26 de set. de 2018

Prefeitos, vice-prefeitos e candidatos do MDB, PSDB e PR de SC se reúnem para declarar voto em Bolsonaro

Candidato a governador pelo MDB, Mauro Mariani participará do ato; Candidatos ao Senado, Paulo Bauer (PSDB) e Jorginho Mello (PR) também confirmaram presença

Bolsonaro e Peninha
Prefeitos, vice-prefeitos e presidentes municipais do MDB se encontrarão nesta quinta-feira (27), em Ibirama, às 13h, para anunciarem apoio ao candidato à presidência da República, Jair Bolsonaro. A reunião está sendo articulada pelo deputado federal Peninha (MDB), candidato à reeleição.

O candidato a governador pelo MDB, Mauro Mariani, estará presente no encontro. Paulo Bauer (PSDB) e Jorginho Mello (PR), candidatos ao Senado, cancelaram compromissos para também participarem do ato.

Estão confirmados 34 prefeitos e vice-prefeitos emedebistas, 25 presidentes municipais e seis coordenadores regionais do MDB. São políticos do Alto e Médio Vale do Itajaí, e do Vale do Rio Tijucas.

Aliado de Bolsonaro em Brasília, o deputado Peninha faz campanha aberta para o capitão. Convenceu prefeitos e vereadores a votarem 17, e agora articula para aproximar de Bolsonaro, os candidatos da majoritária liderada pelo MDB em Santa Catarina.
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A verdade é dura: quem fica em cima do muro consente com as ideias nazifascistas do bolsonarismo

Foto: Evandro Teixeira
Na tarde de uma quarta-feira do ano passado, o deputado federal Jair Messias Bolsonaro desembarcou no aeroporto João Suassuna, na cidade paraibana de Campina Grande. Do lado de fora, discursou para centenas de fiéis que ansiavam por ele.

“Como somos um país cristão, Deus acima de tudo!”, esgoelou-se. “Não tem mais essa historinha de Estado laico, não! É Estado cristão!” Pronunciou seu voto de fé: “Vamos fazer um Brasil para as maiorias! As minorias têm que se curvar às maiorias! A lei deve existir para defender as maiorias! As minorias se adéquam ou simplesmente desapareçam!”

Foi zombaria da história o sol implacável que cegava os anfitriões do capitão. Para mirá-lo na contraluz, eles levavam as mãos à testa, em forma de uma aba de boné, proporcionando sombra aos olhos. O homem encolerizado ao microfone, naquele 8 de fevereiro de 2017, encarnava personagens sombrios de outrora. Ao preconizar o desaparecimento de minorias, evocou Ióssif Stálin trucidando oposições à esquerda e à direita. E o extermínio engendrado por Adolf Hitler.

A ameaça de eliminação das minorias conecta o bolsonarismo a ideias estimadas pelo nazifascismo. Ciro Gomes desdenhara Bolsonaro como “um projetinho de Hitler tropical”. Na sexta-feira, em cima de um caminhão de som, o candidato presidencial do PDT se referiu ao adversário do PSL como “nazista filho da puta”. Depois de uma sessão da peça “Meus 200 filhos”, ambientada em cenário do Holocausto, um espectador gritou, no teatro do Centro Cultural Justiça Federal: “Abaixo o nazismo! Veja em quem você vai votar!”.

Numa charge para comentar pesquisa do Ibope, Benett cruzou linhas evolutivas de votação e rejeição do deputado (antes de ele estacionar na intenção de votos e sua rejeição aumentar novamente). Elas desenharam a suástica. O grupo “Judeus contra Bolsonaro” desfraldou bandeira: “Não aceitamos que um fascista possa ser presidente do Brasil”.

Charge feita em seguida à divulgação, em 18 de setembro, de uma pesquisa presidencial do Ibope.
Charge feita em seguida à divulgação, em 18 de setembro, de uma 
pesquisa presidencial do Ibope.
Imagem: Benett

O manifesto “Democracia Sim”, cujos signatários ilustres se inclinam por candidatos diversos, reconhece na barbárie Bolsonaro uma “ameaça franca ao nosso patrimônio civilizatório primordial”. E lembra: “Líderes fascistas, nazistas e diversos outros regimes autocráticos na história e no presente foram originalmente eleitos, com a promessa de resgatar a autoestima e a credibilidade de suas nações, antes de subordiná-las aos mais variados desmandos autoritários”.

A Gaviões da Fiel reviveu a têmpera da democracia corintiana e rechaçou o candidato “que homenageia publicamente torturadores”. Tabelou com a Torcida Jovem do Santos, que se entrincheirou: “A opressão jamais irá vencer a nossa luta por liberdade dentro e fora dos estádios!”

Simpatizantes neonazistas

O parentesco do ideário bolsonarista com o arsenal ideológico nazi é tão inequívoco que até pascácios da direita mais ouriçada o percebem. Em 2011, o movimento neonazista White Pride World Wide juntou-se à convocação de um “ato cívico” pró-Bolsonaro em São Paulo. O nome do grupo quer dizer, no idioma que ele despreza, “Orgulho Branco no Mundo Inteiro”.

Skinheads apreciam o deputado. Essa gente é sádica como o garoto de olhos azuis Bobby, um dos clones de Hitler no filme “Os meninos do Brasil”. Bobby manda seus cães dobermann atacar e matar – um deles morde uma veia jugular e se lambuza de sangue humano. Talvez tenha sido um clone do facínora Carlos Alberto Brilhante Ustra quem, na campanha pelo impeachment, pendurou num viaduto bonecos de Dilma Rousseff e Lula enforcados.

Antes de afinar a voz pelo diapasão eleitoral, Bolsonaro teve oportunidade, mas não deplorou a memória do führer. Em 2012, no programa “CQC”, indagaram se ele “gostava” de Hitler. “Não”, respondeu, antes de render-se: “O que você tem que entender é o seguinte: guerra é guerra. Ele foi um grande estrategista. Quando você tem um general, aqui no Brasil, em qualquer exército do mundo, aquele general tem que estar pronto para aniquilar o outro país, destruir o outro país, para defender o seu povo”.

Bolsonaro não mencionou episódios como a invasão da Polônia e a ignomínia do gueto de Varsóvia. Nem explicou como a expansão nazista teria “defendido” o povo alemão.

Na mesma entrevista, perguntaram: “O senhor já deu um sopapozinho em alguma mulher?” “Já”, disse o capitão. “Eu era garoto, ainda em Eldorado (SP), e uma menina, que forçou a barra para cima de mim…”. E gargalhou, acompanhado dos entrevistadores.

Com estímulos dessa natureza, não surpreende a letra que bolsonaristas adaptaram ao funk “Baile de favela”. Na “Marcha da Família com Bolsonaro”, no Recife, os manifestantes cantaram: “Dou pra CUT pão com mortadela/ E pras feministas, ração na tigela./ As minas de direita são as tops mais belas/ Enquanto as de esquerda têm mais pelos que as cadelas”. A paródia não é “polêmica”, como prefere a imprensa anestesiada por eufemismos. É abjeta.

Ela não espanta, mas perturba. “O ovo da serpente” se passa na Berlim de 1923, dez anos antes de Hitler ser alçado a chanceler da Alemanha. Visita a gênese da tragédia nazista vindoura. O protagonista do filme de Ingmar Bergman é o trapezista judeu Abel Rosenberg. O desalento e o medo o abatem, depois de ele testemunhar policiais surrando um homem: “Acordei de um pesadelo e descobri que a vida real é pior do que o sonho”.

No Brasil, misoginia, homofobia e racismo se revolvem num coquetel de boçalidade e ódio. Em 2014, Bolsonaro disse ao jornal espanhol “El País” que “a imensa maioria [dos gays] vem por comportamento. É amizade, é consumo de drogas. Apenas uma minoria nasce com defeito de fábrica”. O nazismo também se apascentava da ojeriza por homossexuais. Nos campos de concentração, um triângulo rosa era costurado em seus uniformes. A peça “Bent”, de Martin Sherman, coloca em cena dois prisioneiros com triângulo rosado.

Um novo ‘Plano Cohen’

É possível que Joseph Goebbels, o ministro do III Reich para a Propaganda, jamais tenha enunciado a tese de que uma mentira repetida mil vezes vira verdade. Foi, todavia, um praticante compulsivo dela. Adeptos de Jair Bolsonaro têm compartilhado informações que maltratam os fatos.

Circula no WhatsApp a patacoada de um “plano de dominação comunista do PT”. A montagem repousa na prateleira do mercado de invencionices. É herdeira de uma armação nazistoide ocorrida em 1937. Enamorado pela Alemanha hitlerista, o presidente Getulio Vargas pretextou um certo “Plano Cohen” para perpetrar o golpe de Estado que impôs a ditadura do Estado Novo.

O tal plano arquitetava um assalto ao poder pelos comunistas. Era falso. Quem o datilografou foi um quadro da Ação Integralista Brasileira, organização prima do nazifascismo europeu. Capitão do Exército, chamava-se Olímpio Mourão Filho. Quando general, daria a largada no golpe de 1964 – um Mourão golpista é notícia caduca. O sobrenome Cohen foi escolhido para vincular o Partido Comunista à comunidade judaica; o integralismo era visceralmente antissemita.

No túnel Martim de Sá, no Rio, pichação com o símbolo (sigma) e a saudação ("anauê") da Ação Integralista Brasileira, organização de extrema-direita dos anos 1930.
No túnel Martim de Sá, no Rio, pichação com o símbolo (sigma) e a saudação (“anauê”) da Ação Integralista Brasileira, organização de extrema-direita dos anos 1930.
Foto: Ana da Escóssia

Mentira no atacado, mentira no varejo. O deputado federal Eduardo Bolsonaro veiculou um vídeo de propaganda do pai concorrente ao Planalto. Uma narradora em off fala enquanto se vê o que aparenta ser o rosto da dona da voz: “Sou mulher, negra e vinda de família pobre. […] Há muito me libertei do vitimismo. […] Meu voto é pelo Brasil. Meu voto é Bolsonaro”.

Logo desmascararam a farsa. A moça na tela é uma canadense executiva financeira de multinacional. Era atriz em 2011, ao gravar filmes para um banco de imagens, do qual saiu a “brasileira” pseudo-bolsonarista. “Somente a verdade nos liberta”, pregou Eduardo Bolsonaro ao publicar o vídeo no Twitter.

A perversão das mal denominadas “fake news” – se são falsas, não são notícias – levou Fátima Bernardes a gravar esclarecimento sobre uma delas. Espalharam que ela doara R$ 350 mil, mais a reforma de uma casa, à família do esfaqueador de Bolsonaro. A apresentadora teria sido motivada pela condição de Adélio Bispo de Oliveira como “vítima do sistema, da sociedade, capitalista, preconceituosa, odiosa e sem amor e porque era intimidado com os discursos de ódio de Bolsonaro”. É difícil identificar as digitais na mentira vulgar?

Tentaram atingir Ciro Gomes, plantando o boato que ele agredira sua ex-companheira Patrícia Pillar. Obra de quem? No Twitter, um dito Renato mantém um perfil com mais de mil seguidores. Diz-se de “direita” e sufraga Bolsonaro. No dia 23 de setembro, ele tuitou: “Ciro agrediu a Patrícia Pillar, a vítima ainda o defende” (copiei tudo, mas não promoverei o patife). Renato não maquinou o boato; foi um dos que o disseminaram. A atriz foi às redes e depôs: “Nunca sofri nenhum tipo de violência da parte de ninguém”. E anunciou voto em Ciro.

Teoria dos dois demônios

A despeito das credenciais de Bolsonaro e seu séquito, irrompe no ecossistema do poder um raciocínio extravagante: o de que o segundo colocado nas pesquisas, Fernando Haddad, padeceria do mesmo mal do capitão, o “extremismo”. Nivelam quem é diferente. De caso pensado ou não, ajudam o único extremista tresloucado (o cabo bombeiro é hors-concours).

Haddad militou contra a ditadura; Bolsonaro afirmou seis anos atrás que apoiaria um novo regime “nos moldes [do] de 64”. O PT governou por 14 anos e não mudou o número de membros do STF; Bolsonaro projeta mudar, para controlar a corte. Lula não tramou uma segunda reeleição, em que ele seria barbada nas urnas. Haddad batalha pelos direitos humanos; Bolsonaro advoga a tortura. Equivalem-se?

Os dois pertencem a “campos antidemocráticos”, pontificou na quinta-feira o colunista Merval Pereira, em artigo escrutinado pelo jornalista Fernando de Barros e Silva. Bolsonaro e Haddad emitem sinais que “representam ameaça à democracia”, diagnosticaram os cientistas políticos José Álvaro Moisés e Rubens Figueiredo. Para o economista e empresário Roberto Gianetti da Fonseca, um segundo turno com a dupla poderia gerar “grave risco institucional”.

O candidato Geraldo Alckmin apontou os líderes das pesquisas como “dois lados da mesma moeda, a do radicalismo” (o jornalista Bernardo Mello Franco dissecou a declaração do tucano). Fernando Henrique Cardoso escrevinhou uma carta considerando que o capitão e o ex-ministro de Lula “apostam em soluções extremas” – esqueceu de dizer que janta com Haddad, ao passo que Bolsonaro sugeriu matar o antigo presidente. Viveríamos “A hora dos extremos”, titulou a revista “Veja”.

Nenhum contendor de Bolsonaro assombra a democracia como ele, ao contrário do que sustentam “intelectuais adversativos”, expressão bem bolada pelo jornalista e editor Paulo Roberto Pires. “O intelectual adversativo situa-se num centro imaginário, que ergueu como lugar de equilíbrio e razoabilidade”, escreveu. É contra Bolsonaro, “mas”, “porém”, “contudo”… “Não é raro que, usando a desonestidade como método, conclua que bolsonaristas e lulistas são faces da mesma moeda.”

O PT alegadamente extremista é o partido em cujas administrações os banqueiros faturaram às pencas. O “confronto de extremos” constitui charlatanismo intelectual, sobretudo quando delineado com as letras afetadas do pedantismo. Quem iguala desiguais relativiza o perigo bolsonarista e banaliza seus delírios intolerantes.

Ficar em cima do muro significa consentir com a plataforma, esta sim, extremista de Bolsonaro. É adotar a teoria dos dois demônios, que no limite, ao rememorar refregas da ditadura, não difere torturadores de torturados.

Mulheres comandam resistência

A semana começou com más notícias para o capitão. O Ibope informou que sua diferença para Haddad caiu de nove para seis pontos. O plano de Lula vai dando certo. Bolsonaro tem 28% (igual à semana passada); Haddad, 22% (+3); Ciro, 11% (igual); Alckmin, 8 (+1); Marina Silva, 5 (-1). A rejeição imensa a Bolsonaro subiu de 42% para 46%. Ele perde nos cenários de segundo turno testados, exceto contra Marina – empatam.

Entre as mulheres, Bolsonaro e Haddad têm ambos 21%. São elas que devem provocar abalo inédito na campanha fascista. Convocam para o sábado, 29 de setembro, protestos contra o deputado. Mobilizam com a hashtag #EleNão. Um sem-número de movimentos se associou à iniciativa.

Dia 29 faremos história!”, escreveu Antonia Pellegrino. A feminista e roteirista assinalou: “A plataforma de Bolsonaro é inaceitável em qualquer democracia. Não podemos aceitar que o antipetismo se volte contra nós mesmas, se transforme em voto a favor de Bolsonaro. Entendo que haja mulheres que repudiam com todas as forças o Partido dos Trabalhadores. Porém, o PT nunca deixou o campo da democracia e sempre respeitou as decisões judiciais. O ódio ao PT não pode se transformar no ódio à democracia”.

Jair Bolsonaro espera ter alta do hospital em breve. Talvez as pesquisas não lhe sejam alvissareiras como os boletins médicos.

Mário Magalhães
No The Intercept
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Ciro erra, de novo, em buscar desqualificar o PT


É impressionante a capacidade de Ciro Gomes em cometer erros de posicionamento eleitoral.

Ao dizer, no debate SBT/UOL/Folha que “se eu puder governar sem o PT, prefiro”, quer se valorizar para o antipetismo, não para os indecisos a quem, no final, disse querer pretender falar.

E buscar o antipetismo foi a tônica de todos os candidatos, o que é o mesmo que tentar beber numa tigela onde todos estão procurando por a boca.

Ou alguém acha que Ciro, eventualmente eleito, fosse montar uma base de governo progressista sem o PT, que deve sair das urnas com a maior ou uma dos maiores bancadas?

Ciro, que tinha aberta o posicionamento de uma força que fosse à frente e melhorasse o que é o PT, preferiu ir disputar os 30% do antipetismo, onde há um rei, Bolsonaro, e vários pretendentes (Alckmin, Marina, Dias…)

O resultado é que tomou um “toco” de Fernando Haddad, que não lhe fez ataques, ao mencionar que achava  engraçado que Ciro dissesse isso depois de ter lhe oferecido o lugar de vice, dizendo que formariam um “dream team”.

Não foi uma “tirada” de Haddad. Está lá, em entrevista do ex-governador cearense ao El País: Ciro Gomes: “Uma chapa com Haddad em 2018 seria o dream team”,

Haddad foi piedoso, porque poderia ter criado um problema para Ciro no Ceará – onde está seu melhor resultado eleitoral – pois lá o seu grupo político e o PT são aliados e companheiros faz tempo. Bastava perguntar que, se ele preferia, porque não recomendava a seu irmão, Cid, candidato a senador, romper a aliança com o governador Camilo Santana, do PT e com 69% nas pesquisas parareeleger-se.

Não fez, porque sabe que vai precisar de Ciro no 2° turno, para o qual, ao contrário de Ciro, tem uma estratégia e não apenas uma esperança.

Fernando Brito
No Tijolaço
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A apreensão com a força de Bolsonaro entre os militares

Movida a bolsonarismo e antipetismo, a inquietação entre muitos integrantes das Forças Armadas ameaça o Brasil

O capitão no meio dos eleitores
facada recebida na véspera do Dia da Independência levou o deputado Jair Bolsonaro a um hospital, duas cirurgias e mais pontos na corrida presidencial. O avanço de Fernando Haddad nas pesquisas desenha para a reta final do primeiro turno uma campanha com cara de segundo. Quem será mais odiado, Bolsonaro ou o PT?

Da cama, o candidato da extrema-direita foi gravado em vídeo no domingo 16 por um dos três filhos e o que se vê é de arrepiar. Primeiro, sugere que, se for derrotado, terá sido trapaça. “A grande preocupação realmente não é perder no voto, é perder na fraude”, disse, a botar em dúvida a lisura das urnas eletrônicas.

Depois, mostrou que contra o PT vale tudo, até golpe. “Mais do que a corrupção, é a questão ideológica.” “Quando vi a reeleição de Dilma Rousseff”, prossegue, “pensei comigo mesmo: não podemos esperar 2018, porque o Lula vem melhor… Eles não vão mais sair daí.” 

Seria apenas mais uma leva de declarações tresloucadas, não fosse por uns detalhes. Bolsonaro foi abraçado como candidato por uma parcela grande do Exército, uma eleição em que há um número recorde de candidatos militares a vários cargos.

Em 21 anos no poder, na ditadura de 1964 a 1985, o Exército deixou um legado de mortes, concentração de renda e, sim, de corrupção, embora hoje seja visto como a instituição mais confiável (78%), conforme um Datafolha de junho passado. Um CV suficiente para temer um governo Bolsonaro nascido do voto ou da porrada.

“O Bolsonaro era execrado pelos militares, pelo passado de insubordinação, hoje a visão sobre ele mudou nas Forças Armadas. Ele penetrou nos dois setores mais efervescentes do Exército: a reserva, que pode falar o que quer sem ser punida, e os majores e capitães, que estão em um ponto da carreira em que olham para o futuro”, diz um general.

Recorde-se o motivo da execração. Bolsonaro era capitão em 1987, quando publicou um artigo na revista Veja a reclamar de salário. Foi preso por 15 dias, por “ter ferido a ética, gerando clima de inquietação na organização militar”, segundo um processo aberto no Superior Tribunal Militar (STM).

O processo examinou ainda um segundo fato, mais grave. Inspirada pelo artigo, Veja fizera uma reportagem, em 1988, a relatar que Bolsonaro tinha um plano para chamar atenção para a questão salarial: estourar bombas pelo Rio.

O caso foi examinado, primeiro, por uma comissão de três coronéis, e terminou em condenação unânime de Bolsonaro. No STM, ele foi absolvido por 8 a 4. No fim de 1988, elegeu-se vereador na cidade do Rio e aí virou capitão aposentado.

O símbolo do abraço do bolsonarismo por grande parte do Exército foi a escolha do vice da chapa.

O preferido era o general de pijama Augusto Heleno, de 70 anos. Nascido em Curitiba, é influente na caserna. Foi o primeiro chefe da missão de paz da ONU no Haiti liderada pelo Brasil, posição ocupada de 2004 a 2005. Esteve à frente do estratégico Comando Militar da Amazônia de 2008 a 2009 e atacou em público a política indigenista “caótica” do governo Lula. Pendurou a farda em 2011 com um discurso a favor do golpe de 1964.

Na eleição de 2014, Heleno foi lançado para presidente, sinal de que os quartéis se agitam faz tempo, com um manifesto de dezenas de oficiais. À frente, um general da reserva morto em junho, aos 92 anos, Pedro Luís de Araújo Braga. O texto apontava “a quase impossibilidade de tirar o PT do poder”, devido a (loucura) “forças paramilitares a serviço de um projeto de poder comunista”, e mesmo por meio de “eleições livres, mas viciadas pela prática de estelionatos eleitorais e fraudes”.

Não foi coincidência Bolsonaro ter proposto em 2015, como deputado, uma lei do voto impresso, derrubada pela Justiça. Nem foi um repente o que ele falou agora sobre fraude.

O general Heleno foi à convenção do PSL que oficializou a candidatura de Bolsonaro, mas já estava decidido que não seria o vice. Seu partido, o PRP, não deixou. A vaga ficou com outro general de pijama respeitado pelos colegas, Antonio Hamilton Mourão.

Nascido em Porto Alegre, Mourão, de 65 anos, entrou para a reserva em fevereiro. De 2014 a 2015, chefiou o Comando Militar do Sul. Saiu do cargo por dizer certas coisas durante a agonia de Dilma Rousseff. Em setembro de 2015, convocou colegas para “o despertar de uma luta patriótica”, ou seja, golpe.

No mês seguinte, permitiu que houvesse em uma unidade sob seu comando uma homenagem ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador de Dilma. Gota d’água. O comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, tirou-o do comando de tropas no Sul e botou-o para ser um burocrata em Brasília, secretário de Finanças do Exército.

Com Michel Temer, mais verborragia de Mourão. Em setembro de 2017, em uma palestra num grupo maçônico em Brasília, falou várias vezes em intervenção militar como saída para a crise política. “Os Poderes terão que buscar uma solução, se não conseguirem, chegará a hora em que teremos que impor uma solução.”




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O vice de Bolsonaro propõe um "autogolpe"
foto: Marcelo Chello/Zuma

Em dezembro, criticou Temer abertamente. “Nosso atual presidente, ele vai aos trancos e barrancos, buscando se equilibrar, e, mediante um balcão de negócios, chegar ao final do seu mandato.” Foi afastado das finanças em seguida. Em fevereiro, entrou para a reserva.

Mourão tem dito coisas bizarras como Bolsonaro, reveladoras de uma visão elitista, preconceituosa. Em agosto, comentou em um almoço em Caxias do Sul que o brasileiro é indolente por causa dos índios e malandro por causa dos negros. Nos últimos dias, disse que a política externa “Sul-Sul” dos governos petistas nos aproximou de uma “mulambada”, os países africanos.

Para ele, famílias formadas apenas por mães e avós, sem pais e avôs, são “fábricas de desajustados”, declaração comentada da cadeia por Lula: “Eu e sete irmãos fomos criados por uma mulher analfabeta chamada Dona Lindu e duvido que exista alguém na sociedade brasileira que educou os filhos melhor do que ela”.

A visão de Mourão explica ele ter defendido, em Curitiba e São Paulo, que o País tenha uma nova Constituição, escrita apenas por “notáveis”, não por gente eleita pelo povo. 

Em entrevista à GloboNews, em 7 de setembro, defendeu que a crise política brasileira justificaria um autogolpe por parte de um presidente (Bolsonaro, presumivelmente) ou das Forças Armadas. “Cruzamos os braços e deixamos que o País afunde?”, disse. “O próprio presidente é o comandante-chefe das Forças Armadas, ele pode decidir isso. Ele pode decidir empregar as Forças Armadas. Aí você pode dizer: ‘Mas isso é um autogolpe’. É um autogolpe, você pode dizer isso.”

Uma semana depois, outro general de pijama, Luiz Eduardo da Rocha Paiva, foi à emissora e disse barbaridades similares. Na reserva desde 2007, Paiva, de 66 anos, tem sido palpiteiro ativo. Em junho de 2016, logo após a queda de Dilma e a ascensão de Temer, escreveu um artigo em que dizia “não haver fosso ideológico entre o atual governo e as Forças Armadas”.

Saudoso da ditadura de 1964, disse na GloboNews que “muita gente que é militar vai votar nele (Bolsonaro), não tenha dúvida”, que o PT está “implantando uma revolução silenciosa, que é a revolução gramsciana, ocupando espaços”, “o fato de o PT não estar no poder não significa que tenha perdido poder”. Defendeu o “autogolpe”, pois não dá para confiar nem no Supremo Tribunal Federal. “Vai fazer o quê? Vai esperar o esfacelamento da nação?”

O novo presidente do STF, Dias Toffoli, mostra que os militares se tornaram um fantasma. Na segunda-feira 17, rebateu as suspeitas de fraude jogadas por Bolsonaro. “As urnas eletrônicas são totalmente confiáveis”, disse. E lembrou: Bolsonaro tem sido eleito por esse sistema há duas décadas.

Seu gesto mais significativo foi mais discreto. Pinçou um general para ser seu assessor especial na presidência do STF. E não um qualquer. Fernando de Azevedo e Silva era chefe do Estado Maior do Exército até 31 de agosto, segundo posto na hierarquia, atrás apenas de Villas Boas.

Nesse cargo, cabia a Azevedo assinar a carta de saudações a oficiais promovidos a general, uma categoria com uns 150 militares subdividida em três subgrupos, sendo a de “general de Exército” o mais importante. Há uns 15 deles hoje em dia. Na promoção de 31 de março, um dos saudados a general de Exército foi o paulista Marcos Antonio Amaro dos Santos, que comandou a segurança de Dilma na Presidência.

Pessoas experientes e conhecedoras dos tribunais em Brasília acreditam que a nomeação do general é uma tentativa de Toffoli de abrir um canal com o Exército. Uma delas, atuante na PGR, está preocupada e acha que o Supremo também. Bolsonaro tem planos de esvaziar a Corte atual com a ampliação do número de juízes, todos indicados, claro, em um eventual governo dele.

Em abril, o general de pijama Paulo Chagas, de 69 anos, candidato ao governo do Distrito Federal, estado em que o Bolsonaro é líder disparado, divulgou uma carta pública inacreditável dirigida ao juiz Gilmar Mendes. Foi após o STF negar um habeas corpus a Lula. Mendes votara pelo HC. “Se a última esperança de salvar a Nação do caos, depositada pelos brasileiros nas mãos dos Ministros do STF, está desmoronando, onde estará a salvação?”, dizia a carta. “Estamos na fronteira entre a desordem e o caos total, o limite está bem à nossa frente.”

Para outra pessoa experiente nas cortes de Brasília, o caso Lula é, provavelmente, o motivo de Toffoli ter um general por perto. É possível que o juiz bote em julgamento, no início de 2019, aquelas ações que acabam com a prisão de condenados em segunda instância, o que libertaria Lula provisoriamente. “Acho que foi uma segurança para a hipótese de soltarem o Lula e desagradarem a setores mais reacionários. Ter um general ao lado, sossega a tropa. Como conheço o Toffoli, acho que é isso."

Quando o STF se preparava para julgar o HC de Lula, militares ajudaram a criar um clima tenso. Um octogenário general de pijama, Luiz Gonzaga Schroeder Lessa, gaúcho de São Leopoldo, ex-comandante militar do Leste, na reserva desde 2001, comentou o assunto em uma rádio. Se o STF deixasse Lula solto, seria “indutor” de violência. E se a Justiça permitisse que ele se candidatasse, “vai ter derramamento de sangue”.

O petista foi generoso com os militares no governo. Pegou o orçamento das Forças Armadas em 23 bilhões de reais, em 2003, e entregou mais que o dobro, 53 bilhões, em 2010 – com Dilma, o orçamento foi a 74 bilhões; em 2019, serão 92 bilhões. Esse papel histórico é reconhecido pela caserna, segundo aquele general que explicou a bolsonarização da reserva e dos majores e capitães.

Hoje com quase 70 anos, esse general faz parte de um grupo de mensagens de celular com antigos colegas de farda e espanta-se com a disseminação de ódio contra o petista, movido, segundo ele, à combinação de “meias verdades e inverdades” sobre corrupção.

Após as declarações de Lessa, o general Villas Bôas, de 66 anos, gaúcho de Cruz Alta, no cargo desde fevereiro de 2015, reagiu no Twitter. “Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais.” Afirmação de certa forma ambígua.

Após a facada em Bolsonaro, deu uma entrevista ao Estadão, e aí a ambiguidade sumiu. “O pior cenário é termos alguém sub judice, afrontando tanto a Constituição quanto a Lei da Ficha Limpa, tirando a legitimidade, dificultando a estabilidade e a governabilidade do futuro governo e dividindo ainda mais a sociedade brasileira.” Referia-se, claro, ao caso Lula, então ainda pendente de decisão judicial.

Para o PT, a entrevista de Villas Bôas, que recebeu vários presidenciáveis em reuniões separadas em junho, algo inédito, foi uma tentativa de “tutela” da democracia pelos quartéis. Fernando Haddad falou grosso na segunda-feira 17: “Quem estiver abaixo da autoridade da Presidência não vai poder sabotar a democracia, nem com gestos, nem com declarações, nem com nada. Se for um cargo de confiança, está na rua no dia seguinte”. Ciro Gomes, do PDT, havia dito coisa parecida dias antes. 

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O general Villas Bôas, na sua entrevista ao Estadão, atribuiu às Forças Armadas o papel de árbitro das próximas eleições
foto: Valter Campanato/ABR)

Ex-presidente da OAB do Rio, o deputado petista Wadih Damous diz que Villas Bôas merecia punição. “A liberdade de expressão dos militares é limitada, porque eles andam armados, o que por si só tem poder de intimidação.” Só não houve nada, afirma, é por Michel Temer ser um presidente sem autoridade moral para punir alguém.

Uma lei de 1986 permite a militares da reserva opinar sobre política, mas o pessoal da ativa é proibido por um regulamento disciplinar de 2002, no fim do governo FHC.

O Uruguai acaba de viver uma situação igual. E lá terminou em ordem de prisão. Em meados de setembro, o presidente Tabaré Vázquez mandou aplicar pena máxima ao chefe do Exército, Guido Manini Rios, 30 dias de cana, pois o general deu palpites sobre uma lei proposta pelo governo. A lei muda as regras de aposentadoria dos militares, e os palpites foram contrários.

Lá, como cá, os militares são subsidiados pela população. Eles recolhem uma ninharia, param cedo e embolsam quantia gorda. Em 2016, recolheram 3 bilhões de reais, enquanto as despesas foram de 37 bilhões. Havia, então, 299 mil inativos militares. Significa que cada um recebeu por mês, 9,5 mil mensais em subsídios dos brasileiros. Em 2019, o rombo será de 43 bilhões, segundo a lei enviada pelo governo ao Congresso.

O Uruguai teve sua ditadura militar, de 1973 a 1985. A daqui foi mais duradoura, de 1964 a 1985. Sua obra? Concentração de renda, repressão e corrupção.

A tese de doutorado em sociologia vencedora de melhor do ramo no ano passado faz um apanhado da evolução da concentração de renda no Brasil. Chama-se “A Desigualdade Vista do Topo: A Concentração de Renda Entre os Ricos no Brasil, 1926-2013”. Segundo seu autor, Pedro Herculano Guimarães Ferreira de Souza, pesquisador do Ipea, o Brasil tem uma tradicional concentração no 1% mais rico em um patamar bem acima de outras nações desiguais. Essa casta morde por aqui uma média histórica de 23% do PIB.

Após o governo autoritário de Getúlio Vargas, de 1945 em diante, essa fatia caiu. Às vésperas do golpe militar de 1964, que derrubou o presidente João Goulart (1961-1964) e suas reformas de base, ia de 17% a 19%. Daí os militares tomaram o poder e o naco “aumentou continuamente até 1971, quando atingiu 26%, maior porcentual desde os anos 1940”.

A explicação para a concentração de renda com os generais é simples, segundo Souza. A ditadura facilitou os lucros das empresas e dos ricos via isenções ou reduções de impostos. A alíquota máxima de IR da pessoa física caiu de 65% para 50%, por exemplo.

E os trabalhadores? Arrocho salarial neles, conforme o Plano de Ação Econômica do Governo (Paeg) do primeiro dos golpistas, marechal Castello Branco (1964-1967). Dissídios seriam homologados na Justiça somente se seguissem a regra oficial: pegava-se a média salarial dos dois anos anteriores, somava-se uma taxa de produtividade e mais metade da inflação prevista para o ano seguinte. O salário mínimo caiu 30% e só se recuperou (pouco) a partir de 1974. Para o arrocho ser aceito sem choro, as greves foram proibidas.

Resultado: o crescimento recorde do PIB, o “milagre econômico” do fim dos anos 1960, início dos 1970, foi apropriado pelos ricos. A desigualdade subiu. Em 1973, o ditador Emílio Garrastazu Médici (1969-1973) fez uma viagem ao Nordeste e cunhou uma frase famosa: “A economia vai bem, mas o povo vai mal”.

Seu sucessor, Ernesto Geisel (1974-1979), baixou, em 1975, um novo Plano Nacional de Desenvolvimento, para substituir o Paeg. Dizia o II PND: “É importante que as classes trabalhadora e média sejam amplamente atendidas no processo de expansão”.

Para levar adiante um projeto de nação em que os ricos se esbaldavam e os trabalhadores eram explorados, era necessário porrete. Um documento americano vindo a público em maio é devastador. Estava disponível desde 2015 no site do Departamento de Estado de Tio Sam e foi descoberto por um professor de Relações Internacionais da FGV, Matias Spektor.

Trata-se de um memorando de 11 de abril de 1974 mandado pelo então chefe da CIA, William Colby, a Henry Kissinger, cabeça da política externa dos Estados Unidos por décadas. Fazia menos de um mês da troca de Médici por Geisel e Washington tentou saber se a caçada feroz de Médici seguiria. A resposta era sim, como diz o “assunto” do texto: “Decisão do presidente brasileiro, Ernesto Geisel, de continuar com as execuções sumárias de subversivos perigosos, sob certas condições”.

No relato da CIA, Geisel discutira o tema com três generais numa reunião em 30 de março: João Baptista Figueiredo, que seria o próximo ditador e era então chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), Milton Tavares, chefe do Centro de Informações do Exército (CIE), e Confúcio Danton de Paula Avelino, que assumiria o CIE no lugar de Tavares. Era sábado.

Geisel pediu para pensar no fim de semana. Na segunda-feira, 1o de abril, aniversário de 10 anos do golpe, veio a decisão. Com a palavra, a CIA: “O Presidente Geisel disse ao general Figueiredo que a política deveria continuar, mas que muito cuidado deveria ser tomado para assegurar que apenas subversivos perigosos fossem executados. O presidente e o general Figueiredo concordaram que, quando o CIE prender uma pessoa que possa se enquadrar nessa categoria, o chefe do CIE consultará o general Figueiredo, cuja aprovação deve ser dada antes que a pessoa seja executada”. Quer dizer, a matança não apenas era uma política oficial, como o sinal verde vinha bem do alto.

E para quem acha que havia concentração de renda e repressão, mas ao menos eram tempos éticos, um aviso: não foi nada disso.

Em 2015, o Prêmio Jabuti, “oscar” da literatura nacional, foi dado na categoria “economia” a um livro que mergulhou na corrupção na ditadura, capítulo “empreiteiras”. A obra, Estranhas Catedrais, é do historiador Pedro Henrique Campos, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Dois exemplos foram citados por ele para esta reportagem.

Posto ali pela ditadura em 1971, Haroldo Leon Peres caiu nove meses depois do cargo de governador do Paraná, pois se soube que cobrara propina de 1 milhão de dólares da construtora CCR.

O outro caso envolve as obras da Hidrelétrica de Tucuruí, no Pará. A exploração da madeira da área que seria inundada foi dada pelo governo, na década de 1970, ao fundo de pensão dos militares, a Capemi. O fundo pegou grana estrangeira, desmatou 10% do combinado e só. Suspeita-se que faltou dinheiro devido a desvios, motivo de uma CPI nos anos 1980. A usina em si foi construída pela Camargo Corrêa, empreiteira que recebeu incentivos fiscais estimados em 5 bilhões de dólares e que arrancou nada menos que 29 adicionais contratuais encarecedores da obra.

Não é difícil entender o bem-bom das empreiteiras com a turma fardada. Os interesses privados, diz Pedro Campos, estavam infiltrados no regime pois o que havia era uma “ditadura civil-militar”, apoiada desde o início pelos empresários, beneficiários das políticas implementadas naquele período.

A promiscuidade dos generais com o capital era grande. Golbery do Couto e Silva, um dos ideólogos do golpe, comandou a Dow Chemical. Geisel dirigiu a Norquisa. Um dos filhos do general Costa e Silva (1967-1969), o ditador anterior a Geisel, trabalhou na General Eletric do Brasil. Figueiredo, o último presidentre-golpista (1979-1980) foi do conselho consultivo da Caterpillar.

Em troca, a área econômica do governo foi terceirizada a economistas afinados com o setor privado, como Roberto Campos, primeiro ministro do Planejamento do golpe, e Mario Henrique Simonsen, fundador de um banco em 1961. “A tática do ‘posto Ipiranga’ do candidato Bolsonaro, de afirmar que 'não entende nada de economia', muito se assemelha de certa forma ao exercício de poder na ditadura”, diz o historiador.

A propósito de Paulo Guedes, uma história relacionada ao banco fundado por Simonsen em 1961. O outro sócio do banco era o empresário gaúcho Julio Bozano, octogenário ainda vivo. A instituição se chamava Bozano, Simonsen. Uma mega rede criminosa de doleiros desbaratada este ano levou a uma denúncia à Justiça contra um preposto de Julio desde os tempos do banco, Oswaldo Prado Sanchez.

Na acusação, há um e-mail a mostrar Sanches como administrador de contas de Julio no exterior, o que talvez explique como o Grupo Bozano, descrito como “grande cliente” do esquema, fornecia cash aos doleiros. Julio teve de sair de cena do mercado financeiro em 2000 exatamente devido a suspeitas de um dirigente do banco ter carta branca dele para estripulias. Reapareceu em 2013. Sócio de quem? Guedes, o guru bolsonarista.

A afirmação de que a corrupção correu solta com os generais tem atestado made in USA. É o que se vê em um documento enviado ao Brasil pelos Estados Unidos em algum momento entre 2014 e 2015, apoio americano à Comissão da Verdade acertado pessoalmente, em Brasília, durante a Copa do Mundo de 2014, por Dilma, presidente à época, com Joe Biden, vice de Barack Obama.

Trata-se de um telegrama de 1º de março de 1984 da embaixada dos EUA no Brasil ao Departamento de Estado, em Washington, revelado em junho por O Globo e obtido por CartaCapital. O assunto era “Corrupção e política no Brasil”.

“Entre muitos oficiais, desde os aspirantes até os mais graduados, existe uma forte crença que os últimos 20 anos no poder corromperam os militares, especialmente os comandos mais elevados”, dizia o texto. “Muitos brasileiros médios acreditam que o governo federal seja corrupto. Essa crítica também se estende ao grande número de cargos de responsabilidade ocupados por oficiais militares aposentados nas empresas paraestatais.” As estatais, seguia o telegrama, eram usadas “para empregar altos oficiais militares aposentados e seus amigos”.

Apesar disso, “poucas acusações concretas têm sido feitas e ainda menos condenações têm sido obtidas”, anota no telegrama. O motivo? “Reticência em acusar as Forças Armadas ou o governo federal, ainda muito poderoso”, e porque “a prova é muito difícil de ser obtida”.  Parece que a corrupção em estatais não começou com o PT, antes era abafada, hein?

O certo, prosseguia a embaixada, “é que a corrupção, real e imaginada, está erodindo a confiança dos brasileiros em seu governo”. Em caso de eleição direta para presidente, o povo teria “uma chance de expulsar esse conjunto de vagabundos”. Não teve.

Semanas depois, a lei das Diretas Já foi aprovada no Congresso, por 298 votos a 65. Precisava de mais 20 votos. Figueiredo ficaria no cargo até março de 1985, à frente de um governo contra o qual “existem muitos escândalos que lançam nuvens”, dizia o Tio Sam.

Seu sucessor foi escolhido por deputados e senadores que tinham sido eleitos em 1982 conforme as regras da ditadura. A vitória de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral em 1985 foi o grande símbolo de desaprovação dos brasileiros ao legado de 20 anos dos militares, na avaliação do sociólogo Brasilio Sallum Jr., da USP, autor na década seguinte do livro Labirintos: Dos Generais à Nova República. Um desfecho óbvio, até certo ponto.

O crescimento durante o “milagre”, diz Sallum Jr., produziu um operariado numeroso e descontente com o arrocho salarial, insatisfação que fez surgir um novo sindicalismo, Lula à frente. Na classe média, a repressão fortaleceu o apego a valores democráticos, algo que se refletiu na crescente atuação de entidades como a OAB, dos advogados, a ABI, da imprensa, e a CNBB, da Igreja Católica. “Esse conjunto se expressou eleitoralmente na vitória de Tancredo. A vitória dele foi o maior símbolo da mudança de ventos”, diz o sociólogo.

Na marra ou no voto em um candidato autoritário cercado de militares idem, os brasileiros vão querer aqueles ventos de novo?


André Barrocal
No CartaCapital
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Adesão a Bolsonaro nos quartéis reflete distorção do ensino de história nos colégios militares


Essa forte adesão dos setores militares, dos recrutas aos generais cinco estrelas, brigadeiros e almirantes, em apoio ao Capitão presidenciável, que cumpriu a carreira no Exército sem qualquer brilho – para ser elogiosa – talvez tenha sua origem nos bancos escolares.

No ano seguinte ao golpe, 1965, foi impressa uma nova cartilha de História do Brasil, para o ensino nas escolas militares, que instruiu cinco gerações de militares, e até hoje vigora.

Seu conteúdo ensina que não houve golpe em 64, houve uma “revolução” para eliminar a “ameaça vermelha” do comunismo, e houve “uma guerra”, em que os militares precisaram praticar a repressão em nome da ordem pública.

Tal versão se tornou obsoleta com a redemocratização e a farta informação colhida através de várias comissões criadas para apurar aqueles fatos, de documentos encontrados, das indiscrições do Wikileaks e também da farta documentação norte-americana, com relatos de diplomatas, vídeos e correspondências oficiais, que classificam como “terrorismo de Estado” a repressão então praticada pelo governo brasileiro.

Uma época em que a propaganda e a mídia nos impunham a ideia que “terroristas” eram, não quem perseguia, mas os perseguidos, obrigados à clandestinidade, capturados e, condenados sem julgamento, torturados e muitas vezes mortos.

Essa versão oficial conveniente, porém fantasiosa, ainda prevalece em grande parcela das Forças Armadas. Imagino que os mais velhos insistam nela por corporativismo, e os mais jovens não ousem contestar os superiores mais antigos. Isso, agravado pela Lei da Anistia, que aos “dois lados” perdoou da mesma forma, contribuindo para perpetuar uma “verdade” distorcida.

Quem quiser se informar sobre o que foram os 20 anos de Estado de Exceção, há uma farta literatura a respeito. Nos sites, sugiro o link https://theintercept.com/2018/09/22/na-ditadura-tudo-era-melhor-entenda-a-maior-fake-news-da-historia-do-brasil/.

Hildergard Angel, jornalista, viu de perto os horrores da ditadura. Seu irmão foi torturado e assassinado pelo governo dos militares. Sua mãe, Zuzu Angel, estilista famosa, morreu também em circunstâncias misteriosíssimas, em um acidente de carro. Na época, ela fazia um protesto silencioso (era assim) contra a ditadura, com a criação de vestidos que tinha estampas que pareciam saídas do universo de uma criança. Em 1998, a Comissão Especial Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos analisou o caso e reconheceu o regime militar como responsável pela morte da estilista. Segundo depoimentos, ela teria sido jogada para fora da pista por um carro pilotado por agentes da repressão. Hoje, o túnel onde ocorreu o acidente é chamado Zuzu Angel.
No DCM
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...E a semente do fascismo desabrochou...


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Bolsonaro e o patriarcado (+ vídeo de Stephen Fry)


Não me admiro com a popularidade do Bolsonaro. Surpreendo-me com que não haja ainda mais eco. Muitas são as razões de sua força, até porque, o tipo de voto do espectro político de seus simpatizantes é o mais fácil de ser conquistado. Ele não depende de argumentos, basta despertar o preconceito que já temos em forma latente.

Gostamos de filmes de máfia porque esse funcionamento social simples que é proposto nos agrada: um pai poderoso, aparentemente amoroso e certamente violento, que decide por todos e sempre sabe do que a família necessita, independente do que seus membros pensem a respeito. No automático, nossa cabeça vai direto aos estereótipos do sentimento de família, aliás de uma família dita tradicional, que se alguma vez existiu, tendia facilmente a ser um ambiente tóxico.

Busca-se o alívio de imaginar-se como membro de um grupo de iguais, supostamente melhores que os outros, obviamente, pois para delimitar um conjunto é preciso que os excluídos dele façam o papel de borda externa. Por isso tanta popularidade da oposição fácil entre o nós e os outros. É confortável pois não é preciso refletir, seria só pertencer. Assim são as paixões futebolísticas, assim pode ser a política feita com o fígado, tanto à direita quanto à esquerda. A válvula do ódio ao diferente abre fácil.

Acredito que boa parte dos votos de Bolsonaro são de gratidão pelo seu machismo e homofobia explícitos. O declínio do patriarcado foi a revolução mais bem sucedida do século XX. O mundo onde as mulheres não tinham voz nem poder afunda aos poucos, mas inexoravelmente. É um abalo sísmico lento e sistemático, sacudindo os papéis de gênero e diluindo o binário homem/mulher como referência de identidades únicas.

Normal a reação, pairam saudades do tempo das certezas, mesmo que forjadas à base da coerção: quem era homem era homem, ou melhor fingia ser da melhor forma que pudesse; quem era mulher era mulher e ficava-se bem quietinha para corresponder ao papel. Até para algumas delas, acomodadas à vida de velas ao vento, a liberdade é um motor que temem operar.

Machistas de ambos os gêneros partilham a sensação de que hoje o mundo estaria perdido com essa proliferação de siglas sobre gêneros que nem sabem o que é. Imaginam a diversidade como falha moral e ultraje ao bom senso. Essa diversidade sempre existiu, mandá-la de volta às sombras não vai extingui-la, só vai conseguir ceifar  vidas e gorar inúmeros destinos.

Esse voto é a nostalgia de um passado tranquilo, que aliás, existe apenas na imaginação. Envelhecemos e vamos editando nossas memórias, esquecemos o ruim e inventamos algo mais palatável. Afinal, se essa foi e será nossa única vida, como não teria sido a melhor havida e por haver?

Bolsonaro nos conecta com a falácia dos “bons tempos” idealizados, das falsas certezas de gênero e da idealização da família tradicional. É tributário da saudades dos pais que supostamente sabiam tudo. Esse voto tem o cheiro das tardes fagueiras, à sombra das laranjeiras de Casimiro de Abreu, e de tudo que – para nossa sorte – os anos não trazem mais. Ou pelo menos seria bom que não trouxessem.

É um voto que reinventa um passado para fazer cessar um presente que causa angústia. É um voto do filho que espera a benção paterna, que quer a mulher-mãe recatada e do lar de volta à cozinha. É o voto de quem acredita que os problemas resolvem-se com um pai que puna severamente. Especialmente, é o voto de que “tudo isso que não presta” – ou seja, tudo aquilo que me inquieta – fique confinado no armário, se não eliminado. Os ódios, quando são obsessivos, nos desvelam.“

Mário Corso, psicanalista



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Acusado pela ex por ameaça de morte, Bolsonaro disse ter tido vontade de fuzilar 1ª mulher


O candidato e ex-militar Jair Bolsonaro parece ter entrado em seu inferno astral. Envolto em uma nova polêmica por uma suposta ameaça de morte contra sua segunda mulher, Ana Cristina Valle, ele já havia dito em 2000 ter tido vontade de fuzilar "várias vezes" a primeira mulher, Rogéria Bolsonaro. A declaração do parlamentar foi feita em uma entrevista à revista IstoÉ Gente, em fevereiro de 2000. Na entrevista, Bolsonaro criticava Rogéria, mãe de seus filhos Flávio, Eduardo e Carlos, todos hoje detentores de mandatos parlamentares.

A reportagem da Agência Sputnik News destaca a fala de Bolsonaro à revista: "nunca bati na ex-mulher. Mas já tive vontade de fuzilá-la várias vezes. Também nunca dei um tapa num filho. Gosto de chamar para conversar, contar piadas".

A história sobre as hostilidades entre o candidato e sua ex-mulher remontam ao passado: "Bolsonaro declarou ainda que, na ocasião, estava muito feliz com a sua relação com Ana Cristina Valle, que havia dado à luz ao seu quarto filho, Jair Renan. Onze anos depois, já separado dela, o parlamentar teria acionado o Itamaraty após a sua segunda ex-mulher ter viajado com o filho para a Noruega".

A  ameaça de morte que Jair Bolsonaro teria feito contra Ana Cristina foi publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, que teve acesso ao telegrama endereçado ao Itamaraty e cujo conteúdo foi confirmado aos repórteres por duas fontes e pelo então embaixador Carlos Henrique Cardim, que assina os textos".

Em outra matéria, agora do jornal Folha de S. Paulo, a ex-esposa de Bolsonaro - que é candidata a deputada federal pelo Podemos-RJ, respondeu às acusações ao seu ex-marido. 

Ela gravou um vídeo em que defende Bolsonaro das acusações feitas por ela mesma, tempos atrás: "Ana Cristina Valle não esclareceu se deu as declarações ao vice-consulado do Brasil na Noruega, conforme está escrito no telegrama de 2011".

Ela afirmou no vídeo de pouco mais de um minuto: "Venho aqui muito indignada desmentir a suja Folha de S.Paulo, [que] publica que o Jair me ameaçou de morte. Nunca. Pai do meu filho, meu ex-marido, ele é muito querido por mim e por todos. Ele não tem essa índole para poder fazer tal coisa. Bom pai, bom ex-marido, foi um bom marido também. Espero que vocês acreditem que essa mídia suja só quer denegrir a imagem dele, porque ele tá em primeiro lugar nas pesquisas e assim vai ficar. Porque eu acredito que ele ganhe em primeiro turno, espero que vocês acreditem também. Então fica aqui meu recado, mídia suja, não adianta, nada vai fazer com que ele caia. Ele tá em pé, depois de tudo o que aconteceu e vai continuar, e vai chegar à Presidência, se depender de mim".
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As mulheres na frente


Nesse sábado, 29, as mulheres brasileiras mostrarão sua força, manifestando-se em todo o país contra a fascistização da vida representada pela figura do Bolsonaro. Uma mobilização única, original e poderosa, que unifica os contrários e coloca as gentes em luta contra a violência e o ódio ao outro.

Lembro como se fosse hoje a passeata, em Florianópolis, em 20 de junho de 2013. Era o auge dos protestos contra a corrupção - início da batalha contra o governo petista -  e a capital viu saírem às ruas pessoas que sempre jogaram pedra nos manifestantes tradicionais. O protesto juntou mais de 30 mil almas, coisa nunca vista. A RBS, rede catarinense filiada a Globo, transmitia ao vivo. Estranhamente não chamava ninguém de “baderneiro”. Naqueles dias, a classe dominante dava sua bênção para a ocupação das ruas, a Globo chamava ao civismo e  as pessoas acorreram aos borbotões.  

Eu lá estava com os companheiros de sempre. E, aturdida, via as pessoas manifestarem seu ódio contra os militantes de partidos políticos e movimentos sociais. Ou seja, nós. A passeata virou uma batalha, na qual jovens vestindo camiseta – doada por partidos de direita – com inscrições contra a corrupção berravam: “sem partido, sem partido”, e enfrentavam os militantes que se agrupavam com suas bandeiras. Exigiam, de forma violenta, que fossem baixadas as bandeiras partidárias e que a passeata seguisse como uma gosma informe. Uma falsa gosma, pois como disse, os partidos de direita estavam ali, distribuindo camisetas e insuflando a massa contra os partidários da esquerda. Apenas não carregavam bandeiras, porque nunca o fizeram. Eles agem nas sombras.

Aproximei-me de umas jovens “encamisetadas”, que gritavam alucinadas, com olhos em brasa, contra as bandeiras de partidos de esquerda. E perguntei:

- Por que vocês são contra os partidos?

- Hã? É, porque é sem partido, ora!

- Sim, mas por quê?

- É sem partido e pronto. Não fazemos política. Tu tem partido? – inquiriram e me encararam, agressivamente.

Naquele dia, uma massa furiosa nos atacou e obrigou que os grupos embandeirados se descolassem da passeata, seguindo na frente. Escancarava-se a luta de classes e o ovo do fascismo que tomou conta do país estava posto. 

Lembro que comentei com vários companheiros sobre o que estava começando ali. No dizer de Adorno, o fascismo é um vírus que existe latente, em cada um. Diz ele que dadas as condições, ele brota, forte, e se espalha incontrolavelmente. Eu via aquilo na passeata. Um ódio irracional na massa, mas extremamente racionalizado nas direções políticas da direita. Um processo de construção de um consenso que foi crescendo, se consolidando e acabou no impedimento da presidenta Dilma. Jogada de mestre.

As atitudes fascistas também se consolidaram e seguiram a todo vapor. Ações truculentas de membros da justiça, total abandono das leis burguesas, agressões a gays, lésbicas, mulheres, estudantes, professores. Qualquer pessoa identificada como “petista” ou “comunista” passou a ser apontada como um mal. E as ameaças de consolidação de um regime de força foram se fazendo sem freio. Eu que vivi a ditadura militar, como criança e adolescente, lembro muito bem o terror vivido pelas famílias que tinham qualquer posição crítica ao regime. Os vizinhos vigiavam e acusavam anonimamente, muitas vezes se aproveitando da denúncia de “comunista” para vinganças pessoais. Era um tempo de vigilância e de medo. Não se podia pensar. Só dizer sim, sim, sim, ao regime. 

O crescimento das atitudes fascistas praticadas por pessoas comuns, gente “de bem” me preocuparam e provoquei amigos, partidos, movimentos, sem resposta. Estaríamos caminhando para um tempo de fascismo? O que poderia acontecer caso tudo isso se fortalecesse e crescesse sem parar?  Pensava que havia que botar freio a essa fascistização da vida ou ela se espalharia como rastilho de pólvora, no fundamentalismo do terror. Acreditava que era preciso juntar forças com as mulheres, os negros, índios, trans, trabalhadores formais, informais, homossexuais, enfim, todos os oprimidos pelo capital e pelo patriarcado. Uma luta de todos nós. 

Mas, naqueles dias era arar no deserto. Agora, às vésperas da eleição, quando essa ameaça iniciada lá em 2013 se concretiza numa candidatura específica, a de Bolsonaro, pronta para assumir o comando do país, fortalecendo ainda mais as práticas fascistas, foram as mulheres que, entendendo a gravidade das coisas, decidiram agir. Uma ação que começou pelas redes sociais, com as brincadeiras de sempre, mas foi crescendo e se fazendo real na vida mesma. A mulherada passou por cima das diferenças partidárias, dos pequenos poderes, de tudo. E, uma a uma, foram dando-se as mãos contra o “coiso” numa demonstração inequívoca de inteligência e numa estratégia perfeita que, sistematicamente, tem conscientizado pessoas e derrubado os índices do candidato.

Agora, nesse sábado, dia 29, toda essa intensa mobilização internética se expressará nas ruas, na luta concreta contra a fascistização da vida que é o que representa a candidatura Bolsonaro. Em Florianópolis, o encontro será no Largo da Alfândega, às 15 horas. E as mulheres se juntarão para dizer que “ele, não”. Cada uma terá lá no seu coração o seu candidato, de centro, de esquerda, e talvez até de direita, mas cada uma sabe que algumas coisas precisam ser banidas da face da terra. Tais como o racismo, o preconceito e ódio pelo diferente. 

Nesse sábado, em todo o Brasil as mulheres marcharão. Estarão juntas, e mostrarão sua força. Tenho esperanças que nas eleições essa proposta seja derrotada. E creio que será. Mas, ainda assim será necessário seguir juntas, no mesmo movimento, porque o fim do pleito não colocará fim nessa serpente insidiosa que já vive entre nós. Um grande estrago foi feito e há ainda um longo trabalho por fazer. Trabalho real, para além das eleições. Que a unidade feminina permaneça, porque está sendo uma bela lição. 

Elaine Tavares
No Palavras Insurgentes
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Jornalista da Globo que integra o Instituto Millenium mostra que Lula é um gênio

Foto Ricardo Stuckert
Haddad agora é o favorito

O último Ibope confirma o acerto da estratégia petista de adiar o lançamento da candidatura

Por Helio Gurovitz

As últimas rodadas de pesquisas trouxeram uma mudança importante no cenário eleitoral. Até a semana passada, Jair Bolsonaro era o favorito. Agora, é Fernando Haddad.

O Ibope divulgado ontem confirma o acerto da estratégia do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva: adiar até o limite o lançamento da candidatura Haddad, para forçar, no segundo turno, um confronto com Jair Bolsonaro, o candidato mais fácil de derrotar.

Ainda resta pouco menos de duas semanas para o voto útil daqueles que rejeitam tanto Bolsonaro quanto Haddad se concentrar num terceiro nome. Mas a fragmentação desse campo sugere que o tempo será curto demais, como desenhado na estratégia de Lula.

No segundo turno mais provável, Bolsonaro enfrentará Haddad, rompendo a polarização entre PT e PSDB das últimas sete eleições presidenciais. Embora a segunda rodada seja uma outra eleição, em que os dois terão tempo igual de rádio e TV, Haddad larga na frente – de novo, como desenhado na estratégia de Lula.

Os números do Ibope permitem entender que o sucesso dessa estratégia está relacionado aos eleitorados cativos do PT. Haddad subiu em todos eles: no Nordeste, entre os mais pobres, entre os que tem menor grau de instrução. Também registrou alta entre as mulheres. Em paralelo, a rejeição a Bolsonaro cresceu em todas essas camadas.

No Nordeste, Haddad tinha 13% no dia do registro oficial de sua candidatura, 11 de setembro. Na rodada divulgada ontem, subiu de 31% a 34%. Com 17%, Bolsonaro está em terceiro, atrás de Ciro Gomes.

Entre os eleitores que ganham até 1 salário mínimo, ele tinha 10% em 11 de setembro – e estava em quinto lugar. Na rodada de ontem, registrou uma alta de 27% para 30% e lidera com folga, apesar da subida de Bolsonaro, de 12% para 16%. Na faixa de 1 a 2 salários mínimos, também estava em quinto, com 8%. Foi ontem de 17% a 21%, enquanto Bolsonaro se manteve estacionado em 26%. Mesmo nas faixas de renda mais alta, Haddad subiu, enquanto Bolsonaro se manteve estagnado.

O roteiro se repete quando os números são analisados por grau de instrução. Entre os eleitores que têm até a 4ª série do ensino fundamental, Haddad estava em quinto, com 6%, no dia 11. Subiu quatro pontos, de 24% para 28%. Bolsonaro parou em 19%. Naqueles que estudaram até a 8ª série, foi de 23% para 26%. Bolsonaro parou em 20%.

Bolsonaro ainda lidera as faixas de nível médio e superior, mas caiu três pontos nesta última (de 36% para 33%), enquanto Haddad subiu três (de 13% para 16%), e se consolidou em segundo lugar. Entre as mulheres, Haddad está empatado com Bolsonaro, com 21%.

O maior desafio para Bolsonaro no segundo turno será enfrentar a alta na rejeição. Desde o registro da candidatura Haddad, ela foi 41% para 46%. Cresceu de 41% para 47% na camada que tem até ensino médio, simpática ao capitão da reserva. Na que ganha até um salário mínimo, saltou de 46% para 57%. No Nordeste, de 54% para 60%.

A rejeição a Bolsonaro atinge 48% entre eleitores que estudaram da 4ª à 8ª série do fundamental. Só na última rodada do Ibope, foi de 36% para 47% no eleitorado de nível superior, em que ele reúne o maior apoio.

O crescimento da rejeição a Bolsonaro dá uma vantagem gigantesca a Haddad. Segundo o Ibope, ele derrotaria Bolsonaro por uma vantagem de 6 pontos percentuais no segundo turno (ou 7,5 pontos, contando apenas os votos válidos).

O favoritismo de Haddad pode ser ameaçado por dois movimentos. O primeiro seria uma súbita alta num terceiro nome, que tivesse mais chance de derrotar o PT. Diante da ascensão de Haddad, parte do eleitorado antipetista que se concentra hoje em torno de Bolsonaro poderia optar por Geraldo Alckmin ou Ciro Gomes.

A esta altura, porém, é pouco provável que isso ocorra na proporção necessária para tirar Bolsonaro do segundo turno – embora ainda seja possível que sirva para deixá-lo em segundo lugar no primeiro.

O segundo movimento seria uma inversão nos patamares de rejeição a Bolsonaro, sobretudo nos eleitorados cativos do PT: Nordeste, mais pobres e menos instruídos. Para isso, ele terá mais tempo de campanha. Uma vez confirmado no segundo turno, terá o horário eleitoral gratuito para explorar o antipetismo. Se conseguir, poderá vencer. Hoje, porém, os ventos sopram a favor de Haddad.

No Esquerda Caviar
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Liberdade de Lula será julgada hoje no Supremo


Segundo informa a pauta do Supremo Tribunal Federal (STF), o recurso da defesa do ex-presidente Lula pela sua soltura será analisado hoje, dia 26 de setembro, no plenário físico. O habeas corpus estava sendo julgado no plenário virtual e placar era de 7 a 1 contrário à soltura do ex-presidente, quando o ministro Ricardo Lewandowski pediu vistas, o que obrigou a um julgamento no plenário físico.

Os votos já manifestados no ambiente virtual são desconsiderados para o novo julgamento, na prática, tudo começa do zero, o que possibilita a mudança de entendimentos e votos sobre o caso.

Lula se encontra preso desde 12 de abril, cumprindo pena antecipada e inconstitucional, dado que seu processo ainda foi considerado transitado em julgado. A constituição é bem clara quanto ao caso, já que define que o réu é considerado inocente até que não caibam recursos e novas análises.

Vale lembrar que o momento atual é distinto do período do julgamento no plenário virtual, naquele momento, Lula era candidato à presidência e hoje, apenas apoia Fernando Haddad, líder nas pesquisas para o segundo turno.

Já votaram sobre a questão os ministros Edson Fachin, relator; Alexandre de Moraes; Dias Toffoli; Luís Roberto Barroso; Gilmar Mendes e Rosa Weber.
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Vale tudo na campanha: Justiça manda retirar fake news sobre Haddad

Foto: Ricardo Stuckert
Nesta terça-feira (25/09), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ordenou que notícia falsa e maliciosa contra Fernando Haddad (PT), candidato à presidência pela coligação “O Povo Feliz de Novo”, seja retirada do ar, no Facebook, nas próximas 48 horas.

O boato publicado pela página Cacilda imputava a Haddad a seguinte fala, flagrantemente falsa: “Ao completar 5 anos de idade, a criança passa a ser propriedade do Estado! Cabe a nós decidir se menino será menina e vice-versa! Aos pais cabe acatar nossa decisão respeitosamente! Sabemos o que é melhor para as crianças!”.

Segundo a liminar, “comentários dessa natureza geram desinformação no período eleitoral e têm a potencialidade de atingir o candidato em sua imagem, bem jurídico constitucionalmente protegido no contexto da liberdade de expressão”.

A decisão do TSE determina não apenas que a falsa postagem seja retirada do ar,em caráter imediato e liminar, mas também que o Facebook informe a identidade dos responsáveis pela postagem, para prosseguimento das medidas jurídicas cabíveis.

Campanhas mentirosas, feitas com notícias falsas e terror, precisam ser denunciadas e combatidas. Somente com o debate real de ideias e propostas a democracia poderá ser refundada no Brasil.



No Viomundo
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Jovem espancada pelo namorado nos EUA gravou ação

"Você não aceita que o homem tenha mais dominância do que você. Você é uma mulher, véi, tem que aceitar isso!". Gritava o namorado ao agredir a jovem

Melissa Gentz depois e antes das agressões
“Por que você é tão burra assim? Para de fazer burrice, véi. Você não tem mais noção de p… nenhuma. Já te falei, véi. Para de ser burra! (…) Você não aceita o homem que tem mais dominância do que você. Você não aceita, você acha que é o homem da relação. Mas você não é, você é uma mulher, véi, tem que aceitar isso!”

As palavras acima foram ditas pelo brasileiro Erick Bretz, de 25 anos, enquanto espancava a sua namorada na cidade de Tampa, na Flórida (EUA), no último domingo (23).

Melissa Gentz ficou gravemente ferida. A jovem foi espancada porque não entregou seu celular ao agressor. Ela gravou um trecho das agressões (ouça abaixo).

Erick está preso, mas a Justiça norte-americana estipulou que o agressor pode ser liberado mediante o pagamento de uma fiança U$ 60 mil (R$ 240 mil) e a retenção de seu passaporte.

Entenda o caso

Melissa estava no domingo (23) estava na casa de Erick e eles assistiam a um filme. Segundo ela, o rapaz consumia bebida alcoólica.

“Depois de um tempo ele começou a ficar agressivo. Pedia sem parar o meu celular. Ele ficou elétrico. Eu queria dormir porque no outro dia eu tinha aula. Eu queria ir embora e ele não deixava”, disse.

Quando ela se negou a dar o celular ao homem, as agressões começaram. “Ele apertava o meu rosto, chutou o meu rosto, me puxou pelos cabelos pelo apartamento. Ele bateu a minha cara no chão”.

Erick ainda prendeu a cabeça dela entre as pernas dele, pegou um vidro de soro fisiológico e virou no rosto de Melissa.

Melissa conta que conseguiu se desvencilhar de Erick e correu para dentro do banheiro, mas ele arrombou a porta. “Para eu me livrar dele, eu entreguei o celular para ele e saí correndo para a portaria do prédio”.

Melissa disse que o porteiro chamou a polícia e uma ambulância para socorrê-la. Depois de medicada, no mesmo dia, à tarde, Melissa voltou ao apartamento de Erick para buscar os objetos pessoais. Ela estava acompanhada de dois policiais. O rapaz estava dormindo e recebeu voz de prisão.

O criminoso pagou fiança e já está em liberdade.


Ouça a gravação:



Mensagem de Melissa:



No Pragmatismo Político
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