de os quilombolas receberem o direito à terra, lideranças do quilombo contam que os capangas do cunhado de Jair Bolsonaro destruíram o cercado e as recém-plantadas mudas de bananeiras das 32 famílias da comunidade, segundo reportagem do site www.deolhonosruralistas.com.br.

O relatório técnico do Itesp realizado em 2000, época de análise dos territórios do bairro Galvão, chamou atenção para os altos níveis de violência na região e até um assassinato ocorrido em conflitos de grilagem das terras. Ao defender a demarcação das terras quilombolas, o documento feito pela antropóloga Maria Celina Pereira de Carvalho afirma que “o sistema agrícola dessas comunidades permanece o mesmo que era praticado pelos antepassados há duzentos, trezentos anos, apoiado em um saber-fazer que exige profundos conhecimentos da natureza e seus ritmos”.


Aponta ainda que há décadas os descendentes de homens e mulheres negros escravizados lutam contra a construção de uma barragem, ao longo do rio Ribeira de Iguape, que forneceria energia elétrica para uma empresa do grupo Votorantim, e também contra mais três barragens que seriam construídas pela Companhia Energética de São Paulo que, segundo dados do Instituto Socioambiental, inundariam cerca de 60% do território de inúmeras comunidades negras da região.

Além da propriedade em Iporanga, constam em nome de Konesuk, nos serviços registrais de imóveis, ocorrências nas cidades de Apiaí, Cananéia, Eldorado, Iguape, Itanhaém, Jacupiranga, Miracatu, Peruíbe, Registro e Sorocaba. Em sua fazenda em Registro, há negócios de extração de areia e gado de corte em sociedade com o empresário Maurici Ribeiro Botelho Junior, dono de uma empresa de terraplenagem e de uma transportadora que tem em seu registro de atividades o comércio atacadista de ferramentas, cigarros, cigarrilhas e charutos, artigos de viagem, tecidos, lustres, couros, lãs e peles, jóias, relógios e bijuterias, inclusive pedras preciosas e semipreciosas lapidadas.

A irmã Vânia e os aluguéis para prefeituras: sem licitação


Ela é casada com o empresário que perdeu parte de suas terras para quilombolas, Theodoro da Silva Konesuk, e começou seus negócios na venda de artigos para pesca e camping, há 23 anos. Mudou de ramo em 2011 e hoje o casal tem 11 lojas Art’s Móveis. As seis no nome de Vânia Bolsonaro estão registradas como de pequeno porte e as do marido como Eireli, que separa o patrimônio empresarial do pessoal.


Os portais de transparência dos municípios da região apontam que Vânia e Theodoro Konesuk já alugaram imóveis para as prefeituras de Cajati, Iguape e Jacupiranga. Todos sem licitação. Entre eles, locação firmada em 2014 do imóvel que hospeda a Delegacia Civil em Cajati. Em Iguape, o nome de Vânia consta como locadora do imóvel destinado à administração do Paço Municipal. Em um ano de aluguel, a partir de março de 2015, a irmã do presidenciável embolsou R$ 90 mil. A locação foi estendida por mais um ano, a R$ 8.325 mensais, totalizando outros R$ 99.906 até março de 2017. Em Jacupiranga, desde 2010, o imóvel onde funciona a Câmara Municipal é do marido, Theodoro Konesuk. Atualmente, ele cobra R$ 8.000 mensais pelo espaço.

Vista aérea de uma das pequenas cidades do Vale do Ribeira, divulgação prefeitura de Eldorado O lugar é uma estância turística



Maria Denise: a empresária-posseira e fazendeira


Na cidade de Barra do Turvo, a mais pobre do Vale do Ribeira, houve regularização de fundiária urbana realizada pela Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) em 2015. Maria Denise Bonturi Bolsonaro, irmã do candidato à presidência que já declarou a intenção de criminalizar movimentos sem-terra, foi beneficiada pelo programa “Minha Terra”. Ela recebeu a concessão de um lote de 869,28 m2 na cidade. A propriedade do terreno era do município.


De acordo com o site do Itesp, o programa “Minha Terra” consiste em um projeto social do Governo do Estado de São Paulo “voltado a pequenos posseiros da cidade ou do campo que, devido à insegurança dominial sobre os imóveis que ocupam, convivem com conflitos pelo uso e posse da terra e com sérios obstáculos para o desenvolvimento social e econômico das comunidades.” Seis meses depois de receber o lote, entretanto, Maria Denise Bonturi Bolsonaro o vendeu para o atual prefeito da cidade, o médico Jefferson Luiz Martins, eleito pelo PSDB em 2014.

Constam, nos registros da Associação dos Registradores Imobiliários de São Paulo, 12 (doze!!!) menções a imóveis no CPF de Maria Denise nas cidades de Eldorado, Jacupiranga, Itanhaém e Miracatu. Vale citar só alguns:
  • Uma casa residencial de 762,50m² no perímetro urbano da cidade de Jacupiranga
  • Uma área de terra urbana de 941,96m² no perímetro de Jacupiranga
  • Uma área de terra urbana com 190,48m², na cidade de Pariquera-Açu
  • Um lote de terreno urbano na cidade de Barra do Turvo


Separada há 5 anos, ela foi casada por 30 anos com José Orestes Fonseca Campos, dono da rede de materiais de construção “Campos Mais”, que inclui 14 filiais da Magazine “Campos Mais” (saiba mais no perfil abaixo). Seus filhos também são empresários. Osvaldo está no mesmo ramo da família. Já a empresa de Orestes oferece peças de vestuário, calçados, suprimentos de informática e suporte técnico em tecnologia da informação. Os Bolsonaro Campos também são donos de duas fazendas, uma de gado e outra de banana.

O ex-cunhado José Orestes e o impressionante crescimento em tempos de crise


joseorestescampos.png2015 foi um ano excelente para o ex-cunhado de Jair Bolsonaro José Orestes Fonseca Campos, que foi casado com Maria Denise Bolsonaro Campos, quando ele inaugurou mais três filiais da Magazine “Campos Mais”. O crescimento do negócio de materiais de construção de fato impressiona. Em cinco anos, entre 2005 e 2010, foram abertas oito lojas espalhadas por todo o Vale do Ribeira e litoral Sul. O último empreendimento, no ano passado, foi em Jacupiranga. Mas, para ampliar ainda mais os negócios, José Orestes montou outra empresa. Agora é dono da incorporadora, construtora e administradora de bens imobiliários “Campos Mais”. Além da gestão de imóveis, as atividades da empresa incluem construção de edifícios e hotéis. Na cidade onde mora, Cajati, está construindo um hotel e espaço de eventos.

Diante de todas essas informações, fica evidente que os ataques do candidato Jair Bolsonaro às comunidades quilombolas e a movimentos, como o MST e o MTST, são hipócritas e criminosos. Os sem-terra e os sem-teto são humildes e pobres que ocupam propriedades improdutivas, enquanto os parentes de Jair Bolsonaro, riquíssimos, invadem terrenos públicos para transformá-los em objeto de especulação imobiliária e cobiça. Eles querem auxílio-moradia, mas só para eles!

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'Policial não vê a hora de descer a mão em maconheiro da USP e viado'

Investigador da Polícia Civil há 23 anos, Campos fala sobre o apoio de policiais a Bolsonaro. 'Dentro da instituição, essa veia fascista é a dominante'

No Rio de Janeiro, grupo Policiais Antifascistas compareceu a atos da campanha #EleNão
Sufocados. É esse o sentimento entre os policiais desde 1988, quando a Constituição Federal surgiu e limitou a liberdade de ação da polícia. “Como perderam o poder de fazer o que bem quisessem, sem punição, como acontecia na ditadura, o policial entende que, há 30 anos, vive sufocado por uma ideologia comunista”, conta Alexandre Felix Campos, investigador da Polícia Civil de São Paulo. Mas há esperança para aqueles que defendem a violência: a eleição de Jair Bolsonaro pode trazer os velhos tempos de volta. “Eles acham que com a vitória do Bolsonaro tudo vai voltar a ser como antes – e eles vão se vingar do tempo que passou sufocado”.

Há 23 anos na Polícia Civil, Campos enxerga a cultura da violência e preconceito colada na farda de cada policial. “Culturalmente, a nossa polícia é formada com o viés do jagunço, aquele cara que é formado para ser um cão de guarda de uma elite”, diz. Nem todos pensam assim. Mil policiais fazem parte do grupo “Policiais Antifascismo”, que é apoiado por outros 10 mil membros da Polícia Civil e alguns poucos da PM.

Com pautas progressistas, o grupo defende a desmilitarização da polícia, legalização das drogas e unificação estruturada das polícias civil e militar. O grupo publicou uma nota de repúdio ao candidato do PSL. “Os muitos crimes de ódio realizados por apoiadores do candidato do PSL não podem ser tratados como casos isolados, mas como frutos do discurso irresponsável e violento do próprio presidenciável. Os danos à segurança e à ordem pública já são muitos e ainda serão sentidos por muito tempo, mesmo após as eleições”, declararam.

Pelo clima dentro das delegacias e batalhões, Campos prevê uma guinada ainda maior da violência nos próximos dias – logo após o fim do segundo turno -, em manifestações e nas ruas, dentro e fora das instituições.

Veja abaixo a entrevista completa.

CartaCapital: Como está o clima dentro da polícia com a possibilidade de vitória de Bolsonaro?


Alexandre Felix Campos: Dentro das polícias existe uma cultura enraizada muito forte de preconceitos gerais. O policial acredita que o bandido é aquele menino preto que mora na periferia, com aquele corte de cabelo tal, que para ele é o estereótipo do bandido.

Nos últimos 30 anos, desde a Constituição de 1988, a polícia foi obrigada a parar de agir como agia na ditadura. A polícia podia pegar qualquer pessoa a qualquer momento e levar para a delegacia ou para o Batalhão. E ali torturavam, humilhavam, sem qualquer consequência. Com a Constituição, a polícia precisou se tornar mais humanista – ainda que não tenha chegado nem perto do ideal.

Como perdeu o poder de fazer o que bem quisesse, o policial entende que, há 30 anos, vive sufocado por uma ideologia comunista. Acredita que desde 1988 vivemos sob o domínio comunista de esquerda. E ele materializa isso nos movimentos que se lançam às ruas e que, de certa forma, chocam. Ele entende assim: é chamado para uma manifestação onde está o cara da USP, gritando, xingando, fumando maconha. E ele não pode nem dar um tapa no cara. Ele entende que com a vitória do Bolsonaro tudo vai voltar a ser como antes – vai poder se vingar do tempo que passou sufocado. Hoje, o que mais escuto no meu dia a dia: Bolsonaro vai ganhar e vai acabar isso.

Em quais situações?

Vou dar um exemplo. Ontem eu estava no plantão policial na Zona Leste de São Paulo e chegou um casal de gays, com maquiagem no rosto. Foram lá porque sofreram golpe de um banco, pegaram o cartão de um deles e praticaram fraudes. Foram só fazer boletim de ocorrência. Eles chegaram, se apresentaram e a primeira coisa que o colega policial disse foi: “quando o ‘mito’ ganhar essa putaria vai acabar”.

Não há nenhum tipo de justificativa plausível para esse ódio. Até porque os garotos foram extremamente educados, em momento algum fizeram qualquer tipo de agressões a nós. Quando buscam a polícia, as pessoas buscam o Estado. E com atitudes como essa a gente só reforça a ausência do Estado.

Não escuto os policiais dizerem “poxa, agora vamos poder buscar o traficante x”, “vamos combater o narcotráfico”, “vamos combater os grandes ladrões de bancos”, ”os grandes estelionatários”. Não, o policial só fala que não vê a hora de poder descer a mão no maconheiro da USP e no viado. É isso que, infelizmente, acontece.

Vivemos um momento que, para mim, tem sido extremamente complicado, porque todo dia escuto alguma coisa do tipo “quando Bolsonaro ganhar a gente vai descer a borracha nesses viados” ou “agora quero ver maconheiro da USP folgar com a gente”.

Tudo isso está enraizado. Veja, por exemplo, a morte da Priscila no Largo do Arouche. Algumas pessoas que estavam lá viram os caras que bateram nela. Como estou na militância, me ligaram para avisar que haviam visto os agressores, que estavam sempre por ali. Fui até a delegacia e tentei conversar com o delegado para ouvir essas pessoas. O delegado simplesmente se recusou a ouvir essas pessoas. E ainda me ameaçou, de forma velada, que se eu continuasse ali eu seria preso por advocacia administrativa (quando um funcionário público usa seu cargo para patrocinar, direta ou indiretamente, interesses privados perante a administração pública).

Se Bolsonaro vencer as eleições, você acredita que comportamentos assim se tornarão o padrão?


Não tenho a menor dúvida. E vou além: mesmo se o Haddad for eleito, a reação do fascismo que já está na nossa sociedade será bastante violenta. E, infelizmente, as polícias, que existem só para garantir direitos, não cumprem esse papel.

As pessoas já estão espancando gays, lésbicas, trans nas ruas e gritando que o fazem em nome de um candidato à Presidente da República. E os policiais batem palmas, do tipo “ah legal, agora vocês vão se foder mesmo”. Então, infelizmente, esse é o clima que vejo. E deve haver um endurecimento nos próximos dias. Não é algo nem para o próximo ano.

Como assim? Você acha que a polícia pode começar a ser mais violenta em manifestações logo depois do fim das eleições?

Eu acredito que sim. Inclusive tenho conversado com todos os movimentos, grupos com os quais tenho contato, para se preparem para isso. Estive com dois grupos de advogados que quiseram acompanhar casos como esses da Priscila. A gente precisa estar preparado e, infelizmente, o prognóstico não é nada bom.

E quais as orientações? Como se preparar?

Acredito que primeiro precisamos conversar com as pessoas, diminuir ruídos de comunicação. Grupos de WhatsApp têm vários problemas: as informações chegam desencontradas, por exemplo. Até pode ser pelo WhatsApp, mas algumas informações devem ser feitas só de ponto a ponto, não em grupos.

Ainda que seja numa lista de transmissão. Se for em grupos, a comunicação se perde. E ainda corre o risco de ter pessoas infiltradas. Nem falo de pessoas da inteligência, nem nada, é só um bobão que entra lá para atrapalhar a comunicação mesmo.
Precisamos criar espaços de proteção a quem corre risco. Aqui em São Paulo, a gente conseguiu o Al Janiah (bar e restaurante no bairro da Bela Vista), que já cedeu o espaço para acolher vítimas de agressão. Precisamos de mais lugares assim para comunicar o que está acontecendo.

Esses espaços não podem virar alvos também?

Acho que não. Uma característica típica da ação fascista, da ação violenta, é a covardia. Então, eles atacam apenas quando estão 100% seguros de que têm uma supremacia de força. Esses locais, como o Al Janiah, acabam se tornando locais de resistência, não se fragilizam porque o fascista não vai entrar lá sem saber quantas pessoas têm. Também falei no sábado passado [quando aconteceram manifestações pró-Haddad] para as pessoas andarem em grupos e evitarem bandeiras e camisetas fora do ato, no percurso até o local.

Esses cuidados todos já indicam que estamos com um pé na ditadura?
 

Sim... Quando você perde a liberdade, quando tem medo de sair à rua vestindo tal roupa, quando tem medo de expressar a sua preferência política, quando fica com medo de falar sobre a sua orientação sexual... ou até de andar perto do outro por “darem pinta de gays”. Quando vive numa tensão dessas, você já perdeu a sua liberdade, já estamos numa ditadura.

Ficou surpreso com essa onda fascista?


Para ser sincero, não. Sou policial há 23 anos, é com esse lado das pessoas que eu lido todos os dias. Dentro da instituição, essa veia fascista é a dominante.

Carol Castro
No CartaCapital
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Isto não é um editorial contra Bolsonaro


Durante a cobertura das eleições, muitos de vocês nos perguntaram se o Intercept faria um editorial sobre Bolsonaro. Nós não fizemos, e nem faremos.

Mas antes deixa eu ser muito breve pra agradecer a todos os que contribuíram com nosso crowdfunding. Nós fizemos muitas coisas graças a vocês. Está tudo aqui, e isso só existe porque vocês acreditaram. Obrigado, obrigado, obrigado!

Antes de produzir esse material, nós conversamos sobre fazer ou não um editorial falando de Jair Bolsonaro. Sua campanha não seria como as outras e nem mesmo se parecia com as anteriores. Tancredo, Collor, Fernando Henrique, Lula, Serra, Alckmin, Aécio, Dilma – nenhum deles vocalizou tantas agressões aos acordos de convivência quanto Bolsonaro. Frequentemente, seu discurso se valia de falsos dilemas, como as frases que ficaram famosas atribuídas a ele: “Prefiro ser revistado em cada esquina do que ser assaltado em cada quarteirão” ou “Prefiro o militar pedindo meu documento do que o bandido levando minha carteira”. Como se a escolha fosse somente entre uma coisa e outra.

A fórmula se repete no discurso até hoje, seguem o nacionalismo emo de auto-ajuda de “Prefiro a incerteza da mudança do que a certeza da mesmice” às críticas ao PT em “Prefiro o braço forte dos honestos do que as mãos frouxas dos corruptos” até o escracho escarrado de “Prefiro votar no BOLSONARO e cair do cavalo do que votar no PT e me roubarem o cavalo!!!!". É Bolsonaro puro.

Mas editorial soou antigo e patronal. Nós não gostamos de dizer aos demais o que eles devem fazer.

Então nós analisamos seu plano econômico que só faz sentido para o mercado financeiro. Mostramos como sua candidatura agiu ativamente para censurar a liberdade de imprensa que ele diz defender enquanto fabricava boatos e tentava chupar dados de celulares para sua máquina de propaganda no WhatsApp permeada de notícias tão falsas quanto sua insistência na fraude das urnas encenada por um personagem da Sessão da Tarde.

Antes ainda da campanha nós provamos que o partido de seu vice, Mourão, financiou a maior rede de fake news do Brasil, derrubada pelo Facebook somente na semana passada. Duas semanas atrás, depois de ouvir jornalistas de grandes redações, nós desbancamos a tese do candidato que se vende como “anti-establishment” enquanto tem apoio descarado da imprensa, entre todos a segunda maior rede de TV do país.

Deixamos claro que aquele Bolsonaro “contra tudo e contra todos” é, na verdade, apoiado por mega empresários e seus votos de cabresto. Que o moralista que se orgulha de não usar a máquina pública em favor próprio tentou usar o Itamaraty para fazer elogios a Pinochet, à época um ex-ditador já sabidamente acusado de tráfico de cocaína.

Em vez de fazer um editorial, nós também investigamos o entorno de Bolsonaro.

Publicamos documentos que provam que um dos líderes de seu possível governo está bem enrolado na justiça; que seu vice dos sonhos é também o cliente dos sonhos de dois postos de gasolina onde ele torrou meio milhão em dinheiro público. Mostramos, em resumo, que Bolsonaro está cercado de uma trupe imprevisível que agora vai tentar passar projetos retrógrados na Câmara Federal, seguindo um chefe que defende uma política de segurança já testada e ineficaz, e que continua repetindo a falácia de que na ditadura tudo era melhor.

Bolsonaro quer o Brasil de 50 anos atrás de volta e nós achamos essa ideia uma desgraça. Isto não é um editorial contra Bolsonaro. É uma campanha de esclarecimento. Ninguém que acompanhou o Intercept durante as eleições pode dizer que foi enganado. Bolsonaro está nas nossas páginas frase por frase.

Leandro Demori
Editor Executivo
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Havan é campeã de assédio eleitoral

E de assédio moral...



Denúncias de "assédio eleitoral" no ambiente de trabalho já são 216

O Ministério Público do Trabalho (MPT) acolheu, até o momento, 216 denúncias de casos de funcionários que alegam ter sido coagidos pelos patrões a votar em determinados candidatos que disputam cargos eletivos no pleito deste ano. Santa Catarina é o estado que concentra o maior número de casos, conforme balanço fechado no final desta tarde e encaminhado à Agência Brasil.

Acusadas, 25 empresas catarinenses responderam ou ainda responderão à Justiça, se for comprovada a prática. Sozinhas, essas empresas somam 101 denúncias desse tipo de assédio.

Sediada no estado, a rede de lojas de departamento Havan foi proibida pelo MPT, no início deste mês, de direcionar as escolhas políticas de seus empregados. No processo, a Justiça estabeleceu multa de R$ 500 mil em caso de repetição do comportamento, que configura assédio moral.

Em segundo lugar na relação do MPT, aparece o Rio Grande do Sul, com 32 ocorrências atribuídas a 20 empresas, e, em terceiro, o Paraná, com 25 queixas contra um grupo de oito companhias.

Um dos empresários do Paraná que entraram na lista foi Pedro Joanir Zonta, presidente do Grupo Condor, detentor da rede de supermercados de mesmo nome. Segundo o MPT, Zonta endereçou aos empregdos do grupo carta pedindo voto para o candidato do PSL à Presidência da República, Jair Bolsonaro.

Em São Paulo, foram feitas 16 denúncias. O Distrito Federal e o estado do Tocantins, que têm as denúncias apuradas em uma mesma regional (MPT-DF/TO), somam 11 casos.

O levantamento anterior do MPT, divulgado no último dia 17, mostrava um total de 199 denúncias, vinculadas a 83 empresas. Em nove dias, portanto, mais 17 novas queixas foram comunicadas. O MPT ressalta que, além de alguns dos empreendimentos terem sido citados em mais de um episódio, há procuradorias regionais que não atualizaram seus dados de lá para cá, o que significa que os números apresentados hoje podem estar abaixo do total.

Segundo Bernardo Mata Schuch, procurador do MPT, a fragmentação da sociedade constituída a partir de sua orientação partidária, ou em favor de certo candidato, intensificou-se, contribuindo para a alta incidência de assédio exercido nesse contexto. Ele lembra que votar livremente, sem imposição ou indução de qualquer pessoa, é um direito garantido pela Constituição Federal e que muitos funcionários se sentem inseguros para formalizar uma denúncia junto aos órgãos competentes por medo de serem demitidos.

“[O receio dos empregados] tem relação com a realidade socioeconômica, sim”, afirma Schuch, titular da Coordenadoria Nacional de Promoção de Igualdade de Oportunidades e Eliminação da Discriminação no Trabalho (Coordigualdade) no Rio Grande do Sul. “Às vezes, as pessoas estão apegadas àquilo que têm e perdem noção de sua condição de cidadania. O trabalhador está tão pressionado na situação econômica que acaba se colocando nessa situação em que, em tempos anteriores, não se colocaria, e empresários acham que até isso podem fazer”, ressalta Schuch.

O procurador assegura que, mesmo que as denúncias sejam registradas após o término das eleições, será aberto um processo, que pode obrigar a empresa a reparar danos causados ao funcionário. “Não vamos abrir mão [de investigar e coibir]. A denúncia, mesmo chegando depois, pode redundar em uma ação indenizatória.”

Direitos civis básicos

No início deste mês outubro, o Ministério Público do Trabalho publicou nota em que considera esse tipo de assédio incompatível com os valores do Estado Democrático de Direito e reitera que nada deve representar uma afronta à liberdade do pensamento, de expressão, de filiação partidária, de crença ou convicção política ou filosófica.

“É fato que a Constituição Federal, em seu Artigo 5º, alberga tanto a liberdade de expressão quanto a liberdade de orientação política. No entanto, qualquer prática tendente a impor o apoio a um candidato ou agremiação configura evidente afronta ao livre exercício da cidadania e da dignidade da pessoa humana”, diz a nota do MPT.

“Tal conduta, no ambiente de trabalho, é ainda mais perniciosa, tendo em vista o estado de subordinação existente na relação ‘empregado/empregador’. O poder empregatício não autoriza que o empregador interfira em questões relacionadas à intimidade, à crença religiosa e à convicção filosófica ou política de seus empregados, especialmente quando essa conduta é acompanhada da insinuação, ou mesmo do temor de rompimento do vínculo empregatício, inerente à própria condição de subordinação do trabalhador aos comandos empresariais. Esse é o marco que divisa o legítimo direito à manifestação do pensamento e o abuso desse direito”, acrescenta a nota do MPT.

As denúncias sobre esse tipo de pressão no ambiente de trabalho podem ser feitas em um formulário online disponibilizado pelo MPT à população, ou, pessoalmente, em uma de suas 24 unidades.

No CAf
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Dono da Havan cresceu sob governos petistas e acumula processos

Ele
No final de 2016 o empresário Luciano Hang, dono das lojas de departamento Havan, investiu no combate a uma falsa notícia que atingia a reputação de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Corria o boato de que os ex-presidentes seriam sócios ocultos da rede varejista, que cresceu a todo vapor nos governos petistas. “A Havan é minha, é sua, é da família, é do Brasil”, dizia Hang em um vídeo institucional.

O comercial tornou o empresário conhecido do público catarinense e livrou os petistas da suspeita de que estariam escondendo uma fortuna em negócios de fachada.

Uma ironia, já que dali em diante Hang se tornaria célebre por usar as redes sociais para atacar o PT e a esquerda.

Em 2018, Hang apoiou Jair Bolsonaro à Presidência. Gravou vídeos fantasiado e interagiu com bonecos de Lula e Fernando Haddad. Nada disso foi alvo de contestações, mas outras ações renderam problemas judiciais.

Luciano Hang, presidente da Havan, que grava vídeos fantasiado
Luciano Hang, presidente da Havan, que grava vídeos fantasiado
Hang foi multado em R$ 10 mil pelo TSE por ter pago o Facebook para impulsionar publicações que promoviam a campanha de Bolsonaro.

Na Justiça do Trabalho, o empresário foi advertido e ameaçado com uma multa de R$ 500 mil caso pressionasse funcionários a votar em Bolsonaro. Ele havia gravado vídeo em que avisa aos funcionários que pode deixar de criar empregos caso seu candidato não vença a eleição.

Na quinta-feira (18) reportagem da Folha informou que a Havan está entre as empresas que impulsionaram disparos contra o PT no WhatsApp. Hang negou as acusações.

Os problemas do empresário com a Justiça não são uma novidade. Hang foi alvo de pelo menos duas condenações criminais por evasão de divisas e sonegação fiscal.

No processo por evasão de divisas, foi acusado pelo Ministério Público Federal de Santa Catarina de usar contas de laranjas para remeter R$ 500 mil para o exterior sem recolher o imposto devido.

A decisão diz que um primo de Hang atuava como testa de ferro para a movimentação financeira da firma. A sentença, confirmada em segunda instância, prescreveu e ele, apesar de condenado no mérito, ficou livre de punição.

A outra condenação foi por sonegação de INSS dos funcionários. Ainda na década de 1990, ele foi condenado em duas instâncias por “pagar por fora” salários e remunerações de seus funcionários em Santa Catarina e no Paraná.

Segundo o Ministério Público, a Havan tinha duas folhas de pagamento: em uma, declarada como oficial pelo empregador, constava a remuneração fictícia, em média R$ 250 para cada empregado, e na outra aparecia o que era realmente pago, cerca R$ 600.

Com essa manobra Hang teria apresentado ao INSS registros que não representavam os reais custos com a folha de salários. A fraude, segundo a Procuradoria, atingia cerca de 500 empregados, que tinham seus direitos trabalhistas violados, já que as verbas remuneratórias eram calculadas com base em valores inferiores aos realmente recebidos.

O empresário foi condenado pela Vara Federal Criminal de Blumenau, e a 7ª Turma do TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) manteve integralmente a sentença.

A defesa de Hang entrou com pedido de habeas corpus no TRF-4 para que ele não tivesse que cumprir pena antes do trânsito em julgado.

Após a condenação, o empresário firmou acordo, parcelou o débito trabalhista e suspendeu a execução da pena.

Não foi a única vez que Hang conseguiu costurar acordo com a Justiça após perder um processo.

Em 1999, uma ação de busca e apreensão, determinada pela Procuradoria da República em Blumenau, resultou na autuação da Havan em R$ 117 milhões pela Receita Federal e em R$ 10 milhões pelo INSS.

Mesmo sendo a maior autuação da Receita na ocasião, a empresa fez um Refis (programa de refinanciamento de dívida) para pagar a dívida em suaves prestações.

A Procuradoria protestou e, em 2004, fez um cálculo que mostrava que caso fosse mantido o refinanciamento, o débito de R$ 168 milhões só seria quitado após 115 anos.

Em 2013 Hang tentou, sem sucesso, que a Justiça determinasse ao Google que fossem removidas do sistema de busca as expressões “Luciano Hang preso”, “Luciano Hang condenado” e “Luciano Hang condenado 2010”. As pesquisas direcionavam para reportagens sobre a condenação de Hang por crimes financeiros.

Apesar das críticas, foi nos governos petistas que o empresário construiu o seu império. A rede saltou de meia dúzia de lojas que possuía no Paraná e em Santa Catarina para cerca de cem no último ano do governo Dilma Rousseff.

Foram especialmente produtivos os anos de 2011, quando a Havan inaugurou 15 lojas, 2012, ao alcançar a marca das 50, e 2013, momento em que expandiu suas fronteiras para São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás. Só em 2014, a empresa abriu 24 megalojas em Minas, Rondônia e Pará.

Hang estima que alcançará R$ 7 bilhões de faturamento este ano — crescimento expressivo se comparado aos cerca de R$ 4 bilhões que diz ter registrado em 2017.

Nascida em 1986, a marca Havan, junção dos nomes de Hang e do antigo sócio, Vanderlei, começou a se beneficiar da abertura promovida pelo governo Collor nos anos 1990 passando a importar tecidos e outros itens.

O grupo hoje se define como um conglomerado atuante em diferentes ramos, como postos de combustível, hotelaria e outras atividades.

Antes, o que lhe rendia notoriedade era o gosto arquitetônico que imprime nas fachadas de suas lojas, construídas como réplicas da Casa Branca e decoradas com uma Estátua da Liberdade de dezenas de metros de altura. O estilo simboliza a liberdade que a rede oferece diante de um portfólio que vai de edredom a máquina de lavar roupa.

Durante 30 anos de história empresarial, Hang se manteve discreto e, apesar de ser filiado ao MDB, evitou manifestações políticas. No fim do ano passado, Hang se desfiliou do partido e aproximou-se do ideário bolsonarista, o que rendeu rumores de que poderia ser convocado para vice na chapa presidencial.

O posto de vice não vingou, mas o empresário continuou firme na campanha, defendendo a privatização de todas as estatais, além de “extirpar o PT” da vida política.

Wálter Nunes | Gustavo Fioratti
No fAlha
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Huck, Justus, Bolsonaro e o destino da associação de judeus alemães que apoiou Hitler




O empresário Roberto Justus, num vídeo francamente idiota, manifestou seu apoio a Jair Bolsonaro.

Segundo ele, o PT prejudicou o país com “corrupção, desmandos e uma péssima administração”.

Bolsonaro, portanto, é o cara.

Um “candidato polêmico” e que “pode ter se arrependido de algumas coisas que disse no passado, mas tem boa vontade”. 

Luciano Huck, numa transmissão ao vivo no Facebook, falou que Bolsonaro “pode amadurecer”, sabe Deus o que isso significa.

“Ele está ganhando uma chance de ouro. Vamos aguardar”.

Não é apenas burrice, mas má fé e falta de dimensão histórica. É falta de aula de história e de memória coletiva.

Entre o início dos anos 20 até 1935, existiu a União Nacional dos Judeus-Alemães.

Quando Hitler assumiu a chancelaria, em janeiro de 1933, o grupo chefiado pelo advogado Max Naumann, ex-capitão do exército bávaro na Primeira Guerra Mundial, soltou uma declaração em que “saudava os resultados”.



Apesar do patriotismo da organização de Naumann, o governo alemão não aceitou o objetivo de assimilação.

Onze semanas depois de Hitler virar chanceler, os nazistas promulgaram a “Lei para a Restauração do Serviço Público Profissional”.

O objetivo era segregar os judeus da sociedade ariana.

Estavam vetadas pessoas “quando um dos pais ou avós pertencerem à religião judaica”. Isso era o começo.

A associação foi dissolvida e Naumann foi preso num campo de concentração em Berlim. Morreu de câncer em 1939.

Bolsonaro deixa claro que põe Deus acima de tudo. Mas não qualquer Deus.

Só o dos cristãos. Num comício, foi explícito.

“Não tem essa historinha de estado laico não. O Estado é cristão e a minoria que for contra, que se mude”, avisou.

“As minorias têm que se curvar para as maiorias”.

É uma ideia. Vai amadurecer com a ajuda inestimável da dupla Huck e Justus.



Kiko Nogueira
No DCM
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Esse é Bolsonaro



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Bolsonaro e a comunicação subterrânea e esquizofrênica como política de governo

Um candidato sem compromisso com o Marco Civil da Internet, que acha que no ciberespaço vale tudo, incluindo fake news e ataques orquestrados. Que desqualifica e incita a população a desacreditar o jornalismo profissional. Que pretende transformar em política de governo a mesma rede de comunicação que arrastou uma eleição presidencial para o subterrâneo de grupos virtuais privados


Desde que o governo Dilma Rousseff veio à tona com o Marco Civil da Internet, Jair Bolsonaro entrou em campanha contra. Bradou aos quatro ventos que tratava-se de censura, de um meio de o PT controlar a vida das pessoas conectadas à rede. Mesmo com a imprensa nacional e internacional avaliando que a lei é, em verdade, uma das mais avançadas no mundo, graças aos seus 3 principais pilares (liberdade de expressão, neutralidade da rede e privacidade), Bolsonaro não parece ter mudado de ideia. 

No segundo turno desta eleição, Bolsonaro disse em entrevista à RedeTV News que "a mídia tem que ser livre e, em especial, a internet. Eles [petistas] tentaram também censurá-la via Marco Civil da Internet." Sua última frase até rendeu um fact-checking da Agência Lupa, que classificou-a como "falsa".  



Na Câmara, em discussões que rolaram em 2014, ano em que o Marco foi sancionado, Bolsonaro já havia moldado o discurso a ser reproduzido por seus seguidores a partir de 2016: se a lei é feita no governo do PT, só pode ter "jabuti" no meio. "Prefiro o Obama lendo meus e-mails do que a quadrilha do PT."



Em 2017, durante um programa de auditório, ele defendeu que na internet vale tudo, não cabe regulamentos, não importando que estejamos falando de um terreno propício às fake news e outros crimes. "[Ataques são] Ossos do ofício. Você vai ter que engolir essa", disse o deputado da extrema direita.



Para Bolsonaro, "cabe ao internauta filtrar" o que consome em termos de notícias.

Hoje ele é suspeito de ter sido beneficiado por automatização de grupos em WhatsApp e financiamento empresarial ilícito na mesma rede social. O time do capitão teria deflagrado ainda uma "guerra semiótica" em outras plataformas, jogando com informação e contrainformação para desnortear as pessoas, há pelo menos 2 anos. Sem contar a industrialização da produção de fake news contra adversários. As revelações foram feitas por Folha de S. Paulo, El País, BBC Brasil, entre outros jornais, recentemente.

Desprezo pela mídia e censura na internet

O autoritarismo de Bolsonaro e seu desprezo pelo jornalismo profissional lembra governos como o do hoje presidente da Turquia, Erdogan, que a partir de 2014 começou a chamar a atenção da comunidade internacional editando leis que são o oposto do nosso Marco Civil - que assegura direitos e deveres aos usuários da rede.

Derrubando pilares equivalentes ao da privacidade dos dados e liberdade de expressão, Erdogan abriu caminho para censurar e perseguir críticos e opositores na internet, sem necessidade de autorização do Judiciário. Ele também restringiu o acesso da população à rede, e o cenário só piorou com a tentativa de golpe militar em 2016, com bloqueio de páginas de internet e plataformas de redes sociais.

Erdogan trata a internet como um inimigo a ser combatido. Já Bolsonaro, que igualmente despreza as bases do Marco Civil, soube instrumentalizar os recursos em benefício próprio e de maneira híbrida, construindo uma militância orgânica a partir de movimentos artificiais.

Não se sabe ainda o que Bolsonaro faria em relação ao Marco Civil da Internet, se eleito. Ano passado, o governo Temer ensaiou derrubar a neutralidade da rede, por exemplo, e enfrentou a resistência dos internautas.

Na semana passada, a equipe do Conjur noticiou o plano de Bolsonaro para a comunicação de um eventual governo seu, que coloca inevitavelmente o papel da imprensa em discussão.

A ideia é universalizar o acesso ao WhatsApp, criando um canal de diálogo direto com o povo, dispensando o filtro dos meios de comunicação de massa tradicionais.

Segundo Pedro Canário e Fernanda Valente: Caso eleito, ele deve transformar o aplicativo em uma de suas principais ferramentas de governo e de comunicação. Seus assessores e conselheiros gostaram bastante da ideia de criar um programa de governo para distribuir celulares com acesso à internet para a população de baixa renda.

A ideia é dos estrategistas políticos do candidato, dentre eles, Arick Wierson, famoso por ter trabalhado na campanha vitoriosa de Michael Bloomberg ao governo de Nova York, nos Estados Unidos. O programa, que vem sendo apelidado de Cidadania Digital, seria uma forma de Bolsonaro se comunicar diretamente com as pessoas, sem passar por órgãos de imprensa, que ele já declarou inimigos.

Wierson cogita um programa de distribuição direta ou, se não for possível, por meio de contratos com as operadoras de telecomunicações. A exemplo do esquema de compra de disparo de mensagens em massa pelo WhatsApp revelado pela Folha de S.Paulo esta semana, essa será uma forma de Bolsonaro criar apoio a suas propostas ou ideias, mesmo que elas encontrem resistência no Congresso ou no Judiciário.

Planos de um candidato sem compromisso com o Marco Civil da Internet, que acha que no ciberespaço vale tudo, incluindo fake news e ataques orquestrados travestidos de "liberdade de expressão". Que desqualifica e incita a população a desacreditar o jornalismo profissional e, ao que tudo indica, pretende transformar em política de governo a mesma rede de comunicação no WhatsApp que arrastou uma eleição presidencial para o subterrâneo de grupos virtuais privados.

Na Turquia sob Erdogan, o silenciamento do povo é gritante. No Brasil eventualmente sob Bolsonaro, a ameaça vai de uma comunicação oficial nebulosa ou até mesmo esquizofrênica, até uma possível radicalização com riscos à liberdade de imprensa.

Tudo pode acontecer e engana-se quem, mesmo à luz do que tem brotado em várias partes do mundo, ainda acredita que censura só se faz com tropas nas ruas.

Cíntia Alves
No GGN
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