21 de set. de 2018

Líder evangélico que apoia Bolsonaro chamou Alckmin de ‘presidente’ e tinha Cunha como fiel de sua igreja

Em 2016, ainda na interinidade, Temer recebeu Robson Rodovalho e um grupo de pastores
O bispo Robson Rodovalho, presidente da Confederação dos Conselhos de Pastores Estaduais do Brasil, Comcepab, anunciou apoio a Jair Bolsonaro.

Ele conta que pesou o “antipetismo” de JB, além da identificação com a defesa da “família tradicional” e supostos “valores evangélicos” (sic).

“O Brasil está dividido entre direita e esquerda e tivemos que nos posicionar. O Bolsonaro foi se consolidando, não apenas só com esses valores, mas do ponto de vista da economia, de um governo sólido, democrático e maduro”, diz.

O extremista “consegue colocar um freio de arrumação no Brasil”.

Então tá.

Até dois meses atrás, Rodovalho (não é nome de xarope) ia de Alckmin.

Em julho, nas comemorações dos 40 anos de sua igreja, Sara Nossa Terra, Geraldo subiu ao palco com dona Lu e foi homenageado com uma oração.

“Ilumina o caminho, Senhor, do nosso pré-candidato à presidência e governador Geraldo Alckmin”, conclamou bispa Lúcia, a senhora de Rodovalho.

O marido chamou Geraldo de “presidente”. Questionado pelo Estadão, respondeu que foi por “elegância”.

Alckmin foi rifado porque não tem chance. Bolsonaro é o cavalo em quem a turma aposta. Não por afinidade cristã, pelo amor de Deus, mas pelo projeto de poder.

Rodovalho está na luta desde tempos imemoriais.

Cunha recebe Robson Rodovalho na Câmara

Em 2002, lançou um manifesto pró-Lula em que afirmava que o petista “tem afirmado acreditar nos valores maiores das Sagradas Escrituras, como Deus, família, moral, ética, liberdade religiosa e democracia”.

Soa familiar?

Em 2006, reafirmou o apoio. Fez campanha para Dilma I “porque o país foi dirigido pela direita a vida inteira” (pois é). 

Eleito deputado federal em 2006, teve seu mandato cassado por infidelidade partidária no TSE quatro anos depois.

Um dos fiéis de sua empresa foi Eduardo Cunha, que depois se bandeou para a Assembleia de Deus, mas sem jamais romper com a antiga casa (“laços de amizade que permanecem”, afirmou Rodovalho).

Abençoou Temer com seus colegas. Pediu “combate à ideologia de gênero”, papagaiada que ninguém sabe o que significa mas inflama milhares de fanáticos.

Em janeiro, Henrique Meirelles, então ministro da Fazenda, participou de um culto na sede em Brasília para vender a reforma da Previdência.

Coincidentemente, a Fundação Sara Nossa Terra havia recebido R$ 862,8 mil de verba publicitária do governo Temer. Um mês antes da palhaçada de Meirelles, pingaram R$ 188,7 mil.

O amor de Rodovalho e seus evangélicos por Bolsonaro é tudo, menos de graça.



Kiko Nogueira
No DCM
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Moro usou depoimento sem provas para condenar Lula, indica parecer de Janot


A sentença do caso triplex proferida por Sergio Moro contra Lula foi golpeada por um parecer enviado pelo ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao Supremo Tribunal Federal, no mês passado.

No documento (em anexo, abaixo), Janot afirma que Léo Pinheiro não fechou acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal e, portanto, "não há nenhum elemento de prova obtido a partir dessas tratativas preliminares." Além disso, o então PGR apontou que mesmo que o acordo tivesse sido fechado e homologado pela Justiça, seria necessário investigar se as falas e os indícios de provas eventualmente entregue por Pinheiro seriam verdadeiros.

O entendimento caiu nas graças da defesa de Lula, que utilizou o parecer de Janot para sustentar, perante o tribunal que vai revisar a sentença de Moro, que o ex-presidente foi condenado apenas com base em falatório sem provas.

Moro sentenciou Lula a 9 anos e seis meses de prisão mais pagamento de multas que ultrapassam os R$ 13 milhões exclusivamente a partir dos depoimentos de Léo Pinheiro e Agenor Franklin Medeiros, ex-executivos da OAS. Como não há acordo de colaboração, eles falaram contra Lula na condição de corréus - ou seja, sem compromisso de dizer a verdade.

Segundo Janot, "eventuais tratativas preliminares [com Pinheiro e Medeiros] não interessam à defesa de qualquer acusado – aí incluído o reclamante [Lula] –, tanto porque, nesse momento, ainda não se tem certeza acerca do fornecimento de informações incriminadoras."

Para a defesa de Lula, Janot também assinalou que uma delação informal e sem provas jamais deveria ter sido base fundamental para uma sentença condenatória.

“Somente após o juízo homologatório, no qual cabe ao juiz aferir o cumprimento da legalidade do acordo, em seus aspectos formais, há a apresentação de elementos de corroboração das informações anteriormente prestadas por parte do colaborador. Para fins de instrução do processo criminal, tais elementos é que, ordinariamente, interessam de fato, na medida em que as declarações dos colaboradores, isoladamente, não podem subsidiar a condenação do acusado", apontou Janot.

O posicionamento do ex-PGR foi inserido em uma representação enviada ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região pelos advogados Cristiano Zanin, Valeska Martins e Roberto Batocchio, nesta terça (19).

Eles assinalaram, no documento, que segundo entendimento de Janot, "Léo Pinheiro não apresentou qualquer elemento concreto que pudesse incriminar o Peticionário [Lula] e, além disso, (o depoimento por ele prestado como corréu na presente ação — sem o compromisso da verdade — não poderia servir de base para a prolação de uma sentença condenatória."

"De mais a mais, o Procurador Geral da República reconhece que se a delação de Léo Pinheiro vier a ser homologada — o que não ocorreu até a presente data — haverá necessidade de investigação, pois as palavras de um delator nada provam. Mas, no caso da sentença recorrida, as palavras de Leo Pinheiro, como já dito, serviram para impor uma inaceitável condenação sem prova de culpa ao Peticionário, o que não pode ser admitido", acrescentou a banca.

A defesa ainda avaliou que a delação informal de Pinheiro diante de Moro e dos procuradores de Curitiba, "buscando incriminar indevidamente" o ex-presidente, foi reportardo pela imprensa como "condição para destravar esse acordo de colaboração que vêm sendo negociado há muito tempo".

O pedido dos advogados de Lula é para que o desembargador João Gebran Neto adicione o parecer de Janot aos autos do caso triplex no TRF4.

“Somente após o juízo homologatório, no qual cabe ao juiz aferir o cumprimento da legalidade do acordo, em seus aspectos formais, há a apresentação de elementos de corroboração das informações anteriormente prestadas por parte do colaborador. Para fins de instrução do processo criminal, tais elementos é que, ordinariamente, interessam de fato, na medida em que as declarações dos colaboradores, isoladamente, não podem subsidiar a condenação do acusado – muito embora sejam suficientes para fundamentar a decisão de recebimento da denúncia.

Arquivo




Cíntia Alves
No GGN
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Sustenta a prole que o pai tá preso

Ninguém escolhe os pais que tem. A não ser Édipo, que escolheu a mãe, embora não a tenha escolhido pra ser sua mãe, mas mãe dos seus filhos.

Tudo seria muito mais fácil se pudéssemos escolher nossa ascendência. Pessoalmente, penso que escolheria o Suplicy e a Palmirinha. Nada contra meus pais, mas seria bom mudar de vez em quando.

"Filho, tá saindo um bolo de fubá quentinho!” “How Many Roads Must a Man Walk By....” “Fala pro seu pai parar com o Bob Dylan.” “Before you can call him a man...” “Para, Eduardo.”

Digo isso porque sempre me compadeço dos filhos de pai corrupto. Não deve ser fácil herdar o nome Picciani, nem tampouco a papada. Pensando nisso, o MDB fluminense está com uma iniciativa ma-ra-vi-lho-sa.

Há quem diga que a esquerda goste de “defender bandido”, mas pouca gente se preocupa tanto com a família de presidiários quanto o MDB do Rio. Os três candidatos que mais ganharam dinheiro de fundo partidário foram os filhos de Cunha, Cabral e Picciani — ambos os três (trambos?) na cadeia.

Danielle Cunha, a herdeira do Cramunhão, o bebê do bebê de RoseMary, ganhou R$ 2 milhões do fundo público — mesmo sendo esta sua primeira incursão na política, e mesmo tendo o carisma de uma tomada de três pinos.

Leonardo Picciani ganhou um milhão e meio. Você acha que ninguém mais vota num Picciani? Ele também acha. Deixou a barba crescer e diminuiu a fonte do sobrenome Picciani, pra fingir que é um Leonardo qualquer. Marco Antonio Cabral, que já foi o Cabralzinho, agora é só Marco Antonio — como se a fuça o deixasse esconder a filiação. Ganhou um milhão e meio de fundo público pra beber até esquecer que o pai quebrou o Estado.

Viva o MDB-RJ. Há quem se preocupe com o bem-estar do presidiário — mas é preciso muita generosidade pra doar milhões de reais pra sua família.

Gregório Duvivier
No fAlha
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Merval e a Democracinha


Faltam ainda duas semanas até a eleição, mas, a não ser no caso de uma improvável reviravolta, a disputa presidencial deve ser decidida entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Ciro Gomes ainda tem chances remotas de rivalizar com Haddad – o Datafolha dessa semana o coloca no páreo, mas tudo indica que a pesquisa do Ibope publicada na véspera, que aponta o petista já isolado em segundo lugar, captou melhor para onde o vento está soprando.

Em certo sentido, o segundo turno já começou. E o nome que o establishment tanto esperava não vingou. Luciano Huck flertou com a ideia e recuou (não foi desta vez que pudemos assistir à entrevista dele à bancada do JN); João Doria tentou furar a fila e não conseguiu. A missão sobrou para Geraldo Alckmin, mas nem com a tropa do centrão e com um latifúndio de tempo de tevê sua candidatura decolou. O tucano só parece ter chances de ressuscitar politicamente se o pior acontecer a Bolsonaro, o que também é improvável.

O fato é que Lula, da cadeia, incomunicável desde abril, deu a volta naqueles que o expulsaram do processo eleitoral. Não vai aqui nenhum juízo, apenas uma constatação. A percepção de que o roteiro eleitoral fugiu do script desenhado pelas elites renovou o fôlego do discurso de que a democracia corre risco entre nós. Os democratas que agora dizem isso são, em boa medida, os mesmos que, vestidos de verde e amarelo, confraternizavam em 2016 na avenida Paulista com aquelas minorias sideradas que pediam a volta dos militares ao poder e exaltavam as realizações da ditadura. Alguns dirão que eles não se misturavam. Vamos dizer, então, em nome da precisão histórica, que eles conviviam no mesmo espaço sem grandes problemas e tinham um inimigo comum: todos os que vestissem uma camisa vermelha.

É possível que a democracia esteja mesmo correndo risco. Bolsonaro, do hospital, lançou mais uma vez suspeitas sobre a urna eletrônica e sugeriu que o processo eleitoral será fraudado. Ou seja, se ele perder, foi roubo. Seu vice, aquele a quem Ciro Gomes chamou de jumento de carga, defendeu por sua vez na GloboNews que o presidente da República tem o direito de dar um autogolpe caso perceba uma situação de anarquia. Celso Rocha de Barros publicou uma coluna impecável sobre isso na Folha no último dia 17. É, pois, com esses senhores que estamos lidando. Mas não apenas com eles. Está na praça, com força novamente, o discurso delirante de que as falanges de Bolsonaro e os companheiros do PT representam riscos equivalentes à vida democrática ou ao convívio civilizado no país. Eu disse delirante, poderia dizer também desonesto. Não acredito, sinceramente, que seja esse o caso de alguém como Merval Pereira, um cidadão de bem.

As pesquisas eleitorais deixaram o colunista de O Globo de bigodes eriçados. Ontem, dia 20, ele publicou no jornal um artigo chamado “Um país congelado”. A imagem servia para introduzir a ideia de que estamos revivendo, quase trinta anos depois, a disputa entre Collor e Lula. Não é uma analogia propriamente ruim, mas também não nos leva muito longe. “Essa história já conhecemos, e termina mal”, escreve o imortal (sim, ele é membro da Academia Brasileira de Letras). A história, na verdade, terminou bem, porque o impeachment de Collor, em 1992, foi um marco do fortalecimento da democracia então incipiente no país. Justamente o contrário do que representou a destituição de Dilma Rousseff em 2016. Há mais uma diferença. Em 1989, o Grupo Globo apoiou Fernando Collor, sem muita preocupação de disfarçar isso. A Globo hoje não irá apoiar Bolsonaro (nem Haddad, obviamente). Algo, então, melhorou no país, não é mesmo?

Sigamos. “O Lula de 2018 está mais próximo do de 1989 do que daquele de 2002”, diz Merval. O leitor fica curioso diante de afirmação tão peremptória. O PT estaria tramando na surdina uma reforma agrária de feições bolivarianas? Estaria tentado a dar calotes nos credores do governo? A romper com os contratos? A transformar o Brasil num imenso Museu Nacional? A explicação mervalina vem algumas linhas adiante. Transcrevo o parágrafo na íntegra:

“O PT de Lula só quer saber de pacificação circunstancialmente, por pragmatismo eleitoral. Eleito, Haddad fará um governo na linha petista ditada por Lula, radical e antidemocrática. O PT de 2002 na verdade nunca existiu, era só uma fachada para o grupo político chegar ao poder e atravessar os primeiros anos sem turbulência.”

O que pensar dessas linhas tão criativas? Teria sido a coluna hackeada pelo general Hamilton Mourão? O autor desses disparates – chamemos as coisas pelo nome – é frequentemente apontado por colegas da imprensa como uma espécie de porta-voz dos patrões. Não acredito nisso. João Roberto Marinho transmite a sensação de ser uma pessoa sensata. Duvido que ele pense que o PT de 2002 na verdade nunca existiu.

Mais adiante, Merval volta a desabafar:

“Eleição estranha, com dois candidatos de campos antidemocráticos, e liderando com os índices de rejeição maiores do que as intenções de voto. Depois do mensalão e do petrolão, e da tentativa permanente de desacreditar, aqui e no exterior, nosso sistema judicial, fica muito difícil imaginar que o PT possa ser considerado um participante do campo democrático legítimo, da mesma forma como é difícil avaliar assim Bolsonaro, por seus atos e pelo que sugerem seus principais assessores.”

Recapitulando: na cabeça do imortal, o PT de 2002 não existiu, era só fachada, e o partido não pertence ao campo democrático legítimo. Lula e Bolsonaro se equivalem.

Não consigo evitar certo constrangimento diante da sensação de estar tomando o meu tempo e o tempo do leitor com um texto de opinião bastante medíocre, cujo autor oscila entre acessos apopléticos de indignação e reiterados engasgos de raciocínio. Por outro lado, não há como deixar de reconhecer que Merval Pereira é um bom termômetro da febre que acomete o país. Ele é o sintoma de algo que o ultrapassa. Ele é a prova viva e involuntária de que a democracia brasileira corre, sim, riscos de ir pelo ralo.

Fernando de Barros e Silva
No Piauí
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O efeito da mídia nas eleições

Os meios de comunicação estão entre a cruz e a espada... E com menos poder de influência. Mas este fosso foi cavado por eles mesmos

A Globo vai embarcar?
O efeito dos meios de comunicação é o Santo Graal de todos os pesquisadores da área de mídia e política. É claro que sabemos que ela tem efeito sobre a formação de opinião, pois a quase totalidade das informações sobre política que os eleitores recebem em sociedades complexas como a nossa advém da mídia.

Ao mesmo tempo, é muito difícil estimar com precisão a intensidade desse efeito. A edição do debate entre Lula e Fernando Collor no Jornal Nacional às vésperas do segundo turno da eleição de 1989 foi decisiva para o resultado final da disputa? Provavelmente sim, mas nunca saberemos se foi fator decisivo.

Por outro lado, parece líquido e certo que a mídia brasileira teve papel importante no sucesso da campanha para remover Dilma Rousseff da Presidência da República, movendo-lhe campanha negativa de intensidade nunca antes recebida por um político em nosso país depois do fim da ditadura.

O fato de o efeito da mídia ser difícil de estimar não cancela outro fato muito importante: a mídia tem se esforçado, eleição após eleição, para produzir efeitos eleitorais, quase sem exceção contra candidatos de esquerda e a favor de seus opositores, da direita ou centro-direita.

Nas eleições presidenciais da Nova República esses papéis têm sido desempenhados por PT e PSDB, ao menos até 2014. Eleição após eleição vimos a liderança das pesquisas ocupadas por candidatos petistas e peessedebistas, e os meios de comunicação se esforçando para favorecer as candidaturas tucanas.

O pleito de 2018 parece ter rompido com esse paradigma. Primeiramente, Geraldo Alckmin, do PSDB, a despeito da ampla aliança partidária que o sustenta, não consegue alavancar suas intenções de voto e quebrar a barreira do dígito único, tão importante para ser competitivo no primeiro turno.

Os outros candidatos da direita e centro-direita, João Amôedo, Henrique Meirelles e Álvaro Dias, nasceram nanicos e, como indicam os resultados da última pesquisa do Ibope de 18 de setembro, estão em pleno processo de encolhimento, provavelmente devido a uma certa antecipação do segundo turno por parte dos eleitores conservadores. Assim, sobra Jair Bolsonaro, candidato de extrema-direita que até agora tem recebido cobertura bastante negativa da imprensa.

A quebra de paradigma tem razões mais profundas, relacionadas ao comportamento pregresso da própria mídia. Se examinarmos o perfil da cobertura nos dados da base do Manchetômetro, veremos que sequer houve uma tentativa de promover Alckmin.

Ao contrário, o número de matérias negativas sobre ele aumentou muito ao nos aproximarmos do período de campanha, prática que não ocorreu com outros candidatos do PSDB em pleitos anteriores. E essa cobertura negativa está ligada a denúncias de corrupção. Só para citar um exemplo, a entrevista dele com os âncoras do Jornal Nacional foi dominada pelo tema da corrupção, em intensidade somente inferior à entrevista de Haddad.

No paradigma original, PT contra PSDB, a mídia operava basicamente por meio da exploração de escândalos contra o PT ao passo que dedicava uma cobertura neutra aos tucanos, deixando de explorar escândalos do partido mesmo quando eles vieram à público, como em 2014.

Contudo, ao longo processo de criminalização da política promovida desde o mensalão até os dias de hoje, com sua intensificação sob o signo da Lava Jato, a imprensa foi progressivamente se descolando da direita política e se aliando a burocracias de Estado, Judiciário e Ministério Público.

É isso que explica o fato de vermos o PSDB ser lançado na vala comum da criminalização da política, onde antes estava somente o PT. A aposta dos tucanos em uma aliança com a mídia e as burocracias de Estado para derrubar o petismo por vias extra-eleitorais, o que muitos chamam simplesmente de golpe, acabou voltando para lhes morder o traseiro, como dizem nossos “irmãos” daquele grande país do norte.

Agora, contudo, tenho a impressão de que é a vez da mídia ter seu traseiro mordido em razão de suas próprias escolhas. Ao apostar na criminalização da política de maneira tão intensa, ela terminou por minimizar sua capacidade de produzir efeito eleitoral.

Vejamos. Seu principal instrumento de produção desse efeito era o uso dos escândalos de corrupção de maneira dosada e enviesada, como dito acima.

Agora, todos os políticos de “partidos tradicionais” estão na vala comum da criminalização e o próprio tema da corrupção atingiu tal saturação que é dubitável que ainda seja efetivo na conquista de votos.

A solução possível para essa cilada em que a mídia meteu a si própria seria um candidato outsider, mas esses aos poucos foram descartados do processo eleitoral. Joaquim Barbosa desistiu cedo, Luciano Hulk nem entrou, Marina Silva, possível opção, agora disputa com Geraldo Alckmin o apelido jocoso de Walking Dead, referência a uma série norte-americana que retrata a vida de um grupo de personagens durante um apocalipse zumbi.

Sobra o candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro, produto direto da criminalização da política. Sim, Bolsonaro encarna todos os chavões da anti-política, inclusive o do outsider, a despeito da flagrante hipocrisia dessa pretensão. Ele é a criatura e a mídia, a criadora. Ele teria a relevância de um Enéas se a imagem da política não tivesse sido sistematicamente dilapidada pelos meios de comunicação em colaboração com tucanos e aliados.

Para insistir na sua missão de tentar influenciar o resultado eleitoral, a mídia é forçada a escolher entre o apoio a Bolsonaro ou a Haddad. No primeiro caso incorreria em risco grande, pois o candidato parece ser inconfiável, não tem partido ou base social organizada e já manifestou várias vezes disposição de atacar frontalmente sua criadora. Pior ainda, defende uma pauta de valores tão conservadora que deixaria boa parte da imprensa em posição bastante incômoda frente a seus consumidores.

O apoio a Haddad é algo quase impensável, devido à história pregressa da relação entre mídia e PT. Contudo, um pacto de não agressão com os meios que mais rejeitam o autoritarismo e o obscurantismo programáticos de Bolsonaro talvez seja possível. Isso implicaria em uma reavaliação da atual aliança entre esses meios e as burocracias de Estado.

Nenhuma das opções é tranquila para os meios de comunicação. Aqueles que conhecem sua história não têm razões para otimismo. Fato é que, no jogo de destruição institucional em que o País foi metido, todos perdem e muito.

João Feres Júnior, Professor de Ciência Política do IESP-UERJ, o antigo Iuperj. Coordenador do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) e do Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública (LEMEP), que abriga o site Manchetômetro
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Fernando Haddad, candidato de Lula à Presidência, participa do debate de Aparecida


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A História do Golpe- Ato II


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Nova pesquisa mostra empate técnico entre Haddad e Bolsonaro


Pesquisa do instituto DataPoder360 apresenta o candidato do PT a presidente, Fernando Haddad, em um quadro de empate técnico com o candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro (PSL). 

Segundo a pesquisa, Bolsonaro aparece com 26%, seguido de Haddad com 22%. Ciro Gomes (PDT) aparece em terceiro com 14%, Geraldo Alckmin (PSDB) com 6% e Marina Silva, com 4%. 

A pesquisa DataPoder foi realizada por telefone, entre os dias 19 e 20 de setembro com 4.000 eleitores em 422 cidades das 27 unidades da federação. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos. Os números foram divulgados em newsletter para assinantes do site Poder 360. 

Confira os dados:

Eu apoio o 247
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Atentado, perguntas sem respostas


A investigação sobre o atentado contra o candidato Jair Bolsonaro tem gerado mais desconfianças do que esclarecimentos junto à população. Duas semanas após o ocorrido, a única informação prestada pelas autoridades é a de que a investigação foi desdobrada em duas partes. Uma delas, seria a primeira fase, a do atentado em si, outra, posterior, que investigará a existência ou não de mandantes.

O fato concreto é que a demora no esclarecimento dos fatos, somada a veiculação de informações pontuais pela imprensa, provoca uma série de questionamentos. O primeiro deles é qual é o critério, ou interesse, em separar o processo de investigação em duas partes? Diante da tensão política reinante, não seria aconselhável dar celeridade ao conjunto da investigação?

Qual a explicação para a existência de registros de entrada de Adélio nas dependências da Câmara dos Deputados no dia do atentado – 6 de setembro – divulgada apenas hoje, pela imprensa? Por que a Câmara dos Deputados havia informado anteriormente sua presença na instituição apenas em 2013? Qual a origem do registro, quando foi realizado no sistema da Casa, com documentos de identidade? O que o presidente da Câmara dos Deputados tem a dizer sobre isso?

Também, por que o chefe da segurança da equipe da Polícia Federal não se encontrava no dia do atentado, em Juiz de Fora, comandando a proteção ao candidato? Por que os policiais não usavam rádio, que consideram mais adequado, para coordenar as ações de segurança? E, ainda, por que o ausente chefe da segurança da PF foi afastado, sem maiores explicações?

É fato que a arma foi encontrada embaixo da barraca de um comerciante, por indicação de um popular em meio à multidão à PM? Como o esfaqueador teria “chutado” a arma para a tal barraca, se foi usada em meio aos manifestantes, e ele foi preso pela PF na hora? É procedente a informação divulgada pela mídia de que a faca encontrada estava “ensaguentada”?.

O que explica o autor do atentado, sem ou com poucos recursos, ter a posse de um cartão de crédito internacional do banco Itaú? Qual a explicação do banco Itaú para a situação, considerando que cartões internacionais não são de uso comum? A informação de que Adélio tinha, ou tem, um passaporte procede? Ele o utilizou alguma vez?

O esclarecimento dos fatos é fundamental para que não paire qualquer dúvida sobre a autoria e a intenção do atentado. Autoridades militares já insinuaram que a repercussão do atentado poderia levar candidatos a questionar o resultado eleitoral. Assim, qualquer tentativa de postergação, manipulação de fatos ou exploração midiática apenas agravará a desconfiança da sociedade.

Fernando Rosa
No Senhor X



Há ineficiência ou má fé da PF na prorrogação do inquérito sobre Bolsonaro


Depois de falhar na proteção que devia oferecer com seus 21 agentes ao candidato Jair Bolsonaro (PSL), e se estender de forma demasiada nas investigações para descobrir as reais motivações para a agressão à faca sofrida pelo ex-capitão durante passeata em Juiz de Fora, a Polícia Federal volta a dar provas da sua ineficiência – ou má fé – ao pedir a prorrogação das investigações para elucidação de um crime cujo principal suspeito foi preso em flagrante, minutos depois de consumar a agressão.

Ao prorrogar por mais 15 dias as investigações, a PF marca a divulgação do resultado do seu inquérito exatamente para as vésperas da eleição que tem por vítima exatamente o líder das pesquisas. E que já se beneficiou do atentado como deixa claro seu crescimento nas pesquisas, em razão da cobertura da mídia que noticia a evolução do seu quadro clínico desde os primeiros momentos do atentado.

Resta saber a quem pretende servir a PF, ao marcar para as vésperas da eleição a conclusão do inquérito. Como se recorda, nas eleições de 1989, procurou-se vincular ao PT o sequestro do empresário Abílio Dinis, então dono do grupo Pão de Açúcar. Presos no cativeiro de Diniz usando camisas da campanha de Lula, os envolvidos no sequestro do empresário disseram depois que a Polícia os obrigou a vestir as roupas.

Até mesmo teses acadêmicas já provaram que ao ser relacionado ao PT e desmentido logo após a eleição, a cobertura pela mídia (O Globo, Estadão, O Globo, Veja, Tv Globo etc.) do sequestro de Abílio Diniz pode ter sido decisiva para o resultado do segundo turno da eleição, que deu a vitória de Fernando Collor sobre Lula.

Sempre às vésperas de eleição arranja-se um fato para vinculá-lo ao PT. No início da semana, insinuou-se por vias transversas que o dinheiro apreendido pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos na bagagem do vice-presidente da Guiné Equatorial seria destinado à campanha de Fernando Haddad.

No domingo passado, em entrevista ao Estadão, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, justificou o crescimento da candidatura de Bolsonaro nos quarteis “porque ele procura se identificar com as questões que são caras às Forças Armadas”.

Essas questões com que se identificam Bolsonaro e os militares não são diversas das que fizeram da Polícia Federal linha auxiliar dos órgãos de repressão da ditadura militar (1964-1985).

Isso faz com que esse papel de polícia política, que voltou a contaminar a Polícia Federal no episódio do ex-reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, que levado à morte depois de preso sem provas e afastado de suas funções da UFSC, seguida da perseguição que faz ao corpo docente da instituição, torna questionável as intenções da PF ao marcar para a véspera do pleito presidencial a conclusão do seu inquérito sobre o atentado a Jair Bolsonaro.

Geraldo Seabra
No DCM



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O descaramento do FHC


FHC foi um dos principais artífices intelectuais do golpe que impregnou a sociedade com ódio, incendiou o Brasil e devastou a economia e a soberania nacional.

A publicação da carta aos eleitores e eleitoras mostra que FHC escolheu o descaramento como traço definidor do seu caráter.

É de uma torpeza sem nome a afirmação, na carta, de que Haddad é uma das duas “soluções extremas” do espectro político – só há um extremismo a ser combatido e derrotado implacavelmente, que é o bolsonarismo em todas suas variantes. Atribuir igualmente ao PT a condição de pária da democracia é mais que oportunismo descabido, é desonestidade teórica.

Bolsonaro é o subproduto mais perigoso da decomposição política e institucional que FHC, cegado pela obsessão pelo poder e pelo rancor, ajudou a criar no país a partir da guerra política insana desatada com o exclusivo objetivo de interromper o ciclo de governos do PT.

Com a espiral do caos, todavia, muita coisa saiu errada, e o PSDB perdeu o lugar-tenente do antipetismo agora ocupado pelo bolsonarismo.

Se os democratas e humanistas nos vemos hoje diante da dramática responsabilidade de ter de derrotar a barbárie fascista para preservar minimamente um projeto civilizatório de nação, é porque FHC e o establishment criaram as condições que levaram o país a essa realidade aterrorizadora.

FHC, um ser narcisista que só enxerga o próprio umbigo, talvez não tenha querido ler a esclarecedora entrevista de Tasso Jereissati ao Estadão em 13/9.

Nela, Tasso admitiu que o PSDB, dirigido pelo Aécio, pupilo predileto do FHC, cometeu um “conjunto de erros memoráveis” que conduziram o país ao caos econômico, político e social.

Até agora, Tasso foi o único tucano que teve dignidade para reconhecer que o PSDB jogou o Brasil no abismo. Ele admitiu que os tucanos foram “engolidos pela tentação do poder”: contestaram o resultado eleitoral de 2014, se juntaram a Eduardo Cunha e Temer na conspiração para golpear Dilma com as “pautas-bomba” e a estratégia de terrorismo econômico que desestabilizaram o país, e participaram da quadrilha criminosa que tomou o Planalto de assalto.

O PDT, o PSOL e o PT/PCdoB – com Ciro, Boulos e Haddad – combatem sem tréguas e sem concessões o bolsonarismo e seu projeto fascista e ultra-neoliberal.

FHC, o establishment e a Globo, ao contrário, não expressam compromisso incondicional com os ideais civilizatórios ante a ameaça real da barbárie. Eles inclusive admitem apoiar Bolsonaro, se necessário para impedir a vitória do Haddad.

É absoluta a identidade deles com o programa neoliberal selvagem proposto pelo Bolsonaro. Como a democracia, para eles, tem apenas valor instrumental, não hesitarão em espezinhá-la, se preciso para preservar o condomínio da dominação oligárquica e seu regime de exceção.

Jeferson Miola
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Dez dicas para não ser o sem-noção que compartilha áudios falsos na eleição


Recebi, nesta quinta (20), dez áudios trazendo histórias falsas sobre as eleições. Dez. Estamos batendo recordes de ignorância. Além de mostrar que tem gente com tempo sobrando, isso prova que o ambiente ultrapolarizado desta eleição está aprofundando o comportamento tosco de passar conteúdo adiante sem usar os neurônios para analisar sua procedência ou checar se estão sustentados por fatos. Consideram que é verdade tudo aquilo que vai ao encontro de sua visão de mundo e mentira tudo o que bate de frente. Então, dá-lhe esgoto!

Em homenagem a esse número redondo, resgatei e atualizei dez sugestões para não pagar de bobo repassando áudios e correntes falsos nas listas de Zap-Zap, evitando assim criar mais pânico em uma população que já está a flor da pele.

1) Antes de mais nada, não passe adiante uma informação que parece bombástica sem checar qual a fonte da informação.

2) Um “cara gente boa”, sua mãe e seu “Best Friend Forever” não são, necessariamente, fontes confiáveis de informação. Não confunda ligação afetiva com informação objetiva. E mensagens sem assinatura, sem fonte clara, jamais devem ser aceitas como instrumento de checagem ou comprovação.

3) Cheque o nome do sujeito que ''assina'' tal declaração. Use o Google. Veja se a pessoa existe, o que faz da vida e se é realmente quem diz que é.

4) Verifique se algum veículo de comunicação conhecido tratou do áudio ou do texto (normalmente, essas informações correm rápido). Procure em sites e páginas que você conhece se elas confirmaram essa informação. Para checar, prefira sites e páginas que mostrem quem são seus responsáveis, com endereço e telefone. Muitos sites e páginas se escondem porque temem ser processados em caso de divulgar informações falsas. Ao divulgar um áudio com uma declaração bombástica, veículos e sites sérios procurariam a pessoa e ligariam para ela fim de checar a informação.

5) Não repasse o áudio ou texto só porque você não gosta de determinado político ou acha que está tudo uma droga e que algo deveria mudar. Ou por que desejaria que aquilo fosse verdade, mesmo tendo a desconfiança de que não é. A disputa entre posições políticas deve ser baseada em um jogo limpo e não em mentiras.

6) Não é por que está todo mundo comentando sobre um áudio ou texto no seu grupo de WhatsApp que ele é verdadeiro. Da mesma forma, um número grande de likes e compartilhamentos não transformam uma mentira em uma verdade. Apenas mostram que muita gente pode cair em uma fraude ao mesmo tempo.

7) Todos gostamos de sermos os primeiros a dar uma informação bombástica, porque isso cria reconhecimento público. Mas se a informação é mentirosa, ela só vai servir para gerar pânico. Ou seja, você vai estar ajudando a atrapalhar a vida dos outros. Há outras formas de afagar o ego.

8) Se você perceber que um áudio ou texto tem grandes chances de ser falso ou tem evidências disso, não fique em silêncio com medo de ser o chato ou a chata do grupo. Avise aos demais para tomarem cuidado com o conteúdo e que ele pode ser falso. Se te chamarem de ''defensor de bandido'' ou ''estraga prazeres'', não esmoreça. Quando colocada contra a parede, uma pessoa que não tem muito conteúdo ataca o interlocutor e não o argumento. Não ligue, a sua consciência limpa vale mais que a simpatia de um sem-noção do grupo.

9) Se descobrir que você compartilhou um áudio ou texto falso, avise isso ao seu grupo rapidamente. Não tenha vergonha de reconhecer o erro. Todo mundo erra, mas apenas os fortes reconhecem isso e pedem desculpas.

10) Na dúvida, não compartilhe textos e áudios que trazem notícias como fraudes em urnas, doentes em hospitais ou golpes militares iminentes sem checar. Isso é equivalente a gritar ''fogo!'' em um teatro lotado sem ter a certeza disso, o que pode criar problemas.

Leonardo Sakamoto
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Luis Roberto Barroso, o camaleão que travou


O estilo camaleão sempre foi uma tecnologia dos políticos, especialmente em períodos de grandes transformações. Confira a destreza de José Sarney ou Antônio Carlos Magalhães, baluartes do regime militar, tornando-se democratas desde criancinha no alvorecer da Nova República.

Não é exercício banal. Exige conhecimento histórico, discernimento, intuição, senso de oportunidade e coragem. Senão, vira pó.

À medida em que o Judiciário vai se articulando como partido político, esse estilo passa a ser assimilado por alguns de seus próceres, que passam a se comportar como coronéis da Constituição, administrando seu latifúndio de acordo com os ventos do momento.

Nenhum caso é mais significativo do que do Ministro Luis Roberto Barroso, do STF (Supremo Tribunal Federal). Toda sua carreira dependeu do Estado, do curso de direito na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), ao cargo de procurador do Estado do Rio de Janeiro, que acumulou com uma banca de advocacia bem sucedida.

Em um tempo em que as teses humanistas estavam em voga, fez um belo investimento em sua imagem, atuando pro bono (sem honorários) em casos de grande repercussão no STF. É só conferir seu perfil na Wikipedia para se ter uma ideia do alto retorno de imagem que obteve.

Tornou-se conhecido por seu trabalho acadêmico voltado ao direito público, bem como por sua atuação como advogado em casos de grande repercussão perante o STF, tais como a defesa da pesquisa com células tronco embrionárias e da união entre pessoas do mesmo sexo. Além de exercer a advocacia desde 1981, foi também procurador do Estado do Rio de Janeiro desde 1985 até sua indicação para o cargo de ministro do STF pela presidente Dilma Rousseff em 2013.

Quando os ventos mudaram em direção à direita, depois de alguns suspiros de respeito à Constituição, Barroso deu início à sua rumba.

No início, foi meio light, cavalgando a bandeira do empreendedorismo. Em qualquer voto, tratava de incluir um parágrafo atribuindo os malfeitos ao Estado e a salvação ao empreendedorismo. Mesmo que o caso analisado não tivesse a menor relação com o tema.

Aí, se deu conta de que a grande corneta era a Lava Jato. Tratou de deixar as firulas econômicas de lado e transformar-se em um anjo vingador, lançando dardos retóricos contra os ímpios, e transformando a ação penal em instrumento de “refundação” do país.

Mas não dava para mudar de feijoada para comida vegana sem uma boa nota de rodapé. E Barroso decidiu se transformar em pensador social. Foi encantador acompanhar esse desfraldar sociológico de Barroso, seu deslumbramento quando descobriu a palavra “empoderamento” e quando passou a recitar lugares-comuns capturados nas orelhas das brasilianas.

Descreveu o jeitinho brasileiro, descobriu a malandragem das empregadas domésticas, saudou seu colega Joaquim Barbosa, o negro que deu certo. E indignou-se, indignou-se, indignou-se repetidamente, reiteradamente, com a corrupção vigente. A cada brado de indignação, despertava rugidos dos pitbulls do MP, do Judiciário, da Polícia Federal e da malta, os brutos que habitam a alma do povo em qualquer tempo da história, e saem às ruas espalhando destruição assim que se rompem as amarras institucionais do país. E Barroso prosseguia no seu trabalho de desconstrução das instituições, tirando um parafuso da porta, quebrando o cadeado, tirando as algemas legais das bestas.

Seu apogeu foi quando descobriu o termo “refundação”. Ninguém segurou mais. Refundava o Brasil em cada palestra, em cada entrevista na Globonews.

Ele, advogado de grandes corporações, parecerista em defesa do amianto, com um escritório que oferecia serviços tipo textos de anteprojetos para serem apresentados naquele lupanar chamado Congresso Nacional pelos lobistas bancados por seus clientes, indignou-se como uma donzela pudica em uma sauna masculina.

Mas assim como os políticos dos partidos, os políticos do Judiciário não podem ficar só no discurso negativo. Há a necessidade de um final feliz, um prá frente Brasil. Barroso desenvolveu, então, o mote da bonança depois da tempestade. O quadro atual é feio, mas é prenúncio de um futuro radioso. Pois, como disse Norberto Nobbio, quando o passado morreu e o futuro ainda não nasceu o cenário fica momentaneamente ruim.

Não havia nenhuma indicação de melhora, pelo contrário. A cada dia, piorando. A coisa tá ficando feia, Ministro. Pois é, quanto mais feia, mais radioso o futuro que nos espera. E a besta ganhando o formato de um capitão da reserva...

Aí ele emendava com votos de fé no Brasil. Afinal, foi um país que venceu a hiperinflação e conseguiu reduzir a miséria pode tudo. Nem adiantava pontuar que todos os instrumentos de combate à miséria estão sendo eliminados pelo governo que ele ajudou a colocar no poder e por uma lei do teto, que ele ajudou a legalizar. E o país voltou a conviver com manchas de fome crônica.

Até que chega o fator Bolsonaro. Ou seja, depois da tempestade, anuncia-se um terremoto de proporções ciclópicas. A cada dia que passa, a cada aumento da ameaça Bolsonaro, mais nítido fica sendo o papel de Barroso, de estimulador do discurso de ódio e de desacato a princípios básicos de direito. Até os mais lerdos já conseguem entender relações claras de causalidade entre o discurso de legitimação do Estado de Exceção, de Barroso, e o caos político que o país passou a enfrentar.

Como é que o nobre Barroso vai dar o salto tríplice, agora?

Na posse de Dias Toffoli na presidência do Supremo, via-se um Barroso, claramente derrubado, repetindo pela enésima vez o discurso anticorrupção. O escultor ficou prisioneiro da escultura que modelou para si. Dorian Gray finalmente conseguiu se enxergar no espelho.

Não mais o bravo constitucionalista defensor das grandes causas – imagem que Barroso construiu para si, com a habilidade de um marqueteiro. Mas apenas o boquirroto envelhecido, temendo o momento decisivo, em que irá parar na frente do Alvorada balbuciando slogans incompreensíveis, até que Bolsonaro mande um guarda tirar aquele chato dali.

No segundo turno haverá muita gente torcendo pela derrota do bolsonarismo. Nenhuma com o fervor de Barroso, em pânico com o bebê de Rosemary que ele, Barroso, colocou no mundo.

Luís Nassif
No GGN
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A distância Ciro-Haddad

https://www.jb.com.br/colunistas/coisas_da_politica/2018/09/8319-a-distancia-ciro-haddad.html

Esperamos todos por uma pesquisa tira-teima. Embora coincidentes na identificação da tendência na disputa presidencial – consolidação de Bolsonaro na liderança e crescimento de Fernando Haddad - houve uma discrepância importante entre as pesquisas Ibope e Datafolha no que diz respeito à distância entre o petista e o candidato do PDT, Ciro Gomes. O Ibope deu 28% a Bolsonaro e trouxe Haddad com 19%, fruto de um crescimento de 11 pontos porcentuais em uma semana. Ciro ficou onde estava, com 13%. O Datafolha também trouxe o capitão com 28% e Ciro com os mesmos 13%, mas identificou crescimento bem menor do petista, que teria crescido apenas três pontos, passando de 13% para 16%.

Os eleitores, tanto quanto os candidatos, precisam confiar nas pesquisas. Para muitos, elas são orientadoras da decisão. No dia em que a revista “The Economist” circulou com um foto de Bolsonaro na capa, apontando-o como a nova ameaça não só para o Brasil como para a América Latina, Ciro Gomes ressurgiu em cena como o adversário mais capacitado para derrotá-lo. Ganhou um tubo de oxigênio. Segundo o Datafolha, Haddad empataria com Bolsonaro no segundo turno, ficando ambos com 41%. Hoje, a vitória poderia ser de um ou de outro. Já Ciro Gomes ganharia do indesejado por 45% a 39%. Este indicativo do Datafolha produziu análises e movimentos imediatos, no sentido de que é possível evitar dois males com um Ciro só. Crescendo mais um pouco, com votos de lulistas que deixariam de ir para Haddad, de indecisos, e de eleitores de Alckmin, o pedetista ainda poderia chegar ao segundo turno como terceiro caminho. Evitaria a volta do PT e liquidaria com Bolsonaro.

Fhc

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que antes havia admitido votar em Haddad para evitar a eleição de Bolsonaro, divulgou carta em rede social alertando para o quadro eleitoral “sombrio” e apelando à unidade das forças de centro para evitar a escolha entre o “demagogo” e o “salvador da pátria”. Haddad ainda não pode ser definido como tal mas certamente FH se referia a seu patrono, o ex-presidente Lula. A senadora Gleisi Hoffman, presidente do PT, reagiu à iniciativa dizendo que “Bolsonaro é cria dos tucanos. Daqueles que não aceitaram o resultado das urnas em 2014, deram o golpe, foram para ogoverno Temer e aprovaram as reformas que jogaram o país na crise”. A temperatura está subindo.

Quando FH fala em unidade do centro, não deve estar pensando em unidade em torno de Alckmin, que encolheu ligeiramente nas duas pesquisas e nunca se firmou nos dois dígitos. Nem em Marina, em clara rota descendente. O único que poderia cumprir o papel de alternativa aos dois que hoje polarizam nas pesquisas seria Ciro. Mas FH, que Ciro sempre criticou tão acidamente, não chegou a pregar a união em torno dele.

Uma nova pesquisa precisa esclarecer a verdadeira distância entre Ciro e Haddad. As articulações por uma terceira via são uma reação desesperada e tardia das forças que vão ficando fora da disputa. Mas há também o eleitor sinceramente empenhado em votar da forma mais consequente para evitar o perigo representado por Bolsonaro – perigo para a democracia e para o pacto civilizatório que alcançamos. Este eleitor espera a pesquisa tira-teima para decidir seu voto, dar-lhe mais utilidade.

Pedras para Haddad

O PT não se abala com a discrepância entre as pesquisas, certo de que Haddad continuará crescendo. A transferência dos votos de Lula ainda está longe de se completar, embora seja impossível alcançar a marca dos 100%. Mas, embora ele tenha disparado no Nordeste, onde passou de 8% para 31% na pesquisa Ibope, no intervalo de uma semana, o comando de campanha identifica obstáculos que ele precisa superar rapidamente: crescer em São Paulo, onde Bolsonaro está sólido com 30%, e o petista tem apenas 13%. Melhorar sua performance no Rio, onde Bolsonaro tem 37% e ele 11%, e também em Minas, onde o placar é semelhante, segundo o Ibope.
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Globo reforça Operação Ciro com capa de Época e editorial de Merval


Líder do golpe de 2016, que destruiu a economia brasileira e assegurou a entrega do pré-sal às petroleiras internacionais, o grupo Globo decidiu reforçar a sua "Operação Ciro Gomes", que consiste em buscar uma terceira via entre a candidatura de Fernando Haddad, do PT, e o neofascismo de Jair Bolsonaro, que é resultado do ambiente de ódio criado pelos meios de comunicação.

Nesta sexta-feira, a Globo oferece a capa de Época a Ciro e também um editorial de Merval Pereira para tentar dividir o campo progressista e enfraquecer o PT, que pode voltar ao poder, numa vitória épica do ex-presidente Lula contra a própria Globo.

"O resultado da pesquisa do DataFolha parece ter reaberto a possibilidade de surgir uma terceira via pelo centro contra os extremos. Ciro Gomes busca esse caminho de volta às suas origens, depois de ter flertado com a esquerda nos últimos anos. Se apresenta como centro politico, nem esquerda nem direita, e parece estar mais conectado ao espírito dos tempos atuais, que favorece os candidatos mais assertivos, sem importar muito se suas promessas e ideias são factíveis. A disputa está tão radicalizada que o centro pode ser representado por Ciro, um político irascível e com ideias econômicas ultrapassadas, como proibir a fusão da Embraer com a Boeing", diz Merval, em sua coluna De volta ao jogo, que, de certa forma, condiciona o apoio da Globo a Ciro a um eventual compromisso do pedetista com o entreguismo.

Em Época, Ciro também é apresentado como uma terceira via entre "dois extremos" – o que frauda a realidade, uma vez que o ex-presidente Lula é quem verdadeiramente representa o centro político do País.

Em sua análise política semanal, o jornalista Breno Altman, editor do Opera Mundi, antecipou o que seria a "Operação Ciro Gomes" na Globo.
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Para deputado, não vote na legenda do seu partido preferido


A sugestão feita no título desse artigo pode parecer descabida para alguns eleitores. Afinal, eles gostam de um determinado partido e votar na legenda para deputado parece um caminho natural ajudar esse partido.

Minha sugestão para que o eleitor escolha um dos candidatos e não vote na legenda se deve a duas características da lei eleitoral brasileira. A primeira é a prática das coligações nas eleições proporcionais. Se gosto do partido A e ele está coligado com o partido B, meu voto ajudará A e B terem mais cadeiras, mas não contribuirá diretamente para eleger um candidato do partido A.

Tenho tentando de diversas maneiras descobrir a lista das coligações nas eleições para deputado federal e estadual do Rio de Janeiro deste ano e não encontro. Assisto ao horário eleitoral e não consigo identificar qual partido está coligado com qual. Procuro na internet e não acho as informações. Se estou em busca e não encontro, imagino os eleitores comuns.

Outra razão adicional para não votar na legenda deve-se a um dispositivo que já vigorou nas eleições de 2016 e será empregado pela primeira vez para deputado federal e estadual em 2018. Agora um candidato precisa atingir um mínimo de votos (10% do quociente eleitoral) para se eleger. Caso isso não ocorra, a cadeira conquistada pelo partido é perdida.

É difícil estimar de antemão qual será o quociente eleitoral de uma eleição. No Rio de Janeiro, por exemplo, o quociente eleitoral para a eleição de deputado federal deve ser em torno de 150 mil votos. Portanto, um concorrente deve ter cerca de 15 mil votos para poder ser eleito.

Imaginemos uma situação em que um partido recebe 310 mil votos, com a distribuição de votos tal qual a apresentada no quadro abaixo. Como o partido ultrapassou duas vezes o quociente eleitoral ele tem assegurada a eleição de dois deputados. No quadro observamos uma alta concentração de votos na legenda. Somente o candidato A ultrapassou os 15 mil votos. Desse modo, a cadeira a segunda cadeira é perdida e redistribuída para um outro partido.

 

O leitor já deve ter se dado conta que a concentração de votos em um ou mais candidatos – os puxadores de voto - pode gerar resultados semelhantes. Se mudarmos um pouco a distribuição do exemplo acima fica fácil observar. No quadro abaixo, o candidato A garante a sua eleição, mas o partido continua elegendo apenas um nome.


A regra de 10% foi introduzida na legislação para evitar que um candidato muito popular eleja outros com votação insignificante. Mas, na prática, a regra também prejudica os partidos que concentram sua votação na legenda.

Por que então não acrescentar os puxadores de voto na sugestão feita no título do artigo? A resposta é simples: nunca sabemos antecipadamente com segurança que candidatos terão votação excepcional. Por mais que alguns partidos queiram privilegiar alguns nomes, o puxador de votos só é conhecido mesmo depois que os votos são contabilizados.

Jairo Nicolau é professor de Ciência Política da UFRJ 
No Observatório das Eleições
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Aula Pública Opera Mundi com Jessé de Souza: a elite faz a classe média de tola?


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