4 de out. de 2018

Resistir para vencer. Pesquisa agora é só propaganda


Qualquer um percebe que se formou um “todos por Bolsonaro” no país, com a vergonhosa entrega da mídia, do Judiciário e de parte dos políticos convencionais ao favoritismo do candidato fascista.

O Datafolha de hoje segue nessa toada, mas sem conseguir, entretanto, dar ao candidato da direita o empuxo necessário para evitar que a decisão fique para o segundo turno.

Publico o dado do G1 porque a Folha optou, a três dias da eleição, em mudar o critério do cálculo de percentagens, usando o conceito de “votos válidos”, no qual insere os indecisos, para ampliar as percentagens.

O Datafolha criou, claro, uma confusão que alimenta a ideia – remotíssima – de que a decisão possa se dar em primeiro turno.

Dá a Bolsonaro (35%) mais que o Ibope de ontem (32%) e a Haddad (22%) menos que a pesquisa Ibope (23%).

Os dois vão dançando, sincronizados, de forma a que o ânimo das campanhas, na reta final, “acerte” os números com a realidade que produzem.

Em ambos os casos, porém, a “onda” pró-Bolsonaro não se confirma no esvaziamento dos demais candidatos, o que é dado da maior importância, pois estes seriam os primeiros a sofrer com uma disparada do favorito.

O resto é acerto nos brancos/nulos e indecisos e nas margens de erro.

E a crença de que “a voz do dono” possa mover o eleitorado.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Ex-líder do Comando Vermelho apoia Bolsonaro

Aldidudima Salles, o Pastor Salles, comandou 6 mil membros da facção na década de 1980 e foi condenado a 300 anos de prisão; hoje ele é candidato a deputado em SP pelo PSC

Pastor Salles, ex-líder do Comando Vermelho, é candidato e apoia Jair Bolsonaro
Foto: Reprodução/Facebook
Pastor Salles, 55 anos, prega em uma igreja evangélica na zona leste de São Paulo. A vida que leva hoje em dia está em outro extremo comparado com a que tinha na década de 1980, quando participou da fundação do CV (Comando Vermelho), facção criminosa que atua no Rio de Janeiro até hoje. Agora, sua intenção é virar deputado estadual. Para isso, apoia a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência e aparece em santinhos ao lado do capitão reformado do Exército.

“Apoio meu e do meu partido, de ambos, a Bolsonaro. Se formos olhar, temos Ciro, Geraldo, Haddad, o do Sul… Álvaro Dias… Acredito que nenhum deles que entrar vai fazer muita coisa pela situação do Brasil, mas acredito que se entrasse um cara linha dura, como o Bolsonaro, provavelmente ia ajudar alguma coisa”, defende Aldidudima, seu nome de batismo.

O ex-comandante da maior facção criminosa do RJ considera o também carioca Cabo Daciolo, “que é evangélico”, outra boa opção para a Presidência. Porém, aposta em Bolsonaro. “De todos os que estão, o Jair Messias Bolsonaro vai ser eleito no primeiro turno. Entre ele e Haddad, fico com Jair, não sou de esquerda”, diz.

O que faz uma pessoa com passado influente no mundo do crime considerar o capitão da reserva uma boa opção? “A proposta de ser contra aborto, que também sou, muito boa dele. É cristão, as igrejas evangélicas estão apoiando ele 100%. Gosto do jeito do Jair, me sinto bem ouvindo os comentários dele”, explica o Pastor.


Montagem de panfleto em que Salles (dir.) 
aparece ao lado de Bolsonaro
Foto: Reprodução/Facebook

Ligeirinho, como Aldidudima Salles era conhecido na época, liderou seis mil homens no CV. Ele diz ter matado 76 pessoas, levado 16 tiros quando estava na facção e pegado pena de 300 anos, com 10 cumpridos e liberado por bom comportamento.

O discurso é entoado em suas pregações para “mostrar aos jovens que o mundo do crime não compensa”. Agora, põe como missão defender a bandeira de Deus na Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) como deputado estadual.

‘Matar? Só Deus’

Apoiar Bolsonaro não significa concordar com tudo que ele pensa, diz o Pastor Salles. Um dos ponto de discordância entre os dois são os discursos na linha de “bandido bom é bandido morto”, dito à exaustão pelo candidato do PSL. Jair pretende dar uma espécie de carta branca para as PMs matarem e não serem investigadas, o chamado “excludente de ilicitude”, hoje previsto no Código Penal para casos em que o agente público age em legítima defesa. No plano de Bolsonaro, a ideia  é fazer com que esse dispositivo seja automático para qualquer ação de policiais, não importando se legítima ou não. O pastor é contra.

“Não é um discurso correto, só quem tem direito de tirar a vida é Deus. Bolsonaro tem a maneira dele de pensar, é um militar e linha dura, sei disso porque meu pai era militar também. Mas acredito que a partir desse lado a situação não vai mudar. Nesse sentido, isso vai piorar o que já está ruim”, analisa, buscando passar a mensagem de que o crime é prejudicial às pessoas.

“Essa é a minha missão desde quando vim para igreja: fazer coisa para quem esta envolvido nas drogas. Não sou a favor do tráfico, não sou a favor do crime, não a favor das drogas. Estive no meio da lama e tive que torcer para alguém fora do fundo do poço em que estava me tirar dali”, diz o ex-líder do CV, explicando um dos seus objetivos caso eleito.

“O que estou investindo muito é na recuperação de usuários, dependentes químicos. Sendo eleito, vou investir nessas casas de recuperação para eles saírem do crime, um mundo que não compensa”, diz. “Sobre meu passado, Jesus fez tudo mudar. Nunca tive a intenção de mostrar isso a favor, quem está no crime acha que fazer isso ou aquilo é ter moral. Se mostro o que fiz é porque estou arrependido, para incentivar ele a sair dessa vida”, explica.

Motivações para a candidatura

Aldidudima tentou virar político em outras oportunidades, sem sucesso: primeiro também para uma vaga na Alesp, em 2014, e depois como vereador na cidade de Pirapora do Bom Jesus, a 61 km da capital São Paulo. Desta vez, a candidatura tem a cantora Daniela Mercury como um dos motivos para a nova tentativa.


Capa e contra-capa do DVD em que Aldidudima conta sua trajetória como ‘Ligeirinho’ na época do crime organizado
Foto: Reprodução

“Vi uma vez em Garanhuns, em Pernambuco, a Daniela Mercury falando em um show que Jesus era gay, que era bicha… Como pastor, não podia aceitar isso. Pensei em entrar na política não para me vingar, mas para ter poder nas mãos a ponto de defender a causa evangélica”, explica Salles, listando o fato de ser cristão, evangélico e “defensor da bandeira da fé em Deus” como as outras explicações.

“[Busco a política] Não para ficar rico, sei que vão falar isso. Vou ser um deputado diferente dos outros e sei que vou ser eleito, vou andar correto como a bíblia tem me ensinado”, promete o candidato. “Infelizmente a política do Brasil está um lixo, nossos representantes fazem mil promessas e não cumprem o que prometem, estamos sofrendo. Não posso concordar com esse tipo de coisa’, completa.

Aldidudima fez parte de um documentário publicado pela Ponte sobre presos que passaram pelo extinto Carandiru. Nele, relatou sua história no crime, durante a prisão e depois de solto. Há trecho de um de seus discursos como pastor.



No Ponte
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Haddad: Saúde será prioridade nacional, para garantirmos atendimento de qualidade e humanizado a todos os brasileiros


Anualmente milhares de brasileiros morrem por falta de diagnóstico e tratamento adequados e precoces.

Outros tantos perdem a oportunidade de maior sobrevida e/ou melhor qualidade de vida.

Nas pesquisas, quando se pergunta quais os problemas que mais afligem os brasileiros, saúde aparece disparado.

Pesquisa do Datafolha realizada em 10 de setembro de 2018, em todas as regiões do Brasil, mostra que hoje os principais problemas do País para os eleitores brasileiros são a saúde e a violência.

Segundo o levantamento, 23% apontam a saúde como principal problema do país, enquanto 20% acreditam ser a violência.

Na pesquisa anterior, realizada em junho de 2018, esses números eram 18% para saúde e 9% para violência. Corrupção era o principal problema do país para 18% dos entrevistados em junho e o desemprego, para 14%, nível que se mantém inalterado agora.

Para 40% dos entrevistados, a prioridade do próximo presidente deveria ser a saúde.

A saúde é apontada como o principal problema do país por 28% das mulheres e 18% dos homens e é mais citada conforme diminui a renda familiar mensal do entrevistado, sendo escolhida por 14% entre os mais ricos e 25% entre os mais pobres.

A saúde também é o problema mais lembrado entre os moradores das regiões Sudeste (24%), Sul (27%) e Centro-Oeste (29%), e nas demais regiões divide a liderança com o problema da violência.

Os professores Mário Scheffer (Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP), Lígia Bahia (Instituto de Saúde Coletiva da UFRJ) e Ialê Falleiros Braga (Fiocruz) analisaram os programas dos 13 candidatos que disputam a Presidência da República.

Título do trabalho, que tem 36 páginas e cuja’íntegra encontra-se ao final: A Saúde nos programas dos candidatos à Presidência da República do Brasil em 2018

De cara, um dado chama a atenção: Jair Bolsonaro  (PSL) considera excessivos os gastos atuais com saúde pública.

Diametralmente oposta é a avaliação de  Fernando Haddad (PT),  da Coligação Brasil Feliz de Novo, que tem Manuela D’Ávila (PCdoB) como vice.

Confira, logo abaixo, a nossa entrevista exclusiva com Haddad.

Na segunda-feira(09/10), Haddad visitou a principal instituição brasileira dedicada à pesquisa e à formação em saúde — a Fiocruz, no RJ. Lá, foi recebido por diretores, pesquisadores e trabalhadores. Ao lado dele, da esquerda para a direita:  Paulo Gadelha, ex-presidente e coordenador da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030;  Carlos Morel, coordenador do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS), Marco Krieger,  presidente em exercício e vice-presidente de Produção e Inovação em Saúde; e Valcler Rangel, chefe de gabinete da Presidência da Fiocruz. Como a presidenta da Fiocruz, Nísia Lima, estava em viagem, coube a Krieger entregar ao candidato a Carta de Manguinhos (na íntegra, ao final), elaborada pela Fiocruz, SBPC e Abrasco. Fotos: Peter Ilicciev

Segue a nossa entrevista exclusiva:

Blog da Saúde – Saúde é o problema que mais preocupa hoje o brasileiro. Caso eleito, o que o senhor pretende fazer para equacionar as dificuldades de acesso à assistência que atingem dramaticamente milhões de homens e mulheres, da infância   à terceira idade?

Fernando Haddad — Antes de mais nada, vamos ouvir com sensibilidade o que nos dizem os brasileiros. Não é mais possível impor tanto sofrimento e espera em filas intermináveis.

Se é verdade que o SUS produziu mais vida e cidadania, ainda temos muito que avançar.

Nosso compromisso é garantir amplo acesso e com qualidade aos serviços de saúde, coordenando o sistema nacional de saúde, articulado com municípios, DF e estados, para que os principais problemas sejam enfrentados.

Temos que garantir, por exemplo, acesso pleno à atenção básica e também a consultas, exames e procedimentos especializados.

Outra questão prioritária, não percebida diretamente pela população, mas que está na raiz dos problemas, é o subfinanciamento crônico do setor.

A Emenda Constitucional 95, que congela o orçamento da saúde por 20 anos, agravou esse quadro, razão pela qual o nosso plano de governo prevê a revogação da EC 95.

Que diagnóstico a candidatura faz da situação atual da saúde pública no Brasil?

Infelizmente, depois de golpe de 2016, assistimos vários desmontes.

Vão do fechamento das farmácias populares, passando por retrocessos na atenção à saúde mental, à redução da Estratégia Saúde da Família, do Mais Médicos e do Brasil Sorridente, com sérios impactos os indicadores da saúde, inclusive no aumento inaceitável da mortalidade infantil.

Qual o principal enunciado do programa de saúde do governo Fernando Haddad-Manuela DÁvila?

A Constituição Federal define a saúde como direito universal, de todas e todos brasileiros, e integral, para qualquer problema de saúde com o qual a pessoa sofra. Esses preceitos princípios precisam ser perseguidos e garantidos diariamente. É o que faremos.

Reafirmo aqui o compromisso de defender e continuar a luta pela implantação total do SUS, como direito social de todo o povo brasileiro e dever do Estado.

O nosso principal enunciado, portanto, é o de garantir acesso à saúde, com qualidade e de forma humanizada, a todos os brasileiros, tratando a saúde como prioridade nacional.

Como o seu governo pretende tornar esse enunciado realidade?

Priorizaremos as ações de prevenção e promoção da saúde, expandiremos e qualificaremos a atenção básica e, como eixo primordial, enfrentaremos o grande gargalo no acesso à atenção de média complexidade.

São consultas e exames especializados e cirurgias de média complexidade.

Estamos falando de aproximadamente 20 especialidades médicas, diversos outros profissionais de saúde, dezenas de exames e ainda cirurgias de varizes, retirada de adenoide e  amígdalas, laqueadura, vasectomia, mastectomia simples, artroscopia.

Para superar a demanda reprimida, uma das principais propostas do nosso plano de governo é a criação, em parceria com estados e municípios, da rede de Clínicas de Especialidades Médicas em todas as regiões de saúde.

Integradas com a atenção básica, as Clínicas de Especialidades Médicas garantirão acesso a cuidados especializados por equipes multiprofissionais.

As Clínicas de Especialidades Médicas contarão com médicos especialistas — como ortopedistas, cardiologistas, ginecologistas, oftalmologistas, oncologistas, endocrinologistas e psiquiatras — e profissionais de outras áreas de saúde – por exemplo, fisioterapeuta, psicólogo, fonoaudiólogo, nutricionista.

As Clínicas de Especialidades Médicas incluirão também hospital-dia e poderão realizar diversos procedimentos, como cirurgias ambulatoriais especializadas, exames ultrassonográficos e procedimentos ortopédicos.

Serão organizadas de forma regional, com unidades fixas e unidades móveis de saúde fixas e transporte para os pacientes que precisarem de tratamento fora do seu município. Tudo isso com prontuário eletrônico.

Vamos reorganizar as cirurgias eletivas [aquelas agendadas previamente], investir no prontuário eletrônico e garantir transporte seguro no dia e hora marcados.

Com tudo isso pretendemos reduzir as filas de consultas, exames e cirurgias eletivas.

Como seria esse transporte dos pacientes?

Nós sabemos que muitos faltam a consultas, exames e cirurgias eletivas agendados em outros municípios simplesmente porque não conseguem chegar por falta de condução.

O nosso programa de governo prevê transporte adequado e com segurança no dia e hora marcados. Se destinará especialmente a pacientes que não moram nos municípios onde os exames ou cirurgia serão feitos.

Diariamente os veículos especiais farão as rotas estabelecidas, levando e trazendo os pacientes agendados depois do atendimento.

Atualmente, no Brasil, 3,9% do PIB são destinados à saúde pública. Os candidatos Jair Bolsonaro (PSL) e João Amodêo (Novo)  dizem que os gastos atuais com saúde pública são excessivos no Brasil. O acha disso?

Para garantir um sistema de saúde universal é necessário garantir os recursos necessários.

Como eu falei no início, ao contrário do que alguns dizem, a nossa saúde pública é subfinanciada. No Brasil, os recursos aplicados são extremamente baixos quando se compararmos com outros países.

Investimos apenas R$ 3,40 por habitante/dia!

Nesses R$ 3,40 – veja bem! — estão somadas as três esferas de governo, e todos os recursos para garantir de vacinas infantis a transplantes.

Vamos trabalhar em parceria com Estados, DF e Municípios, para que o Brasil aplique progressivamente cerca de 6% do PIB. É um desafio grande que temos que encarar de frente.

Em 2017, a despesa pública em saúde foi R$ 262 bilhões, equivalente a 4% do PIB (União, estados e municípios).

Agora, só aumentar o investimento na saúde pública não basta.

É preciso buscar maior eficiência do sistema, valorizar cada real aplicado, combater desperdício, desvios e corrupção, tarefa que será feita em articulação com estados, DF, municípios e conselhos de saúde.

É preciso também melhorar as compras públicas de medicamentos e utilizar o prontuário eletrônico para evitar desperdícios, entre outras medidas vitais.

Vamos colocar em prática tudo isso.

De onde virão os recursos para garantir o SUS de melhor qualidade para a população?

Vamos revogar a Emenda Constitucional nº 95, que congela os investimentos em saúde por 20 anos.

Vamos também resgatar o Fundo Social do Pré-sal para que os recursos oriundos do petróleo sejam utilizados para financiar a educação e a saúde pública, como estava previsto na sua criação pelo presidente Lula.

Vamos rever criteriosamente as isenções fiscais e taxar produtos nocivos para a saúde, para reduzir o consumo e ampliar a base das receitas do SUS.

Também vamos aperfeiçoar o ressarcimento das operadoras de planos de saúde pelos serviços prestados pelo SUS. Em dezembro de 2017, o STF julgou constitucional a cobrança do ressarcimento. Agora não resta dúvidas da constitucionalidade.

Além disso, a retomada do crescimento da economia e a geração de empregos formais terá impacto positivo na arrecadação da União, o que permitirá a ampliação dos recursos para a saúde.

Que produtos nocivos à saúde serão taxados, se o senhor for eleito?

A Organização Mundial de Saúde (OMS) sugere taxar bebidas açucaradas, bebidas alcoólicas e fastfoods. O objetivo é reduzir o consumo deles e, com isso, os riscos  saúde. Mas antes será necessário um levantamento rigoroso.

Durante esses dois anos e meio de golpe, o governo impôs ao SUS uma política de terra arrasada, ameaçando políticas universalizantes construídas nos últimos anos, como a Saúde da Família e a Farmácia Popular, ou mais antigas, como o Programa Nacional de Imunizações. O que o governo Haddad pretende fazer para recuperar o que foi destruído e ainda avançar na implantação total do SUS?

É vital a revogação da Emenda Constitucional nº 95, como já salientei antes, e retomar a implantação do SUS pra valer.

Queremos fazer um debate amplo por meio de uma nova Conferência Nacional de Saúde e pelo Conselho Nacional de Saúde para um novo plano nacional de saúde, que atente às necessidades atuais do povo brasileiro.

Além disso, vamos repactuar com gestores estaduais e municipais uma agenda estratégica, com ações de curto, médio e longo prazos.

O que a candidatura pretende fazer em relação aos programas Saúde da Família e Farmácia Popular?

De cara, reforçaremos o programa Farmácia Popular, incluindo novos medicamentos para o Mal de Parkinson e fraldas geriátricas, por exemplo.

Isso faz parte da organização de uma atenção básica, perto da casa das pessoas e com capacidade de resolver ali mesmo a situação de saúde de 8 em cada 10 que buscam o serviço de saúde. E é dali que, esses que ainda precisarem, terão acesso às consultas e exames especializados. É o eixo central da política assistencial que queremos para o país.

Entendemos a necessidade de encontrar caminhos de adequação da política de atenção básica às diversas necessidades regionais e características de cada município.

O que seria uma atenção básica resolutiva? Em seu programa de governo, no capítulo da saúde, a expressão “maior resolutividade” aparece várias vezes

Tornar o serviço capaz de responder às necessidades do cidadão naquele lugar.

Por exemplo, 80% dos problemas de saúde podem ser resolvidos na rede de atenção básica, ou seja, nos postos e unidades básicas de saúde. Portanto, não necessariamente é preciso encaminhar determinado paciente para outro profissional.

Por isso, vamos priorizar e fortalecer a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) e garantir a expansão de equipes de Saúde da Família, completas e com médicos, já que vamos retomar com vigor o Mais Médicos.

Vamos investir na integração dos serviços básicos e especializados já existentes e criar novos onde for necessário, além de promover a qualificação do cuidado multiprofissional e a ampliação da resolutividade.

Vamos investir na implantação do prontuário eletrônico de forma universal e no aperfeiçoamento da governança da saúde e estimular a inovação na saúde, ampliando a aplicação da internet e de aplicativos na promoção, prevenção, diagnóstico e educação em saúde.

E o programa de saúde mental, que sofreu retrocessos, priorizando a lógica manicomial em detrimento da reforma sanitária?

Defendemos uma sociedade sem manicômios, que seja capaz de cuidar das pessoas com transtornos mentais em liberdade, respeitando seus direitos.

O nosso governo vai retomar com total prioridade os princípios e diretrizes da Reforma Psiquiátrica.

Vamos investir na rede de atenção psicossocial, incentivando a recuperação e criação dos CAPS-III para que os pacientes com transtornos mentais e seus familiares possam receber cuidados dignos e qualificados, em liberdade e próximo de suas residências.

E, claro, garantir a atenção necessária de modo humanizado e conforme os princípios da reforma psiquiátrica dos casos graves e de urgência que exijam internação.

A saúde da população negra tem especificidades próprias. Ao se desconsiderá-las, negras e negros deixam de ter diagnósticos e tratamentos mais adequados.  Como a candidatura Haddad pretende garantir saúde integral à população negra, levando em conta essas diferenças?

O Ministério da Saúde tem o papel de coordenar o sistema nacional de saúde e garantir a todos os brasileiros, das diferentes regiões do país, acesso aos serviços de saúde e a possibilidade de viverem com mais saúde e qualidade de vida.

Assim sendo,  vamos priorizar políticas de saúde voltadas às pessoas ou grupos com mais vulnerabilidades, produzindo equidade e cuidando de cada um de acordo com suas necessidades.

Para a população negra, além do conjunto de políticas e programas que beneficiarão todos os brasileiros, o nosso governo vai investir na prevenção e controle de doenças mais prevalentes nessa população, tais como anemia falciforme, hipertensão arterial, doença renal crônica e problemas gestacionais, inclusive a violência obstétrica.

Em hipótese alguma, toleraremos qualquer forma de racismo institucional no SUS.

Por meio de políticas integradas queremos enfrentar a violência que mata a juventude negra e pobre de nossas periferias e que tanto impactam os serviços de saúde.

O governo dará também especial atenção ás demandas específicas das comunidades quilombolas.

E em relação à população LGBT?

O nosso Plano de Governo traduz um solene compromisso com a promoção da saúde e da cidadania LGBTI+.

Promoveremos o direito à vida, ao emprego e à segurança, com prioridade para as pessoas em situação de pobreza.

Vamos realizar todos os esforços para que o Brasil supere a violência contra a população LGBTI+, inclusive, por meio de uma lei que responsabilize os crimes de ódio.

O governo investirá no diálogo e participação das entidades e movimentos LGBTI+ para construir política de saúde efetiva.

Vamos investir na saúde integral, com ênfase em ações de promoção e prevenção voltadas à juventude, controle do HIV/aids, aprimoramento do processo transexualizador e oferta de medicamentos gratuitos.

O primeiro ministro da Saúde do governo Temer, o engenheiro Ricardo Barros,  tentou  criar os ‘’planos populares’’.  O segundo, Gilberto Occhi,  respaldou a resolução da Agência Nacional de Saúde Complementar (ANS), que autorizou a venda de planos de saúde, onde o usuário, além da mensalidade, tem de pagar mais até 40% do valor do procedimento.  Como o seu governo pretende tratar a questão dos planos de saúde, caso vença as eleições?

Graças à mobilização da sociedade, os planos populares não foram implantados e não serão implantados no nosso governo.

Graças também à pressão da sociedade o STF derrubou o co-pagamento.

No nosso governo, os planos de saúde não terão regras que, a pretexto de “equilibrar” as operadoras, precarizam a oferta de saúde aos usuários.

Vamos trabalhar em parceria com o setor de saúde suplementar para identificar medidas que garantam a rentabilidade das prestadoras e, ao mesmo tempo, ofereçam aos usuários um modelo de atenção mais integral e resolutivo.

Vamos cobrar das operadoras a utilização de prontuários eletrônicos, mais transparência na utilização dos recursos dos planos, introdução de formas de controle dos reajustes dos planos coletivos.

Vamos, ainda, proteger a ANS de interesses políticos ou privados.

O setor suplementar precisa atuar de forma articulada com o SUS para termos melhores resultados de saúde para toda a população brasileira. Esse é o eixo central da nossa proposta para o setor.

Os laboratórios farmacêuticos e os planos privados de saúde transformaram a Anvisa e ANS, respectivamente, em balcões de negócio. Como a candidatura pretende agir para que os interesses públicos prevaleçam sobre os privados?

Consideramos fundamental que as agências reguladoras possam ter autonomia em seus processos decisórios.

Suas decisões precisam ser pautadas no interesse público e em estudos técnicos com a devida Análise de Impacto Regulatório.

A escolha dos diretores deve cumprir os critérios definidos nas leis e na missão institucional das agências. Não se pode admitir que os interesses políticos ou privados se sobreponham ao interesse público.

No nosso governo, as indicações de diretores para a ANS e Anvisa deverão seguir esses preceitos.

Na Inglaterra, são 2,7 médicos por 1.000 habitantes. No Brasil, de acordo com o último dado que eu li, nós temos 2,1 por 1.000.  Aqui, além da má distribuição, temos falta mesmo de médicos. Mesmo assim, as entidades pressionam para que não se abra mais escolas, inclusive públicas. O que o governo Haddad-Manuela pretende fazer para equacionar essa questão?

Foram os governos do PT os que mais investiram na saúde do povo.

O Programa Mais Médicos é exemplo disso. Testado e aprovado pelos usuários, gestores e estudos científicos, o Mais Médicos será resgatado e ampliado.

A meta era ampliar o número de vagas nas universidades para que o Brasil pudesse chegar em 2026 a 2,7 médicos por mil habitantes.

Saímos de 1,8 em 2013 para 2,2 em 2018, mas o crescimento atual ainda é insuficiente.

Vamos resgatar e ampliar o Programa Mais Médicos, para:

1) ampliar a presença de médicos na Estratégia Saúde da Família;

2) garantir médicos onde precisar, sobretudo nas áreas de maior vulnerabilidade;

3) ampliar as vagas de graduação e residência em medicina em escolas públicas e privadas;

4) fortalecer o Revalida feito pelo INEP com critérios de avaliação justos e isonômicos.

A prioridade do programa será a contratação de médicos brasileiros.



Em junho, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) publicaram a Carta de Manguinhos (veja acima).

O documento resultou do seminário Direito ao Desenvolvimento, à Saúde e à Ciência, Tecnologia e Inovação. O evento integrou as comemorações dos 118 anos da Fiocruz e serviu como preparatório para o 12º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva (Abrascão)



Conceição Lemes
No Blog da Saúde
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Moro fez a onda

https://www.jb.com.br/colunistas/coisas_da_politica/2018/10/943813-moro-fez-a-onda.html

Arrastões na reta final de campanha podem ser determinantes. Já houve muita “onda vermelha” a favor do PT no passado mas agora está em curso a onda pró-Bolsonaro, que o colocou não muito longe de uma vitória no primeiro turno. Não é provável, mas tornou-se possível. O Ibope de ontem mostrou que Bolsonaro continua crescendo (31% para 32%), embora Fernando Haddad também tenha se movido positivamente (21% para 23%). Do final de semana até ontem, grandes massas de eleitores pobres e conservadores definiram-se a favor do candidato de extrema direita, numa onda antipetista impulsionada, principalmente, pela tacada do juiz Sergio Moro, ao divulgar a delação de Antonio Palocci. Com a lembrança dos casos de corrupção reavivada, estes eleitores ganharam a justificativa para a adesão.

Ondas eleitorais são formadas pela erupção de um fato extraordinário ou pela articulação de um conjunto de fatos. Assoprando forte, Moro empinou uma onda que já ameaçava se formar nestas franjas do eleitorado mais pobre, que já foram beneficiadas pelas políticas dos governos petistas mas, sendo essencialmente conservadoras, hesitavam em aderir ao candidato da extrema-direita, que fala muito do que gostariam de ouvir, especialmente sobre ordem e segurança. O impulso veio com a enxurrada de velhas notícias sobre corrupção nos governos petistas, que Moro calculadamente fez jorrar. Desabridamente agora ele fez política com as armas da Justiça, rasgando o que ainda havia de fantasia.

Contribuiu também para a formação da onda a postura excessivamente comedida e branda de Haddad. O substituto de Lula, que deveria estar recordando aos eleitores o conjunto da obra dos governos petistas, foi bom moço demais nos últimos dias, talvez preocupado com a reação das elites e as feitiçarias do mercado. Não falou às grandes massas e nem avançou no detalhamento de seu programa de governo. Não avançou sobre o que mudará na economia para que haja novamente crescimento e emprego. A transferência de votos já havia acontecido na medida do possível. Não era mais hora de continuar segurando a máscara de Lula numa das mãos, e sim de começar a construir sua própria “persona”, dizendo quem é e o que fará. Nesta reta final, diz-se no PT, ele vai responder com mais energia aos ataques e falar ao povão sobre coisas concretas como emprego e melhora nos serviços públicos.

Se Bolsonaro ganhar no primeiro turno, Geraldo Alckmin terá boa parte da responsabilidade. Sua campanha fermentou o antipetismo com peças em que combatia Bolsonaro não pelo mal que ele representa, mas porque ele perderia no segundo turno, permitindo a volta do grande mal, a volta do PT. Só ele, Geraldo, poderia evitar este mal. Ciro também reavivou o antipetismo. É compreensível seu ressentimento por não ter o PT, mais uma vez, cedido a cabeça de chapa a um aliado, numa construção que poderia ter unido e fortalecido a esquerda. Mas o perigo está aí, e diante dele Ciro segue dizendo coisas como “o PT já fez mal demais ao Brasil”.

Há na esquerda uma discussão sobre a contribuição que as manifestações do #elenão, no sábado, teria dado para a formação da onda. Afinal, Bolsonaro até cresceu entre as mulheres. Em vez de “empatia”, a manifestação, basicamente de classe média, pode ter produzido “antipatia” em camadas mais pobres. Mas o sopro grande mesmo foi de Moro.

Blindagem trincada?

Bolsonaro não vai ao debate da TV Globo hoje, escorado em uma contrarrecomendação dos médicos que o operaram. Ao chamá-los ao Rio para obter o parecer, Bolsonaro parece ter procurado responder a cobranças sobre sua participação, vindas de sua base. A blindagem da facada pode ter ficado mais fina. O eleitorado não gosta de candidato que se esconde. Lula era popularíssimo em 2006, quando disputava a reeleição. Mas ao faltar ao debate da Globo, frustrou eleitores e isso, combinado com o caso dos aloprados, tirou-lhe os votos para a prevista vitória em primeiro turno. O eleitor de Bolsonaro vai entender agora, mas no segundo turno, vai querer que ele diga como será seu governo.
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Professoras que estudaram 200 edições do Jornal Nacional


Ângela Carrato é jornalista e professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Eliara Santana, também jornalista, doutoranda em Estudos Linguísticos pela PUC Minas/Capes.

Desde janeiro, quando o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, elas estão debruçadas sobre as edições diárias do Jornal Nacional, da Rede Globo.

Objetivo: observar os movimentos de produção de sentido e a construção de estratégias discursivas para compreender como seriam trabalhadas em um ano eleitoral no cenário pós-golpe.

Aa duas pesquisadoras já analisaram mais de 200 edições do JN, e observaram que:

*A partir do período inicial do julgamento, houve exposição crescente e diária do ex-presidente, sempre no quadro da corrupção.

*Em abril, com a prisão, detectaram movimento oposto: o silenciamento, apagando Lula não apenas do noticiário, mas da vida política brasileira.

Se antes a superexposição visava mostrar que tudo de ruim era culpa da política e dos políticos, agora a ausência de Lula objetivava reforçar um candidato de extrema-direita, fascista, que “não é político”, mesmo estando na política partidária há quase três décadas.

*Em junho/julho, com a proximidade das eleições e a subida crescente de Lula nas pesquisas de intenção de voto, há um novo movimento nas edições diárias do JN: o ex-presidente reaparece no noticiário, mas sempre em matérias enviesadas pelo tema corrupção.

Uma imagem que retrata bem esse movimento do JN é a imagem no topo deste post.

Toda vez que William Bonner ou Renata Vasconcelos fazem menção a Lula e ao PT aparece, ao fundo, essa imagem vermelha, com um duto de esgoto do qual saem notas de dinheiro.

Para as pesquisadoras, uma associação simbólica gravíssima, porque toda vez que o PT colocar suas bandeiras vermelhas em cena, o telespectador vai associar à corrupção.

Ângela Carrato e Eliara Santana divulgam, com exclusividade ao Viomundo, os resultados iniciais do estudo em andamento.

Eles serão apresentados em quatro atos.

 

ATO 1: SILENCIAMENTO DE LULA, O CANDIDATO INDESEJADO 

por Ângela Carrato e Eliara Santana*, especial para o Viomundo

CONTEXTO

Desde janeiro de 2018, quando iniciamos esta pesquisa, já analisamos mais de 200 edições do Jornal Nacional à procura de padrões que pudessem indicar o comportamento da cobertura jornalística do principal veículo da Rede Globo, como ator que se posiciona no campo político, na disputa de poder.

O nosso estudo não avalia apenas os elementos objetivos — duração das matérias, pertinência das fontes ouvidas, presença do contraditório.

Atenta também ao que é dito, como é dito, por quem é dito, pois são aspectos igualmente importantes numa análise com esse perfil.

Vale dizer: entonação de voz, fisionomia da pessoa, vestuário, contexto em que a pessoa fala, cores predominantes na cena, entre outros detalhes. Tudo isso importa e muito.

É importante observar, ainda, que pesa muito o modo como as informações/notícias são organizadas e apresentadas para os telespectadores.

O resultado dessa empreitada é que pudemos verificar, na análise, que há padrões internos claros na cobertura, bem como mudanças estratégicas neles, de acordo com o cenário e as ênfases que a edição pretenda dar.

A mídia, em especial a televisiva (principal fonte de informação do brasileiro, em que se destaca o Jornal Nacional, com cerca de 70% de audiência), é um poderoso elemento que atua na forma como as pessoas passam a perceber a realidade.

Percepção que se torna fundamental para, num momento seguinte, se posicionarem sobre essa mesma realidade.

Ressaltar esse aspecto é essencial, tendo em vista a divergência reinante entre os estudiosos da mídia.

De um lado, aqueles que defendem que a mídia manipula a compreensão do público sobre os fatos, valendo-se para tanto de várias técnicas, entre elas o agendamento (agenda setting).

De outro, os que defendem que o público tem autonomia e outras fontes de informação, sendo assim capaz de formar julgamento próprio (as teorias sobre deliberação).

Os defensores da segunda visão estariam menos equivocados se no Brasil existissem, efetivamente, fontes plurais de informação (em especial também uma mídia pública) e não um monopólio comercial de mídia.

Estariam menos equivocados se existisse aqui uma educação de qualidade para todos e uma população plenamente — e não apenas funcionalmente — alfabetizada, como acontece em países da Europa ou mesmo nos Estados Unidos.

Nesse esforço analítico a que nos propomos, delineamos, nesse período de nove meses, algumas estratégias na cobertura do JN, bem como padrões que se consolidaram.

A edição dos telejornais brasileiros, em especial o JN, utiliza um recurso que segue a mesma lógica das novelas (tão apreciadas no País) e das séries.

Um assunto começa num dia e se prolonga por vários “capítulos”.

O que aconteceu num “capítulo” acaba tendo influência em outro.

No entanto, ao contrário das novelas, onde um personagem não pode desaparecer por muito tempo, nos telejornais, a presença de personagens e dos temas a eles ligados não segue essa lógica.

Em outras palavras: nos telejornais, onde deveria haver espaço para recortes de um dado real, tem predominado mais ficção — compreendida aqui como reconstrução enviesada do real — do que nas próprias novelas.

A CONSTRUÇÃO DE CENAS

Há movimentos bastante precisos e coordenados em relação às edições do jornal nesse período (que denominamos ATO 1), com um enquadramento muito bem construído a partir dos temas (assuntos principais em destaque), da qualificação dos atores e da construção da cena enunciativa.

É preciso ficar bem claro que o JN não está fazendo (se é que algum dia efetivamente fez) puramente jornalismo.

Ele está tentando criar um repertório coletivo, recorrendo à memória discursiva, modalizando o dizer, com estratégias muito bem construídas do ponto de vista discursivo, para substituir a percepção e a memória que os telespectadores têm dos fatos.

Dito de outra forma: o JN está tentando reescrever a história do Brasil, de acordo com os interesses da família Marinho e da elite dominante brasileira (e de seus apoiadores externos).

Esses aspectos são fundamentais para podermos mostrar como, enfim, a discussão de temas relevantes no cenário nacional é circunscrita no e pelo JN, visando a determinadas interpretações e problematizações.

Afinal, o que está circunscrito opera dentro de quadros e enquadres limitados, delineados, produzindo determinados sentidos.

Há acontecimentos relevantes que são redimensionados pelo JN, bem como assuntos que são trazidos à cena para ocultarem ou silenciarem outros.

Por exemplo, a cobertura na semana do julgamento do habeas corpus (HC) à prisão do ex-presidente Lula.

Durante esse período, a cena enunciativa construída no JN projeta uma instância plural, tendendo à neutralidade, atenta à veracidade dos fatos, com foco em temas variados e que contemplam todo o conjunto da sociedade.

Desaparecem os grandes temas POLÍTICA e ECONOMIA.

Tudo gira em torno de questões técnicas (relativas à prisão, ao julgamento).

Alguns aspectos se destacam:

1. Reforço a questões técnicas — o discurso cumpre a função de mostrar que não há um viés determinante no JN.

Há fatos e aspectos técnicos que demonstram esses acontecimentos, e todas essas percepções são mostradas por vozes de autoridade — o jornal não fala.

2. Edições num esforço de equilíbrio, projetando um ethos de neutralidade.

3. Reforço à ideia de justiça para todos, justiça acima de interesses desse ou daquele partido — a grande justiça que está sendo feita é apartidária.

4. Ideia de que a Globo não é contra a justiça — mas a quer para todos.

5. Há um tom sóbrio e de neutralidade.

6. O julgamento do HC pelo STF (4 de abril), a determinação do juiz Sérgio Moro (de cumprimento da prisão menos de 24 horas depois da decisão do STF) e a prisão de Lula são enquadrados pelo aspecto das tecnicalidades: é preciso explicar o que aconteceu e mostrar às pessoas que se trata de um caso comum de detenção, analisado sob um ponto de vista estritamente técnico.

7. Tal enquadramento não contempla a política. Tudo se resume à técnica, à adequação à justiça.

8. Cobertura a-histórica: não há nenhuma recuperação do que foram os governos Lula (2003-2010). A historicidade é apagada da cobertura.



SEM O FINAL ESPERADO

Foi a partir de uma chamada do Plantão JN, no final da tarde de 5 de abril, que a maioria da população tomou conhecimento de que o juiz Sérgio Moro acabava de decretar a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A notícia, lida de forma sóbria por uma das apresentadoras do JN, Renata Vasconcellos, com a câmera destacando seu rosto e sua camisa alvíssima (veja acima), remetia simbolicamente a uma ideia de purificação, limpeza.

Imagem que visivelmente contrastava com a “sujeira” contida nas centenas de matérias feitas nos últimos anos pelo JN, denunciando corrupção e atribuindo-a ao PT e aos seus integrantes, sempre ilustradas por um grande tubo de esgoto, com fundo vermelho, por onde saía todo o dinheiro ilícito.

A construção das cenas, portanto, não é apenas o quadro para a TV, é uma construção de uma cena para enunciar, para dizer de determinado modo, conduzindo a interpretação do espectador.

As cenas são fortemente marcadas por elementos simbólicos (o duto, de um lado; a roupa alva, de outro) que estarão sempre na memória do espectador. E são elementos que aparecem reiteradamente, em quase todas as edições.

A decisão de Moro dominou toda a edição do JN.

Ênfase especial foi dada às condições determinadas por ele para a prisão, lidas com destaque:
“Em respeito ao cargo que ocupou, o ex-presidente deve se entregar até às 17 horas do dia seguinte”; “não serão usadas, em hipótese alguma, algemas” e “ele terá uma cela individual na sede da Polícia Federal, em Curitiba”.
O tom anunciado e que se confirma na matéria é o de pintar o juiz com as cores da benevolência, civilidade, respeito aos direitos.

E isso é marcado pelo verbo que descreve a ação do juiz – Moro CONCEDE O DIREITO A LULA…

Essa ideia perpassa toda a matéria, pois há a descrição dos inúmeros benefícios concedidos a Lula pelo juiz.

A matéria também faz um histórico da decisão do STF sobre o pedido de HC e leem com destaque o ofício de Sérgio Moro.

Não há comentários sobre a rapidez no pedido de prisão.

Há uma descrição detalhada dos benefícios concedidos a Lula, como o banho de sol mais longo e a sala individual e com chuveiro elétrico funcionando.

Na descrição da sala, fazem uma comparação com a situação de outros presos — que não têm essas “regalias”.

Mostram-se as manifestações favoráveis a Lula, em todo o Brasil, bem como depoimentos de vários políticos em Brasilia sobre o pedido de prisão.

Bonner arremata para projetar o ethos de um jornalismo plural — lê uma nota afirmando que a Globo cobre todos indistintamente.

A matéria tem um tom marcadamente sóbrio, descrevendo as ações e os acontecimentos.

A repetição dessas condições, ao longo da edição do JN, acabou funcionando como uma espécie de denúncia de privilégios que Lula, mesmo numa situação extrema, continuava gozando.

A edição do JN do dia seguinte, 6 de abril, trouxe como destaque a não apresentação de Lula e o encerramento do prazo dado a ele por Moro.

Novamente são construídos dois campos de sentidos: Moro, o benevolente, o que concede benefícios, e Lula, o infrator, aquele que descumpre até ordem de prisão.

Havia uma expectativa de que o JN fizesse, no sábado, 7 de abril, uma edição apoteótica, uma espécie de coroação do combate que há anos vinha empreendendo, “em nome da moralidade pública”, contra o PT e os seus integrantes.

A prisão do ex-presidente tinha os ingredientes para ser apresentada ao respeitável público como o ponto final para Lula, o lulismo e o PT.

Mas a cobertura da apresentação de Lula, chamada pelo JN de “entrega”, ficou muito distante do “grand finale” pretendido.

Uma multidão se aglomerou no entorno da sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo, para onde Lula se dirigiu e permaneceu antes de se entregar.

Isso ressaltava simbolicamente a resistência e o grande apreço por um líder político, destoando de possíveis imagens que remetessem ao ostracismo de alguém acuado e rechaçado pela população.

Daí a emissora ter preferido veicular apenas imagens em planos fechados, totalmente diferentes daquelas em que Lula era carregado em meio a um mar de gente, exibidas nos principais sites brasileiros e em jornais internacionais.

Não passou despercebido aos olhares mais atentos que, naquela edição, a imagem que permaneceu mais tempo no ar foi a de um pequeno e defasado avião monomotor Cessna Caravan, da Polícia Federal, que decolou de São Paulo, rumo a Curitiba, levando um ex-presidente que, aos poucos, sumia num céu escuro.

Uma vez que a prisão de Lula não deu à imprensa o espetáculo esperado, tendo ele se projetado como sujeito histórico de muita relevância, as edições da semana de 09/04 a 16/04 cumprem o papel de criar para os espectadores o sentimento de uma “virada de página” — está em curso um novo momento na história do Brasil, sem Lula, sem o PT.

Simbolicamente, a imagem do avião cumpre essa função — uma parte da história se encerra para dar lugar a um recomeço.

Para isso, algumas estratégias, do ponto de vista do discurso, da encenação da notícia, são bem pontuadas, como o silenciamento.

É necessária uma operação para silenciar sentidos potentes advindos do movimento de prisão de Lula, como Lula = ideia.

É preciso conter e silenciar esses sentidos, é fundamental deixar de dizer, é essencial mostrar página virada: por isso, não há qualquer menção a Lula ou aos desdobramentos da prisão nos dias seguintes.

ATO 2: CRIMINALIZAÇÃO DA POLÍTICA – ELIMINAÇÃO DOS POLOS

Ao longo do mês de maio, com vários eventos importantes no cenário político-econômico-social, a cobertura do JN sofreu também mudanças expressivas que indicam tomadas de posição e reação frente a uma conjuntura adversa para o bloco da direita naquele momento, que pode ser resumida em dois pontos:

a) Lula não para de crescer e ameaça (segundo pesquisa Vox) levar no primeiro turno;

b) A direita não tem candidato.

Observando-se um padrão geral da cobertura, temos:

A) Pulverização de temas e abordagens — cada vez isso é mais frequente, numa dinâmica que chega a ser meio frenética, pois não há tempo de digerir o que é apresentado.

B) Fechamento com a voz da Justiça — o STF como fiador de uma ordem desejada.

C) Emoção nos relatos — principalmente nas histórias dos jogadores e na exploração das tragédias, a emoção no discurso — que interpela o espectador e pode causar compaixão, solidariedade — vem sendo cada vez mais utilizada.

D) Há cortes abruptos de temas/notícias para outros, quebrando a sequência de logicidade e amadurecimento na recepção das notícias.

E) Pelo encadeamento e enquadramento dos temas em destaque, fecha-se uma percepção de que o Brasil está vivendo uma situação de desordem.

F) A economia como grande tema não faz mais parte do JN — há assuntos periféricos da área econômica, como a crise do diesel etc., mas nenhuma abordagem sobre crise (cabe até um comparativo estruturado com 2014/2015, quando havia um exagero de menção à crise econômica, quando ela não existia).

A CONSTRUÇÃO DAS CENAS

Como no discurso de informação uma narrativa é construída temporalmente pelo conjunto das notícias (que não são aleatórias ou totalmente fragmentadas ou ainda isoladas) que enfocam reiteradamente um mesmo tema, o cenário trazido pela cobertura da pesquisa não se dá apenas por um conjunto de relatos de dados que teoricamente reportariam uma realidade.

É necessário, portanto, analisar os movimentos da produção de sentidos nas notícias para observar a construção discursiva analisando as estratégias em cada momento e como esses movimentos vão formar um todo com sentido.

Pois bem, analisando esses momentos, há dois movimentos discursivos fortes em curso na cobertura que estão se cristalizando como tendência e fazem parte de uma estratégia mais ampla, como sintetizamos a seguir:

LULA X BOLSONARO

(Silenciamento) (Desconstrução do personagem)

O cenário das eleições traz dois candidatos que polarizam grande parte do eleitorado e estão na dianteira em relação aos demais: Lula e Bolsonaro, sendo que Lula, preso em Curitiba, tem quase o dobro do segundo.

Em relação à materialização das notícias no direcionamento dos sentidos do discurso, há duas estratégias evidentes que estão marcando o enquadramento da cobertura da imprensa corporativa em relação a esses dois atores das eleições.

Com Lula, opera-se o silenciamento (como já dito); com Bolsonaro, a desconstrução.

É preciso, portanto, percorrer esses caminhos de produção de sentido na narrativa para compreender como essas estratégias são desenvolvidas para interpelar o espectador e como elas se ligam num movimento mais amplo.

A desconstrução de Bolsonaro (naquele momento) começa efetivamente com a greve dos caminhoneiros, que paralisou parcialmente o Brasil no mês de maio e contou, num primeiro momento, com certa benevolência da cobertura:

a) Nos primeiros dias, há um acontecimento (quase no âmbito de algo não controlável) que traz prejuízos e tem atores em seu centro, que são os caminhoneiros que reclamam do preço do diesel.

Não se aponta diretamente a responsabilidade do governo, e os caminhoneiros não são tratados como outros grevistas.

Nesse primeiro momento, há disponibilidade de ambas as partes para a negociação em prol do Brasil.

O governo chama as lideranças (sempre nominadas assim, nunca como grevistas) e consegue fechar um acordo bom para todos.

b) No meio do processo, há impasse, não há acordo, e o JN mostra em parte que grupos de caminhoneiros não aceitaram os termos e querem mais.

Mostra também a suspeita de um locaute. Carrega um pouco mais a crítica ao governo, mostrando inclusive que ele foi avisado da insatisfação da categoria.

Segue mostrando, em todo o país, o desabastecimento. Nesse momento surge um ator mais expressivo, o governador de SP, que se presta a negociar com ambas as partes.

Há muito tempo dedicado a ele. Os ministros do governo também são fontes e aparecem dando sua versão sem que haja contraponto a eles — de outras fontes.

c) Num terceiro momento, inaugurado no dia 28 de maio, já há uma clara mudança no enquadramento desse acontecimento.

Surge um novo ator, e um novo campo de sentidos: há “infiltrados” no movimento, o que é denunciado tanto pelo governo quanto pelas lideranças dos caminhoneiros.

Ou seja, surge um sujeito-agente, um culpado pela situação que se agrava.

O tom da cobertura é de que havia, no governo, a expectativa de resolver a crise com o atendimento das reivindicações dos caminhoneiros. Mas isso é quebrado por esse novo ator.

Há outras vozes que emergem — vozes de economistas, portanto, de autoridade. É mostrada a fala de Temer, o pronunciamento, e o panelaço que se seguiu, mas num enquadre de um evento relativamente esperado e não tão expressivo.

Campos de sentidos que se estabelecem: há grupos distintos de caminhoneiros (os que lutam por melhores condições vs. os manifestantes – campos de sentidos CAMINHONEIROS VS. MANIFESTANTES).

Há nitidamente também, nesse corte, o direcionamento para a percepção de que o governo fez tudo o que foi pedido para acabar com a crise, mas não conseguiu por culpa desses novos atores.

A associação — ABCAM — é trazida como fonte para enquadrar os manifestantes, e o ministro da Casa Civil aparece para dizer que as lideranças são difusas.

A matéria mostra “rachas” no movimento e questiona a postura dos “manifestantes”.

Ganha corpo a tese do “infiltrado” — esse novo ator, que tem lado, viés político e ideológico, não está se mobilizando pelo bem do Brasil, mas por uma questão partidária.

Depois disso, a cena enunciativa para mostrar o caos e os prejuízos é bem formatada.

O que se mostra é bastante específico e contundente: crise em hospitais — pessoas podem morrer; pessoas que trabalham por conta própria e precisam de carro; pessoas mais pobres que precisam trabalhar e não têm como se deslocar; perigo da morte de animais — ministro alerta para isso; comida que acaba.

A diretriz do Jornal Nacional é bem delineada pela chamada “Ataques à democracia durante greve causam repulsa em todos os setores”, no dia 28/05 (que terá repercussão na edição do dia seguinte dos jornais impressos, 29/05).

O evento está ali bem enquadrado pela expressão “ataques à democracia” — é esse o cenário, e a ideia de democracia se coloca e passa a ser defendida.

Ou seja, esse ato não é aceito pelo conjunto da sociedade, pelo país, o que é expresso pelos termos “repulsa” (bem marcado, não se trata apenas de simples rejeição, é algo mais enfático) e “todos os setores”.

Circunscreve também esses episódios a grupos bem restritos — a ideia de intervenção não está disseminada na sociedade, ela é localizada, apenas presente em alguns grupos.

Tal comportamento e o ineditismo da cobertura suscitam indagações:

*Por que somente agora os pedidos de intervenção militar parecem incomodar tanto?

*Por que nas manifestações pelo impeachment de Dilma Roussef — quando havia inúmeros e reiterados pedidos nesse sentido, de vários agrupamentos –, isso nunca foi motivo de preocupação ou sequer foi denunciado e destacado pelo Jornal Nacional?

Por que somente naquele momento (quando a greve parece beneficiar uma determinada candidatura) o JN se manifesta contra a ditadura militar?

Por fim, no Brasil do JN, parece que não haverá eleição, pois o tema não aparece no noticiário.

É um tema periférico, e assim permanecerá por muito tempo. É preciso, antes de tudo, eliminar os polos para que se garanta a ascensão de um candidato mais “palatável”.

Nesse cenário — de eliminação dos polos, criminalização da política como terreno da corrupção –, ganha destaque o quadro “O Brasil que você quer”, que passa a cumprir um papel fundamental, o de delinear o Brasil sem conflitos, um novo Brasil.

QUADRO  “O BRASIL QUE VOCÊ QUER”

*As pessoas estão se vendo representadas: há uma profusão de vídeos de localidades muito afastadas e esquecidas do Norte e Nordeste, pobres e negros

*O tema geral dos vídeos parece ser uma resposta ao tema principal do JN — é quase sempre casado.

*Também está trazendo à cena pautas e representantes de minorias (homossexuais, meio ambiente, diversidade cultura).

*O povo está se vendo representado, levando seus problemas — que nenhum político escuta ou quer escutar.

É importante observar, por outro lado, que o telespectador do JN não tem acesso aos dados sobre o número de pessoas que enviaram vídeos para este quadro e, muito menos, sobre o teor de todos os vídeos recebidos.

Algo como acontece com as sessões “Cartas do Leitor”, em que o apoio à linha editorial da publicação sempre prevalece.

Ângela Carrato é jornalista e professora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Eliara Santana, também jornalista, doutoranda em Estudos Linguísticos pela PUC Minas/Capes.

No Viomundo
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Crescimento de Bolsonaro está vindo do abandono dos outros candidatos da direita

Bolsonaro ainda deve crescer mais um pouco até o domingo. Chegará perto dos 40%. Sua diferença em relação a Haddad dificilmente será inferior a dez pontos percentuais. Ainda assim, é importante não se desesperar. Ele não é o favorito para o segundo turno.

Todos nós erramos quando atribuímos à facada o fato dele estar furando o próprio teto. A facada criou uma proteção em torno dele. Mas o crescimento está vindo é do abandono dos outros candidatos da direita por seu operadores e apoiadores políticos, algo que começou de forma envergonhada e agora é aberto.

E junto, claro, a direita que não se quer fascista vai abandonando suas veleidades democráticas. O discurso dos “dois extremos” não é nem auto-engano; é uma desculpa pro forma, dada sem qualquer convicção, ritualisticamente. Se faltava alguma prova, não falta mais: não existe direita democrática no Brasil. Nem liberal (politicamente) ela é.

Cabe à esquerda a missão de, sozinha, defender não só a democracia quanto os direitos e liberdades comumente associados ao liberalismo.

A tendência, assim, é que Bolsonaro alcance, no primeiro turno, uma votação próxima do seu (novo, alargado) teto. Eles estão jogando tudo no primeiro turno porque sabem que o segundo é bem mais difícil para eles. Há um pouco mais de debate, chances maiores de combater a suja campanha de desinformação. O Bozo não vai poder continuar se escondendo.

​É preciso reagir já para impedir a vitória do fascismo no primeiro turno. Está claro que seu adversário será Haddad; este quadro está mais do que consolidado. Não há nenhum sentido em centrar forças para mudar votos no nosso campo, nem mesmo de eleitores dos outros candidatos da direita. Eu mesmo voto em Boulos, por acreditar que é preciso marcar apoio ao projeto que ele representa, mas sei bem que meu voto significa um voto para ter Haddad no segundo turno. (Aliás, a bem da verdade, é preciso dizer que a inflexão antipetista da campanha de Ciro Gomes prestou um grande desserviço à democracia. Mas são águas passadas; tomara que Ciro tenha bastante voto, porque seu eleitor tenderá a ficar com Haddad, assim como boa parte dos que resistem com Marina e mesmo com Alckmin.)

Não é hora de desânimo, nem de jogar a toalha. Temos toda a possibilidade de ganhar essa batalha. Que é isso: uma batalha de muitas que virão para extirpar o fascismo e retomar a construção de uma sociedade menos injusta e menos violenta. Ganhá-la é importante para nos colocar em situação de travar as próximas – começando pela batalha de garantir o respeito ao resultado da eleição.

Isso é muito, muito mais importante do que qualquer mágoa que nos separe, de qualquer crítica, por mais justa que seja, que tenhamos a fazer uns aos outros. A unidade antifascista é a prioridade.

Luis Felipe Miguel
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O bolsonarismo levaria o terror e além das redes


Imagine o generoso leitor e a otimista leitora que Jair Bolsonaro, eleito, vá respeitar as leis e os direitos do indivíduo e da sociedade.

Mantenha este senso crédulo e responda a si mesmo algumas perguntas.

As turmas de “bombados”, que já fazem sem poder, vão conter seu ímpeto de humilhar e até agredir quem eles acham “nocivos” socialmente? Ou seja, “esquerdopatas”, “viadinhos”, “sapatas”, “favelados”  e “crioulos”, termos que eles criaram ou fizeram decair de gíria para a ofensa?

Os policiais, para quem se proclama a liberdade de matar sem sequer serem processados por isso – a tal “excludente de ilicitude” – vão desperdiçar a chance de mais  poder sobre a vida ou a morte de quem quiserem?

As milícias paramilitares, que já atuam em diversos locais do país, idem?

Os milhares de armas que seriam compradas – e o capitão sinalizou que até pistolas e fuzis serão liberadas – vão ficar silenciosas ou só irão disparar em casos de grave ameaça à vida?

Você, que já evita hoje qualquer discussão por receio de que a outra pessoa seja violenta ou tenha uma arma, como se sentirá quando elas forem multiplicadas? Ou, por ter uma consigo, vai reagir quando um quarteto de assaltantes vier de roubar, de armas na mão?

Nada disso é sequer improvável, com a sinalização política de um presidente que se elege com os verbos “castrar”, “atirar”, “torturar” e “matar”.

Ele, em parte, talvez seja contido pela falta de apoio parlamentar ou pela legislação, o pelo Judiciário, embora a tendência seja a de que, amenizando as palavras, seus absurdos, especialmente os de venda de patrimônio público e de retirada de direitos sociais sejam acolhidos.

Mas não haverá ninguém que possa recolher a matilha que se soltará com o “agora pode” espalhado por uma vitória sua, o que ainda é apenas remoto.

Indague isso das pessoas que acham que Bolsonaro é uma inofensiva “limpeza na política”.

Fernando Brito
No Tijolaço
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E se a biometria não funcionar na hora de votar?


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Horário Eleitoral Livre


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Noam Chomsky contra a prisão política de Lula


Se as prisões fazem pensar à famosa observação de Tolstoi sobre as famílias infelizes: "Cada qual é infeliz à sua maneira", existem, no entanto, pontos em comum com relação às prisões; o reconhecimento cruel e angustiante de que outra pessoa além de você tem total autoridade sobre sua vida.

Minha esposa e eu acabamos de visitar uma prisão para ver aquele que é indiscutivelmente o maior prisioneiro político da atualidade, uma pessoa de suprema importância na nossa política global contemporânea.

Pelo padrão das prisões americanas que já vi, a prisão federal de Curitiba, (Brasil) não é das mais terríveis ou opressoras - ainda que o nível não seja lá muito alto. Não é nada parecida com as poucas que visitei no exterior, não se parece nem de perto com a prisão de Khiyam em Israel, no Sul do Líbano, que depois foi bombardeada até sua completa destruição para apagar o crime e está muito longe dos horrores indescritíveis da prisão Vila Grimaldi de Pinochet, onde aqueles que sobreviveram à série de torturas com toques de requinte eram jogados em uma torre até que apodrecessem. Sem dúvida, sua suposta "normalidade" é um dos meios para assegurar que o primeiro experimento neoliberal sob a supervisão dos economistas de Chicago possa continuar sem o embaraço das vozes dissonantes.

No entanto, não deixa de ser uma prisão.

O prisioneiro que nós visitamos, Luiz Inácio Lula da Silva – ou "Lula" como ele é conhecido mundialmente - foi condenado à prisão virtualmente perpétua, em um confinamento solitário, sem acesso à imprensa ou aos jornais e com visitas limitadas uma vez por semana.

No dia seguinte à nossa visita, um juiz, citando a liberdade de imprensa, acedeu ao pedido do maior jornal do país, a Folha de São Paulo, para que pudesse entrevistar Lula, mas outro juiz rapidamente interveio e derrubou essa decisão, apesar do fato de que entrevistas com os mais violentos criminosos presos do país – líderes de milícias e traficantes de drogas – são rotineiras.

Para a estrutura de poder brasileiro, prender Lula não é suficiente, eles querem assegurar que a população, que está se preparando para votar, seja privada de ouvi-lo de qualquer maneira e para isso estão dispostos a usar de todos os meios.

O juiz que reverteu a autorização não estava inaugurando um novo precedente. Um de seus predecessores foi o promotor da condenação de Antonio Gramsci pelo governo Fascista de Mussolini que declarou, "temos de impedir seu cérebro de trabalhar durante 20 anos."

"A história nunca se repete, mas ela freqüentemente rima" como o observou Mark Twain.

Ficamos animados, mas não surpresos, de observar que malgrado as condições severas e o chocante erro judiciário, Lula permanece dinâmico como sempre, otimista sobre o futuro e cheio de idéias sobre como tirar o Brasil da via desastrosa que vem trilhado.

Há sempre pretextos para a prisão - talvez válidos, talvez não – mas faz sentido no mais das vezes, buscar quais são as razões no caso em questão. É assim agora. A primeira acusação contra Lula baseada em uma delação premiada de um homem de negócios acusado de corrupção é que ele teria recebido um apartamento no qual nunca viveu. Está longe de ser uma prova avassaladora.

O pretenso crime é quase que imperceptível pelos padrões brasileiros – e há muito que dizer sobre esse conceito, ao qual voltarei mais tarde. Além disso, a sentença é tão desproporcional para o crime que lhe é imputado que torna-se necessário ir atrás das verdadeiras razões. Candidatos não brotam facilmente. O Brasil está enfrentando uma eleição que tem uma importância crítica para seu futuro. Lula é de longe o candidato mais popular e venceria facilmente uma eleição justa. Tal desenlace não é o preferido da plutocracia.

Apesar de suas políticas - quando estava no poder – serem consideradas como conciliadoras com os interesses da finança interna e externa, ele é desprezado pelas elites, em parte, sem dúvida, pelas suas políticas de inclusão social e de benefícios para os despossuídos, mas outros fatores parecem intervir: basicamente, o ódio de classe. Como pode ser permitido a um pobre trabalhador sem educação superior que nem fala corretamente o português, governar nosso país?

No poder, Lula foi tolerado pelo Poder Ocidental, mas com reservas. O entusiasmo despertado pelo sucesso que angariara com seu Ministro de Relações Exteriores Celso Amorim, ao colocar o Brasil no centro da cena mundial, confirmando as previsões de um século atrás nas quais o Brasil se tornaria o "colosso do Sul", era limitado. Algumas de suas realizações eram severamente condenadas, particularmente suas iniciativas para a resolução do conflito sobre o programa nuclear do Irã, em parceria com a Turquia em 2010, restringindo a insistência americana em dominar a cena internacional. De modo geral, o papel de liderança do Brasil para a promoção de forças independentes do Poder Ocidental na América Latina e além, fora acolhido com dificuldade por aqueles que estavam acostumados a dominar o mundo.

Com Lula impedido de concorrer, há uma grande chance de que o candidato favorito da direita, Jair Bolsonaro, possa ganhar a presidência e intensificar as políticas reacionárias do Presidente Michel Temer - que substituiu Dilma Roussef depois dela ter sofrido processo de impeachment através de um processo ridículo na etapa inicial do golpe branco agora em curso no país mais importante da América Latina.

Bolsonaro se apresenta como um autoritário inflexível e brutal, admirador do golpe militar, restaurador da "ordem". Parte do seu apelo vem do fato de posar como um outsider que virá desmantelar o sistema político corrupto, desprezado com razão pelos brasileiros; uma versão local da pior reação em muitas partes do mundo aos efeitos do assalto neoliberal da última geração. Bolsonaro afirma não saber nada de economia, deixando essa área para o economista Paulo Guedes, um produto ultra liberal da Escola de Chicago.

Guedes é claro e explícito a respeito da solução que considera ser a melhor para o Brasil e seus problemas: "privatizar tudo", toda a infra-estrutura nacional (Veja, 22 de agosto) a fim de pagar a dívida aos predadores que  estão roubando o país ludibriado. Literalmente tudo, garantindo que o país declinará a um ínfimo grau de insignificância, como um joguete nas mãos dos mais ricos e das instituições financeiras dominantes. Guedes já trabalhou por um tempo no Chile, sob a ditadura de Pinochet, então pode vir a ser interessante relembrar os resultados da primeira experiência do neoliberalismo de Chicago.

A experiência, iniciada depois do golpe militar de 1973 - que lhe preparou o terreno através do terror e da tortura - foi conduzida sob as melhores condições. Não podia haver nenhum tipo de dissensão, a organização da Villa Grimaldi e outras afins cuidaram disso. O regime era fiscalizado, na economia, pelos super stars da escola de Chicago. Ele tinha um apoio imenso dos Estados Unidos, do mundo corporativo e das instituições financeiras internacionais. Os planejadores econômicos eram suficientemente sensatos para não interferir na eficientíssima companhia nacionalizada de minas de cobre, Codelco, a maior no mundo, esteio da economia.

Durante poucos anos, a experiência foi muito elogiada e depois veio o silêncio. Apesar de estar sob condições quase ideais, lá pelos idos de 1982, os "Chicago Boys" conseguiram quebrar a economia. O Estado teve de assumir uma parte maior da economia do que sob Allende. Ironicamente o ocorrido foi chamado de "A Via de Chicago ao Socialismo". A economia retornou em larga escala aos gestores tradicionais e retomou o crescimento, mas ficou marcada por resíduos do desastre na educação, nos sistema de proteção social e muitos outros.

Voltando às prescrições da dupla Bolsonaro-Guedes para derrubar o Brasil, é importante ter em mente o enorme poder que o setor financeiro possui na economia política brasileira. O economista brasileiro Ladislau Dowbor conta como, quando a economia brasileira caiu em recessão em 2014, os principais bancos aumentaram seus lucros de 25 a 30 %, "uma dinâmica em que mais os bancos lucram, mais a economia perde fôlego" porque os "intermediários financeiros não financiam a produção, mas sugam-na". ("A era do capital improdutivo").

Além disso, continua Dowbor, "depois de 2014, o PIB caiu brutalmente enquanto que os juros e os lucros dos intermediários financeiros subiram anualmente entre 20 a 30%", um claro sinal de que o sistema financeiro "não serve a economia, mas, pelo contrário, se nutre dela. Trata-se de produtividade líquida negativa. A máquina financeira está vivendo a expensas da economia real."

O fenômeno é global. Joseph Stiglitz resume a situação de forma simples: "Onde, antigamente, a finança era um mecanismo para injetar dinheiro nas empresas, agora funciona para extrair dinheiro das mesmas." Essa é uma das brutais reviravoltas da política sócio-econômica trazida ao mundo com o ataque neoliberal, junto com a monstruosa concentração do capital em algumas mãos, enquanto a maioria não sai do sufoco, os benefícios sociais declinam e o funcionamento da democracia é solapado com ferramentas óbvias enquanto que o poder econômico se vê cada vez mais concentrado nas mãos de instituições financeiras predadoras. As conseqüências são a principal raiz do ressentimento, raiva e desprezo pelas instituições no poder que estão se alastrando através do mundo, conhecidas como "populismo".

Esse é o futuro planejado pela plutocracia e pelos seus candidatos favoritos. Seria barrado por uma nova presidência de Lula que trouxe proventos às instituições financeiras e ao mundo dos negócios, mas não o suficiente na era do capitalismo selvagem.

É importante nos atermos um momento sobre o que ocorreu no Brasil durante os anos Lula – "a década de ouro", nas palavras do Banco Mundial em maio de 2016. Durante estes anos, um estudo do banco relata que:

"O progresso econômico do Brasil tem sido excepcional e notado internacionalmente. Desde 2003 [inicio do mandato de Lula], o país ganhou renomada internacional graças a seu sucesso na redução da pobreza e da desigualdade e sua habilidade na criação de empregos. Políticas inovadoras e eficientes para a redução da pobreza e para assegurar inclusão social de grupos anteriormente excluídos tiraram milhões de pessoas da miséria.

Ademais, o Brasil vem assumindo responsabilidades globais. Foi bem sucedido na busca pela prosperidade econômica sem sacrificar a proteção do seu patrimônio natural único. O Brasil tornou-se um dos mais importantes novos credores, com extensos engajamentos particularmente na África Subsaariana e um player líder nas negociações sobre o clima global. O caminho de desenvolvimento trilhado na última década mostrou que o crescimento com prosperidade compartilhada, em harmonia com o respeito pelo meio ambiente, é possível. Os brasileiros têm razão em orgulhar-se desses sucessos reconhecidos internacionalmente."

Ao menos alguns brasileiros, mas não aqueles que detêm o poder econômico.

O relatório do Banco Mundial rejeita a opinião generalizada de que esse progresso substancial era "uma ilusão criada pelo boom das commodities, mas insustentável no ambiente internacional menos favorável da atualidade." Ele responde a essa alegação com um "'não´ fundamentado. Não há razão para que os ganhos socioeconômicos recentes sejam revertidos; eles devem na verdade ser ainda mais amplificados com as políticas corretas."

As políticas corretas deveriam incluir mudanças radicais na estrutura geral que foi instalada durante os anos Lula-Dilma - quando as demandas da comunidade financeira foram acolhidas já que mantidas as políticas dos anos de FHC, incluindo a baixa imposição dos ricos (freqüentemente evitada graças à fuga massiva dos capitais em direção aos paraísos fiscais) e as taxas de juros absurdas que levaram ao surgimento de fortunas para uma pequena minoria atraindo o capital para o setor financeiro ao invés do investimento produtivo. A plutocracia e o monopólio da mídia acusam as políticas sociais de drenar a economia, mas na verdade os estudos econômicos mostram que o efeito multiplicador da ajuda financeira para os pobres desenvolveram a economia, enquanto que a renda financeira provinda das taxas de juros escorchantes e outros presentes à finança foram as causas reais da crise de 2013 – uma crise que poderia ter sido ultrapassada pelas "políticas corretas".

O eminente economista brasileiro Luiz Carlos Bresser Pereira, ex Ministro da Fazenda, identifica resumidamente o fator determinante na atual crise em curso: "Não há uma razão econômica" para o bloqueio das despesas públicas e a manutenção das altas taxas de juros, "a causa fundamental das altas taxas de juros no Brasil é o poder dos donos do dinheiro e dos financistas" com suas drásticas conseqüências, ajudados pelos parlamentares (eleitos com financiamento empresarial) e o monopólio da mídia que é essencialmente a voz do poder privado.

Dowbor ressalta que durante a história moderna brasileira, desafios à estrutura regressiva levaram a golpes de estado, "a começar pela demissão e suicídio de Vargas [em 1954] e o golpe militar de 1964" (amplamente apoiado por Washington). Há uma boa chance de que algo muito parecido esteja acontecendo durante o golpe branco que está em curso desde 2013. Essa campanha das elites tradicionais, agora concentradas no setor financeiro e apoiada pela mídia altamente monopolizada, chegou ao ponto máximo quando Roussef procurou reduzir as taxas de juros exóticas a níveis mais civilizados, ameaçando diminuir o fluxo do dinheiro fácil para o pequeno setor que possuía todas as benesses nos mercados financeiros.

A presente campanha para preservar o sistema e inverter as conquistas da "década gloriosa", está explorando a corrupção na qual o Partido dos Trabalhadores governado por Lula, conhecido por PT, participou. A corrupção é real e séria, embora, distinguir o PT para demonizá-lo é puro cinismo considerando os deslizes dos acusadores. Além disso, como já foi mencionado, as acusações contra Lula, ainda que se quisesse dar-lhes crédito, não podem ser tomadas como ponto de partida para a punição administrada, que é excluí-lo do sistema político. Tudo o que foi dito o qualifica como um dos prisioneiros políticos de maior importância do momento.

A reação costumeira da elite quando há ameaças ao sistema da economia sócio-política do Brasil se reflete na resposta internacional aos desafios que o Sul Global apresenta ao sistema neocolonial, deixado após séculos de devastação imperial do Ocidente. Nos anos 50, nos primórdios da descolonização, o Movimento dos Não Alinhados buscou penetrar no sistema internacional. Ele foi rapidamente colocado no seu lugar pelo poder Ocidental. Um dos símbolos dramáticos disso foi o assassinato - pelos belgas, donos do poder tradicional (surpreendendo até a CIA) - do líder congolês extremamente promissor, Patrice Lumumba. O crime e seus desdobramentos acabaram com as esperanças de um país que poderia ser um dos mais ricos do mundo, mas que permanece estigmatizado como "Horrendo! Horrendo!" gozando da ampla participação dos torturadores tradicionais da África.

Contudo, a voz perturbadora das vítimas tradicionais continuou quebrando o silêncio enquanto a descolonização prosseguia seu curso agonizante. Nos anos 60 e 70 com contribuições substanciais dos economistas brasileiros, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento pôs à frente planos para uma Nova Ordem Econômica Internacional, nos quais os interesses das "sociedades em desenvolvimento", por sinal a grande maioria da população mundial, seriam considerados. Essa iniciativa foi rapidamente esmagada pela regressão neoliberal.

Alguns anos depois, através da UNESCO, o Sul Global veio clamar por uma Nova Ordem Internacional referente à Informação que abriria o sistema global de comunicação e mídia a uma participação externa, independente do monopólio virtual do Ocidente. Isso deu vazão a um ataque histérico por parte de várias correntes políticas, lançando mão de acusações absurdas e ridículas, e à saída do Presidente Ronald Reagan da UNESCO a partir de pretextos inverossímeis. Tudo isso foi exposto em um estudo devastador (ainda que não lido) realizado pelos acadêmicos William Preston, Edward S. Herman e Herbert Schiller ("Hope and Folly").

Também silenciado perniciosamente foi o estudo de 1993 realizado pelo Centro Sul mostrando que a hemorragia de capital dos países pobres para os ricos se fez em fase com exportação de capital ao FMI e ao Banco Mundial, agora "receptores claros de recursos dos países em desenvolvimento." Aconteceu o mesmo com a declaração do primeiro encontro da Cúpula Sul reunindo 133 Estados em 2000 que se transformou em uma resposta à auto-adulação do Ocidente sobre sua doutrina de "intervenção humanitária". Aos olhos do Sul Global, o assim chamado "direito de intervenção humanitária é uma cobertura para o imperialismo, "o qual não possui uma base legal na Carta das Nações Unidas ou nos princípios gerais da lei internacional."

Não surpreende o fato do poder não apreciar desafios e ter em mãos inúmeras formas de rechaçá-los ou de simplesmente silenciá-los.

Algo deve ser dito sobre a corrupção política endêmica na América Latina, freqüentemente denunciada de forma cinicamente ingênua no Ocidente. É bem verdade que trata-se de uma praga que não deve ser tolerada.

Mas a praga raramente se limita ao "mundo em desenvolvimento". Não é uma mera aberração quando grandes bancos são condenados a pagar uma multa de dezenas de bilhões de dólares (JPMorgan Chase, Bank of America, Goldman Sachs, Deutsche Bank, Citigroup) geralmente através de acordos, de tal forma que ninguém seja legalmente culpado pelas atividades criminosas que destroem milhões de vidas. Deve-se observar que "a América corporativa acha cada vez mais difícil estar do lado da lei". Segundo relato do London Economist de 30 de agosto de 2014, houve 2.163 condenações de empresas entre 2000 e 2014 e a América corporativa possui inúmeras empresas na City de Londres e no continente.

A corrupção vai desde a escala massiva acima ilustrada até mais insignificante crueldade. Um exemplo particularmente vulgar e instrutivo é o roubo de salários, uma epidemia nos Estados Unidos. São estimados que dois terços dos trabalhadores com baixos salários tenham sua remuneração furtada de seus salários todas as semanas, enquanto três quartos tenham parte ou a integralidade de suas horas extras remuneradas roubadas. As quantias furtadas dos contracheques de seus funcionários são anualmente superiores àquela dos furtos a bancos e postos de gasolina e lojas de conveniência. Na prática, não há execução legal. Manter essa impunidade é estratégico para o mundo dos negócios, ao ponto de tornar-se uma grande prioridade para o principal lobby de negócios, o American Legislative Exchange Council que tem uma ampla participação corporativa.

A primeira tarefa do ALEC é desenvolver legislação para os Estados, um objetivo fácil tendo em vista a confiança dos legisladores nos fundos corporativos e na atenção limitada que recebem na mídia. Os programas sistemáticos e intensos da ALEC são, por conseguinte capazes de mudar os contornos da política do país inteiro sem chamar a atenção, um ataque furtivo à democracia com efeito substancial. Uma das suas iniciativas legislativas é assegurar que o furto de salários não será sujeito à inspeção ou aplicação na lei.

Mas a corrupção que é tecnicamente criminosa, seja ela em massa ou pequena, é apenas a ponta do iceberg. A maior corrupção é legal. Por exemplo, o recurso aos paraísos fiscais que drenam estimativamente um quarto ou mais dos 80 trilhões de dólares da economia global, criando um sistema econômico independente, livre de controle e regulação, um paraíso para todos os tipos de atividades criminosas, tanto quanto para a sonegação de impostos. Também não é tecnicamente ilegal para a Amazon, que acabou de tornar-se a segunda corporação de trilhões de dólares, ter-se beneficiado de imensa isenção de impostos sobre as vendas. Ou, usar aproximadamente 2 % da eletricidade dos Estados Unidos a tarifas extremamente reduzidas, beneficiando-se de "uma tradição americana antiga para a transferência de custos de empresas para os residentes pobres que já pagam três vezes mais de sua renda em contas de serviços públicos do que o fazem os domicílios mais prósperos", como é relatado pela mídia.

E há inúmeros outros exemplos.

Outro exemplo importante é a compra das eleições, um tópico que foi estudado em profundidade, particularmente pelo cientista político Thomas Ferguson. Sua pesquisa, feita em conjunto com seus colegas, mostrou que a elegibilidade ao Congresso e ao poder executivo é previsível com uma precisão incrível a partir de uma única variável: a despesa de campanha. Uma tendência muito importante que vai buscar suas raízes na história política americana e que se estende até a eleição de 2016 (Ferguson, Golden Rule; Ferguson et al., "Industrial Structure and Party Competition in an Age of Hunger Games: Donald Trump and the 2016 Presidential Election," Working Paper No. 66, Jan. 2018, Institute for New Economic Thinking). Transformar a democracia formal em um instrumento nas mãos da riqueza privada é perfeitamente legal, mas, diferente do flagelo Latino Americano, não a corrupção,.

Isso não significa que a interferência nas eleições esteja fora da agenda. Pelo contrário, a suposta interferência russa nas eleições de 2016 é uma das principais questões na ordem do dia, um tema intensamente investigado e comentado histericamente. Por outro lado, o papel massacrante do poder corporativo e da riqueza privada na corrupção das eleições de 2016, seguindo uma tradição que remonta a um século é raramente observada. Afinal de contas, ela é perfeitamente legal, até endossada e estimulada pelas decisões da Suprema Corte mais reacionária dos últimos tempos.

Comprar eleições é a última das intervenções corporativas na intocável democracia americana que vem sendo manchada pelos hackers russos (com resultados imperceptíveis). As despesas de campanha atingem cumes nunca antes vistos mas isso é eclipsado pelo ação lobista, estimada cerca de dez vezes maior, um flagelo que cresceu rapidamente desde os primórdios da regressão neoliberal. Os efeitos na legislação são imensos, ultrapassando de longe a redação da legislação, literalmente, pelos lobistas, enquanto os representantes do congresso que assinam a fatura estão ausentes, ocupados pela conquista de fundos para a nova eleição.

Corrupção é sem dúvida uma praga no Brasil e na América Latina, geralmente, mas trata-se de players menores na competição.

Tudo isso nos traz de volta à prisão, na qual um dos mais importantes prisioneiros políticos do período atual é mantido no isolamento para que o golpe branco no Brasil possa continuar seu curso, com prováveis conseqüências graves para a sociedade brasileira e para o resto do mundo, tendo em vista o papel potencial do Brasil a nível mundial.

Pode prosseguir em curso, caso seja tolerado o que está acontecendo.

Noam Chomsky
Tradução: Sylvie Giraud
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