9 de out de 2018

“Quem diria, hein, Aécio?” Da corrida presidencial aos ataques com garrafinha plástica


Quatro anos depois de receber dos mineiros 5,4 milhões de votos para presidente da República, Aécio Neves compareceu novamente neste domingo à seção eleitoral onde vota, instalada na Escola Estadual Governador Milton Campos, em Lourdes, bairro nobre de Belo Horizonte. Desta vez, não estava acompanhado da mulher, a ex-modelo Letícia Weber, mas cercado de parrudos seguranças. O número de repórteres e fotógrafos escalados para cobrir o evento era muitíssimo menor que em 2014, e a claque, por sua vez, bem menos amistosa.

Enquanto caminhava apressado e com um sorriso nervoso rumo à urna eletrônica, Aécio foi xingado de “ladrão”, “traidor” e “safado”, e foi atingido por uma garrafa de plástico, arremessada por um eleitor que aguardava a vez de votar. Um coro gritava “golpista, golpista, golpista…”. Um homem se aproximou dele é fulminou: ”Quem diria, hein, Aécio? Passar por isso! Que humilhação!”.



Neste ano, abatido pelas denúncias de corrupção e em especial pelo vazamento da gravação em que aparece pedindo R$ 2 milhões a Joesley Batista, sócio da JBS, Aécio não teve espaço em seu partido para disputar a reeleição para senador. Num primeiro momento, ele descartou concorrer a deputado federal, sob o argumento de que o recuo na carreira política (além de senador, ele foi governador de 2003 a 2010 e, em 2014, obteve o segundo lugar na eleição presidencial, com honrosos 48,36%) poderia parecer uma confissão de culpa ou, pior, uma busca pela manutenção do foro privilegiado no STF. Mais tarde, rendendo-se à dura realidade, acabou voltando atrás e disputando uma vaga na Câmara.

A expectativa era a de que Aécio fosse um dos mais votados em Minas, mas ele acabou tendo apenas 106 mil votos, ficando em 19º lugar entre os postulantes ao cargo no estado. Mesmo tendo ostentado um número de destaque (4500), não foi sequer o mais votado em sua coligação (5º lugar) ou em seu partido (2º lugar). Teve 2633 votos a menos que Zé Silva (Solidariedade), um engenheiro agrônomo que se fez político há menos de uma década na (hoje extinta) onda aecista.

Não para por aí a decaída daquele que, até pouco tempo atrás, era a maior aposta nacional no campo anti-PT. Franco favorito a reconquistar o cargo de governador de Minas, Antonio Anastasia (PSDB), afilhado político de Aécio, perdeu fôlego na reta final do primeiro turno, obtendo 29,06% dos votos válidos, ficando em segundo lugar, atrás do novato Romeu Zema, do Novo (42,73%). Com o mandato de senador garantido até o final 2022, Anastasia resistiu publicamente até onde pôde a concorrer ao cargo de governador, e só entrou na disputa por insistência de Aécio, que pretendia se esconder atrás do pupilo, melhor avaliado que ele em Minas atualmente. Agora, a coisa mudou de figura com a inesperada avalanche de votos do azarão Zema, que, tendo colado sua imagem à de Jair Bolsonaro, pegou carona na onda direitista que varre o país.


09-10-18-aecio-2-1539113267Caso Anastasia não consiga virar o jogo no segundo turno – uma tarefa hercúlea, diga-se de passagem -, Aécio ficará fora da cena principal da política mineira e não contará com o escudo que, durante os doze anos do mandarinato tucano no estado (2003-14), proporcionaram-lhe uma relação, digamos, especial com a imprensa e com órgãos locais, como a Justiça, o com Ministério Público e o com Tribunal de Contas.

Se em Minas a situação de Aécio Neves é delicada, dentro de seu partido não é melhor. Certamente será creditada em sua conta boa parte do derretimento do PSDB nas eleições deste ano – 99% dos redutos municipais tucanos foram conquistados pelo PSL de Jair Bolsonaro. Como Aécio se recusou a deixar o mandado de senador e demorou a abrir mão da presidência do PSDB após o escândalo da gravação com Joesley Batista, ele acabou por se tornar uma figura tóxica no ninho tucano. Não à toa, os candidatos do partido à Presidência da República, Geraldo Alckmin, e ao Governo de Minas Gerais se recusaram a aparecer publicamente a seu lado. Pelo visto, não adiantou muito.

O desastre para Aécio Neves só não foi completo porque, com a eleição para deputado federal, ele manteve o precioso foro privilegiado, o que fará com que seus casos mais cabeludos – o mineiro responde a seis inquéritos e uma ação penal no STF – continuem tramitando no esquema “com o Supremo, com tudo”, na definição sincera do senador Romero Jucá (MDB-RR). Jucá que, aliás, não foi reeleito.

Mesmo blindado pela morosidade e malemolência do STF, o tucano mineiro perdeu de vez qualquer chance de recuperar o antigo charme ou a galhardia herdada do avô Tancredo Neves. Depois de patrocinar uma envergonhada campanha eleitoral, em que não fez comícios ou participou de eventos públicos, Aécio está condenado, pelos próximos quatro anos, a vagar nas sombras pela Câmara e a lutar por migalhas do poder. Tendo sido um dos cabeças do golpe parlamentar que tirou Dilma Rousseff da Presidência em 2016, abrindo espaço para o crescimento de uma direita raivosa e de traços fascistas, Aécio seguirá no palco, mas ficará escondido atrás das cortinas.

“Quem diria, hein, Aécio?”

Lucas Figueiredo
No The Intercept
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Do exterior, dois ativistas comandam a disseminação de fake news em grupos de whatsapp pró Bolsonaro

De Portugal e dos EUA, eles administram ao menos 50 grupos que atingem cerca de 10 mil pessoas no Brasil. "Daí elas replicam e acaba viralizando na rede WhatsApp".

Carlos Nacli e Newton Martins 
Reprodução/Facebook
Juntos, eles administram ao menos 50 grupos de whatsapp disseminando fake news em prol da candidatura do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) que atingem cerca de 10 mil pessoas em uma primeira camada. “Diretamente abordamos 10 mil pessoas de todas as partes do Brasil. Daí elas replicam e acaba viralizando na rede WhatsApp”, diz Carlos Nacli, que propaga, da Europa – onde vive atualmente – também mensagens com cunho patriótico e nacionalista para a candidatura do militar da reserva.

Educador físico e ex-empresário de lutas de vale-tudo, Nacli mora atualmente em Portugal, e atua na guerra virtual de Bolsonaro ao lado de Newton Martins, brasileiro que vive hoje em Boston, nos Estados Unidos, e se classifica como ativista político, entusiasta das mídias sociais e servidor público nas redes sociais.

Newton também é administrador da página no Facebook do Movimento Nas Ruas, que tem mais de 810 mil seguidores e faz campanha abertamente para Bolsonaro, distribuindo memes e convocando protestos. O movimento é um dos que nasceram e ganharam força durante o golpe parlamentar ocorrido em 2016 e depois foram usados para disseminar ideologia da ultra-direita no país, seguindo a cartilha de Stevie Bannon, guru do movimento internacional ultra-liberal, ex-assessor de Trump, que atua na campanha de Bolsonaro.
Em entrevista, via whatsapp, ao jornal El País, Nacli diz que a atuação nas redes é “voluntária” para combater “notícias no mínimo tendenciosas para não falar maldosas no intuito de desconstruir o Bolsonaro”.

Ele admite que há uma guerra virtual nas eleições, segundo ele, entre a “grande mídia tendenciosa” e a mídia nas redes sociais, “onde tem de tudo, mas com certeza é mais democrática e está se mostrando mais poderosa”. “Temos a certeza que esse efeito multiplicador das redes sociais é mais forte que qualquer grande grupo, ainda mais quando eles lançam notícias maldosas. Em resumo, nosso trabalho aqui é fazer o feitiço virar contra o feiticeiro”, diz.

Morador de Curitiba até 3 meses atrás, Nacli diz ter se mudado para Portugal – país administrado por uma coalizão política de esquerda – porque o “Brasil está muito ruim”. “Lá independentemente de ideologias o básico que todo ser humano deveria ter tem”, diz, antes de declarar que não pretende voltar ao Brasil, mesmo com uma vitória de Bolsonaro.

Em sua página no Facebook, com pouco mais de 150 seguidores, Nacli é pouco atuante. No entanto, alguns vídeos publicados por ele, identificados como Programa Contra Ataque, aglutinam diversas fake news e mensagens que são disseminadas por apoiadores de Bolsonaro nas redes, sempre acompanhado de hashtags com alusões à candidatura do militar e sob a descreição “Somos o exército de Bolsonaro”.



Ativismo em Boston

No continente americano, Newton se mostra um soldado atuante do exército bolsonarista. Além de convocar passeatas e debates em pról das ideias do militar na terra de Donald Trump, ele se comunica pelas redes sociais e cumprimenta candidatos da extrema-direita, como Janaina Paschoal. “Minha amada venceu”, diz ele em post após a confirmação da eleição de uma das artífices do golpe ser confirmada na Câmara Federal.

Em vídeo divulgado na segunda-feira pós eleição (8), Newton cumprimenta os candidatos da extrema-direita pela eleição. “Parabéns a Carla Zambelli, a Janaina Paschoal, ao Alê Silva, vocês conseguiram, venceram as eleições. E é muito satisfatório saber que nós participamos dessa caminhada juntos com vocês”, diz, antes de anunciar o dia de descanso, antes de “voltar a lutar para eleger Bolsonaro presidente do Brasil no segundo turno”.



No Fórum
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“Neutralidade” de adesistas revela fragilidade de Bolsonaro



Com 46% dos votos no primeiro turno, a uma minúscula fração do eleitorado da vitória, a esta hora deveria estar chovendo apoio a Jair Bolsonaro.

À exceção, porém, de quem “já tinha ido”, como João Doria e Ana “do Relho” Amélia,  é praticamente nula a adesão, ainda mais com a tradição política brasileira de adesismo.

Nem se culpe a falta de interlocutores: com sete mandatos de deputado, o ex-capitão não é um ilustre desconhecido neste meio, como os seus prepostos nas eleições estaduais de Minas, o empresário Zema e o ex-juiz de extrema-direita Witzel.

Mas, nas aparições em vídeo que fez desde a eleição, apesar de dizer que queria “unir o Brasil” (assim, vagamente, como um dia disse Michel Temer), Bolsonaro não conseguiu produzir um movimento sequer de ampliação.

Conta, claro, com a transferência “automática” dos votos dos demais candidatos, em número suficiente para dar-lhe a vitória.

Mas, embora não possa precisar ainda o que é, 40 anos de vida política me fazem crer que o fato de não se formar uma fila à porta do capitão dá sinais que aquela gente, muito esperta como sempre, pressente algo.

Se não uma reversão do quadro, um desastre com a sua consumação.

Bolsonaro está soturno e duro, pode-se perceber em suas duas aparições televisivas.

O que fará, a partir de sexta-feira, quando tiver de encher com seu vazio de ideias – não parece que ele lê uma lista de itens, quando fala? – os dez minutos diários (dois blocos de 5′) de sua propaganda eleitoral?

Tenho afirmado aqui, desde antes do primeiro turno, que havia uma “onda” Bolsonaro e ela era um movimento furioso de energia.

E quem está acostumado a surfar em ondas, quando não a pega, tem suas boas razões.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Miriam Leitão, o Sistema e a rendição ao medo


Há três forças conflitantes no caminho de Jair Bolsonaro: a dos princípios, a do oportunismo e a da coragem/medo. É por aqui que o Sistema vai atuar.

A Globo é sistema. O STF (Supremo Tribunal Federal) é sistema. A Procuradoria Geral da República (PGR) é sistema, assim como os tribunais superiores, a alta burocracia pública, as Ordens de Advogados, as grandes corporações etc.

Um Ministro do STF é poderoso quando o Sistema funciona. E o funcionamento do sistema obedece a um pacto político-jurídico que nasceu com a democracia representativa e que tem como pilar central a Constituição:
  1. O pacto é selado em torno da Constituição.
  2. O STF funciona como o guardião da Constituição, interpretando e obrigando os demais agentes a cumprir o que diz a Constituição.
  3. A PGR atua como braço operacional em defesa da Constituição.
  4. Quando há desobediência aos preceitos legais, na ponta final há o poder de polícia para enquadrar o infrator.
Então, o poder do Ministro, lá do STF em Brasília, chega até a ponta, permitindo a regulação geral, a previsibilidade jurídica

O que aconteceu com a democracia brasileira?

Com a crise econômica instalou-se um mal-estar amplo na população. A Globo passou a instrumentalizar esse mal-estar através de suas manchetes e transmissões. Qualquer infração administrativa, tratada como crime pela Globo, resultava em endosso total pelo Ministério Público Federal e pela ação de polícia.

À medida em que o mal-estar avançava, a Globo ia atropelando todos os princípios constitucionais de presunção da inocência, de direitos individuais. E seus critérios de julgamento açulavam a massa e eram aceitos pelos Ministros do STF e pelos procuradores gerais, liberando a base de juízes e procuradores para praticar todo tipo de arbitrariedade.

A Globo usou e abusou dessas prerrogativas. E Ministros do Supremo, como Luís Roberto Barroso, aproveitaram para cavalgar a onda e tirar do caminho esse empecilho ao empreendedorismo jurídico: a Constituição. Justamemnte o pilar que impedia a casa do STF de cair.

Ministros, procuradores, jornalistas mostravam uma valentia indômita, de bater em um inimigo que sequer sabia se defender - o PT – e em um instituto que era a base do seu próprio poder – a Constituição.

Impuseram toda sorte de narrativas falsas, equiparando o inimigo “republicano” às milícias venezuelanas, ao terror na Nicarágua. Valentes até a medula, valentes de fancaria, valendo-se do seu poder para entrar em órbita, abandonando até os limites impostos pela Constituição.

Se o clamor das ruas lhes deu um poder divino, de poderem ser os arautos da rebelião das massas, porque Luiz Fux, Luis Barroso, iriam se submeter a uma mera Constituição preparada por humanos?

E a Constituição foi se esboroando. A cada dia, placas de legitimidade iam sendo arrancadas, expondo o aço e tijolo de uma corte sem alma. E assim foi,  plantando ódio a todo momento.

Na Globo, Miriam sempre foi uma campeã desse contorcionismo.

Como no dia em que denunciou que seu perfil na Wikipedia havia sido manipulado por um computador da extensa rede de computadores do Palácio. Uma alteração de nada, lembrando que ela errou em previsões econômicas. Mesmo que fosse grave, era uma ação individual de um usuário.

Imediatamente ergueu-se um clamor nacional contra as milícias digitais petistas, e uma presidente, ingênua até a medula, correu para pedir desculpas pelo ocorrido e abrir uma sindicância.

O segundo momento foi em uma manifestação em um avião, de sindicalistas contra a Globo. A manifestação foi filmada, divulgada por várias pessoas e em nenhum momento aparecia sequer o nome ou a figura de Miriam Leitão. Dois dias depois (!) ela aparece em sua coluna, com a indignação dos justos, dizendo-se vítima dessas hordas petistas, afirmando, inclusive, que marmanjos passavam por sua poltrona e davam esbarrões propositais, que nenhum outro passageiro viu, nenhum outro passageiro se manifestou. Mais um tijolo na construção da narrativa das milícias castristas, chavistas ou o escambau.

O Sistema ajudou a criar os fantasmas e, no meio da bruma, apareceu o lobo faminto. Instala-se o pânico no Sistema. E Miriam ousa um momento de grandeza, no Bom Dia Brasil, colocando a coragem e os princípios na frente do oportunismo, e reconhecendo o óbvio: com todos seus defeitos, o PT não é autoritário, enquanto Bolsonaro fez toda sua carreira em defesa da ditadura, da tortura e do preconceito. Enquanto que o PT nasceu e cresceu na democracia e jogou o jogo democrático.



Ampla repercussão! Só que, em vez de petistas indignados, mas jogando dentro das regras democráticas, contidos pelas normas do Sistema, Miriam se viu frente a frente com a malta bolsonariana e com a possibilidade concreta de se ter um Bolsonaro presidente.

Hoje, no Globo, Miriam joga a toalha: “Compromisso de Haddad e Bolsonaro com a democracia é alívio”. O que Bolsonaro fez? Uma mera declaração no Jornal Nacional.

Tempos atrás, a própria Miriam criticou o mercado por incorrer no “autoengano” de supor Bolsonaro um liberal, confiando apenas em meras declarações.

A reação de Miriam é uma antecipação do que será a reação de valentes Ministros do Supremo, da PGR, dos defensores da “refundação”, que ajudaram a jogar o país nesse atoleiro.

Tiveram excesso de coragem com os fracos – o que é sinônimo de covardia. E ausência absoluta de coragem com as ameaças reais.

Este é o país Macunaímico das falas de Barroso.

PS – A fala de Gerson Camarotti, repetindo o mesmo bordão, mostra que, depois de um dia de indefinições, a Globo já definiu qual será o discurso a ser adotado por seus comentaristas.



Luís Nassif
No GGN
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Para cão que rosna, o remédio é olhar firme e fala grossa!


Bolsonaro não passa de um cão doido, primário, com raciocínio binário de capacidade de processamento que não vai além de um bit. Nem para progredir no oficialato do exército serviu. Um bunda-suja, como dizem seus companheiros de farda. Saiu antes do tempo, porque seu comportamento depunha contra a disciplina e hierarquia da instituição. Pretendeu explodir privadas nos banheiros dos quartéis.

Na vida pública, com mandatos parlamentares sucessivos por mais de quarto de século, notabilizou-se pela grosseria, truculência e falta de escrúpulos no trato com todos, inclusive colegas parlamentares. O rol das barbaridades que saíram de sua boca sem freios é enorme e nem vale desfiá-las aqui. São notórias e o curioso pode vê-las, muitas, em cores, pelo YouTube.

Depois de buscar a solidariedade do público (solidariedade que não divide com ninguém, porque sua egolatria não lhe permite), por ter sido supostamente esfaqueado em Juiz de Fora, mostra, agora, no início do segundo turno das eleições presidenciais, que não aprendeu nada com o episódio. Volta mais prepotente do que nunca, pronto para dar rasteiras em seu adversário. À proposta civilizada de um pacto contra a mentira na campanha, respondeu desbocado, com uma mentira.

Mentir tem sido a linha de conduta de sua campanha, por sinal. O TSE já reiteradamente tem determinado que perfis de gente de sua tropa de choque em redes sociais fossem apagados, por conterem inverdades ofensivas deslavadas. Bolsonaro é o rei do fake-news, eufemismo com que se embeleza o nome da mentira pura e simples. Algumas são ridiculamente forçadas e, não fosse o ódio cego que se espalhou na malta que o adula, seriam incapazes de ludibriar o sujeito mais boçal. Mas ludibriam, porque não se trata, no fascismo disseminado por esse militar aposentado e travestido de político, de algo em que se acredita ou não – o bolsonarismo exige fé de seus adeptos. Fé incondicional. Cria-se, desse modo, um exército de fanáticos dispostos a tudo, até a fazer a apologia de assassinatos e de tortura.

Com fascismo não se brinca. Não é uma ideologia com que estamos lidando. Ideologias são por demais elaboraras para essa horda. O fascismo é uma prática política profundamente desleal, porque não respeita regras e nem adversários. Para cães fascistas, todos que não fazem parte de sua matilha são inimigos, inimigos prontos para serem aniquilados, exterminados, liquidados. Regras da democracia enxergam como fraqueza do “sistema”, que devem ser aproveitadas para lhes permitir a “tomada do poder”. E, uma vez instalados, eliminam as regras que lhes permitiram participar do espaço público, para criar as suas a ferro e fogo, no grito. A primeira regra é de que poder conquistado não se devolve. O revezamento de mandatos não faz parte de seu programa.

Fascistas brincam com medos, fobias e a insegurança de partes da sociedade. Atribuem os males que causam esses sentimentos a uma conspiração ficta de quem elegem ser seus alvos: comunistas, judeus, nordestinos, negros, agricultores sem-terra, petistas ou coisa que os valha. A estigmatização de grupos pelo ódio coletivo cria ambiente de confrontação entre o “nós” e “eles”, onde o “nós” é vendido como o lugar de segurança, blindagem e até aconchego num mundo de inimigos. Esse “nós” é o cerne da mentalidade de bando que caracteriza a cabeça fascista. As soluções para todos os males passa pelo “nós” e é sempre violenta. A apologia das armas letais faz parte do discurso de suas lideranças.

O fascismo não tem apego à democracia. Gosta de líderes totalitários. Alemanha, Itália e Espanha passaram por isso. E pagaram caro, com o sangue a vida de milhares valiosos resistentes. Quem o experimentou, tem amor pela liberdade e pavor pela prática fascista.

A eleição em 28 de outubro é o momento em que teremos que optar entre o fascismo dos cães doidos em torno de Bolsonaro e a democracia que, mesmo cheia de falhas, edifica, porque preza a liberdade e a igualdade de direitos. É optar entre a ditadura dos primários desqualificados e o governo democrático de quem respeita a diversidade.

Não há meias palavras para responder ao fascismo de Bolsonaro. Seu rosnar merece atitude firme, olho no olho, em defesa da constituição resultante de uma constituinte eleita. Constituição que por trinta anos nos permitiu amplamente participar do processo político, num esforço de aprimoramento das instituições. Constituição-cidadã, porque nos garante, a todas e todos, direitos fundamentais a nossa dignidade inerente e nos oferece mecanismos para defendê-los, quando ameaçados.

Com fascista se fala grosso e se lhes aponta o seu lugar numa democracia: fora daqui! Não usem nossas fragilidades para nos ameaçar e amordaçar. Vocês não prevalecerão!

Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça
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Sobre o Jornal Nacional de ontem

(1) O enquadramento simétrico - Haddad e o Coiso tendo que se defender das acusações de serem contra a democracia - mostra que a Globo permanece no discurso enganador dos "dois extremos". É possível que acabe com uma postura pró-Haddad, com medo sobretudo da relação íntima que o Coiso está estabelecendo com a Record, mas vai cobrar caro esse apoio, em termos de diluição do discurso e "moderação" do programa. Minha opinião? Não vale a pena pagar esse preço. A influência da Globo se mostrou declinante e o custo em termos da conexão com o eleitorado desgarrado do lulismo, que precisa ser conquistado será alto.

(2) Haddad fez bem em recuar da proposta absurda de Constituinte, que era impraticável, seria um desastre para o campo progressista caso ocorresse agora e só serviria mesmo, como serviu, para alimentar o mito da "venezuelização". Foi feio o modo como descartou Dirceu, mas, nas circunstâncias, diante da frase mais que inábil que o ex-comandante do lulismo proferiu, não creio que tivesse outra alternativa. O principal problema de conteúdo, a meu ver, foi que Haddad desperdiçou uma oportunidade importante para atacar o mar de mentiras que a campanha do Coiso está difundindo e que é o principal problema que sua campanha vai enfrentar. Quanto à forma, ele estava nervoso, ensaiado demais, duro e mostrando pouca disposição ofensiva. É o que temos, mas não tem desenvoltura como candidato. Precisa melhorar muito para marcar a diferença de que precisamos nos debates. E também faltou pelo menos uma menção ao nome de Lula.

(3) O Coiso é o Coiso. Um monumento à mentira e à estupidez. Incapaz de articular um raciocínio, tem a retórica de um chimpanzé amestrado não muito talentoso. Seu truque, digno de uma criança pequena se explicando para os pais, é falar mais baixo e bem rápido, de um jeito bem enrolado, quase ininteligível, aquilo que ele não quer que saibam - como a alíquota única de 20% nos impostos. Mas a pergunta é se isso o atrapalha. Temo que não, temo que a burrice colossal do Coiso amplie a identificação com seu eleitorado. Embora as circunstâncias sejam outras, a disputa de agora me faz lembrar o segundo turno de 1998 no DF. Concorriam o ex-governador Joaquim Roriz (hoje falecido) e o então governador Cristovam Buarque (também falecido, mas só politicamente). No último debate, um Roriz balbuciante, desnudado em sua incompetência, foi do começo ao fim humilhado por Cristovam. E virou a eleição dois dias depois. Não foi só isso, claro; Cristovam estava fazendo um péssimo governo, à base de factoides, e Roriz tinha uma larga clientela. Mas pesou a identificação com o humilhado e a repulsa à arrogância do professor.

(4) É triste assistir Jornal Nacional, não?

Luis Felipe Miguel
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Menos da metade dos deputados evangélicos reelegeu-se

ABr

Dos 82 parlamentares evangélicos que tentaram a reeleição na Câmara dos Deputados, apenas 37 conseguirem a vaga. É um dos menores índices de renovação das quatro principais bancadas suprapartidárias do Congresso – servidores, evangélicos, bala e agronegócio. O dado desfaz o mito da "superioridade eleitoral" dos evangélicos. 

A reportagem do jornal O Estado de S. Paulo destaca que "a bancada evangélica foi também a que proporcionalmente mais tentou a reeleição neste ano. De acordo com os registros de candidaturas, 84% dos 82 parlamentares que compõe esse grupo tentaram garantir um retorno ao mesmo cargo no próximo ano. Um dos que não concorreu ao cargo de deputado federal, foi o Cabo Daciolo (Patriota-RJ) que concorreu à Presidência da República".

A queda da bancada, no entanto, não significa que a renovação inexistiu: "assim como a bancada da segurança, também chamada de "bancada da bala", a dos evangélicos deve ganhar novos parlamentares, principalmente com a ascensão do PSL, de Jair Bolsonaro e a tendência é de crescimento do lobby. Para a próxima legislatura, um dos objetivos deste grupo é evitar mudanças em questões ligadas ao aborto e às drogas".
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Quem vai apunhalar o Temer


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Sinais, fortes sinais



Em SP, eleitores de Bolsonaro oferecem capim à população; em Curitiba, carro é jogado contra jornalista com camiseta de Lula
Durante carreata realizada nesta terça-feira,9/10, na cidade de São Paulo

Em Curitiba, carro é jogado contra eleitor que vestia camiseta com imagem de Lula

Ataques violentos na rua por causa de política são resultado de discurso de ódio

A onda de intolerância provocada pelos discursos de ódio contra as minorias e partidos de esquerda vem fazendo vítimas em Curitiba e todo o Brasil. No último domingo (07), o jornalista Guilherme Daldin vestia uma camiseta com a imagem do ex-presidente Lula e estava acompanhado de amigos nas proximidades da Rua Trajano Reis, no centro de Curitiba, quando foi atropelado por um carro. Daldin estava parado ao lado de um bicicletário.

“Eu conversava com os amigos e o carro foi jogado contra mim, o pneu passou por cima dos meus pés. O carro saiu em disparado e quando amigos conseguiram chegar perto do motorista ele ameaçou atirar dizendo que portava uma arma”.

A placa do carro foi identificada e através dela foi possível encontrar o perfil do facebook do motorista que revela em suas postagens ódio e pedido de morte a quem apoia o PT. “O que aconteceu comigo é leve comparado a outros casos de violência praticados por grupos de milícia proto fascista que apoiam Bolsonaro que é um candidato que faz a campanha incitando ódio”, disse Daldin.

Sobre a intolerância, a jornalista Eliane Brum, em artigo dessa semana, escreveu que “projetos que não acolham as diferenças, que querem eliminar – e inclusive exterminar – as diferenças e executar aqueles que encarnam as diferenças, estes não cabem na democracia. Porque defender a eliminação dos diferentes, dizendo que não deveriam existir ou que valem menos que os outros, não é uma opinião, mas um crime”.

Propaganda na delegacia

Ao fazer o Boletim de Ocorrências na delegacia, Guilherme Daldin conta que foi recebido por um escrivão com seu computador cheio de adesivos do candidato Bolsonaro. Ele se pronunciou nas suas redes sociais dizendo se sentir aflito com a situação: “Primeiro que é um computador de órgão público, isso é crime. Me senti angustiado porque vivemos um processo de violência pura”. Bolsonaro é conhecido por seus discursos que incitam ódio e violência. Em entrevista chegou a dizer que se for preciso manda matar uns 30 mil no país.

Aos gritos de “Viva Bolsonaro”, homossexual é assassinado

Na semana que antecedeu as eleições, em Curitiba, o cabeleireiro José Carlos de Oliveira Motta, conhecido como Cacá, foi encontrado morto em seu apartamento. Homossexual, morava sozinho e foi encontrado dentro do armário com os pés amarrados. Moradores do prédio e uma amiga da vítima dizem ter ouvido o suposto assassino gritar “Viva Bolsonaro” ao interfone, após saber da confirmação da morte. Ele foi detido e as investigações seguem em sigilo.

Mestre de capoeira de 67 anos é assassinado por apoiador de Bolsonaro

Na Bahia, também no domingo, o mestre de capoeira Moa do Katendê, de 63 anos, foi assassinado com 12 facadas nas costas em um bar em Salvador (BA). O assassinato foi cometido por um apoiador do candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro (PSL), após uma discussão sobre as eleições.

Educador, compositor, artesão e liderança do movimento negro e da cultura no estado da Bahia, Mestre Moa declarou seu apoio a Fernando Haddad (PT) no primeiro turno das eleições e defendia o voto no petista. A Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) informou que o homem que cometeu o assassinato foi preso em flagrante. O autor do crime admitiu que, após uma discussão de caráter político, voltou a sua casa e buscou a faca que utilizou no homicídio.

No final da década de 1980, o mestre ministrou aulas de capoeira e percussão para crianças em projetos na Fundação Nacional de Assistência Social, na antiga Febem e SOS Criança.

Na época, também participou do Movimento de Artistas Negros de São Paulo com projetos musicais Negra Música (1988) e venha ao Vale (1989), ao lado de Jorge Ben Jor. Na capital paulista, fundou o Afoxé Amigos de Katendê. Mestre Moa membro da Associação Brasileira de Capoeira Angola, discípulo de mestre Bobó de Pastinha e era descrito por capoeiristas como “uma biblioteca viva, um museu vivo da história da arte afro brasileira”.

Ele era um defensor da reafricanização da juventude e do Carnaval da Bahia.

Ana Carolina Caldas
Do Brasil de Fato/Curitiba (PR)
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Um juiz fora da lei

Bretas parabeniza Flávio Bolsonaro e Arolde de Oliveira por eleição para o Senado


O juiz da 7ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro Marcelo Bretas, responsável pelos processos da operação “lava jato” no estado, parabenizou Flávio Bolsonaro (PSL) e Arolde de Oliveira (PSD) por terem sido eleitos para representar o Rio no Senado.





Flávio Bolsonaro agradeceu às felicitações do juiz Marcelo Bretas.


Reprodução


“Parabenizo os novos Senadores, ora eleitos pera representar o Estado do Rio de Janeiro a partir de 2019, Flavio Bolsonaro e Arolde de Oliveira. Que Deus os abençoe!”, escreveu Bretas em seu perfil no Twitter, na noite deste domingo (7/10).

Os dois foram os únicos candidatos eleitos parabenizados pelo juiz federal.

Essa não é a primeira vez que Bretas demonstra apoio à família Bolsonaro. Durante a campanha eleitoral, o juiz federal curtiu algumas publicações do candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL), além de compartilhar notícias que envolvem o capitão da reserva, segundo o jornal Folha de S.Paulo.

Em agosto, Bretas curtiu uma postagem de Bolsonaro em que o presidenciável elogiava o sistema de educação da Coreia do Sul. No mês seguinte, o juiz federal publicou uma notícia sobre pesquisa eleitoral em que o militar aparecia na frente com a frase: "É chegada a hora da decisão. Participemos todos do processo eleitoral. Informe-se e escolha seus candidatos". O perfil de Bretas depois apagou algumas publicações e deixou de mostrar as interações com as páginas de presidenciáveis.

Marcelo Bretas disse que não manifestou preferência a nenhum candidato. “Entendo que, ao 'curtir' uma postagem, apenas manifesto minha concordância com determinado tema ou proposta, sem que isso represente um apoio a qualquer candidato. Eventualmente apoio ideias, mas não pessoas ou candidatos”, afirmou o juiz.

Apoio proibido

A Lei Orgânica da Magistratura (Lei Complementar 35/1979) proíbe o juiz de participar de atividade político-partidária.

Por sua vez, o Provimento 71 da Corregedoria Nacional de Justiça dispõe, entre outros pontos, que o magistrado deve agir com reserva, cautela e discrição ao publicar seus pontos de vista nos perfis pessoais nas redes sociais, evitando a violação de deveres funcionais e a exposição negativa do Poder Judiciário.

Também orienta que o magistrado evite, nesses canais, pronunciamentos oficiais sobre casos em que atuou e publicações que possam ser interpretadas como discriminatórias de raça, gênero, condição física, orientação sexual, religiosa e de outros valores ou direitos protegidos ou que comprometam os ideais defendidos pela Constituição da República.

Para o corregedor nacional de Justiça, Humberto Martins, essas normas proíbem o magistrado de apoiar candidatos a cargos eletivos em redes. “O juiz tem que ser prudente, sensível, sábio, e expressar sua opinião apenas através do voto [nas eleições]”, disse.

No ConJur
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Democratas brasileiros, uni-vos!

A democracia brasileira está à beira do abismo. O golpe institucional que se iniciou com o impeachment da Presidente Dilma e prosseguiu com a injusta prisão do ex-presidente Lula da Silva está quase consumado. A consumação do golpe significa hoje algo muito diferente do que foi inicialmente pensado por muitas das forças políticas e sociais que o protagonizaram ou dele não discordaram. Algumas dessas forças agiram ou reagiram no convencimento genuíno de que o golpe visava regenerar a democracia brasileira por via da luta contra a corrupção; outros entendiam que era o modo de neutralizar a ascensão das classes populares a um nível de vida que mais tarde ou mais cedo ameaçaria não apenas as elites, mas também as classes médias (muitas delas produto das políticas redistributivas contra as quais agora se viravam). Obviamente, nenhum destes grupos falava de golpe e ambos acreditavam que a democracia era estável. Não se deram conta de que havia três bombas-relógio construídas em tempos muito diversos, mas podendo explodir simultaneamente. Se tal ocorresse, a democracia revelaria toda a sua fragilidade e possivelmente não sobreviveria.

A primeira bomba-relógio foi construída no tempo colonial e no processo de independência, foi acionada de modo particularmente brutal várias vezes ao longo da história moderna do Brasil, mas nunca foi eficazmente desativada. Trata-se do DNA de uma sociedade dividida entre senhores e servos, elites oligárquicas e povo ignaro, entre a normalidade institucional e a violência extra-institucional, uma sociedade extremamente desigual em que a desigualdade socioeconômica nunca se separou do preconceito racial e sexual. Pese embora todos os erros e defeitos, os governos do PT foram os que mais contribuíram para desativar essa bomba, criando políticas de redistribuição social e de luta contra a discriminação racial e sexual  sem precedentes na história do Brasil. Para a desativação ser eficaz seria necessário que essas políticas fossem sustentáveis e permanecessem  por várias gerações a fim de a memória da extrema desigualdade e crua discriminação deixar de ser politicamente reativável. Como tal não aconteceu, as políticas tiveram outros efeitos, mas não o efeito de desativar a bomba-relógio. Pelo contrário, provocaram quem tinha poder para a ativar  e a fazê-lo quanto antes, antes que fosse tarde demais e as ameaças para as elites e classes médias se tornassem irreversíveis. A avassaladora demonização do PT pelos média oligopolistas, sobretudo a partir de 2013, revelou a urgência com que se queria pôr fim à ameaça.

A segunda bomba-relógio foi construída na ditadura militar que governou o país entre 1964 e 1985 e no modo como foi negociada a transição para a democracia. Consistiu em manter as Forças Armadas (FFAA) como última garantia da ordem política interna e não apenas como garantia da defesa contra uma ameaça estrangeira, como é normal nas democracias.  “Último” quer dizer em estado de prontidão para intervir em qualquer momento definido pelas FFAA como  excepcional. Por isso, não foi possível punir os crimes da ditadura (ao contrário da Argentina, mas na mesma linha do Chile) e, pelo contrário, os militares impuseram aos constituintes de 1988, 28 parágrafos sobre o estatuto constitucional das FFAA. Por isso, também muitos dos que governaram durante a ditadura puderam continuar a governar como políticos eleitos no congresso democrático. Apelar à intervenção militar e à ideologia militarista autoritária ficou sempre latente, pronta a explodir. Por isso, quando os militares começaram a intervir mais ativamente na política interna nos últimos meses (por exemplo, apelando à permanência da prisão de Lula), isso pareceu normal dadas as circunstâncias excepcionais.

A terceira bomba-relógio foi  construída nos EUA a partir de 2009 (golpe institucional nas Honduras), quando o governo norte-americano se deu conta de que o sub-continente estava fugindo de seu controle mantido sem interrupção (com excepção da “distração” em Cuba) ao longo de todo o século XX.  A perda de controle continha, agora, dois perigos para a segurança dos EUA:  o questionamento do acesso ilimitado aos imensos recursos naturais e a presença cada vez mais preocupante da China no continente, o país que, muito antes de Trump, fora considerado a nova ameaça global à unipolaridade internacional conquistada pelos EUA depois da queda do Muro de Berlim. A bomba começou então a ser construída, não apenas com os tradicionais mecanismos da CIA e da Escola Militar das Américas, mas sobretudo com novos mecanismos da chamada defesa da “democracia amiga da economia de mercado”.  Isto significou que, além do governo dos EUA,  a intervenção poderia incluir organizações da sociedade civil vinculadas aos interesses econômicos dos EUA (por exemplo, as financiadas pelos irmãos Koch). Portanto, uma defesa da democracia condicionada pelos interesses do mercado e, por isso, descartável sempre que os interesses o exigissem. Esta bomba-relógio mostrou que já estava operando no Brasil a partir dos protestos de 2013. Foi melhorada com a oportunidade histórica que a corrupção política lhe ofereceu. O grande investimento norte-americano no sistema judicial vinha do início dos anos de 1990, na Rússia pós-soviética e também na Colômbia,  entre muitos outros países. Quando a questão não é de “regime change”, a intervenção tem de ser despolitizada. A luta contra a corrupção é isso. Sabemos que os dados mais importantes da operação Lava Jato foram fornecidos pelo Departamento de Justiça dos EUA. O resto foi resultado da miserável “delação premiada”. O juiz Sergio Moro transformou-se no agente principal dessa intervenção imperial. Só que a luta contra a corrupção por si só não seria suficiente no caso do Brasil.  Era suficiente para neutralizar a aliança do Brasil com a China no âmbito dos BRICS, mas não para abrir plenamente o Brasil aos interesses das multinacionais.  É  que, em resultado das políticas dos últimos quarenta anos (e algumas vindas da ditadura), o Brasil teve até há pouco imensas reservas de petróleo fora do mercado internacional,  tem duas importantes empresas públicas e dois bancos públicos, e 57 universidades federais completamente gratuitas. Ou seja, é um país muito longe do ideal neoliberal, e para dele o aproximar é preciso uma intervenção mais autoritária, dada a aceitaçao das políticas sociais do PT pela população brasileira. E assim surgiu Jair Bolsonaro como candidato “preferido dos mercados”. O que ele diz sobre as mulheres, os negros ou os homosexuais ou a tortura pouco interessa aos “mercados”, desde que a sua política econômica seja semelhante à do Pinochet no Chile. E tudo leva  a crer que será porque o seu economista-chefe tem conhecimento direto dessa infame política chilena. O político de extrema-direita norte-americano Steve Bannon apoia Bolsonaro, mas é apenas o balcão da frente do apoio imperial. Os analistas do mundo digital estão surpreeendidos com a excelência da técnica da campanha bolsonarista nas redes sociais. Inclui micro-direcionamento, marketing digital ultra-personalizado, manipulação de sentimentos, fake news etc. Para quem assistiu na semana passada na televisão pública norte-americana (PBS) ao documentário intitulado “Dark Money”, sobre a influência do dinheiro nas eleições dos EUA, pode concluir facilmente que as fake news (sobre crianças, armas e comunismo etc.) no Brasil são tradução em português das que o “dark money” faz circular nos EUA para promover ou destruir candidatos. Se alguns dos centros de emissão de mensagens estão em Miami e Lisboa é pouco relevante (apesar de verdadeiro).

A vitória de Jair Bolsonaro no segundo turno significará a detonação simultânea destas três bombas-relógio. Dificilmente a democracia brasileira sobreviverá à destruição que causarão. Por isso, o segundo turno é uma questão de regime, um autêntico plebiscito sobre se o Brasil deve continuar a ser uma democracia ou passar a ser uma ditadura de tipo novo. Um livro meu, muito recente, circula hoje bastante no Brasil. Intitula-se “Esquerdas do Mundo, uni-vos!”. Mantenho tudo o que digo aí, mas o momento obriga-me a um outro apelo mais amplo: Democratas brasileiros, uni-vos! É certo que a direita brasileira revelou nos últimos dois anos um apego muito condicional à democracia, ao alinhar com o comportamento descontrolado (mas bem controlado em outras paragens) de parte do judiciário, mas estou certo de que largos setores dela não estarão dispostos a suicidar-se para servir “os mercados”.  Têm de unir-se ativamente na luta contra Bolsonaro. Sei que muitos não poderão recomendar o voto em Haddad, tal é o seu ódio ao PT. Basta que digam: não votem em Bolsonaro. Imagino e espero que isso seja dito, publicamente e muitas vezes, por alguém que em tempos foi um grande amigo meu, Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente do Brasil e, antes disso, um grande sociólogo e doutor Honoris Causa  pela Universidade de Coimbra, de quem eu fiz o elogio. Todos e todas (as mulheres não vão ter nos próximos tempos um papel mais decisivo para as suas vidas e a de todos os brasileiros) devem envolver-se ativamente e porta a porta. E é bom que tenham em mente duas coisas. Primeiro, o fascismo de massas nunca foi feito de massas fascistas, mas sim de minorias fascistas bem organizadas que souberam capitalizar nas aspirações legítimas dos cidadãos comuns que desejam viver com um emprego digno e em segurança. Segundo, ao ponto que chegamos, para assegurar uma certo regresso à normalidade democrática não basta  que Haddad ganhe, tem de ganhar por uma margem folgada.

Boaventura de Sousa Santos, sociólogo português
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O STF e a maldição da Constituição estuprada


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A internacional capitalista impôs o seu candidato

A internacional capitalista encontrou em um ex-militar xenófobo, misógino e homofóbico chamado Jair Bolsonaro a figura para conquistar a Presidência do Brasil através dos votos, diante da incapacidade dos golpistas de 2016 para realizar as reformas estruturais que garantam a nula intervenção do Estado nas relações capital-trabalho e nas transações comerciais e financeiras, o “mercado livre” em estado puro.

O trabalho para impor esse discurso no imaginário coletivo dos brasileiros, imersos em uma profunda crise com mais de 13 milhões de desempregados, começou há mais de uma década, a partir dos think tanks do movimento ultraliberal, um enorme financiamento e a ativa participação das igrejas evangélicas, que tiveram um papel crucial na campanha eleitoral e na construção do imaginário coletivo cheio de golpes baixos e fake news (mentiras), como é habitual nesta época de pós-verdade.

A internacional capitalista existe, é organizada pelo movimento libertário de extrema direita, ou os ultraliberais (em inglês, são chamados de libertarians). Obviamente, está muito bem financiada, graças a um imenso conglomerado de fundações, institutos, ONGs, centros e sociedades unidas entre si por conexões difíceis de detectar, entre os quais se destaca a Atlas Economic Research Foundation, ou Rede Atlas.

No Foro Latino-Americano da Liberdade, organizado pela Rede Atlas, que aconteceu no luxuoso hotel Brick de Buenos Aires, em maio de 2017 – com a presença do presidente argentino Mauricio Macri e do escritor peruano-espanhol Mario Vargas Llosa –, os debates abordaram a temática de como derrotar o socialismo em todos os níveis, desde as batalhas campais nas universidades até a mobilização de um país para abraçar a destituição de um governo constitucional, como aconteceu no Brasil.

Quando uma das crises estruturais do capitalismo se fez sentir, em meados dos anos 70, a operação desta rede de intelectuais já se encontrava bastante avançada. Um dos seus campos de experimentação foi o Chile do ditador Augusto Pinochet, levado ao poder pelo golpe de Estado de 1973, promovido pelos Estados Unidos. Daí por diante passaram a proliferar artigos, livros, entrevistas radiofônicas e outros materiais críticos ao conceito de Estado de bem-estar, e esse material foi globalizado pela rede de terrorismo mediático dos grandes conglomerados cartelizados.

Independente das causas reais que impulsaram a socialdemocracia a instaurar o Estado de bem-estar nos países do centro capitalista, especialmente na Europa ocidental, o que contrariava o capitalismo era a regulação das relações capital-trabalho, as políticas redistributivas e os serviços de educação e saúde gratuitos, além da fortaleza dos sindicatos e das organizações populares.

Com os governos de Margaret Thatcher no Reino Unido, e de Ronald Reagan nos Estados Unidos, vieram os processos de privatização, desindustrialização, desregulação, estrangeirização e demolição do Estado de bem-estar, o que significava sobretudo desregular o mercado de trabalho. Mas seu maior sucesso foi, como expressou a própria Thatcher, o de fazer até mesmo os partidos socialdemocratas europeus se converterem ao credo neoliberal – além do britânico Tony Blair, o espanhol Felipe González também foi um exemplo destacado dessa virada de casaca.

As atividades da Rede Atlas começaram em 1981, na cidade de San Francisco, a partir de um sujeito chamado Anthony Fisher, que começou a desenhado o emaranhado de redes e fundações que o público percebia como instituições acadêmicas e imparciais. Logo, cresceram as filiais – com diferentes nomes – em outros países, especialmente os da América Latina e da Europa Oriental, após o fim da União Soviética.

Em 1991, a direção da Atlas passou às mãos do argentino-estadunidense Alejandro Chafuen, que havia apoiado o golpe militar de 1976 na Argentina e desde então dedica sua vida à destruição dos movimentos e governos progressistas na América Latina.

Gigantes corporativos como a ExxonMobil e Mastercard se uniram aos doadores da Atlas, que se “prestigiou” com figuras destacadas entre os ultraliberais, como as fundações associadas com o investidor John Templeton (fundos abutre) e os megamilionários irmãos Charles e David Koch. Assim começaram a surgir as numerosas fundações e organizações conservadoras que hoje compõem a rede.

A administração de Donald Trump está repleta de ex-alunos de grupos relacionados com a Atlas e amigos da rede. Sebastian Gorka, assessor islamofóbico de contraterrorismo de Trump, dirigiu um grupo de reflexão respaldado pela Atlas na Hungria. O vice-presidente Mike Pence já assistiu a eventos da Atlas. A secretária de Educação estadunidense Betsy DeVos liderou (junto com Chafuen) o Instituto Acton, um grupo de reflexão de Michigan que desenvolvia argumentos religiosos a favor das políticas dos ultraliberais, e que agora mantém uma filial no Brasil, o Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista.

Mas a figura principal da rede hoje é Judy Shelton, economista que assumiu a direção da Fundação Nacional para a Democracia (NED, por sua sigla em inglês), após ser conselheira da campanha de Trump. Para Chafuen, o caminho está traçado: mais grupos de reflexão, mais esforços para dizimar governos esquerdistas e mais devotos e alunos da Atlas elevados aos mais altos níveis de governo em todo o mundo.

Entre outras atividades, a Rede Atlas produz vídeos virais no YouTube que difundem a propaganda ultraliberal, para contribuir com a reconfiguração do mapa político da América Latina – funcionando, portanto, como um braço da política imperialista estadunidense.

Vários líderes ligados à Atlas obtiveram notoriedade ultimamente: ministros do governo conservador argentino, senadores bolivianos e dirigentes do Movimento Brasil Livre (MBL) que ajudaram a derrubar a presidenta constitucional Dilma Rousseff.

A rede ajudou a alterar o poder político em diversos países e se tornou uma extensão da política exterior dos Estados Unidos – os think tanks associados à Atlas são financiados pelo Departamento de Estado e pela NED organismo importante do soft power estadunidense, patrocinado pelos ultraconservadores irmãos Koch.

A NED e o Departamento de Estado contam com entidades públicas que funcionam como centros de operação e distribuição de parâmetros e fundos, como a Fundação Pan-Americana para o Desenvolvimento (PADF, em sua sigla em inglês), a Freedom House e a Agência de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (conhecida como USAid), e são os principais entes que estipulam as diretrizes e os recursos, exigindo resultados concretos na guerra assimétrica que promovem.

A Rede Atlas conta com 450 fundações e grupos de reflexão e pressão, e com um orçamento operativo de 5 milhões de dólares (2016), graças às contribuições de organizações “sem fins de lucro” associadas, que apoiaram as diferentes frentes estabelecidas em cada país como o MBL no Brasil e a Fundação Pensar na Argentina, que foi o principal think tank da Atlas no apoio ao partido PRO (Proposta Republicana), criado por Mauricio Macri; além das forças de oposição na Venezuela e o candidato da direita nas eleições presidenciais chilenas, Sebastián Piñera.

Ao todo, a Rede Atlas possui 13 entidades afiliadas no Brasil, 12 na Argentina, 11 no Chile, 8 no Peru, 5 no México e na Costa Rica, 4 no Uruguai, Venezuela, Bolívia e Guatemala, 2 na República Dominicana, Equador e El Salvador, e uma na Colômbia, no Panamá, Bahamas, Jamaica e Honduras.

Os líderes do MBL e os da Fundação Eléutera – um grupo de “especialistas” neoliberais extremamente influente no cenário pós-golpe hondurenho – receberam financiamento da Atlas e formam parte da nova geração de figuras políticas que passaram pelos seminários de treinamento nos Estados Unidos.

A extrema direita “moderna” é o movimento libertário de extrema direita, que hoje navega sob a bandeira do republicanismo, e que baseia o seu acionar numa deliberada estratégia de desinformar as maiorias para impor suas políticas plutocráticas.

O impulsor deste movimento é o multimilionário Charles Koch, que adotou a tese de James McGill Buchanan – economista da Universidade de Chicago e Prêmio Nobel de economia de 1986 – para desarmar o Estado progressista, com uma estratégia operativa em defesa da santidade dos direitos de propriedade privada e da superação dos modelos estatais. Segundo ele, para que o capitalismo prospere é preciso cercear a democracia.

Entre as organizações mais importantes financiadas por Koch está o Centro Internacional para a Iniciativa Privada (CIPE, em sua sigla em inglês), filiado à NED. O CIPE teve um papel primordial no crescimento e na difusão das ideias da Rede Atlas, além de ser uma das forças principais que atuam para manter os diferentes membros conectados em todo o mundo.

No Brasil

As entidades que trabalharam juntas para atacar as políticas distributivas do Partido dos Trabalhadores (PT) manipularam um grande número de escândalos de corrupção, criaram centros acadêmicos e treinaram ativistas para o combate permanente nos meios e através das redes sociais, para dirigir a maior parte da revolta contra Dilma Rousseff, exigindo sua derrubada e o fim das políticas de bem-estar social.

Os meios internacionais comparam a revolta brasileira com o movimento estadunidense Tea Party, devido ao apoio tácito dos conglomerados industriais locais e uma nova rede de atores midiáticos de extrema direita e tendências conspiratórias. Helio Beltrão, executivo de um fundo de investimentos de alto risco que agora dirige o Instituto Mises (recebeu o nome do filósofo ultraconservador Ludwig von Mises), diz que, com o apoio da Rede Atlas, agora existem cerca de 30 instituições no Brasil “sem fins de lucro” atuando e colaborando entre si, como é o caso do MBL.

Entre elas, pode-se destacar:

– O Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista do Rio de Janeiro, um think tank religioso da Atlas que desenvolve argumentos teológicos para políticas que beneficiem os empresários e os negócios. O centro reproduz o modelo do Instituto Acton. Seu diretório editorial inclui Alejandro Chafuen e o advogado Ives Gandra da Silva Martins, que preparou o ofício para o processo que levou ao impeachment de Dilma Rousseff, e os argumentos da defesa para impedir um processo semelhante contra o seu sucessor, o golpista Michel Temer.

– O instituto Millenium, think tank jurídico, também do Rio de Janeiro, que promove atividades para favorecer soluções de livre mercado no Brasil. O grupo foi fundado em 2006 e recebe financiamento de várias grandes corporações com sede no país: Bank of America, Merryll Lynch, Grupo RBS, Gerdau e Am-Cham Brazil, o grupo de empresas estadunidenses no país. O Instituto Millenium foi particularmente ativo na promoção das manifestações de rua contra a presidenta Dilma Rousseff.

– O Instituto Liberal, fundado em 1983 por Donald Stewart Jr., magnata da construção e ativista libertário, que fez boa parte da sua fortuna com contratos ligados à USAid no Brasil, durante a ditadura militar. Este instituto estava entre os primeiros sócios da Rede Atlas na América Latina. Foi financiado parcialmente pela NED e pela CIPE.

É como um time de futebol: a defesa é a academia e os políticos são os atacantes. No meio de campo estão os que produzem conteúdo cultura, e são os encarregados do manejo midiático e da desinformação e manipulação da opinião pública.

Essas entidades patrocinam blogueiros e comentaristas incendiários, entre eles Rodrigo Constantino, conhecido como o Breibart brasileiro – Breitbart News Network é um portal de ultradireita abertamente libertário e pró Israel, criado pelo empresário Andrew Breitbart, durante uma visita a Tel Aviv, em 2007. Constantino polariza a política brasileira com uma retórica ultra sectária. Propenso a permanentes teorias conspirativas, ele preside o Instituto Liberal e popularizou uma narrativa segundo a qual os defensores do PT seriam uma “esquerda caviar”, ricos hipócritas que abraçam o socialismo para se sentir moralmente superiores, mas que na verdade desprezam as classes trabalhadoras que afirmam representar.

A “breitbartização” do discurso é apenas uma das muitas formas sutis pelas quais a Rede Atlas influi no debate político.

Fernando Schüler, acadêmico e colunista associado ao Instituto Millenium, se encarrega de atacar os 17 mil sindicatos do país, e afirma que “com a tecnologia, as pessoas poderiam participar diretamente, organizando por WhatsApp, Facebook e YouTube uma espécie de manifestação pública de baixo custo” (é o que ele entende como participação popular).

A Rede Atlas se dedica precisamente a isso: oferecer bolsas e ajudar para novos grupos de reflexão e laboratórios de ideias, com cursos realizados em todo o mundo, dedicando recursos especiais para induzir os libertários de ultradireita a influir na opinião pública através das redes sociais e vídeos online.

Conclusão

É verdade que o desempenho da direita no primeiro turno eleitoral foi impressionante e trouxe surpresas, como a eleição de figuras identificadas com o bolsonarismo nos governos estaduais e em cargos do Legislativo. Há três semanas, o quadro eleitoral estava definido, com as candidaturas de centro e de esquerda (não opostas ao PT de Lula da Silva) com 42% dos votos, enquanto a soma dos candidatos anti PT mostravam quase 57,6%.

Hoje, há uma consciência no Brasil de que Bolsonaro é apenas o cartão de visitas de algo muito maior, o ultraliberalismo transnacional. O segundo turno será no dia 28 de outubro e apresenta às forças de esquerda o mesmo desafio: construir um bloco democrático, vital para defender a democracia e frear o fascismo.

Álvaro Verzi Rangel é codiretor do Observatório em Comunicação e Democracia (OCD) e do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE). Com apoio das equipes de investigação do OCD e do CLAE.

Do estrategia.la
Tradução de Victor Farinelli
No Desacato
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Fernando Haddad defende Míriam Leitão dos fascistas




O que disse Míriam Leitão:


A resposta de Bozo ao pacto:


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Sua tia não é fascista, ela está sendo manipulada

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Você se pergunta como um candidato com tão poucas qualidades e com tantos defeitos pode conseguir o apoio quase que incondicional de grande parte da população?
Você já tentou argumentar racionalmente com os eleitores deles, mas parece que eles estão absolutamente decididos e te tratam imediatamente como inimigo no mais leve aceno de contrariedade?

Até sua tia, que sempre foi fofa com você, agora ataca seus posts sobre política no facebook?

Pois bem, vou contar uma história.

O principal nome dessa história é um sujeito chamado Steve Bannon. Bannon tinha uma visão de extrema direita nacionalista. Ele tinha um site no qual expressava seus pontos de vista que flertavam com o machismo, com a homofobia, com a xenofobia, etc. Porém, o site tinha pouca visibilidade e seu sonho era que suas ideias se espalhassem com mais força no mundo.

Para isso, Bannon contratou uma empresa chamada Cambridge Analytica. Essa empresa conseguiu dados do facebook de milhões de contas de perfis por todo mundo. Todo tipo de dado acumulado pelo facebook: curtidas, comentários, mensagens privadas. De posse desses dados e utilizando algoritmos, essa empresa poderia traçar perfis psicológicos detalhados dos indivíduos.

Tais perfis seriam então utilizados para verificar quais indivíduos estariam mais predispostos a receber as mensagens: aqueles com disposição de acreditar em teorias conspiratórias sobre o governo, por exemplo, ou que apresentavam algum sentimento de contrariedade difuso ao cenário político atual.

A estratégia seria fazer com que esse indivíduo suscetível a essas mensagens mudasse seu comportamento, se radicalizasse. Como as pessoas passaram a receber as notícias e a perceber o mundo principalmente através das redes sociais, não é difícil manipular essas informações. Se você pode controlar as informações a que uma pessoa tem acesso, você pode controlar a maneira com que ela percebe o mundo e, com isso, pode influenciar a maneira como se comporta e age.

Posts no facebook podem te fazer mais feliz ou triste, com raiva ou com medo. E os algoritmos sabem identificar as mudanças no seu comportamento pela análise dos padrões das suas postagens, curtidas, comentários.

Assim, indivíduos com perfis de direita e seu tradicional discurso “não gosto de impostos” foram radicalizados para perfis paranóicos em relação ao governo e a determinados grupos sociais. A manipulação poderia ser feita, por exemplo, através do medo: “o governo quer tirar suas armas”. Esse tipo de mensagem estimula um sentimento de impotência e de não ser capaz de se defender. Estimula também um sentimento de “somos nós contra eles”, o que fecha a pessoa para argumentos racionais.

Sites e blogs foram fabricados com notícias falsas para bombardear diretamente as pessoas influenciáveis a esse tipo de mensagem. Além disso, foi explorado também um sentimento anti-establishment, anti-mídia tradicional e anti “tudo isso que está aí”. Quando as pessoas recebiam várias notícias de forma direta, e não viam essas notícias repercutirem na grande mídia, chegavam à conclusão de que a grande mídia mente e esconde a verdade que eles tem.

Se antes a mídia tradicional podia manipular a população, a manipulação teria que ser feita abertamente, aos olhos de todos. Agora, todos temos telas privadas que nos mandam mensagens diretamente. Ninguém sabe que tipo de informação a pessoa do lado está recebendo ou quais mensagens estão construindo sua percepção de realidade.

Com esse poder nas mãos, Bannon conseguiu popularizar a alt right (movimento de extrema direita americana) entre os jovens, que resultou nos protestos “unite de right” no ano passado em Charlottesville, Virgínia que tiveram a participação de supremacistas brancos. Bannon trabalhou na campanha presidencial de Donald Trump e foi estrategista de seu governo. A Cambridge Analytica trabalhou também no referendo do Brexit, que foi vencido principalmente por argumentos originados de fakenews.

Quando a manipulação veio à tona, Mark Zuckerberg foi chamado ao senado americano para depor. Pra quem entendeu o que houve, ficou claro que a democracia da nação mais importante do mundo havia sido hackeada. Mas os congressistas pouco entendimento tinham de mídia social; e quem estaria disposto a admitir que a democracia pode ser hackeada através da manipulação dos indivíduos?

Zuckerberg estava apenas pensando em estabelecer um modelo de negócios lucrativo com a venda de anúncios direcionados. A coleta de dados e a avaliação de perfil psicológico das pessoas tinham a intenção “inocente” de fazer as pessoas clicarem em anúncios pagos. Era apenas um modelo de negócios. Mas esse mesmo instrumento pode ser usado com finalidade política.

Ele se deu conta disso e sabia que as eleições brasileiras podiam estar em risco também. Somos uma das maiores democracias do mundo. O facebook tomou medidas ativas para evitar que as campanhas de desinformação e manipulações ocorressem em sua rede social. Muitas contas fake e páginas que compartilhavam informações falsas foram retiradas do facebook no período que antecede as eleições.

Mas não contavam com a capilarização e a popularização dos grupos de whatsapp. Whatsapp é um aplicativo de mensagens diretas entre indivíduos; por isso, não pode ser monitorado externamente. Não há como regular as fakenews, portanto. Fazer um perfil fake no whatsapp também é bem mais fácil que em outras redes sociais e mais difícil de ser detectado.

Lembram do Steve Bannon, que sonhou com o retorno de uma extrema direita nacionalista forte mundialmente? Que tinha ideias que são classificadas como anti minorias, racistas e homofóbicas? E que usou um sentimento difuso anti “tudo que está aí”, e um medo de os homens se sentirem indefesos para conquistar adeptos?

Pois bem, ele se encontrou em agosto com Eduardo Bolsonaro. Bolsonaro disse que o Bannon apoiaria a campanha do seu pai com suporte e “dicas de internet”, essas coisas. Bannon é agora um “consultor eventual” da campanha. Era o candidato ideal pra ele, por compartilhava suas ideias, no cenário ideal: um país passando por uma grave crise econômica com a população desiludida com a sua classe política.

Logo depois de manifestações de mulheres nas ruas de todo o Brasil e do mundo contra Bolsonaro, o apoio do candidato subiu, entre o público feminino, de 18 para 24 por cento. Um aumento de 6 pontos depois de grande parte das mulheres se unir para demonstrar sua insatisfação com o candidato.

Isso acontece porque, de um lado, a grande mídia simplesmente ignorou as manifestações e, por outro, houve um ataque preciso às manifestações através dos grupos de whatsapp pró-Bolsonaro. Vídeos foram editados com cenas de outras manifestações, com mulheres mostrando os seios ou quebrando imagens sacras, mas utilizadas dessa vez para desmoralizar o movimento #elenão entre as mais conservadoras.

Além disso, Eduardo Bolsonaro veio a público logo após a manifestação e declarou: “As mulheres de direita são mais bonitas que as de esquerda. Elas não mostram os peitos e nem defecam nas ruas. As mulheres de direita têm mais higiene.” Essa declaração pode parece pueril ou simplesmente estúpida mas é feita sob medida para estimular um sentimento de repulsa para com o “outro lado”.

Isso não é nenhuma novidade. A máquina de propaganda do nazismo alemão associava os judeus a ratos. O discurso era que os judeus estavam infestando as cidades alemãs como os ratos. Esse é um discurso que associa o sentimento de repulsa e nojo a uma determinada população, o que faz com que o indivíduo queira se identificar com o lado “limpo” da história. Daí os 6 por cento das mulheres que passaram a se identificar com o Bolsonaro.

Agora é possível compreender porque é tão difícil usar argumentos racionais para dialogar com um eleitor do Bolsonaro? Agora você se dá conta do nível de manipulação emocional a que seus amigos e familiares estão expostos? Então a pergunta é: “o que fazer?”

Não adiante confrontá-los e acusá-los de massa de manobra. Isso só vai fazer com que eles se fechem e classifiquem você como um inimigo “do outro lado”. Ser chamado de manipulado pode ser interpretado como ser chamado de burro, o que só vai gerar uma troca de insultos improdutiva.

Tenha empatia. Essas pessoas não são tolas ou malvadas; elas estão tendo suas emoções manipuladas e estão submetidas a uma percepção da realidade bastante diferente da sua.

Tente trazê-las aos poucos para a razão. Não ofereça seus argumentos racionais logo de cara, eles não vão funcionar com essas pessoas. A única maneira de mudar seu pensamento é fazer com que tais pessoas percebam sozinhas que não há argumentos que fundamentem suas crenças e as notícias veiculadas de maneira falsa.

Isso só pode ser feito com uma grande dose de paciência e de escuta. Peça para que a pessoa defenda racionalmente suas decisões políticas. Esteja aberto para ouvi-la, mas continue sempre perguntando mais e mais, até ela perceber que chegou num ponto em que não tem argumentos para responder.

Pergunte, por exemplo: “Por que você decidiu por esse candidato? Por que você acha que ele vai mudar as coisas? Você acha que ele está preparado? Você conhece as propostas dele? Conhece o histórico dele como político? Quais realizações ele fez antes que você aprova?”

Em muitos casos, a pessoa tentará mudar o discurso para falar mal de um outro partido ou do movimento feminista. Tal estratégia é esperada porque eles foram programados para achar que isso representa “o outro lado”, os inimigos a combater.

Nesse caso, o caminho continua o mesmo: tentar trazer a pessoa para sua própria razão: “Por que você acha que esse partido é tão ruim assim? Sua vida melhorou ou piorou quando esse partido estava no poder? Como você conhece o movimento feminista? Você já participou de alguma reunião feminista ou conhece alguém envolvido nessa luta?”

Se perceber que a pessoa não está pronta para debater, simplesmente retire-se da discussão. Não agrida ou nem ofenda, comportamento que radicalizaria o pensamento de “somos nós contra eles”. Tenha em mente que os discursos que essa pessoa acredita foram incutidos nela de maneira que houvesse uma verdadeira identificação emocional, se tornando uma espécie de segunda identidade. Não é de uma hora pra outra que se muda algo assim.

Duas das mais importantes democracias do mundo já foram hackeadas utilizando tais técnicas de manipulação. O alvo atual é o nosso país, com uma das mais importantes democracias do mundo. Não vamos deixar que essas forças nos joguem uns contra os outros, rasgando nosso tecido social de uma maneira irrecuperável.

P.S.: Por favor, pesquise extensamente sobre todo e qualquer assunto que expus aqui, e sobre o qual você esteja em dúvida. Não sou de nenhum partido. Sou filósofo e, como filósofo, me interesso pela verdade, pela ética e pelo verdadeiro debate de ideias.

Rafael Azzi
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A Usina de Mentiras no Universo Paralelo bolsonariano


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Enquanto Bolsonaro se dizia “vítima” de fake news no JN, seu filho espalhava mais uma fraude sobre Haddad

Ele no jn
Enquanto Jair Bolsonaro se vitimizava no Jornal Nacional como alvo inocente de fake news, seu filho Carlos espalhava uma mentira para seus seguidores nas redes sociais.

“SERÁ QUE ISSO SAI NOS JORNAIS?”, perguntou ele compartilhando um vídeo gravado no Sindicato dos Metalúrgicos, na véspera da prisão de Lula, mas vendido como se fosse atual.

“Olha o que o Haddad falou hoje”, escreveu o sujeito que ajudou a divulgar a fraude como “promessa de campanha”.

Na gravação, Haddad afirma que quer subir a rampa com Lula (veja abaixo).

A campanha bolsonarista é uma máquina de empulhações grosseiras que o PT demorou a combater.

Apenas no fim da tarde de terça, do dia 8, o TSE determinou que 33 links do Facebook fossem retirados do ar.

Uma notícia falsa vinculava a imagem de Manuela D’Ávila a condutas que ofendiam o público cristão e lhe atribuía a entrega de materiais pornográficos a crianças.

Um exército inunda o WhatsApp de lixo difamatório diariamente até chegar à sua tia querida fascista, que se acha empoderada ao distribuir essa imundície.

No JN, Bolsonaro ainda desconversou sobre o “autogolpe” que seu vice declarou que pretende dar com apoio das Forças Armadas, alegando que não “entendeu direito o que ele quis dizer naquele momento”.

Chamou Mourão de Augusto, ao invés de Hamilton, provavelmente confundindo-o com o general Augusto Heleno.

Temos um presidenciável que dá cabeçadas no vice desde já, desqualificando-o publicamente e que não faz questão nem sequer de acertar o nome dele.

Vai precisar de mais uma colinha.


Kiko Nogueira
No DCM
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