19 de out. de 2018

Os ouvidos têm paredes: bolsominions não se importam com Bolsolão


Não vale se iludir: a denúncia contra a campanha de Jair Bolsonaro, que teria recebido 12 milhões de empresários para espalhar notícias falsas pelo WhatsApp, sequer abala as estruturas da paixão dos fãs desta figura esdrúxula.

A campanha do presidenciável tem seus alicerces na mentira – diria vovó, mentiras têm pernas curtas! – e não é a primeira vez que a dita (dita pelos eleitores anti-verdade, é claro) honestidade de Bolsonaro é escandalizada: os 200 mil da JBS, atabalhoadamente explicados; a história cabeluda do roubo à ex-mulher, depois desmentida na imprensa sob nítida pressão; a funcionária fantasma do quiosque de açaí… nenhum escândalo foi capaz de convencer o eleitor convicto, porque, admitamos: eles não querem ouvir a verdade.

O projeto de demonização do PT – que tem tudo a ver com o crescimento vertiginoso da onda bolsonarista no Brasil – não é coisa recente, e foi um trabalho tão bem feito (pelos mesmos veículos hoje chamados de comunistas pela extrema direita), que deu no que deu: para a opinião pública que não é politicamente esclarecida, PT é sinônimo de corrupção, e, diante disso, o resto é fichinha.

Ledo engano: o desenho da campanha e sobretudo das alianças de Bolsonaro não revela apenas sua inclinação autoritária e despreparada, revela uma verdadeira orquestração das elites que envolve gente da pior estirpe: empresários, latifundiários e militares.

 Dá pra pensar em um triplo casamento mais nocivo do que esse?

Há muito tempo os argumentos antifascistas não são suficientes para dissuadir os fãs de Bolsonaro: as palavras nazismo, autoritarismo e ditadura já não assustam.

Ninguém vota em Bolsonaro porque ninguém, de fato, sabe quem ele é. As pessoas votam no personagem que uma parcela nefasta da elite antipetista criou.

Como político, Bolsonaro não existe: sem propostas, sem debate, sem saber sequer o nome do próprio vice. Ele não passa de um personagem inacreditavelmente caricato, que personifica o ódio de classes e os preconceitos de um Brasil muito menos progressista do que, para alguns, pode se fazer parecer.

O eleitor de Bolsonaro está pouco se lixando para os empresarios que financiaram sua campanha falaciosa, para todas as notícias falsas desmentidas, para a violência perpetrada por seus seguidores…

 O que lhes interessa, simplesmente, é manter viva a figura que legitima tudo o que de ruim eles precisaram guardar por tanto tempo.

Na ditadura militar, as paredes tinham ouvidos, e a as palavras eram censuradas. Nestes tempos, os ouvidos têm paredes – de nada adiantam as palavras.

Nathalí Macedo
No DCM
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Estadão é uma usina de ódio, racismo e violência


Em que pese o tempo já passado, o Estadão ainda não conseguiu superar o trauma da derrota sofrida pela aristocracia paulista em 1932.

Dentre toda imprensa conservadora nacional, é difícil encontrar algum outro veículo que consiga concorrer permanentemente com o Estadão em matéria de reacionarismo, racismo e fascismo.

O Estadão é um órgão de propaganda fascista que ainda vive acorrentado aos valores, critérios e visão de mundo do Brasil do século 17.

No editorial de hoje, 19/10, se refere aos petistas como “tigrada”. Não se encontra sinônimo deste vocábulo nos Dicionários Houaiss e Aurélio da Língua Portuguesa, mas sabe-se que é pejorativamente empregado para se referir a gentalha, gente desprezível, ralé, vagabundagem etc.

No Dicionário Informal da internet, tigrada é definido como sendo o “termo que a aristocracia escravocrata e racista usava para se referir aos escravos que, dentre os trabalhos humilhantes e insalubres que eram obrigados a fazer, estava o de recolher e despejar dejetos humanos no mar. Algumas vezes os dejetos caíam sobre as costas dos escravos, formando listras em seus corpos e por isso sendo depreciativamente chamados de tigrada”.

Escondendo, de propósito, o fato jornalístico de que foi a Folha de SP, e não o PT que revelou o esquema milionário criminoso de caixa 2 do Bolsonaro com empresários corruptos, o Estadão sugere que o PT armou a denúncia por puro desespero [sic].

Ao Estadão não interessa a Lei, o Estado de Direito, as regras eleitorais, o combate ao crime e, menos ainda, a prática de um verdadeiro e honesto jornalismo.

O Estadão não pode ser considerado um jornal; é uma usina de disseminação de ódio, racismo, preconceitos e violência fascista a serviço do nazi-bolsonarismo.

Os parágrafos iniciais do editorial estão adiante. O lixo completo do pensamento dos donos do jornal pode ser lido aqui:

Consciente de que será muito difícil reverter a vantagem de Jair Bolsonaro (PSL) na disputa pela Presidência da República, o PT decidiu partir para seu “plano B”: fazer campanha para deslegitimar a eventual vitória do oponente, qualificando-a como fraudulenta. É uma especialidade lulopetista.

A ofensiva da tigrada está assentada na acusação segundo a qual a candidatura de Bolsonaro está sendo impulsionada nas redes sociais por organizações que atuam no “subterrâneo da internet”, segundo denúncia feita anteontem na tribuna do Senado pela presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann”.

[atualizado às 15:56h de 19/10/2018 para incluir a pertinente sugestão do Valter Pomar, sobre o significado da palavra tigrada do ponto de vista histórico]

Jeferson Miola
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Whatsapp diz que banimento de Flávio Bolsonaro não teve relação com denúncia da Folha


O WhatsApp confirma que a conta do Flávio Bolsonaro foi banida por comportamento de spam, mas isso aconteceu há alguns dias. Não está relacionado às denúncias de ontem. Outra conta ‘pública’ que foi banida por spam durante o período eleitoral foi o ‘Dilmazap’, da campanha da ex-presidenta. Nota oficial divulgada pelo Whatsapp DEPOIS da publicação deste texto.

O Whatsapp informou à Folha de S. Paulo que baniu as contas associadas à fraude denunciada pelo diário conservador paulistano na edição de ontem.

Além disso, a plataforma enviou notificação extrajudicial às agências de marketing digital apontadas pela reportagem como facilitadoras da disseminação de conteúdo anti-PT: Quickmobile, Yacows, Croc services e SMS Market.

De acordo com denúncia da jornalista Patrícia Campos Mello, um número ainda indeterminado de empresários pagou pelo conteúdo pró-Bolsonaro. O valor mencionado foi de ao menos R$ 12 milhões.

O PT pediu investigação à Polícia Federal e a campanha de Fernando Haddad quer tornar Jair Bolsonaro inelegível por oito anos — se a denúncia for comprovada.

O financiamento empresarial está banido das eleições, por determinação do STF. O candidato que recorrer a ele pode ser acusado de abusar do poder econômico.

A disseminação de notícias falsas também pode ser penalizada.

A lei eleitoral permite que candidatos utilizem o WhatsApp, mas apenas com números de telefone cadastrados pelas próprias campanhas.

Porém, de acordo com a denúncia da Folha, as empresas dispararam mensagens a granel para listas de números obtidas no mercado de informação — o que é ilegal.

Citando uma reportagem da revista Piauí, Fernando Haddad disse que Bolsonaro manteve contato com empresários e não pediu doações eleitorais diretamente à sua campanha, mas o financiamento do esquema no Whatsapp.

Petistas atribuem à distribuição de milhões de mensagens a contínua ascensão de Bolsonaro na campanha de primeiro turno, além de reviravoltas eleitorais em estados como Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Militantes também querem saber se candidatos do PT ao Senado foram prejudicados pelo Zapgate.

Um dos citados na reportagem da Folha, Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan, negou ter financiado o disparo das mensagens e disse que vai processar o jornal.

Na notificação extrajudicial às empresas, o Whatsapp determinou que elas deixem de utilizar o esquema no segundo turno — de acordo com a reportagem, um novo bombardeio estava previsto para a semana final de campanha.

A plataforma não informou quais contas relacionadas às empresas foram banidas.

Porém, no twitter, o senador eleito Flávio Bolsonaro, do PSL do Rio, disse que sua conta no Whatsapp tinha sido bloqueada.

“A perseguição não tem limites! Meu WhatsApp, com milhares de grupos, foi banido DO NADA, sem nenhuma explicação!”, escreveu.

O banimento do filho de Jair Bolsonaro pela plataforma pode ser o primeiro indício direto do envolvimento da família com a fraude.

PS do Viomundo: O senador informou que seu perfil no whatsapp já foi reativado.
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Sócio de empresa denunciada em esquema fake news de Bolsonaro foi candidato a deputado federal pelo PSL-RJ

A AM4 é uma das empresas denunciadas na reportagem da Folha de S.Paulo como parte de um grupo recebeu pagamentos ilegais de empresários para disseminar fake news contra o PT em grupos de WhatsApp e redes sociais.


Alexandre José Martins, sócio do grupo AM4 – que controla a AM4 Informática Ltda era candidato a deputado federal pelo PSL-RJ até o dia 10 de outubro quando teve sua candidatura impugnada por não ter apresentado todos os documentos necessários. Curiosamente sequer recorreu da impugnação.

A AM4 é uma das empresas denunciadas na reportagem da Folha de S.Paulo como parte de um grupo que recebeu pagamentos ilegais de empresários para disseminar fake news contra o PT em grupos de WhatsApp e redes sociais.

Na prestação de contas oficial da campanha de Bolsonaro no site do Tribunal Superior Eleitoral, a agência também aparece como responsável pelo site da campanha, tendo recebido R$ 115 mil pelo trabalho.

Alexandre Martins é um dos três sócios da empresa – os outros são os irmãos Marcos Aurélio Carvalho e Magno Carvalho – fundada em agosto de 2000 em Barra Mansa, no Rio de Janeiro.

Atualmente, a agência teria 7 unidades “espalhadas pelos principais polos criativos do país e 150 colaboradores”, segundo informações do Linkedin da empresa.

Alexandre não é apenas fornecedor da campanha de Bolsonaro, mas muito próximo ao senador eleito Flávio Bolsonaro, filho do capitão da reserva.

Entre outras coisas, promoveu uma palestra do então deputado em Barra Mansa, na sede do Projeto Vida, uma comunidade evangélica da cidade, em maio deste ano.

No seu linkedin, Alexandre tem como mensagem de destaque a seguinte frase: “Estamos perto de uma grande transformação positiva do nosso país. Seremos reconhecidos não por bundas lindas de mulatas, pela violência e corrupção entranhada em nosso país, ou por um pulmão desmatado. Mas por nossa capacidade de crescimento, desenvolvimento meritocrático de forma séria colocando em dia a distribuição da riqueza, votando com coragem pautas importantes para nossa ordem e progresso #B17”.

Relações governamentais

Além dessa relação partidária e pessoal, a AM4 ainda consta na lista de fornecedores da Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), escola militar onde Jair Bolsonaro iniciou sua carreira. O grupo atua no aparato público através de uma outra personalidade jurídica, a Ingresso Total, cujo CNPJ está em nome de Magda Célia Carvalho, irmã de Marcos e Magno.

Pelo site de compras do governo federal é possível também verificar que a empresa participou de diversas licitações, entre elas a do projeto Amazônia Azul – para reestruturação da plataforma digital do projeto de proteção da floresta amazônica coordenado pela Marinha do Brasil – e da licitação para reformulação da estrutura online do Supremo Tribunal Federal (STF).

Por meio de nota à Folha de S. Paulo, a AM4 negou usar números estrangeiros gerados automaticamente para participar de grupos e administrá-los. “O engajamento do eleitorado de Jair Bolsonaro nas redes sociais não é recente, tampouco surpreendente. Ao contrário, o desempenho nas redes é diretamente proporcional ao seu desempenho nas urnas”, dizia a nota.

Seguem algumas das fontes utilizadas nesta matéria para que o leitor possa checar informações aqui apresentadas:

Fontes:

Prestação de contas de Jair Bolsonaro:


Agulhas Negras – Cadastro AM4 Fornecedor:

Linkedin da empresa AM4:

Vídeo onde Flávio Bolsonaro chama Alexandre Martins de seu amigo:

Informações CNPJ da AM4:

Informações sobre a candidatura de Alexandre José Martins:

Projeto Amazônia Azul:

Licitações da empresa Ingresso Total:

Renato Rovai e Plínio Teodoro
No Fórum
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Marqueteiro tucano diz que teve oferta de whatsapp ilegal


O meios para o crime cometido  por aqueles que compraram “disparos”  em massa no aplicativo Whatsapp  estavam disponíveis.

A um partido ao menos – o PSDB – foram oferecidos, como registra Sílvia Amorim, em O Globo. Com testemunhas e a narrativa de uma delas, o publicitário Marcelo Vitorino, responsável pela área de comunicação digital da campanha de Geraldo Alckmin:

O consultor de marketing digital da campanha presidencial de Geraldo Alckmin(PSDB), Marcelo Vitorino, relatou ao GLOBO que participou de reunião em que uma empresa ofereceu ao partido a entrega de disparo de mensagens por WhatsApp para até 80 milhões de pessoas, usando cadastro de terceiros, o que é proibido por lei. 

A oferta do serviço, segundo ele, foi feita pelo presidente da empresa DOT Group, Luiz Alberto Ferla, num encontro na sede do PSDB em Brasília em 11 de julho, antes do início da campanha eleitoral. Segundo o PSDB, o serviço não foi contratado. A DOT Group nega que tenha oferecido o disparo de mensagens usando um cadastro de eleitores que não fosse o do partido.

A reunião era com o PSDB Mulher, presidido pela ex-governadora do Rio Grande do Sul Yeda Crusius. Participaram também advogados, sócios do marqueteiro de Alckmin, Lula Guimarães, Vitorino, Yeda e assessores

– Ele falou que tinha uma base de contatos de até 80 milhões de pessoas para a qual poderia fazer disparos – disse Vitorino.

A ilegalidade da operação, mesmo paga pelo partido, fez o PSDB recuar da proposta. Empresários ‘bolsonaristas” que chegam ao cúmulo de gravar vídeos coagindo o voto de seus empregados recuariam?

Fernando Brito
No Tijolaço
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Está clara a configuração do crime eleitoral


Em meio ao escândalo da compra de pacotes de disparo em massa de notícias falsas contra o candidato do PT a presidente, Fernando Haddad, que configura crime eleitoral, o candidato Jair Bolsonaro (PSL) divulgou nesta sexta-feria, 19, vídeo que levanta mais suspeitas sobre sua campanha. 

No vídeo, o empresário Luciano Hang, dono da Havan, uma das empresas que pagou para disparos em massa em mensagens contra o PT, aparece ao lado do empresário Mário Gazin, das lojas Gazin, que defende o voto em Bolsonaro "para gastar menos dinheiro no segundo turno". 

"No primeiro, Bolsonaro. Para não ter escolha, pra não ter que gastar mais dinheiro, pra não ficar todo mundo gastando no segundo turno. Então é no primeiro", diz Mário Gazin.

Nessa quinta-feira, 18, a coligação de Fernando Haddad ingressou no TSE com uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije) contra a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL), por tentar fraudar as eleições pela compra, feitas por empresas apoiadoras da campanha, de pacotes de disparos em massa de notícias falsas contra Haddad e o PT. Luciano Hang é um dos alvos da ação, que pede a quebra do seu sigilo telefônico e medidas de busca e apreensão. 

Assista:

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As pistas do método 'Cambridge Analytica' na campanha de Bolsonaro


A campanha do presidenciável da extrema-direita, Jair Bolsonaro (PSL), é uma guerrilha virtual. O Ministério Público investiga se há um “esquema industrial” e pago de disseminação de mentiras via internet, as fake news, o que é crime eleitoral. A Folha noticiou que empresários bolsonaristas pagam até 12 milhões de reais para difamar o PT via Whatsapp, o que também é crime, pois este ano está proibido o financiamento patronal de candidatos.

Será que o bolsonarismo está por trás de um certo acontecimento de meados de setembro, um momento em que o seu rival no duelo final de 28 de outubro, Fernando Haddad, do PT, mergulhava na campanha e despontava como favorito?

Em 25 de setembro, o Facebook anunciou ter sido hackeado. Em 12 de outubro, informou que a invasão começou provavelmente em 14 de setembro. Foram “roubados” os dados de 400 mil usuários e, a partir desse “roubo”, os hackers obtiveram informações sobre 30 milhões de pessoas.

Dentre as vítimas, 29 milhões tiveram descobertos o número de telefone e o email. De metade, os hackers conseguiram saber também: o nome da pessoa, gênero sexual, idioma, estado civil, religião, cidade natal, data de nascimento e 15 últimas pesquisas feitas na internet.

Há relação entre o hackeamento do Facebook e a guerrilha digital de Bolsonaro?

A campanha do ex-capitão repete estratégias verbais e operacionais de Donald Trump na disputa pela Casa Branca em 2016. Um dos filhos de Bolsonaro, Eduardo, esteve em agosto, em Nova York, com o principal estrategista de Trump na campanha, Steve Bannon.

A principal maneira de as mensagens políticas de Bannon chegarem aos eleitores e influenciá-los dependeu de “roubo” de dados do Facebook. Uma operação via Cambridge Analytica (CA), um escândalo que veio a público na imprensa mundial em março passado.

A CA foi criada em 2014 por um bilionário americano, Robert Mercer, para ajudar políticos conservadores nos EUA. Um dos colaboradores da empresa, Cristopher Wylie, foi quem deu a resposta sobre como influenciar da maneira mais potente os eleitores americanos.

Segundo Wylie, era preciso montar um perfil psicológico do eleitorado, e a melhor fonte para isso era o Facebook. Ele sabia que na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, havia pesquisas psicosociais a partir do comportamento das pessoas no Facebook.

Um dos pesquisadores, Aleksandr Kogan, topou criar um aplicativo de celular e pagar pessoas para testá-lo. O uso do app permitiu a Kogan “roubar” dados privados de cerca de 280 mil usuários do Facebook e, com base neles, montar um banco “psicológico” sobre 50 milhões de pessoas. Ele recebeu 1 milhão de reais pelo serviço, uma ninharia perto do valor político do seu “produto”.

E o Brasil com isso? A CA aterrissou aqui em 2017. Fez parceria com um publicitário baiano, André Torretta, da Ponte Estratégia, e daí nasceu a CA Ponte. Em entrevistas, Torretta dizia que teria de montar um banco de dados, pois não havia uma base brasileira criada a partir do Facebook. A equipe de Bolsonaro sondou a CA Ponte para trabalhar pelo deputado, mas Torretta foi contra.

Quando estourou o escândalo mundial da CA, em março passado, o Ministério Público brasileiro abriu um inquérito sobre a CA Ponte e chamou Torretta para depor. O MP queria saber sobre o banco de dados da empresa. A investigação corre até hoje sob sigilo.

Será que o hackeamento do Facebook em setembro foi feito para montar um banco psicosocial de dados para uso em favor de Bolsonaro? CartaCapital questionou o Facebook sobre a nacionalidade das vítimas dos hackers, mas a empresa não quis informar. Diz apenas que colabora com o FBI, a Polícia Federal dos EUA, na investigação do caso. É sabido, porém que há muitos brasileiros entre os atingidos.

Recorde-se: o hackeamento aconteceu entre 14 e 25 de setembro. A evolução de Bolsonaro nas pesquisas mostra que ele mudou de patamar depois disso.

No Ibope, por exemplo, ele oscilou em torno de 28% entre 11 e 26 de setembro. A partir do dia 1o de outubro, mudou de patamar. Rompeu a barreira dos 30%, alcançou 31%

Não foi só isso. Enquanto Bolsonaro subia nas pesquisas, a rejeição de Haddad fazia o mesmo. O petista havia entrada oficialmente na campanha em 11 de setembro, data em que o PT o substituiu na Justiça eleitoral como candidato no lugar de Lula.

De 11 a 26 de setembro, a rejeição a Haddad variou entre 23 e 27%. A partir de 1o de outubro, mudou de patamar: chegou a 38%

Nesse período em que Bolsonaro mudou de patamar nas pesquisas e a rejeição a Haddad também, houve as manifestações #elenão. Foi em 29 de setembro. Elas podem ter se revertido a favor do deputado do PSL, mas talvez uma operação na web com dados do Facebook possa ter ajudado.

Haddad já disse publicamente que sua imagem foi abalada por uma campanha difamatória, movida a mentiras, da parte das equipe de Bolsonaro. Em grupos de Whatsapp e no Facebook, circularam mensagens a apontar o petista como uma espécie de depravado anticristão, daí a repulsa dos evangélicos por ele ter disparado.

Será que essa ação difamatória, lastreada naos atos #elenao, foi bem sucedida graças a um banco psicosocial de dados de brasileiros montado a partir do hackeamento do Facebook?

Em 4 de outubro, três dias antes do primeiro turno da eleição daqui, uma empresa americana de cibersegurança, a FireEye, parceira do governo dos Estados Unidos na investigação de ameaças ao Tio Sam, informou à Folha que havia hackers tentando interferir na eleição brasileira. Seria através das redes sociais e da manipulação de medos das pessoas.

Manipulação de medos foi o que a Cambridge Analytica fez na eleição de Donald Trump. Quem disse isso foi Christopher Wylie, aquele nerd que ajudou a municiar a guerrilha trumpista com a criação de um banco psicosocial de dados.

“Nós exploramos o Facebook para colher milhões de perfis de pessoas. E construímos modelos para explorar o que sabíamos sobre eles e direcionar seus demônios interiores. Essa foi a base em que toda a empresa (Cambridge Analytica) foi construída”, disse Wylie no jornal britânico The Guardian de 17 de março passado.

A atuação da CA na eleição americana de 2016 tem sido investigada nos EUA. O ponto de partida das investigações é se teria havido interferência de um governo estrangeiro, no caso, o russo.

Hoje com uns 35 anos, Aleksandr Kogan, o pesquisador da Universidade de Cambridge que criou o app de “roubo” de dados do Facebook, nasceu na antiga União Soviética. Foi em uma região que hoje é um país independente, a Moldávia, situada na fronteira entre Ucrânia e Romênia

Kogan é descrito como alguém que já foi financiado pelo governo russo em suas pesquisas. Em julho, durante a Copa do Mundo da Rússia, a rede de tevê americana CNN noticiou que os dados do facebook “roubados” com o know-how de Kogan foram acessados de dentro da Rússia.

E no Brasil? Haverá alguma investigação das pistas sobre o uso de métodos da Cambridge Analytica pela campanha de Jair Bolsonaro?

André Barrocal
No CartaCapital
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Para combater a fome, a miséria e a violência, Bolsonaro defende castração cirúrgica aos 21 anos e grupos de extermínio

‘’O relógio apontava 14h54 do dia 12 de agosto de 2003 quando Jair Bolsonaro, então obscuro parlamentar apesar de estar no quarto mandato na ocasião, foi ao microfone do plenário da Câmara dos Deputados e fez veemente defesa dos crimes de extermínio. Exaltados como política de segurança a ser adotada no Rio de Janeiro’’.
Assim o jornalista Lúcio de Castro começa a sua reportagem, publicada na semana passada pela Agência Sportlight de Jornalismo Investigativo, que revelou:  o capitão-deputado [na época, pelo PTB/RJ], fomentou grupo de extermínio que cobrava R$ 50 a R$ 100 para matar jovens da periferia.

O motivo para a louvação era um esquadrão da morte que atemorizava a Bahia, desde o início dos anos 2000:
“Quero dizer aos companheiros da Bahia — há pouco ouvi um Parlamentar criticar os grupos de extermínio — que enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte, o crime de extermínio, no meu entender, será muito bem-vindo.
Se não houver espaço para ele na Bahia, pode ir para o Rio de Janeiro.
Se depender de mim, terão todo o meu apoio, porque no meu Estado só as pessoas inocentes são dizimadas. Na Bahia, pelas informações que tenho — lógico que são grupos ilegais —, a marginalidade tem decrescido. Meus parabéns”!

Bolsonaro omitiu a motivação econômica dos grupos de extermínio.

”Um grande negócio travestido de combate ao crime”, denunciou Lúcio de Castro.

O discurso de Bolsonaro está registrado nos anais da Casa, como mostra a imagem abaixo.


Os destaques em laranja são desta repórter.

Atente ao que está escrito neles.


Pois esse discurso é um retrato nu e cru das propostas do capitão-deputado para combater a violência, a fome e miséria no País.

De um lado, Bolsonaro defendeu o crime de extermínio, ”enquanto o Estado não tiver coragem de adotar a pena de morte’’: ”Pode ir para o Rio de Janeiro; terão todo o meu apoio”.

Do outro lado, contra a fome, a miséria e a violência, propôs a liberação da laqueadura e vasectomia para todos os maiores de 18 anos:
‘’Não pode discutir a diminuição da fome, da miséria e da violência se não discutirmos antes uma rígida política de controle da natalidade. Chega de vaselina, de baboseira, de falar em educação, em saúde, porque esta não é a nossa realidade primeira. Não vamos atingir nossos objetivos se não atacarmos o descontrole da natalidade’’.

(…)
Temos de adotar urgentemente, sim, contra tudo e contra todos os defensores de direitos humanos, uma rígida política de controle da natalidade.


Oito meses antes, em 5 de dezembro de 2002, Bolsonaro havia apresentado à Câmara a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 584/2002, liberando a laqueadura e a vasectomia em maiores de 21 anos.

‘’Não coloquei 18 anos porque, à época da sua apresentação [PEC 584/dezembro de 2002], o Código Civil falava em maioridade plena apenas aos 21 anos’’, comentou depois.

Na prática, higienismo na veia.

O higienismo não apenas exclui, estigmatiza e debilita os ‘’fracos’’.  Também os ataca e os extermina.

Quem no Brasil são as maiores vítimas da violência, inclusive policial?

Homens jovens pobres, negros, das periferias.

Que homens e mulheres aos 21 anos, como prevê a PEC do Bolsonaro, seriam ‘’orientados’’ a fazer a castração cirúrgica?

Certamente, os das camadas mais pobres da população.

Ou alguém acha que jovens mais abastados vão se submeter à laqueadura ou à vasectomia aos 21 anos?

A vasectomia e laqueadura visam à esterilização definitiva. São castração cirúrgica.

Ambas de reversão difícil, na maioria dos casos a fertilidade não é recuperada.

Por isso, existem regras rígidas para realizá-las pelo Sistema Único de Saúde (SUS):

*Homens e mulheres devem ter mais de 25 anos e pelo menos dois filhos vivos.

*A laqueadura, especificamente, não pode ser feita durante o parto; para realizá-lo nessa ocasião, é preciso que a mulher manifeste o desejo, por escrito, 90 dias antes no parto.

*Como é tratamento definitivo, é vital  passar antes por avaliação de profissionais de saúde para verificar se a pessoa quer mesmo, esclarecer sobre a cirurgia, mas, fundamentalmente, sobre a decisão de não ter mais filhos.

Ou seja, o que Bolsonaro defendeu no seu discurso em agosto de 2003 foi uma política de eliminação dos mais pobres nas duas pontas:

*Dizimando os jovens e adultos, via crime de extermínio.

* Impedindo novos nascimentos, via laqueadura e vasectomia.

Uma prática de eugenia, implantada em 1939 na Alemanha nazista, através do Aktion T 4, programa de eliminação de recém-nascidos e crianças até 3 anos, que tinham uma “vida que não merecia ser vivida”.

Depois, o programa se estendeu para adultos e velhos.

Os alvos foram os indivíduos carimbados como “indignos de viver”, entre os quais: criminosos, ‘’degenerados’’,  dissidentes, deficientes mentais, homossexuais, ‘’vadios’’, ‘’insanos’’ e ‘’fracos’’, que deveriam ser eliminados da cadeia de hereditariedade.

O Aktion T4 funcionou até 1941 e esterilizou mais de 400 mil pessoas; 70 mil foram mortas.

Depois, a tecnologia de extermínio desenvolvida nesse programa foi utilizada depois nos campos de concentração para a eliminação em massa, não mais de doentes, mas com finalidade de “purificação racial”.

— Mas esse discurso de Bolsonaro foi em agosto de 2003, não é de agora! – alguns devem estar rebatendo, para deslegitimar o que discutimos até aqui.

Lamentavelmente, as propostas defendidas por Bolsonaro, no discurso de agosto de 2003 (ouça-o acima), não ficaram no passado.

Em entrevista ao Jornal Nacional, em 28 de agosto de 2018, o candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro (PSL), disse que um criminoso não pode ser tratado como “um ser humano normal” :
“Temos que fazer o quê? Em local que você possa deixar livre da linha de tiro as pessoas de bem da comunidade, ir com tudo para cima deles.

E dar para o agente de segurança pública o excludente de ilicitude. Ele entra, resolve o problema. Se matar 10, 15 ou 20, com 10 ou 30 tiros cada um, ele tem que ser condecorado [o policial] e não processado.”
A defesa da laqueadura e vasectomia em jovens pobres é recorrente nos seus discursos na Câmara, como mostra o vídeo abaixo com fragmentos de vários momentos.



Destacamos alguns trechos para ilustrar:

48s
No caso da nossa proposta, pessoas com mais 21 anos de idade que quiserem fazer a laqueadura ou vasectomia, assim o façam, não fiquem apenas, cada vez mais, botando gente no mundo, que, infelizmente a sua grande maioria não servirá para o futuro de nosso País.
1min8s
Só tem uma utilidade o pobre no nosso país aqui. Votar. Título de eleitor na mão e com diploma de burro no bolso para votar no governo que está aí (novembro de 2013).
2min9s
Já está mais do que na hora de nós discutirmos uma política de conter essa explosão demográfica. Caso contrário ficaremos apenas votando nessa casa Bolsa Família, empréstimo para pobre vale gás, etc (dezembro de 2003)
2min25s
A nossa missão aqui é gerar felicidade, e não podemos gerar felicidade, com o crescimento da população que aí está.
Não adianta nem falarmos em educação porque a maioria do povo  [não] está preparada receber educação, e não vai se educar. Só o controle da natalidade pode nos salvar do caos (julho de 2008).
Thai, após assistir ao vídeo acima, ironiza o discurso de Bolsonaro:  ‘’’Nós sabemos controlar nossa prole’.  Falou o homem que tem 5 filhos …’’

Neudo Antonio, que também assistiu-o no canal do You Tube onde postado originalmente, lacra: ‘’Concordo com o controle de natalidade, porém, Bolsonaro criou sua prole, mamando nas tetas dos governos. Custaram à população, muito mais do que uma família que recebe bolsa família’’.

Conceição Lemes
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Bolsolão dará vitória a Haddad


O escândalo do caixa dois de Jair Bolsonaro, usado para disseminar mentiras, fará Fernando Haddad virar o jogo? Mauro Lopes e Leonardo Attuch comentam, com a presença de Marcos Coimbra como convidado especial

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Pesquisa Vox Populi mostra subida de Haddad


Pesquisa Vox Populi/CUT divulgada na manhã desta sexta-feira aponta: Bolsonaro tem 53% das intenções de voto válidos e Haddad tem 47%. A diferença entre os dois é de apenas 6 pontos percentuais, o que indica que a disputa eleitoral está aberta e o país terá uma reta final emocionante, com uma subida do candidato do PT que tem sido a tônica das últimas eleições. Nos votos totais, considerados brancos, nulos e indecisos, o número é de 44% para Bolsonaro e 39% para Haddad, uma diferença de apenas 5 pontos, com 12% de brancos, nulos e "ninguém" e 5% de "não sabe" e "não respondeu".

O cenário é bem diferente da pesquisa Datafolha divulgada na noite desta quinta e que havia indicado Bolsonaro com 59% e Haddad com 41% de votos válidos - uma diferença de 18 pontos percentuais. Ou seja: está aberta uma disputa entre os institutos de pesquisas na chegada do segundo turno. A pesquisa Vox/247 feita na véspera do primeiro turno foi a que mais se aproximou do resultado das urnas:


Em votos espontâneos válidos, a pesquisa indica Bolsonaro com 54% e Haddad com 46% - oito pontos percentuais de diferença. Haddad tem 41% de rejeição contra 38% de Bolsonaro. 7% dizem que podem votar em qualquer um dos dois, 8% dizem que não votam em nenhum e 5% não sabem ou não responderam.

Dos entrevistados, 66% acreditam em vitória de Bolsonaro e 24% na de Haddad. 56% disseram ter assistido o horário eleitoral gratuito e 44% disseram que não assistiram. 23% afirmaram que o melhor programa do horário eleitoral gratuito é o de Haddad e 22% disserem que é o de Bolsonaro.

A pesquisa foi contratada pela CUT e contou com 2 mil entrevistas aplicadas em 120 municípios nos dias 16 e 17 (terça e quarta). A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais, estimada em um intervalo desconfiança de 95%. A sondagem foi registrada no TSE com o número BR-08732/2018.

Veja os principais números da pesquisa em tabelas:





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Dono da Havan já foi condenado no TSE por propaganda eleitoral ilegal pró-Bolsonaro

Se comprovado o abuso de poder econômico por parte da campanha de Bolsonaro, ele pode se tornar inelegível por oito anos



Luciano Hang, dono das lojas Havan – um dos empresários que estabeleceu contratos de até R$ 12 milhões para efetuar milhões de disparos no WhatsApp contra Fernando Haddad, segundo reportagem da Folha –, já foi condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em setembro de 2018, por contratação irregular de impulsionamento de propaganda eleitoral no Facebook.


Hang foi condenado a pagar uma multa de R$ 10 mil por impulsionar conteúdo favorável a Jair Bolsonaro na rede social.

“A lei estabelece que pessoa física não pode fazê-lo, por um motivo muito simples: é que seria absolutamente impossível avaliar, na prestação de contas [do candidato], as inúmeras pessoas que contratariam diretamente o impulsionamento”, disse o ministro Luis Felipe Salomão na sentença.



Empresário da Havan tenta ironizar caixa 2 de Bolsonaro


Luciano Hang fez um vídeo nas redes sociais para atacar a imprensa que ele definiu como "puxadinho do PT". Segundos depois, usou matérias do mesma imprensa para atacar Haddad

O assunto mais comentado do país nas redes sociais hoje (18), o #Caixa2doBolsonaro, foi alvo de um vídeo no Facebook de Luciano Hang, dono da empresa Havan. Acusado de ser um dos financiadores do esquema ilegal de campanha do candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro (PSL), o empresário acusou o jornal Folha de S.Paulo, que noticiou o fato, de ser “um puxadinho do PT”.

A todo momento, Hang promoveu ofensas pessoais ao candidato do PT no segundo turno das eleições 2018, Fernando Haddad. “Parece um peixe morto. Insonso”, criticou. Atacou também a imprensa comercial. Contraditório, mostrou matérias desta mesma mídia contra Haddad. Quando é contra seu candidato de estimação, é fake news. Quando é contra seu opositor, “procurem se informar”, disse repetidamente.

“Vão perder a teta (...) com a vinda do Bolsonaro, vai acabar. A imprensa comunista está amedrontada. Querem me coagir para que não fale mais... Puta! Minha live tem muito mais gente do que a que o Haddad fez”, disse, desconexo, ou “lúdico”, como ele gosta de se apresentar. Essa fala foi feita segundos antes de mostrar matérias contra Haddad, inclusive de veículos do mesmo grupo da Folha.

Hang também atacou a carreira acadêmica de Haddad. Disse para as pessoas “não procurarem” saber sobre. “Ele estudou Marx, pai do comunismo, e esse Habermas. Fui pesquisar e descobri que ele é um comunista. Quanto mais estuda, pior”, disse. Haddad é graduado em direito pela Universidade de São Paulo e tem doutorado em filosofia. Professor de Ciência Política, estudou em Montreal, no Canadá.

O empresário tem histórico de assédio contra trabalhadores, coagindo-os a votarem em Bolsonaro. Chegou a ser condenado por isso pela Justiça do Trabalho. Antes do primeiro turno, Hang já havia se envolvido em um caso de propaganda política ilegal. Após pedido do candidato derrotado do PSDB, Geraldo Alckmin, Hang foi obrigado a retirar um vídeo de suas redes sociais, que havia pago para impulsionar sua opinião de idolatria ao extremista de direita.

A campanha de Bolsonaro vem se beneficiando em larga escala pelo uso incansável de mentiras distribuídas por redes sociais, especialmente o WhatsApp. Contra ilegalidades de sua campanha, a coligação de Haddad, além do PDT, acionaram a Justiça Eleitoral acusando Bolsonaro de abuso do poder econômico e pedindo a impugnação de sua candidatura.

O uso do jogo sujo está nas veias da campanha da extrema-direita, como tem indicado os fatos desta semana. Até mesmo o estrategista ligado a ideais de supremacistas brancos nos Estados Unidos, Steve Bannon, que trabalhou na campanha de Donald Trump, está envolvido na campanha de Bolsonaro.

No RBA
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Bolsonaro é ou não um neofascista?

Valerio Acary: “O financiamento da campanha eleitoral de Bolsonaro permanece, essencialmente, obscuro. No entanto, a potência de sua presença nas redes sociais sugere que há grupos empresariais seriamente engajados”


A ave de rapina não canta.
A desgraça não marca encontro.
A ignorância e o vento são do maior atrevimento.
(Sabedoria popular portuguesa)

Abriu-se um debate, inclusive na esquerda, se Bolsonaro é ou não um neofascista. Este debate não é um diletantismo. Exige rigor. Quais devem ser os critérios para a classificação de uma liderança política? É preciso ser muito sério quando estudamos nossos inimigos. Quem não sabe contra quem luta não pode vencer.

Evidentemente, a qualificação de qualquer corrente política ou liderança de ultradireita como, sumariamente, fascista é uma generalização apressada, historicamente, errada e, politicamente, ineficaz. O fascismo é um perigo tão sério que devemos ser serenos na sua definição. Toda a extrema direita é radicalmente reacionária. Mas nem toda a extrema direita é fascista. É necessário avaliar, ponderar, calibrar, qualificar com cuidado nossos inimigos.

Bolsonaro é um neofascista. Ou um fascista da etapa histórica em que vivemos, depois da restauração capitalista na ex-URSS e China. Enganam-se os que pensam que se trata de um exagero. Bolsonaro é perigosíssimo. Mesmo considerando que ainda não construiu um partido fascista em escala nacional. Mesmo considerando que a maioria dos seus eleitores não sejam fascistas. O que é qualitativo é que o núcleo dirigente está se formando.

Sim, o neofascismo não é uma cópia exata do fascismo. O fascismo foi para o marxismo, essencialmente, a forma política da contrarrevolução diante do perigo da revolução europeia, quando a existência da URSS inspirava a causa dos trabalhadores. Todos os partidos fascistas defendiam a necessidade de um regime totalitário. A eliminação das liberdades democráticas dos regimes eleitorais era instrumental para destruir as organizações dos trabalhadores. Mas o fascismo italiano não era exatamente igual ao nazismo alemão (obsessão antissemita), ou ao franquismo espanhol (preservação formal da monarquia), e o salazarismo português (fanatismo católico) tinha, também, suas peculiaridades. Movimentos fascistas, em muitas outras nações, inclusive no Brasil, o integralismo, existiram no mesmo período histórico. Mas, apesar de suas nuances, todos merecem a qualificação de fascistas.

Acontece que não estamos em uma etapa semelhante aos anos trinta do século passado, depois da catástrofe da Primeira Guerra Mundial, depois da vitória da revolução russa e da crise de 1929. Não estamos, desde a crise econômica mundial de 2008, diante dos “anos trinta em câmara lenta”. Não há perigo iminente de uma nova revolução de outubro. Não obstante, à escala mundial, assistimos ao reforço de uma extrema direita nos últimos dez anos.

O neofascismo em um país periférico como o Brasil não pode ser igual ao fascismo de sociedades europeias dos anos trinta. Em primeiro lugar, porque não responde ao perigo de revolução. Responde à experiência de setores da classe média durante os quatorze anos de governos de colaboração de classes do PT, e à estagnação econômica e regressão social dos últimos quatro anos, a maior da história contemporânea.

O antipetismo dos últimos cinco anos é a forma brasileira de antiesquerda, anti-igualitarismo, ou anticomunismo dos anos trinta. Não foi uma aposta do núcleo principal da burguesia contra o perigo de uma revolução no Brasil. Até poucas semanas atrás a imensa maioria da burguesia apoiava Alckmin. Bolsonaro é um caudilho. Sua candidatura é a expressão de um movimento de massas reacionário da classe média, apoiado por frações minoritárias da burguesia, diante da regressão econômica dos últimos quatro anos.

Os modelos teóricos podem ser vários. Mais simples ou mais complexos. Com mais ou menos critérios. Eis um esboço ou uma sugestão de dez critérios:

(1) sua origem social;

(2) o que fez ou trajetória;

(3) o que defende: sua ideologia ou programa?

(4) qual é o seu projeto político?

(5) que relação manteve com as instituições, com o Congresso ou com as Forças Armadas, portanto, sua posição diante do regime político?

(6) que relação manteve, respectivamente, com a classe dominante, e com a classe trabalhadora?

(7) com que tipo de partido ou movimento é o seu instrumento de luta?

(8) quem o apoia ou qual é sua base social, e a dimensão eleitoral de sua audiência;

(9) quais são as suas relações e apoios internacionais;

(10) de onde vem o dinheiro ou quais são suas fontes de financiamento;

Seguindo este pequeno esquema, e considerando estes dez critérios, podemos concluir que:

1- A origem social de Bolsonaro é a pequena-burguesia plebeia. A procura de ascensão social rápida através de uma carreira de oficial no Exército não foi incomum, durante gerações, especialmente, entre eurodescendentes. Ela exigia um desempenho escolar inferior às carreiras de medicina, direito, engenharias nas universidades públicas (além de oferecer um soldo desde o início), e oferecia como recompensa estabilidade e uma remuneração, comparativamente, muito mais elevada que a de um professor de educação física. Esta origem de classe explica algumas das obsessões de Bolsonaro: o racismo rancoroso, o ressentimento social, o anticomunismo feroz, o nacionalismo suburbano, o fascínio pelo modo de consumo da classe média norte-americano e o rancor anti-intelectual.

2- Não se deve julgar um líder político somente pelo que diz, mas pelo que ele faz. A trajetória de Bolsonaro, durante os últimos quarenta anos, foi a de um oficial insubordinado delirante e, depois, de um deputado corporativista folclórico marginal no último degrau do “baixo clero”. Bolsonaro nunca foi brilhante. Sempre foi um medíocre, um desaforado, na verdade, um boçal. Bolsonaro está presente na luta política há trinta anos, e já acumulou seis mandatos de deputado federal. Mas não se pode compreender o lugar, qualitativamente, diferente que ocupa hoje sem analisar o papel da Lava Jato desde 2014, e a apropriação histórica da bandeira anticorrupção por setores da classe dominante. Frações da burguesia brasileira já usaram essa bandeira em suas lutas intestinas em 1954 para derrubar Getúlio Vargas, em 1960 para eleger Jânio Quadros, em 1964 para legitimar o golpe militar, em 1989 para eleger Collor de Melo, e em 2016 para fundamentar o impeachment de Dilma Rousseff. Bolsonaro saiu da obscuridade nas mobilizações pelo impeachment entre 2015/16, quando a exigência de intervenção militar ganhou audiência entre dezenas de milhares dos milhões que saíram às ruas.

3- Bolsonaro responde à demanda de liderança forte face à corrupção no governo; de comando diante do agravamento da crise da segurança pública; de ressentimento diante do aumento do peso dos impostos sobre a classe média; de ruína de pequenos negócios diante da regressão econômica; de pauperização diante da inflação dos custos da educação, saúde e segurança privadas; de ordem diante das greves e manifestações; de autoridade diante do impasse da disputa política entre as instituições; de orgulho nacional diante da regressão econômica dos últimos quatro anos. Responde, também, à nostalgia das duas décadas da ditadura militar em franjas das classes médias exasperadas. Não fosse isso o bastante, conquistou visibilidade dando expressão à resistência de ambientes sociais atrasados e reacionários à luta do feminismo, do movimento negro e LGBT, ou até dos ecologistas.

4- O projeto político de Bolsonaro é um regime bonapartista. Isto significa a subversão do regime semipresidencialista estabelecido nos últimos trinta anos. Bolsonaro expressa o repúdio desta classe média contra as conquistas sociais e democráticas da Constituição de 1988. Bonapartismo, derivado de Bonaparte, inspirado pelo modelo francês, significa um regime autoritário em que a presidência se eleva acima das outras instituições, Congresso e Judiciário, e concentra poderes excepcionais, em nome da defesa da unidade da nação. Essa é a importância do slogan “Brasil acima de tudo”. Há vários tipos de bonapartismo. O projeto de Bolsonaro, apoiado na mobilização de um movimento de massas de desesperados, sugere o plano de um regime autoritário que, dependendo das condições da luta político-social, pode vir a adquirir formas semifascistas.

5- As relações de Bolsonaro com as instituições, tanto quanto é possível prever, indica uma forte representação das Forças Armadas e das polícias em seu possível governo. Bolsonaro não é um populista de direita como Trump. Não é, tampouco, somente um líder autoritário, que será, facilmente, neutralizado pela pressão dos principais chefes da classe dominante, depois de derrotar o PT nas eleições. Depois da vitória eleitoral, com uma provável maioria no Congresso para realizar as emendas que desejar na Constituição, e pleno suporte no Exército, Bolsonaro estará legitimado para o exercício do poder em condições que ninguém na presidência teve desde 1985.

6- Bolsonaro vem improvisando uma relação com a grande burguesia através da nomeação de Paulo Guedes como seu superministro da economia. Trata-se de uma improvisação que se acelera. O plano econômico apresentado é ultraliberal, com ênfase em privatizações indiscriminadas e aceleradas, choque fiscal brutal e ataque frontal aos direitos dos trabalhadores, começando por uma reforma de previdência. Sua estratégia é reposicionar o Brasil no mercado mundial ao lado dos EUA contra a China. Conta para isso com investimentos dos EUA no Brasil para sair da estagnação.

Esta estratégia é coerente com os planos estratégicos dos núcleos mais poderosos da burguesia interna, mas não pode ser aplicada sem que haja grande confronto social, porque não ocorreu, até agora, uma derrota histórica da classe trabalhadora brasileira. Uma derrota histórica acontece quando uma geração perde a confiança em si própria, e é necessário um intervalo histórico para que uma nova geração se coloque em movimento. Em 2015/16 o que aconteceu – o processo que culminou com o golpe parlamentar que derrubou o governo Dilma Rousseff – não foi uma derrota histórica. O que vivemos foi uma inversão desfavorável da relação social de forças: uma derrota político-social. Mas a evolução da situação reacionária, se não for revertida, é uma ameaça seríssima.

7- Bolsonaro não se apoia em um partido fascista. Usou como instrumento eleitoral um partido de aluguel. Mas esta debilidade orgânica foi compensada, amplamente, pela mobilização de um movimento de massas. E não anula sua caracterização como neofascista. Ele poderá, se vencer as eleições, construir um partido a partir do controle do Estado. Já está lançada uma campanha de filiações ao PSL que anuncia a intenção de conseguir dezenas de milhões de filiados.

8- Evidentemente, a imensa maioria dos eleitores de Bolsonaro não é fascista. Mas isso não anula que ele seja neofascista. Tampouco quer dizer que um núcleo duro minoritário dos seus eleitores não seja fascista. O que define um movimento, em primeiro lugar, é a sua direção. A audiência alcançada por Bolsonaro já é grande e dinâmica o bastante para que esta corrente política seja, neste momento, a maior no Brasil.

9- Subestimar Bolsonaro, ou a capacidade de sua corrente se articular no terreno internacional seria um grave erro. Existe uma Internacional de extrema direita, ainda em formas embrionárias, sendo construída no mundo, com financiamento robusto de alguns grandes grupos econômicos, que respondem ao projeto de uma fração do capitalismo norte-americano de oferecer resistência à ascensão da China como potência protoimperialista.

10- O financiamento da campanha eleitoral de Bolsonaro permanece, essencialmente, obscuro. No entanto, a potência de sua presença nas redes sociais sugere que há grupos empresariais seriamente engajados. Alguns destes grupos já são, amplamente, conhecidos.

Valerio Acary
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