2 de out de 2018

Nada Pior que Bolsonaro, Nada Melhor que Haddad

As nossas oligarquias têm uma imensa dificuldade em pensar. Em agir racionalmente a partir de um diagnóstico fidedigno da realidade do país.

Não têm visão clara e projeto concreto para o país. Em geral, agem politicamente com base em impulsos e emoções. Principalmente medo e ódio. Também em preconceitos historicamente arraigados. Empresários racionais, esclarecidos e com um mínimo de sensibilidade social, como Ricardo Semler e Abílio Diniz, parecem ser minoria num bando de lêmingues apavorados e propensos ao suicídio coletivo.

Nos últimos anos, tais oligarquias foram acometidas por uma histeria anti-PT, estendida também a setores expressivos da classe média, que tornou-a cega e a levou, muitas vezes, a tomar decisões em contra de seus próprios interesses de longo prazo.

Agora mesmo, ante a impossibilidade emplacar um candidato viável de “centro”, ou suposto centro, consideram seriamente a possibilidade de apoiar a aberração Bolsonaro, pois, para eles, conforme escreveu Ricardo Semler, “qualquer coisa seria melhor do que o PT”. Tal apoio já começa a se refletir nas pesquisas de opinião, que estão cevando o Coiso.

Ora, é exatamente o contrário. Qualquer coisa é melhor que Bolsonaro. Melhor não só para o país, seu povo e sua democracia, mas também para o chamado “ambiente de negócios”.

Em primeiro lugar, porque Bolsonaro não tem proposta racional para o Brasil. Ele, e seu vice, Mourão, o Ariano, não conseguem articular um discurso minimamente crível para tirar o Brasil da crise. São reacionários estrito senso. Isto é, só reagem a avanços com os quais não concordam. Seu projeto de futuro é essencialmente uma volta ao passado de exclusão, preconceitos, autoritarismo e violência, muita violência. Como Duterte, o ditador filipino que já está sendo enquadrado pelo Tribunal Penal Internacional, por ser conivente com execuções extrajudiciais e tortura, Bolsonaro também aposta abertamente em armas e violência para resolver os problemas do país.

Em segundo lugar, porque Bolsonaro e as forças que o apoiam jamais seriam capazes de reconciliar o Brasil e compor uma aliança política capaz de conduzir e dar sustentação a políticas ponderadas e minimamente consensuais.

Ao contrário, Bolsonaro incendiaria o Brasil com seu ódio, seus preconceitos e sua evidente sociopatia. Sem base partidária e social organizada, com ele o cenário mais provável seria o do derretimento definitivo das instituições democráticas e de um agravamento da instabilidade e da crise política. Ante a sua evidente incapacidade de negociar, articular e mediar conflitos, não se pode descartar também um provável recurso à força, um golpe dentro do golpe, que acabaria de vez com o que restou da democracia brasileira.

Ora, um ambiente de confrontação e conflito impediria qualquer perspectiva de recuperação econômica do Brasil. Na realidade, o fator principal que impede tal recuperação é a crise política-institucional instalada pelo golpe. Sem um governo com credibilidade e capacidade de mediação e negociação, a economia brasileira não sairá do buraco. Bolsonaro, nesse sentido, é um buraco negro. Nada consegue escapar dele, inclusive a luz, a luz da razão.

Em terceiro lugar, porque Bolsonaro, por não ter programa racional e capacidade de articulação e mediação, além de apostar na violência e no conflito, é completamente imprevisível. Faz o que lhe dá na telha e se aconselha no Posto Ipiranga do Paulo Guedes, cujas propostas são totalmente regressivas e politicamente inexequíveis. Simplesmente não dá para saber o que faria de fato ou o que poderia fazer, para além dos chamamentos ao autoritarismo e à violência e das propostas mirabolantes.

Em quarto, porque um presidente clara e brutalmente machista, misógino, racista, homofóbico, defensor das ditaduras e da tortura e com evidente desprezo pelas instituições democráticas e pela civilização rebaixaria ainda mais o Brasil no cenário mundial.

Na realidade, um presidente como Bolsonaro envergonharia o país perante o mundo. Ele é um Trump muito piorado. Uma caricatura da direita brucutu latino-americana. Recorde-se que ele e seu pitoresco vice são militares. Golbery, se vivo estivesse, os colocaria na categoria da “tigrada”, as feras encarregadas do trabalho sujo. Nosso país, que se tornou praticamente um pária mundial com o golpe e com Temer, viraria motivo de chacota planetária.

Ante tal quadro, muito realista, mesmo a mais fértil imaginação teria imensa dificuldade em conceber como a eleição de tal aberração política poderia ajudar o Brasil e sua economia a se recompor. Até mesmo a conservadora The Economist, a bíblia do capitalismo, considera Bolsonaro uma ameaça para o Brasil e a América Latina.

A admiração de Bolsonaro a Trump de nada adiantaria, pois o atual inquilino da Casa Branca está decidido a implantar o American First em todo o mundo. Não haverá concessões. Trump até poderia usá-lo para fazer uma intervenção na Venezuela, contrariando os interesses do Brasil, mas não haveria compensações econômicas para a aventura insana.

Só mesmo uma absoluta cegueira estratégica e a histeria anti-PT podem explicar uma aposta suicida do “mercado” e daqueles que se consideram sofisticados herdeiros da socialdemocracia europeia em Bolsonaro.

Em contrapartida, o voto em Haddad, um intelectual muito preparado e comprometido com os valores democráticos, abre a perspectiva concreta para a conciliação e a pacificação do país e, consequentemente, para a sua recuperação econômica.

Há de se recordar, goste-se ou não do PT, que foi durante seus governos que o Brasil viveu seu melhor momento, nas últimas décadas.

Lula foi o melhor presidente da história do país. Não é exagero. Ele saiu do poder com 84% de aprovação, uma façanha reconhecida internacionalmente. E não foi por ser bonitinho, foi por amplo mérito político.

Lula e o PT fizeram um governo de conciliação e pacificação, não de confrontação. Em seu período, os rendimentos dos 10% mais pobres cresceram 40%, mas os rendimentos dos 10% mais ricos também cresceram expressivos 10%. Nenhuma classe social foi prejudicada e os empresários puderam fazer grandes negócios.

O confronto se deu com a fome, a miséria, a desigualdade, o racismo, os preconceitos, a ausência de oportunidades. Curiosamente, foi o PT que fez os governos de tinte socialdemocrata que a nossas elites foram incapazes de realizar.

Naquele período, o volume do comércio varejista foi duplicado, a produção de carros saltou de 1,498 milhão (2002) para 3,802 milhões (2012), a produção de grãos pulou de 119 milhões de toneladas (2003) para 208 milhões (2014), o volume produzido de petróleo cresceu de 1 milhão e quinhentos mil barris/dia (2002) para 2 milhões e quinhentos mil (2015) e a produção de cimento, um bom indicador da saúde da construção civil, saltou de 35 milhões toneladas (2003) para 71 milhões (2014). O Brasil pulou da 12ª posição na economia mundial para ocupar a sexta.

As reservas próprias cresceram exponencialmente de US$ 16,3 bilhões (2002) para quase US$ 380 bilhões, as exportações saltaram de US$ 60 bilhões (2002) para US$ 255 bilhões (2011), a dívida externa foi totalmente equacionada e nos livramos da tutela da FMI. A dívida publica interna caiu de 60,4% do PIB (2002) para 37,9%, em 2015, já em plena crise. Houve superávit primário até 2013 e a inflação manteve-se dentro do regime de bandas até a crise de 2015. De quebra, tiramos 35 milhões da pobreza extrema, colocamos cerca de 40 milhões na nova classe média e retiramos o Brasil do Mapa da Fome.

Tudo isso foi realizado de forma inteiramente democrática e republicana, sem agredir ninguém. O PT não dividiu o país. Quem mais tarde dividiu o país e rompeu com o pacto democrático foi o golpe contra a presidenta honesta.

Houve erros? Houve. Não há governos perfeitos. Se quiserem achar um, leiam Thomas Morus. Mas não foram esses erros que mergulharam o Brasil na maior crise da sua história. Isso é responsabilidade maior do golpismo e da histeria antipetista, que colocou no poder a “turma da sangria” e um governo desastroso, sem legitimidade alguma. Tal situação pioraria muito com uma eventual vitória da aberração fascista representada por Bolsonaro.

Por conseguinte, dizer que Haddad e o PT são uma opção “extremada” como Bolsonaro e que este último é uma alternativa melhor que o PT é de uma estupidez inacreditável. Estupidez ou simples má-fé. Ou então a opção ditada pelo ódio cego ao partido mais popular do Brasil.

Nas atuais circunstâncias, nada pior que Bolsonaro e nada melhor que Haddad. Para o povo, para a democracia, para a economia e para a soberania do Brasil.

Querem alternativa melhor? Libertem Lula.

Marcelo Zero
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O Brasil continua o que sempre foi. Só que pior


Pessoal que está preocupado com a eleição deste ano deve levar em consideração algumas coisas nesta semana decisiva. São algumas observações de quem já passou por incontáveis eleições:

1) O jogo é pesadíssimo, envolve interesses que nós, mortais, nem sonhamos existir;

2) O eleitorado brasileiro é dividido entre 30% de conservadores, 30% de progressistas, e o restante que muda de lado a cada eleição de acordo com seus interesses - econômicos, principalmente;

3) A direita não cresceu tanto quanto se imagina, apesar de todo o esforço feito para desmoralizar, criminalizar e demonizar a esquerda. A maioria da população não sabe o que é esquerda ou direita, é analfabeta politicamente;

4) O viés autoritário, machista, preconceituoso, racista, homofóbico, materialista e intolerante de certa parcela da população sempre existiu no país e apenas veio à tona, desavergonhadamente, com a revolução proporcionada pela internet;

5) Esta é uma eleição que difere das passadas justamente pela explicitação dessa violência latente por parte do candidato nazifascista. Nunca, anteriormente, um candidato se mostrou tão adepto das práticas antidemocráticas.

6) A direita "civilizada" não existe mais no Brasil, não tem lideranças nacionais, perdeu completamente o prumo quando resolveu promover o golpe que afastou Dilma Rousseff da presidência;

7) O papel da imprensa nesta eleição não mudou: ela continua a serviço de seus interesses, ou seja, dos interesses da turma do dinheiro, da classe dominante que não aceita sequer um governo social-democrata. A imprensa brasileira é uma imensa máquina de propaganda ideológica, nada mais que isso;

8) Tudo o que for possível para derrotar os candidatos progressistas será feito pelos donos do Brasil. Eles atravessaram o Rubicão há algum tempo, não têm mais pudores em aplicar os golpes mais sujos para vencer o pleito;

9) A eleição é importante para essa turma porque, de certa forma, legitima a "democracia" que querem para o Brasil: um simulacro, no qual Judiciário, Ministério Público, Imprensa, grandes empresários, e políticos reacionários controlam as instituições, mantendo o povo distante da tomada de decisões;

10) Para não alongar mais esta pensata, vai a última consideração: institutos de pesquisa sempre fizeram e continuam a fazer parte do jogo do poder. Pesquisas eleitorais servem para duas coias, basicamente: nortear os rumos das campanhas e esquentar ou esfriar o ânimo dos eleitores/apoiadores. Elas nunca estão completamente certas ou erradas, nem são tão científicas quanto pretendem mostrar. Devem, sempre, ser vistas e interpretadas com uma boa dose de desconfiança.

Carlos Motta
No Esquerda Caviar
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O “pas de deux” do Datafolha com o Ibope


Chegamos, olhando as pesquisas Ibope e Datafolha, à conclusão que se as multidões que se reuniram no sábado nas ruas de dezenas  ou até uma centena de cidades brasileira gritassem “EleSim”, em favor de Bolsonaro, o ex-capitão teria caído nas pesquisas e seu adversário, Fernando Haddad ganharia vários pontos.

Olhando o Datafolha (acompanhe nos círculos azuis e vermelhos na tabela) vemos que os que perderam pontos (Brancos/Nulos, 2, Haddad, Boulos e Vera do PSTU, e Alckmin, um ponto cada) geraram 5% de votos mutantes que foram quase todos (4 pontos) para Bolsonaro e um para o Cabo Daciolo!

Uau!

Vai para os anais das mudanças de eleitorado: “eu ia votar no Boulos, mas agora voto Bolsonaro” ou “eu troquei o PSTU pelo Glória a Deus!”

A pesquisa tem todas as inconsistências possíveis mas, ainda assim, há algo que deve ser observado.

Só um dado, olhado friamente, pode ser verdadeiro: o aumento da rejeição a Haddad, provocado pela obtusa estratégia de Geraldo Alckmin, que não o levantou e ajudou o seu adversário direto pelos votos da direita, o ex-capitão.

É matéria para que a sua campanha reflita e que também a de Ciro Gomes veja que não está ajudando a ele próprio, mas a Bolsonaro.

Nem os bailarinos das pesquisas não tiveram forças para levantar Ciro, Alckmin ou Marina. Nada, agora,  tem como evitar que a disputa final seja entre Haddad e Bolsonaro. A solidez dos votos do primeiro (por conta de Lula) e o teto do segundo são obstáculos a isso.

A única forma de fazer com que isso não aconteça  é aquela que tentam: incutir o desânimo na resistência ao fascismo e tentar convencer o povão que Bolsonaro, cada vez mais o candidato dos ricos, é o preferido do povão.

O esforço final da campanha de Haddad é no povão, não na elite.

Ela fica para o segundo turno.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Respire fundo

Existir é muito melhor do que não existir, acho que nisso estamos de acordo. Há quem diga que não existir tem suas vantagens – não se paga mais imposto, por exemplo – mas são poucas. A maioria prefere ficar viva nem que seja para não perder o fim da novela. E ninguém ainda voltou do “outro lado” para nos dizer como é não estar vivo. Eu não tenho a menor curiosidade para saber como é a alternativa para existir.

Há casos em que a alternativa para o que existe é conhecida. Já passamos pela alternativa para a democracia e sabemos muito bem como ela é, num país sem políticos, ou com políticos cerceados por um poder mais alto e armado. Tivemos vinte anos desta alternativa e quem tem saudade dela precisa ser constantemente lembrada de como foi. Não havia corrupção? Havia sim, não havia era investigação para valer. Havia prepotência, havia censura à imprensa, havia perseguição política e tortura, enquanto a presidência do país passava de general para general.

Ao contrário da morte, de uma experiência totalitária se volta, de preferência com uma lição aprendida. Pior do que uma geração sem idade para se lembrar como foi são os que sabem como foi aquele tempo e querem repeti-lo. O entusiasmo de até quem menos se espera por um “governo de força” surpreende. Vamos ver o que vai dar. Até tudo se definir nas urnas, respire fundo.

Luís Fernando Veríssimo
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Lewandowski manda Sul21 entrevistar Lula

E envia sonora banana a "Moradia" Fux e Dias "Gaspari" Toffoli


Leia a integra da decisão do destemido Ministro Lewandowski ao autorizar a Sul 21 a entrevistar o presidente Lula.

A decisão equivale a mandar um cacho de banana ao Luiz "Moradia" Fux e a Dias "Gaspari" Toffoli:



No CAf
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Moro descumpriu TRF-4 e Acordo e abertura de sigilo de Palocci foi ilegal


A abertura do sigilo de trecho da delação do ex-ministro Antonio Palocci pelo juiz federal Sérgio Moro, a uma semana para as eleições 2018, contrariou todas as determinações do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) na homologação da delação, em junho deste ano, e também todas as regras acertadas no Termo do Acordo assinado pela Polícia Federal.

O GGN expõe, abaixo, ponto a ponto, como a abertura do sigilo de Palocci pelo magistrado de Curitiba desobedeceu o que foi imposto pela instância superior e pelo próprio acordo assinado pela Polícia Federal e o investigado. 

O que disse o TRF-4?

No dia 21 de junho deste ano, o desembargador federal João Pedro Gebran Neto homologou o acordo entre a PF e Antonio Palocci, estabelecendo alguns critérios. Entre eles, determinou:


Apesar de não ter conhecimento de atos posteriores do juiz de primeira instância, que agora acarretariam no levantamento do sigilo, Gebran, o relator da Lava Jato no TRF-4, admitiu que o sigilo somente poderia ser levantado pelos juízes da primeira instância de Curitiba. 

Mas, com a condição de observar "o disposto no artigo 7º, §3º, da Lei nº 12.850/2013 e no parágrafo primeiro da Cláusula 14ª do Termo de Acordo".

A lei mencionada é a que "define organização criminosa e dispõe sobre a investigação criminal, os meios de obtenção da prova, infrações penais correlatas e o procedimento crimina". 

O artigo tratado por Gebran estabelece que "o pedido de homologação do acordo será sigilosamente distribuído, contendo apenas informações que não possam identificar o colaborador e o seu objeto". E, em seu parágrado terceiro, diz que "o acordo de colaboração premiada deixa de ser sigiloso assim que recebida a denúncia, observado o disposto no art. 5º"

Entretanto, a delação de Antonio Palocci foi assinada no fim de abril deste ano, exclusivamente com a Polícia Federal, e ainda não foi usada pelo juiz Sérgio Moro para validar ou como meio de prova para alguma ação penal. Tampouco o Ministério Público acrescentou estes dados de Palocci, fornecidos à PF, em nenhuma denúncia encaminhada a Moro.

Dessa forma, o acordo precisaria ser mantido em sigilo, até que tais trechos fossem efetivamente usados em alguma denúncia aceita por Moro. 

Mas, considerando hipoteticamente que tal delação tenha sido utilizada na ação penal que Moro despachou - os autos usados pelo magistrado para abrir o sigilo das acusações de Palocci -, mesmo neste caso, o juiz teria descumprido o prazo regimental.

Isso porque o processo em questão é a que questionava dois imóveis, um que seria a sede do Instituto Lula, em São Paulo, e outro, vizinho ao apartamento do ex-presidente Lula em São Bernardo do Campo, que na tese dos investigadores, teriam sido adquiridos com recursos de propinas com origem em contratos ilícitos envolvendo a Odebrecht e a Petrobras.

A denúncia deste caso foi enviada pelo MPF a Moro ainda em 2016 e foi aceita pelo magistrado em dezembro de 2016. Naquela ocasião, Palocci ainda não havia fechado acordo de colaboração. 

E, para atender o que diz o artigo 7º da Lei nº 12.850, a decisão sobre abrir ou não o sigilo da delação de Palocci precisaria ser feita imediatamente após os trechos do acordo serem incluídos na denúncia em questão. Mas eles não foram incluídos na denúncia.

Outra determinação de Gebran foi que Moro precisaria observar a Cláusula 14ª do Termo de Acordo assinado entre Palocci e a Polícia Federal. E é aí que entram todas as cláusulas estabelecidas entre as partes interessadas na colaboração, incluindo os cenários em que o sigilo deve ser mantido. 

O que diz a PF no Termo do Acordo?


A Cláusula 14ª trata especificamente do sigilo e inclui oito parágrafos. E todos eles também foram desobedecidos por Moro. Abaixo, cada um deles:


O primeiro parágrafo não influi no sigilo em si, mas apenas garante aos investigadores usarem os depoimentos de Palocci em quaisquer investigações, mesmo que estejam em segredo de Justiça. 


Já o parágrafo segundo estabelece a abertura do sigilo quando for(em) aceita(s) pela Justiça uma ou mais denúncias que utilizem as delações de Palocci como meios de prova. O que, conforme já explicamos acima, não ocorreu. 

E, ainda, determina que as acusações divulgadas devem guardar relação direta com a denúncia. Conforme o GGN divulgou nesta segunda (01), as acusações de Palocci liberadas por Moro tratam de temas diversos e aleatórios contra a cúpula do PT e, em uma primeira análise, tampouco dizem respeito à denúncia de possíveis ilícitos na suposta aquisição da sede do Instituto Lula ou do apartamento vizinho ao do ex-presidente em São Bernardo.

Portanto, uma vez mais, descumpre a determinação de quando esse sigilo deve ser retirado. 


O terceiro parágrafo afirma que a defesa de Palocci poderá usar como base aquele acordo fechado com a PF para outras negociações de colaboração com outras instâncias ou Justiças, desde que sejam relacionados a outros "fatos delituosos" sem conexão aos inquéritos que tramitam em Curitiba. 

Neste ponto, foi Gebran, em sua decisão de homologar o acordo, que impôs mais regras: 


O desembargador determinou que as acusações de Palocci só podem ser juntadas a investigações de outras Justiças, afora do Paraná e da Quarta Região, se não "violar o sigilo, que lá [nestas outras Cortes] deverá ser preservado". Ou seja, Gebran mostra preocupação em insistir pelo sigilo. 


O parágrafo quarto permite o acesso/leitura do acordo da "eventuais pessoas denunciadas" com base naquelas acusações. Contra isso, o que Sérgio Moro fez foi torná-lo público a todos.


O sexto parágrafo garante que o sigilo deve ser mantido não somente na transcrição, como também nos áudios e vídeos dos depoimentos. 


O parágrafo sete descreve outras regras não seguidas por Sérgio Moro: estabelece que Palocci concordará com a divulgação de suas acusações "sempre que a Polícia Federal reputar tratar-se de medida necessária ao atendimento do interesse público ou à efetividade das investigações".

Essa regra obriga à Justiça a consultar a PF se quiser retirar o sigilo, uma vez que o órgão é interessado e autor do acordo. Mas no despacho que autorizou divulgar as acusações de Palocci, Moro não pediu o posicionamento da PF. 

Ainda, a manifestação da PF precisaria justificar que liberar tais acusações seria por "interesse público" ou pela "efetividade das investigações", ou seja, por que liberar tais depoimentos ajudaria na apuração. Não há nenhuma dessas sustentações da PF, uma vez que ela sequer foi consultada.


O último parágrafo diz que se o acordo for fechado depois da sentença do juiz, a pena do delator pode ser reduzida, e suas acusações permanecem em sigilo "para o fim de se preservar a eficácia das demais investigações". Uma vez, mais insistindo no segredo de Justiça. 

Por fim, as primeiras cláusulas do acordo também informam que a delação de Palocci poderia ter efeito em cinco investigações em andamento. Nenhuma delas é a ação penal relativa às propriedades do Instituto Lula ou do apartamento em São Bernardo, que Moro usou como justificativa para abrir o sigilo.

O que diz Sergio Moro?

Para liberar as acusações publicamente, Moro apenas disse que a publicidade daqueles trechos da delação de Palocci não acarretariam em "riscos às investigações". 


"Examinando o seu conteúdo, não vislumbro riscos às investigações em outorgar-lhe publicidade. Havendo ademais ação penal em andamento, a publicidade se impõe pelo menos no que se refere a depoimento que diz respeito ao presente caso", restringiu a dizer no despacho, sem nenhuma outra sustentação para todos os descumprimentos acima listados.

Mas mesmo nessa justificativa de Moro, o quinto parágrado do termo do acordo de Palocci também confronta:


Nesse trecho, a PF e a defesa de Palocci assumem que os trechos do acordo que não têm relação com aquelas cinco investigações em andamento (que não inclui o caso despachado por Moro) devem ficar em sigilo. 

Conforme foi exposto, as acusações tornadas públicas agora por Moro não têm relação direta com a ação penal tratada, das propriedades do Instituto Lula e de São Bernado. E, portanto, também precisariam ser mantidas em sigilo porque, na tese da PF, poderiam prejudicar outros inquéritos que tivessem como base aquelas acusações.

Arquivo




Patricia Faermann
No GGN
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O sistema se entrega a Bolsonaro


A lógica de Bolsonaro é ser anti-sistema, o representante do país sombrio, da maioria silenciosa que nunca se viu representada na política. No parlamento, é o baixo clero. Na mídia, é personagem secundário, restrito aos veículos regionais. Ou limitando-se a ver o país através das lentes dos programas policiais e do filtro dos jornais nacionais, sempre na posição passiva.

Os bolsonaristas são cidadãos de um país anacrônico, que acompanhava, passivamente, o cosmopolitismo provinciano do Rio e de São Paulo, mas não se sentia politicamente integrado.

É o valentão da moto, que só consegue se impor fisicamente sobre os nerds, esses moleques exibidos que querem falar chic. São os grupos, as gangs que se formaram em torno de temas não-políticos, colecionadores de motos, de veículos antigos, valentões de bar, grupos religiosos, colegas de bar, irmãos de maçonaria. Ou apenas cidadãos classe-média que escondiam preconceitos e ódios, comuns à pré e a pós-modernidade e que, graças às redes sociais, se descobriram maioria em seus redutos.

Junte-se a esse grupos empresários que aprenderam apenas a ganhar dinheiro, sendo submetidos dia após dia ao liberalismo superficialíssimo do sistema Globo, condenando qualquer forma de regulação e de atuação do Estado.

Quando a Globo decidiu levar o povo para as ruas, para atropelar a Constituição, e o STF (Supremo Tribunal Federal) convalidou o golpe, esse Brasil soturno emergiu com toda força. Pensaram repetir as maiorias silenciosas de 1964 que, depois de usadas, foram deixadas de lado. Não se deram conta do poder de aglutinação das redes sociais. Eles, agora, têm voz própria e se valem da desorganização total no sistema, da quebra de todas as regras e leis, para ocupar espaços, trazendo consigo agentes oportunistas de todas as espécies. -derrotados políticos, economistas, lideranças que foram sucessivamente derrotadas no jogo eleitoral e que, agora, se julgam em condições de cavalgar o leão sem ser devorado.

Tudo isso ocorre no país de Macunaíma. Aproveitam-se do jogo Ministros do Supremo, ministros de tribunais, economistas de mercado, mais abaixo um pouco, promotores liberados para prender, juízes liberados para condenar, fazendo acertos de contas em cada canto do país. Abrem a jaula achando que vão parlamentar com o leão faminto.

E aí acontece o paradoxo.

O Brasil que saiu às ruas no sábado, nas históricas manifestações das mulheres, é o país civilizado, defendendo bandeiras adequadas aos tempos modernos. O Brasil anacrônico dos grandes meios de comunicação, segura a informação. A reação da maioria silenciosa é aumentar a adesão a Bolsonaro – se a pesquisa IBOPE foi efetivamente séria, captando um soluço ou uma tendência.

A cada jogada de cena combinada, nos debates de presidenciáveis, mais se esboroa o Brasil institucional. A cada autodesmoralização do Supremo, mais gás para a besta.

O antipetismo desvairado da mídia, o oportunismo de presidenciáveis, de explorar o fantasma do suposto autoritarismo do PT tem efeito multiplicado nas redes sociais. Revive as maluquices do “comunista-comedor-de-criancinhas” e é tiro nos dois pés. Não demoniza apenas o PT, desmoraliza as instituições, o “sistema” – que Bolsonaro, mais uma vez, anunciou que irá destruir. E até Ciro Gomes, o presidenciável com melhores propostas, embarca nessa aventura que, em vez de levá-lo para o segundo turno, poderá levar Bolsonaro ao poder.

O PT tem defeitos enormes. Mas o oportunismo do país institucional, de atribuir ao partido propósitos ditatoriais, para navegar nas águas fáceis do anticomunismo mais primário, tem um efeito multiplicador terrível na base, nos escaninhos das redes sociais de onde se alimenta o bolsonarismo.

E fica o Brasil institucional aguardando o momento em que FHC descerá do seu ego e engrossará a frente contra o atraso. Sabe o que vai acontecer? Nada. Será anulado com um pum que Bolsonaro reteve no hospital.

Luís Nassif
No GGN
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Ignore o Ibope. Haddad não caiu, “coiso” não cresceu e seu cérebro não encolheu


Eu pergunto: o que aconteceu nos últimos dias, nas últimas horas, que pudesse ter prejudicado a candidatura Haddad? Rigorosamente nada. E o que aconteceu nesse período que pudesse afundar Bolsonaro? Muita coisa. Mas digamos que ambos estejam próximos de uma zona de conforto para atravessar a fronteira até o segundo turno para o duelo mortal ao por-do-sol. O que explica, então, o Ibope de Carlos Augusto Montenegro me aparecer na noite de segunda, 01, com destaque no Jornal Nacional, dando novo fôlego ao capitão-maridão-fascistão – mesma fração de tempo em que Moro Dredd, o exterminador de petistas, faz Palocci refém e abre sua delação humilhada, e que Peruca Fux e Dias Toffoli suspendem a decisão do colega Lewandowski para impedir uma entrevista de Lula à Folha, restituindo a censura prévia no país (Leia o insuspeito Reinaldo Azevedo)? E, finalmente, a pergunta que não quer calar: você daria um cheque em branco a Montenegro, parceiro da TV Globo e do Estadão na pesquisa? Pois então, querida e querido eleitor, some pelo menos dois e dois antes de dar fé pública a uma pesquisa que contradiz todas as demais – anteriores e posteriores.


O que Montenegro fala – e seu instituto prevê – não se escreve. Em julho passado, o presidente do Ibope disse para O Globo: "Jair Bolsonaro perde para qualquer um no segundo turno. O voto do Bolsonaro não é ideológico de direita. É como o voto nulo, no Enéas ou no Tiririca." O Ibope agora vê Bolsonaro e Haddad no segundo turno – e publica pesquisa com o capitão em ascensão e empatando com Haddad no mata-mata. Você acredita em duendes?

Segundo o Ibope, Bolsonaro subiu 4 pontos (!) – opa, bem acima da margem de erro -, foi a 31% e abriu cabalísticos dez pontos de vantagem sobre Fernando Haddad. A rejeição a Haddad, segundo o Ibope, saltou em menos de uma semana de 27 para 38 pontos, encostado nos 44 de Bolsonaro (Leia). Que loucura, Ibope! Isso não é nem pulo, é salto com vara. Procurei no Google e não vi nenhuma cena de Haddad espancando uma freira, nem, como diria Eduardo Bolsonaro, defecando em praça pública. O que tivemos foram grandes manifestações anti-Bolsonaro no fim de semana. Mas para o Ibope, numa simulação de segundo turno, até o chuchu desidratado Geraldo Alckmin bate Bolsonaro (42% a 39%) – pensem nisso -, mas Haddad, lástima, apenas empata em 42%. Montenegro, então, multiplicou-se como o Multi-Homem do velho desenho "Os Impossíveis" – isso é da minha época, gente -, capaz de duplicar a si mesmo criando inúmeras cópias. Em almoço com empresários na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), Montenegro disse que nunca viu eleição "tão esquisita" como a atual, e que não tem "a menor ideia de quem vai ser o presidente da República". A um grupo de jornalistas disse que "a facada (em Bolsonaro) não mudou o quadro eleitoral". Ao Antagonista, Montenegro disse que a eleição no segundo turno será uma disputa entre rejeições. "O PT tem que torcer noite e dia para enfrentar o Bolsonaro." E por aí vai.

Esta última semana antes das eleições do próximo domingo, 7 de outubro, será marcada pela realização de pesquisas que, como na última semana, têm dado o tom e o ritmo das campanhas presidenciais. O problema do Ibope é que foge de todos os padrões. Ou descobriram a pólvora ou a molharam. Levantamento encomendado pelo banco BTG Pactual à FSB Pesquisa, divulgado na última semana, mostrou Bolsonaro com 35% dos votos válidos e Haddad com 27%. Peraí, mas no Ibope o candidato do PT não afundou para 21%? Ah, tá. Já pesquisa CNT/MDA, no domingo, 30, mostrou Bolsonaro e Haddad empatados pela 1ª vez na margem de erro, de 2,2 pontos percentuais. O militar e o petista têm 28,2% e 25,2% das intenções de voto, respectivamente. Peraí, gente, mas e o Ibope? E por aí vai. Daqui do nosso cantinho, muita curiosidade com a pesquisa Vox Populi/247, a primeira realizada por iniciativa dos eleitores e com questionário participativo. Ela será divulgada no próximo sábado, 06, às 20h. Nesta terça, 02, é dia de Datafolha. Na quarta, mais Ibope e Paraná Pesquisas. Na quinta, 4, Datafolha, Ipesp e DataPoder. Mesmo dia do último debate, na TV Globo, do qual Bolsonaro quer participar. E na sexta, 05, MDA, Ipesp e Paraná Pesquisas.

Quanta pesquisa, hem.

Ricardo Miranda é jornalista, editor, tem mais de 35 anos de experiência nas principais redações do país e em grandes agências de comunicação.
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Bolsonaro quis trocar voto pelo fim de privilégios para parlamentares por indicações para estatais

Ele
O deputado federal e candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro (PSL) condicionou seu voto na Câmara contra a aposentadoria especial para parlamentares após oito anos de serviço à contrapartida de indicar diretores para empresas estatais ou liberação de verbas para suas emendas orçamentárias.

O episódio ocorreu quando o ex-capitão do Exército exercia seu segundo mandato de deputado. O ano era 1996, a Bolsonaro faltavam apenas dois para que se aposentasse como deputado federal, quando passaria a acumular este benefício àquele que já recebia e ainda recebe das Forças Armadas.

Assim, quando teve ameaçado o que já considerava seu “direito adquirido” (se aposentar na Câmara após oito anos de trabalho), assim reagiu o presidenciável: “Só voto (pelo fim da aposentadoria especial) se me ajudarem a liberar recursos no Orçamento ou se puder indicar diretor de estatais”.

No dia 16 de fevereiro de 1996, o jornal Folha de S.Paulo publicou as declarações do deputado carioca. Leia trecho da reportagem:

“‘A massa dos parlamentares vai impedir essa manobra’, desafiou o deputado, que defendia a manutenção do benefício. Bolsonaro já recebe uma aposentadoria de R$ 1.300 do Exército desde 1988, quando deixou o posto de capitão para disputar a eleição para o Congresso. ‘Isso não dá para sustentar a família’, argumenta o deputado.”     

Fac-símile de reportagem da Folha que traz Bolsonaro negociando seu voto.


Ao final do caso, que ganhou dimensões de escândalo nacional, o privilégio dos parlamentares foi extinto, em 1999. Bolsonaro votou contra.

Entenda o episódio

Em fevereiro de 1996, o governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso engendrava um de seus maiores esforços de articulação política para aprovar no Congresso Nacional sua proposta de Reforma da Previdência.

No projeto final apresentado para votação na Câmara dos Deputados, relatado pelo então deputado Euler Ribeiro (PMDB-AM), constava um artigo que permitiria extinguir o Instituto de Previdência dos Congressistas (IPC), regime por meio do qual os deputados e senadores se aposentavam após oito anos de mandato, em evidente contraste à grande maioria da população brasileira, que tinha que trabalhar 30 anos (mulheres) ou 35 anos (homens) para ter direito aos benefícios previdenciários.

Às vésperas da votação da proposta de reforma na Câmara, um grupo de deputados se insurgiu contra o fim iminente do privilégio. O então deputado Nilson Gibson (PSB-PE) circulou um requerimento entre os colegas para suprimir do texto final da reforma o artigo que poderia colocar fim à aposentadoria após oito anos de trabalho dos parlamentares. Rapidamente, Gibson amealhou 223 assinaturas de colegas deputados que não desejavam abrir mão da aposentadoria especial.

A Folha de S.Paulo teve acesso à lista dos congressistas que estavam em luta por seus privilégios. No dia 16 de fevereiro de 1996, o periódico publicou em suas páginas a lista completa. Está aqui. Ao lado dos nomes dos parlamentares, o jornal divulgou os telefones de seus gabinetes, o que levou ao congestionamento do sistema telefônico da Câmara. Em editorial, chamou de “infame” a iniciativa dos congressistas.

A “banana” de Boris Casoy

O episódio tomou proporção de escândalo nacional. O jornalista Boris Casoy, então apresentador do telejornal TJ Brasil, do SBT, comentou o caso e foi além do seu tradicional bordão (Isto é uma Vergonha!): cruzando os braços com o punho cerrado, mandou uma “banana” aos parlamentares que formavam trincheira em defesa do privilégio.

A iniciativa pegou tão mal que a maioria dos deputados que assinou a lista de Nilson Gibson (que prometeu processar Boris Casoy pelo “enorme desrespeito” à Câmara dos Deputados) voltou atrás nos dias seguintes. Os parlamentares passaram a dizer que tinham se confundido, que Nilson Gibson os tinha induzido a erro, que não sabiam que estavam assinando um requerimento pela manutenção de um privilégio. Algumas semanas depois, o próprio deputado Nilson Gibson retirou sua iniciativa de pauta, e o Instituto de Previdência dos Congressistas terminou por ser extinto no ano seguinte.

Um deputado, porém, defendeu até o fim que o privilégio fosse mantido: Jair Bolsonaro (então no PPB-RJ). Defendeu da forma descrita acima e publicada à época pela Folha, dizendo que tinha família para criar, que só votaria contra o privilégio se em troca pudesse nomear correligionários em estatais, afirmando que só a aposentadoria do Exército, que já recebia desde então, acumulando com o salário de deputado na ativa, como de resto faz até hoje, não seria suficiente para sustentar seus filhos e sua velhice quando chegasse o inverno da vida.

Então, tá.

Vinícius Segalla e Gustavo Aranda
No DCM
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Sobre a pesquisa Ibope

Sobre a pesquisa Ibope de ontem, que tanto desânimo causou, convém ponderar um punhado de coisas.

(1) A fantasia de que as marchas do #EleNão dissolveriam magicamente o bolsonarismo nunca foi mais do que isso, uma fantasia. O dia 29 foi importante para mostrar a força e a disposição de luta de tantos grupos - mas é uma luta que não se resolve com uma cartada e que, na verdade, não termina nem na eleição. Como resultado imediato, essa demonstração de força pode ter mobilizado setores reacionários, que se sentem profundamente ameaçados com o avanço das mulheres na sociedade brasileira, na direção de um "voto útil" no Bozo já no primeiro turno.

(2) O outro fator é o crescimento do desvario antipetista, alimentado pela mídia, pelo empresariado, por alguns intelectuais (ou intelectuais wannabe) e pelos candidatos do chamado "centro" (além da contribuição de sempre do judiciário). Trata-se, em alguns casos, da miopia induzida pela competição eleitoral; em muitos outros, de preparação de terreno para uma adesão envergonhada ao fascismo. O antipetismo cumpre, no Brasil de hoje, o papel que historicamente é do anticomunismo: o salvo conduto para a extrema-direita.

(3) O chamado "centro" resiste a assumir a única posição possível para um democrata, mesmo conservador, neste momento: afirmar que qualquer adversário político é melhor do que o fascismo e adiantar o apoio a qualquer candidato que enfrente o Bozo. Foi o que fez, no jornal de hoje, o empresário Ricardo Semler. Infelizmente, parece que poucos seguem seu exemplo. 

(4) Talvez os pretensos liberais brasileiros se consolem com o exemplo de países europeus em que a extrema-direita chegou ao poder, nos últimos anos, e a democracia, embora baqueada, resistiu. É um auto-engano. A democracia brasileira já se encontra seriamente abalada, desde o golpe de 2016. Pelo extremismo do discurso de ódio e pelo desprezo confessado pela democracia e pelos direitos, Bozo e Mourão são muito piores do que seus colegas da extrema-direita europeia. E, sobretudo, aqui temos um vasto setor do aparelho repressivo do Estado (forças armadas, polícias, judiciário, ministério público) pronto para secundar o mergulho no fascismo.

(5) Pouco se pode esperar de Alckmin, que flerta ou se distancia da extrema-direita conforme as conveniências, ou de Marina Silva, cegada pelo ressentimento. Mas a base tucana que ainda se vê como genuinamente de centro e os remanescentes do marinismo de raiz têm o dever de pressionar suas lideranças para uma urgente correção de rumo.

(6) É mais complicada a posição de Ciro Gomes. É normal que ele esteja frustrado e guarde mágoas da manobra pesada de Lula que lhe subtraiu o apoio do PSB. É razoável que esteja um pouco perdido e até desesperado, com suas chances de chegar ao segundo turno desaparecendo a olhos vistos. Mas há algumas linhas que não é possível atravessar. Uma delas é banalizar a ameaça fascista aderindo ao discurso de que é necessário "evitar os dois extremos".

É compreensível também que, como candidato, Ciro queira marcar suas diferenças em relação ao PT. Mas dá para fazer isso sem embarcar no antipetismo da direita. Guilherme Boulos, que começou a campanha meio titubeante, hoje apresenta com clareza as diferenças entre seu projeto e o projeto petista, sem com isso insinuar que Haddad e o Bozo se equivalem e sem abrir qualquer brecha para que seu discurso seja aproveitado pela extrema-direita. Cabe a Ciro e ao cirismo decidir se querem sair da campanha derrotados, mas como interlocutores legítimos que buscam ocupar centro político - ou igualmente derrotados, mas como oportunistas despreocupados com a democracia e os direitos, cúmplices de ódio e da violência.

Luis Felipe Miguel
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Empresário Ricardo Semler alerta “companheiros da elite” contra apoio a Bolsonaro

Semler, em artigo na Folha, exorta: “Colegas de elite, acordem. Não se vota com bílis. Precisamos de tempo, como nação, para espantar a ignorância e aprendermos a ser estáveis”


O empresário Ricardo Semler, sócio da Semco Style Institute e fundador das escolas Lumiar, assina artigo na Folha desta terça-feira (2), com o título “Alô, companheiros de elite”, onde condena veementemente o apoio recorrente de empresários e colegas a qualquer candidatura que seja capaz de vencer o PT, inclusive agora ao presidenciável Jair Bolsonaro (PSL).

O ex-professor visitante da Harvard Law School e de liderança no MIT (EUA) se recorda que alertou colegas contra Collor e também contra “a ida das elites à Paulista para derrubar a Dilma equivalia a ‘eleger’ o Temer e seus 40 amigos”.

O empresário afirma que estremece “ao ouvir amigos, sócios e metade da família aceitando a tese de que qualquer coisa é melhor do que o PT”, escreveu. Semler afirma ainda que “a reação de medo e horror da esquerda, Ciro incluso, é ignorante”, para perguntar mais adiante: “Oras, trocar vigias com pistolas por seguranças com fuzis é um avanço? Ou é melhor aceitar que o país é profundamente injusto e um lugar vergonhoso para mostrarmos para amigos estrangeiros?”.

Semler alerta que não compartilha “com os pressupostos ideológicos do PT e — até pouco — fui filiado a um partido só, o PSDB”, mas reconhece “que as elites deste país sempre foram atrasadas, desde antes da ditadura, e nada fizeram de estrutural para evitar o sistema de castas que se instalou”.

Diante do apoio a Bolsonaro, o empresário pergunta: “Quem terá coragem, num almoço da City de Londres, de defender a eleição de um capitão simplório, um vice general, um economista fraco e sedento de poder, e novos diretores de colégio militares, com perseguição de gays, submissão de mulheres e distribuição de fuzis à la Duterte?”, alerta.

Ao final, exorta seus pares: “Colegas de elite, acordem. Não se vota com bílis. Precisamos de tempo, como nação, para espantar a ignorância e aprendermos a ser estáveis” e encerra: “Não vamos deixar o pavor instruir nossas escolhas. O Brasil é maior do que isto, e as elites podem ficar, também. Confiem”.

No Fórum
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A “Era Moro” destruiu o respeito pela Justiça


O que está acontecendo no Supremo Tribunal Federal torna uma piada de mau gosto aquela frase tão repetida: “as instituições estão funcionando”.

E não é ainda o pior, segundo o relato da repórter Carolina Brígido, na Época sobre a guerra de decisões em torno da entrevista a Lula:

(…)o sangue de Lewandowski subiu. Com o rosto vermelho, disse a Toffoli que, se o caso fosse levado ao plenário, ele denunciaria o desvio de poder que tomou conta do STF. Lewandowski recomendou ao colega que “pensasse bem” antes de levar o processo a julgamento, porque ele não ficaria calado. E, depois de falar bastante, deixaria o plenário sem participar da votação.

Como Toffoli é, tal como Carmem Lúcia era, “dono da pauta” do plenário, é improvável que o caso tenha decisão amanhã.

O que não impedirá que o “barraco” prossiga, já hoje, na sessão das duas turmas do Tribunal.

O que está em jogo, dirá Lewandowski, é a substituição de todo e qualquer ministro do Supremo por um único: o presidente da corte, mesmo que este o seja quem está ali, por poucas horas, por vezes até em arranjos do tipo, “vou ali e já volto, você assume e mata essa no peito”.

Pois ficou claro que este foi o arranjo patrocinado por Dias Toffoli, a fim de que Luiz Fux fizesse o serviço sujo de abolir a liberdade de imprensa.

Pode-se gostar ou não do ex-presidente Lula; pode-se até pretender que ele permaneça preso, segundo as novas e ferozes regras do Judiciário. Mas não se pode, de um lado, tirar da imprensa a liberdade de ouvir quem ela quiser e, de outro, impedir alguém que, por não haver trânsito em julgado de sua condenação já duvidosa, de ter seu direito fundamental à livre expressão.

Não, as instituições não estão funcionando, estão se esgarçando em público (daqui e de fora), diante dos olhos espantados de quem se acostumou a um Judiciário, que mesmo conservador, sabia se portar com um decoro que foi se perdendo desde os confrontos entre Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa.

A diferença é que saiu do campo dos diálogos grosseiros e, agora, desceu ai antes intocável campo do respeito às decisões processuais.

A Justiça passou a ter “obrigações policiais” e a ser “julgada” pela mídia e pelo coro fascista que ela criou apenas pelo quanto faz contra seus desafetos.

E, neste processo, nada foi mais deletério do que termos passado a viver a Era Moro, onde a Justiça é o que a mídia e o mercado querem.

PS: Na charge do Aroeira, sempre genial, repare o calçado de Dias Toffoli…

Fernando Brito
No Tijolaço
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O desmoronamento do Supremo Tribunal Federal


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Ibope muda filtro em última pesquisa e influencia resultado, dizem analistas

No levantamento, uma das perguntas - não utilizada nos estudos anteriores - pergunta ao eleitor se ele votou nas últimas eleições. Com a resposta negativa, o entrevistador não prossegue com a entrevista


O Ibope modificou um dos filtros que selecionam os entrevistados na última pesquisa eleitoral, divulgada nesta segunda-feira (1º), e influenciou diretamente os resultados. “O Ibope modificou o filtro da entrevista. Na pesquisa de ontem não foi entrevistado quem não votou nas últimas eleições. Por isso, a rigor, os resultados não são comparáveis (com as pesquisas anteriores”, publicou o cientista político Alberto Carlos de Almeida, em suas redes sociais.

A pesquisa aponta um crescimento de Jair Bolsonaro (PSL) no eleitorado feminino justamente no fim de semana em que foram realizados atos de protestos contra sua candidatura, o movimento #elenão. Os dados têm sido utilizados amplamente pela Rede Globo, que encomendou a pesquisa junto com o jornal O Estado de S.Paulo. No levantamento, uma das perguntas – não utilizada nos estudos anteriores – pergunta ao eleitor se ele votou nas últimas eleições. Com a resposta negativa, o entrevistador não prossegue com a entrevista.

Esse filtro pode ter prejudicado a candidatura de Fernando Haddad (PT), segundo analistas ouvidos pela Fórum. O petista registra crescimento entre os mais jovens, na faixa eleitoral daqueles que não votaram nas eleições anteriores.

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Dilma cospe no Pulhocci

Um juiz de 1ª instância ignora o MPF e o TRF-4 a seis dias de uma Eleição!


O Conversa Afiada reproduz nota oficial da Presidenta Dilma Rousseff:

Sobre a notícia do vazamento da delação do senhor Antonio Palocci, a assessoria de imprensa de Dilma Rousseff rebate:

1. Embora tenham sido feitas há quase sete meses, e rejeitadas pelo Ministério Público Federal da Operação Lava a Jato, as delações sem provas do senhor Antônio Palocci foram surpreendentemente acolhidas pelo juiz federal da 13ª Vara de Curitiba, nesta segunda, e amplamente divulgadas pela mídia, há exatos seis dias da eleição presidencial.

2. Dadas em abril deste ano, as declarações do senhor Palocci tentam incriminar Lula, Dilma e outros dirigentes do PT, para obter o prêmio da liberdade, da redução da pena e da posse de recursos os quais é acusado de ter acumulado ilegalmente.

3. O desembargador João Pedro Gebran Neto, do TRF-4, já havia sentenciado, em 21 de junho deste ano, que “não cabe neste momento inicial o exame detido do conteúdo das declarações prestadas” por Palocci. “Tampouco o momento da homologação é adequado para aferir a idoneidade dos depoimentos dos colaboradores”.

4. Com isso, o desembargador suspendeu a tramitação do termo de colaboração por três meses, para que Palocci apresentasse “à autoridade policial elementos probatórios minimos de suas alegações”. O que ele não fez.

5. É estarrecedor, portanto, que uma delação não aceita pelo Ministério Público, e suspensa por um juiz de segunda instância, seja acolhida e tenha tido seu sigilo quebrado por um juiz de primeira instância. Sobretudo, neste momento em que o povo brasileiro se prepara para eleger o presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais.

6. Em sua terceira tentativa de delação “implorada”, o senhor Palocci inventa que as duas campanhas de Dilma à Presidência teriam arrecadado R$ 1,4 bilhão. Trata-se de um valor absolutamente falso. Apenas a hipótese de recursos tão vultosos não terem sido detectados evidencia o desespero de quem quer salvar a própria pele.

7. Tal afirmação, pela leviandade e oportunismo delirantes, só permite uma conclusão: que o senhor Palocci saiba onde se encontra R$ 1 bilhão, já que o valor declarado e aprovado pelo TSE, é cerca de um terço disso.

8. O que fica evidente é que a negociação feita por essa delação implica que o senhor Palocci, depois de pagar R$ 37,5 milhões, poderá “requerer ou representar ao juiz pela concessão de perdão judicial”, tenha reduzida “em até 2/3 (dois terços) da pena privativa de liberdade e/ou sua substituição por restritiva de direitos” ou, ainda, “a suspensão do processo e do prazo prescricional”.

Assessoria de Imprensa
Dilma Rousseff
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Advogada que pediu censura a Lula é ligada a Anastasia e já trabalhou em escritório de Gilmar


A advogada Marilda de Paula Silveira (foto), que requereu ao ministro Dias Toffoli a censura às entrevistas dos jornalistas Florestan Fernandes (Rede Minas e El País) e Mônica Bérgamo (Folha) com o ex-presidente Lula, é ligada ao senador Anastasia e já trabalhou no escritório do ministro Gilmar Mendes.

A advogada Marilda de Paula Silveira, autora do requerimento do Partido Novo, para a proibição da entrevista do ex-presidente Lula aos repórteres Mônica Bergamo(Folha) e Florestan Fernandes (Rede Minas/El País), é sócia do escritório de advocacia de Flávio Henrique Unes Pereira, assessor do senador Antônio Anastasia e já operou em escritório do qual o ministro Gilmar Mendes é sócio. Os dois advogados são coautores de vários livros.

No dia 20 de março de 2016, o blog Viomundo publicou uma matéria na qual trazia à tona o envolvimento da advogada com Gilmar Mendes. Na época Marilda representou o PPS em ação movida contra o ex-presidente Lula.

O gabinete do Senador Anastasia se tornou uma referência no senado, para a fundamentação jurídica dos principais temas que estão desorganizando o Brasil. Entre outros documentos, já passaram pelo gabinete de Anastasia o documento base para o impeachment da presidenta Dilma e é de autoria do próprio Flávio Unes o Projeto de Lei para a terceirização total do serviço público.

A manobra para impedir Lula de falar a Mônica Bergamo (Folha) e Florestan Fernandes (Rede Minas/El País) faz do partido Novo um apêndice do PSDB.

Marilda e Flávio Unes são parceiros no site de notícias, artigos e entrevistas sobre Direito Eleitoral e Democracia: oseleitoralistas.com.br.

Clique aqui para ler a íntegra do despacho de Dias Toffoli.

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Record entra na briga das pesquisas e indica o contrário do Ibope


Pesquisa contratada pela TV Record – não esquecer que Edir Macedo assumiu o apoio a Jair Bolsonaro –  é mais uma a publicar dados contraditórios à suspeitosíssima pesquisa Ibope veiculada pela Globo.

Aplicada pela Real Time Big Data, com 3.200 entrevistas, ela aponta uma diferença próxima à margem de erro: 29% para Jair Bolsonaro; 24% para Fernando Haddad.

Todos os demais ficam em índices compatíveis com o Ibope, com um ponto, no máximo, de variação.

Dependendo do comportamento do Datafolha, talvez não seja possível dizer que é só o PSDB que está desaparecendo nestas eleições.

Mas não tenham ilusões: o “dono” de ambas é a Globo.

Fernando Brito
No Tijolaço



Erro do Ibope está dentro da margem de lucro


Três pesquisas, todas realizadas no mesmo período, de 27 a 30/09:

CNT/DMA
Bolsonaro 28,2%
Haddad 25,2%
Ciro 9,4 %

RT 7/Record
Bolsonaro 29%
Haddad 24%
Ciro 11%

Ibope/Globo
Bolsonaro 31%
Haddad 21%
Ciro 11%

Em todas a margem de erro é de 2%.
E o erro além da margem é proposital?

Claudio Guedes
No Esquerda Caviar
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Esquema Globo-Ibope-Moro-Palocci fecha o cerco ao PT: começou a guerra

https://www.balaiodokotscho.com.br/2018/10/01/pacote-globo-ibope-moro-palocci-fecham-o-cerco-ao-pt-comecou-a-guerra/

Para mim e os leitores que me acompanham neste modesto Balaio, alguns há mais de 10 anos, nada do que aconteceu nesta noite de segunda-feira foi surpresa.

Escrevi logo cedo sobre o cenário político na fase decisiva do primeiro turno, baseado em conversas no final de semana:

“Nas atuais condições de tempo e temperatura, tudo ainda pode acontecer, se Fernando Haddad continuar subindo nas pesquisas e a sua vitória se tornar inevitável pelas atuais regras do jogo.

Afinal, não foi para devolver o poder ao PT que eles fizeram a Operação Lava Jato, deram o golpe e prenderam o Lula”.

À tarde, escrevi outra coluna com este título:

“Haddad, mire-se no exemplo de Lula em 1989: a última semana é guerra”.

As duas entidades e os dois personagens citados no título acima não estão reunidos ali por acaso.

Diante do fracasso das candidaturas reformistas de “centro”, o Grupo Globo resolveu apoiar, na falta de outra opção mais confiável, o capitão reformado Jair Bolsonaro, único candidato com chances de derrotar o PT, o inimigo a ser abatido.

Com Haddad crescendo sem parar e Bolsonaro estacionado ou começando a cair, era preciso agir rápido.

No sábado, a cobertura torta e manipulada das magníficas manifestações da mulherada do #EleNão pelo Brasil inteiro, as maiores desde as Diretas Já, dando a elas o mesmo destaque das carreatas pró-Bolsonaro, foi a primeira indicação de que o jogo agora era para valer.

Variadas matérias sobre Bolsonaro, incluindo uma entrevista exclusiva no avião que o levou ao Rio, e o depoimento da ex-mulher negando todas as acusações que havia feito contra ele, publicadas pela revista Veja, ocuparam a maior parte do tempo do Jornal Nacional.

Na segunda-feira, estava prevista a divulgação de uma nova pesquisa do Ibope.

Fontes bem informadas já me asseguravam que Bolsonaro iria subir na pesquisa e poderia até ganhar no primeiro turno.

Achei que era chute, bazófia de torcedor do capitão, mas me enganei.

No final da tarde, antes do Jornal Nacional, a Globo News já deitou e rolou em cima de uma “delação premiada” do ex-ministro Antonio Palocci, feita em abril à Polícia Federal, e liberada pelo juiz Sérgio Moro só agora, a seis dias da eleição, depois de ser rejeitada pelo Ministério Público Federal por falta de provas.

As acusações de Palocci contra Lula, Dilma e o PT foram dadas como fato consumado, transitado em julgado.

Tudo seguiu o script: o JN abriu com o crescimento de 4 pontos de Bolsonaro no Ibope, chegando a 31%, e Haddad estacionado em 21%, vendo sua rejeição disparar para 38% em poucos dias, a apenas 6 pontos abaixo de Bolsonaro.

Para o segundo turno, em que Haddad levava ampla vantagem, foi apontado o empate em 42%.

Como é que o capitão conseguiu subir tanto no período em que choveram denúncias contra ele e boa parte do Brasil foi às ruas protestar contra a sua candidatura?

Os números podem ser todos verdadeiros, baseados em métodos científicos, mas é difícil de entender.

A seguir, logo depois dos comerciais, como se já estivesse tudo planejado desde cedo, entrou o bombardeio contra o PT embrulhado no pacote entregue por Moro com a delação de Palocci, que William Bonner apresentou como a bala de prata tão aguardada.

Ali nada acontece de graça, e só têm o direito de surpreender os mais jovens que não viveram a campanha presidencial de 1989, na primeira eleição direta para presidente depois do golpe de 1964.

Naquela eleição, eu era assessor de imprensa de Lula e quando vi entrar na sala em que se acertariam as regras para o segundo debate, um assessor de Fernando Collor, conversando alegremente com Alberico Souza Cruz, diretor de jornalismo da Globo, pensei comigo: estamos perdidos.

Por acaso, como me disseram, os dois pegaram o mesmo avião do Rio para São Paulo.

As baixarias de Collor na véspera, envolvendo a família de Lula, as denúncias acusando o PT como autor do sequestro do empresário Abílio Diniz (ainda não se falava em fake news) e a indecente edição do debate decisivo para favorecer Collor no Jornal Nacional _ tudo me voltou à lembrança nesta reta final da campanha de 2018 (ver dois posts anteriores).

É justo reconhecer: eles são profissionais e não brincam em serviço.

Mas não podiam esperar que Lula, mesmo preso numa solitária em Curitiba, há quase seis meses, transformasse Fernando Haddad no candidato favorito, em apenas duas semanas, como apontavam as pesquisas anteriores.

Era preciso virar este jogo que parecia perdido. E são tantos os interesses daqui e de fora que estão em jogo nesse momento que os eleitores nem podem imaginar.

Mesmo quebrado, humilhado e vilipendiado, o Brasil ainda é um país muito importante na geopolítica mundial.

“Fortes emoções ainda nos aguardam”, escrevi pela manhã, mas não podia imaginar que fossem tantas, e tão rápidas.

São emoções e informações demais para um velho repórter, que trabalha sozinho em casa, e só tem um celular e um computador à mão, para tentar entender e explicar o que está em jogo neste momento.

Já são 11 da noite, e amanhã tem mais.

Vida que segue.

Ricardo Kotscho
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Lewandowski enfrenta os office-boys da Globo, Moro, Fux e Toffoli

Em novo despacho, Lewandowski libera entrevista de Lula a Florestan Fernandes


Mesmo depois do despacho do ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, que censurou a entrevista do ex-presidente Lula à Folha de S. Paulo, o ministro Ricardo Lewandowski soltou mais um despacho, autorizando a entrevista de Lula ao jornalista Florestan Fernandes Júnior, ao jornal El Pais e à Rede Minas de Televisão; segundo Lewandowski, a liminar de Luiz Fux – flagrantemente ilegal – não atinge o pedido formulado por Florestan; o ministro também questiona os poderes de Toffoli para cassar sua decisão no tocante à Folha e aponta "motivações subalternas"

O jornalista Florestan Fernandes Júnior está autorizado a entrevistar o ex-presidente Lula para o jornal El Pais e para a Rede Minas de Televisão. A decisão foi tomada pelo ministro Ricardo Lewandowski, em novo despacho, publicado na noite de ontem. Lewandowski tomou a decisão mesmo depois que o presidente da corte, Dias Toffoli, decidiu, em parceria com seu colega Luiz Fux, trazer de volta a censura prévia ao Brasil.

Em sua decisão, o ministro Lewandowski avalia que a liminar de Luiz Fux – flagrantemente ilegal – não atinge o pedido formulado por Florestan. O ministro também questiona os poderes de Toffoli para cassar sua decisão no tocante à Folha e aponta "motivações subalternas". Ao ser empossado como presidente do Supremo Tribunal Federal, Toffoli indicou como assessor especial o general Fernando Azevedo e Silva, que foi chefe do Estado Maior das Forças Armadas. Ontem, numa declaração amplamente criticada, Toffoli afirmou que não se refere à ditadura de 1964, mas ao 'movimento' de 1964.

Ao censurar a imprensa, Toffoli pretendia que os pedidos formulados por órgãos de imprensa para entrevistar Lula só fossem avaliados depois do segundo turno das eleições presidenciais. Aparentemente, o objetivo é evitar que Lula diga o óbvio: que só foi preso para ser impedido de disputar as eleições presidenciais de 2018 e que Fernando Haddad representa a continuidade de seu projeto político. Silenciar Lula, portanto, é uma forma de alavancar a candidatura de Jair Bolsonaro, que, no último sábado, foi alvo do maior protesto antifascista da história do Brasil.

A censura a Lula também afronta decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU, que determinou a manutenção dos direitos políticos de Lula e também que ele pudesse conceder entrevistas. Preso político há quase seis meses, Lula foi impedido de votar, de ser votado e agora de conceder entrevistas por Toffoli e Fux. No entanto, a decisão de Lewandowski obriga a Polícia Federal a garantir a entrevista de Lula a Florestan Fernandes Júnior. É possível que Toffoli leve o caso ao plenário ainda hoje para que o Supremo Tribunal Federal decida se irá trazer de volta ou não a censura ao Brasil. Antecessora de Toffoli no cargo, Cármen Lúcia dizia que 'o cala boca já morreu'. Saberemos nas próximas horas.
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O Ibope entrou na guerra das”fake news


Agora você já pode escolher: notícias fake, fotos fake e pesquisas…

Quais foram os fatos politicos novos da última semana?

Um, essencialmente: o estrondoso movimento de repúdio a Jair Bolsonaro, representado no “#EleNão”, que lotou as ruas de centenas de cidades brasileiras.

Será o primeiro caso de um candidato que, repudiado em praça pública, cresce quatro pontos percentuais em uma semana.

E que outro, que vinha subindo com força e constância, consegue agregar 11 pontos  (!!!!) em sua rejeição em apenas seis dias, sem ter afogado gatinhos ou atropelado carrinhos de bebê.

Mais ainda: todas as pesquisas divulgadas entre a última edição do Ibope e esta os dados vieram ao contrário do que mostra esta versão do Ibope: em todas elas Bolsonaro fica estagnado ou oscila para baixo, dentro da margem de erro e Fernando Haddad sobe, em algumas delas chegando ao empate técnico.

O gráfico do post, retirado do próprio G1, mostra a tendência absolutamente inversa entre o Ibope e o Datafolha.

O Ibope foi, como dizia aquele auxiliar de Fernando Henrique Cardoso envolvido em negócios obscuros da privatização, ao “limite da responsabilidade”.

Na entrevista que deu domingo ao JB, diante de uma tendência clara de polarização, sua diretora disse  que “nada estava decidido”. Hoje, mais cedo, seu dono, Carlos Augusto Montenegro, famoso por previsões que não se concretizam, deu entrevistas com um misterioso “não sei se o crescimento de Haddad se mantém, para ou retrocede”

O objetivo é claro: desmobilizar o que se viu mobilizado nas ruas, no sábado e mobilizar os fascistas que andavam desenxabidos.

E, secundariamente, levar a campanha de Haddad a uma agressividade que, a esta altura, o igualaria a Geraldo Alckmin  ou a Ciro Gomes.

Resta saber se os demais institutos de pesquisas vão aceitar o grito do “chefe”.

Eles, talvez. Nós, não.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Palocci e a prostituta de todas as provas


A delação de Antônio Palocci à Polícia Federal (PF) mostra que os roteiristas são melhores que os do Ministério Público Federal. Palocci não falou em “pactos de sangue” e outras expressões típicas de séries da Netflix. Mas o MPF foi mais honesto que a PF, ao considerar que, sem a apresentação de provas, não haveria acordo.

É um desrespeito total à democracia brasileira. Ora, são os procuradores do Distrito Federal, ora a Polícia Federal de Curitiba, ora os procuradores de Curitiba, cada qual tirando sua lasquinha do momento político, ante a inação do Conselho Nacional do Ministério Público e do Conselho Nacional de Justiça.

O juiz Sérgio Moro continuou sendo o juiz Sérgio Moro. Em ambos os casos, deu publicidade ampla. Agora, com o objetivo claro de influir nas eleições presidenciais.

É um abuso inconcebível sobre os direitos de milhões de eleitores. É um lance de alta octanagem, que não dará outra saída ao futuro presidente – desde que não seja Jair Bolsonaro – que não a de passar um pente fino nos porões da Lava Jato, especialmente os milionários acordos de delação firmados, que deixaram soltos – e com patrimônio – os grandes corruptores. Ou há outra explicação para esse ansiedade em influenciar o processo político?

Usando o método de investigação do MPF – a chamada “teoria do fato” (não confundir com a teoria do domínio do fato) -, junta-se um conjunto de evidências e formula-se uma teoria inicial, que servirá de roteiro para as investigações.

Peça 1 - No plano estatístico, bastará somar todas as reduções de multas e de penas oferecidos pela Lava Jato e pelo juiz Sérgio Moro aos delatores. Dará um valor considerável.

Peça  2 – um levantamento dos valores de honorários milionários praticados por advogados de delatores.

Peça 3 – investigação das denúncias feitas por Tacla Duran, de ofertas feitas pelo primeiro amigo Zucolotto de redução das multas, de US$ 15 milhões para US$ 5 milhões, mediante honorários de US$ 5 milhões. Tacla têm documentos que revelam, no mínimo, a ascendência de Zucolotto sobre procuradores da Lava Jato.

Peça 4 – levantamento de todos os pagamentos de palestras a membros da Lava Jato, cruzando com nomes de instituições que foram apontadas nas delações e poupadas pela operação.

Peça 5 – pente fino em todos os contratos futuros de procuradores que irão se lançar na carreira de especialistas em compliance, para conferir se haverá ou não clientes beneficiados pelos acordos de leniência.

Obviamente, se os fatos não confirmarem a teoria, ao contrário da Lava Jato, muda-se a teoria.

A análise do vazamento

Em direito penal, diz-se que a prova testemunhal é a “prostituta de todas as provas”. Por isso tem baixíssima credibilidade, se não vier acompanhada de provas documentais. E tem menos credibilidade ainda se visarem obter grandes recompensas para os acusados. É por isso que, em países sérios, só há redução de pena mediante a apresentação de provas concretas do que foi delatado.

Em republiquetas latino-americanas, é diferente.

A parte da delação de Palocci, distribuída por Sérgio Moro, tem 16.789 caracteres, divididos entre os seguintes temas:

/var/folders/hy/dl8cpd596lx8m5wsqntm05c40000gp/T/com.microsoft.Word/Content.MSO/2200CD06.tmp

1ª parte – histórico das nomeações na Petrobras:  7.799 caracteres, ou 38,5%

Conta uma história ao alcance de qualquer pessoa pesquisando o Google, ou qualquer observador político do período.

2ª parte – as suspeitas de Lula – 1.917 caracteres – 9,5%

Relata um encontro com Lula em que ele pediu informações sobre as suspeitas que corriam sobre a Petrobras e queria saber os responsáveis pela indicação. Valentemente, Palocci respondeu a Lula que ele, Lula, era o responsável. Não há nenhum documento que comprove as declarações de Palocci.

3ª parte – o pré-sal – 2.099 caracteres – 10,4%

Palocci diz que a nacionalização do pré-sal foi adotada porque seria muito mais difícil negociar propinas com empresas estrangeiras. Diz isso do setor internacionalmente mais envolvido em denúncias de corrupção.

Há um amplo histórico de corrupção na África, em Angola, Nigéria, na América Latina por parte das grandes petroleiras. Mas elas foram afastadas do pré-sal porque seria difícil corrompe-las.

É só conferir o que a Trafigura fez em Angola e a maneira como seu lobista, Mariano Marcondes Ferraz, foi detido pela Lava Jato, mas a empresa escapou incólume.

Obviamente a revogação da Lei da Partilha e a corrida de José Serra e Eduardo Cunha para abrir o mercado para as petroleiras internacionais tiveram o objetivo único de restaurar a moralidade.

Até agora, 58,4% do documento, sem nenhuma prova.

4ª parte – PMDB – 1.343 caracteres – 6,6%

Narra as pressões do PMDB para emplacar diretores. E revela que a Diretoria Internacional um fechou um contrato de US$ 800 milhões. Que foi reduzido para US$ 300 milhões, tamanho o abuso. Não revela o nome do santo que reduziu o contrato. Nem apresenta prova documental alguma.

5ª parte – a arrecadação pelo PT

Segundo Palocci, “em virtude do alinhamento ideológico, a prática de arrecadação se daria de forma moderada” entre os partidos ideológicos que apoiavam o PT. Diz que a promessa de pagamento aos partidos (que resultou no mensalão) visava cobrir despesas de campanha. Ou seja, não havia mensalão, como era de conhecimento geral, mas que foi desconsiderado no julgamento da AP 470.

6ª parte – cartilha sobre propinas – 1.319  caracteres – 6,5%

Uma lista de maneiras de conseguir propinas, através de emendas parlamentares.

7ª parte – a arrecadação pelo PT – 1.103 caracteres – 5.5%

Dá o nome dos principais arrecadadores, incluindo ele. Diz que tinha “conhecimento” de contas no exterior. Apenas conhecimento. E, sem apresentar provas, diz ter sabido de empresários que abriam conta em nome próprio “na confiança”, para utilização pelo PT.

8ª parte – custo da campanha do PT – 618 caracteres – 3,1%

Apresenta números, sem nenhuma indicação de provas. Diz que as campanhas de 2010 e 2014 custaram “aproximadamente” 600 e 800 milhões.

9ª parte – conclusão – 217 caracteres – 1,3%

Apenas para encerramento. Nada mais disse nem lhe foi perguntado.

Aliás, a maior leniência de Lula foi ter mantido Palocci como Ministro. Suas estripulias já eram de conhecimento do mercado há muito tempo, mais ainda que as estripulias de Paulo Roberto Costa.

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Luís Nassif
No GGN
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