22 de set. de 2018

“Os fascistas não têm imaginação nem para mentir”, diz Jean Wyllys após fake news

Milhares de pessoas compartilharam em grupos de Whatsapp e redes sociais uma imagem com a informação falsa de que o deputado federal teria sido convidado para ministro da Educação em um eventual governo Haddad


Circulou pelas redes sociais e grupos de Whatsapp, ao longo desta semana, imagens e textos sobre um convite que o deputado federal Jean Wyllys (POSL) teria recebido para ser ministro da Educação em um eventual governo de Fernando Haddad, candidato do PT à presidência.

A informação é falsa e, apesar de os dois candidatos estarem em campanha e em partidos opostos e não coligados, muita gente acreditou pois uma das imagens com a fake news é uma imitação de uma notícia do G1, com manchete e nome do jornalista que teria feito a matéria. O texto cita que Haddad já teria escolhido também Gleisi Hoffmann, Dilma Rousseff e seu adversário Ciro Gomes (PDT) para compor sua equipe ministerial.

Reprodução

Em seu perfil no Twitter, nesta sexta-feira (21), o deputado federal ironizou. “Primeiro disseram que eu seria ministro da Juventude da Dilma. Depois, secretário de Educação da prefeitura do Rio. Agora, ministro da Educação do Fernando Haddad. Isso prova duas coisas: 1) os fascistas não têm imaginação nem pra mentir, 2) eles não confiam na vitória do coiso!”.

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O que aconteceu com a pós-verdade?


Há pouco tempo, o termo estava em alta - nas capas de revistas, nas falas dos comentaristas de TV, nos ensaios descolados sobre o admirável mundo novo em que vivíamos. Em 2016, "post-truth" foi escolhida "palavra do ano" pelo dicionário Oxford. Embora esse negócio de escolher "palavra do ano" seja quase uma pós-verdade. Ou melhor, um factoide, que, lá se vão 20 anos, Cesar Maia definiu em entrevista memorável, dizendo que, para aparecer na imprensa, "eu lanço factoides no realismo delirante", sendo factoide uma extrapolação fantasiosa a partir de uma base factual [1].

Tenho para mim que a pós-verdade foi deslocada pelas "fake news". O deslocamento não é desinteressado. O foco em "fake news" centra a preocupação no noticiário do dia a dia e tem seu remédio claramente indicado: o jornalismo profissional, lar das "true news". O principal resultado da campanha incessante contra fake news é reforçar a debilitada credibilidade da mídia corporativa.

"Pós-verdade" é mais amplo. Diz respeito não tanto a um fato ou outro - o filho de Lula não é dono da Friboi, Fátima Bernardes não pagou a reforma da casa do esfaqueador de Bolsonaro, as urnas eletrônicas não são controladas por magos do vudu haitianos - e sim a uma narrativa ampla, francamente fantasiosa, que confere sentido a escolhas políticas e que é invulnerável ao debate.

Como não se resume a um único fato falsificado, mas à articulação entre diferentes fatos, a pós-verdade é mais difícil de ser combatida do que as fake news.

Não houve ditadura militar no Brasil, o nazismo era de esquerda, a terra é plana. Tudo isso é "fake", mas dificilmente pode ser classificado de "news". São elementos da pós-verdade,

Entendida dessa maneira, a pós-verdade não é uma inovação do século XXI, mas um recurso utilizado pelas classes dominantes sempre que elas perdem a condição de acreditar no seu próprio discurso.

Hoje, ela se manifesta sobretudo na ideia de que o Brasil vive um combate entre "extremismos". Não é simplesmente uma informação falsa: é uma estrutura de interpretação da realidade totalmente baseada na deturpação interessada dos fatos.

Fernando Henrique Cardoso teria pudor de dizer que Lula cortou o dedo para ser aposentado por invalidez, mas embarca alegremente no discurso que apresenta o PT como espelhamento à esquerda do bolsonarismo. E nisso está do lado não apenas dos manipuladores de internet, mas da imprensa paulistana e carioca, de "intelectuais" como Lamounier, de "formadores de opinião" como Merval. Aliás, eles andam tão parecidos que, se Merval raspasse o bigode, quando ambos envergassem o fardão para tomar chá na Academia ficariam indistinguíveis.

A campanha de Alckmin é totalmente baseada nesta manipulação. É certamente a campanha mais desonesta de todas e, dada a incapacidade de crescimento tucano, tem como único resultado legitimar o voto no Bozo, no segundo turno ou como voto "útil" no primeiro.

Está além do que é aceitável para o discurso eleitoral, mesmo sob critérios bem lassos.

Compare-se com a campanha do PT. É uma campanha politizada de menos para o meu gosto e que faz tacitamente uma aposta que julgo errada, a de que será possível reconstituir as condições institucionais, políticas e econômicas dos governos de Lula. Mas essas são interpretações feitas a partir de uma narrativa que pode ser sustentada sem desonestidade: que as condições de vida dos mais pobres melhoraram com o lulismo.

A ética política não se resume à probidade no uso dos recursos públicos (quesito, aliás, em que o PSDB também tem um registro pra lá de complicado). Seu componente mais específico é o que se pode chamar de uma ética da representação política, que garanta que a adesão dos cidadãos a tal ou qual agremiação ou liderança seja o mais esclarecida possível.

A pós-verdade tucana é o oposto disso.

Nota de rodapé:

[1] Cesar Maia, espero, será novamente derrotado em sua tentativa de chegar ao Senado, pelo bravo povo fluminense que escolherá Chico e Lindbergh.

Luis Felipe Miguel - Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, Professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades. Pesquisador do CNPq. Autor de diversos livros, entre eles Democracia e representação: territórios em disputa (Editora Unesp, 2014), Feminismo e política: uma introdução (com Flávia Biroli; Boitempo, 2014).
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FHC e Lula: a inveja por trás da tragédia brasileira


Há pessoas movidas pela ambição. Outras, pela luxúria, pela gula. Há os avaros e os irados, os preguiçosos e os soberbos. Mas nenhum pecado capital é mais inútil que a inveja, dizem os filósofos.

Desde os primórdios da civilização, filósofos, pensadores estudam o fenômeno da inveja e a pulsão do invejoso.

De Ovídio (43 da era cristã):

A inveja habita no fundo de um vale onde jamais se vê o sol. nenhum vento o atravessa; ali reinam a tristeza e o frio, jamais se acende o fogo, há sempre trevas espessas [...]. A palidez cobre seu rosto, seu corpo é descarnado, o olhar não se fixa em parte alguma. Tem os dentes manchados de tártaro, o seio esverdeado pela bile, a língua úmida de veneno. Ela ignora o sorriso, salvo aquele que é excitado pela visão da dor [...]. Assiste com despeito o sucesso dos homens e esse espetáculo a corrói; ao dilacerar os outros, ela se dilacera a si mesma, e este é seu suplício

De Bacon (1561-1626)

O homem que não tiver virtude própria sempre invejará a virtude dos outros. A razão disso é que a alma humana nutre-se do bem próprio ou do mal alheio, e aquela que carece de um, aspira a obter o outro, e aquele que está longe de esperar obter méritos de outrem, procurará nivelar-se com ele, destruindo-lhe a fortuna. 

De Spinoza (1632)

 “O ódio que afeta o homem de tal modo que ele se entristece com a felicidade de outrem e, ao contrário, se alegra com o mal de outrem” 

Os seres humanos são invejosos por natureza, isto é, se alegram com a fraqueza dos seus semelhantes e, ao contrário, se entristecem com as suas virtudes.

Cada um se alegra mais com a contemplação de si mesmo, quando contempla em si mesmo qualquer coisa que pode negar aos outros.

Ficará triste se suas ações, comparadas às dos outros, são de menor importância. Se esforçará para afastar esta tristeza, interpretando mal as ações dos outros ou ornando as suas o mais que puder.”

Os frutos da inveja

A inveja é inútil? Errado!

Há dois episódios clássicos, em que a inveja permitiu a criação de grandes obras.

O arquiteto e pintor Bramante tinha uma inveja mortal de Michelangelo. Considerava a pintura dos tetos seu ponto fraco. E empenhou-se em conseguir para Michelangelo a pintura da Capela Sistina, só para comemorar seu fracasso. O resultado foi uma das obras primas da humanidade.

O presidente Fernando Henrique Cardoso tinha inveja antecipada, o receio de que o sucesso de seu sucessor, fosse quem fosse, explicitasse a mediocridade do seu governo.  

Primeiro, comemorou intimamente a eleição de Lula em 2002, só para celebrar seu fracasso. Em 2006, com o mensalão, julgou que a hora chegara. Não encampou a campanha do impeachment porque queria ver Lula sangrando até à morte política. Lula escapou e, nos anos seguintes, completaria uma das obras primas da política moderna, um combate à miséria que entrou para a história da civilização.

Aí nasceu o sentimento de inveja. Mais que isso, jamais se desculpou por não ter impedido o sapo barbudo de ter alcançado um status, como homem de Estado, ao qual ele sequer chegou perto, enquanto presidente.

Desde então, transformou a destruição de Lula, não apenas do legado, da memória, da história, mas da própria liberdade de Lula, em objetivo único, pouco importando os meios.

Quando veio a Lava Jato, FHC usou de toda sua influência para que Dilma caísse e Lula fosse preso. Perdeu! A prisão conferiu a Lula o componente trágico, épico que faltava para o coroamento de sua carreira política. Para se equiparar a Nelson Mandela faltava apenas o martírio da prisão política. Grandes políticos, juristas, intelectuais, cidadãos do mundo, viram Lula como preso político e vieram a Curitiba prestar suas homenagens.

FHC é suficientemente preparado para entender o suicídio de reputação que perpetrou. Essa é a sua tragédia pessoal. Não tem dimensão para os grandes gestos e, ao mesmo tempo, tem discernimento sobre os fatos que ajudam a construir a história de cada um. Como Salieri do filme, sabe identificar os lances de genialidade da pessoa invejada.

No fim de sua longa caminhada, não tem mais os conselhos sábios de Sérgio Motta e de Ruth Cardoso para interromper essa escalada temerária, não apenas o ponto final na sua biografia, a exposição crua de seu caráter, de seu descompromisso com o país, como o risco que traz para a democracia e para o próprio Brasil.

Cada vez mais, aos olhos do mundo, é reconhecido como o símbolo maior da inveja, um Salieri em relação a Mozart, Segóvia (sem a genialidade do mestre) em relação a Villa Lobos, superando os grandes invejosos brasileiros: Silvio Romero em relação a Machado de Assis, Carlos Guilherme Motta em relação a Sérgio Buarque.

Seu artigo de ontem, equiparando a candidatura de Fernando Haddad à de Bolsonaro é a prova definitiva de seu caráter. É evidente que não foi um gesto de desespero para salvar a candidatura de Geraldo Alckmin, que jaz na tumba política, nem salvar o PSDB, que sempre foi um mero instrumento para o exercício do seu ego.

Tratar Haddad como candidato radical – secundado pelo inacreditável Merval Pereira - não é meramente fake news de período eleitoral. Depois das últimas manifestações de militares, é um petardo bidirecional que equipara ambos às vivandeiras dos quarteis de 1964.

O primeiro alvo é o 2º turno. A eleição será decidida pela taxa de rejeição dos candidatos. A intenção de ambos é aumentar a rejeição a Haddad, não agora, mas no 2º turno, quando enfrentar a besta.

O segundo alvo certamente é o estamento militar.

Vencendo Haddad, poderá vir na forma de um novo parlamentarismo, a exemplo do pacto que garantiu a posse de Jango. Ou simplesmente na ponta de baionetas. Ou alguém ainda acredita que o fundo do poço já foi alcançado? É nesse campo que FHC faz sua semeadura do mal.

Dias atrás, reuniram-se em São Paulo diversos intelectuais ativistas dos direitos humanos nos governos FHC e Lula. Combinaram uma visita a FHC para convencê-lo da necessidade imperiosa do grande pacto em defesa da democracia. O artigo de FHC comprovou a inutilidade da iniciativa.

As sementes da inveja

Em que pedaço da memória estão as sementes desse sentimento invencível que aprisionou FHC e poderá colocar em risco o futuro da democracia do Brasil?

Velhos militantes da campanha do Petróleo é Nosso, testemunhas do papel relevante dos generais Felicíssimo e Leônidas Cardoso, respectivamente tio e pai de FHC, me contaram lá atrás, antes que FHC ousasse voos políticos, da decepção do tio Felicíssimo com o sobrinho, visto por ele como muito ambicioso e desapegado das causas públicas. Seria o olhar de condenação do pai, do tio? Seria a constatação cruel de que, sem o amparo de uma familia ilustre, sem o estudo e as facilidades que o acompanharam, Lula foi o estadista que pai e tio cultuariam?

Dos psicanalistas ao homem comum, há o desafio permanente de decifrar a inveja. E se vê o retrato de FHC refletido no espelho de todas as definições sobre a inveja.

O poeta Miguel Unamuno chega a afirmar:

“A inveja é mil vezes mais terrível do que a fome, porque é fome espiritual”.

 Psicanalista estudiosa da inveja, Melanie Klein anotou a diferença entre a inveja e o impulso invejoso:

“Inveja é o sentimento raivoso de que outra pessoa possui e desfruta algo desejável – sendo o impulso invejoso o de tirar este algo ou de estragá-lo”.

Os psicanalistas dizem que a inveja é provocada pela pulsão de morte da própria pessoa. FHC caminha para o fim com o coração cada vez mais duro, como pão amanhecido. E valerá para ele a fábula de Klein:

Em certa ocasião, em que um homem extremamente invejoso de seu vizinho, recebe a visita de uma fada, que lhe dá a possibilidade de realizar um único desejo. Disse a fada ao homem: peça o que desejar, desde que seu vizinho receba em dobro. O invejoso em seguida responde: quero que me arranque um olho.

O olho arrancado de nação de FHC será Bolsonaro.

Eleito Bolsonaro, sobre os escombros do país FHC dará seu grito de vitória, de harpia impiedosa, apresentando o fim da democracia como desfecho da obra de Lula.

Luís Nassif
No GGN
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Estado reconhece que o embaixador José Jobim foi torturado e assassinado pelos militares

Embaixador denunciaria corrupção na ditadura

O Estado brasileiro reconheceu oficialmente que o diplomata José Jobim foi morto, após sequestro e tortura, pela ditadura do regime militar no Brasil. Nesta sexta-feira (21), o Brasil emitiu uma nova certidão de óbito de Jobim corrigida, 39 anos de sua morte.

O documento é uma das conquistas dos trabalhos da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) e da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que em seu relatório final, ainda em dezembro de 2014, recomendou que o país retifique a causa de morte de pessoas que faleceram em decorrência de graves violações de direitos humanos, incluindo desaparecidos políticos.

No ano passado, a CEMDP insistiu na recomendação, por meio da Resolução n° 2, de 29 de novembro de 2017, orientando os procedimentos para o governo brasileiro emitir atestados com este objetivo de corrigir as "causas da morte".

José Jobim, à esquerda, no velório do irmão Danton, em 1978. Junto com ele está o almirante Amaral Peixoto, genro de Getúlio Vargas.
"O falecimento ocorreu por volta do dia 24 de março de 1979, na Cidade do Rio de Janeiro-RJ, em razão da morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistemática e generalizada à população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 1985": é a descrição corrigida do motivo de óbito de Jobim.


O embaixador havia desaparecido uma semana depois de anunciar que denunciaria um esquema de corrupção cometido durante a ditadura do regime militar. José Jobim iria revelar em um livro de memórias o superfaturamento de dez vezes maior do que o valor original para a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu.

Inauguração da Usina de Itaipu
Jobim foi embaixador no Paraguai no início das negociações sobre a criação da Usina de Itaipu, entre 1957 e 1959, e chegou a ser enviado pelo presidente João Goulart a uma missão, em fevereiro de 1964, com ministros paraguaios para tratar do tema. Em 1966, voltou a participar de um encontro para assinar a "Ata das Cataratas".

Sete dias antes de seu desaparecimento, no dia 15 de março de 1979, ele presenciou a posse do general João Figueiredo como o novo presidente do Brasil e, na ocasião, mencionou a alguém que estava escrevendo um livro sobre relatos e que incluiria o esquema de corrupção. Ao sair para visitar um amigo no dia 22 de março daquele ano, não retornou.

Mas conseguiu deixar um bilhete a dona de uma farmácia na Barra da Tijuca, informando que tinha sido sequestrado e que seria levado para "logo depois da Ponte da Joatinga". A menos de 1 km da ponte, seu corpo foi encontrado, pendurado pelo pescoço em uma corda amarrada a uma árvore, mas suas pernas tocavam o chão.

De acordo com o Relatório da CNV, José Pinheiro Jobim foi sequestrado e mantido em cativeiro por dois dias e meio, em local incerto, e interrogado sob tortura. E o laudo pericial, cheio de vícios, fazia creer a tese de suicídio. Para a Comissão Nacional da Verdade, tratou-se de um crime de Estado, consumado por motivação exclusivamente política.

No ano passado, mesmo ano da publicação da Resolução pela CEMDP, a filha do embaixador, Lygia Maria Collor Jobim, entrou com um pedido para corrigir a certidão de óbito de seu pai, que até hoje trazia causa de morte "indefinida", a depender "dos resultados dos exames complementares solicitados".

Foi a Comissão de Mortes e Desaparecidos que concedeu a Lygia um "Atestado de Óbito" com as informações verdadeiras sobre a causa da morte. Com este documento, a filha do diplomata levou ao Registro Civil do Rio de Janeiro, pedindo a retificação do documento do óbito de seu pai, como consequência da perseguição sistemática e generalizada à população identificada como opositora política ao regime ditatorial. 

"A retificação do assento de óbito de José Jobim é uma importante e necessária medida de reparação promovida pelo Estado brasileiro, que contribuiu para a promoção da memória e da verdade sobre os fatos e circunstâncias referentes às graves violações de direitos humanos praticadas por agentes do Estado brasileiro durante a ditadura", informou a CEMDP, em nota.

No GGN
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O golpe de 64 não salvou o país da ameaça comunista porque nunca houve ameaça nenhuma


Há uma farsa historiográfica que ronda a praça de maneira persistente: a tese de que que a “revolução de 64” teria salvo o Brasil da ameaça comunista.

Conversa para boi dormir.

A renúncia de Jânio Quadros em 1961, e a ascensão do seu vice João Goulart, odiado pelo partido mais conservador da época, a UDN, de Carlos Lacerda, e por parte dos militares, foi o ápice de uma cisão ideológica que perdurava havia quase 20 anos. De agosto de 1961 a março de 1964, Jango foi alvo de uma guerra discursiva que o pintou como corrupto e conspirador de uma ofensiva comunista. Era tudo fantasia.

O rolo começou em 1946 com uma briga política que se estendeu por duas décadas entre os três partidos dominantes da chamada Terceira República (1946-1964), incendiada pela UDN de Lacerda. Os udenistas, derrotados nas urnas por Vargas (1950) e depois por Juscelino Kubistchek (1955), faziam uma guerrilha com notícias e editoriais falando sobre o risco iminente de o país virar comunista sem base nenhuma na realidade.

Na Constituinte de 1946, os comunistas do PCB formavam uma bancada respeitável, com um senador – Luís Carlos Prestes – e 14 deputados. Entre esses, Carlos Marighella.

Marighella, que se tornaria mundialmente conhecido por sua guerrilha urbana e acabaria morto pela Ditadura Militar em 1969, era um congressista como outro qualquer. Fazia discurso, frequentava gabinetes, apresentava moções e tomava cafezinho com seus pares.
 O fracasso nas urnas foi transformando a UDN em uma organização golpista.
Em maio de 1947, a justiça declarou ilegal a existência do PCB e os mandatos dos comunistas foram cassados. Diante do golpe jurídico, os comunistas não apelaram para as armas. Ao longo da Terceira República, eram três os partidos dominantes. O PTB, partido de Vargas e Jango, que ocupava a porção à esquerda do espectro político; o PSD, partido centrista, que abrigava Dutra e JK, e a UDN, partido de viés mais liberal, cujo ponto central era o ódio a Vargas.

A UDN era o partido favorito da grande imprensa, de setores da classe média  e da intelectualidade nacional. Só não era o partido favorito dos eleitores. O fracasso nas urnas foi transformando a UDN em uma organização golpista. Se hoje é o “bolivarianismo” que assusta o “cidadão de bem” brasileiro, nos anos 1950 o fantasma regional era o “peronismo”.

Carlos Lacerda em comemoração pela criação do Estado da Guanabara.
Carlos Lacerda em comemoração pela criação do Estado da Guanabara.
Foto: Wikimedia Commons

Às vésperas das eleições vencidas por Vargas, o jornal do udenista Carlos Lacerda, uma das grandes figuras do partido, publicava declarações de um general, afirmando: “o governo tem conhecimento de um vasto plano subversivo organizado pelos comunistas, cuja eclosão se daria ao mesmo tempo, em todo o território nacional. O governo brasileiro está de posse de dados concretos comprovando que o sr. Getúlio Vargas mantém relações com o general Perón, presidente da Argentina”. Dizia-se que Perón financiaria o movimento “para restaurar a Ditadura” no Brasil.

Apelava-se para o medo, plantava-se a semente da paranoia. Mas Vargas saiu-se vitorioso, com 48,5% dos votos. Quando a derrota ficou evidente, a UDN optou por não reconhecer o resultado. O jornal de Lacerda trazia em letras garrafais: “Getúlio não foi eleito legalmente”. Como Vargas não obteve mais de 50% dos votos, golpistas como Lacerda e Aliomar Baleeiro passaram a insistir na tese de que a maioria do eleitorado o rejeitara. Tentam na Justiça barrar a posse de Vargas.Ficou famosa a frase de Lacerda, repetida à exaustão naqueles tempos: “Vargas não deveria ser eleito. Se eleito, não deveria tomar posse. Se tomasse posse, não poderia governar”.

Ainda que tenha feito um governo algo conservador, segundo percepção de renomados historiadores do país, Vargas não pôde governar. Em 1954, em meio às denúncias de orquestrar um plano secreto junto com Perón e de corrupção no Banco do Brasil, a UDN pede seu impeachment, que é rejeitado no Congresso.

Após o episódio da rua Toneleros – quando morreu o oficial da Aeronáutica Rubens Vaz, e Lacerda é alvejado –, Vargas é instado pela cúpula militar a renunciar à presidência. Naquela noite, mata-se com um tiro no peito. Aos se aproximarem as eleições de 1955, temendo a derrota, a UDN volta a pregar o golpe. Primeiro são denúncias contra Juscelino Kubistchek, acusando-o de corrupto. Adiante, a defesa desavergonhada da não realização das eleições naquele ano.

Em editorial de junho de 1955, Lacerda afirmava:
“Não há mais a menor dúvida: a eleição, nas atuais circunstâncias, significa a vitória dos que há longo tempo se prepararam. […] Em nome de que se pretende que toleremos a volta da oligarquia, com o seu cortejo de corrupção e violência? Sustentamos que existe, ainda, uma saída ‘legal, para a falsa legalidade que se pretende manter… A saída que existe… é a concessão de plenos poderes a um Executivo responsável, capaz de realizar as reformas preliminares de que carece a nação…”
Com a chapa JK-Jango eleita, a UDN tenta o golpe na justiça. Afonso Arinos tenta barrar a diplomação dos vencedores, argumentando que teria havido participação do PCB (ainda ilegal) na campanha dos eleitos.

Em novembro de 1955, percebendo as movimentações de um golpe orquestrado por setores civis (leia-se UDN) e militares, o general Henrique Lott põe em marcha o chamado “golpe preventivo”, garantindo a continuidade da legalidade no país.

JK consegue tomar posse e chegar ao final de seu governo, feito raro para a época. Nas eleições de 1960, a UDN decide apoiar Jânio Quadros, fenômeno político e então governador de São Paulo, mas que não fazia parte do partido.

Jânio, porém, renuncia à Presidência em agosto de 1961, jogando o país no caos. É nesse cenário que João Goulart (PTB), seu vice, torna-se presidente. Iria se tornar, na verdade. É declarado persona non grata para a segurança nacional por parte do Congresso, que se articula para impedir que o herdeiro de Vargas tome posse. Setores civis e militares quiseram impedir o cumprimento do texto constitucional. Havia o que se chamava de “veto militar” ao nome de Goulart.

No Rio Grande do Sul, começava a campanha pela legalidade, liderada por Leonel Brizola. Entre os legalistas, estavam o chefe do Exército naquela região, o general Machado Lopes. Circula a notícia que o II Exército, com sede em São Paulo, se encaminharia para o sul, de forma a desbaratar a resistência.
Havia o que se chamava de “veto militar” ao nome de Goulart.
A ameaça passa a ser não de um golpe civil-militar, mas de guerra civil. O Jornal do Brasil em editorial afirmava: “a expressão guerra civil é a única que cabe para definir o que pode acontecer, a qualquer momento, no Brasil”. Até o The New York Times alertava: “os oficiais do Exército brasileiro, que desafiaram sua Constituição e a vontade dos eleitores ao se recusarem a deixar João Goulart assumir a presidência, trouxeram seu país à iminência de uma guerra civil.”

O jornal Correio da Manhã se manifestou em editorial intitulado “Ditadura”, no qual dizia: “o manifesto dos ministros militares, coagindo o Congresso… é o golpe abolindo o regime republicano no Brasil. É a ditadura militar.”

O meio-termo encontrado foi deixar Jango assumir, mas castrado dos poderes presidenciais, graças a um parlamentarismo de ocasião. Era o golpe envergonhado. Voltavam-se a utilizar as velhas armas contra Jango: uma suposta conspiração internacional de caráter peronista, as supostas tendências comunistas do latifundiário e as alegações de corrupção.
O golpe ocorreu quase sem resistência, pois resistência não havia.
Em 1964, o deputado udenista Bilac Pinto afirmava, sem qualquer prova concreta, que Goulart preparava uma revolução, que o presidente organizava uma guerrilha armada no país. Aproveitando-se do ambiente caótico de 1964, em que se somavam a crise econômica e alta polarização política, fez-se o golpe civil-militar de 31 de março.

A suposta guerrilha de Jango, o suposto armamento em posse das Ligas Camponesas (o MST da época), a suposta infiltração comunista nas Forças Armadas, era tudo fantasia.

O golpe ocorreu quase sem resistência, pois resistência não havia. Deu-se um golpe, pois um golpe se queria dar desde 1951, pelo menos. A luta armada comunista, que jamais colocou em risco o governo brasileiro, só emergiu após a implementação da ditadura, não antes. Enfim.

Houve um tempo no Brasil no qual políticos civis não reconheciam o resultado das eleições, que não se conformavam com uma democracia na qual os eleitores elegem seus adversários.

Houve um tempo no Brasil no qual militares de alta patente se arvoravam o direito de falar de política. Tempo em que generais ameaçavam não reconhecer o resultado das urnas, caso o eleito não fosse do seu agrado.

Às vésperas das eleições de 2018, o cenário se repete.

Alexandre Andrada
No The Intercept
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Um não entende de economia; outro, de política. Some e ache um desastre


É notório que a soma de dois ignorantes jamais produz um sábio.

Mas quando os dois ignorantes querem tomar o poder numa das maiores nações do mundo, isso deixa de ser uma observação diletante e se torna o aviso prévio de uma tragédia.

‘Bolsonaro me convenceu de que não entendo de política’, diz hoje a O Globo o “posto Ipiranga” econômico do ex-capitão, Paulo Guedes.

Como Jair Bolsonaro também já disse, ao mesmo jornal, que ‘não entendo mesmo de economia’, não há nada mais semelhante ao juízo que faz disso aquele que o candidato diz que está acima de todos, em Mateus 15,14 :

Deixai-os! Eles são guias cegos guiando cegos. Se um cego conduzir outro cego, ambos cairão no buraco”.

Não são, porém, os únicos cegos.

Há gente que se considera muito sábia disposta a entregar o país a este par de aventureiros e a outros que, armas à mostra, exibem a força para sustentá-los.

Disposta porque sabe que a conta dos desastres econômicos e políticos, inevitavelmente, cai sobre o povo.

E que, a cada tombo, o desespero torna mais palatável a ideia de vender mais nossas riquezas, humilhar mais nosso trabalho, privar mais a população de serviços públicos e afundar-nos mais e mais na dependência e na submissão.

A diferença entre um imbecil no poder em países fortes e em países fracos é que o primeiro tenta impor a hegemonia aos trancos e o outro só tem como caminho ampliar a vassalagem.

A ignorância de um e de outro, claro, é sabida há muito tempo, mas foram  convenientes para produzir a estranha figura do “repressor liberal”.

Assim como agora o desmonte desta imagem vem do inequívoco interesse em,  tarde demais, produzir uma alternativa ao crescimento da candidatura Haddad/Lula.

Quando se quer usar um cego como guia, se é tão cego quanto ele.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Suspeitas movimentações em torno de Adélio Bispo, o esfaqueador

Adélio Bispo observa Bolsonaro pouco antes de atacá-lo, na foto de Fábio Motta Agência Estado) publicada no Jornal do Brasil.
A quinze dias do primeiro turno das eleições, a movimentação em torno de Adélio Bispo de Oliveira, réu confesso da facada desferida contra o presidenciável Jair Bolsonaro, em 6 de setembro, no centro de Juiz de Fora (MG), desperta a atenção das assessorias jurídicas de candidatos receosos de possíveis surpresas/armações que possam estar sendo urgidas na tentativa de interferir no resultado do pleito.

Coincidência ou não, nessa última semana, ao mesmo tempo em que a Polícia Federal solicitou mais 15 dias para concluir a investigação que prometera entregar dia 21 passado (sexta-feira), ocorreu um súbito interesse de órgãos de imprensa para entrevistarem Bispo, o agressor. Dos três pedido protocolados, dois deles – da revista Veja e de Roberto Cabrini, do SBT –, foram autorizados, mas, segundo consta, ainda não realizados. Um terceiro, de O Globo, está pendente de despacho.

O deputado Fernando Francischini, delegado federal licenciado e líder do PSL – partido de Bolsonaro – na Câmara Federal, até tentou bloquear as autorizações. Alegou que isso poderá ser prejudicial à candidatura. Porém não encontrou respaldo, O juiz Bruno Savino, da 3ª Vara Federal em Juiz de Fora, não viu motivo para atender ao deputado e manteve as duas decisões. Embora não tenham se manifestado até o momento, na cúpula do PT também há preocupação com esta movimentação.

Tratamento diverso – Bispo encontra-se em prisão preventiva, enquanto a polícia trabalha no inquérito que servirá de base a uma ação penal a ser aberta a partir da denúncia pelo Ministério Público Federal. Está em um presidio cujo acesso, teoricamente, é limitado e controlado.

Adélio Bispo de Oliveira na audiência de custódia.
Reprodução de vídeo

Ainda assim dois juízes federais autorizaram jornalistas a entrevistá-lo. Além de Savino, o juiz corregedor dos presídios em Campo Grande, Dalton Igor Kita Conrado, também teve que ser ouvido, pois controla o acesso à penitenciária. Mas não se opôs ao ingresso de jornalistas.

Já o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumpre uma antecipação de pena a partir de uma decisão que fera a Constituição justamente por não respeitar a presunção de inocência que deve existir até o trânsito em julgado de uma sentença criminal.

Está recolhido a uma sala de estado maior – cujo acesso, teoricamente, é bem menos limitado do que em um presídio de segurança máxima. Ainda assim, teve todos os pedidos de entrevistas formulados por jornalistas negados pela juíza Carolina Moura Lebbos, da Vara de Execução Penal em Curitiba.

Oficialmente, os advogados de Bispo, notadamente Zanone Manuel de Oliveira Júnior, de Contagem (MG) e Fernando Costa Oliveira Magalhães, de Lagoa Santa (MG), que o visitaram no presidio federal de Campo Grande (MS) na quinta e na sexta-feira, garantem que ele sustenta a mesma versão apresentada logo após seu gesto transloucado, no centro de Juiz de Fora, em 6 de setembro. Insiste que foi um ato solitário, sem mandantes. No dia em que foi preso, confessou ter agido “a mando de Deus”.

Curiosamente, uma semana antes de pedir à 3ª Vara Federal de Juiz de Fora (MG) a prorrogação do inquérito, a Polícia Federal foi à penitenciária de Campo Grande. Sem qualquer comunicação à defesa do preso, tomou seu terceiro depoimento. Até sexta-feira (21/09) os advogados desconheciam o teor deste novo interrogatório. Souberam da versão apresentada pelo cliente.

De pronto, encaminharam à Justiça dois pedidos. Em Juiz de Fora, na 3ª Vara Federal, pediram acesso à integra do documento. Em Campo Grande, informaram ao juiz corregedor Dalton Igor Kita Conrado (da 5ª Vara Federal) que não foram avisados do depoimento no presídio à Polícia Federal, o que teria causado surpresa ao magistrado.  Reivindicaram que o fato não ocorresse novamente.

Como ninguém esclarece o que foi falado neste novo interrogatório do dia 13, suspeita-se que ele tenha motivado o pedido de prorrogação do prazo. Um dos defensores admitiu essa hipótese. Afinal, dias após o atentado, a polícia, convencida de que o atentado foi um ato de um “lobo solitário”, tal como definiu o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, prometia encerrar o IPL em 15 dias. Prazo que venceria sexta-feira (21/09). Na véspera pediu a prorrogação. Oficialmente, o adiamento é atribuído à necessidade de concluírem os laudos periciais no notebook e celulares encontrados com Adélio Bispo.

Capa da edição da Veja, que circulou antecipadamente, com
o vazamento do depoimento do doleiro Alberto Youssef.

Cumprindo-se o novo prazo, o relatório da investigação poderá ficar pronto na véspera do primeiro turno da eleição. Vazará, como ocorreu com a Operação Lava Jato, em outubro de 2014, no segundo turno da eleição presidencial?

Os dois fatos – prorrogação das investigações e súbito interesse da imprensa em ouvir o réu-confesso – provocam sérias suspeitas sobre uma possível utilização política do atentado na reta final do primeiro turno da campanha eleitoral.

Não será a primeira vez que se recorrerá à exploração de casos policiais na expectativa de se interferir no resultado do pleito.

Os exemplos mais famosos se deram nas disputas dos segundos turnos de 1989 (Fernando Collor versus Luiz Inácio Lula da Silva) e, mais recentemente, em 2014, quando Dilma Rousseff e Aécio Neves concorreram.

Em 2014, na acirrada disputa entre Dilma e Aécio, a revista Veja antecipou sua edição 2397 na qual publicava o depoimento do doleiro Alberto Youssef. Embora devesse estar sob sigilo foi devidamente vazado sem qualquer consequência. Nele, o doleiro afirmava que a candidata à reeleição, bem como seu padrinho político, o ex-presidente Lula, tinham conhecimento de toda a bandalheira que ocorria na Petrobras.

Decorridos quatro anos desde que o vazamento veio a público na tentativa frustrada de impedir a reeleição de Dilma, ela até hoje jamais foi denunciada por qualquer caso do chamado Escândalo da Petrobras. Da mesma forma, Lula jamais teve comprovado seu envolvimento. Foi condenado e preso em um processo julgado apressadamente em duas instâncias, sem que apontassem provas concretas. Respaldaram-se apenas na deleção de outro réu. Um julgamento que vem sendo considerado suspeito por mais de uma centena de juristas, brasileiros e estrangeiros, que analisaram os autos.

A pressa no julgamento e a prisão sem o trânsito em julgado da sentença – com o que ferem frontalmente a Constituição – são vistos pelos críticos da decisão judicial como artimanhas judiciais para impedir a candidatura do ex-presidente. Liderando todas as pesquisas de opinião, tinha possibilidades de vencer no primeiro turno.

Noticiário de O Estado de S.Paulo no domingo do segundo turno de 1989.

Em 1989, ocorreu uma tentativa de vincularem o PT aos sequestradores do empresário Abílio Diniz. Capturado em uma segunda-feira, a polícia somente chegou ao seu cativeiro no sábado, 16 de dezembro, véspera do segundo turno eleitoral em que Fernando Collor e Lula disputavam a presidência da República.

A imprensa, respeitando um pacto para não colocar a vida do empresário em risco, só noticiou o crime a partir da descoberta e cerco do cativeiro. Ou seja, a população, oficialmente foi informada na véspera da eleição.

Para a rendição do grupo e a libertação do empresário foram fundamentais as participações do então cardeal arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns – que ofereceu sua vida em troca da do empresário – e do economista Luiz Carlos Bresser Pereira, amigo de Diniz e então diretor do Grupo Pão de Açúcar, da família Diniz.

Quando a polícia resgatou o sequestrado e prendeu os sequestradores, divulgou que em um apartamento utilizado pelo grupo, próximo ao cativeiro, foi encontrado amplo material de campanha do Partido dos Trabalhadores. Dois dos sequestradores apareceram com camisetas da campanha de Lula

Notícia amplamente explorada pelas redes de TV na tarde e noite do sábado, véspera do segundo turno. Assim como foi destaque nos jornais no dia da votação. Anos depois descobriu-se que eles foram obrigados a vestirem a camiseta. O envolvimento do PT com o caso jamais foi provado.

Entrevista à Veja falhou – A entrevista do réu confesso Adélio Bispo à Veja deveria ter ocorrido na quinta-feira passada (20/09). Para realizá-la, a revista enviou a Campo Grande (MS) o repórter Thiago Bronzatto que se apresentou no presídio federal naquele dia. Embora já tivesse a autorização do juiz Savino, da 3ª Vara Federal de Juiz de Fora, ao que parece faltou a decisão final do juiz corregedor do presídio, Kita Conrado, que deveria autorizar o ingresso da equipe de jornalistas. Tal autorização foi para sexta-feira.

Reportagem de Thiago Bronzatto, capa da 
edição de 9 de maio,
 foi desmentida pela Polícia Federal.

Bronzatto foi esperado no presídio na sexta-feira por Zanone Oliveira Júnior, advogado de Adélio Bispo. A defesa do preso, ao concordar com as entrevistas, impôs a presença de algum advogado, no que foi acatada pelos juízes. A espera foi em vão, pois o repórter não retornou ao presídio, provavelmente porque a edição de Veja, àquela altura, estava fechada.

O repórter é o mesmo que na edição nº  2581, com data de 09 de maio de 2018, mas que começou a circular na sexta-feira anterior (04/05), escreveu a reportagem de capa na qual dizia descrever os bastidores da vida de Lula dentro da Superintendência Regional do Departamento de Polícia Federal no Paraná (SR/DPF/PR). Entre outras coisas, informava que o ex-presidente recebia diariamente injeção de insulina no controle da diabetes.

Antes mesmo de a revista completar 24 horas circulando, a Polícia Federal soltou nota desmentindo o noticiado. Nela, especificou:

Minucioso exame das imagens de circuito interno de segurança permite verificar que o autor da matéria não teve acesso à área restrita ao Ex-Presidente.

Grande parte das informações constantes na reportagem são equivocadas e imprecisas. É absolutamente falso, por exemplo, que seja administrada insulina ao custodiado.

O jornalista esteve presente no edifício da Superintendência Regional recentemente, onde participou de uma reunião com um servidor que não possui relação com quaisquer procedimentos relacionados à custódia.

Embora o réu-confesso mantenha sua versão de ter agido sozinho, sem ajuda e sem estar cumprindo ordens, ao que se suspeita a polícia, alguns políticos e jornalistas buscam provar o contrário. Hipóteses das mais absurdas têm circulado, inclusive do financiamento da defesa dele pelo PCC, já que um dos advogados atenderia presos daquela facção.

Zanone Oliveira Junior alega desconhecer isso e classifica os autores de tais especulações e boatos de “muito criativos”. “Tem gente especulando de tudo, até que é por motivo político. Acho que o delegado é imparcial, não acredito em nada disso não”, conclui.

Nos próximos 15 dias, porém, paralelamente às atenções as pesquisas eleitorais, muita gente ficará de olho e ouvido atento ao que acontecerá na Penitenciária Federal de Campo Grande. Temem, ao mesmo tempo que querem evitar, “novidades” que venham a interferir no resultado eleitoral.

Marcelo Auler
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Atentado: fatos x versão


A cada dia surgem novas informações em torno do atentado contra o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, em Juiz de Fora, em geral fruto de vazamentos. Em sua maioria, divulgadas pelos sites O Antagonista e Crusoé, mas também por jornais regionais que acompanham as investigações.

A última novidade, desta vez divulgada pela revista online Crusoé, é a de que o agressor de Jair Bolsonaro “recebia com alguma frequência transferências de valores e também depósitos em espécie – os valores são mantidos em segredo”. Segundo a publicação, a Polícia Federal está tentando descobrir quem transferia recursos para Adélio Bispo. Fiquemos no aguardo.

Na mesma linha, o inquérito deve explicar se é fato e, sendo, como o autor do atentado, sem ou com poucos recursos, tinha em seu poder um cartão de crédito internacional do banco Itaú? Qual a explicação do banco Itaú para a situação, considerando que cartões internacionais não são de uso comum?

A informação de que Adélio tinha, ou tem, um passaporte procede? Se positiva, onde foi tirado o passaporte, em qual seção da Polícia Federal? Ele o utilizou alguma vez? Se utilizou, para qual país foi? E se foi, o que foi fazer? Com quem se encontrou? Ou a informação foi apenas jogada no ar …

Os jornais e onlines também divulgaram que o juiz federal Bruno Savino deferiu o pedido feito pelo jornalista do SBT, Roberto Cabrini, para entrevistar Adélio no dia 5 de outubro. Segundo o jornal Tribuna de Minas, o juiz afirmou não haver motivo para negar o contato do investigado com a imprensa.

No início da semana, o deputado federal Fernando Francischini, líder do PSL, havia protocolado pedido na 3ª Vara Federal em Juiz de Fora, com o objetivo de impedir a entrevista. Segundo o magistrado, a defesa de Adélio não se opôs à realização da entrevista.

Qual o interesse editorial do SBT em realizar uma entrevista exatamente na sexta-feira, último dia da propaganda eleitoral? Por que o juiz, Ministério Público e a própria defesa aprovaram o pedido, desconsiderando que Adélio faria exame de sanidade mental nesta sexta-feira, 21?

Tais fatos somam-se a outros que seguem sem esclarecimento, alimentando a insegurança diante das investigações e seus desdobramentos.

O principal deles segue sendo qual o critério, ou interesse, em separar o processo de investigação em duas partes – coincidindo com os dois turnos da eleição? Na primeira parte, investiga o fato em si; na segunda, os mandantes.

Outra situação, no mínimo estranha, é a que envolve o policial Daniel França, substituído por Antonio Marcos Teixeira, que comandava a divisão da PF que fazia segurança a Bolsonaro. Ele já foi ou será ouvido para explicar as razões de sua ausência no local no dia do atentado? Também para explicar a “displicência” profissional da PF, que sequer rádios portava?

Ainda, afinal, o que fez a PF no momento do atentado, a não ser tirar o candidato do ambiente do atentado e conduzi-lo para o hospital? É fato que a arma foi encontrada pela PM, embaixo da barraca de um comerciante, por indicação de um popular em meio à multidão? É procedente a informação divulgada pela mídia de que a faca encontrada estava “ensaguentada”?

Autoridades militares já insinuaram que a repercussão do atentado poderia levar candidatos a questionar o resultado eleitoral. Portanto, as autoridades têm o dever de promover a profunda investigação de todos os fatos. A sociedade exige esclarecimento dos fatos, sem surpresas ou versões.

Fernando Rosa
No Senhor X
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Bolsonaristas negam Holocausto, desprezam mulheres, insultam Marielle e expõem almas doentes


Em novembro de 1940, o democrata Franklin D. Roosevelt venceu o republicano Wendell Willkie com uma diferença de 5 milhões de votos e conquistou o terceiro mandato consecutivo na Casa Branca. O presidente viria a ser um dos condutores dos Aliados no triunfo sobre o nazifascismo. Isso é o que conta a história, porque no romance “Complô contra a América” Roosevelt foi abatido nas urnas de 1940 pelo aviador Charles Lindbergh.

O livro de Philip Roth lançado em 2004 narra as agruras, o medo e a resistência de famílias norte-americanas de origem judaica sob o imaginário governo do pioneiro da travessia aérea sem escalas do Atlântico. Na vida real, Lindbergh voava alinhado com esquadrilhas antissemitas e fascistoides. Havia sido condecorado pelo III Reich, confraternizava com mandachuvas alemães e defendia, para gáudio de Berlim, os Estados Unidos à margem da guerra que conflagrava a Europa.

Na ficção, sua administração perseguiu e intimidou os judeus. O personagem repugnante bolado por Roth não ousou sugerir que se pesassem seres humanos em arrobas. Pareceria inverossímil, tamanha a perversidade, a despeito do racismo do protagonista. “Complô contra a América” não me sai da cabeça. Não ao fabular um passado distópico, mas ao matutar sobre o porvir. Próximo, não distante. Do Brasil, e não da “América”.

Duas semanas atrás, 26.791 dias depois da morte de Adolf Hitler, a embaixada em Brasília da República Federal da Alemanha publicou no Facebook um vídeo de 67 segundos sobre o nazismo. Virou alvo da artilharia dos negacionistas do Holocausto da Segunda Guerra, os mesmos que em nossos trópicos negam ter vigorado uma ditadura a partir de 1964.
É entre bolsonaristas que tais sandices germinam.
“Farsa”, zurrou um mentecapto com nome iniciado com agá (copiei o comentário, mas não promoverei seu autor). Tal cretinice recebeu 944 curtidas. Um certo L. repudiou a caracterização do hitlerismo como de direita. Ignorância faz mal. Arrogância, também. Misturadas, resultam em indigência intelectual diabólica. H. e L. empenham-se, constata-se em seus perfis, na campanha presidencial de Jair Bolsonaro.

Nem todo bolsonarista apregoa a inexistência do genocídio ou pinta como esquerdista o regime nazista. Mas é entre bolsonaristas que tais sandices germinam.

“Nunca tinha visto na Alemanha essa discussão sobre o nazismo ser de esquerda”, disse à Deutsche Welle o cientista político Kai Michael Kenke. “Lá é muito simples: trata-se de extrema direita e pronto. Essa discussão sobre ser de esquerda ou direita parece existir só no Brasil. Se você perguntar para um neonazista na Alemanha se ele é de esquerda, vai levar uma porrada.”

‘Fábricas de desajustados’

Em meados do mês, completou meio ano a impunidade dos assassinos de Marielle Franco e Anderson Gomes. Em reação à cobrança sobre quem os matou e quem mandou matá-los, W. relinchou no Twitter: “Pergunta lá na Maré, o tiro veio do traficante revoltado com a piranhagem dela, ciúme puro”. “Já foi tarde”, sibilou L. Talvez, ululou A., “uma fechada no trânsito pode ter causado a morte” da vereadora e do motorista.

Um dos três animais hidrófobos é robô, mas expressa o ódio de um ser humano de alma putrefata. O pior robô é o existencial. Adivinhe quem é o candidato preferido de W., L. e A. Ele mesmo, o indivíduo chamado de “Coiso” ou “Mito”, a depender da cachola e do coração de cada um. L. reverenciou ontem o vice de Bolsonaro: “Parabéns, general! Família tem que ter pai (macho), mãe (fêmea) e filhos!!!! É a base de uma sociedade harmônica e estável!”

Hamilton Mourão voltara, na véspera, ao estropício filosófico. Sua doutrina doentia pressupõe que famílias “sem pai e avô, mas com mãe e avó” são “fábricas de desajustados”, fornecedoras de mão de obra para o tráfico de drogas. O general se referia a famílias pobres. Em 2007, Sérgio Cabral afirmara que a Rocinha é uma “fábrica de produzir marginais”. O pensador militar acentuou, com o componente de gênero, o preconceito de classe do governador gatuno.

É compreensível a aversão maior a Bolsonaro entre o eleitorado feminino (49% de rejeição entre as mulheres, 38% entre os homens, conforme o Datafolha). As mulheres, incluindo mães e avós, chefiam 40% dos lares brasileiros. São 11 milhões os lares formados somente por mulheres e seus filhos. O capitão, o general e sua turma se incomodam com o mulherio. Com mais de 2,5 milhões de participantes, o grupo “Mulheres Unidas contra Bolsonaro” foi retirado do ar no fim de semana, depois de um ataque cibernético no Facebook. Mourão declarou que o grupo era “fake”. Não era.

Também encrencam com a orientação sexual alheia. Empolgam hordas desatinadas. No domingo, no clássico mineiro, um grupo de torcedores do Atlético bramiu: “Ô, cruzeirense! Toma cuidado! O Bolsonaro vai matar veado!” O clube rechaçou as “manifestações homofóbicas” e os “gestos de preconceito” e “incitação à violência”.

HIV: ‘Problema deles’

Um vídeo com entrevista de Bolsonaro em 2010 documenta uma das mais desapiedadas abordagens de políticas públicas para cuidar de pessoas que vivem com o vírus HIV. O deputado condenou “dinheiro do povo para tratar essa gente depois que contrai a doença com esses atos”. Associou a contaminação à “vida mundana”.

A entrevistadora Monica Iozzi ironizou: “Então dinheiro público vai para quem tem câncer, para quem tem tuberculose. Para quem tem Aids, a pessoa que foi culpada por pegar, ela que se vire…”. O atual candidato a presidente emendou: “Concordo contigo”. Monica esclareceu: “Eu não acho isso”. Bolsonaro: “Se for na sacanagem…”. Monica: “Se não se cuidou…”. Bolsonaro: “Problema deles”. Monica: “Que morra…”. Bolsonaro: “Problema deles!”
A ameaça Bolsonaro é mais aterrorizante do que o país devaneado pelo gênio de Philip Roth. Lá o espectro era ficção; aqui, é desgraçadamente real.
Quem veiculou a entrevista no Youtube não foi um detrator, mas Carlos Bolsonaro, orgulhoso do pai. O vereador do Rio aplaudiu: “Os hipócritas dizem que quando o vagabundo faz besteira cabe ao Estado zelar por sua irresponsabilidade. O deputado federal Bolsonaro diz a verdade e dispara: ‘O Estado deve tratar de doentes infortúnios [sic] e não de vagabundos que se drogam ou adquirem aids por vadiagem’. Muitos não vão gostar, mas concordo”.

Em alguns círculos, o jornalismo que o diga, a banalização das crueldades bolsonaristas persistiu enquanto o deputado e seus partidários serviram a propósitos como a deposição de Dilma Rousseff. Regrediu, porém ressurge na desonestidade de igualar Bolsonaro a adversários que rejeitam selvagerias.

Autores de não ficção costumam ser questionados sobre o motivo de não escrever histórias ficcionais. Respondem que, diante de matéria-prima cotidiana tão rica, para que inventar? A criatividade e a arte se expressam na maneira de contar.

A ameaça Bolsonaro é mais aterrorizante do que o país lindberghiano devaneado pelo gênio de Philip Roth. Embora nos Estados Unidos o fascista tivesse virado presidente, e no Brasil a eleição seja futuro. Mas lá o espectro era ficção; aqui, é desgraçadamente real.

Bolsonaro seria fortíssimo no 2º turno

O Ibope divulgado ontem flagrou Bolsonaro com 28 pontos (+2), Haddad com 19 (+11), Ciro Gomes com 11 (igual), Geraldo Alckmin com 7 (-2) e Marina Silva com 6 (-3). Em uma semana, o candidato de Lula avançou 11 pontos, e sua diferença para o líder diminuiu nove. Já é razoável especular: quando, ainda no primeiro turno, ele ultrapassará o postulante da extrema direita?

A pesquisa não foi ruim para Bolsonaro. Nas simulações de segundo turno, ele vence Marina (41% a 36%) e empata com Haddad (40% a 40%), Ciro (40% a 39%, com vantagem numérica do pedetista) e Alckmin (38% a 38%). O capitão é muito competitivo.

Ele já questiona preventivamente o placar eleitoral. Internado na unidade semi-intensiva do Hospital Israelita Albert Einstein, fez uma transmissão ao vivo pela internet. Sem provas, disse que “o PT descobriu o caminho para o poder, o voto eletrônico”. Programas poderiam inserir na moita 40 votos por urna, de acordo com o concorrente do PSL.

O general Mourão propôs uma nova Constituição, mas não elaborada por constituintes escolhidos por sufrágio universal. E sim obra de um conselho de notáveis. Mais tarde, a Carta seria submetida a plebiscito.

Uma vez golpistas, sempre golpistas.

Mário Magalhães
No The Intercept
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Fernando Henrique e o PSDB tocaram fogo no circo e agora se apresentam como bombeiros


Com a publicação da carta pela união do que entende por lideranças moderadas, Fernando Henrique Cardoso quer a renúncia dos demais candidatos em torno de Geraldo Alckmin.

É sério.

“Talvez seja tarde, mas a gente tem que fazer algum esforço”, disse ele, segundo reportagem da Folha.

Tudo indica que foi uma jogada eleitoral travestida de interesse público.

Os dois se reuniram no apartamento do ex-presidente em São Paulo, na quarta-feira, e discutiram estratégias que deveriam ser implementadas na campanha tucana.

No dia seguinte, Fernando Henrique publicou o textão no Facebook.

“Sem que haja escolha de uma liderança serena que saiba ouvir, que seja honesto, que tenha experiência e capacidade política para pacificar e governar o país; sem que a sociedade civil volte a atuar como tal e não como massa de manobra de partidos; sem que os candidatos que não apostam em soluções extremas se reúnam e decidam apoiar quem melhores condições de êxito eleitoral tiver, a crise tenderá certamente a se agravar. Os maiores interessados nesse encontro e nessa convergência devem ser os próprios candidatos que não se aliam às visões radicais que opõem ‘eles’ contra ‘nós'”, destacou.

A Folha repercutiu, conforme reportagem publicada hoje:

“Segundo aliados, o ex-presidente tem demonstrado preocupação com o cenário político, que acredita ter se polarizado entre a extrema direita, representada por Jair Bolsonaro (PSL), e o petismo de Fernando Haddad, e queria dar uma ‘contribuição mais ampla’ para o quadro eleitoral”.

É uma jogada política, uma ação de boca de urna, mas poderia ser entendida como falta de lucidez.

Pelo desempenho nas pesquisas, Alckmin e o PSDB se tornaram hoje extremistas.

Estão num gueto, em que eles próprios se colocaram, ao contribuirem para golpear a democracia, com o impeachment de Dilma Rousseff sem crime de responsabilidade que o justificasse.

Tocaram fogo no circo e agora querem se apresentar como bombeiros.

Merecem o desprezo dos demais candidatos e já estão tendo o repúdio dos eleitores.

Até a Folha de S. Paulo, uma versão em jornal do pensamento retrógrado que se apresenta como moderno, admitiu que a carta não tem chance de ser levada a sério.

“Convenha-se, de todo modo, que as candidaturas ao centro têm pouco a oferecer ao eleitorado”, escreveu.

“Largada pelo caminho, a agenda liberal conduzida sob Temer encerrou a recessão, mas sem reativar a produção e o emprego; quanto à oxigenação de práticas políticas, não há mais que retórica pouco crível”, acrescentou, depois de lembrar que tucanos apareceram na lama da corrupção.

Estão sujos, mas Fernando Henrique Cardoso se comporta como se tivesse certeza de que o público não vê.

Precisam tomar uma lição das urnas: mais humildade e menos esperteza.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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FHC procura o anti-Haddad. O resto é conversa


Quando faltam duas semanas para o primeiro turno da eleição presidencial, Fernando Henrique Cardoso entra em cena para tentar embaralhar a sucessão brasileira.

Agora que a repulsa a candidatura de Jair Bolsonaro se torna um dado essencial do momento político, e permite antecipar uma vitória de Fernando Haddad na sucessão presidencial, FHC escreve uma Carta a Eleitoras e Eleitores onde fala na necessidade de encontrar um "candidato que não aposte em soluções extremas". É preciso ter cautela nesta argumentação.

Sabemos que a violência e o ódio da campanha tem nome e endereço: Jair Bolsonaro e, na ausência deste, o vice Mourão.

Incluir Haddad no pacote do radicalismo é mais do que um erro primário de diagnóstico político. É desonestidade, sob medida para tentar dar um balão de oxigênio a nova linha da campanha de Alckmin - que agora denuncia Bolsonaro e o PT como imitadores, à direita e à esquerda, da Venezuela de Hugo Chávez e Nicolás Maduro.

A questão aqui é outra. Quando Haddad exibe chances realistas de vitória em segundo turno, abrindo a hipótese de uma quinta vitória do Partido dos Trabalhadores em eleições presidenciais, FHC resolveu preocupar-se com a "perigosa radicalização" da campanha.

Não é preciso ter a metade de seus títulos acadêmicos para reconhecer que a dianteira de um candidato de traços fascistas nas pesquisas foi um presente do céu ofertado pela Lava Jato, que privou uma massa imensa de brasileiros do direito de votar no mais popular presidente da história republicana. Tanto os aliados de Lula como seus adversários sabiam das consequências nefastas desta decisão para o conjunto das instituições democráticas. Também sabiam dos erros jurídicos envolvidos, da ausência de provas.

Certo como 2 + 2= 4. "A justiça foi feita", disse Fernando Henrique, na época. Na carta, empregando uma linguagem que lembra Gustavo Corção, um dois mais reacionários colunistas políticos da imprensa brasileira no golpe de 64, ele escreve que o fato de Bolsonaro "ter como principal opositor quem representar um líder preso por acusação de corrupção mostra o ponto a que chegamos". Ou seja: até a presença de um candidato-substituto é tratado como motivo de escândalo.

Na realidade, o temor de FHC é a vitória de um candidato que representa a resistência da população e não queira impor novos sacrifícios aos trabalhadores e aos mais pobres. No texto, é bem específico a respeito. Chega a lembrar o discurso do primeiro ministro inglês Winston Churchill, na Segunda Guerra Mundial, quando prometeu "sangue, suor e lágrimas" para sustentar que a prioridade do governo a ser eleito em 2018 deve ser um novo arrocho, numa "definição de rumo, a começar pelo compromisso com o ajuste inadiável das contas públicas". Diz que a "primeira dessas medidas é uma lei da Previdência".

Quem conhece o debate político-econômico elementar da campanha sabe quem é o alvo de FHC. Bolsonaro é favorável a uma reforma da Previdência à moda da ditadura Pinochet no Chile. Seu guru Paulo Guedes defende a venda imediata de estatais e um ajuste radical dos gastos públicos. Ainda que economistas habituados a fazer contas tenham questionado seus números, ele deslumbrou o plenário de jornalistas da GloboNews quando anunciou que seria capaz de levantar R$ 1 trilhão em leilões do patrimônio público. Disse que Bolsonaro irá fazer, na economia, aquilo que "Temer vem fazendo, só que mais rápido. "Ninguém achou rum.

Numa hora realmente grave para o país, a melhor inspiração para o PSDB permanece a autocrítica Tasso Jereissati sobre a atuação do partido após a reeleição de Dilma. Nunca é demais repetir:

"O partido cometeu um conjunto de erros memoráveis. O primeiro foi questionar o resultado eleitoral. Começou no dia seguinte (à eleição). Não é da nossa história e do nosso perfil. Não questionamos as instituições, respeitamos a democracia. O segundo erro foi votar contra princípios básicos nossos, sobretudo na economia, só para ser contra o PT. Mas o grande erro, e boa parte do PSDB se opôs a isso, foi entrar no governo Temer."

Vamos sublinhar: "o PSDB contrariou "princípios básicos nossos (...) só para ser contra o PT".

O ponto é esse. Capaz de reconhecer que Bolsonaro representa uma ameaça inédita a nossas instituições democráticas, FHC não só evita assumir as responsabilidades pelo que ocorreu no país a partir do golpe de 2016, mas pelo que pode ocorrer no futuro.

Não há dúvida de que, nos poucos dias que faltam para o primeiro turno, Fernando Haddad tornou-se a candidatura em melhores condições de defender a democracia.

Pela cultura e pela experiência, Fernando Henrique Cardoso sabe muito bem o que é certo fazer nesta circunstância. Prefere fazer o errado.

Alguma dúvida?

Paulo Moreira Leite
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A carta de FHC: “é verdade este bilete”


A Folha hoje publica a informação que “um dia antes de divulgar a carta em que pediu união do centro contra o radicalismo” Fernando Henrique Cardoso teve um encontro reservado com Geraldo Alckmin,  em que “discutiram estratégias que deveriam ser implementadas na campanha tucana, estagnada nas pesquisas abaixo dos 10% das intenções de voto”.

Alckmin aceitou, claro, porque está num estado de indigência eleitoral em que qualquer coisa lhe vale, mesmo que seja uma sem-vergonhice do ex-guru tucano.

Era, como se disse aqui desde o início, uma velhacaria, não um apelo cívico, algo que um homem de 87 anos e duas vezes Presidente da República tinha o direito e até o dever de fazer, diante das ameaças de que a Nação se mergulhe no fascismo.

Não há uma vírgula a retirar e certamente muitas a acrescentar no juízo que faço deste senhor, a quem a história não desceu ainda tão fundo o lugar que nela merece.

Tudo nele é “jogada de marketing”, desde a tentativa de parir Luciano Huck até a “pá de cal” em Geraldo Alckmin, que, fingindo ser criança, aceita o “é verdade este bilete”  da carta que fez publicar.

Fernando Henrique encarna a maldição de Ulysses Guimarães, sobre os que são velhos, mas não velhacos.

Fernando Brito
No Tijolaço
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O Estado que ficou reaça


A pergunta recorrente nas esquerdas é esta: como o Estado que elegeu Collares e Olívio para o governo está cada vez mais sob a ameaça de uma duradoura hegemonia da direita?

A resposta não é a perplexidade. O Estado que elegeu Alceu Collares e Olívio Dutra não existe mais. Collares foi eleito em 1990. Olívio, em 1998.

Uma criança com 10 anos, quando os gaúchos elegeram seu primeiro governador negro, é hoje um homem com 38 anos. Um adolescente, quando o PT chegou ao poder, também é agora quase quarentão.

Os filhos e os netos dos eleitores de Collares e Olívio podem não ter nenhuma conexão política com seus pais e avós. Em muitas famílias, são seus opostos.

Assim como a classe média que deu lastro ao PT talvez não exista mais. Existem os sobreviventes, mas a classe média que ergueu as trincheiras da distribuição de renda, do ambientalismo, dos direitos humanos e das grandes questões da esquerda não se renova com a mesma potência e as mesmas ambições.

A nova classe média jovem é a das lutas identitárias (questões de ‘raça’, gênero, costumes etc) e aí, sabe-se, misturam-se centros, esquerdas e direitas. Tanto que muitos jovens, e não são poucos, que defendem a liberação da maconha votam em Bolsonaro.

Foram-se para o ralo o debate e as ações envolvendo classes e utopias. A esquerda se fragmentou, e os partidos perderam expressão.

Mas a direita ainda faz política do jeito antigo. É nesse contexto que se fortalece o discurso da república do relho. Regredimos ao século 19.

Como esperar uma reversão nesse ambiente de direitismos que também estimulam fascismos?

Eu torço apenas para que os jovens voltem a pensar e agir como jovens, que os pobres não pensem como os ricos e que as mulheres não votem em quem as deprecia e humilha. Mas não é tão simples assim.

Moisés Mendes
No Esquerda Caviar
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Nasce um presidente

Fernando Haddad transmite uma impressão de serenidade e de traquejo, inclusive diante da mídia. E de total lealdade a Lula

Silva Jardim já sabia dos riscos da conciliação
Embora haja muitas certezas, sustentadas não só pelas pesquisas eleitorais, mas também por razões políticas, Fernando Haddad tornou-se candidato do Partido dos Trabalhadores e ultrapassará, mais cedo do que se pensa, o porcentual de intenção de votos dado a Jair Bolsonaro, o mais direto dos adversários dele.

Há, de fato, possibilidade de riscos, não muito longe da premonição anunciada pelas cartas do baralho ou pela leitura de mãos. Estão excetuados, nestas afirmações, os casos de hecatombes. Ou mesmo de facadas cruéis, condenáveis e inesperadas.

A coragem do ex-presidente Lula, somada à paciência, sutileza, e garra de Haddad, permite dizer que nasceu um novo presidente. Com perfil diferente, porém fiel às circunstâncias do projeto de esquerda-centro montado por Lula desde o primeiro governo.

O ex-presidente não elegeu um poste como provocam adversários atropelados pelas circunstâncias.

Desponta, sim, um novo presidente. De esquerda. Haddad tropeçou nos primeiros dias.

Principalmente quando enfrentou a malandragem da mídia.

Ou seja, quando ainda não tinha certeza do resultado costurado no Judiciário. Tranquilo, portou-se como um vice-presidente na chapa petista. Com toda a lealdade. O provável futuro presidente, é a minha esperança, não haverá de ser um conciliador sem adaptação às mudanças políticas do tempo.

Creio que, talvez, leitor de Raymundo Faoro, saiba das consequências de se entregar a conciliação.

Dentro dela há conflitos perigosos. Silva Jardim, um dos mais importantes políticos durante a luta republicana, sofreu com isso. Bateu de frente com Quintino Bocaiúva, que armava uma saída conciliatória do Segundo Reinado para a República. Bobeou e perdeu.

Jardim já alertava para isso. Advertiu: “Você não criará a República, e sim o Terceiro Reinado”. Perdeu também. Iludido, partiu de navio para a Itália e, dizem, atirou-se no Vesúvio. Haddad enfrentou com muita paciência as entrevistas, em que, em alguma delas, sofria agressões e também, em certos casos, pressões naturais impostas pelos repórteres.

Afirmou, com a serenidade de um chefe de Estado, que os militares estão subordinados ao presidente. Haddad mandará. E as reações da mídia? Não fugiu da pergunta. “Sou a favor de que não haja excesso de concentração de propriedade. Sobretudo propriedade cruzada”, considerou, com tranquilidade.

Ele terminou a explicação com um bico na canela: “A legislação proíbe caciques regionais, que mandam em tudo”. Os caciques, no caso, são também conhecidos.

Maurício Dias
No CartaCapital
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11 Razões para acreditar que a urna eletrônica não vai mudar o seu voto


A urna eletrônica é motivo de polêmica no Brasil há alguns anos. Será segura? É possível alterar os votos dados? Por que, supostamente, outros países não copiam nosso modelo? E o voto impresso, não daria mais segurança?

Ao menos, desde a derrota de Aécio Neves para Dilma Rousseff, em 2014, surgiram inúmeras correntes de e-mail e WhatsApp, veiculando supostas fraudes eleitorais. Desde o “chupa cabra” da urna até boletins de urna alegadamente adulterados.

Tento aqui expor algumas questões e esclarecer este tema que é efetivamente complexo.

1) Por que adotamos a urna eletrônica? Não era melhor manter a votação exclusivamente em papel, como quase todos os países do mundo fazem?

A votação apenas em papel é a mais suscetível a fraudes, especialmente no momento da contagem e contabilização dos votos. A depender de quais fiscais estão acompanhando o procedimento, é extremamente fácil adicionar um ''X'' no outro candidato e, com isso, anular um voto dado. Além disso, no caso dos candidatos das eleições proporcionais, é preciso decifrar o que o eleitor quis dizer, o que passa pelo subjetivismo da junta apuradora. A votação eletrônica não apenas reduz esse amplo espaço de fraude humana, como permite a contabilização em pouco tempo, chegando aos resultados finais em poucas horas. Evita-se, com isso, que o clima de tensão social que qualquer eleição produz se agrave, dando mais segurança a todos.

2) Se os hackers conseguem invadir meu celular, meu computador e até a Nasa, por que não conseguiriam invadir as urnas eletrônicas e fraudar o resultado?

A urna eletrônica não tem qualquer conexão com a internet. Isso precisa ficar bem frisado, para compreender como funciona sua segurança. A urna nada mais é do que um teclado que computa votos e os armazena em um módulo específico. Sua programação é extremamente simples. Um hacker não consegue “invadir” a urna assim como não consegue invadir minha calculadora de mesa, já que ambas são desconectadas da rede. O programa da urna é preparado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), alimentado com as candidaturas que foram requeridas e deferidas (além das indeferidas ainda sub judice). Depois, as urnas são carregadas com o programa e lacradas (fisicamente), aguardando o dia da votação.

3) Mas um hacker não poderia invadir os sistemas da Justiça Eleitoral antes do carregamento das urnas e alterar o programa? Não poderia fazer com que, por exemplo, os votos dados a um candidato fossem computados em nome de outro?

A elaboração do programa da urna passa por constantes auditorias e testes de segurança. A cada eleição, no ano anterior, o TSE promove um teste aberto à comunidade científica, para que tentem burlar os sistemas de segurança. Nestes testes, eventuais falhas são apontadas e corrigidas. É importante frisar que nunca, em nenhum teste, conseguiu-se alterar um único voto. As falhas identificadas limitaram-se a questões secundárias, sem colocar em risco o sigilo do eleitor ou o voto dado. Além disso, como explicado na resposta anterior, o programa da urna é relativamente simples. Não são tantas linhas de programação, já que se trata apenas de um registro de números e candidatos. Assim, não é possível que se insira códigos maliciosos que passem desapercebido por toda fiscalização pela qual o programa passa. Antes do carregamento, abre-se para que todos os partidos, Ministério Público e OAB analisarem o programa, em busca de eventuais falhas. Nunca houve qualquer apontamento de alteração no programa.

4) Mas ainda assim… Depois que as urnas estão carregadas, aguardando nos Tribunal Regionais Eleitorais (TREs) de cada Estado para serem distribuídas nos locais de votação, não tem como abrir a urna e alterar o programa?

As urnas são lacradas fisicamente, o que significa que há uma série de selos assinados que, se rompidos, mostram ter havido alguma tentativa de adulteração. Além disso, tanto o programa da urna quanto seu hardware são dotados de dispositivos de segurança que, caso alguma peça seja removida ou alterada, alertam para a mudança.

5) Tá. OK. Mas, chegando no dia da votação, como saber se a urna já não tem votos lançados lá dentro?

Assim que a urna é ligada (e seu programa só permite que ela seja ligada no dia da votação e no horário correto), ela imprime a chamada zerézima. Um relatório indicando que não há qualquer voto em seu registro. Todos os fiscais partidários que acompanham a seção eleitoral podem analisar o documento ou requere-lo para posterior verificação.

6) Hum, mas vamos lá: como se faz para auditar a urna, para saber que ela realmente está atribuindo os votos dados apenas aos candidatos que o eleitor quer escolher?

Para isso existe um processo chamado “votação paralela”. Depois de carregadas as urnas e prontas para serem encaminhadas – com auxílio e proteção de força policial – para os locais de votação, em cada Estado são sorteadas algumas urnas para esse procedimento de verificação. Essas urnas são colocadas nas sedes dos TREs ou nas Zonas Eleitorais e serão usadas apenas para a fiscalização. Outras são enviadas em seu lugar nas seções. A “votação paralela” é um processo aberto, pelo qual qualquer pessoa que esteja no local – jornalistas, membros do Ministério Público, cidadãos em geral etc. – podem participar. Eles recebem orientação para votar em determinado candidato, dirigem-se às urnas de forma aberta e fazem a votação sob vigilância. Ao final, com a votação encerrada, extrai-se o boletim da urna e verifica-se se os votos que deveriam estar na urna – já que todos viram os votos sendo dados – lá estão. E se não há algum voto que não deveria lá estar.

Nunca, em muitos anos de votação paralela, houve um único voto que tenha se desviado do esperado. Pela relevância estatística deste argumento, já é possível afirmar que, efetivamente, não há fraude no programa da urna.

7) Tudo bem, está entendida essa parte. Mas e o voto impresso? Não seria melhor para permitir uma recontagem dos votos?

Quem já manejou um computador sabe qual é a parte que mais dá problema: a impressora. Por se tratar de um equipamento com peças móveis e funcionamento mecânico, seus erros são mais constantes do que com equipamentos eminentemente eletrônicos. O papel engasga, a tinta acaba, a impressão sai ilegível. O voto impresso, conforme aprovado, seria lançado automaticamente dentro de uma caixa de acrílico, indo direto para uma urna física. E quando der problema na impressora? Paralisa-se a votação? Abre-se no meio do dia a urna e tem-se acesso aos votos de quem já votou? Além disso, quanto mais simples um equipamento, melhor ele cumpre sua função. Entre uma calculadora e um PC, a primeira faz melhor contas matemáticas. Ela tem menor possibilidade de erro e não está conectada na internet e, portanto, não pode ser contaminada. Quando se adiciona uma impressora à urna, altera-se sua configuração e abre-se caminho para o ingresso de contaminações externas. Impressoras são excepcionais caminhos para entrada de vírus, na medida em que implicam uma porta de acesso físico à urna.

Outra questão é ainda mais grave. Hoje, é impossível desembaralhar a votação dada por um eleitor. Ou seja, cada voto dado em uma eleição geral (deputado estadual, deputado federal, senador, governador e presidente), por exemplo, é gravado em uma parte do disco sólido da urna eletrônica. Não há, desta forma, como saber que um determinado eleitor votou em uma combinação de candidatos. Isso protege o eleitor e garante o sigilo de seu voto. Se houver a impressão, existirá um papel, que obviamente poderá ser acessado posteriormente pelos candidatos que queiram “verificar” a regularidade das eleições, no qual constará as combinações dadas pelos eleitores de uma determinada seção eleitoral. Nada mais simples do que aproveitar o momento para se certificar que aquele voto comprado foi devidamente entregue. Basta ao criminoso ter elaborado em cada urna combinações diferentes e “exóticas” de votos, orientando os eleitores a segui-las.

Assim, alguém interessado em comprar votos para um deputado estadual, por exemplo, transmite ao eleitor uma combinação com candidatos supostamente incompatíveis nos outros cargos: Bolsonaro a presidente, acompanhado de um companheiro do PSTU a governador e, quem sabe, alguém do Partido Novo para senador, com um petista a deputado federal. Com um universo pequeno de amostragem, cada urna contém 400 votos, torna-se muito difícil que esta combinação exista aleatoriamente. Assim, basta ao comprador verificar, posteriormente, se aquela combinação, que contém o voto dado ao deputado estadual beneficiado, está na urna. Em caso negativo, saberá que o eleitor deixou de cumprir com sua parte da ilicitude. O voto impresso, em suma, piora a segurança da urna, ao invés de melhorá-la. Abre as portas para que quem compra votos possa se assegurar que aqueles votos foram dados.

8 -) Mas vários países do mundo usam o voto impresso! Por que só no Brasil ele deixaria o sistema de votação menos seguro?

Cada país é um país. Seu sistema de votação tem que responder às demandas específicas da sua população e, mais importante: tentar evitar as fraudes mais costumeiras que ali ocorrem. Na Alemanha, para ficar no exemplo sempre utilizado, nem mesmo há registro de eleitores. Cada cidadão vota onde quiser, apenas mostrando seu documento de identidade. Lá, em tese, qualquer eleitor pode votar cinco, dez, quinze vezes. Basta ir passando em locais diferentes de votação. A questão é que isso não é um problema na Alemanha, pois este tipo de fraude é praticamente inexistente. Não vale a pena para eles criarem um sistema caro de segurança para algo residual.

Os maiores problemas no Brasil são a compra de votos e a coação para que se vote em um candidato ou noutro. Em suma, precisamos ter um sistema que evite, a todo custo, que o eleitor sofra pressão ao votar. Ele tem que saber que seu voto não poderá ser identificado em nenhuma hipótese. Por isso não cogitamos, por exemplo, o voto à distância. Seja pelo correio ou por celular. Simplesmente não poderíamos garantir que quem preencheria aquela cédula ou daria o voto pelo celular seria o eleitor, sozinho, com a tranquilidade de que não está sendo vigiado ou forçado a nada.

Daí porque, para a nossa realidade, a impressão do voto abre uma porta, hoje inexistente, para que quem compra votos ou coage eleitores possa cobrar o cumprimento do “acordo”. Se um eleitor diz que vai votar no candidato A, basta que haja um voto naquela urna no tal candidato para que ele possa dizer: viu, fui em quem votou. Ainda que o candidato tenha comprado 50 votos naquela urna, ele não terá como saber quais os que descumpriram o combinado. E isso tem que continuar assim a todo custo. Por isso, inclusive, a justificada paranoia para evitar que as pessoas filmem a si próprias enquanto dão seus votos. Este tipo de registro é tudo o que o corrupto eleitoral quer para se assegurar que o voto comprado foi dado.

9) Mas o voto impresso não poderia ajudar, ao menos, o eleitor a ver que deu corretamente o voto que queria?

O pior de tudo não são os erros da máquina, mas o erro humano. O eleitor erra e muito. Em outras palavras, é comum que ele não consiga transformar sua intenção de voto em voto efetivamente dado aos seus candidatos de preferência. Assim é no mundo inteiro, objeto de pesquisas infindáveis nas Ciências Política. Ocorre que estes erros têm uma característica que os torna praticamente irrelevantes: são aleatórios. Dito de outro modo, um sujeito queria votar em A e, sem querer, vota em B. Outro, eleitor de B, acaba votando em A.

Na média, estatisticamente falando, os erros praticamente se anulam e, portanto, a decisão é tomada pelos que acertam seus votos. É o que se chama na Ciência Política de “milagre de agregação”, fruto da irracionalidade racional que orienta a formação do voto e sua expressão nas urnas. Agora imaginem que o eleitor deu seu voto, crendo estar certo, aperta a tecla “confirma” e, em seguida, vê o papel com a impressão. Ocorre que ele errou, achando que votava primeiro em presidente, quando o voto era dado para uma legenda de deputados estaduais, erro muito comum. Esse eleitor entrará em desespero, dizendo que a urna modificou seu voto, que não era aquilo etc. E o que fazer? Novamente paralisa-se tudo? Anula-se o voto recentemente dado? Como?

Por um viés cognitivo que todos temos, é muito difícil crermos que cometemos erros deste tipo. Mas os cometemos a todo o momento. A tendência é jogar a culpa “na máquina”. Ao invés de pacificar a sociedade, aumentando a credibilidade do sistema, a medida aprovada só irá incentivar ainda mais os questionamentos sem fundamento ao processo eleitoral.

10) Bom, mas então aceitamos que o eleitor erre, já que isso não influencia o resultado. Mas não seria melhor ter a impressão? Assim evitaríamos isso!

O desconhecido causa dúvida. Quando o conhecimento exigido é de ordem técnica, desconfiança ainda maior. No mundo moderno, contudo, devemos aprender a conviver com o desconhecimento técnico, uma vez que é impossível a todos saberem em detalhes tudo aquilo que é relevante em suas vidas. Andamos de carro sem saber como funciona exatamente ou, pior, a razão pela qual ele não explode em nossas caras. Voamos em aviões, entregando as vidas a um sistema que poucos conhecem o funcionamento. Sabe-se lá como é gerada a energia que chega à minha casa. E por aí vai.

Ulrich Beck, em sua “Sociedade de Risco”, alerta para este cenário. A confiança é transmitida por avais técnicos dados pelos especialistas. Voamos por crer que os engenheiros certificaram que aquele avião voa corretamente, que as agências responsáveis fiscalizam suas condições periodicamente, que os pilotos sabem voar, uma vez que tem uma licença para tanto etc. Não fosse assim, viveríamos todos em constante pânico. Mas aviões caem, por vezes. Carros sofrem acidentes.

Em tudo que se faz socialmente, há risco e erro. Risco zero e possibilidade zero de erro equivalem a um custo infinito. Estamos intuitivamente acostumados com isso, sem perceber. Quando se vai construir um prédio, opta-se pela resistência de seus materiais. Um edifício que resistisse a qualquer terremoto, maremoto, incêndio, vulcão, teria um custo infinito. Obviamente, não se segue por este rumo. Admite-se, portanto, que há um ponto de equilíbrio: é o chamado risco tolerável. O mesmo vale para os aviões, carros e urnas eletrônicas.

A questão reside, portanto, em saber qual o risco tolerável e se a impressão do voto reduz o risco com um aumento também tolerável de custos. A resposta é não para ambas as questões. O tempo a mais que cada eleitor levaria para fazer a verificação do voto impresso (eventualmente retificá-lo, se perceber que votou errado), além daquele decorrente das esperadas falhas de equipamento, faria com que precisássemos duplicar ao menos os locais de votação. Essa duplicação implica, por óbvio, na duplicação dos recursos físicos e humanos necessários para conduzir as eleições. Duas vezes mais mesários, duas vezes mais escolas requisitadas, duas vezes mais urnas. Não se justifica esse acréscimo de praticamente 100% no custo da eleição para reduzir um erro irrelevante e, como dito em questões anteriores, aumentando os riscos de que terceiros tenham acesso a como cada eleitor votou.

11) Mas então você está dizendo que nosso sistema é perfeito? Que não há nada a melhorar nele?

Não, jamais disse isso. Todo sistema admite melhorias, sem dúvida. No caso das urnas eletrônicas, por exemplo, a identificação biométrica (com impressão digital), quando concluída, tende a praticamente zerar as fraudes daqueles que votam em lugar de outra pessoa. Sempre haverá espaço para a burla, para a sacanagem, o crime. Somos humanos, está em nossa natureza. Mas um debate como esses deve ser desapaixonado. As soluções devem ser pensadas de acordo com o quanto efetivamente acrescentam de segurança, vis a vis seu custo.

Somos um país em desenvolvimento. Temos poucos recursos públicos para todas as áreas. O cobertor é curto. Não podemos sair gastando recursos desproporcionais, apenas para aplacar a demanda psicológica por segurança. É fato que o TSE demorou muito para perceber que é imprescindível manter a confiança no sistema de votação. Com as gestões dos ministros Toffoli, Mendes e Fux, nos últimos anos, este tema ganhou relevância. São muitas questões técnicas, diversas das quais não foi possível tratar neste post, sendo compreensível que os cidadãos em geral não tenham intimidade com elas.

Por fim, é preciso dizer que até hoje nunca existiu uma falha detectada no sistema de votação, totalização e apuração da Justiça Eleitoral. A comparação entre os boletins de urna e os valores totalizados jamais mostrou discrepância. As votações paralelas em urnas selecionadas aleatoriamente, jamais apontaram erro. O que há, em verdade, é que toda eleição apertada gera a ideia que houve “armação”. Isso é comum nas cidades e, por conta do resultado de 2014, se espalhou pelo Brasil a sensação de que o voto impresso melhoraria a segurança do sistema. Apenas o pânico do desconhecido em nova forma. Agora, em 2018, voltamos a ouvir as mesmas vozes, ainda mais agudas. Que saibamos espalhar informação e combater os boatos infundados.

Fernando Neisser, Doutor em Direito pela USP, é advogado especialista em direito eleitoral e um dos coordenadores da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep).


O autor havia publicado parte deste texto na forma de artigo para o portal JOTA.

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