6 de out. de 2018

Depois de “amarelar” e fugir de debate, Bolsonaro confessa que tem medo de enfrentar Haddad


Bolsonaro amarelou e fugiu do debate na Globo na noite de quinta-feira, 4/10, mas no mesmo horário participou de entrevista exclusiva com ele e preparada com exclusividade para ele pela TV Record do bispo Edir Macedo.

Bolsonaro foge do debate franco e democrático como o diabo foge da cruz, porque sabe não consegue parar em pé quando questionado sobre as propostas absurdas que defende para o Brasil.

Em vídeo publicado hoje, 6/10, Bolsonaro confessou que além de temer debates, ele também tem medo de enfrentar o Haddad no segundo turno. No minuto 15:33 do vídeo, ele desabafa:

[…] Agora eu quero fazer um apelo a vocês. […] Meus amigos, vamos evitar o segundo turno [entre] Jair Bolsonaro e Fernando Haddad do PT. A gente sabe que eles têm muito mais munição, dinheiro e poder de fogo que nós […]”.

Os jornais, blógues e saites da imprensa golpista ajudaram Bolsonaro na construção desta fantasia e passaram todo este dia de véspera da eleição com manchetes propagandeando a vitória dele já no primeiro turno.

Trabalharam forte para gerar desânimo especialmente na militância do Haddad e desestimular o trabalho de conquista de votos de indecisos, que tradicionalmente na última hora migram para o PT, propiciando um crescimento de 4 a 6% da votação do PT na reta final da campanha.

O resultado das urnas será uma ducha de água fria nos eleitores do bolsonarismo e da imprensa engajada no retrocesso e no fascismo.

Mas o pior efeito mesmo será para o amedrontado e covarde Bolsonaro, que terá dificuldades para continuar fugindo de debates e terá de enfrentar Haddad e a consciência democrática e libertária do povo brasileiro no segundo turno.

O povo é sábio, e não permitirá que o Brasil desabe no abismo do fascismo e da destruição dos direitos humanos de emprego, crescimento, diversidade, respeito e paz.

Jeferson Miola
Leia Mais ►

“Canalha”, “covarde” e “contrabandista”: relatórios expõem reputação de Bolsonaro no Exército dos anos 80

O relatório com todas as ações desabonadoras de Jair Bolsonaro
 no Exército Brasileiro, da Seção de Informações do EB
Um dossiê formulado pelo Estado-Maior das Forças Armadas concluído em 27 de julho de 1990, ao qual a reportagem teve acesso, detalha informações nada abonadoras reunidas pelo alto-comando do Exército desde o julgamento que arrancou Bolsonaro do anonimato, nos anos 80, até o início da sua vida parlamentar, na década seguinte.

Na peça investigatória, há dezenas de anotações feitas pelos oficiais com relatos da jornalista Cássia Maria Rodrigues, então trabalhando na revista Veja, que disse ter sido ameaçada de morte por Jair Bolsonaro, conforme já informado pelo DCM.

Para além do que denunciava a repórter, chama a atenção uma carta sem assinatura recheada de denúncias e comentários ofensivos contra Bolsonaro. A investigação não descobriu quem era o autor, mas constatou ser de um colega de farda do agora presidenciável. As autoridades militares que fizeram o relatório trataram de investigar as informações da carta apócrifa. Segundo informam, constataram a veracidade de uma parte do que consta ali. De outra, disseram não ter sido capazes de produzir provas.

O documento repercutiu dentro e fora da caserna, como mostra reportagem do jornal carioca “Tribuna da Imprensa” do dia 22 de abril de 1991.


Segundo consta no dossiê, uma cópia do relatório e da carta foi distribuída aos alunos e professores da ESEME (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército). O texto critica as intenções do capitão e faz acusações. Em um dos trechos da carta incluída nos documentos, lê-se, em mensagem a Jair Bolsonaro:

“Ao invés de fazer croqui de bombas, escreva quantas vezes você foi ao Paraguai trazer muamba. Conte sobre os seus problemas no Mato Grosso. Verifique qual é o seu conceito na Brigada Paraquedista.”, diz a missiva, em parte referindo-se ao episódio narrado pelo próprio Bolsonaro à Veja, de que preparava atentados à bomba para promover sua campanha por aumentos de salários.

A conclusão do relatório aponta que Bolsonaro passou a atuar na esfera dos militares sem “representatividade” ou “delegação” para tanto, questionando e acusando autoridades “de forma descabida” e contrariando as regras de hierarquia e ordem das Forças Armadas.


Trecho de carta anexada ao dossiê do Exército sobre Jair Bolsonaro

Também há menções ofensivas a Rogéria Nantes Braga, então esposa de Bolsonaro. O militar autor da carta fazia acusações de cunho pessoal a Rogéria, que a reportagem preferiu não publicar por não trazer conteúdo de interesse público. Mas não fizeram assim os colegas e comandantes de Bolsonaro que pregaram a carta na parede do quartel.

Rogéria é mãe dos três filhos mais velhos do capitão reformado e foi eleita vereadora do Rio sob influência do marido em 1992. Depois, se separaram, e Bolsonaro disse que foi porque ela não o estava mais consultando antes de decidir seus votos e outras ações na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

De qualquer forma, a insistência de Bolsonaro em fazer campanha dentro dos quartéis e os comentários que fazia na tribuna irritavam o oficialato. Em uma outra carta revelada pela imprensa em maio de 91, o então chefe do Estado Maior das Forças Armadas, general Jonas de Morais Correia Neto, o chama de “embusteiro, intrigante e covarde”, acusando-o de “inventar e deturpar visando aos interesses pessoais e da política”, como mostra reportagem abaixo, de 16 de abril de 1991.


Em outubro daquele mesmo ano, quando Bolsonaro já era deputado federal então pelo PDC-RJ (Partido Democrata Cristão), suas frequentes visitas ao antigo emprego, para fazer propaganda política e angariar votos, contrariaram de tal maneira seus ex-comandantes que estes proibiram a entrada de jair Bolsonaro nos quartéis do Rio de Janeiro. É que, de acordo com o Comando de Operacões Terrestres (Coter) do Exército Brasileiro, Jair Bolsonaro estava insuflando a revolta na tropa.

O general Alberto dos Santos Lima Fajardo, então comandante do Coter, explicou a punição em entrevistas à imprensa. Disse que Jair Bolsonaro estava “insuflando oficiais superiores e sargentos com panfletos criticando exaustivamente comando da tropa”.


Ao ficar sabendo da punição, Bolsonaro disse que estava sendo perseguido pelo generalato que ocupava o Comando Leste (divisão administrativa do Exército Brasileiro em que está o Rio de Janeiro). Alertou seus colegas deputados para o risco que aquele tipo de arbitrariedade cometida pelo Comando Terrestre representava para a Câmara. Disse que o general Fajardo estava “agindo irresponsavelmente” e que era questão de tempo para que outros congressistas passassem a receber este tipo de tratamento persecutório que os comandantes do Exército lhe conferiam.

A punição a Bolsonaro durou mais um ano. Nunca mais até hoje o Exército proferiu uma ordem como essa contra qualquer outro parlamentar brasileiro.


Vinícius Segalla
No DCM
Leia Mais ►

Rovai: Como seria a ditadura do capitão Bolsonaro e do general Mourão


Leia Mais ►

Haddad, candidato de Lula à Presidência, conversa com o povo brasileiro


Leia Mais ►

Carta de Fernando Haddad ao Povo Brasileiro


06 de outubro de 2018

Meus amigos e minhas amigas,

Antes de mais nada, quero agradecer pela coragem, a alegria e a confiança. Vocês fazem algo extraordinário: fazem com que uma grande parcela do povo me olhe com os mesmos olhos com que vocês me olham e me sinta com o coração com que Lula sente cada um de vocês. Somos irmãos e irmãs em sonhos e esperanças de um Brasil justo e soberano.

Vocês, mais do que ninguém, sabem que o nosso caminho nunca foi fácil. Condenaram e prenderam injustamente o nosso presidente Lula. Eles fazem de tudo para impedir que a nossa mensagem chegue às pessoas. A campanha deles é feita basicamente de mentiras, todas urdidas no submundo, porque eles não têm coragem de enfrentar o debate democrático que se faz à luz do dia. Eles tem a força como ideia, nós temos nossas ideias como força. Mas não se intimidem nem caiam em provocações. Não importa o que eles façam, a gente jamais vai esmorecer, porque sabemos que não estamos sozinhos. A nossa luta não é por nós mesmos, mas pelos milhões que os nossos governos resgataram da miséria, garantiram direitos, oportunidade e trataram com o respeito de cidadãos.

Esse povo, a maioria do Brasil, estará com a gente sempre que estivermos com eles. Eles são o sonho de um Brasil melhor, que Lula nos ensinou que é possível, que é o que nos dá força para lutar. Nesse momento, todo voto é importante: todo debate, toda conversa, todo compartilhamento de material de campanha e notícias boas, como também de respostas contra as mentiras. A hora é de ficar alerta. Agora é nas redes e nas ruas, para consolidar a nossa ida para o segundo turno, para lutarmos juntos, uma vez mais, pelo futuro do nosso país.

Todas as pesquisas apontam para nossa ida ao segundo turno, quando deixaremos ainda mais clara a diferença entre os projetos que estão em disputa no Brasil. A maioria do povo brasileiro rejeita o projeto de intolerância e do fim de direitos do povo. A esperança já venceu o medo uma vez. E, agora, vencerá o ódio e a mentira.

Eu, Manu e o presidente Lula contamos com cada um e cada uma de vocês. Tenho fé que, juntos, vamos vencer as eleições e devolver a Presidência para o povo. Acreditem quando digo que o Brasil que construímos ainda está na memória e no coração dos brasileiros e brasileiras.

E o Brasil do futuro, onde celebraremos como irmãos a fraternidade, a tolerância, a democracia e a paz, onde teremos a alegria e a segurança para criar nossos filhos e construir nossas famílias, com orgulho de todas as cores, religiões e diferenças que fazem desse país o melhor do mundo, está logo ali à nossa frente.

O Brasil será feliz de novo. Com a força e a coragem de vocês.

Forte abraço e até a vitória.

Fernando Haddad 13
Leia Mais ►

Atentados de direita fomentaram AI-5


Cinquenta anos depois do ato que sepultou as liberdades democráticas no país, a Pública obtém documentos que provam que foi a direita paramilitar, e não a esquerda, que deu início a explosões de bombas e roubos de armas

Documentos inéditos, guardados há meio século nos arquivos do Superior Tribunal Militar (STM), jogam luzes no cenário que levou ao recrudescimento da ditadura militar, com a edição do AI-5 (Ato Institucional número 5) em dezembro de 1968. Depoimentos de personagens, relatórios oficiais e uma infinidade de papéis anexados a processos que somam cerca de 10 mil páginas, ao qual a Pública teve acesso, demonstram que o AI-5 fez parte de um plano para alongar a ditadura com atentados a bomba em série, preparados no final de 1967 e executados até agosto do ano seguinte por uma seita esotérica, paramilitar e de extrema direita.

Até esse momento, episódios de ação armada da esquerda, que também ocorreram, eram apontados como causa para a decisão dos militares de endurecer o regime.

Comandadas por um líder messiânico a serviço da linha dura do governo militar, as ações terroristas da direita, que chegaram a ser atribuídas, equivocadamente, às organizações de esquerda, segundo apontam as investigações, tiveram como estratégia aquecer o ambiente como preparação do “golpe dentro do golpe”, o que daria ao regime uma longevidade de mais 17 anos.

Na cadeia de comando do grupo se destacam um general da reserva Paulo Trajano da Silva, que se dizia amigo pessoal do então presidente-ditador Artur da Costa e Silva, e, na linha de frente do plano, um complexo personagem, Aladino Félix, conhecido como Sábado Dinotos, líder da seita, mentor e também autor dos atentados.

Trecho do depoimento do General Paulo Trajano da Silva sobre sua ligação com o então presidente Costa e Silva
Formado por 14 policiais da antiga Força Pública (como era chamada à época a Polícia Militar de São Paulo), todos seguidores fanáticos de Aladino Félix, o grupo executou 14 atentados a bomba, furtou dinamites de pedreiras e armas da própria corporação, além de praticar pelo menos um assalto a banco, plenamente esclarecido. Foram os pioneiros do terrorismo, e os responsáveis pela maioria das ações terroristas registradas no período – um total de 17 das 32 contabilizadas pelos órgãos policiais.
Primeiros atentados foram da direita

A evidência de que foi a direita quem tomou a frente nas ações que serviram de pretexto para o fechamento do regime aparece pela primeira vez num relatório do delegado Sidney Benedito de Alcântara, assistente do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), sobre o inquérito em que a polícia esclarece os crimes a partir de prisões ocorridas em meados de agosto de 1968. Com data de 18 de dezembro, cinco dias depois da edição do AI-5, o delegado afirma que os atentados da direita “começaram bem antes do atual terrorismo de esquerda”, numa referência ao início da fase mais acirrada dos conflitos armados que marcaram a fase mais dura da repressão política.

Pela cronologia das investigações, os paramilitares começam furtando dinamites, no final de dezembro de 1967, armas no Quartel-General (QG) da Força Pública em 16 de janeiro de 1968, e executam explosões de bombas entre 10 de abril até 19 de agosto, com atentados em série, o último deles dois dias antes de o grupo ser desbaratado.

Os alvos principais dos atentados, cuja autoria o grupo de Aladino Félix assumiria, foram justamente os órgãos que depois centralizariam a repressão contra a esquerda em São Paulo: o II Exército, cujo QG ainda funcionava na rua Conselheiro Crispiniano, o prédio do Dops, instalado então no largo General Osório, e o QG da Força Pública, na praça Júlio Prestes, todos na região central.

O grupo explodiu também bombas na Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo), no oleoduto de Utinga, em prédios onde funcionavam os setores de alistamento da PM (era Força Pública) e de varas criminais da capital (Lapa e Santana) e em pontilhões e trilhos que davam acesso à estrada de ferro que ligava o litoral e os subúrbios da região metropolitana ao centro da capital.

Explosão de bomba na entrada do prédio da Bolsa de Valores de São Paulo
As ações de esquerda, porém, que mais tarde se alternariam com as da direita, se iniciaram apenas em 19 de março de 1968, com a explosão de uma bomba que feriu três estudantes na biblioteca do consulado dos Estados Unidos, no Conjunto Nacional, na avenida Paulista. O atentado mais grave, que matou o soldado Mário Kozel, sentinela do QG do II Exército, já funcionando no Parque Ibirapuera, só ocorreria em 26 de junho do mesmo ano.

O general Silvio Corrêa de Andrade, chefão da Polícia Federal em São Paulo, chegou a sustentar à época, em entrevistas, que o governo não tinha dúvidas sobre quem estaria por trás de todos os atentados. “Sabemos de onde partiu o golpe: foram os homens da esquerda. Mas acabaremos por agarrá-los”, disse ele.
Perícia realizada em metralhadora, pistola e munições apreendidas em poder de Aladino Felix e seu bando indica que as armas pertenciam à Força Pública
O mesmo general se mostraria surpreso quando o grupo de Aladino Félix acabou se revelando através de uma investigação criminal de rotina, à revelia dos órgãos de informação do governo federal, que mirava apenas descobrir os autores do roubo a uma agência do Banco Mercantil e Industrial (BMI) de Perus, ocorrido no dia 1º de agosto de 1968.

Maconheiros e malandros

O delegado Ruy Prado de Francischi, lotado na 40ª DP, em Vila Santa Maria, na zona norte, rastreando os passos de “maconheiros e malandros”, conforme consta no relatório do Dops, recolheu informes sobre a quadrilha que roubou o BMI. O delegado descobriu que os assaltantes, com os rostos cobertos por lenços (estilo copiado dos filmes de faroeste, então a coqueluche de Hollywood), haviam rendido o vigia e funcionários da agência com armas furtadas do QG da Força Pública, em 16 de janeiro, de onde haviam sido levados uma metralhadora INA, três pistolas Walther e 13 revólveres Taurus.

Identificados, presos e conduzidos ao xadrez do Deic, os quatro assaltantes, todos já fichados à época por crimes comuns, depois de intensas sessões de tortura, contaram que o mentor do roubo havia sido o soldado da Força Pública Jessé Cândido de Moraes, o segundo homem na hierarquia do grupo. Preso no dia 21 de agosto, e também submetido a variados tipos de sevícias, o policial citou, pela primeira vez, o nome de Aladino Félix como um dos destinatários do dinheiro roubado.

Autor de livros sobre ufologia e de profecias bíblicas, místico venerado por um séquito, Aladino Félix tinha servido como militar na Segunda Guerra e era reconhecido por relevantes serviços prestados ao golpe de 1964, além de manter contatos com autoridades do regime militar. Como um delator de luxo, fornecia informações sobre as ações das organizações de esquerda e supostas conspirações contra o governo envolvendo oficiais da Força Pública.

Detido um dia depois de Jessé, em 22 de agosto, Aladino Félix foi levado para o Deic. Lá, também torturado, conforme atestaria um laudo pericial da própria polícia, mas longe da influência das autoridades federais, descreveu em detalhes, num manuscrito de 25 páginas em folhas de caderno espiral, todos os atos praticados por seu grupo nos oito meses que antecederam sua prisão. Aladino Félix, abandonado pelo governo, que perdeu o controle sobre sua prisão, passa a contar por que organizou o grupo. De acordo com ele, a motivação básica das ações era levar o regime a assumir medidas ditatoriais agudas. Num dos trechos do manuscrito, Aladino Félix afirma que recebia ordens da Casa Militar do Palácio do Planalto, chefiada à época pelo general Jayme Portella, e de fontes do Ministério da Justiça através da Polícia Federal.

Trecho do depoimento manuscrito de Aladino Félix, assumindo a autoria do roubo de armas e apontando sua conexão com o alto comando da Presidência da República
Poderia ser apenas bravata, mas um dos papéis apreendidos em seu escritório, no 21º andar do edifício Martinelli, não deixa dúvida sobre as relações de Aladino Félix/Dinotos com o escritório central da Polícia Federal (PF), em Brasília:

“Prezado senhor Dinotos,

Recebi sua carta e desde já aceite meus agradecimentos pelas informações nela contidas.

Encaminhei imediatamente cópia das informações ao meu Diretor, tendo ele ficado também impressionado e levará o assunto às autoridades superiores.

Esperando contar com a valiosa cooperação que o senhor vem prestando, aguardo novas notícias”.

A carta, datilografada numa folha com o brasão da República e timbres do Ministério da Justiça e Polícia Federal, é assinada pelo inspetor Firmiano Pacheco, com data de 8 de maio de 1968, portanto três meses antes de Aladino Félix e seu grupo serem presos.

Carta mostra a relação com altas patentes do governo; foi publicada, à época, no Jornal Última Hora
A onda de atentados era de pleno conhecimento do governo, que tinha consciência, segundo Aladino Félix, de que o regime entrara numa fase de desgaste e estava em meio a uma forte crise quatro anos depois do golpe. “Brasília queria que nossas ações continuassem até dezembro de 1968 ou janeiro de 1969”, escreve no manuscrito, entregue à polícia em 27 de setembro de 1968. Todos os integrantes de seu grupo, ouvidos em inquéritos civis e militares, reafirmariam que a motivação era levar o regime a editar medidas de exceção.

Aladino Félix sustenta que, diante de pressões que só aumentavam, o governo concordara com a linha dura do regime. “Para evitar a reformulação dos planos revolucionários, a única forma proposta e aceita pelo governo federal, através do general Paulo Trajano, foi a ação terrorista”, escreve no mesmo manuscrito. Segundo Félix, “o terrorismo foi então como uma saída de emergência para o governo federal, pois não podia agir contra tantos implicados na trama e nem lhes convinha dar-lhes a liberdade para reassumir as rédeas que lhes foram arrancadas pela revolução de março de 1964”.

Trecho do depoimento escrito por Aladino Felix, aponta a sua conexão com o alto comando da Presidência da Republica e até quando deveria atuar
Todos os integrantes do grupo contaram, depois de presos, que no caso do furto das armas Trajano participou dos detalhes do planejamento e, diante da possibilidade de identificação dos autores, garantiu que “acertaria” com a Polícia Federal um jeito de evitar que fossem encontradas impressões digitais. Disseram que o general ainda forneceu um álibi caso surgissem suspeitas sobre o sumiço dos envolvidos no dia da ação: todos estariam com ele, Trajano, numa caçada no Mato Grosso

O general Paulo Trajano

Apontado por Aladino Félix como o homem que deu a ordem para o furto das armas no QG da Força Pública e do atentado a bomba no antigo QG do II Exército, Trajano expressa espontaneamente no depoimento que prestou no dia 2 de setembro de 1968, no inquérito aberto pelo II Exército para investigar o envolvimento do general com o grupo, um desejo de que, cem dias depois, se revelaria profético: “O governo federal deveria aproveitar o momento para endurecer o regime, acabando de vez com a desordem reinante no país”, disse.

Ao Dops, que assumiu o caso assim que o grupo se responsabilizou pelos atentados terroristas, o general Trajano conta que havia relatado o furto das armas ao então chefe da PF no Rio (Guanabara à época), general Luiz Carlos Reis de Freitas. Afirma que, assim que soube do furto das armas na casa de Aladino Félix, chegou a comentar com Freitas que o episódio serviria para “desnortear” oficiais da Força Pública que, segundo versão nunca comprovada, conspiravam contra o governo.

Documentos referentes à explosão de bomba jogada do alto de um prédio para atingir o Quartel General do 2º Exército. Duas funcionárias de uma loja ficaram feridas

Explosão de bomba no Quartel General da Força Pública de São Paulo danifica portas dos cinco andares do prédio e janelas

Explosão ocorrida dentro de um carro Aero Willys estacionado no Largo General Osório, em frente a sede do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS-SP)
A mesma história foi contada por Aladino Félix em seu relato-confissão. Segundo ele, os oficiais da Força Pública preparavam uma rebelião para derrubar Costa e Silva. O movimento teria sido gestado na França, através de contatos do ex-presidente Juscelino Kubitschek com Charles de Gaulle, numa articulação que envolvia, no Brasil, os dirigentes da Frente Ampla liderada por Carlos Lacerda e apoiada por outros líderes cassados pela ditadura. O levante ocorreria no dia 25 de janeiro, com o assassinato do presidente e do ex-governador Abreu Sodré. Nesse dia, diz, Costa e Silva estaria na capital, participando das comemorações em homenagem ao aniversário da cidade. Lacerda também estaria em São Paulo, num evento no Teatro Municipal, de onde daria a senha para desencadear a rebelião, que seria seguida por levantes na Brigada Militar gaúcha e nas PMs de Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Goiás e Bahia.

No início de janeiro, segundo as investigações, Aladino Félix e Trajano se encontrariam várias vezes. O general diria que ouvira e acreditara na conspiração e, como era amigo de Costa e Silva, que anos antes havia sido seu comandante no Segundo Batalhão de Infantaria do Exército em São Paulo, decidiu informar o governo. No depoimento, diz que Aladino Félix teria se passado como aliado dos conspiradores e chega a afirmar, numa versão que a própria polícia acha delirante, que viu um primo e homem de confiança de Lacerda, Paulo Bucker Lacerda, “confabulando” com o místico no escritório deste.

O general sustenta que, convencido dos riscos que o regime e o presidente corriam, procurou a chefia da Polícia Federal do Rio de Janeiro (à época Guanabara). De fato, dias depois, ele e Aladino Félix foram ao Rio e detalharam o que sabiam – este colocou tudo num relatório datilografado. A PF passou a tratar como informação real e a repassou ao chefe da Casa Militar do Palácio do Planalto, general Jayme Portella. Costa e Silva, então, cancelou a viagem a São Paulo.

No dia 27 de janeiro, com Marinha e Aeronáutica de prontidão, o Exército cercou e fez uma série de incursões pela capital paulista, mas nada de anormal foi registrado. Só em março os jornais noticiariam que um golpe havia sido abortado e apontavam o principal responsável pelo desmonte dessa rebelião: Aladino Félix. Era aplaudido pela direita e, em entrevistas, chegou a afirmar que enviou, sim, um bilhete que chegara às mãos de Costa e Silva.

Nos meses seguintes, as ações da direita e da esquerda se alternariam. A VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) colocaria a bomba na sede do Estadão, que à época estava instalado na rua Major Quedinho, no centro da capital, e roubaria um paiol de armas no Hospital Militar do Exército. Por outro lado, os paramilitares dariam curso aos atentados em série. Num só dia, 19 de agosto, véspera das primeiras prisões por causa do roubo ao BMI, explodiriam as bombas no Dops e nas varas distritais criminais da Lapa e de Santana.

Os terroristas e o militar

Com o esclarecimento do roubo ao BMI, vieram à tona o furto das armas e os demais atentados. Trajano admitiu, em depoimento ao Dops, que foi informado e viu as armas furtadas na casa de seu amigo Aladino Félix, mas negou que soubesse das demais ações.

Depoimentos e acareações feitas pela polícia colocam o general, no entanto, na cena em que se planejou o furto: todos disseram que, consultado sobre a ação, o general pediu um tempo para responder, e que só teria dado a ordem de execução depois de conversar com o comando da PF no Rio.
Documentos referentes à explosão de bomba jogada do alto de um prédio para atingir o Quartel General do 2º Exército. Duas funcionárias de uma loja ficaram feridas
Um dos militares do grupo, o sargento Rubens Jairo dos Santos, diretamente envolvido em várias explosões de bomba, aponta o dedo direto para o amigo do presidente: “O general Trajano deu a ordem para colocar a bomba no QG do II Exército”, afirmou o militar em depoimento. O objetivo, segundo ele, era assustar e alertar o então comandante da força, general Syseno Sarmento, sobre a continuidade da conspiração entre oficiais da Força Pública, mesmo depois de “abortado” o “plano” de assassinar o presidente.

O delegado do Dops tachou de “evasivas” as respostas do general nas acareações e afirmou que os que o acusaram de envolvimento no furto se comportaram de maneira firme e convincente. Mas, em relação à suposta conspiração contra Costa e Silva ter motivado o comportamento do general, o delegado Sidney Benedito de Alcântara se mostra mais crédulo. Em seu relatório, ele diz que o general Trajano “queria ser solidário a Costa e Silva, com quem servira na vida militar e de quem recebeu valiosos apoios”. Reconhece, no entanto, ser implausível que um militar experiente se deixasse iludir por teorias conspiratórias que o teriam feito assumir “conduta terrorista”. No final do relatório, repete o que imagina ter passado pela cabeça do líder da direita ao ordenar os ataques aos seus seguidores: “O governo ver-se-á na contingência de adotar represálias, impondo um regime de força, desviando, dessa forma, o Brasil do abismo a que está caminhando”.

Poupado pela Justiça Militar de São Paulo, que nem sequer o considerou investigado, Trajano se tornaria alvo de um inquérito só mais tarde, aberto inicialmente no Rio e, depois, transferido para o II Exército, em São Paulo. Foi preso em setembro no QG da Segunda Divisão do II Exército até que concluísse seu interrogatório, algo como uma prisão provisória nos dias de hoje. Mesmo acusado de terrorismo, foi solto alguns dias depois por decisão unânime dos ministros do STM, entre os quais votou contra a decretação de prisão preventiva o general Ernesto Geisel, que em 1974 sucederia o general Emílio Garrastazu Médici, chefe do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI) no período dos atentados da direita.

O SNI e a farsa

As suspeitas de que a cúpula do regime militar sabia dos atentados da direita em São Paulo são reforçadas por um relatório do SNI de agosto de 1969. Numa retrospectiva sobre o papel da Força Pública, então com 36 mil homens livres do “micróbio vermelho” e, portanto, “força antirrevolucionária” a favor do regime, o agente diz que o grupo de Aladino Félix tinha a intenção de levar todo o arsenal dos 350 homens que integravam o antigo Departamento da Polícia Militar e que a autoria do atentado ao QG da Força Pública foi encoberta por oficiais graduados da corporação, supostamente mancomunados com as ações paramilitares.

O agente informa que o soldado Jessé, que classifica como “lugar-tenente” de Aladino Félix, e os sargentos Rubens Jairo dos Santos e Juarez Nogueira Firmiano, que participaram da maioria dos atentados, chegaram a ser presos no mesmo dia em que o petardo explodiu no QG da Força Pública, em 10 de abril de 1968, destruindo um dos elevadores. Os três foram soltos, frisa o agente do SNI, sem nem sequer serem investigados.

“No dia seguinte ao da explosão, após o término do expediente, o major Edson [Edson Isaac Corrêa] desceu à prisão e os colocou em liberdade por ordem do cel. Vilela [José Vilela dos Santos, então comandante do Estado Maior da Força Pública]. É evidente que tais elementos, se pressionados, iriam revelar o plano e para que isso não acontecesse, os oficiais tomaram aquela atitude”, escreve o agente do SNI.

O responsável pelo inquérito policial-militar (IPM), capitão Cid Benedito Marques, orientado por superiores para “nada investigar”, passou então a ouvir pessoas que o agente denomina de “trouxas”. O depoimento de Aladino Félix nesse IPM foi só para cumprir tabela: o místico negou que soubesse de qualquer detalhe e foi dispensado com as honras de sempre. “Referido IPM encontrou sérios obstáculos para nada apurar, somente vindo à tona mais tarde [os atentados], com a descoberta pela Polícia Civil do terrorista Sábado Dinotos”, afirma o agente do SNI.

“Será que é cego?”

No IPM da Força Pública há outras evidências de que entre os arapongas que integravam os órgãos de informação do governo as ações do grupo eram um segredo de Polichinelo. A mulher de um dos soldados envolvidos, Alice Moreira, revela, em depoimento prestado no início de maio, que algumas reuniões de planejamento das ações ocorreram em sua casa.

Alice afirma que Aladino Félix sempre estava presente, se apresentava como judeu anticristão e anticomunista, falava de discos voadores, religião – parte de um proselitismo esotérico que a polícia chamou de “isca dourada” – e, no que de fato interessava, encerrava suas palestras com um discurso político radical, pregando a destruição de estabelecimentos públicos. Alice diz ter tomado conhecimento, nessas reuniões, de que as armas furtadas estavam com o líder do grupo.

Há, ainda, nos autos do mesmo IPM outros indícios que jamais poderiam ter sido menosprezados numa investigação rigorosa: um bilhete que, embora anônimo, já esclarecia, em abril, de onde partiam os atentados. O autor se dirige ao capitão Cid Benedito Marques e vai ao ponto: “Será que é cego? Onde está a sua experiência de soldado? Não vê que o plano terrorista que se desenvolve em São Paulo está estreitamente ligado ao cidadão Aladino Félix e que os maiores terroristas, seus seguidores, na maior parte, são da Força Pública?”, diz o signatário, que se apresenta como amigo secreto do capitão e assina com o curioso pseudônimo de “Altos Significados”. Os quatro meses seguintes seriam marcados por intensos atentados a bomba praticados pelo grupo.

Apontado por Aladino Félix como um dos conspiradores que pretendiam derrubar Costa e Silva, o capitão acabou afastado do IPM. As investigações só seriam retomadas mais tarde por outro oficial, quando o delegado Francischi já havia destrinchado as ações do grupo a partir do roubo ao BMI, em agosto.

Ao concluir seu relatório, no dia 30 de maio de 1968, o capitão Cid apontava “Sábado Dinotos e seus sectários” como suspeitos das ações terroristas, “atividades essas”, ele faz questão de destacar, “que já são do conhecimento do II Exército, DOPS e Polícia Federal”. Não há registro de qualquer procedimento aberto pelos órgãos federais até a prisão do grupo.

“Com um pouco mais de chance, teria o cap. Cid desbaratado ainda no início todo o grupo terrorista e, o que é melhor, teria evitado uma série de atentados terroristas”, escreve, em 12 de outubro de 1968, o tenente-coronel Raul Humaitá Villa Nova, no relatório que encerraria o IPM da Força Pública.

Conforme demonstra a cronologia dos episódios relatados nos autos, o grupo surgiu como força paramilitar no final de 1967, executou as primeiras ações em janeiro, intensificou os atentados de abril a agosto e só seria descoberto, por acaso, pelo vínculo com um roubo comum. O caso, como se viu, foi esclarecido com o uso da tortura por um setor da Polícia Civil, o Deic, que reprimia os crimes contra o patrimônio, mas não se vinculava à polícia política. As investigações deixam claro que, apesar das fortes evidências sobre a autoria dos atentados, a extrema direita agiu com intensidade e desenvoltura até a prisão de Aladino Félix, em 22 de agosto.

O grupo foi investigado durante cinco anos, de 1968 a 1973, em três inquéritos civis (um deles tocado pela Polícia Federal, tão pífio que não chegou a nenhuma conclusão), dois IPMs, um processo da Segunda Auditoria da Justiça Militar paulista e, ainda, duas apelações, que tramitaram no STM e, finalmente, no Supremo Tribunal Federal (STF).

“Gênio e louco”

Quando a história do terrorismo veio à tona, o conceito do homem que “salvara” a vida do presidente e evitou a “contrarrevolução” virou de pernas para o ar. De lúcido e paparicado colaborador do regime militar, Aladino Félix passou a ser tratado como um doido. A polícia o descreve depois como um místico que falava ter sido contatado por alienígenas e que se apresentava como o ungido que reunificaria as 12 tribos de Israel, enfim, um Messias.

À exceção do general Trajano, que o conhecia havia cinco anos e intermediou os contatos de Aladino Félix com as altas fontes do governo, todas as outras autoridades militares ouvidas no IPM do II Exército passaram a descrevê-lo como excêntrico. “Imaginação fértil e fantasiosa”, disse, em 23 de outubro de 1968, o coronel Edgard Barreto Bernardes, da PF, designado para averiguar as denúncias sobre o plano de assassinato de Costa e Silva.

“Pessoa com ideia fixa sobre subversão, atentados e conspiração”, acrescentou o então chefe da PF no Rio, coronel Florimar Campello. O diretor-geral da PF, general Luiz Carlos Reis de Freitas, afirmou que era um “lunático esperto e oportunista em busca de notoriedade”. O delegado Alcântara o perfilaria como misto “de gênio e de louco”.

Concatenadas, as declarações das autoridades, todas prestadas no mesmo dia, em depoimento que consumiu menos de uma lauda datilografada, levavam à desconstrução de Aladino Félix. O governo só não conseguiria explicar por que teria acreditado nos delírios de um místico a ponto de determinar a manobra militar em janeiro de 1968 para inibir uma suspeita história de golpe.

Como a imprensa já estava sob censura, as mesmas autoridades que acreditam no seu relato em janeiro e eram informadas diariamente pelo SNI nem se deram ao trabalho de esclarecer por que passaram a tratá-lo como lunático só sete meses depois da primeira investigação. Já no primeiro relatório sobre o caso, o delegado Alcântara afirmava que Aladino Félix “realmente” tinha contatos com autoridades do governo federal até ser preso.

Crime e perdão

Em 30 de setembro de 1970, a Segunda Auditoria da Justiça Militar de São Paulo afastou Trajano do processo por achar que “não era o caso” de investigá-lo. Os quatro conselheiros, acatando o relatório do juiz Nelson Machado Guimarães (o único civil da turma e cuja atuação ficou marcada por sentenças implacáveis e duras com militantes da esquerda), consideraram que não havia provas sobre os atentados e condenaram Aladino Félix e o soldado Jessé Cândido de Moraes, pela Lei de Segurança Nacional, a cinco anos de reclusão por “terrorismo”, apenas com base no furto das armas. Os demais envolvidos foram condenados a penas mais baixas, entre um e três anos.

Com a abertura de IPM contra o general Trajano, detentor de foro privilegiado, o processo subiria para o STM. Lá, inconformado com a sentença, o advogado do grupo, Juarez de Alencar, sustentou toda a linha de defesa no perfil dos réus e nos objetivos políticos dos atentados que, segundo ele, haviam sido desvirtuados no inquérito policial. Disse que Aladino Félix e os militares “estavam convictos, na sua posição de homens de direita, e de defensores da Revolução de Março, da absoluta legalidade revolucionária de suas ações”.

Alencar lembra que Trajano, “companheiro e amigo” de Costa e Silva, deu ao regime “notícia indiscutível da intentona”, argumentou que “quem está com o governo não pode ser condenado pelo próprio governo” e pediu não apenas a absolvição de todos, mas também que os militares liderados por Aladino Félix fossem perdoados, reincorporados à Força Pública e promovidos.

Foi atendido quase plenamente. Em outubro de 1970, seguindo parecer da procuradora Mary do Valle Monteiro no recurso de apelação, os ministros do STM absolveram todos os demais acusados e reduziram a pena de Aladino Félix para oito meses. O STM descartou os atentados a bomba e os demais crimes, fixando a pena só pelo furto das armas, procedimento bem diferente do aplicado pela mesma justiça aos militantes da esquerda armada.

Aladino Félix permaneceu preso, aguardando um exame de sanidade mental solicitado pelo Conselho Permanente de Justiça, este convencido pelos argumentos de que se tratava de um doido. O general Paulo Trajano da Silva, já absolvido, também estava livre de desconfortos.

Semi-imputável

O laudo assinado por dois psiquiatras forenses, José Roberto Belelli e Carlos Roberto Hojaij, o define como detentor de personalidade egocêntrica, com inteligência acima da média e domínio pleno dos temas sobre os quais era instado a falar, mas, no final, corrobora a tese das investigações: “Não se trata de doente mental. Trata-se de portador de perturbação da saúde mental cuja capacidade de entendimento ao tempo dos fatos era apenas parcial”, dizem no documento encaminhado no dia 7 de outubro de 1971.
Conclusão do laudo psiquiatríco realizado em Aladino Felix, também
 conhecido como “Sabado Dinotos”, durante o período em que esteve
preso
A procuradora Mary Valle Monteiro, que antes considerara que o processo inteiro era “tudo loucura”, já esperava o resultado. “A conclusão de que é fronteiriço não nos decepciona. É um semi-imputável”, afirma, pedindo a confirmação da sentença de oito meses de reclusão, plenamente acatada pela turma do STM, conforme despacho do ministro Lima Torres, em 12 de janeiro de 1972. “É, no mínimo, um lunático”, acrescentou o ministro. Inconformado com o estigma de débil mental, Aladino Félix recorreu ao STF.

Sem que nenhum fato novo tenha ocorrido, o recurso de apelação dormitou 21 meses no STF até que o relator, ministro Rodrigo Alckmin (tio do presidenciável tucano Geraldo Alckmin) encerrasse o caso no dia 9 de outubro de 1973, com um despacho de cinco linhas, em que negava provimento à apelação. Aladino Félix e os demais envolvidos já estavam em liberdade e o país, mergulhado na ditadura, vivia sob o AI-5 os horrores dos anos de chumbo.

Aladino Félix amargou uma longa temporada atrás das grades. Foi preso pela primeira vez em 22 de agosto de 1968, mas teve a prisão relaxada em 17 de outubro pelo juiz da 9ª Vara Criminal de São Paulo, responsável pelo processo relacionado ao roubo ao BMI de Perus. A soltura, na verdade, foi um cochilo dos militares responsáveis pelo IMP do II Exército, que empreenderiam uma verdadeira caçada para prendê-lo novamente nove meses depois. No dia 15 de setembro, ele conseguiu escapar pela porta da frente da Casa de Detenção, no Carandiru, mas acabou preso novamente uma semana depois.

Ironicamente, foi levado para o Presídio Tiradentes, onde teve de conviver com presos políticos de esquerda. Estava entre os detentos contados num mutirão do Judiciário destinado a avaliar o cumprimento de penas no final de 1971. Só seria solto definitivamente em janeiro de 1972, depois de cumprir, em regime fechado, mais de três anos de cadeia, dois anos e quatro meses a mais do que o tempo previsto na sentença definitiva.

Aladino Félix morreu aos 68 anos, em circunstância prosaica (complicações geradas por medicamentos que havia ingerido para uma simples cirurgia de hérnia), no dia 11 de novembro de 1985, ano em que o país, já livre da ditadura, ingressava na redemocratização e ele mergulhava no ostracismo.

Vasconcelo Quadros
Leia Mais ►

O enfrentamento

https://www.jb.com.br/colunistas/coisas_da_politica/2018/10/944516-o-enfrentamento.html

Faltavam elementos para garantir, ontem, se foi contida ou foi mantida, com maior ou menor força, a onda que empurrou o candidato Bolsonaro para 35% dos votos totais (ou 39% dos válidos) na pesquisa Datafolha de quinta-feira. Só com grande empurrão da onda ele poderia saltar 11 pontos percentuais para vencer amanhã. Embora isso não seja impossível, é menos provável. E assim, o que se deve esperar agora é um segundo turno sangrento.

Para Mauro Paulino, diretor do Datafolha, o salto não é impossível porque, apesar de a taxa de cristalização do voto já superar os 70% (eleitores que não mudarão o voto), 25% deles ainda admitem fazê-lo. E se uma grande fração fizer isso, podem acontecer variações decisivas na votação. Os menos dispostos a mudar são os eleitores de Bolsonaro e Haddad, e os mais volúveis são os de Marina (61%), e depois os de Alckmin e Ciro (40%). Em 2014, 23% dos eleitores decidiram o voto na última semana. Este ano, a insegurança, o medo e a própria timidez dos vacilantes poderão levar mais eleitores a decidir na última hora. Até mesmo na fila de votação.

Ainda assim, a onda parece ter perdido força, por conta do debate da TV Globo, com o favorito ausente e sendo muito criticado, e da postura mais ofensiva não só de Haddad e do PT. No debate, o trio de esquerda, Haddad-Ciro-Boulos, ensaiando sutilmente a aliança do futuro, destacou-se pela clareza de propostas e a firmeza nas críticas a Bolsonaro, não só pela fuga ao debate, mas pelo que representa de regressão civilizatória, com seu machismo, racismo e homofobia, e por ameaçar tão claramente a democracia, ao ponto de jornais estrangeiros apontarem este risco, como fez ontem o inglês “The Guardian”.

Ao segundo turno Bolsonaro deve chegar mais forte, com boa vantagem sobre o segundo colocado, que deve ser Haddad, apesar do esforço final da campanha de Ciro. Segundo o estudo Aja Solutions, ele praticamente empatou com Bolsonaro (31,9% a 30%) no indicador de relevância do Twitter, deixando o petista bem atrás (8%). Bolsonaro cresceu conquistando indecisos, mas também eleitores de candidatos abandonados por aliados, como Alckmin, pelo Centrão e até por tucanos. Contra a volta do PT vale tudo, dirão todos da direita autodenominada centro. Bolsonaro, que não tem projeto para o país, abraçará o programa neoliberal que lhe será oferecido.

Com ele marcharão forças poderosas, juntando o capital financeiro e produtivo, máquinas e oligarquias políticas conservadoras, militares assanhados e buscando o protagonismo perdido, governadores reeleitos com o manche estadual na mão, grupos de mídia e igrejas pentecostais, que às vezes se fundem num mesmo aparelho condutor de vontades, como o consórcio TV-Record-Igreja Universal.

Ainda assim, será outra eleição, e Haddad terá que passar a ser o candidato da esquerda, e não apenas do PT. Mais que da esquerda, se restarem forças de centro preocupadas com o futuro da democracia. Segundo o Datafolha, 69% dos brasileiros acabam de apontá-la como melhor forma de governo para o Brasil. Contra o programa neoliberal, a coalizão de esquerda defenderá um projeto nacional que garanta crescimento, emprego, desenvolvimento e soberania. Na construção da frente, não contarão com Lula como mediador. Terão todos que esquecer as cotoveladas do primeiro turno e dar-se as mãos. Se tiverem competência, poderão construir algo como a coalizão da Geringonça portuguesa, que trouxe dias melhores ao país, depois do austericídio do PSD.

O tempo de televisão para os dois candidatos será igual, e Bolsonaro não poderá mais se esconder. O jogo será pesado, terá golpe baixo e pancadaria. Mas valerá a pena se for observado o mandamento democrático: quem ganhar levará, quem perder terá que aceitar o resultado. O problema de 2014 não foi a polarização. Foi a insurgência tucana contra a reeleição de Dilma.
Leia Mais ►

Atônitos com Bolsonaro, professores da USP culpam STF por 'bagunça'

Para jurista e cientista político, Supremo não está preocupado em ser ou parecer imparcial

Fernando Limongi, Conrado Hübner e Flavio Moura no debate do livro "Como a Democracia Chega ao Fim"
"Errei tudo... Escrevi uns 80 artigos dizendo que o Bolsonaro não iria seguir... Não confio mais em mim.. Tem certeza que querem me ouvir?", disse o cientista político Fernando Limongi em tom de brincadeira durante debate na faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo.

O clima ainda que descontraído não escondia a perplexidade do acadêmico com o atual cenário eleitoral que coloca Jair Bolsonaro (PSL) como líder nas pesquisas para a Presidência às vésperas do primeiro turno.

"Qualquer tentativa de explicar esse fenômeno do Brasil é muito arriscado", diz. "Tem algo que não deveria estar acontecendo, mas alguma racionalidade tem que ter para isso..."

Limongi e o jurista Conrado Hübner, ambos pesquisadores e professores da USP, debateram na quinta-feira 4 a eleição presidencial brasileira à luz do livro "Como a Democracia Chega ao Fim" - do inglês David Runciman, editora Todavia.

A obra analisa as diferentes formas como uma democracia pode terminar e relata a história de países em que a democracia chegou ao fim ou viveu a eminência de sucumbir. Para analisar o tema a brasileira, porém, falta clareza em diferentes aspectos ainda que se façam tentativas.

Poucas respostas foram dadas pelos dois acadêmicos, algumas hipóteses levantadas e uma conclusão em comum: trata-se de uma eleição atípica, alimentada por uma deteriorização institucional, sobretudo do sistema de Justiça.

"Esta eleição tem uma série de erros que vão do tratamento dado ao Lula - o principal candidato está preso - a ele continuar candidato [até o último minuto possível] fazendo com que se travasse todo o processo eleitoral. Depois, houve a facada do Bolsonaro, que lhe permitiu sair do espaço público, tudo o que ele queria", descreve o cientista político.

O ex-presidente Lula, desde as primeiras sondagens do ano passado, liderava as pesquisas eleitorais para presidente. Na ocasião, ainda que condenado pela segunda instância por corrupção, o petista seguia com seu objetivo de voltar à Presidência da República, fazendo carreatas Brasil afora e se preparando para a campanha eleitoral.

Em abril deste ano, no entanto, a Justiça decretou sua prisão, causando grande comoção social. Mesmo com dezenas de ações, pedidos de habeas corpus e recursos protocolados, a Justiça foi categórica em barrar os direitos políticos de Lula.

Por outro lado, rejeitou denuncia Jair Bolsonaro por racismo, ignorou declarações do candidato que clara e fortemente incitava o ódio e violências e que poderiam levar a assassinatos em massa se seguidos e, mais recentemente, não considerou privilégio que a veiculação da entrevista do ex-militar na TV Record no mesmo período em que era transmitia o último debate entre os presidenciáveis.

"É importante trazer para a discussão a absoluta incompetência dos sistemas de moderação desse processo, que é o sistema de Justiça. Esse desaprenderam completamente a serem e parecerem imparciais", afirma Hübner. Para o jurista, a instituição da Justiça "evaporou".

Outra prova disso, citada, pelo jurista, foi a mais recente guerra de liminares protagonizada pelos ministros do Supremo Tribunal Federal, autorizando e desautorizando a jornalista Mônica Bergamo a entrevistar Lula. O imbróglio teve direito a bate-boca e subidas de tom de voz em espaços públicos por parte dos atores das decisões. Ao final, a jornalista não realizou seu trabalho ainda que muitos outros presos já tivessem sido entrevistados em outras ocasiões, inclusive em centros penitenciários.

"O papel do Supremo não pode ser minimizado na criação dessa bagunça e na criação dessa ausência de parâmetro. [Temos] um Supremo que decide sem olhar a Constituição e que declara que não segue a Constituição. Isso não existe, e eles estão fazendo", diz Limongi.

Brincadeira perigosa

Em paralelo ao que descrevem sobre o sistema de Justiça brasileiro, o cientista político chamou a atenção ao apoio que Bolsonaro vem ganhando de lideranças do País sejam elas políticas, sociais, empresariais ou de outros setores. Para Limongi, eles não compreendem os perigos de uma eventual vitória do ex-militar.

"As pessoas que estão apoiando essa opção não se dão conta que estão brincando com coisa muito série e que podem vir a dar o poder nas mãos de um irresponsável, de um despreparado, de um desqualificado. Não estou dizendo por preconceito, mas pelas declarações que ele faz questão de fazer. Ele se diz despreparado, se diz não civilizado." Para ele, "quem está achando que está defendendo o capital e o mercado vai bater com a cara na porte".

Um dos motivos que faz Bolsonaro líder nas pesquisas, afirma o cientista político, é a alimentação do sentimento anti-petista. "Não é por acaso que depois da manifestação de sábado passado o Bolsonaro cresceu da forma que cresceu. Foi ali que a ameaça ou possibilidade de vitória do PT apareceu e a reação veio. Por exemplo: a reação do senhor Sérgio Mouro, que soltou aquilo [delação de Antonio Palocci] porque não admite que o PT vença."

O risco 

Para o jurista, uma eventual vitória de Bolsonaro representaria o êxito de um candidato quem vem demonstrado característica populistas de caráter fascista. Desde o início da sua campanha, o presidenciável do PSL vem apresenta propostas de governo com características de extrema-direita e que flertam com o autoristarismo.

Dentre elas, disse querer reforçar o papel das Forças Armadas, tipificar como terrorismo ações do MST e MTST, militarizar o ensino e colocar um general no Ministério da Educação. Há ainda declarações do ex-militar sobre a carnificina da chacina da Candelária em que disse que o erro é não ter matado todos os jovens na ocasião.

Limongi diz que os fortalecimento dos bolsonaristas já é visto na sociedade antes mesmo do resultado final do pleito. São as agressões com viés políticos que tem aparecido durante a campanha. Como pesquisador e colunista, ele também se vê atingido pelos reflexos do avanço do ex-militar. "Quando escrevo alguma coisa que desagrada os eleitores do Bolsonaro, a violência dos comentários que eu recebo é algo de ter medo. É uma violência e uma incivilidade."

A possibilidade de vitória dele não foi descartada no encontro. E caso ocorra, alerta os debatedores, a democracia precisa continuar mesmo que em um cenário adverso.

"Infelizmente o que nos cabe fazer como democratas? Não temos outra opção, se formos derrotados, de aceitar a derrota. E, ao aceitar a derrotar, devemos forçá-lo a se comportar civilmente."

Num lampejo de "otimismo", o cientista político fez um paralelo entre uma eventual vitória de Bolsonaro e a direita religiosa Belga, partido fascista com lideranças muito antidemocráticas que, em razão do jogo democrático, foram se democratizando.  "A democracia não precisa de democratas, ela tem alguns mecanismos que forçam e induzem a essa moderação."

Marina Gama Cubas
No CartaCapital
Leia Mais ►

Algumas sandices da eleição brasileira


Depois que até a vetusta vestal do liberalismo, The Economist, qualificou Bolsonaro como o maior perigo para a América Latina, o número de publicações europeias anti-ele cresceu. Recentemente mesmo publicações de alcance regional, como Die Rheinpfalz, do sudoeste alemão, deram espaço para críticas ao ex-capitão. E a histórica manifestação de domingo passado no Brasil e pelo mundo afora, puxada pelas mulheres, teve uma boa cobertura internacional em veículos como Der Spiegel, além de outros. Editorial do The Guardian de ontem, quinta, critica veementemente Bolsonaro.

Agora, focando-se a presente eleição, vê-se que ela apresenta preocupantes índices de sandice - misturas explosivas de loucura, insensibilidade e/ou estupidez.

A primeira sandice é o próprio apoio a e o voto em Bolsonaro e em seu fiel ou infiel acompanhante, o general Mourão. Não há desilusão com os políticos ou com a política que justifique isto, ao contrário do que muitos apregoam. Ambos são a face mais conturbada de nossa política, ali onde má fé, cinismo e ressentimento se misturam com ódio e desprezo por tudo o que é progresso humanitário, abrindo as comportas para o dilúvio de fobias que acompanha a dupla como sombra indelével. 

Apenas a ignorância auto-satisfeita ou sua indução podem justificar este passo em direção ao abismo. A indução à ignorância parte sobretudo da provinciana mídia mainstream do Brasil, que de liberal só tem o nome, assim como o PSDB de social-democrata só tem o nome. Esta ignorância não tem preconceito de classe: ela atinge abastados abestados, pobres que vestem contos de terror com adereços de contos de fada, e remediados (como se dizia antigamente da classe média) ressentidos com os “privilégios” das políticas sociais dos governos petistas anteriores. Sua resultante é o antipetismo contumaz que cega um grande número de pessoas para os males que já estão manifestos nesta campanha bolsonarista de continuidade e agravamento dos retrocessos de Temer em todas as frentes, do campo social, ou econômico, educacional, ou cultural, de saúde e etc. à política externa servil e capacho dos EUA. Bom há os que apoiam ou votam na dupla com convicção firmada, mas estes não incorrem em sandice. São a convicta “tigrada” da extrema-direita, a loucura levada adiante com profissionalismo.

A segunda sandice corre paralela a esta primeira. É a liberalidade cúmplice com que os apoiadores do golpe de estado de 2016 tratam o risco da eleição do neo-fascismo galopante. Entram nela as parcelas do judiciário que municiaram o golpe, acalentaram-no, induziram-no e agora se aferram em mante-lo vivo através das medidas de exceção, como a perseguição contra Lula ou o desfraldar de novas ou antigas denúncias premiadas contra ele e o PT. Os políticos e candidaturas que provém ou entraram neste campo golpista também estão agindo com extraordinária leviandade em nome de deter o que vêm como a avalanche histórica no PT e das esquerdas de um modo geral nos últimos anos. Lembram os aristocratas, burgueses e liberais da República de Weimar, na Alemanha, que viam em Hitler um mal menor, breve e passageiro, necessário para deter os comunistas e os social-democratas. Deveriam receber tratamento terapêutico, pois são suicidas em potencial. Entra aí também uma parte ponderável de comentaristas da mídia tradicional.

Mas há outras sandices em curso, também de vocação suicida. Refiro-me à brigalhada que observo entre partidários de Haddad e os de Ciro Gomes, trocando acusações e farpas absolutamente desnecessárias nesta altura do campeonato. Preocupam-me sobretudo tais ações por parte dos Haddades, pois este é o candidato que tem mais a perder com esta agressividade contraproducente. Tudo indica que Haddad irá para o segundo turno, armado cavaleiro das política sociais que fatalmente serão destroçadas mais ainda caso Bolsonaro vença e também armado cavaleiro anti-fascista. Na disputa do segundo turno a dupla Haddad/Manuela vai precisar do voto maciço dos ciristas, além dos que puder recolher entre marinas, meirelles e até alckminios, para vencer. Os de Boulos, na maioria, devem ir para Haddad, assim como os de João Goulart Filho e pelo menos vários de Vera Lúcia. Nestas hostes sempre haverá, é claro, os alucinados que pregarão o voto nulo. Dos outros partidários de outros candidatos não sei. Mas não é só isto. 

Se a nossa dupla vencer, ela terá de contar com Ciro e seus aliados para governar, pois certamente a fúria dos golpistas, se golpeados na eleição, irá recrudescer de modo vingativo e puxará inevitáveis terceiros e quartos turnos. Deve-se assinalar que há também uma tresloucada tentativa por parte de alguns ciristas no sentido de, a menos de 48 horas do começo do primeiro turno, querer reverter tudo e provocar uma nesta altura impossível gigantesca revoada de votos em Haddad/Manuela em direção a Ciro. Bom, deve-se reconhecer que tudo é possível neste poço sem fim de desvarios em que o golpe de 2016 e seus apensos mergulharam o Brasil.

Ainda há uma quarta sandice residual, a daqueles que querem por todos os meios provar que toda esta situação de crescimento vertiginoso das direitas extremadas ou não se deve unicamente ao PT, Lula e sua “política de conciliação”. Mutatis mutandis, lembram uma hipotética iniciativa de um pacifista carregando os fuzis do Exército Vermelho com pólvora seca por ser contra a guerra, em plena Batalha de Stalingrado.

Estas disputas intra-esquerda literalmente na boca das urnas também lembrar algo da República de Weimar. Tenho insistido na necessidade de que aqueles que vierem a Berlim visitem o Memorial da Resistência Alemã (Gedenkstätte Deutscher Widerstand) na hoje chamada Stauffenbergstrasse, no prédio que era a sede do QG do Exército Alemão. Ali se vê como a resistência dos alemães ao nazismo foi bem maior do que até hoje a maioria pensa. Porém ela padecia da eterna praga que se abate sobre as resistências nestes momentos cruciais. Como tenho dito, os social-democratas e os comunistas não se entendiam entre si, e não falavam com os liberais, que não falavam com os religiosos, e ninguém falava com os aristocratas e militares que, por sua vez, não falavam com ninguém. Outro exemplo histórico: a Guerra Civil Espanhola e as lutas fratricidas entre comunistas, anarquistas, trotskistas e liberais diante da muralha falangista.

Uma frente anti-fascista tem que subsistir caso Haddad e Manuela vençam o segundo turno - e também caso o brutalismo vença com Bolsonaro e Mourão.

Flavio Aguiar
No Carta Maior
Leia Mais ►

Vídeo mostra homens atacando sede do PT em Porto Alegre


Dois homens atacaram, na noite de quinta-feira (4), a sede do Partido dos Trabalhadores em Porto Alegre, rasgando e derrubando a fachada da entrada da sede.

Os autores do ataque foram identificados por câmeras de segurança de prédios vizinhos no momento em que cometiam o ato.

A direção municipal do partido informou que já havia efetuado registros policiais de ataques que vinha recebendo via redes sociais.

Lembra também que, durante a passagem da caravana do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo estado, em março deste ano, ocorreram espancamentos e ameaças com armas de fogo contra militantes petistas. Confira abaixo o vídeo que flagra os dois homens agindo:



No Sul21
Leia Mais ►

Rejeição a PT no Sul leva a coação por voto e abordagem da PM

Advogado foi intimidado por ter adesivo do PT no carro, enquanto empresários da região pressionam funcionários a votar em Bolsonaro

A direita é forte no Sul. Segundo o Datafolha, a rejeição de Haddad na região saltou de 37% para 52%
Na terça-feira 2, em Curitiba, o advogado e professor de Direito Administrativo Tarso Cabral Violin saía de um restaurante e, acompanhado de sua filha de 12 anos, foi abordado no estacionamento por dois policiais militares. Um deles se aproximou do carro e disse que o adesivo colado no vidro traseiro era ilegal, pois trazia a imagem do ex-presidente Lula. “Disse a ele que não é ilegal e apenas exercia meu direito à liberdade de expressão”, conta o advogado.

Para justificar a abordagem, o militar afirmou que fora convocado ali “por uma juíza de nome Camila, que também almoçou no restaurante” e teria ficado incomodada com a imagem. Sem reação ou argumentos, os policiais se retiraram. “Não foram agressivos, mas prepotentes. Essa atitude é apenas uma amostra do que pode vir a acontecer em breve no Brasil. Quem viveu o período de autoritarismo, da ditadura militar, conhece muito bem o que é isso. Mas nada vai me intimidar” afirmou Violin.

Naquele mesmo horário, há pouco mais de um quilômetro dali, quem também não se intimidou foi a procuradora do Ministério Público do Trabalho do Paraná, Cristiane Maria Sbalqueiro Lopes. Ao tomar conhecimento que o diretor-presidente da rede de supermercados Condor, Pedro Joanir Zonta, havia expedido uma carta aos 12 mil empregados coagindo-os a votar no candidato Jair Bolsonaro nas eleições do próximo domingo, imediatamente o convocou para prestar esclarecimentos ao MPT. “Soube do ocorrido por volta das 13:30 e o intimei para uma audiência às 17 horas da mesma tarde” afirmou a procuradora.

Na mensagem, Zonta afirma “meu voto é no Bolsonaro” e justifica a opção pelo fato do candidato “não ter medo de dizer o que pensa; protege os princípios da família, da moral e dos bons costumes; luta contra o aborto e contra a sexualização infantil; é a favor da redução da maioridade penal e segue os valores cristãos”.

Atribui à esquerda “o fim da família; o agravamento da crise econômica; a corrupção; o desemprego; o aumento da criminalidade e a transformação do Brasil em uma Venezuela”. Encerra com o compromisso de que “não haverá de forma alguma, corte no 13º e nas férias dos colaboradores do grupo Condor”.

A procuradora pediu que o empresário explicasse este parágrafo, que lhe pareceu “bastante confuso”. Zonta afirmou que, segundo informações, os empregados comentavam pelos corredores que não votariam em Bolsonaro porque não queriam perder estes direitos. “O contraditório é que ele, como dono da rede, não só pedia voto ao candidato como garantia o pagamento do 13 e férias. Na prática, trata-se de coação, de uma promessa de vantagem em troca de voto”, explica a Lopes.

Neste caso, além da coação, havia o crime da compra de voto. O empresário assinou um Termo de Ajustamento de Conduta, onde se comprometeu a redigir, em até 48 hrs, um novo documento para ser divulgado pelos mesmos canais, informando que se trata de uma posição pessoal, sem qualquer interferência no campo de trabalho.

arq.jpg
Adesivo em carro foi motivo para abordagem policial
(Arquivo pessoal)

Em Santa Catarina, Luciano Hang, dono das lojas Havan, com mais de 120 unidades espalhadas pelo País, coagiu e pressionou por meio de um vídeo interno seus 15 mil empregados a votar em Bolsonaro. Afirmou que, caso um “candidato de esquerda” vença a eleição presidencial irá repensar o futuro da empresa e “talvez venha a fechar algumas lojas. Você está preparado para sair da Havan? Você, que sonha ser líder, gerente, crescer com a Havan, já imaginou que tudo isso pode acabar dia 7 de outubro? (...) Se você não votar, se você anular seu voto, se você votar em branco e a esquerda ganhar, e nós virarmos uma Venezuela, vou dizer pra (sic) vocês: até eu vou jogar a toalha”, afirmou na gravação.

De acordo com o juiz do Trabalho Carlos Alberto Pereira de Castro, o empresário manteve uma "conduta flagrantemente amedrontadora" ao divulgar vídeos e organizar eventos com funcionários em que declara seu voto no candidato do PSL, e sugere que, caso ele não ganhe, o futuro da Havan e de seus empregados estará em risco. Neles, afirma que a empresa fez levantamentos de intenção de voto entre seus funcionários.

René Ruschel
No CartaCapital
Leia Mais ►

Dias Toffoli impede Fernando Morais e Mino Carta de visitar Lula


Leia Mais ►

Luiz Eduardo Soares


Leia Mais ►

Bolsonaro é o messias que Edir Macedo descreveu em seu livro “Plano de Poder”, o “Mein Kampf” evangélico

Está tudo aqui
A aliança de Edir Macedo e Jair Bolsonaro faz parte de um projeto ambicioso explicitado num livro lançado em 2008 pelo fundador da Igreja Universal.

“Plano de poder” é quase um Meio Kampf em matéria de sinceridade, despudor, ganância, fanatismo religioso e loucura.

A ascensão dos evangélicos é tratada como algo determinado pela Bíblia.

O co-autor é o jornalista Carlos Oliveira, na verdade um fantoche como o “repórter” Eduardo Ribeiro, da Record, que bateu papo com o ex-capitão no aconchego de seu lar em programa exibido no horário do debate da Globo.

Trata-se de um “manual que não se restringe apenas à orientação de fé religiosa”. É também “um livro que sugere resistência, tomada e estabelecimento do poder político ou de governo”.

No capítulo “A visão estadista de Deus” somos avisados de que para os crentes chegarem lá é necessário “engajamento, consenso e mobilização”.

“Insistimos em que a potencialidade numérica dos evangélicos como eleitores pode decidir qualquer pleito eletivo”.

“Em nenhum tempo da história do evangelho no Brasil foi tão oportuno como agora chamá-los de forma incisiva a participar da política nacional (…) O momento é oportuno ao projeto divino de nação!”, reza a obra. 

Os fieis que ainda não entenderam “o projeto de poder político” precisam “despertar ao toque da alvorada”.

Ai de quem não desperta.

Recentemente, um pastor da Renascer, que pertence àquele casal preso nos EUA com 56 mil dólares em dinheiro vivo, foi demitido por se recusar a pregar em favor de Bolsonaro.

Como os hebreus sob o governo do faraó no Egito, os “cristãos” brasileiros estão à espera de um “libertador”, um novo Moisés. 

Com o “agente apropriado”, teremos o “início do grande intuito divino”.

“O êxito em política, sobretudo na atualidade, depende de um conjunto de ações estratégicas, bem elaboradas e objetivas, que vai desde o político como produto às ações dos que desejam elegê-lo”.

“Deus segue procedimentos normais e técnicos”. 

A aproximação de Edir com Bolsonaro começou em novembro do ano passado, segundo a Folha, quando o extremista foi apresentado à direção da emissora em evento de um instituto filantrópico do grupo no hotel Unique, em São Paulo.

Edir Macedo terá, se JB triunfar, um amigo para despejar verbas publicitárias em seus negócios.

A ideia é ter aqui uma versão da Fox News, trincheira de Trump na mídia americana. A diferença é que a Fox é bem feita (não me refiro ao conteúdo e sim à forma).

Se isso vai dar certo são outros quinhentos, já que a Record, que só produz lixo no jornalismo, produzirá mais lixo. 

A única maneira de defender um sujeito como Jair Bolsonaro é enganar a audiência — e isso é especialidade da casa.

Não está no livro de Edir, mas no Novo Testamento, e quem falou foi Jesus Cristo: “Vós tendes por pai o Diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele é homicida desde o princípio, e nunca se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira”.

Edir encontrou seu messias.


Juntos e ao vivo

Kiko Nogueira
No DCM
Leia Mais ►