15 de set. de 2018

Constituinte sem povo, sem parlamento e... Sem Supremo! Com um novo AI-5?

O general Mourão, candidato a vice-presidente de Bolsonaro, acaba de defender que o país faça uma nova Constituição, mais enxuta e focada em "princípios e valores imutáveis" (sic), mas não necessariamente por meio de uma Assembleia Constituinte. Sim, ele disse isso. Para ele, o processo ideal envolveria uma comissão de notáveis (sic), que depois submeteria o texto a um plebiscito, para aprovação popular. E fechou com esta frase: "Uma Constituição não precisa ser feita por eleitos pelo povo".

Bingo. É isso. Um candidato a vice-presidente, que quer chegar ao poder pelo voto, despreza a Constituição, o parlamento e o próprio Supremo Tribunal Federal. Isso porque a tese do general Mourão só tem “viabilidade” se, antes, for fechado o parlamento e, é claro, também for fechado o STF, que, por óbvio, haveria de declarar absolutamente inconstitucional uma “constituinte sem povo” (sic), outorgada por uma “comissão de notáveis” (sic), rasgando ao meio a Constituição de 1988. Tão claro isso, pois não?

Ou seja, o general precisaria, para realizar seu intento, de um novo AI-5, especialmente a redação do artigo 11: Todos os atos decorrentes deste ato são insuscetíveis de revisão pelo judiciário (especialmente pelo STF). Os mais jovens nem sabem o que isso quer dizer. Pena.

Incrível como não nos acostumamos a viver em democracia. Há um vírus que está encalacrado em nosso inconsciente. Um vírus que mistura herança escravocrata, patrimonialismo e regimes de exceção. Os períodos democráticos, quando acontecem no país, fazem com que os saudosos se cocem. Essa comichão vai crescendo e vira uma feridinha. Se deixarmos que “evolua”, teremos algo incontrolável.

Peço que os democratas ajudem a convencer a todos os partidos e candidatos — inclua-se qualquer proposta de constituinte, venha do general ou do PT ou PSDB ou do PDT ou de quejandos — que uma democracia se faz, e só se faz, respeitando as regras do jogo. Simples assim. Porque quem acha que precisa de uma nova Constituição cai em uma contradição: se não obedece a esta, mas quer uma nova, por qual razão ele obedecerá a nova?

Parece óbvio ter que dizer o óbvio, que é sempre ladino. Desvelar as obviedades do óbvio é tarefa que se impõe. O problema da fala do general não é o seu conteúdo estrito, mas, sim, o simbólico que ela representa. Parece que ele quer testar o “sistema”. Gestar o ovo da serpente. E atiçar as viúvas do arbítrio.

Chamemos, pois, os democratas. Chamemos os cientistas que podem explicar a todos que a terra não é plana (a linguagem é metafórica — o estagiário levanta a placa com os dizeres: ele-quer-dizer-que-dizer-que-a-terra-não-é-plana é óbvio, isto é... Deixa pra lá, entenda quem quiser entender). Enfim, lembremos de Darcy Ribeiro e seu Tratado de Obviedades; Deus é tão treteiro, faz as coisas tão recônditas e sofisticadas que ainda precisamos dessa classe de gente, os cientistas, para desvelar as obviedades do óbvio.

Tudo óbvio demais e nada mais tenho a dizer. Mas atentemos para a tempestade perfeita que vem se formando.

Machado de Assis, sempre ele, tem um conto chamado O Espelho – Esboço de uma Nova Teoria da Alma Humana. Quatro ou cinco cavalheiros debatem, uma noite, várias questões de alta transcendência. Quatro ou cinco? É que um deles, o quinto personagem, provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, astuto e cáustico, não discutia nunca. Naquele dia se dispôs a discutir algo, só que “a discussão” era um monólogo: “Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir”.

Pois é. Talvez o general esteja avisando: se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir!

Lenio Luiz Streck é jurista, professor de Direito Constitucional e pós-doutor em Direito. Sócio do escritório Streck e Trindade Advogados Associados: www.streckadvogados.com.br.
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A Internacional Progressista


Político mais popular dos Estados Unidos, o senador Bernie Sanders, que assinou documento contra a prisão política de Lula, lançou neste sábado um dos mais importantes documentos políticos das últimas décadas: o manifesto que pede uma Internacional Progressista.

O objetivo é fazer frente a movimentos autoritários, como o de Donald Trump, nos Estados Unidos, mas também de Jair Bolsonaro, no Brasil, que semeiam o ódio e cultivam uma agenda econômica que beneficia poucos bilionários, que já controlam mais da metade da riqueza global. "É hora de os democratas de todo o mundo formarem uma Internacional Progressista no interesse da maioria das pessoas em todos os continentes, em todos os países", diz ele.

Leia a íntegra do documento:

Está em curso uma luta global que tem enormes consequências. O que está em jogo é nada mais, nada menos que o futuro do planeta, economicamente, socialmente e ambientalmente.

Em um momento de enorme riqueza e desigualdade de renda, quando 1% do mundo agora tem mais riqueza do que os 99% restantes, estamos vendo o surgimento de um novo eixo autoritário.

Embora esses regimes possam diferir em alguns aspectos, eles compartilham atributos-chave: hostilidade às normas democráticas, antagonismo em relação à liberdade de imprensa, intolerância em relação às minorias étnicas e religiosas e a crença de que o governo deve beneficiar a si próprio e a interesses financeiros egoístas.

Os líderes deste eixo autoritário também estão profundamente ligados a uma rede de oligarcas bilionários que vêem o mundo como seu brinquedo econômico.

Aqueles de nós que acreditam na democracia, que acreditam que um governo deve prestar contas ao seu povo, devem entender o alcance desse desafio, se quisermos enfrentá-lo de forma eficaz.

Deve ficar claro agora que Donald Trump e o movimento de direita que o apóia não são um fenômeno exclusivo dos Estados Unidos. Em todo o mundo, na Europa, na Rússia, no Oriente Médio, na Ásia e em outros lugares, estamos testemunhando movimentos liderados por demagogos que exploram medos, preconceitos e queixas das pessoas para alcançar e manter o poder.

Essa tendência certamente não começou com Trump, mas não há dúvida de que os líderes autoritários de todo o mundo se inspiraram no fato de que o mais antigo e mais poderoso líder democrata do mundo parece se deliciar com a destruição das normas democráticas.

Há três anos, quem teria imaginado que os Estados Unidos permaneceriam neutros entre o Canadá, nosso vizinho democrático e o segundo maior parceiro comercial, e a Arábia Saudita, um estado-cliente monárquico que trata as mulheres como cidadãos de terceira classe? Também é difícil imaginar que o governo de Netanyahu em Israel teria aprovado a recente "lei do estado-nação", que basicamente codifica o status de segunda classe dos cidadãos não-judeus de Israel, se Benjamin Netanyahu não soubesse que Trump estaria do seu lado.

Tudo isso não é exatamente um segredo. Com os Estados Unidos afastando-se cada vez mais dos nossos aliados democráticos de longa data, o embaixador estadunidense na Alemanha tornou claro recentemente o apoio do governo Trump aos partidos extremistas de direita por toda a Europa.

Além de hostilidade de Trump às instituições democráticas, temos um presidente bilionário, de forma inédita, que tem descaradamente defendido seus próprios interesses econômicos e os de seus comparsas nas políticas governamentais.

Outros estados autoritários estão muito mais avançados ao longo deste processo cleptocrático. Na Rússia, é impossível dizer onde terminam as decisões do governo e os interesses de Vladimir Putin e seu círculo de oligarcas. Eles operam como uma unidade. Da mesma forma, na Arábia Saudita, não há debate sobre a separação, porque os recursos naturais do estado, avaliados em trilhões de dólares, pertencem à família real saudita. Na Hungria, o líder autoritário de extrema-direita Viktor Orbán alia-se abertamente a Putin na Rússia. Na China, um círculo interno liderado por Xi Jinping consolidou o poder de forma constante, tomando medidas drásticas contra a liberdade política interna enquanto promoveu agressivamente uma versão do capitalismo autoritário no exterior.

Devemos entender que esses autoritários fazem parte de uma frente comum. Eles estão em estreito contato uns com os outros, compartilham táticas e, como no caso dos movimentos de direita europeus e norte-americanos, compartilham até mesmo alguns dos mesmos financiadores. A família Mercer, por exemplo, os defensores da infame Cambridge Analytica, foram patrocinadores principais de Trump e do Breitbart News, que opera na Europa, Estados Unidos e Israel para promover a mesma agenda anti-imigrante e anti-muçulmanos. O mega-doador republicano Sheldon Adelson atua tanto nos Estados Unidos quanto em Israel, promovendo uma agenda compartilhada de intolerância e nos dois países.

No entanto, a verdade é que, para efetivamente nos opormos ao autoritarismo da direita, não podemos simplesmente retornar ao status quo fracassado das últimas décadas. Hoje, nos Estados Unidos e em muitas outras partes do mundo, as pessoas trabalham mais horas para estancar os salários e se preocupam com o fato de seus filhos terem um padrão de vida mais baixo do que o deles.

Nosso trabalho é lutar por um futuro no qual a nova tecnologia e a inovação funcionem para beneficiar todas as pessoas, não apenas algumas. Não é aceitável que 1% da população mundial detenha metade da riqueza do planeta, enquanto 70% da população em idade ativa disponha de apenas 2,7% da riqueza mundial.

Juntos, os governos do mundo devem se unir para acabar com o absurdo de empresas ricas e multinacionais mantenham mais de US$ 21 bilhões em contas bancárias offshore para evitar pagar sua parcela justa de impostos e exigir que seus respectivos governos imponham uma agenda de austeridade.

Não é aceitável que a indústria de combustíveis fósseis continue a gerar enormes lucros, enquanto suas emissões de carbono destroem o planeta para nossos filhos e netos.

Não é aceitável que um punhado de gigantes da mídia multinacional, de propriedade de um pequeno número de bilionários, controle o fluxo de informações no planeta em grande medida.

Não é aceitável que as políticas comerciais que beneficiam as grandes corporações multinacionais prejudiquem as pessoas que trabalham em todo o mundo.

Para combater eficazmente a ascensão do eixo autoritário internacional, precisamos de um movimento internacional progressista que se mobilize por uma visão de prosperidade compartilhada, segurança e dignidade para todas as pessoas e que aborde a enorme desigualdade global que existe, não apenas em riqueza, mas também na riqueza do poder político.

Tal movimento deve estar disposto a pensar de forma criativa e ousada sobre o mundo que gostaríamos de ver. Enquanto o eixo autoritário se comprometeu a derrubar uma ordem mundial pós-Segunda Guerra Mundial que eles acreditam que limita seu acesso ao poder e à riqueza, não é suficiente simplesmente defendermos essa ordem como ela existe agora.

Devemos honestamente ver como essa ordem não cumpriu muitas de suas promessas e como os autoritários exploraram com habilidade essas falhas para gerar apoio à sua agenda.

Devemos aproveitar a oportunidade para conceituar uma ordem global genuinamente progressista baseada na solidariedade humana, uma ordem que reconheça que cada pessoa neste planeta compartilha uma humanidade comum, que todos queremos que nossos filhos cresçam saudáveis, tenham uma boa educação, tenham empregos decente, bebam água limpa, respirem ar puro e vivam em paz.

Nosso trabalho é alcançar pessoas de todos os cantos do mundo que compartilhem esses valores e lutem por um mundo melhor.

Em uma época de explosão de riqueza e tecnologia, temos o potencial de criar uma vida decente para todas as pessoas. Nosso trabalho é construir uma humanidade comum e fazer tudo o que pudermos para nos opor a todas as forças, poder governamental irresponsável ou poder corporativo irresponsável, que tentam nos dividir e confrontar uns aos outros. Sabemos que essas forças trabalham juntas através das fronteiras. Nós devemos fazer o mesmo.

Mais recentemente, os fanáticos de direita xenofóbicos também formaram sua própria Internacional Nacionalista, colocando pessoas orgulhosas contra outras para controlar sua riqueza e política.

É hora de os democratas de todo o mundo formarem uma Internacional Progressista no interesse da maioria das pessoas em todos os continentes, em todos os países.

Nossa Internacional Progressista deve liderar uma visão de prosperidade verde e compartilhada que a engenhosidade humana é capaz de fornecer, desde que a democracia tenha a oportunidade de torná-la possível.

Para isso, precisamos fazer mais de uma campanha juntos. Vamos formar um conselho comum que elabore um plano comum para um New Deal internacional, um Novo Bretton Woods (resoluções da conferência monetária e financeira das Nações Unidas), progressista.

Bernie Sanders
No The Guardian
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“Boa noite, presidente Lula” de Haddad fez apresentadores do JN perderem a compostura

Para Jean Wyllys, a entrevista com o petista deveria ser estudada nas faculdades de jornalismo "para ensinar como não se faz uma entrevista"


Como dissemos anteriormente, as organizações Globo se assumiram como partido político de oposição ao PT nesta campanha e a entrevista de Fernando Haddad ao Jornal Nacional nesta sexta-feira à noite comprova isso. Visivelmente irritados, os apresentadores Renata Vasconcelos e William Bonner deram um show de interrupções e falta de profissionalismo. O histórico “boa noite, presidente Lula” de Haddad, tão logo assumiu o microfone, fez a dupla perder a compostura.

A partir daí, o que os telespectadores assistiram foi um candidato que não conseguia completar a maior parte dos raciocínios. Cada vez que chegava perto de apontar a responsabilidade da oposição a Dilma Rousseff pela crise econômica, era interrompido por Renata e Bonner. O âncora do telejornal dos Marinho chegou a gritar com o candidato para chamar sua atenção. O único foco das perguntas era retratar o PT como um partido corrupto, o que incluiria Haddad.

Numa entrevista, você, jornalista, começa fazendo uma pergunta — e a
palavra “pergunta” significa aqui pergunta mesmo, e não uma longa
exposição da sua opinião, porque numa entrevista, a opinião que
interessa é a do entrevistado, não a do jornalista

Não houve nem sequer uma pergunta sobre projetos e propostas para o Brasil, apenas afirmações no sentido de fazer o brasileiro crer que estava com um corrupto diante de si e que terá um corrupto à frente do governo se elegê-lo, mesmo que Haddad jamais tenha sido condenado por nada em sua carreira política.

No facebook, o candidato à reeleição à Câmara Federal pelo PSOL do Rio de Janeiro, Jean Wyllys, que é professor de jornalismo, comentou que a entrevista do JN com Fernando Haddad deveria ser estudada nas faculdades de jornalismo “para ensinar como não se faz uma entrevista”.

“Numa entrevista, você, jornalista, começa fazendo uma pergunta — e a palavra “pergunta” significa aqui pergunta mesmo, e não uma longa exposição da sua opinião, porque numa entrevista, a opinião que interessa é a do entrevistado, não a do jornalista. Depois de fazer a pergunta, você deixa o entrevistado responder”, escreveu.

“Cada vez que o candidato não respondia o que eles queriam (ou seja, todas as vezes), além de interrompê-lo, os entrevistadores usavam ‘perguntas’ do tipo: ‘Então o senhor não vai pedir desculpas ao povo brasileiro?’, ou ‘Então o senhor subestima os eleitores e acha que não sabem votar?’. Outra vez, isso não é uma pergunta!”, criticou o deputado.



Veja os melhores trechos da entrevista e confira com seus próprios olhos como os apresentadores do Jornal Nacional trataram o candidato de Lula. A entrevista foi editada para mostrar o que Haddad queria dizer se não tivesse sido interrompido a todo o momento pelos cabos eleitorais, perdão, pelos jornalistas da Globo.



Cynara Menezes
No Socialista Morena
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Eleição de Haddad vai ser resposta ao golpe, diz Lula em bilhete

Lula diz que a vitória nas eleições será uma reação “aos que sabotaram a democracia e tentaram impedir a soberania do voto popular”


O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva escreveu um bilhete sobre a corrida eleitoral neste sábado (15). Na mensagem, que foi publicada no Facebook dele e compartilhada pelo candidato Fernando Haddad (PT), Lula afirma que a eleição do ex-prefeito de São Paulo será uma resposta do povo brasileiro ao golpe que tirou a ex-presidente Dilma Rousseff do poder.

Além disso, Lula diz que a vitória nas eleições será uma reação “aos que sabotaram a democracia e tentaram impedir a soberania do voto popular”. Em resposta, Haddad publicou: “Vamos juntos, presidente”.

No Fórum
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Horário Eleitoral Livre


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Ex-jornalista de O Globo e diretor da ABI diz sentir vergonha de entrevista com Haddad no JN

Como jornalista, diretor da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e secretário de uma comissão de defesa da liberdade de expressão me sinto envergonhado vendo o jornalismo brasileiro acabar de ser vilipendiado e ultrajado por Willian Bonner e Renata Vasconcellos nesta sessão de inquisição aos melhores moldes dos inquisidores da Idade Média.

Isso não foi e jamais será jornalismo.

Trabalhei em duas oportunidades no jornal O Globo, desfrutei da companhia de mestres do jornalismo da empresa e tenho certeza absoluta que mesmo os jornalistas do passado que lá trabalharam se vissem o que vi hoje estariam tão revoltados quanto eu.

Uma coisa é você ter sua ideologia política na vida pessoal, outra coisa é você transportar essa ideologia à vida profissional, para seguir servilmente à determinação do patrão.

Já vi muita gente boa se recusar a fazer um papel asqueroso como o dessa dupla essa noite e eu sou uma delas. Sinto pelo trabalho correto e ilibado de velhos companheiros que deram a vida pelo engrandecimento da imprensa em nosso país e não mereciam o que aconteceu hoje. Acho que o mínimo que poderia ocorrer em um estado democrático de direito é sua população se indignar com o que houve essa noite.

Quem perde não é o PT e nem Lula ou Haddad é a liberdade do pensamento e da expressão de uma nação inteira.

Uma noite pra ser esquecida, diria Carlos Heitor Cony

Arcírio Gouvêa Neto
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A fragilidade cultural de William Bonner e de Renata Vasconcellos chega a assustar


O que mais impressiona na entrevista de Fernando Haddad ao Jornal Nacional é a ausência de qualquer regra básica para o desenrolar das perguntas e respostas. O jornalismo da Globo erra no conceito: entrevista não é debate que, por sua vez, demanda outro regime de regulamentos, tanto tácitos quando técnicos.

O jornalismo da Globo deve achar que está cumprindo seu papel de ‘emparedar’ o entrevistado, o que seria correto, do ponto de vista da ‘produção de contraditório’. Talvez – e sendo muito benevolente –, eles tenham se espelhado no programa ‘Upfront’ da TV Al Jazeera, apresentado pelo jornalista Mehdi Hasan.

Hasan costuma ser mesmo agressivo e inconveniente com seus entrevistados, cortando suas respostas e perturbando o ‘sentido’ geral das teses que eles lhe apresentam, fazendo o papel de ‘inocente retórico’ e de advogado do diabo.

Hasan, no entanto, não tem fobias e nem demonstra defender uma posição política a priori. Seu rabo é preso a sua própria inconveniência cênica e suas perguntas estão a serviço de uma prospecção legítima. Em suma, o que ele faz é jornalismo.

O caso de William Bonner e de Renata Vasconcellos é diferente. Eles acusam predisposição ideológica e má vontade. Censuram as respostas de maneira violenta. Lembram um pouco Sergio Moro em seus interrogatórios. Como Moro não entende as complexidades no funcionamento de todo e qualquer governo, ele fantasia e flana nas próprias elucubrações subjetivas a respeito do que ali se discute. Como ele é juiz e tem o poder da decisão, prevalece o simulacro (a mentira).

A fragilidade de Bonner e Vasconcellos chega a assustar. A insistência no discurso monotemático (só falaram de corrupção), o tom pesado de indignação – muito semelhante ao tom de ódio que devastou o tecido social brasileiro; afinal foram eles a matriz de todo esse fenômeno – e a absoluta ausência de um procedimento ritual que é respeitar a presença e a pessoa do entrevistado, ainda que ele represente uma ameaça real à operação desvirtuada de uma emissora de televisão.

Tecnicamente, portanto, os apresentadores continuam sendo o que são: apresentadores. Eles não têm lastro nem inteligência nem educação nem estatura para levar adiante uma entrevista com qualquer personagem minimamente densa da cena política. Essa percepção é quase unanimidade até entre jornalistas experientes que já publicaram resenhas desfavoráveis aos predicados do ‘casal’.

Não custa lembrar a performance sofrível de Renata Vasconcellos diante do próprio Bolsonaro, um candidato que não é conhecido por sua cancha intelectual. Bolsonaro fez a jornalista expor todo a sua subserviência quando a obrigou a comentar a discrepância entre o salário dela e o salário de seu companheiro de bancada. A apresentadora ignorou deliberadamente o tema, o que tornou toda a cena constrangedora.

Esse e um ponto fraquíssimo daquele duo de apresentadores. Eles têm déficits de ordem linguístico-pragmática, para além da incompetência jornalística. São só apresentadores que leem teleprompter.

Mal conseguem dominar regras básicas de ‘etiqueta’ conversacional, como permitir a seu interlocutor a finalização das sentenças gramaticais. Em português claro, trata-se não mais não menos do que ‘grosseria’.

A linguística tem várias teses a respeito da competência conversacional dos falantes de uma língua. A mais célebre delas vem da teoria pragmática da linguagem, que tem nos filósofos John Searle, John Austin e Paul Grice suas inspirações mais notórias.

O “Princípio da Cooperação Conversacional” de Grice deveria ser estudado em todas as faculdades de jornalismo. Muito mais avançado que o esquema comunicacional de Roman Jakobson, o Princípio da Cooperação visa compreender e garantir que uma sucessão de atos de fala tenha a mínima chance de ser interpretado por ambos os partícipes de uma conversação (ou de uma entrevista).

Muito simples e elegante, a proposição teórica é composta por quatro ‘máximas’:

1) Máxima da quantidade: dê exatamente a quantia de informação necessária;

2) Máxima da qualidade: diga apenas o que você acredita ser a verdade;

3) Máxima da relação: seja relevante

4) Máxima do modo: seja sucinto (Grice, 1975: 45 – tradução minha).

Nenhum desses princípios foi seguido por Bonner ou por Vasconcellos. Mais do que isso, eles foram flagrantemente violados: eles 1) estenderam-se abusivamente nas formulações, misturando premissas temáticas 2) apresentaram pressupostos largamente discutíveis e partidarizados, 3) produziram muita irrelevância ao concentrar em apenas um tema todo o protocolo de arguição e 4) foram excessivamente prolixos, com perguntas extensas e mal organizadas (tomando 60% do tempo total da entrevista).

Note-se que o filósofo Paul Grice nem elenca uma ‘quinta máxima’ que poderia muito bem ser representada pela competência de um ‘falante’ em ter o ‘bom senso’ de não interromper a fala d – provavelmente – pelo simples fato de que se trata de uma premissa básica demais para que seja tecnicamente arrolada. É um caso, a rigor, mais pertencente ao campo da ‘educação’ formal básica do que da ciência cognitiva.

De sorte que a relevância da entrevista migrou da esfera do debate de ideias para a esfera da resistência mental do entrevistado. Haddad teve que, basicamente – e diante da incompetência meridiana de seus entrevistadores –, reformular todas as questões e respondê-las em seguida em tempo exíguo e sendo interrompido a todo instante. E isso por uma questão muito simples: por respeito ao espectador.

A força ‘conversacional’ de Fernando Haddad foi, portanto, apresentada ao público e ao eleitor de maneira bastante bem sucedida. Aliás, essa dimensão da linguagem – que é mais sutil e inconsciente – tem muito mais apelo e poder diante de um espectador saturado de promessas vazias e contemporizações partidarizadas de entrevistadores pouco competentes.

O eleitor viu um Fernando Haddad que lhe dedica profundo respeito pragmático, além de ser exposto a dois apresentadores que lhe relegam profunda indiferença quando negam o direito de resposta de alguém que, afinal, é o convidado do programa – e merecia ser tratado com a mínima deferência.

Renata Vasconcellos e William Bonner agiram como interrogadores policiais (não admira que o tema e o tom tenham sido policialescos), inquisidores amorais, torturadores intelectuais. O que o espectador testemunhou foi a hiper exposição de um candidato à violência discursiva de uma emissora de televisão, tão bem encarnada na pele de dois apresentadores.

Pragmaticamente, não poderia ter sido melhor para Haddad, que se manteve extraordinariamente respeitoso, técnico e firme em suas posições, atendendo, de maneira solitária, as quatro máximas consagradas da conversação.

A Globo, em seu desespero de continuar destruindo um partido político, vai afundando cada vez mais, não apenas na insolvência de sua operação jornalística (que tem um custo muito alto em um momento de transição de plataformas tecnológicas), mas também na desconexão com a realidade discursiva de um país.

A Globo não representa mais nenhum segmento relevante da população brasileira. Ela vai, naturalmente, sendo empurrada para a posição de pária, dada sua negação dos protocolos técnico-linguísticos de construção da realidade, como sua negação da própria realidade.

Promover a manutenção de um golpe de estado não é tarefa trivial, ainda mais com zonas de informação que escapam ao controle institucional – a internet.

É importante avisar a Globo e seus jornalistas: nós não estamos mais em 1989.

Gustavo Conde
No Esquerda Caviar
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Jair, aqui não tem vez!

"Quando o eleitor de Lula reconhecer Fernando Haddad como seu candidato, este vai suplantar seu principal concorrente em pouco tempo"
Ricardo Stuckert

Discurso de Bolsonaro se restringe ao eleitorado duro e não assusta no Nordeste

Há um ano, em uma praça de Goiana, mata norte de Pernambuco, esperava um ônibus para voltar ao Recife e ouvia a conversa dos condutores e cobradores de vans. O papo era sisudo e sobre política: em quem votar, se Lula era culpado, se Marina era mesmo candidata. Um deles quis quebrar o clima com uma piada: "Eu vou é votar em Bolsonaro para ele dar revólver pra todo mundo", disse, conseguindo seu objetivo de fazer todos caírem na gargalhada. 

A imagem desse diálogo expressa o que as pesquisas de opinião comprovam cientificamente. No nordeste, Bolsonaro não tem vez. Muitos são os motivos, mas o maior deles é que seu discurso violento e preconceituoso é uma facada no estômago do povo pobre nordestino, fiel eleitor de Lula e beneficiado direto pelas políticas sociais e econômicas dos 13 anos de governos petistas. 

Também há um ano, um vídeo publicado nas redes sociais, onde Bolsonaro oferecia capim aos "eleitores de Lula" bastou para que centenas de nordestinos se sentissem diretamente ofendidos e descarregassem milhares de mensagens e vídeos atacando o candidato da extrema-direita. 

Ao medir o peso do "afrodescendente" por "arrobas", em palestra no Clube Hebraica (RJ), referindo-se a membros de uma comunidade quilombola, esqueceu-se de que é no nordeste onde o movimento para regulamentação fundiária dessas comunidades é mais forte. 

Também é no nordeste brasileiro onde as diferenças salariais entre homens e mulheres são mais discrepantes, principalmente para as mulheres negras. Não deve ser por acaso que o sucesso do grupo no Facebook "Mulheres unidas contra Bolsonaro", hoje com mais de 1,7 milhão de participantes, tenha entre as idealizadoras militantes feministas recifenses.

Mas como é possível afirmar que o extremista não vai passar dos seus atuais índices de eleitores no nordeste, que giravam em torno de 8 e 15% quando Lula ainda figurava nas pesquisas? Porque quando o eleitor de Lula reconhecer Fernando Haddad como seu candidato, este vai suplantar seu principal concorrente em pouco tempo. Aliás, por isso a chiadeira da direita como a pesquisa da Vox Popolli dessa semana, que já colocou o petista em primeiro lugar e por um único motivo: o instituto associou o candidato como o "ungido" por Lula para substitui-lo na chapa presidencial. 

Mesmo em menos de 30 dias de campanha, Fernando Haddad ficará conhecido como o "candidato de Lula" no Nordeste. Além do reforço do guia eleitoral, cujo foco dos últimos programas é essa transmutação de Lula em Haddad, as candidaturas do arco de alianças do PT estão entre as primeiras colocações nas pesquisas em todos os estados do nordeste. Todos. Diversas projeções dão como eleitos no primeiro turno os governadores do PT (Piauí, Ceará, Bahia) e em algumas pesquisas a candidata a governadora no Rio Grande do Norte, a senadora Fátima Bezerra. Também é provável que o governador do PCdoB no Maranhão e aliado do PT, Flávio Dino, ganhe de primeira.

Na Paraíba e Alagoas, candidatos a governo do MDB que estão em primeiro lugar nas pesquisas declararam informalmente e oficialmente voto no PT. Em Sergipe, o PSB e PT estão em coligações diferentes, mas Lula era primeiro lugar em todos os cenários. Em Pernambuco, o governador do PSB aderiu à campanha de Haddad depois de conseguir, em acordo com o PT nacional, a retirada da candidatura da vereadora do Recife, Marília Arraes. Ou seja: cenário adverso para o extremismo de direita.

O futuro da campanha de Bolsonaro é incerto e ele talvez, sequer, possa estar presente fisicamente no segundo turno. Seu vice não vai repetir o fenômeno de militância espontânea. Bolsonaro arrastou multidões por onde passou, ganhou manchetes de jornais, beneficiou os candidatos a deputados que o carregaram no andor, mas seu discurso se restringe ao seu eleitorado mais duro, não tem vez e não assusta no Nordeste.

Jonatas Campos é jornalista, ex-repórter de jornais locais, da Revista Caros Amigos e ex-correspondente na Venezuela pelo Opera Mundi e Brasil de Fato.
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Boulos planta sementes

Por que ele não entrou no PT

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Por que Geraldo Alckmin ainda não é ficha suja: 9 roubalheiras que aconteceram debaixo do bico do tucano


Roubo do dinheiro da merenda, propina da Odebrecht, compra de votos e superfaturamento de obras. Escândalos como esses aconteceram em São Paulo ao longo dos últimos 23 anos, desde que Geraldo Alckmin começou a frequentar o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. Ninguém trabalhou tanto tempo ali. Ainda assim, nenhum desses escândalos grudou no candidato do PSDB para a Presidência.

Entre idas e vindas, Alckmin governou São Paulo por 12 anos. Também ocupou o cargo de vice-governador, secretário de Desenvolvimento e presidente do Programa Estadual de Desestatização do estado. A forma como ele sobreviveu tanto tempo sem que os escândalos colassem na sua imagem é explicada por um caldo que tem como ingredientes um Ministério Público estadual fraco, uma base forte na Assembleia Legislativa e algumas decisões amigáveis do Judiciário.

Seu maior baque veio na primeira semana deste mês: o Ministério Público do Estado pediu a cassação dos seus direitos políticos devido à acusação de ter recebido até R$ 10 milhões em propinas da Odebrecht na campanha eleitoral de 2014, com o objetivo de ocultar fraudes na construção de uma linha de metrô na cidade.

Para lembrar de mais de duas décadas de escândalos, fizemos um levantamento dos principais casos que bateram na trave de Alckmin – e o procuramos para responder por que ele não percebeu o que acontecia embaixo do seu nariz.

1. Máfia da Merenda

Este é o escândalo que deixou Alckmin mais bravo. Não à toa, ele pediu a quebra de sigilo e a retirada do ar de perfis que o chamaram de “ladrão de merenda” – e conseguiu, graças a uma decisão do TJSP relatada pelo desembargador Teixeira Leite.

Tucanos eram acusados de desviar o dinheiro destinado à compra de suco de laranja para crianças em 2014 e 2015. A verba, roubada do governo do Estado e de 30 prefeituras, abasteceria campanhas eleitorais e ajudaria lobistas e políticos a enriquecer.

No esquema, uma cooperativa agrícola fingia comprar de pequenos agricultores, mas destinava o dinheiro a grandes fornecedores e políticos. Tudo isso com licitações fraudulentas.

A cara do escândalo foi a do deputado estadual tucano Fernando Capez, então presidente da Assembleia Legislativa. Na cena mais emblemática, descrita por um procurador, ele esfregou os polegares pedindo dinheiro e dizendo “não esquece de mim, ein, (…) estou sofrendo em campanha”.

Coube à Procuradoria Geral de São Paulo investigar o roubo. No total, oito pessoas foram denunciadas. O ex-chefe de gabinete da Secretaria de Educação, Fernando Padula, chegou a ser denunciado por corrupção passiva, por fazer vista grossa ao problema.

Apesar de todo o escândalo ter acontecido no seu governo, o nome de Alckmin sequer aparece na denúncia do procurador-geral, Gianpaolo Poggio Smanio. Em paralelo, uma CPI na Assembleia Legislativa também responsabilizou 20 pessoas, mas nenhum político tucano.

Procuramos a campanha de Alckmin para responder cada uma das acusações. Na resposta, sua assessoria disse que não houve máfia da merenda dentro do governo de São Paulo. “Houve fraudes comandadas por uma cooperativa na venda de suco de laranja ao Estado. A Coaf fingia comprar de pequenos agricultores, quando, na verdade, adquiria o produto de grandes fornecedores”, diz a nota, sem assinatura. “O governo paulista foi vítima do esquema, assim como pelo menos outros cinco Estados”, concluiu o texto.

2. O “Santo” da Odebrecht

As ecumênicas delações da Odebrecht, divulgadas em janeiro de 2017, também envolveram Alckmin, cujo apelido nas famosas planilhas da empresa era “Santo”. A companhia alegou que pagou ao político R$ 8,3 milhões em propinas, que eram entregues em dinheiro vivo em quartos de hotéis.

Contra a vontade de procuradores da Lava Jato, a ministra Nancy Andrighi, do STJ, transformou a denúncia sobre Alckmin em um problema eleitoral em abril deste ano, enviando o caso para o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo. Isso facilitou a vida do tucano: em vez de responder pelo crime de corrupção e ficar no caminho da operação, considerada mais rigorosa, Alckmin vai se defender na Justiça Eleitoral, como se a denúncia fosse um problema menor de financiamento ilegal de campanha.

Quem pediu para que Alckmin fosse salvo neste caso foi o vice-procurador-geral da República, Luciano Mariz Maia. Coincidentemente, tudo aconteceu entre amigos: o procurador é primo de José Agripino Maia, senador do DEM e aliado de longa data do governador tucano.

Alckmin se livrou de novas investigações da Lava Jato. Isso, porém, não impediu que o promotor Ricardo Manuel Castro pedisse que o governador fosse condenado à perda de seus direitos políticos. Agora, o PSDB estuda ir ao Conselho do Ministério Público contra o promotor.

Alckmin não respondeu diretamente sobre a Odebrecht. Na resposta, a assessoria diz que “Geraldo Alckmin tem 46 anos de vida pública e nunca foi acusado de ter recebido qualquer valor ou qualquer bem ilegalmente. Sempre viveu de salário e remunerações pagas em troca de seu trabalho. Não enriqueceu na política. Não acumulou patrimônio.”

3. A caixa preta da água

Em 2015, São Paulo teve cenas de Mad Max por causa da falta d’água. Mais de 70% dos moradores da cidade tiveram o abastecimento cortado. Na eleição de 2014, a crise hídrica já era previsível. Mas Geraldo Alckmin só admitiu a existência de um racionamento após ser reeleito governador, em janeiro do ano seguinte.

Vista da reserva Jaguari-Jacareí, na cidade de Joanópolis, no interior de São Paulo, onde o Sistema Cantareira se manteve estável pelo segundo dia seguido. Segundo a Sabesp, o sistema opera com 5,1% da capacidade total na sua reserva técnica. (Joanópolis, SP, 27.01.2015. Foto de Luis Moura/Folhapress)
Esta era a paisagem da reserva Jaguari-Jacareí, na cidade de Joanópolis, no interior de São Paulo, em janeiro de 2015. A reserva faz parte do  Sistema Cantareira, que abastece o estado que foi governado por Alckmin.
Foto: Luis Moura/Folhapress

Alckmin protagonizou cenas insólitas, como o momento em que inaugurou o volume morto da reserva da Cantareira. Além do ridículo dessas cenas, as gestões tucanas já haviam sido alertadas sobre o problema por um relatório de pesquisadores da USP ao menos quatro anos antes, mas nada fizeram para mudar o quadro.

O Ministério Público do estado ainda investiga o favorecimento de 13 empresas de engenharia em contratos realizados pela Sabesp, a companhia de saneamento paulista, entre 2008 e 2013.

Alckmin não foi responsabilizado mesmo tendo a companhia pública sob seu comando.

4. Propinoduto tucano

Investigadores localizados a quase 10 mil quilômetros de São Paulo fizeram mais para descobrir o chamado “propinoduto tucano” do que aqueles vizinhos do palácio dos Bandeirantes. O escândalo só foi revelado graças aos suíços, que enviaram documentos ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica apontando superfaturamento e fraudes em licitação de trens e metrôs ligadas à empresa francesa Alstom.

O esquema não se restringia à Alstom e também envolvia outras multinacionais como a Bombardier e a Siemens. As empresas, segundo a Polícia Federal, fizeram um acordo para dividir contratos de manutenção e reforma as linhas de metrô e trem em São Paulo. Segundo o Ministério Público, o valor desviado foi de ao menos R$ 834 milhões.

O escândalo explodiu em 2012, mas a suspeita era de que ele acontecia desde 1998, quando Alckmin já era vice de Mario Covas. Apesar de ter chefiado o Executivo paulista em boa parte do período dos roubos, entre 2001 e 2006, Alckmin nunca foi responsabilizado.

Em uma esquisita lógica, foi Alckmin quem ameaçou processar a Siemens por formação de cartel, enquanto mantinha contratos com a empresa. Um delator da multinacional admitiu o esquema e apontou que três secretários de Alckmin receberam propina.

Neste caso, coube ao Supremo Tribunal Federal, em processo relatado pelo ministro Marco Aurélio, livrar a barra dos dois aliados de Alckmin citados no caso – o tucano José Anibal e Rodrigo Garcia, do DEM.

Além de não ter sido denunciado, Alckmin fez mais: ele perdoou uma dívida de R$ 116 milhões da Alstom com o governo do estado, referente a atrasos nas linhas de trem e em obras. Embora envolvesse dinheiro público, o perdão veio num acordo extrajudicial cujas cláusulas e razões permanecem ocultas. O Ministério Público chegou a pedir a suspensão do perdão, mas foi ignorado.

A assessoria de Alckmin afirmou que “criou uma comissão independente para acompanhar as investigações e foi à Justiça para obter ressarcimento.” Também disse que o esquema atingiu o Distrito Federal, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

5. Escândalo da Nossa Caixa

O banco Nossa Caixa foi investigado por favorecer deputados na Assembleia Legislativa quando Alckmin foi governador em 2005. Na época, o governo do estado era dono do banco, e verbas de publicidade operadas por ele teriam sido usadas em troca de votos.

O deputado estadual Afanasio Jazadji, do então PFL (atual DEM), afirmou que recebeu uma oferta do próprio governador para que deixasse de criticá-lo em troca das verbas de publicidade. “Eu teria ajuda desde que deixasse de criticar os secretários da Segurança Pública, da Administração Penitenciária e da Educação nos meus programas de rádio e de TV,” disse o deputado.

O esquema não se referia a uma ou outra publicidade feita pelo Nossa Caixa. Segundo uma auditora do banco e uma investigação do Ministério Público do Estado, de um total de 278 operações avaliadas na época, havia irregularidades em 255 – quase 92% delas. Entre elas, serviços não prestados e pagamentos feitos sem as autorizações necessárias.

Nesse caso, o governador tucano se livrou pela completa incapacidade da oposição de abrir uma CPI efetiva. Em um jogo de empurra, o PT chegou a levar o caso ao Supremo Tribunal Federal, mas ele nunca deu em nada. Enquanto isso, o governador manteve um acusado do escândalo em seu governo.

Em 2009, a promotoria moveu uma ação contra quatro diretores pelo caso – Alckmin, é claro, ficou de fora.

6. Rodoanel

Uma única obra dos governos tucanos, o trecho norte do Rodoanel, resultou no roubo de R$ 600 milhões do dinheiro do governo, segundo a Polícia Federal e o Ministério Público. Líder do esquema, Laurence Casagrande foi secretário de Transporte e presidente da empresa do estado que controla a construção de rodovias, a Dersa, Desenvolvimento Rodoviário S/A.

Isso não foi o suficiente para abalar a confiança de Alckmin em Casagrande. No último dia 23 de junho, Alckmin descreveu seu antigo secretário de transportes como uma “uma pessoa séria (…) com uma enorme folha de serviços ao estado.” Dois dias antes, ele havia sido preso em um desdobramento da operação Lava Jato.

Segundo a assessoria de Alckmin, “existe uma discussão técnica envolvendo uma concessionária privada e um órgão público a respeito de um item da maior obra da América Latina”. “É uma obra viária licitada, financiada e rigorosamente fiscalizada por um órgão internacional, o BID, e pelo menos outras quatro instâncias independentes”, diz o texto.

Houve também queima de arquivos. Uma auxiliar de Casagrande foi voluntariamente à PF para dizer que destruiu documentos ligados ao caso dentro do órgão público por ordem do seu próprio chefe, sem saber do que eles tratavam.

Casagrande foi solto na última semana pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. Alckmin ainda passa intacto no caso.

A assessoria do candidato disse que “Laurence Casagrande foi indiciado quando já não era secretário de Estado – nem Alckmin, governador”. “Cobrar sua demissão, portanto, é ignorar não apenas o devido processo legal, mas a lógica. O mesmo se pode dizer da tentativa de ligar as relações de parentesco de um vice-procurador da República a uma decisão do STJ. Tamanhos absurdos não podem cair apenas na conta da ignorância. Denotam absoluta má-fé”, escreveu a assessoria do candidato.

7. Venda da Eletropaulo

Os problemas próximos a Alckmin não começam com ele no cargo de governador, assumido em 2001. Um deles, por exemplo, data de 1998, quando ele comandava o programa de privatizações em São Paulo, que vendeu, entre outros, a Eletropaulo, a maior empresa de energia elétrica da América Latina.

A companhia foi vendida à americana AES por US$ 2 bilhões, valor considerado baixo para o patrimônio da empresa. “O processo de avaliação e privatização da Eletropaulo foi feito por um método que, para nós engenheiros, não retrata o valor patrimonial em função das suas instalações, de seus equipamentos”, disse, à época, João Batista Serroni de Oliva, Coordenador do Grupo de Trabalho para a reavaliação patrimonial da Eletropaulo.

As acusações geraram uma CPI, que produziu mais acusações, que não deu em nada. Elas foram enterradas em 2008 pela base tucana na Assembleia, durante a gestão de José Serra no governo do estado. Nenhum dirigente do PSDB foi denunciado pelo caso. Alckmin, que comandou todo o processo, claro, também não.

8. Superfaturamento de casas

Alckmin se orgulha de o estado de São Paulo ser o que mais investe em habitação no país, com o repasse de 1% do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços, o ICMS, para a área. O que ele não menciona são os escândalos de corrupção que envolvem essa grana.

Um operação da Polícia Civil prendeu 16 pessoas envolvidas em licitações fraudulentas e no superfaturamento de obras da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano, a CDHU, uma empresa ligada ao governo do estado.

Segundo o Ministério Público, o esquema passava pela LBR Engenharia e Consultoria, que forjava medições de serviços em empreendimentos da CDHU para viabilizar a liberação de valores pagos a fornecedores. A LBR financiou a campanha de Geraldo Alckmin em 2010… após o escândalo.

Mais uma vez, uma CPI instaurada foi incapaz de levar o caso adiante. Seu relatório não responsabilizava ninguém pelo roubo e afirmava que não havia sido possível chegar aos detalhes.

Acusado de ser o artífice do esquema, o ex-secretário de habitação Mauro Bragato, só foi condenado em outro caso, que envolvia o roubo, literalmente, do dinheiro do leite das crianças na prefeitura de Presidente Prudente.

9. Compra de votos

Por fim, outro modo padrão de atuar na corrupção nacional: a troca de votos e favores. Em 2005, quando Alckmin era governador, a Folha publicou uma conversa telefônica entre os deputados estaduais Romeu Tuma Jr., do PMDB, e Paschoal Thomeu, do PTB.

Eles discutiam o voto em Edson Aparecido, candidato favorito de Alckmin para a presidência do legislativo local. Thomeu dizia que o próprio governador havia prometido ajudá-lo, já que as suas seis empresas estavam “em situação muito difícil”. O governador iria ajudá-lo comprando seus terrenos por meio da CDHU.

Mesmo com o voto de Thomeu, Aparecido perdeu a eleição por apenas dois votos.

Como em todos os casos que também dependem da Assembleia Legislativa, ele não deu em nada. A promotoria disse que iria abrir um inquérito, porém ele não se desenvolveu após a morte do deputado Thomeu, no ano seguinte.

Na nota enviada ao Intercept, a assessoria de Alckmin fez outros comentários sobre a reportagem, que ainda não havia sido publicada – e, portanto, não havia sido lida pela campanha do tucano antes de responder às minhas perguntas. “A reportagem se utiliza de fake news, mistura casos desconexos e abusa das ilações irresponsáveis na tentativa de manchar a reputação de um político que não é apenas ficha limpa, é vida limpa.”

A nota também diz que “de um panfleto partidário como The Intercept não se espera isenção, mas seu total descompromisso com a apuração é chocante”, escreveu a assessoria, em uma nota sem assinatura, e antes de ler a matéria.

Piero Locatelli
No The Intercept
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O fuzil do Bolsonaro

Militar entende militar. Mas, por favor, não sigam o exemplo do general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército

Este Mourão comandou a avançada dos tanques em 1964
Jair Bolsonaro é um capitão aposentado. Aposentado mais cedo, por circunstâncias necessárias ao Exército brasileiro. Era um militar capaz de botar fogo nos quartéis ou fora deles. Afastado da farda, entrou na política do Rio de Janeiro. Elegeu-se vereador, chegou a deputado federal por várias legislaturas e, agora, pretende ser presidente da República.

Talvez esteja a poucos passos disso. Não se surpreendam. Assim apontam as pesquisas de intenção de voto, após Lula ser afastado da disputa. Afastado Lula, estenderam os tapetes para Bolsonaro. O Judiciário cuidou disso. A mídia, com seus interesses, também.

Há poucos dias, como se sabe, Bolsonaro encontrou um maluco durante a campanha que fazia na cidade de Juiz de Fora, na Zona da Mata de Minas Gerais. Vítima de atentado, foi levado às pressas ao hospital. Recupera-se, como informam os médicos.

Na UTI, no entanto, deixou uma marca. Em gesto tresloucado aparece fazendo simulação com uma arma. Um fuzil. A foto, com autorização dele e da família, foi distribuída. O registro fotográfico percorreu com velocidade relâmpago as redes sociais. Ainda sob risco, ele sorria. Agressor e agredido, neste caso, não se distanciam muito. 

Sozinho, ou orientado, Bolsonaro apoiou sua campanha eleitoral na aposta no princípio da violência contra a violência, aparentemente com êxito. Na televisão não foi além disto. O brasileiro está acostumado a tolerar a ideia do “rouba, mas faz”.

Bolsonaro, então, entregou aos economistas a questão econômica – não que estes também não roubem – e fincou o pé nas possibilidades da vitória do medo da violência contra o medo da fome. 

Bolsonaro foi o primeiro a perceber, ou foi orientado para tanto, que a violência é fator preponderante para diversas camadas da população, de ricos a pobres. Ele pouco se importa se é ou não.

Curiosidade. Bolsonaro tem, naturalmente, um vice de suporte. É também um militar. O general Mourão. O atual Mourão é amante de um golpe, como era o outro general Mourão, que de Juiz de Fora comandou a avançada dos tanques em 1964.

É outra história. Torcemos por outra diferente, e nesta os generais devem obedecer aos desígnios da Constituição. Contra o mau exemplo dado pelo general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, em entrevista ao Estadão publicada no domingo 9.

Maurício Dias
No CartaCapital
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Sextas-feiras com Gilmar


A concessão de habeas corpus ao tucano Beto Richa na noite duma sexta-feira não seria estranha não fosse o hábito tão costumeiro de Gilmar Mendes conceder habeas corpus a presos notáveis, poderosos e endinheirados justamente nas noites de sextas-feiras.

Gilmar Mendes se notabiliza no stf pela argúcia, atrevimento e, sobretudo, pelo engajamento partidário em defesa dos interesses gerais da oligarquia e dos interesses particulares do PSDB e do tucanato.

Um aperitivo [parcial, bastante reduzido] da lista dos beneficiários de habeas corpus do Gilmar nas noites de sextas-feiras [alguns brindados com mais de 1 benefício]:

– Paulo Vieira de Souza, Paulo Preto, operador do PSDB;

– Carlos Miranda, principal operador de Sergio Cabral;

– Orlando Diniz, ex-presidente da Fecomércio do Rio de Janeiro, acusado de desviar R$ 10 milhões dos cofres públicos;

– Daniel Dantas, banqueiro implicado em mega-escândalos de corrupção;

– Jacob Barata, conhecido como “rei dos ônibus” [e da corrupção] e com grau de compadrio com Gilmar;

– Roger Abdelmassih, médico condenado a 278 anos de prisão por violentar sexualmente 37 mulheres.

Em outros dias da semana, a indústria de habeas corpus do Gilmar a presos notáveis, poderosos e endinheirados também funciona a pleno vapor. Uma agraciada pela gentileza jurídica do Gilmar numa terça-feira de 2013, por exemplo, foi Cristina Maris Meinick Ribeiro.

De acordo com o noticiário da época, Cristina Maris foi denunciada pelo Ministério Público Federal por ter dado sumiço no processo contra a Globopar, controladora das Organizações Globo, por sonegação fiscal. O roubo envolvia mais de meio bilhão de reais.

Não se tem notícias sobre o extravagante gosto de Gilmar despachar habeas corpus às sextas-feiras à noite.

Jeferson Miola
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São os Torquemadas que devem desculpas


Ontem à noite, na entrevista do Jornal Nacional, ao invés de perguntar sobre as propostas do candidato Hadddad, que representa Lula e o povo brasileiro nestas eleições, assistiu-se a uma obsessiva e autoritária tentativa de arrancar do candidato um pedido de desculpas ao povo do Brasil por supostos crimes cometidos.

Acho curiosa essa obsessão da mídia conservadora em fazer o PT expiar culpa em praça pública, como se estivéssemos em plena Inquisição Espanhola.

Dessa forma, os jornalistas cumpriram papel de Senhor e a Senhora Torquemada, se transformaram em apresentadores de um televisivo auto de fé, confundindo grosseria, petulância e ignorância crassa com bom jornalismo. Misturaram Hard Talk com Soft Brain. Haddad não caiu na armadilha e respondeu, quando o deixaram falar, com elegância e consistência. Misturou Hard Brain ( hard thinking) com Soft Talk.

Lá pelas tantas, o ocasional Senhor Torquemada do televisivo auto de fé afirmou que havia candidatos do PT “investigados” e “indiciados”, como se isso fosse prova cabal de culpa. O Senhor Torquemada parecer viver em tempos medievais pré-Carta Magna e pré-habeas corpus. Ainda não ouviu falar do princípio da presunção da inocência, que protege a todos nós, inclusive o Senhor e a Senhora Torquemada, do arbítrio das autoridades.

Essa obsessão em arrancar “confissões” do PT, em transformá-lo em grande representante do Mal, não se estende, contudo, a alguns membros de outros partidos. Na entrevista do vice Mourão, por exemplo, os outros “torquemadas” da Igreja do Golpe ficaram em silêncio obsequioso, quando o pitoresco general, portador de DNA ariano, afirmou que torturadores são heróis.

No que tange aos outros governos, como o do PSDB, por exemplo, não observamos essa mesma obsessão, relativa aos governos do PT. Mesmo sabendo que, ao final dos governos do PSDB, o Brasil tinha reservas líquidas de apenas US$ 16 bilhões, dívida externa líquida em relação ao PIB de 37%, inflação de 12,5%, dívida pública líquida de 60,4% do PIB, e o desemprego na casa dos 12%, não se exigiu nenhuma autocrítica. Ao contrário, o sucessor de FHC foi entusiasticamente apoiado pelos “torquemadas” de hoje. Ou seja, mesmo sabendo que o Brasil estava, de fato, quebrado, e sob a tutela do FMI, os atuais “savonarolas” não exigiram e não exigem, dos governos tucanos, nenhuma autocrítica, nesse sentido.

Mas é claro que as autocríticas têm de ser abrangentes e incluir todo o período do governo e também as coisas positivas, e não apenas as negativas. No caso do PT, querem que se fale apenas do ano de 2015, um ano de acirramento da crise internacional e de profunda crise política e institucional provocada intencionalmente pela oposição, que, desde 2014, apostou todas as suas fichas no golpe de Estado.

No entanto, deve-se falar de tudo, não apenas de um ano atípico, no qual o Brasil era governado, de facto, por Eduardo Cunha e outros membros da Seita do Golpe e do Projeto Pautas Bomba; já não mais por Dilma Rousseff. Por isso, creio que o PT deveria pedir sinceras desculpas por muita coisa que incomodou setores das classes médias e das oligarquias, como:

a) Ter tirado cerca de 35 milhões de pessoas da pobreza extrema.

b) Ter feito ascender ao redor de 40 milhões de pessoas à classe média.

c) Ter tirado o Brasil do Mapa da Fome.

d) Ter duplicado o número de vagas nas universidades públicas e aberto as portas das universidades particulares para os estudantes pobres, negros e índios, com o Prouni e o Reuni.

e) Ter permitido que a filha do pedreiro virasse doutora.

f) Ter implantado o maior programa de formação técnica do Brasil, o Pronatec.

g) Ter realizado o maior programa da história de creches e pré-escolas públicas.

h) Ter implantado o Bolsa Família, o programa social mais elogiado do mundo.

i) Ter concretizado o Mais Médicos, que levou assistência básica em saúde para cerca de 60 milhões de brasileiros que não tinham contato com médicos.

j) Ter implantado o maior programa de habitação popular da história, o Minha Casa, Minha Vida.

k) Ter gerado 22 milhões de empregos com carteira assinada, com todos os direitos trabalhistas assegurados.

l) Ter aumentado o poder de compra real do salário mínimo em 77%.

m) Ter aumentado o grau de formalização do mercado de trabalho de 45,7%, em 2003, para 57,7%, em 2014.

n) Ter eliminado a dívida externa do Brasil e amealhado cerca de US$ 380 bilhões de reservas externas, as quais impedem que o governo do golpe quebre o Brasil, como quebrou a Argentina de Macri.

o) Ter reduzido a dívida pública interna líquida de 60,4%, em 2002, para cerca de 37%, em 2015, sem aumentar as tributações.

p) Ter praticado vultosos superávits primários, até a crise iniciada em 2014/2015.

q) Ter livrado o Brasil da tutela do FMI.

r) Ter mantido a inflação dentro regime de metas, entre 2004 e 2014, revertendo a tendência anterior de descontrole (12,5%, em 2002).

s) Ter praticado uma política externa que superou a vulnerabilidade externa de nossa economia, aumentou nossas exportações de US$ 60 bilhões para US$ 255 bilhões e nos tornou um país de grande protagonismo mundial, com enorme prestígio e credibilidade.

t) Ter transformado o Brasil da 12ª economia mundial na 6ª economia do planeta.

u) Ter descoberto o pré-sal e procurado assegurar que ele ficasse nas mãos de brasileiros.

v) Ter acabado com o engavetador-geral e propiciado as condições para um combate a sério da corrupção no Brasil, algo que nunca havia sido feito antes no Brasil.

w) Ter demitido toda a diretoria corrupta da Petrobras, que criou, em pleno governo tucano, o grande esquema de corrupção investigado pela Lava-Jato.

x) Ter reduzido o desmatamento de 27,8 mil km², em 2004, para 6,2 mil km², em 2015.

y) Ter levado luz elétrica para cerca de 15 milhões de brasileiros que estavam nas trevas.

A lista de realizações é longa e extraordinária. Daria um livro. Na realidade, já deu vários livros. No exterior, não há quem não reconheça essa fase extraordinária do nosso país.

O fato incontestável, que os “torquemadas” de ocasião detestam reconhecer, é que Lula e o PT realizaram os melhores governos da história do Brasil. Naquele período, combinamos amplas liberdades democráticas, ampliação do Estado de Bem Estar, crescimento econômico, eliminação da pobreza, redução das desigualdades, enorme protagonismo internacional e conciliação entre responsabilidade fiscal e responsabilidade social. Em que outro período isso ocorreu? Por certo, não ocorreu em nenhum governo apoiado pela empresa dos ocasionais Senhor e da Senhora Torquemada.

Claro está que não há governos perfeitos, sem erros.

O PT não conseguiu realizar uma Reforma Tributária para taxar o sistema financeiro e os mais ricos; não implantou a democratização da mídia; não conseguiu fazer uma Reforma Política profunda; exagerou nas isenções fiscais; promoveu, em 2015, um ajuste excessivo que aumentou a queda das receitas etc.

Contudo, todo o planeta e a maior parte do povo reconhecem que não houve tempos tão bons quanto os dos governos de Lula e do PT. A vida melhorou e o povo foi feliz. Simples assim. É por isso que Lula, mesmo injustamente encarcerado e barbaramente perseguido, ganharia com facilidade essas eleições. Em contrapartida, os golpistas, que fracassaram de forma monumental, foram reduzidos a pó, a nulidades políticas.

Desse modo, o que está faltando na democracia brasileira não é uma autocrítica do PT, que é vilipendiado e caluniado pela mídia há décadas e perseguido por setores partidarizados do judiciário há longos anos. Querer que o PT faça autocrítica é a mesma coisa que exigir que um sujeito torturado se autoflagele.

Quem tem de fazer autocrítica são os “torquemadas” e os golpistas, que jogaram o Brasil na mais profunda crise da sua História. Eles são os maiores responsáveis pela débâcle econômica, pela profunda crise social e, sobretudo, pela crise político-institucional que levou a “fascistização” do Brasil. Eles romperam com o pacto democrático, implantaram Estado de exceção, criminalizaram a política e jogaram o país nas mãos de bolsonaros e mourões, gente incompatível com a democracia e a civilização.

São os “torquemadas” de ocasião e os golpistas de sempre que devem desculpas ao país, ao povo brasileiro, à democracia, e à civilização. Espero que não demore, de novo, mais de meio século.

Marcelo Zero
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Partido nem tão Novo


- Amoedo começa a carreira em meado dos anos 80 com duas formações universitárias completas (engenharia e adm/ UFRJ e PUC)  aos 22 anos é contratado como trainee no Citibank; (lembrem-se, para a época uma formação ja era digna de nota e indicador de família abastada, o que obviamente, não é crime e MUITO MENOS DEMÉRITO, mas é um inegavel facilitador de conexões)

- Apenas 3 anos depois salta de trainee para diretor, aos 25 anos Amoedo é convidado para o BBA e rapidamente salta a diretor executivo, assumindo em pouco tempo a gestão da Finaustria, financeira do BBA;
Aqui começo a tecer considerações com base: https://joaoamoedo.com.br/quem-e-joao/historia/

- No curriculo informado pelo próprio candidato, considerando que em 1986 alavancou de trainee para diretor no Citibank, em 1988 foi para o BBA (curiosamente o ano de fundação da instituição bancária) e em 1999 passou a integrar a gestão Finaustria - para compreender bem o que aconteceu neste período, vamos nos recordar a composição de governo:

1987 a 1990 - Sarney
1990 a 1992 - Collor
1992 a 1995 - Itamar Franco
1995 a 2003 - FHC

Qual a história gerencial do BBA?
(Guardem todos os nomes citados a partir daqui)

Fernão Carlos Botelho Bracher iniciou a carreira no famoso escritório de advocacia "Pinheiro Neto", foi Presidente do Banco Central de 1985 a 1987, eis que em 1988:
http://www.bba.com.br/portugues/bba/index.asp

"A história do Itaú BBA começa com o BBA Creditanstalt, fundado em 1988 em São Paulo, por Fernão Bracher e Antonio Beltran, em parceria com o maior banco da Áustria. A atuação do banco estava voltada para operações financeiras bancárias, com características de atacado, e destaque para underwriting, hedge, crédito e câmbio.

Em 1991, foi a única instituição brasileira a coordenar o consórcio de bancos estrangeiros para investimentos no programa de privatização de empresas estatais. Ainda no mesmo ano, recebeu autorização do Banco Central para operar subsidiária em Bahamas e atender demanda de clientes na área internacional."

Em 1991 o BBA foi a única instituição financeira autorizada pelo BACEN a operar subsidiária em Bahamas:
https://www.google.com/url?sa=t&source=web&rct=j&url=http://www.itauunibanco90anos.com.br/pdfs/cap11.pdf&ved=2ahUKEwiJ5P7z7YPdAhVJf5AKHWGfDbQQFjACegQIBxAB&usg=AOvVaw08bTqYjJ3PvUAW0_m1-PPVf

Eu preciso dizer que Bahamas é um Paraíso Fiscal e que aqui meus amigos a COISA COMEÇA A FEDEEEER: https://istoe.com.br/25719_O+PARAISO+FISCAL+E+AQUI/

Sabem o caso Banestado? Então meus bons amigos, transcrevo:

"Uma outra frente de investigação, sob o comando do delegado da PF de São Paulo Protógenes Pinheiro de Queiroz, tenta desvendar outra prática ainda mais nociva para os cofres do País: a fraude de US$ 277 milhões aplicada por 25 bancos estrangeiros na conversão de títulos da dívida externa nos anos 80, que teria contribuído para aumentar a dívida externa do País. O inquérito, que corre sob sigilo de Justiça, atinge principalmente o banco francês PNB Paribas. Mas outros bancos, como Lloyds, American Express Bank e Deutsche (envolvidos no dossiê Banestado), também estão sob investigação."

Mas o que CARALEOS isso tem a ver com o Amolejo?

Gustavo Franco é o economista da campanha de Amoedo... https://www.google.com/amp/s/politica.estadao.com.br/noticias/geral,economista-de-amoedo-diz-que-fgts-e-fat-sao-mecanismos-obsoletos,70002455635.amp

...foi presidente do Banco Central na gestão FHC e chupem a manga com caroço e tudo, um dos principais investigados no caso Banestado: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0412200317.htm

Obviamente, o modus operandi Tucano, que é blindagem judicial não deixou todo o caso ir pra frente, o que sobrou senhores foi dívida em cima de dívida pra gente - CONTRIBUINTES

Esse processo de quebradeira e privatizacão dos bancos nos anos 90 promovido FHC, fez a holding do Itau adquirir: BANERJ, BEMG, BANESTADO e BEG em 2002 o BBA passou a ser controlado pela Holding do itau.

O BBA triplicou de patrimonio nos 4 primeiros anos do governo FHC, ao passo que a divida praticamente dobrou em montante de juros.

Um exemplo do papel político do capital foi a compra pelo Itaú do Unibanco, no qual Amoêdo era vice-Presidente. A Receita Federal acusou o não pagamento de vários ganhos que teriam sido mascarados por diversas operações. Recentemente, a dívida que, somada às multas ultrapassava 20 bilhões de reaisfoi perdoada por uma canetada de um Conselho, o CARF.

Senhores, basta a lógica agora, 425 milhões declarados pelo candidato, o que ja seria surreal em um país de livre mercado, este mesmo candidato integra associação think thank do especulador Soros, a casa das garças, gerenciou, administrou e foi sócio das maiores instituições bancárias cujas relações políticas e de especulação contribui para taxas  de juros exorbitantes, aumento de divida e perdão, na base da canetada, de crimes contra o sistema financeiro.

Lembrando que o famoso escritório "Pinheiro Neto" formulou todas as atas do Partido Novo.

Próceres do sistema financeiro, como Fernão Carlos Botelho Bracher e Anis Chacur ja doaram R$ 100.000,00 para a campanha de Amoedo.

Então, o recado é:  NOVO é o porradão na cara que vcs vão tomar se não pesquisarem a fundo a rede de influências desse fanfarrão.

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