9 de set de 2018

O golpe continua em movimento

Baixada a poeira inicial, é possível alinhavar algumas ideias:

(1) As próximas pesquisas talvez mostrem alguma marola de simpatia pela vítima, mas dificilmente Bozo ganhará tantos votos com a facada. Alguns analistas dizem que o episódio servirá para (sem trocadilho) estancar a sangria no seu eleitorado, mas, francamente, eu nem sei se esta sangria algum dia existiu. A constrangedora foto do hospitalizado brincando de arminha revela que, por burrice ou por cálculo, sua campanha decidiu manter o perfil brucutu, que segura sua base, mas não a amplia.

(2) O apoio da mídia corporativa, Globo à frente, parece ter chegado muito tarde para gerar uma onda Bozo. Ainda mais com o candidato e sua entourage (prole, Bebbiano, Mourão, Augusto Heleno) resistindo à suavização da imagem.

(3) Alckmin fica numa situação difícil, tendo que manter seu discurso de "eu sou a paz" sem poder bater de frente no ex-capitão. Vi gente elogiando, mas achei o programa dele ontem na TV muito fraco, incapaz de acertar o tom e derrapando feio na deslocada exploração do caso Sílvio Santos. Até o momento, o saldo para Alckmin parece ser negativo, com seus apoiadores formais oferecendo acenos mais explícitos na direção de seu principal competidor no campo da direita (vide a declaração de Doria).

(4) O que torna a situação do tucano particularmente dramática é que, como seus estrategistas de campanha já tinham percebido, suas chances de crescimento estão à direita. O eventual eleitor desgarrado do lulismo dificilmente chegará a Alckmin; é mais fácil que fique com Ciro ou Marina. Sem abocanhar uma parte do rebanho do Bozo, suas chances são muito pequenas.

(5) A tentativa de grudar na esquerda a responsabilidade do ataque só funciona em quem já estava predisposto a acreditar nisso. Para o PT, talvez o principal efeito negativo seja desviar o foco das atenções no momento em que é crucial estabelecer a identidade entre Lula e Haddad. Novamente muito bem produzido, o programa de ontem à noite foi, não sei o quão intencionalmente, um contraponto ao discurso de Alckmin, apresentando uma percepção de "paz social" que vai além do combate à violência aberta - 100% fiel ao lulismo raiz, com todos os limites e contradições aí presentes.

(6) Barrada a candidatura de Lula, a meta da justiça eleitoral agora é atrapalhar a transferência de votos para Haddad. Suas intervenções censórias buscam impedir não os discursos mentirosos e manipulativos, que campeiam no rádio e na TV, mas que a propaganda reflita uma verdade factual: que Haddad é o candidato que Lula escolheu para substituí-lo quando percebeu que sua própria candidatura seria vetada. É mais uma demonstração de que o golpe continua em movimento, o que lança sombras não só para a continuidade do processo eleitoral em curso, cuja legitimidade já foi ferida de morte com o impedimento da candidatura de Lula, mas também para o próximo mandato, seja quem for o eleito.

Luis Felipe Miguel
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Como a Globonews tratou Katia Abreu, Fernando Haddad e o general Mourão


Nas entrevistas com adversários, a Globonews assumiu a postura inquisitorial, agressiva, grosseira, interrompendo a todo momentos os entrevistado, impedindo respostas completas para fixar apenas bordões no imaginário do público.

Quando o entrevistado foi o general Mourão, vice de Bolsonaro, a ansiedade diminuiu. Depois que o general afirmou que o coronel Brilhante Ustra é um herói, e “nossos heróis matam”, seguiu-se um silêncio constrangedor. Não se viu em Mirian Leitão – que foi torturada -, ou em Fernando Gabeira – exilado – nenhuma resposta. Nos segundos seguintes, seguiu-se o mais constrangedor silêncio da história recente da imprensa televisa.

Confira abaixo os principais trechos das entrevistas de Katia e Haddad. E, depois, o momento clássico da apologia do assassinato pelo general Mourão.



Luís Nassif
No GGN
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Para ligar ataque a Bolsonaro ao PT, Folha faz matéria omitindo que Juiz de Fora nunca teve prefeito petista

Juiz de Fora nunca teve um prefeito petista
Na ânsia de vincular o agressor de Bolsonaro ao PT, a mídia produz canalhice de alta, baixa e média octanagem.

A Folha de S.Paulo inventou uma matéria intitulada “Cidade palco de ataque a Bolsonaro tem tradição de apoiar PT”.

Adélio Bispo de Oliveira — de resto, um desequilibrado — torna-se petista por associação.

“Desde 1998, a escolha majoritária nas urnas do município de 516 mil habitantes é uma só: o PT”, diz o texto.

“Foi assim com Lula de 1998 a 2006 — ele chegou a atingir 83% dos eleitores contra José Serra (PSDB) em 2002 — e continuou com Dilma em 2010 e 2014, sempre em patamares acima de 60% no segundo turno.”

Essa formulação vale para trezentos outros municípios. 

O que se quer com isso é ajudar o coitado do leitor a juntar lé com cré e tirar uma conclusão falaciosa.

Um cientista político e uma feminista se encarregam de emprestar argumentos para a tese.

“É um movimento poderoso, do ponto quantitativo e simbólico de vocalização”, afirma Paulo Roberto Figueira, da Universidade Federal local.

Uma informação importante é dada de maneira marota ali no miolo: “Nas últimas três eleições para prefeito a candidata do partido, Margarida Salomão, foi derrotada nas urnas por opositores de PSDB e MDB”.

A verdade é mais simples: a “petista” Juiz de Fora nunca teve um prefeito do PT.

Ora, como é possível, dada a quantidade de esquerdistas infiltrados ali?

Desde 1983, porém, houve três do PMDB e mais três do PSDB.

A Folha de S.Paulo é também o jornal mais lido de Juiz de Fora.

O que isso significa? Nada. Ou tudo, dependendo do grau de desonestidade intelectual.

ESCLARECIMENTO

Fiquei bastante chocado com o tratamento a mim dispensado numa matéria publicada por vocês hoje. Entrevistado pela Folha de S. Paulo, numa reportagem sobre o perfil político de Juiz de Fora, foram-me perguntadas duas coisas:

1) Se o movimento estudantil na cidade era forte. Respondi que sim, há uma longa história de luta estudantil e organização dos estudantes na cidade. É fato. A cidade por acaso deveria se envergonhar disso? Há muitos estudantes (logo, o movimento é relevante quantitativamente), ele ocupa um papel relevante no simbolismo da cidade quanto a seu progressismo e é um importante vocalizador de valores políticos progressistas. Não vejo por que essa informação, assim colocada, deveria ser tratada por vocês como “frase mais oca que a cabeça de um bolsominion”.

​2) Se a votação na cidade vinha, nos últimos anos, apresentando um padrão. Respondi que sim, em eleições presidenciais (o que é fato, em função de repetidas vitórias do PT), mas não em relação à política local (o sucesso do PT não se reproduziu em vitórias na disputa pela prefeitura e eu disse à Folha  que, nesse nível, a dinâmica no município tem se articulado muito mais em função de lideranças do que de partidos). Mais uma vez, trata-se de fato. 

Paulo Roberto Figueira Leal (UFJF)

Kiko Nogueira
No DCM
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Candidato do PT é alvejado com bala de borracha pela Guarda Municipal em Curitiba


Renato Almeida Freitas Jr., candidato a deputado estadual pelo PT no Paraná, foi alvejado com bala de borracha pela Guarda Municipal de Curitiba durante uma panfletagem na Praça do Gaúcho na noite de domingo, 9.

Ele foi internado no Hospital do Cajuru e depois será encaminhado para o 1° Distrito, no centro da cidade.

Renato gravou um vídeo no interior do camburão logo após ser baleado. 

Assista: (o vídeo original foi retirado do Facebook)








NOTA SOBRE VIOLÊNCIA POLICIAL CONTRA CANDIDATXS DO PT

Nesta noite de domingo, 09, o candidato a deputado pelo PT Paraná, Renato Almeida Freitas, fazia panfletagem no centro de Curitiba e foi agredido pela Guarda Municipal que o atacou com balas de borracha e o levou preso. Nenhum motivo para a prisão e nem para a violência policial.

Da mesma forma, no dia 07, durante o desfile cívico, Edna Dantas, candidata a deputada estadual pelo PT-PR, realizava manifestação em prol da libertação do presidente Lula junto a outros militantes do partido e foram agredidos e detidos pela Polícia.

Nos dois casos, a única explicação para a perseguição é que ambos são negros, do PT e dos movimentos sociais. O que estamos vendo é uma assustadora onda crescente de violência e perseguição a quem se manifesta e luta a favor dos oprimidos.

Não houve nenhuma preocupação com os ônibus da Caravana do Presidente Lula que giram alvejados, estamos há seis meses sem saber quem matou Marielle e ainda o judiciário determina que não podemos nos manifestar em apoio a Lula.

Estive hoje acompanhando, logo que soube, o desenrolar da prisão arbitrária do Renato. Como estarei solicitando desde já apuração sobre desvio de função policial em ambos os casos.

Estou ao lado da Democracia e, portanto, lutando contra o estado de exceção que vivemos. Basta de perseguição! Basta de violência!

Dr. Rosinha
Presidente do PT Paraná
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SUS salva Bolsonaro por R$ 367,06

Pago pelo sistema público brasileiro, cirurgião de veias e artérias de Juiz de Fora é tirado de almoço de família para achar e conter hemorragia no candidato


Antes do Einstein veio o SUS. Antes dos médicos de grife vieram os que recebem pela tabela do Sistema Único de Saúde. Foram eles que salvaram a vida de um Jair Bolsonaro esfaqueado e exangue. Esta é a história de um deles.

Por volta das 16 horas desta quinta-feira, o cirurgião vascular Paulo Gonçalves de Oliveira Junior participava de um almoço de família em Juiz de Fora quando seu celular tocou. Era um chamado da Santa Casa de Misericórdia da cidade para que fosse com urgência para o hospital: Bolsonaro havia sido esfaqueado e os médicos não conseguiam conter a hemorragia e nem identificar de onde vinha. O candidato a presidente pelo PSL chegara ao hospital com muita dor. Os médicos fizeram uma ultrassonografia e verificaram um hematoma na barriga, sem saber se era na parede na região epigástrica ou no fígado. Pelo quadro, resolveram iniciar imediatamente a cirurgia. Ao abrirem o abdômen, se depararam com um sangramento abundante e incontrolável. Chegaram a acreditar que o fígado havia sido atingido. Foi então que Oliveira Junior foi acionado, às pressas. O papel do cirurgião vascular seria tentar identificar onde era a hemorragia.

Quando o médico entrou na sala de cirurgia, encontrou um quadro dramático: Bolsonaro, por causa da perda de sangue, estava em choque. A pressão havia caído para 7 por 4, apesar de ter tomado um litro de soro. Com a lesão na veia do intestino, não havia nada que contivesse a hemorragia. Após exame em condições adversas, Oliveira Junior concluiu que a veia afetada fora a mesentérica, uma das mais importantes do intestino, além de um ramo dessa veia, chamada cólica média. Se a facada tivesse sido alguns centímetros acima, poderia ter atingido, segundo os médicos, a veia porta e, nesse caso, o risco de morte seria maior. Oliveira Junior imediatamente iniciou o processo de sutura das veias para conter o sangramento. O agravante é que havia uma grande lesão no cólon, o que poderia resultar em contaminação. A preocupação dos médicos era com o risco de infecção generalizada.

Os procedimentos de sutura deram resultado, e o quadro clínico do candidato se estabilizou. Na medicina o trabalho é sempre feito em equipe, e os outros cirurgiões, anestesistas e enfermeiros foram vitais. Mas, sem a intervenção do especialista em cirurgia de veias e artérias, provavelmente, a sucessão de eventos seria outra.

No começo da noite, Oliveira Junior mandou uma mensagem para um grupo de WhatsApp de cirurgiões vasculares amigos. Ali, ele agradece os cumprimentos dos colegas pelo trabalho e revela a tensão daquela cirurgia. “Meus amigos, muito obrigado pelos cumprimentos. Estou muito aliviado. Foi muito tenso. Quando cheguei, estava chocado, a lesão venosa estava destamponada, com muito sangue na cavidade tributária calibrosa da mesentérica superior. Talvez a cólica média junto a mesentérica superior. Lesão grande de cólon transverso com fezes livres na cavidade, quatro lesões de delgado, várias lesões linfáticas. Está estável e entubado no CTI da Santa Casa.”

Pelo procedimento, o Sistema Único de Saúde paga 367 reais e seis centavos – na tabela do SUS, aparece como “tratamento cirúrgico de lesões vasculares traumáticas do abdômen”. Mas Oliveira Junior terá que dividir esse valor com os outros médicos que participaram do atendimento. O hospital será remunerado em 1.090 reais e 80 centavos.

Nesta sexta-feira pela manhã, o candidato foi transferido para o Albert Einstein, em São Paulo, hospital que rivaliza com o Sírio-Libanês a preferência dos políticos e de quem pode pagar pelos seus serviços. Bolsonaro passou a noite na Santa Casa de Juiz de Fora, monitorado pelos médicos que, até o início da noite, pela gravidade do quadro, entendiam que o candidato ainda corria risco de morte. Na madrugada, com a estabilização da pressão do paciente, foi dada autorização para a transferência para São Paulo.

Quando a cirurgia em Juiz de Fora terminou, os médicos que participaram do procedimento deram uma entrevista coletiva. Discreto, Oliveira Junior se manteve em silêncio e saiu antes do fim da coletiva. Para um amigo médico, ele explicou, no grupo de WhatsApp: “Infelizmente não tenho o dom da palavra e prefiro não comentar. Prova disso é que, na entrevista coletiva, entrei mudo e saí calado. Mas, o ocorrido foi o que postei no grupo do vascular.”

Oliveira Junior é descrito como bom profissional por colegas dos seminários médicos dos quais participa. Um deles disse que o cirurgião é uma pessoa “extremamente discreta”. No site Doctoralia, o médico é elogiado por dois pacientes pela pontualidade, atenção e instalações. Um dos comentários diz tratar-se de “um excelente médico! Muito competente. O melhor especialista em angiologia e cirurgia vascular e endovascular da região.” O site informa que o consultório fica no Centro de Juiz de Fora e que Oliveira Junior atende pacientes particulares (sem convênio) e Unimed. E sugere entrar em contato, para confirmar se atende o seu plano de saúde.

Consuelo Dieguez
No Piauí
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Barroso barreando

O ministro Luís Roberto Barroso atendeu à reclamação do Ministério Público Eleitoral. O MPE alega que a coligação desrespeita a decisão do TSE que rejeitou o registro de candidatura de Lula


Em decisão divulgada neste domingo (9), o ministro Luís Roberto Barroso, do Tribunal Superior Eleitoral, determinou à Coligação “O Povo Feliz de Novo” e ao ex-presidente Lula “que se abstenham, em qualquer meio ou peça de propaganda eleitoral, de (i) apresentar Luiz Inácio Lula da Silva como candidato ao cargo de presidente da República e (ii) apoiá-lo na condição de candidato”.

Se a coligação insistir, afirmou Barroso, a propaganda de rádio e TV poderá ser suspensa. O ministro atendeu à reclamação do Ministério Público Eleitoral. O MPE alega que a coligação desrespeita a decisão do TSE que rejeitou o registro de candidatura de Lula, vedando que a coligação o apresente como candidato à Presidência da República.

De acordo com o Ministério Público, há “recalcitrância sistêmica e generalizada de um candidato inelegível, sem o abrigo do artigo 16-A, de se fazer presente, das mais variadas e insistentes formas, na propaganda eleitoral paga pelo contribuinte em expediente que se presta a desorientar o eleitorado quanto a aquilo que já decidido pela Justiça Eleitoral”.

Barroso disse, em sua decisão, que os fatos indicados pelo MP evidenciam a insistência da Coligação “O Povo Feliz de Novo” em descumprir a determinação do TSE. “Nada obstante, as sucessivas veiculações de propaganda eleitoral em desconformidade com o decidido revelam que a atuação da Coligação se distanciou dos compromissos por ela assumidos, a exigir uma atuação em caráter mais abrangente”, argumentou Barroso.


No Fórum
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O ódio à democracia


O título deste artigo, coincidindo com o da obra homônima de Jacques Rancière, é relevante porque precisamos ir além da superficialidade e buscar compreender a complexidade das relações que exacerbaram a fúria antidemocrática no Brasil. Fenômeno que emergiu justamente após mais de uma década de expansão democrática no País, vale ressaltar.

Grande parte da população, pobre e trabalhadora, quer trazer de volta aquele Brasil com garantia de direitos, democratização do acesso à saúde, à educação, à moradia. Tanto que a luta pela liberdade do ex-presidente Lula se transformou em símbolo da esperança, da resistência à retirada de direitos e de denúncia à miséria que cresce. Não por acaso, a candidatura Lula atingiu quase 40% de intenções de voto.

A extrema direita, no entanto, alcançou a segunda colocação com um discurso de ódio e de defesa da liberação de armas. O ódio insuflado no processo do golpe de 2016 se converteu em plataforma política e a eleição virou palco de ataque aos direitos humanos.

E deu no que deu! Depois de vários atentados contra a esquerda, veio o também o ataque ao candidato da ultradireita conhecido por defender a Ditadura e estimular o ódio.

Com esse episódio veio à tona a reflexão sobre o ódio à Democracia. Um debate fundamental que, até então, não mereceu atenção das instituições do Estado que, com uma postura omissa, dão ar de normalidade às recorrentes e graves violações de direitos humanos no País.

No caminho contrário, temos reiterado que não há normalidade no atual momento histórico do Brasil. A violência tem uma origem e é gerada dentro de determinado contexto. A análise desse contexto nos permite compreender a construção do ódio como ameaça concreta à Democracia.

Dissemos que a Democracia não comporta o abuso de poder, a perseguição política, a prisão sem provas. Essa denúncia foi reconhecida pela ONU, mas rechaçada pelo nosso sistema judicial interno.

Denunciamos os ditos “cidadãos de bem” que fecharam estradas para impedir um candidato oponente de entrar em cidades do interior do País. Reagimos ao grave fato que foi a formação de milícias armadas para atacar a caravana do ex-presidente Lula no Sul.

Por compreender a gravidade da fabricação do ódio na sociedade, jamais consideramos “piada” o fato de um grupo de jovens da classe média, universitários, usar relho para agredir adversários políticos. Entendemos que os aplausos odientos de autoridades públicas confirmavam a fascistização de parte da sociedade.

Alertamos o poder público a cada ação arbitrária e afrontosa às liberdades democráticas. Sempre tivemos ciência de que a posição inerte das instituições do Estado diante dessas violências era um fato ainda mais grave. 

Em “O Futuro da Democracia”, Norberto Bobbio alerta para a atenção às regras do jogo com as quais se desenrola a luta política em determinado contexto, afirmando que aí está um princípio que distingue um sistema democrático dos não-democráticos. Usando uma metáfora do autor, podemos dizer que no Brasil passou-se a considerar lícito que um dos jogadores pudesse levar socos e pontapés.

Deu no que deu! Uma milícia ruralista disparou tiros contra o ônibus que conduzia dois ex-presidentes, Lula e Dilma. Não se pode deixar de falar no crescimento de assassinatos no campo, do feminicídio e da desestruturação de medidas como o combate ao trabalho escravo.

O que expressaram sobre isso os diversos setores que, de forma genérica, dizem defender a Democracia? Nada! Aceitaram esses crimes, enquanto a Democracia se esvaía como um valor e, por conseguinte, como prática política.

Por óbvio, a intolerância não atingiria apenas os partidos e os movimentos de esquerda. Não é difícil entender a relação entre a apologia ao estupro, à tortura, ao racismo, à homofobia e a crescente violência na sociedade.

Sem qualquer sombra de dúvida, o golpe de 2016 abriu as portas para o ódio à Democracia. Os saudosos da Ditadura saíram dos porões. Sobre a Comissão Memória e Verdade, o presidenciável da extrema-direita disse que “quem gosta de osso é cachorro”. Em várias sessões da Câmara, inclusive no seu voto pelo impeachment em 2016, o mesmo presidenciável elogiou um notório torturador e, portanto, criminoso. O desprezo aos direitos humanos se tornou um discurso banal e corriqueiro.

Deu no que deu! A vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), foi vítima da fúria antidemocrática. A sua execução, além do descaso com a punição dos culpados, foi alvo de deboche para alimentar ainda mais o ódio. Não é exagero dizer que a omissão é cúmplice e faz o fascismo vitorioso.

Por tudo isso é preciso enfrentar quem trata a educação em direitos humanos com desprezo, como faz o movimento de ultradireita “escola sem partido”. É preciso questionar a quem interessa transformar a eleição em guerra. Um conflito aqui, outro ali, em vários pontos da América Latina, e perdemos conquistas democráticas. O que nos torna mais vulneráveis à dominação econômica, ao entreguismo e à perda da soberania.

É preciso interrogar as instituições políticas e jurídicas e a mídia sobre o descaso ao recente episódio em que o presidenciável da extrema-direita estimulou eleitores do Acre a metralhar petistas. O interlocutor do ódio à Democracia passou impune e, de dentro do hospital, enquanto se recupera de um atentado, volta a estimular a violência com sua marca de campanha: o gesto com as mãos simulando o uso de arma de fogo.

Temos aí os resultados dos episódios misóginos contra Dilma Rousseff, dos tiros contra a vigília Lula Livre e tantos outros. Esse é o contexto ao qual veio se somar o ataque ao presidenciável que ofende mulheres, quilombolas, gays e a todos que defendem os direitos humanos.

O que precisamos aprender com a história é que o ódio à Democracia tem como alvo toda sociedade. Não é aceitável que tal candidato faça um gesto de matar usando as mãos de uma criança, em total desrespeito ao nosso marco legal de defesa e proteção de crianças e adolescentes. A Constituição tem sido desrespeitada consecutivamente! Não podemos fingir que a violência não é estimulada e usada como instrumento de disputa nestas eleições.

Nesses tempos em que as pesquisas indicam a derrota da cúpula do golpe no Brasil, a extrema-direita parece melhor servir ao que Rancière define como a compulsão ao governo oligárquico: “compulsão a se livrar do povo e da política”.

Essa constatação dá mais nitidez ao cenário político do “apetite insaciável”. Nessa trajetória de enfrentamento ao golpe já desmentimos várias farsas antidemocráticas. A hora é de resistir ao retorno da extrema-direita e daqueles que a ela se unem para a solapar a Democracia.

Paradoxalmente, não há dúvidas de que o ódio à Democracia se expandiu à medida em que a própria Democracia se expandia pelo Brasil. O que temos é um contexto de vale tudo para o desmonte dos direitos trabalhistas e dos sistemas públicos de saúde, de assistência e de previdência social.

Sim, nós repudiamos veementemente a violência!

Ninguém merece ser executado! Ninguém merece ser torturado!

Ninguém merece ser estuprado! Ninguém merece ser agredido! Ninguém merece ser esfaqueado!

Ninguém merece ser injustiçado!

Paulo Pimenta, deputado federal, líder da bancada do PT na Câmara
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Golpista em 1964 e 2016, Rede Globo, medrosa, foge do debate com Haddad

Sabotagem política tucana

Miriam Leitão dançou feio no confronto com Fernando Haddad, a propósito dos desajustes da economia, a partir de 2014, porque se negou a aceitar o óbvio: que a política golpista do PSDB, presidido pelo senador Aécio Neves, de resistir à derrota eleitoral, interferiu na economia.

Os globalistas, unanimemente, fugiram do debate proposto pelo candidato a vice do PT na chapa com Lula, ameaçada, agora, pelo general do Exército, Eduardo Villas Boas, antes de o STF dar palavra final sobre se ele pode ou não disputar eleição.

A resistência à vitória da democracia produziu, segundo Haddad, perturbação na política econômica, ao longo de 2015 e 2016, de modo a facilitar impeachment de Dilma Rousseff.

Tratou-se, portanto, de pura sabotagem política, que teve efeitos devastadores nos agentes econômicos.

Paralisaram-se os investimentos e o desemprego desandou-se, contribuindo, para queda, nesse período, de 9% do PIB.

Visão parcial mecanicista

Miriam, com sua visão mecanicista-positivista parcial da realidade, considerou, apenas, os fatores econômicos que, segundo ela, levaram à recessão e à paralisia geral, como as barbeiragens de Dilma, na economia, em 2012-1013.

Argumentou, aos solavancos, que o caos econômico dilmista decorreu, tão somente, 1 – das desonerações dos custos de produção dos capitalistas, para garantir a eles taxas de lucro positivas, afetadas pela sua falta de competitividade nacional e internacional; 2 – das renuncias aos reajustes de tarifas de energia elétrica, que, diga-se, elevaram poder de compra dos contribuintes, para gastar no consumo, gerando produção, emprego, arrecadação e investimentos; 3 – das concessões, pelo BNDES, de empréstimos às empresas, para alavancar os chamados campeões nacionais e; 4 – das denominadas pedaladas fiscais.

Haddad reconheceu os erros, mas ressaltou que, ainda assim, 1 – 20 milhões de novos empregos foram gerados nas eras Dilma e Lula; 2 – recordes históricos nas exportações foram produzidos e 3 – geradas reservas cambiais de 380 bilhões de dólares, capazes de sustentar estabilidade econômica, nas relações internacionais.

Contudo, destacou, que, por mais erradas tenham sido as barbeiragens econômicas, como ocorrem, também, na Era FHC, com o populismo cambial que produziu desindustrialização, inflação e fuga de capitais decorrentes do deficit no balanço de pagamentos ao final de 2012, elas não justificariam o tombo de 9% do PIB, registrado em 2015 e 2016.

Seria, então, na avaliação dele, necessário colocar na conta da crise o golpe institucional, dado pelos tucanos, para desestabilizar democracia e economia, como, de fato, ocorreu.

Por que não debater a influência do golpe institucional tucano na economia tocada por Dilma, destinada a desestabiliza-la, politicamente?

Os entrevistados da Globo não toparam o debate e se irritaram com Haddad por ter dito que não viu nem vê eles debaterem as consequências do rompimento institucional, a partir de 2014, como determinante da crise econômica.

A Globo, frisou Haddad, ouviu, apenas, um lado da realidade, não o seu todo, para contribuir com formação crítica da sociedade sobre o que, realmente, aconteceu.

A dualidade do real concreto em movimento dialético não foi considerada pelos mecanicistas, positivistas globalistas.

Onde está a honestidade, perguntaria Noel Rosa?

Fragilidade histórica

Sem dúvida, como reconheceu Haddad, houve derrapagens na economia,  objetivando minimizar taxas de lucros cadentes dos capitalistas tupiniquins em meio à desindustrialização, decorrente, quase sempre, de câmbio, historicamente, sobrevalorizado.

É o que se tem visto ao longo da era neo-republicana, pós ditadura militar,  como tem destacado, lucidamente, Bresser Pereira, para explicar fragilidades econômicas brasileiras, no cenário global.

Ressalte-se, como fundamental, que as barbeiragens e equívocos dilmistas na condução da política econômica foram, amplamente, aplaudidos pelos empresários, como ressaltou, recentemente, Delfim Netto.

Não teria sido, também, favorecida, como empresa, a própria Rede Globo, nesse rol de vantagens decorrentes de renuncias fiscais, com recursos do contribuinte?

O fato evidente é que Dilma foi pressionada pelos donos do dinheiro(indústria e bancos) a errar para ajudar capitalismo brasileiro sem poder de competitividade internacional, dada sua histórica dependência decorrente de restrições externas geradoras de deterioração nas relações de trocas internacionais.

Mas, esses escorregões do governo dilmista, reconhecidos por Haddad e pelo próprio Lula e PT, não explicariam, por si só, queda de 9% do PIB em 2015 e 2016.

Seria indispensável levar em consideração os fatores políticos provenientes do golpe institucional tucano, para tirar do poder presidenta eleita por 54 milhões de votos.

X da questão

Como disse Keynes, maior economista do século 20, os fatores psicológicos, institucionais e políticos são decisivos para orientar o clima de investimento na economia capitalista, marcada por contradições no processo de sobreacumulação de capital em toda a história do capitalismo.

Instabilidades decorrentes de tentativas de golpes políticos, reconhece o autor da “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, produzem, inevitavelmente, inseguranças jurídicas, perigos de virada de mesa etc e tal, decisivos para interromperem ações dos agentes econômicos.

“O capital é, essencialmente, covarde”(Roberto Campos).

O silêncio faccioso dos entrevistadores da Globo sobre o assunto comprovou que ocorreu o golpe institucional, levantado por Haddad.

Fugiram do assunto, ao recusarem a evidente correlação entre política e economia no contexto da crise que levou ao impeachment.

Miriam, tão cética e sempre propensa a identificar fatores psicológicos e políticos, como produtores de instabilidade econômica, simplesmente, emudeceu.

Haddad concluiu acertadamente que Aécio Neves, com apoio midiático, destaque-se, quis brincar com a democracia, contestando-a nos tribunais, para judicializar a política.

Resultado: levou a economia ao caos neoliberal de Temer e à inviabilidade eleitoral dos seus aliados, como comprovam pesquisas às vésperas da eleição.

Dá-lhe Noel



No Independência Sul Americana
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Nota do PT: Repúdio à Tutela Militar Sobre a Democracia


O Partido dos Trabalhadores convoca as forças democráticas do país a repudiar declarações de cunho autoritário e inconstitucional do comandante do Exército divulgadas pela imprensa neste domingo.

A entrevista do general Villas Boas é o mais grave episódio de insubordinação de uma comandante das Forças Armadas ao papel que lhes foi delimitado, pela vontade soberana do povo, na Constituição democrática de 1988.

É uma manifestação de caráter político, de quem pretende tutelar as instituições republicanas. No caso específico, o Poder Judiciário, que ainda examina recursos processuais legítimos em relação ao ex-presidente Lula.

É muito grave que um comandante com alta responsabilidade se arrogue a interferir diretamente no processo eleitoral, algo que as Forças Armadas não faziam desde os sombrios tempos da ditadura.

Depois de dizer quem pode ou não pode ser candidato, de interpretar arbitrariamente a lei e a Constituição o que mais vão querer? Decidir se o eleito toma posse? Indicar o futuro presidente à revelia do povo? Mudar as leis para que o eleitor não possa decidir livremente? O Brasil já passou por isso e não quer voltar a este passado sombrio.

A Constituição diz claramente que as Forças Armadas só podem atuar por determinação expressa de um dos poderes da República, legitimados pelo estado de direito democrático, e nunca a sua revelia ou, supostamente, para corrigi-los.

A sociedade brasileira lutou tenazmente para reconstruir a democracia no país, com o sacrifício de muitas vidas, após o golpe civil e militar de 1964, que acabou conduzindo o país a um regime ditatorial nefasto para o povo e desmoralizante para as Forças Armadas.

A democracia e o estado de direito não admitem tutela alguma, pois se sustentam na soberania do voto popular.

Um governo legítimo, comprometido com o futuro do país, já teria chamado o general Villas Boas a retratar suas declarações de cunho autoritário e tomado as medidas necessárias para afirmar o poder civil e republicano.

Como se trata de um governo nascido de um golpe, decadente e repudiado pela quase totalidade da população, não lhe resta qualquer autoridade para impor a ordem constitucional aos comandos militares.

Compete ao povo e aos democratas do país denunciar e reagir diante de um episódio que só faz agravar a grave crise social, política e econômica do país.

O Brasil precisa urgentemente de mais democracia, não menos, para retomar o caminho da paz e do desenvolvimento com inclusão social.

Comissão Executiva Nacional do PT
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‘Pastor de Bolsonaro’ gastou meio milhão de reais com gasolina paga pelo eleitor


De mãos dadas, Jair Bolsonaro e Magno Malta fizeram uma oração inflamada dentro de um camarim da Rede Globo. O senador e pastor capixaba era o único político de relevo a acompanhar o candidato à Presidência pelo PSL nos bastidores do Jornal Nacional, em que foi entrevistado no dia 28 de agosto. Ao final, Bolsonaro, como se estivesse prestes a entrar num campo de futebol para uma partida decisiva, bateu palma para o time: “Bora!”.

Descrito como “vice dos sonhos” por Bolsonaro, Malta é também o cliente dos sonhos de dois postos de gasolina em Vila Velha, no Espírito Santo, onde mantém um escritório de apoio. De abril de 2009 até julho deste ano, Malta, eleito pelo PR, torrou R$ 472 mil em combustível nesses dois estabelecimentos. Quase meio milhão de reais em cota parlamentar consumida em gasolina, segundo notas apresentadas pelo senador por exigência legal. São gastos incomuns no Senado.

O volume de combustível adquirido por Malta e seus assessores nos postos, considerando a média atual de R$ 4,47 por litro de gasolina no Espírito Santo, seria suficiente para adquirir 105.593 litros de gasolina. O volume permite percorrer 1.055.930 km com um carro padrão de autonomia de 10 km/l. Embora seja um número subestimado, já que a conta é feita com o elevado valor atual do litro da gasolina, ainda assim seria possível atravessar o estado do Espírito Santo, em linha reta, de norte a sul, 2.823 vezes. Ou seja, Magno Malta e sua equipe teriam cruzado o estado a cada 29 horas ao longo dos últimos nove anos.

Esses postos, distantes 5 km entre si, pertencem a uma mesma pessoa: José Tasso Oliveira de Andrade, ex-deputado estadual e ex-chefe da Casa Civil do Espírito Santo (1999-2001). Ele está em segundo plano na política local desde 2013, quando foi condenado em segunda instância por roubo de dinheiro público.



O caso envolve a participação dele num esquema de drenagem de recursos públicos, com pagamentos em espécie a candidatos do extinto PFL, do então governador José Ignácio Ferreira e seus aliados. O total movimentado seria de R$ 5 milhões. Na denúncia, José Tasso é acusado de receber para si parte dos recursos desviados e de compor uma espécie de comitê que distribuía verbas ilícitas a políticos de sua escolha. Ele foi condenado a cinco anos e nove meses de prisão pelo crime, em regime fechado. Na época do veredito, Magno Malta já abastecia exclusivamente nos postos de José Tasso – os únicos dois que ele possui em Vila Velha.

O Tribunal Regional Federal da 2ª Região confirmou a sentença em dezembro de 2013, mas determinou que, em razão da “comprovada fragilidade do quadro de saúde”, ele cumprisse prisão domiciliar. No entanto, como José Tasso estava com mais de 70 anos na época da condenação, sua pena foi prescrita.

Tasso também foi condenado em uma outra ação, essa por sonegação de impostos envolvendo um de seus postos de gasolina, no município de Cariacica. Nesse caso, ele foi sentenciado em 2015 a dois anos e nove meses de prisão, mas recorreu à segunda instância. O ex-deputado ainda é réu pela sonegação de mais de R$ 1,7 milhão em impostos (valores não corrigidos pela inflação) na operação do mesmo posto. Em um quarto processo, instaurado neste ano, ele é acusado de lavagem de dinheiro.

Voltas ao mundo

Como todo parlamentar, além do gabinete em Brasília, Magno Malta tem escritório de apoio em seu estado de origem, o Espírito Santo. São dois endereços, um em Vila Velha e outro em Cachoeiro de Itapemirim, município no sul do estado, quase divisa com o Rio de Janeiro. José Tasso foi prefeito na cidade. Apesar de ter escritório no município, Malta nunca declarou ter abastecido em postos de lá. Ao todo, Malta tem à sua disposição 24 servidores pagos pelo Senado, divididos nesses dois escritórios. Supondo que a quantidade de servidores tenha permanecido constante desde 2009 e que todos eles tivessem como atribuição se deslocar para atividades parlamentares, cada um em um carro, o que é obviamente irreal, é como se cada um deles consumisse praticamente um tanque cheio por mês (43 litros de gasolina, ao preço de hoje) durante nove anos.
O combustível comprado pelo senador em apenas dois meses seria suficiente para dar duas voltas na Terra.
Os outros dois senadores da bancada do Espírito Santo, o tucano Ricardo Ferraço e Rose de Freitas, do Podemos, apresentam números muito menores de gastos com gasolina: mesmo somados não atingem o consumo de combustível do gabinete de Malta. Em 2018, até julho, Malta já tinha gastado R$ 39 mil nos seus postos de preferência. Ferraço declarou R$ 16 mil em combustível no mesmo período (41% do gasto de Malta). E Rose de Freitas, que concorre ao governo do estado, apresentou notas em postos de gasolina num valor total de R$ 7,7 mil (19,7%). Os outros dois senadores, ao contrário de Malta, registram abastecimento em vários postos diferentes. Em Brasília, onde Malta passa a maior parte de seus dias, o Senado registrou gastos de R$ 6,9 mil com gasolina para seu carro oficial até julho deste ano.

Nas idas de Malta ou de sua equipe aos postos em Vila Velha, os desembolsos geralmente são grandes, acima dos R$ 3 mil por nota emitida. Ainda assim, há ocasiões em que os gastos chamam ainda mais atenção. No dia 14 de novembro de 2013, por exemplo, ele deixou R$ 12.892,97 de sua cota parlamentar no posto. Um mês antes, no dia 16 de outubro, o senador já tinha gasto R$ 11.901,38.

Em novembro de 2013, o preço médio de revenda da gasolina no Espírito Santo, segundo a ANP, era de R$ 2,881. Em outubro daquele ano, R$ 2,887. Somados apenas aqueles dois meses, Magno Malta teria comprado por volta de 8.596 litros do combustível. É mais do que o suficiente para dar duas voltas na Terra, considerando um tanque comum com autonomia de 10km/litro, como o Logan.

O Intercept procurou o senador Magno Malta para que comentasse a reportagem. Fizemos duas perguntas: “Por que houve um gasto tão grande de combustível no período (média de R$ 4.250 mensais)?” e “Por que, ao longo de anos, o abastecimento ocorreu apenas em dois postos, do mesmo dono?”.

O senador, através de sua assessoria de imprensa, disse apenas que cumpre a lei. “Estamos cumprindo o rigor da lei com postura ética, moral e transparência. Não tem nenhuma irregularidade.”

‘Meu homem é o Malta’

O mandato de Magno Malta é marcado pelas ações contra a pedofilia. São mais abundantes as imagens dele vestindo uma camiseta preta com frases contra abuso infantil do que de terno e gravata. Nas horas vagas, o senador, um integrante da bancada evangélica, ainda atua como cantor gospel.

A proximidade com Bolsonaro não é repentina. Há tempos que Malta e o deputado formam uma dobradinha política. O senador era o principal cotado para ser o vice do candidato do PSL. Mas a negociação envolvia o PR, que acabou optando por entrar no barco do tucano Geraldo Alckmin. Bolsonaro acabou trazendo para sua chapa o general Hamilton Mourão. Numa entrevista à Globonews, no dia 3 de agosto, Bolsonaro minimizou o fato de o PR não ter topado a coligação com ele – o que implicou num tempo de TV semelhante aos dos candidatos mais nanicos (8 segundos).

“Meu homem é o Magno Malta”, disse, refutando a informação de que ele tinha cortejado o condenado por corrupção Valdemar Costa Neto, presidente do partido. “Me agregava, e muito, a companhia do senhor Magno Malta.”

Dias antes dessa entrevista, Bolsonaro também já havia declarado a confiança em Magno Malta. “Nós temos namorado não o PR, mas o senador Magno Malta. (…) É um homem de Deus, um homem que tem uma atividade intensa dentro e fora do Parlamento”, disse durante discurso num evento de campanha na Bahia.

Maurício Ferro, Davi Gentilli, Breno Costa
No The Intercept
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PT entra com ação penal contra Janaína e Magno Malta por calúnia e difamação


Na madrugada deste domingo, 9/9, o Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) entrou com ação penal contra Janaína Conceição Paschoal e o senador Magno Malta pelos crimes de calúnia e difamação.

A primeira, no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. A segunda, no Supremo Tribunal Federal (STF)

Ambos disseminaram mentiras em relação à facada sofrida por Jair Bolsonaro, candidato do PSL à presidência da República, em juiz de Fora (MG), na última quinta-feira,06/9.

Magno Malta, de forma deliberada, foi ao twitter, imputar envolvimento do PT no crime, a partir de montagem fotográfica, mesmo que sabidamente inverídica tal informação.

Logo abaixo, a foto falsa, veiculada por Magno Malta, com a legenda: “Olha em que time joga o marginal” (sic). Mais abaixo, a foto verdadeira.


Na queixa-crime contra Magno Malta (na íntegra, ao final), os advogados Eugênio  Aragão, Ângelo Longo Ferraro, Marcelo Winch Schmidt, Rachel Luzardo de Aragão e Miguel Filipi Pimentel Novaes observam:
6. O querelado não só não se deu ao trabalho de verificar a autenticidade da foto, como usou a foto evidentemente falsa para caluniar “o time” em que jogaria o agressor, ou seja, o Partido dos Trabalhadores, a que pertence o ex-presidente Lula.

7. Ou seja, promove clara difusão de mensagem sabidamente inverídica no intuito de atribuir ao Partido dos Trabalhadores relação direta e de gerência sobre os atos do autor do atentado promovido em detrimento do candidato Jair Bolsonaro.

(…)

13. Ora, reputar esta Agremiação Partidária, de tradicional militância pelos direitos humanos e sociais, o cometimento de crime que pode ser equiparado a atos de terrorismo, ou mesmo afirmar que se tentou, deliberadamente, por razões políticas, macular a integridade física de um Deputado Federal, ora candidato a Presidente da República, constitui ato de grave violação a honra objetivo do Partido dos Trabalhadores.
Na queixa-crime, os advogados afirmam que, Magno Malta,  ao publicar uma montagem em que estaria o autor da lesão vinculado às principais figuras do PT , é evidente o seu intuito de atribuir ao PT a responsabilidade e envolvimento com o mando de tal crime.

Além disso, considerando que Magno Malta tem 360 mil seguidores no twitter, fica clara a intenção de dizer  “Olha em que time joga o marginal” (sic)  e de propagá-lo.

“Ou seja, houve a plena intenção e consciência do que estaria realizando”, frisam os advogados

Janaína, por sua vez, concedeu entrevista afirmando que o autor do crime cometido seria vinculado às pessoasdo lado de lá”.

Antes disso, atentam os advogados do PT, é possível ouvi-la dizer, em vídeo disseminado em redes sociais: “eles pisaram na gente, eles submeteram, eles perseguiram, eles processam, eles ameaçam, eles fazem tudo isso e quando percebem que a gente se mantém firme, eles matam.”
4. E, quando questionada quem seriam “eles”, responde serem aqueles que estavam no poder e que não estão aguentando a realidade que elas perderem o poder e que elas não vão voltar para o poder”, em clara alusão ao Partido dos Trabalhadores.

5. Ora, para que não restem dúvidas, a querelada continua dizendo, ao responder a pergunta se ela acreditava, então, que não se tratava de um ato isolado: “não foi. Essa pessoa é completamente vinculada. A imprensa não tá mostrando ele com camiseta Lula Livre nas redes sociais. Ele faz parte do grupo, entendeu? Ele faz parte.”

6. Lula, como é de conhecimento comum, trata de Luiz Inácio Lula da Silva, Presidente de Honra do Partido dos Trabalhadores.

7. Ou seja, afirma a querelada, categoricamente que “aqueles que estavam no Poder”, em alusão ao Partido dos Trabalhadores, que governou o país de 2003 a 2016, seria responsável por perseguições, ameaças e até mesmo por mortes. Emenda, a esta fala,  a  afirmação que o autor do atentado sofrido pelo candidato Jair Bolsonaro seria vinculado ao Partido dos Trabalhadores, uma vez que usaria a camiseta com dizeres de “Lula Livre”.

8. Ou seja, a querelada é assertiva ao atribuir a responsabilidade sobre o atentado contra a integridade física do candidato Jair Bolsonaro ao Partido dos Trabalhadores.
Na queixa-crime, os advogados do PT lembram que Janaína é professora doutora em Direito  por uma das universidades mais renomadas do país. Leia-se: USP.

Portanto, não pode se eximir de sua responsabilidade, afirmando desconhecer a tipicidade da conduta, ou acreditar que o que disse no vídeo e na entrevista não configurariam imputação de crime sabidamente falso ao PT.





No Viomundo
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Bolsonaro ganha apenas o que dá para “matar” Alckmin


O Datafolha que sai amanhã registrará, claro, ganhos para a candidatura Jair Bolsonaro, como era óbvio após os acontecimentos de Juiz de Fora.

Nada, porém, segundo avaliam as pesquisas instantâneas (os trackings telefônicos) que sustente, nem de longe, as previsões mirabolantes de seus adeptos, de que estariam perto de viabilizar uma vitória de 1° turno.

Lauro Jardim, em O Globo, cita duas destas enquetes que registrariam uma subida de três pontos. Já Andrei Roman. da consultoria Atlas Político, que faz este trabalho para clientes privados, estima que o candidato fascista vá chegar ao redor de 26%, o que chama de seu “teto” eleitoral.

Bolsonaro, por sua trajetória pregressa, não consegue vestir o figurino de vítima – embora o seja, neste episódio – e não consegue sequer se conter, como mostra na inacreditável fotografia “bangue-banque” de soro e camisolão de hospital que está nos jornais.

Mais importante que isso, porém – até porque são eventos sobre os quais a capacidade de intervenção é baixa e que, salvo por fatos novos, já começam a deixar para trás o instante de pico de sua influência sobre o processo político – são os desdobramentos que nos trazem sobre as quatro exíguas semanas até a eleição.

Ao que é dado sentir e com as poucas informações que se tem, o prejuízo maior fica na conta de Geraldo Alckmin, que precisava desesperadamente atrair eleitores conservadores que, afinal, acabam sendo empurrados para o ex-capitão. Nada vem e algo vai é o pior dos mundos para o candidato tucano, em visível processo de “cristianização” até mesmo em seu reduto paulista.

Ciro, tardiamente, começa a emitir sinais ao eleitorado lulista mas, a esta altura, já não pode se apresentar como seu herdeiro eleitoral. Marina, por sua vez, opta por permanecer no lotadíssimo território dos “nem-nem”: nem Bolsonaro, nem Lula que, adora, não chega a representar um terço do eleitorado, para ser dividido entre dez candidatos ou, ao menos, a meia dúzia que “existe” eleitoralmente.

E isso deixa o espaço ocupado por Lula (entre 35% e 40%) folgado o suficiente para que, ainda que seja lento, o processo de transferência de votos para Haddad baste para levá-lo ao segundo turno e dar início a um novo cenário.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Bolsonaro é uma mentalidade


Não, Jair Bolsonaro não é um candidato como outro qualquer. É pior. Ele é um imaginário, uma mentalidade, uma visão de mundo. O seu método de leitura do que acontece na vida é a simplificação. Torna o complexo falsamente simples por meio de uma redução a zero dos fatores que adensam qualquer situação. Se há violência contra os cidadãos, que cada um receba armas para se defender. Se há impunidade, que a justiça seja sumária e sem muitos recursos. Se há bandidos nas ruas, que a polícia possa matá-los sem que as condições de cada morte sejam examinadas. Se há corrupção, que não se perca tempos com processos.

Bolsonaro encarna o pensamento do homem medíocre, o homem mediano que não assimila explicações baseadas em causas múltiplas. Se há miséria, a culpa é da preguiça dos miseráveis. Se há crime, a culpa é sempre da má índole. Se há manifestações, é por falta de ordem. A sua filosofia por excelência é o preconceito em tom de indignação moral, moralista. A sua solução ideal para os conflitos é a repressão, a cadeia, o cassetete. Bolsonaro corporifica o imaginário do macho branco autoritário que odeia o politicamente correto e denuncia uma suposta dominação do mundo pelos homossexuais. É o cara que, com pretensa convicção amparada em evidências jamais demonstradas, diz:

– Não se pode mais ser homem neste país. Vamos ser todos gays.

Ele representa a ideia de que ficamos menos livres quando não podemos fazer tranquilamente piadas sobre negros, gays e mulheres. Bolsonaro tem a cara de todos aqueles que consideram índios indolentes, dormindo sobre latifúndios improdutivos, e beneficiários do bolsa família preguiçosos que só querem mamar nas tetas do Estado. Bolsonaro é o sujeito desinformado que sustenta que na ditadura não havia corrupção. É o empresário ambicioso que se for para ganhar mais dinheiro abre mão da democracia. É o produtor que vê exagero em certas denúncias de trabalho escravo. É o homem que acha normal, em momentos de estresse, chamar mulher de vagabunda. O eleitor padrão de Bolsonaro sonha com uma sociedade de homens armados nas ruas, sem legislação trabalhista, sem greves, sem sindicatos, sem liberdade de imprensa.

O projeto de Bolsonaro é o retorno a um regime de força por meio de voto. Aparelhamento da democracia. Na parede do imaginário e de certas propagandas de Bolsonaro e dos seus fiéis aparecem ditadores. O seu paraíso é da paz dos cemitérios e das prisões para os dissidentes. Um imaginário é uma representação que se torna realidade. Uma realidade que se torna representação. Bolsonaro é um modo de ser no mundo baseado na truculência, na restrição de liberdade, na eliminação da complexidade, no encurtamento dos processos de tomada de decisões.

Bolsonaro usa a democracia para asfixiá-la. É um efeito perverso do jogo democrático. Condensa uma interpretação do mundo que não suporta a diversidade, o respeito à diferença, a pluralidade, o dissenso, o conflito, o embate. Inculto, ignora a história. Não há dívida com os escravizados e seus descendentes. A culpa pela infâmia da escravidão não é de quem escravizou. O presente exime-se do passado. Bolsonaro é a ignorância que perdeu a vergonha. Contra ele só há um procedimento eficaz: o voto. Se necessário, o voto útil.
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Atentado não Muda Eleições e a Verdade Histórica

O lamentável atentado contra Bolsonaro, que deve ser condenado por todos, embora possa ter algum impacto de curto prazo na opinião pública, não terá consequências significativas nos resultados das eleições.

Isso por dois motivos principais.

Em primeiro lugar, porque, apesar das especulações surgidas, o atentado foi obra clara de um indivíduo completamente desequilibrado, desses que fala sozinho e acredita em teorias da conspiração. Um esquizofrênico que vive fora da realidade. Não, foi, portanto, um atentado político, como foram os disparos contra a Caravana de Lula e o bárbaro assassinato de Marielle Franco, até hoje não esclarecidos. Não houve nenhuma conspiração contra o folclórico capitão. Só um completo débil mental pode acreditar que o atentado foi fruto de uma conspiração petista, até mesmo porque nem o PT, nem qualquer outro partido, têm nada a lucrar com o incidente. O único que lucrou, no curto prazo, foi o próprio Bolsonaro, com a publicidade gratuita e vitimizadora.

Em segundo, porque a reação dos bolsonaristas foi a pior possível. Em vez de aproveitar a oportunidade para suavizar a sua imagem e demonstrar algum compromisso mínimo com a democracia e a civilização, eles se empenharam em reafirmar sua identidade de australopithecus da política nacional. Com efeito, logo após o atentado, o presidente nacional do PSL, partido do Bolsonaro, em vez de demonstrar equilíbrio e defender a pacificação do processo político, soltou a consigna bélica: “Agora é guerra!” Dessa forma, incitou a militância a partir para a violência contra petistas e esquerdistas de um modo geral, como sempre fizeram, aliás. O vice Mourão, o mesmo que acha que negros são malandros e que índios são indolentes, defendeu, no dia seguinte, a tortura e a ditadura em entrevista à Globo News. Comparou torturadores a “heróis”.

Com isso, os bolsonaristas demonstraram, mais uma vez, que não têm qualquer compromisso real com a democracia, os direitos humanos, a pacificação do processo político brasileiro e com princípios civilizatórios básicos. Ao contrário, demonstraram que apostam na violência, no arbítrio e no autoritarismo como “soluções” para a crise que se instalou no Brasil. Vão resolver tudo na marra e com muitas armas. Se chegarem ao poder, vão prender ou “metralhar” petistas e oposicionistas, como já prometeu o capitão, por diversas vezes.

Como afirmou Brecht, a cadela do fascismo está sempre no cio. Sempre barulhenta e descontrolada. Ele é incapaz de controlar sua natureza violenta.

Essas atitudes e esses discursos podem ter impacto positivo nos eleitores de Bolsonaro em uma minoria que pode tender para o autoritarismo deslavado, para a patologia sociopolítica do protofascismo brasileiro. Mas têm um impacto negativo na maior parte da população, que rejeita a violência e o machismo e o racismo exacerbado dos seguidores do capitão.

Mesmo vitimizado pelo atentado, Bolsonaro, em médio prazo, continuará a assustar a maior parte dos eleitores. Assustar não apenas pela violência protofascista, mas também pelo despreparo e pela ausência de propostas.

Bolsonaro é um vácuo pleno de ódio. Seduz um seleto grupo de analfabetos políticos e de ressentidos. Sua inteligência limítrofe o limita a cerca de 20% do eleitorado. Em comparação a ele, Hitler e Mussolini eram grandes pensadores políticos. O grande problema de Bolsonaro é sua intrínseca pequenez política e intelectual. Há décadas na obscuridade como um parlamentar absolutamente medíocre, foi subitamente catapultado ao estrelato político pelo ódio ao petismo promovido pelos golpistas e sua mídia venal. A não ser que haja uma aposta maciça do capital e das forças golpistas em sua candidatura, ele não tem envergadura para ganhar as eleições, mesmo sem Lula, que o derrotaria com grande facilidade.

Além disso, boa parte da população percebe que a violência social, institucional e política afeta muito mais as forças populares e de esquerda. Quem sofre atentados diários são os jovens negros, que são assassinados como moscas, num verdadeiro genocídio, que Bolsonaro na certa deseja ampliar com sua política de armamento dos “cidadãos de bem”. São 63 jovens negros assassinados por dia. Sessenta e três atentados diários que não aparecem nos telejornais dos cidadãos de bem.

Nos últimos 4 anos, 24 lideranças populares e progressistas sofreram atentados e foram assassinadas no Brasil. Ninguém deu bola. Mesmo Marielle Franco, que apareceu nos jornais, não teve seu caso elucidado até agora. Na época, seguidores de Bolsonaro afirmaram que ela era amante de traficantes.

Todos os presidentes até agora ilegitimamente afastados do cargo foram do campo progressista: Getúlio, Jango e Dilma. Os da direita têm vida fácil assegurada pela mídia oligárquica e pelos engavetadores de processos.

Durante a ditadura, que Bolsonaro et caterva tanto defendem, centenas de militantes políticos de esquerda foram sequestrados, barbaramente torturados e assassinados. Milhares de outros foram perseguidos e tiveram de se exilar. Ao contrário do que aconteceu em países como Argentina, aqui no Brasil os torturadores e os assassinos não sofreram nada. Ganharam medalhas e hoje são citados por Bolsonaro e Mourão como “heróis”.

Lula, o grande líder popular da nossa História, foi preso, num processo mentiroso e injusto, para evitar a derrota do golpe e da sua agenda antipopular e antinacional, que Bolsonaro e todos os outros candidatos golpistas apoiam. Bolsonaro deverá sair em 10 dias do hospital, mas Lula continuará preso por 12 anos, por crimes que nunca cometeu. Quem sofreu a maior violência? No entanto, a mesma mídia que se comove com o incidente com Bolsonaro, trata esse horrendo atentado contra a democracia, que é a prisão sem provas de Lula, já condenada pela ONU, como algo inteiramente natural.

Todos os dias, dezenas de milhões de brasileiros sofrem com aquilo que Gandhi denominava de “a pior forma de violência”, a miséria. Miséria que será ampliada, caso Bolsonaro ou outro candidato golpista consiga se eleger. De novo, essa horrível forma de violência, esse atentado diário contra milhões de brasileiros, é algo inteiramente ignorado pela mídia oligárquica e pelo golpistas. Mas as vítimas sentem na pele.

Por isso, pouca gente do povo vai engolir a inversão de papéis insinuada pelo atentado contra Bolsonaro. Pouca gente vai acreditar, no médio prazo, que o algoz é vítima.

Historicamente, as grandes vítimas de violência no Brasil são os pobres, os negros, os índios, as mulheres, os gays e, do ponto de vista político, as lideranças populares e progressistas.

Homem branco machista de classe média e de direita nunca foi vítima. Em geral, é algoz. O lamentável atentado contra Bolsonaro não vai mudar essa verdade histórica. E não creio que vá mudar, de forma automática, o resultado das eleições.

Marcelo Zero
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Triste fim de um general

Ele
Em entrevista à repórter Tânia Monteiro, do jornal O Estado de S. Paulo, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, trilhou por um caminho de interpretação da legislação que não convém a uma autoridade de farda.

“O pior cenário é termos alguém sub judice, afrontando tanto a Constituição quanto a Lei da Ficha Limpa, tirando a legitimidade, dificultando a estabilidade e a governabilidade do futuro governo e dividindo ainda mais a sociedade brasileira. A Lei da Ficha Limpa se aplica a todos”, disse.

Villas Bôas não afirmou que o Exército não aceita a candidatura de Lula, mas manifestou a opinião de que a questão seja resolvida rapidamente.

Para um comandante militar, a consideração é indevida, já que o Brasil tem instituições próprias para fazer leis (caso do Legislativo) e aplicá-las (caso do Judiciário), onde Lula trava uma dura batalha, com decisões que juristas apontam como infundadas.

Se manifestações desse tipo eixarem ministros do Supremo acuados, o Brasil estaria hoje sob uma intervenção militar não declarada.

Em abril, antes que os ministros se reunissem para o julgamento do habeas corpus de Lula, Villas Bôas publicou um tuíte que foi interpretado como ameaça.

“Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”, escreveu no Twitter.

Celso de Mello, o mais antigo ministro do STF, respondeu:

“Alguns pronunciamentos manifestados no dia de ontem (terça), especialmente declarações impregnadas de insólito conteúdo admonitório claramente infringentes do princípio da separação de poderes impõe que se façam breves considerações a respeito desse fato, até mesmo em função da altíssima fonte de que emanaram”, disse.

Experiente, Celso de Mello votou pela concessão de habeas corpus a Lula, apesar da advertência do comandante do Exército. Mas… e Rosa Weber? O voto dela contra a concessão do habeas corpus foi confuso.

Teria sucumbido à pressão.

Celso de Mello lembrou que os militares devem estar sujeitos à autoridade do poder civil, como define a Constituição, não o contrário.

Pelo jeito, Villas Bôas não levou em consideração o que disse o ministro e, com sua entrevista, voltou fazer advertências indevidas. Falou até da facada em Bolsonaro.

“O atentado é a materialização das preocupações que a gente estava antevendo de todo esse acirramento dessas divergências, que saíram do nível político e já passaram para nível comportamental das pessoas. A intolerância está muito grande”, afirmou.

Para ele, o atentado confirma que estamos construindo dificuldade para que o novo governo tenha uma estabilidade, para a sua governabilidade, e podendo até mesmo ter sua legitimidade questionada.

“Por exemplo, com relação a Bolsonaro, ele não sendo eleito, ele pode dizer que prejudicaram a campanha dele. E, ele sendo eleito, provavelmente será dito que ele foi beneficiado pelo atentado, porque gerou comoção. Daí, altera o ritmo normal das coisas e isso é preocupante”, destacou.

Na tarefa de aliviar a pressão, ajudaria muito se o comandante do Exército não fosse além de suas atribuições constitucionais. Definitivamente, o Brasil não tem poder moderador.

A Constituição, já tão violentada, está acima de todos

Leia os principais trechos da entrevista:

Como o Exército acompanha a tentativa de registro da candidatura do ex-presidente Lula?

A gente vem pautando nossa atuação e discurso em cima da legalidade, legitimidade e estabilidade. Entendemos que a estabilidade é fundamental para o funcionamento das instituições. Até porque, o inverso, a instabilidade, implica diretamente nossa atuação, como na greve dos caminhoneiros. Preocupa que este acirramento das divisões acabe minando tanto a governabilidade quanto a legitimidade do próximo governo. Nos preocupa também que as decisões relativas a este tema sejam definidas e decididas rapidamente, de uma maneira definitiva, para que todo o processo transcorra com naturalidade.

Um dos argumentos da defesa de Lula é um parecer do Comitê de Direitos humanos da ONU. Como avalia?

É uma tentativa de invasão da soberania nacional. Depende de nós permitir que ela se confirme ou não. Isso é algo que nos preocupa, porque pode comprometer nossa estabilidade, as condições de governabilidade e de legitimidade do próximo governo.

Na possibilidade de Lula se tornar elegível e ganhar, qual seria a posição das Forças?

Quem chancela isso é o povo brasileiro. Nós somos instituição de Estado que serve ao povo. Não se trata de prestar continência para A ou B. Mas, sim, de cumprir as prerrogativas estabelecidas a quem é eleito presidente. Não há hipótese de o Exército provocar uma quebra de ordem institucional. Não se trata de fulanizar. O pior cenário é termos alguém sub judice, afrontando tanto a Constituição quanto a Lei da Ficha Limpa, tirando a legitimidade, dificultando a estabilidade e a governabilidade do futuro governo e dividindo ainda mais a sociedade brasileira. A Lei da Ficha Limpa se aplica a todos.

Até quando essa questão tem de ser decidida?

Que seja decidida com oportunidade para que o processo eleitoral transcorra normalmente e naturalmente.

O sr. acha que, se um dos extremos ganhar as eleições, radicais oposicionistas poderiam provocar desordem no País?

Absolutamente, não. O País atingiu uma maturidade. Eventualmente, podem ocorrer ações isoladas, de pequena monta, sem adquirir este caráter de uma grande instabilidade para o País.

Bolsonaro aparece como candidato dos militares. Ele é o candidato das Forças Armadas?

Não é candidato das Forças. As Forças Armadas são instituições de Estado, de caráter apolítico e apartidário. Obviamente, ele tem apelo no público militar, porque ele procura se identificar com as questões que são caras às Forças, além de ter senso de oportunidade aguçada.

Um eventual governo Bolsonaro poderia ser considerado um governo militar?

Absolutamente, não. Não é um governo militar. A postura e a conduta das Forças Armadas serão exatamente as mesmas em um governo de esquerda ou de direita, sem fulanizar.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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A ironia

A facada salvou Jair Bolsonaro. Estivesse em vigor a liberalidade de armas de fogo da sua pregação, em vez da facada pouco profunda seria um tiro à queima-roupa a atravessar-lhe as vísceras de fora a fora, com a letalidade previsível. A ironia da violência armada que o surpreendeu vai dificultar-lhe o uso de seus temas eleitorais pessoalmente mais autênticos e, tudo indica, mais atrativos para o tipo de apoiadores que tem.

Ataques como o sofrido por Bolsonaro podem vir de impulsos muito diferentes. Nada além da leviandade de praxe autorizava a imediata atribuição do ato agressivo ao ódio político, ainda mais havendo menção familiar a transtorno mental do agressor. Em qualquer hipótese, a vitimação de Bolsonaro não é motivo para atenuar-se a responsabilidade de sua pregação da violência no ambiente propício até a atentados, dois deles já ensaiados contra militantes do PT.

Embora pouco reconhecida, é também inegável a responsabilidade do Ministério Público e, em suas instâncias mais altas, do Judiciário na exaltação odienta da divergência política e ideológica. Menos de 12 horas antes da agressão a Bolsonaro, aqui mesmo estava minha crítica às duas instituições pelo consentimento à ilegal incitação a crimes de violência sempre repetida por Bolsonaro. Ministério Público e Judiciário têm, como o próprio Bolsonaro, quota não desprezível na elaboração do atentado ao candidato.

No desatino do Brasil atual são recomendáveis aos candidatos precauções especiais, sem contar muito com a proteção oficial, nestes tempos de duvidosa ou nenhuma neutralidade de instituições e figuras destinadas a tê-la.

Em vão

É uma ideia desesperada, essa de Michel Temer tomar o lugar de Henrique Meirelles na candidatura do MDB, para proteger-se do relatório da Polícia Federal que o acusa de receber e lavar dinheiro de corrupção. A acusação, que atinge também o tal coronel João Baptista Lima, Moreira Franco e Eliseu Padilha, já está no Supremo Tribunal Federal e vai à procuradora-geral Raquel Dodge para a denúncia criminal ou o arquive-se.

Com aprovação que não chega às canelas, Temer não se elegeria. Mas não está em maior risco nestes meses finais de desgoverno. Seu problema pode começar no primeiro minuto seguinte à transmissão da Presidência. O que, por sua aparente calma, já estaria solucionado, pela soma de recursos e idade.

Ao mundo

Coletâneas de cartas revelam mais das pessoas verdadeiras do que suas biografias. E também mais dos fatos históricos grandiosos do que suas versões. Lançamento audacioso, as "Cartas da prisão de Nelson Mandela" (ed. Todavia, tradução exemplar de José Geraldo Couto) levam a uma descoberta nunca imaginada: o reconhecimento universal da grandeza que o inclui entre as maiores do século 20 não corresponde à estatura de Mandela.

Sua grandeza humana é ainda maior. Parece impossível, ou é, compreender como a infância de Mandela, a juventude e os 27 anos passados na prisão condizem com tamanha conjunção e completude do que possa existir de mais valioso no ser humano.

Ora emocionantes, ora indutoras de reflexão, as cartas do presidiário Nelson Mandela, ele não sabia, eram dirigidas a todos nós.

Janio de Freitas
No fAlha
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