8 de set de 2018

Entrevista com Fernando Haddad na CartaCapital




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“Esfaqueou, querem que eu faça o quê?” Atentado a Bolsonaro é o ápice insano da polarização


A imagem é simbólica: deitado com o peito descoberto, Bolsonaro é operado às pressas depois de levar uma facada na região do abdômen enquanto era carregado nos ombros por uma multidão apaixonada. Tudo transmitido nas redes sociais em tempo real.

O evento é dramático por não ser um caso da violência isolada, mas representar o caos em que estamos nesse momento pré-eleições. São tempos de messianismo. Na figuração do mito, Bolsonaro encarna a figura de um herói carregado pelo povo que é covardemente atingido. O agressor alega que agiu em nome de Deus. Vivemos o ápice insano da polarização.

Para analisar os eventos em perspectiva histórica, vale lembrar o momento mais crítico da China moderna, no final do século 19, quando o país estava dividido em guardas ‘brancas’ e ‘vermelhas’. Rebeliões diárias e fanáticos de todos os lados se diziam enviados de Jesus Cristo. E o resultado nós sabemos bem: o país só conseguiu cessar essa violência organizada com outra violência organizada e institucionalizada, um autoritarismo que durou décadas e visava curar as feridas do chamado “período das humilhações”.

Os tiros contra a caravana de Lula e posteriormente contra militantes durante a vigília em frente à sede da Polícia Federal de Curitiba já mostravam que adentramos em uma era perigosa de violência messiânica, individualizada, cada um salvando o mundo com pode. Ativistas da campanha de Guilherme Boulos, do PSOL, também foram atacados recentemente. É uma eleição no meio de um faroeste.

Fazendo trabalho de campo sobre o eleitores de Bolsonaro há quase dois anos, posso afirmar que muitos deles, que vestem camisa do candidato ou usam adesivo em carros, têm sido agredidos verbalmente e fisicamente, todos os dias. Há mais tempo, o mesmo ocorre, ou pior, com aqueles que vestem vermelho. Os meios progressistas apenas relatam violência como uma força unilateral concentrada em demônios que eles conseguem culpar. Em tempos de caos, o autoritarismo messiânico, pulverizado e desordenado está espalhado por todo o tecido social.

O Brasil que mata em massa mulheres, jovens negros, pobres e LGBTs nunca foi um país democrático por excelência, e o Estado sempre funcionou para poucos. Seria ingênuo falar que estamos numa crise da democracia. Esse nível messiânico e insano é o estopim de uma ordem autoritária, que se deixa levar pelas paixões calorosas de candidatos salvadores e do fanatismo religioso que por séculos esteve camuflada sob o ideal da harmonia. A história está repleta de exemplos que nos mostram os tristes desfechos políticos desse tipo de conjuntura.

Qual é o apelo de Bolsonaro nisso? Ele é o agressor e o agredido. Recebe a mesma violência que propaga. Mas é preciso ter prudência em como pontuar esse debate – em nada adianta usar esse argumento em tom revanchista, em guerras de narrativas inócuas. Pouco serve adentrar em brigas vazias que apontam o dedo. Esse revanchismo punitivista apenas gera mais raiva e alimenta o ciclo de violência que, há muito, já saiu das redes. Os doidos que rosnam no Facebook agora estão às soltas.

É parte de meu ofício, há 19 meses, acompanhar grupos de WhatsApp de eleitores de Bolsonaro e de eleitores mistos (Bolsonaro, anti-Bolsonaro e indecisos). Até antes do atentado, grupos de jovens conseguiram manter as regras de diálogo. No momento do evento, eleitores contrários ao candidato começaram a debochar: “pena que não acertou o desgraçado”. Depois disso – o debate aconteceu por horas –, os “bolsominions” reagiram com muitas ofensas, dizendo que quem desejava a morte de outra pessoa tinha que levar porrada. Os indecisos ficaram comovidos e chocados com as brincadeiras de que o agressor era incompetente. Um falou “se querem matar o cara, é porque ele incomoda”.

A piada “que pena que não acertou” circula por todos os lados, com a frase “ah, mas to só brincando…”. Mas quando os haters de direita fizeram essa brincadeira com Lula, a esquerda, com razão, não gostou.

Sem Lula, Bolsonaro está em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto. Se ele é um candidato autoritário, violento e que faz apologia à tortura – e se é a esquerda que denuncia um golpe de estado neste país , nossa arma só pode ser a luta por democracia, e não por revanchismo ingênuo. Se Bolsonaro disse sobre o Museu Nacional “queimou querem que eu faça o quê?”, a resposta “esfaqueou, querem que eu faça o quê?” vai na mesma fragilidade narrativa.

Não se trata aqui de relativizar – e colocar em falsa simetria – a extrema-direita e a esquerda. Pelo contrário. Mas é preciso encarar os fatos para combater o candidato fascista. Eu queria que Bolsonaro não existisse. Mas eu não queria que ele fosse assassinado. A diferença entre uma coisa e outra é imensa. Ele existe. E nós precisamos lidar com a realidade e não fugir dela.

Os presidenciáveis manifestaram repúdio. Essa é a única postura aceitável neste momento trágico. De histeria de rede social já basta a culpabilização do PT por tudo o que ocorre neste país. Não foi suficiente tirar Dilma Rousseff do poder, parece que é preciso culpar o partido por toda a desgraça que ocorre: do Museu Nacional ao ataque a Bolsonaro.

Bolsonaro e suas seitas são o nosso mais bem acabado protótipo fascista, do fracasso democrático e da violência estrutural do Brasil. Esse atentado traz o imenso risco de torná-lo herói, reforçar a narrativa mítica daquele que sobrevive e que volta para salvar o Brasil contra tudo e contra todos. Um messiânico que renasceu da apunhalada de outro messiânico. “Agora é guerra”, disse o presidente do PSL. Um prato cheio para aqueles que vivem da expectativa do simbolismo do sangue, da tortura e da violência. Atiçar a polarização me parece a atitude mais irresponsável nesta nova era do salve-se quem puder.

Rosana Pinheiro-Machado
No The Intercept
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“Quem paga o advogado?” é mais um delírio fascista


Durante 24 horas, a Ordem dos Advogados do Brasil, tão afoita em mergulhar no apoio aos arreganhos do golpismo no Brasil, assistiu passivamente a onda monstruosa de suspeição ao sujeito – é bom repetir, aparentemente fanático e desequilibrado – que agrediu a faca o senhor Jair Bolsonaro.

Quem o estaria pagando? A “esquerda”, a “Ursal”?


– Uma pessoa ligada à igreja dos testemunhas de Jeová de Montes Claros me telefonou na quinta pedindo para eu pegar o caso

Ufa! Que alívio: ninguém vai colocar as Testemunhas de Jeová no meio de uma conspiração comunista, o será que vai. Porque se fosse católico, ah, claro que ia entrar na conta dos “padres comunistas” dos quais tanto esta camada de energúmenos vive falando.

No nosso déficit democrático – sobretudo na mídia, que levanta sempre esta suspeita e dá repercussão aos delírios fascistas – o advogado, direito universal de qualquer ser humano, é imediatamente transformado em cúmplice de seu cliente e vira “defensor de bandido”, alguém que deve “ir pro saco” junto com seu constituinte.

A simplificação – monstruosa como sabem ser as simplificações –  da ideia de Justiça como os “bons” contra os “maus” cria, nas palavras do professor de Direito Criminal Salah Khaled Jr,  “um perigoso nó de forças [que] converge para de forma sistemática aviltar, desprestigiar e aniquilar a própria ideia de defesa, como se ela fosse um obstáculo indesejável para a concretização de uma justiça que é identificada com o poder punitivo”.

Essa monstruosidade, cada vez com mais frequência, é praticada  pelo próprio Judiciário e suas cercanias, no MP e na Polícia, porque desqualificar o defensor e sua atividade são abrir caminho para a afirmação de uma pseudojustiça, moldada unilateralmente pelos detentores do poder de Estado.

Sob o inexplicável silêncio e omissão da advocacia e de sua Ordem, que assistiu quase muda as maiores violências, como a praticada na “Lava Jato”, quando se grampeou os telefones do escritório que fazia a defesa de Lula, por ordem de Sérgio Moro e pedido da turma do Dallagnol.

Os advogados, expostos nos jornais à sanha dos fanáticos, estão sujeitos à detratação pública e até às próprias famílias e amigos terão, constrangidamente, de explicar porque atuam na defesa de um “bandido”  e, já que delírio não tem limite, de “um “comunista de Jeová”.

Na ditadura da farda, quantos foram bater à porta da OAB, pedir socorro a gente como Modesto da Silveira, Nilo Batista, Délio dos Santos,  Raimundo Faoro, Evaristo de Morais Filho e tantos outros. Agora, na ditadura da toga, melhor passarmos a conhecer gente das Testemunhas de Jeová, capazes de fazer a defesa de acusados com mais senso jurídico que a Ordem dos Advogados.

Ou nos prepararmos para a ideia de que direito de defesa é portar uma pistola.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Itaúúú: Bolsonaro apunhalou Alckmin

Bláblárina não entende nada de comunicação com o público!


O Conversa Afiada recebeu de amigo navegante petista essa afiada análise do Itaúúúú, que agora incorpora a XP:

XP Política - A quebra do monopólio do papel de vítima nacional

1- Jair Bolsonaro ontem foi esfaqueado em um ato de campanha. O atacante declarou que recebeu uma ordem “de Deus”.

2- É óbvio que se trata de uma tragédia com reflexos eleitorais e futuros. Temos de realizar que vivemos em um país em que vereadoras são fuziladas e candidatos esfaqueados. Este é o Brasil desses tempos. É óbvio que Marielle Franco e Jair Bolsonaro são vítimas. Querer colocar a culpa em algum dos dois pelos tristes fatos ocorridos é inaceitável.

3- Bolsonaro é vítima, e assim é visto hoje no país. Goste você ou não do candidato, o fato é esse. Lula já não ocupará o noticiário como protagonista único neste papel. Bolsonaro cresceu aí.

4- Vai acontecer uma onda pró-Bolsonaro que o carregará nos braços do povo, forças de esquerda destroçadas, vitória certa para o ex-capitão? Não, claro que não. Mas ficou mais difícil para seus adversários disputarem as eleições contra ele em termos simbólicos e táticos.

5- Em termos táticos, Bolsonaro talvez vivesse seu pior momento no ano: sem campanha competitiva, ele perdia poder de fogo e fazia campanha defensiva. Os ataques aumentariam e ele disputaria a vaga de segundo turno logo mais como qualquer outro mortal. Apanhava em horário nobre em rede nacional, respondia por redes sociais. Agora, os oito segundos de tempo de TV de Bolsonaro se convertem em 24 horas de cobertura. Dissemos isso de Lula quando de sua prisão, usamos a mesma reflexão para Jair Bolsonaro: até um eventual resfriado seu será notícia nos próximos dias.

6- Quando o goleiro cai, o jogo para. Bolsonaro terá esse efeito nos próximos dias. Sofre mais com isso Geraldo Alckmin, que tinha Bolsonaro na linha de tiro de uma competente campanha. Como agredir um convalescente? A própria campanha tucana reconhece que o “tempo perdido” pela trégua é o pior dos efeitos.

O partido conseguiu alterar o planejamento de mída e suspendeu os ataques na televisão a Jair Bolsonaro até segunda-feira. A partir daí a campanha avalia que, a depender do grau de recuperação do adversário, já pode começar a retomar a programação normal. Está sendo discutida uma reorientação na estratégia de abordagem a Bolsonaro, evidenciando um discurso já pregado por Geraldo Alckmin contra o radicalismo. O problema aí é o equilíbrio para não soar oportunista nem parecer que se está justificando o ataque.

7 - O PT vai ver o antipetismo reforçado, mas nos parece até um tanto óbvio que é difícil ver massas de eleitores no campo do Lulismo deixando de votar em Haddad ou Ciro Gomes por causa desse episódio. O antipetismo ficar mais forte, ou mais sólido, não significa necessariamente uma diminuição do petismo/Lulismo.

8 - Bolsonaro passará Lula no monopólio do noticiário nos próximos dias. O país semana que vem discutiria a substituição de Lula por Haddad, os ataques de Alckmin a Bolsonaro, e se perguntaria se o candidato aguentaria até o fim do mês sob fogo cerrado. A agenda mudou. O PT terá que dividir esse noticiário com o hospitalizado candidato, e Alckmin deve ficar restrito ao seu programa de TV. Marina, Ciro e os outros candidatos terão ainda menos espaço.

9 - Em termos simbólicos, Bolsonaro pode agora reconfigurar sua campanha como bem entender. Cabe um Bolsonaro vítima, cabe o Bolsonaro “fênix renascida”, o Bolsonaro conciliador, cabe a imagem que ele queira - ou consiga, já que politicamente o deputado seguirá sendo alguém com claras limitações de reposicionamento e repertório de discursos - mas abre-se esta janela. Ter a iniciativa e janelas para reposicionamentos em política é sempre muito bom.

10 - Por pelo menos dez dias veremos uma avalanche de Bolsonaro na televisão, depois a tendência é de alguma acomodação. Aí a campanha poderá recomeçar como a víamos até ontem, mas mesmo isso será ditado pelo quadro de saúde de Bolsonaro. As campanhas que não têm tempo a perder, como a de Haddad e de Alckmin, sofrerão um tanto com isso. Alckmin mais, Haddad menos: bastará neste momento que ele lamente o ocorrido e volte a repetir o seu mantra de quatro letras: Lula, Lula, Lula. Seus eleitores estão ali no primeiro turno, não tem nenhum sentido olhar para os lados em busca de algo diferente.

11 - Marina Silva na eleição passada foi beneficiada com a tragédia de Eduardo Campos e subiu nas pesquisas. Só que Marina em 2014 herdou votos, mas não os segurou. Bolsonaro dificilmente devolverá o que este episódio lhe render em termos eleitorais. Ele, diferente de Marina Silva, é alguém que entende de estratégia, tática, e de comunicação dirigida a seu público.

12 - Por fim, reafirmamos: não, Bolsonaro não resolveu as eleições, não, o PT não morreu. O jogo vai ser rearranjado, e neste novo tabuleiro quem vai ter que encontrar espaço novo de posicionamento é Geraldo Alckmin.

XP Política
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Não há dúvidas de que Bolsonaro é vítima de um crime. Mas é preciso dizer algumas coisas


As reações ao esfaqueamento do candidato Jair Bolsonaro foram deprimentes, lamentáveis, um reflexo do estágio miserável em que se encontra nossa democracia. Enquanto muitos nas redes de esquerda defendiam com toda a certeza que tudo não passaria de uma armação de Bolsonaro e sua turma, bolsonaristas já davam o veredito de que o PT seria o mandante do crime. Todos embriagados por suas convicções, dando pouca atenção aos fatos.

O fato das imagens não mostrarem sangue jorrando não quer dizer nada além de que não se tratava de uma cena de filme do Hitchcock. Mas os peritos Molinas das redes sociais logo emitiram seus laudos, comprovando que tudo não passava de encenação. Vários vídeos “comprovando” que não havia sangue e que a faca era falsa pipocaram nas redes sociais.

Para se forjar um crime desse porte, seria necessário combinar com dezenas de pessoas que estavam em volta de Bolsonaro, com os socorristas da ambulância, com seguranças, e torcer para que nenhuma das dezenas de câmeras que estavam filmando flagrasse os detalhes. Depois, uma grande cena seria montada com hospital, envolvendo cirurgiões, assistentes, enfermeiros e outros funcionários. É claro que uma tramóia dessa grandeza deveria ser considerada a hipótese mais remota de todas, mas foi tratada como a mais provável por muita gente. Seria impossível controlar todos os palcos e atores dessa farsa. E nós sabemos que os possíveis autores dela não teriam esse nível sofisticação.

Já houve candidato que passou por uma tomografia computadorizada após ser atingido por uma bolinha de papel, então um certo nível de desconfiança é aceitável. Mas as pessoas foram tomadas por certezas e resolveram expressá-las publicamente, mesmo sem haver nenhuma prova que as sustentassem. A racionalidade tem passado longe nessa eleições. Acreditar nisso é como acreditar no boato que diz que a seleção brasileira vendeu a Copa de 98 para a França.

No campo oposto, as redes bolsonaristas reagiram com a usual tosquice. Encheram as redes sociais com informações mentirosas e imagens falsas. Inventaram que o criminoso era filiado ao PDT, depois ao PT. O fato é que Adélio Bispo de Oliveira foi filiado ao PSOL por 7 anos e se desfiliou há 4, o que não diz absolutamente nada além disso. Foi filiado a um partido político como também foi missionário evangélico. Atribuir ao PSOL ou a qualquer partido político responsabilidade pelo ataque não passa da mais pura canalhice.

Não há o mínimo indício de que Adélio agiu sob o comando de terceiros. Sua página no Facebook indica uma pessoa perturbada, o que foi confirmado por sua sobrinha ao El País.

Ele ataca políticos em geral, a maçonaria, e é adepto de teorias conspiratórias dos mais diversos tipos. Na delegacia, disse que cometeu o crime por ordem divina. Tudo indica se tratar de um homem com distúrbios psicológicos, vivendo em um ambiente com os ânimos acirrados pelo radicalismo político.

Não há dúvidas de que a vítima do crime é Jair Messias Bolsonaro. Ponto. Dito isso, é preciso dizer as coisas sem medo de ser acusado de relativização. O ambiente beligerante instalado no país é, em boa parte, de responsabilidade de Jair Bolsonaro e seus aliados. Não, não estou culpando a vítima pelo esfaqueamento. Estou colocando os fatos em perspectiva e analisando o contexto político.

O ambiente de extremismo é propício para a ação de alguém que não esteja com suas faculdades mentais em ordem. E esse ambiente é construído quando um político afirma abertamente que irá “fuzilar” seus adversários políticos, como se essa “figura de linguagem” tivesse sido feita em uma conversa de bar sem maiores consequências. Quando o ônibus da caravana de Lula foi alvejado por tiros de revólver, Bolsonaro disse que “Lula quis transformar o Brasil num galinheiro e agora está por aí colhendo ovos por onde passa”. Depois, em comício, simulou arma com a mão e deu tiros na cabeça de um boneco inflável de Lula, levando seus seguidores à loucura. Afirmou ainda que estava “na cara que alguém deles (PT) deu os tiros. A perícia vai apontar a verdade”, mesmo sem ter o mínimo indício disso. Bolsonaro nunca respeitou os ritos civilizatórios mínimos do jogo democrático. Isso faz com que ele mereça a facada? Não! Isso cria um clima de guerra na disputa política? Sim!

Enquanto todos os candidatos à presidência, sem exceção, repudiaram o crime e foram solidários com Bolsonaro, seus aliados e simpatizantes não perderam tempo e se apressaram em atribuir a autoria do crime aos partidos políticos de esquerda e aos esquerdistas em geral.

Gustavo Bebianno, escolhido por Bolsonaro para presidir o PSL, costuma resolver conflitos internos aos berros e a chamar aliados com os quais diverge de “viadinho”. Diante do esfaqueamento do seu candidato, declarou: “agora é guerra!”. Ele não disse contra quem, mas não somos ingênuos a ponto de não entender que se trata da mesma “petralhada” que Bolsonaro deseja fuzilar.

A irresponsabilidade se estendeu ao General Mourão, o vice de Bolsonaro, que resolveu o caso aos moldes do regime militar e apresentou o culpado. “Eu não acho, eu tenho certeza: o autor do atentado é do PT”, afirmou com todas as letras, sem apresentar um mísero indício que sustentasse essa certeza. Mas não parou aí. O general fez questão de derramar mais gasolina na fogueira: “Se querem usar a violência, os profissionais da violência somos nós”.

Janaína Paschoal, candidata estadual pelo PSL em São Paulo, falou hoje pela manhã para jornalistas: ”a imprensa não está mostrando ele (o agressor) com a camiseta ‘Lula Livre’ nas redes sociais. Ele faz parte do grupo. Quem cometeu o crime foi gente do lado deles e isso ninguém mostra”. É mentira. Não há nenhuma foto de Adélio vestindo essa camiseta. A não ser que Janaína esteja falando de alguma das trocentas imagens fabricadas que foram espalhadas pelas redes.

Marcello Reis, o líder dos Revoltados Online que teve sua página banida pelo Facebook por espalhar fake news, publicou no Twitter uma grotesca montagem em que Adélio aparece ao lado de Lula em passeata. Mesmo sendo também um candidato a deputado estadual em São Paulo pelo partido de Bolsonaro, o revoltado online não pensou duas vezes antes de espalhar a informação falsa que só acirraria o sentimento de ódio.


O senador Magno Malta (PR), candidato à reeleição e que por muito pouco não foi o vice de Bolsonaro, também espalhou a mesma montagem.


Já o senador José Medeiros (Podemos), que teve seu mandato cassado por cometer fraude em ata eleitoral, tentou capitalizar eleitoralmente em cima do crime. No santinho que mostra seu rosto e o número da sua candidatura para deputado federal, Medeiros colocou a frase “milhões de outros esquerdistas seguravam aquela faca hoje!”


É dessa forma que simpatizantes, aliados e integrantes da candidatura que lidera as pesquisas presidenciais estão tratando o caso. Em vez de tentarem apaziguar e manter os ânimos dentro das regras do jogo democrático, lançam mão de mentiras, esticam a corda do extremismo e declaram guerra aos seus adversários. Tudo isso a pouco mais de um mês da eleição. O drama brasileiro é infinito.

João Filho
No The Intercept
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Xadrez da última cartada da Globo, com Bolsonaro


Cena 1 – o retrato atual das eleições

Há um desenho nítido, com o esperado crescimento de Fernando Haddad e a consolidação da candidatura de Jair Bolsonaro. Desenha-se um segundo turno entre ambos. Haverá um confronto entre o anti-petismo e o anti-bolsonarismo, com boa possibilidade de o fator Bolsonaro garantir a vitória de Fernando Haddad.

Até agora, os personagens-chave do jogo se posicionam assim:
  • Mercado: aproximando-se de ambos e, especialmente de Haddad. A gestão de Haddad no Ministério da Educação e na Prefeitura são o seu principal aval. Em ambos os casos, foi uma gestão eminentemente técnica, fiscalmente responsável, com portas abertas para movimentos sociais e ONGs empresariais e foco claro na defesa das minorias.
  • Classe média: assustada com os arroubos de Bolsonaro, contra mulheres, minorias e a favor da violência, refletindo-se no aumento de suas taxas de rejeição.
Pesquisas recentes indicam que pelo menos 40% dos eleitores de Geraldo Alckmin poderiam votar em Haddad. Gradativamente foi caindo a ficha que nem o horário eleitoral seria suficiente para colocar Alckmin no segundo turno. E o crescimento das taxas de rejeição de Bolsonaro poderiam garantir a vitória de Haddad.

É por aí que se explica o reposicionamento dos principais atores políticos, resolvendo apostar suas fichas em Bolsonaro. E também o vídeo de João Doria Jr com a derradeira traição ao seu padrinho Alckmin: admitindo a ida de Bolsonaro para o segundo turno.

Cena 2 – o pacto Bolsonaro-Globo

Pouco antes do incidente em Juiz de Fora – no qual um alucinado enfiou a faca em Bolsonaro – o candidato deu declarações mencionando um fato novo relevante na eleição. Muitos imaginaram, depois, ser um anúncio do suposto atentado. Pode ser que sim, pode ser que não. Mas de novo, mesmo, foi o pacto firmado com a Globo. Bolsonaro teve uma reunião com os herdeiros de Roberto Marinho onde, aparentemente, foi selado o pacto para o segundo turno.

As três entrevistas da Globonews, com Katia Abreu, vice de Ciro Gomes, Fernando Haddad e o general Hamilton Mourão, foram a prova definitiva do acordo.

Com Haddad, pressão total, com os entrevistadores fazendo questão, em todos os momentos, de enquadrá-lo no estereótipo do petista clássico, justamente para enfraquece-lo junto ao centro, que o vê como administrador racional e inclinado a pactos de governabilidade. É só anotar a quantidade de vezes, na sabatina da Globonews, em que foi invocado o adjetivo “petismo”, para cravar o estereótipo na testa de Haddad,  ou a maneira como se tentava mudar de tema cada vez que Haddad demonstrava seu estilo de gestão responsável. Como na inacreditável cena em que ele mostra que a Prefeitura de São Paulo recebeu o grau de investimento das agências de risco, e Mirian Leitão tenta mudar de assunto alegando que se estava discutindo “política econômica”. Grau de investimento é o Santo Graal do mercado.

No caso de Katia Abreu, Mirian recorreu ao padrão tatibitate de seu colega Luis Roberto Barroso, dividindo os agricultores entre os “do bem” – que respeitam o meio ambiente – e os “do mal”, representados por Katia Abreu. Nos dois episódios, levou invertida, mas revelou a nova estratégia da Globo.

Ontem, pelo contrário, os entrevistadores implacáveis montaram um convescote, levantando sucessivamente a bola para que o general pudesse mostrar a face racional e humana do bolsonarismo.

Cena 3 – a reconstrução da imagem de Bolsonaro

A entrevista e o suposto atentado a Bolsonaro deixaram evidentes a estratégia de reconstrução da imagem do candidato, com vistas ao segundo turno. Será apresentado como o impulsivo boa-gente, cujas declarações mais chocantes são apenas um reflexo da informalidade. E, por trás dele, haverá duas forças racionalizadoras: na parte econômica, Paulo Guedes, na parte institucional as Forças Armadas, tendo como representante oficial o general Mourão que, no final da entrevista à Globonews, se declarou um telespectador e seguidor fiel das lições diárias da emissora.

A facada em Bolsonaro caiu como uma luva nessa estratégia. As próprias declarações do candidato – “nunca fiz mal a ninguém” – demonstram essa estratégia de vitimização, apresentando-o apenas como um boquirroto do bem.

Alguns fatos chamam atenção:
  • Quatro advogados imediatamente assumiram a defesa do agressor. É evidente a intenção de criar uma blindagem. Quem os banca?
  • A investigação ficará a cargo da Polícia Federal de Minas Gerais, a mais partidarizada, depois do Paraná. É a mesma PF que alimentou durante um ano a imprensa com denúncias contra o governador Fernando Pimentel, tomando por base apenas uma delação permanentemente requentada. Como dois e dois são quatro, nos próximos dias serão levantadas supostas ligações do acusado com organizações de esquerda.
  • O Facebook do agressor, com postagens recentes contra Bolsonaro. E sua insistência em explicar a agressão pelo seu perfil no Facebook. É como se as postagens tivessem sido colocadas apenas como álibi para o ataque.
  • As declarações iniciais do filho de Bolsonaro, de que os ferimentos foram superficiais, porque o pai estava protegido por coletes.
Por enquanto, são apenas indícios, mas que merecem ser aprofundados.

Cena 4 – o que seria um governo Bolsonaro

Não é preciso nenhum talento especial para imaginar o que seria um futuro governo Bolsonaro.

Nele, haveria a reconstrução do pacto de 1964 – Forças Armadas, sistema Globo, arrastando consigo o Partido do Judiciário e Partido do Ministério Público-Lava Jato. O fator de união será o combate ao inimigo-comum. O país será cada mais dividido entre o Tico “do bem” e o Teco “do mal”, como Luis Roberto “só faço o bem” Barroso, e a Globonews “só defendo o bem contra o mal”.

Ao primeiro sinal de impasse com o Congresso, a estratégia óbvia já está montada. A Globo criará midiaticamente o clima de caos, como fez em vários momentos com Brizola – superestimando arrastões de praia – ou na própria campanha do impeachment. E esse clima servirá de álibi para a presidência invocar a Lei de Segurança Nacional e convocar as Forças Armadas. Quem os enfrentaria? O Supremo Tribunal Federal? A Procuradora Geral da República? O Congresso?

Chegou-se a esse estágio de barbárie justamente devido à falta de coragem dos poderes em relação a um movimento ainda com face indeterminada. São esses valentes que enfrentarão o poder armado?

É sintomático a descrição do G1 sobre o momento mais tenso da entrevista, quando Mourão trata o coronel Brilhante Ustra como herói militar:

"Meus heróis não morreram de overdose, e Carlos Alberto Brilhante Ustra foi meu comandante quando era tenente em São Leopoldo. Um homem de coragem, um homem de determinação e que me ensinou muita coisa. Tem gente que gosta de Carlos Marighella, um assassino, terrorista. Houve uma guerra [no regime militar]. Excessos foram cometidos? Excessos foram cometidos. Heróis matam". Diante da resposta, houve silêncio dos jornalistas”.

A partir dali, submissão total ao entrevistado, mesmo estando na banca um ex-guerrilheiro, Fernando Gabeira, e uma ex-torturada, Mirian Leitão. Nem a menção a Ustra alterou os olhares apaixonados de Gabeira às declarações de Mourão, e as declarações amistosas de Mourão em direção a Gabeira.

Dentro da “legalidade”, haverá liberdade total de retaliação dos procuradores ligados ao MBL e da Polícia Federal contra os recalcitrantes, incluindo até colegas – fenômeno que já ocorre hoje em dia, em todos os níveis, ante o silêncio dos grupos de mídia.

Se terá o ápice da ditadura legalizada, com os jovens turcos tendo o respaldo oficial das Forças Armadas. Fora da “legalidade”, a participação ativa de grupos paramilitares, estimulados pela caça aos inimigos.

Cena 5 – civilização x barbárie

Para combater a radicalização, a estratégia de Haddad deverá ser em duas frentes. Externamente, a de continuar propondo o diálogo, de se mostrar a alternativa civilizatória contra a barbárie e, cada vez mais, disputar o centro racional. Internamente, isolar os provocadores.

É tradição dos grupos de direita recorrer aos agentes infiltrados - utilizado não apenas em 1964, mas nas manifestações contra a globalização em Seattle. Os Cabos Anselmos visam não apenas construir álibis para a repressão, mas, ao mesmo tempo, atrapalhar as tentativas de criação de consenso contra a radicalização.

Será uma batalha épica em que estará em jogo o futuro do país. Esse será o maior estímulo à resistência democrática até 7 de outubro, quando ocorrem as eleições do primeiro turno, e 28 de outubro, quando se vota no segundo turno.

Luís Nassif
No GGN
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Como fica o país após o ataque a Bolsonaro?



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Dúvidas sobre o episódio Bolsonaro


Desde que eu deixei de acreditar em Papai Noel, e isso demorou mais do que o normal e me custou muito, porque eu relutava em aceitar que meus pais tivessem mentido pra mim, eu me tornei uma criança muito desconfiada. Fui crescendo sempre cheia de dúvidas. Era um comportamento intuitivo e quando comecei a ler sobre o iluminismo e soube que esta era a atitude de gente esclarecida, que não se deixava levar pela aparência das coisas, eu me senti uma pessoa inteligentíssima. 

Não que eu fosse, mas a sensação foi ótima.

Digo isso a propósito dessa história que concentra nossas atenções desde ontem à tarde. Não preciso repetir a pergunta que sempre se faz nessas horas, "a quem interessa?", porque a resposta é óbvia mas isso não nos autoriza a concluir automaticamente que se trata de uma grande armação. E, como sempre, o que mais importa não são as intenções de quem age, e sim as consequências das ações. Mas é claro que esse episódio tem de ser apurado, e dificilmente será, diante dos tantos interesses envolvidos nesse momento tão tenso e delicado de nossa vida política e da ausência de uma imprensa minimamente comprometida com seus próprios princípios editoriais.

Seja como for, vou insistir na dúvida que me permito sustentar, e desde logo esclareço que não passa pela minha cabeça me meter a perita, porque pra isso, afinal de contas, temos o Molina. São dúvidas mesmo, que me parecem legítimas e justificadas.

Primeiro, a questão da ausência de sangue. Li informações de gente séria e qualificada para falar sobre isso e posso entender que, num caso desses, o sangramento seja principalmente interno, mas antes de atingir artérias internas a faca rasga a pele, ou não? E isso não sangra? Nem um pouquinho?

(O que li de mais curioso foi esta matéria da Jovem Pan com o diretor da Associação Médica Brasileira dizendo que "os sangramentos de cinema são de vasos mais superficiais" <https://jovempan.uol.com.br/…/ausencia-de-sangue-apos-facad…>. E eu que achava que sangramentos de cinema eram simulados). 

Outra coisa que me chamou a atenção foi que, em casos assim, a reação mais comum, exatamente pela surpresa e pela emoção que provoca, é a multidão furiosa exibir a camisa da pessoa atacada, como um estandarte, uma bandeira desfraldada a denunciar a violência. Mas não tinha sangue, então talvez não fosse muito verossímil... se bem que pelo menos um furo a camisa teria de ter, ou não? É só um detalhe, talvez não tenha importância, mas me causou espécie, como se dizia antigamente.

Finalmente: vi várias vezes o vídeo que circulou por aqui. Para atingir seu alvo, o agressor tem de vencer a barreira de pessoas à sua frente e precisa erguer o braço em arco para alcançar com a faca a barriga do homem, obliquamente, de cima para baixo, e de maneira muito rápida. Realmente não consigo entender como um golpe desferido dessa forma possa causar tamanho estrago. Mesmo que fosse o facão do Crocodilo Dundee.

Por fim: sempre duvidei da realização de eleições nesse contexto do golpe, a não ser que as forças que derrubaram o governo tivessem uma candidatura viável para continuar esse projeto de destruição do país. Não têm. Então, qualquer pretexto poderia ser utilizado para adiar ou cancelar as eleições. E um fato desses, que tumultua ainda mais um processo eleitoral cheio de vícios e incertezas, e que ocorre na véspera de um feriado tão caro aos militares, vem mesmo a calhar.

Sylvia Moretzsohn
No GGN
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Valentes com Haddad; miudinhos com o general


Ontem falou-se aqui do grau de rebaixamento do jornalismo brasileiro com o Tribunal da Inquisição montado pela Globonews para queimar vivo Fernando Haddad.

Enganou-se quem achou que era o mais baixo degrau a que poderiam descer.

A entrevista do General Hamilton Mourão, ontem, foi ainda pior.

Tibieza, covardia, palavras mansas, tons suaves, mesmo quando os assuntos eram os mais brutais.

Admitiu abertamente um “autogolpe” partido do presidente ou do Congresso, sem meias palavras.

Na bancada de entrevistadores, uma torturada e um exilado pela ditadura, Miriam Leitão e Fernando Gabeira  ouviram mansamente fazer-se a apologia de um torturador – o coronel Carlos Brilhante Ustra –  sobre quem Leitão não disse ter mandado assassinar pessoas, mas que “pessoas morreram” no quartel que comandava (de que morreram, de gripe?).

No final, atropelada pela pérola do general – “heróis matam” – ela foge correndo para mudar de assunto, perguntando sobre Previdência.

O ponderado jornalista Luís Costa Pinto, em seu Facebook, anota que era “indisfarçável [a] cordialidade do pelotão de fuzilamento global para com um general que não esconde sua paixão pelos algozes da democracia e seu desprezo pelo sistema democrático”.

“Começa a ficar evidente que a parte da mídia que foi derrotada em 2002, 2006, 2010 e 2014 pelo projeto popular vitorioso nas urnas presidenciais perdeu a compostura e a vergonha: vai aderir ao “nacional bolsonarismo” porque descobriu que é agora o único caminho para tentar conter nova vitória do campo popular e democrático”.

Mas este não foi, ainda, o último degrau. Baixarão outros, nessa empreitada.

A lama é movediça e costuma chupar até afundar completamente aqueles que admitem chafurdar nela.



Fernando Brito
No Tijolaço



N.E. Com um general medíocre e desatinado desses, como o Brasil poderá ganhar uma guerra? Como um sujeito desses conseguiu o generalato?

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Globonews, Haddad e os jornalistas como porta-vozes dos patrões

Merval e Haddad
SISTEMA GLOBO E A “LIBERDADE” DE EXPRESSÃO DOS SEUS JORNALISTAS. A FALSA ISENÇÃO DE UMA MÍDIA EMPRESARIAL EM UMA SOCIEDADE DIVIDIDA EM CLASSES. A TENTATIVA DE ACUAR UM CANDIDATO DAS FORÇAS POPULARES.

O que vamos tratar abaixo deve servir de explicação para a sórdida tentativa de “massacrar” o candidato FERNANDO HADDAD pelos jornalistas da TV GLOBO NEWS, na noite de ontem. Uma vergonha. Isto não é jornalismo e sim campanha ideológica para agradar o patrão. Aliás, talvez eles estivessem expressando, indiretamente, as suas próprias ideologias. Não foi por outro motivo que foram escolhidos para trabalhar nesta emissora “golpista”.

Por sorte, o candidato Fernando Haddad, mestre em economia e doutor em filosofia, sendo professor de Ciência Política e com a experiência de Ministro da Educação nos governos do ex-presidente Lula, soube responder a todas as maldosas perguntas dos entrevistadores, de forma serena e respeitosa, logrando tornar evidente a parcialidade eleitoral de todos eles e elas.

Vamos então a mais uma reflexão sobre a inexistente liberdade e isenção da imprensa. A autocensura é uma realidade em um país de alto índice de desempregados …

Em vários textos, publicados na minha “coluna” do site Empório do Direito, venho sustentando, com base nas lições de Caio Prado Junior, que a liberdade abstrata, que é uma das características das sociedades de mercado, é uma liberdade muito relativa, pois poucos podem realmente dela usufruir. A situação econômica neste tipo de sociedade é que dirá sobre a “extensão” desta liberdade burguesa.

Por outro lado, venho sustentando, ainda na esteira do magistério do grande filósofo acima mencionado, que não é o Estado, no mais das vezes, que suprime esta liberdade em nosso cotidiano.

Na verdade, durante a nossa vida, somos tolhidos no exercício desta liberdade abstrata por uma hierarquização das classes sociais decorrentes do sistema capitalista. Não dá para negar que, em razão dos contratos de trabalho, umas pessoas se submetem ao mando de outras pessoas. O patrão manda no empregado, restringindo a sua liberdade e fazendo-o submisso à sua vontade.

Na medida em que as pessoas têm “chefes”, são elas dependentes economicamente de seus patrões e ficam “condenadas” a serem submissas aos patrões, donos de sua vida financeira. Muitos, para não perderem o emprego, se tornam até bajuladores ou subservientes. Outros já foram contratados porque têm predisposição para fazer o “jogo” da empresa jornalística …

Recentemente, o Sistema Globo de Comunicação nos mostrou claramente como se suprime a liberdade de seus empregados, proibindo que eles se manifestem sobre questões políticas e ideológicas em suas redes sociais particulares. Tal proibição está sendo chamada de “lei Chico Pinheiro”, por ser este bravo jornalista o primeiro a ser “silenciado”.

Assim, constatamos que eu e minha empregada doméstica podemos criticar ou elogiar o ex-presidente Lula pela internet, podemos criticar ou elogiar o senhor Temer. Entretanto, os jornalistas, atores e demais empregados (as) da Rede Globo estão silenciados pelo “patrão imperial”. Vale dizer, eles tiveram sua liberdade de expressão castrada, não pelo Estado, mas sim pela Rede Globo. Na iniciativa privada, é permitida a censura prévia ??? Já não basta a subserviente autocensura dos jornalistas destas grandes empresas???.

O estranho e insólito é constatar que aqueles, que defendem radicalmente a liberdade de imprensa, castram a liberdade de seus empregados de exteriorizarem os seus pensamentos, ainda que fora do local de trabalho. Pura hipocrisia. Puro autoritarismo.

Importante salientar que, através do texto supra, meu escopo principal não é criticar a Rede Globo, mas sim a falácia da plena liberdade na sociedade capitalista. Meu escopo é criticar a falácia da imparcialidade ideológica e política destes jornalistas.

Aliás, basta um mínimo de consciência crítica para constatar a hipocrisia e cinismo que campeia em nossa grande imprensa.

Na verdade, a Rede Globo somente tornou explícito o que está implícito nas relações de trabalho neste tipo de sociedade, onde o poder econômico não gosta de limites …

Afrânio Silva Jardim, professor de Direito da Uerj.
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Bolsonaro já está eleito


É uma das teses correntes depois do atentado contra ele. Mas isso dizem os fãs e os filhos. Moderadamente, no entanto, a ideia central é que o candidato será beneficiado eleitoralmente pela facada em Juiz de Fora. Poderemos ter uma ideia já na segunda: o Datafolha fará uma pesquisa no mesmo dia, divulgada à noite.

No Datafolha de 21 de agosto o capitão reserva apareceu entre 19% e 22%. Se variar na margem será difícil dizer que foi beneficiado (todos os candidatos estão subindo, em geral, ganhando votos dos indecisos). O capitão vem nessa batida da casa dos 20% desde o ano passado. Se subir acima disso a associação com o atentado será imediata.

Vocês lembram da Cambridge Analytica? A empresa coletava um volume colossal de dados no mundo todo e se vendia como capaz de prever o comportamento dos consumidores, inclusive eleitoral. Ela fechou depois de um escândalo, mas existem outras similares por aí. Uma delas é a Crimson Hexagon, contratada por quem realmente tem dinheiro e poder no mundo, inclusive por agências governamentais americanas.

Eu recebi um relatório de uma fonte que tem acesso à ferramenta de análise. Ela me mandou o sentimento online (é assim que eles chamam) em relação a Bolsonaro antes e depois do atentado. E o sentimento negativo cresceu. Os posts em redes sociais, sobretudo no Twitter, foram muito mais de crítica ao capitão do que de apoio.

No dia 6 de setembro eu tuitei: “Uma das possíveis (e desejáveis de minha parte) consequências do atentado a Bolsonaro: os indecisos (que decidirão a eleição) se darem conta de que esse clima de barbárie levou ao esfaqueamento de um candidato, e que esse mesmo candidato é o principal agente do clima de barbárie.”

Mas é claro que é impossível saber o que vai acontecer. Essa eleição está o caos.

Leandro Demori
No The Intercept
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Anastasia tenta censurar vídeo hilário que o liga a seu padrinho Aécio


Candidato ao governo de Minas Gerais, o senador Antonio Anastasia (PSDB-MG) entrou com uma ação judicial para tirar do ar um vídeo da campanha do governador Fernando Pimentel, do PT, que o liga ao senador Aécio Neves (PSDB-MG), como se o nome fosse um palavrão.

Indicado por Aécio, Anastasia foi o relator do golpe contra a presidente Dilma Rousseff, que foi afastada da presidência da República sem crime de responsabilidade. Dilma deu a volta por cima e chegará ao Senado na vaga que era de Aécio, desmoralizado pelos grampos da JBS, em que negocia uma propina de R$ 2 milhões.

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A interrogação

http://www.jb.com.br/colunistas/coisas_da_politica/2018/09/4524-a-interrogacao.html

Que rumo tomará a campanha depois da facada em Jair Bolsonaro? Esta é a pergunta que não cala e que ninguém pode responder agora. Ele poderia estar morto, mas sobreviveu, e retomará a campanha. Se não nas ruas, pelo menos no campo que domina, o das redes sociais. No seu caso, a TV conta pouco, pois dispõe de apenas oito segundo. E como voltará Bolsonaro? Raivoso, acusando os adversários e tocando fogo na campanha? Ou mais comedido e pragmático, tentando tirar proveito da condição de vítima que agora pode ostentar? E suas hostes, como irão se comportar?

A comoção é natural. No Brasil já aconteceram atentados e assassinatos de candidatos, mas não nestes 33 anos posteriores à redemocratização. Trata-se, pois, de algo sem precedentes na memória dos contemporâneos. Mas, pensando bem, houve uma escalada da violência política nos últimos anos, de pouca repercussão porque restrita ao plano municipal. Nas eleições de 2016, pelo menos vinte candidatos a prefeito e a vereador foram assassinados, sendo 14 no estado do Rio de Janeiro. Entre 2017 e 2018, 40 prefeitos e ex-prefeitos, vereadores e ex-vereadores foram mortos. Nesta conta está Marielle Franco, um caso que ganhou repercussão nacional e internacional por sua militância na área de direitos humanos e pela violência da execução, cujos autores ainda não foram identificados. Logo depois houve o atentado a tiros contra a caravana do ex-presidente Lula, também não esclarecido até hoje.

Do caldo fermentado pela radicalização dos anos recentes, temperado por ódios e ressentimentos, surgiu o próprio Jair Bolsonaro, agora vítima do extremismo que representou e pregou.

Vitimização e voto

Até aqui, foi Lula que cresceu na condição de vítima, como único réu importante da Lava Jato encarcerado e impedido de disputar a eleição. Os eleitores fazem as contas, vêm que os outros estão por aí, livres e candidatos. A mística do perseguido pegou, consolidou o favoritismo de Lula. Mas agora é Bolsonaro que emerge como vítima de outra natureza, como aquele que tentaram matar para que não se elegesse. Se ele já tinha votos para chegar ao segundo turno, agora será muito difícil evitar que chegue lá.

Neste sentido, quem mais perde é o tucano Geraldo Alckmin. Brigando pela vaga, nos últimos dias ele abriu fogo contra Bolsonaro, com sua fartura de inserções no rádio e na TV. O candidato do PSL perdeu no TSE a tentativa de proibir umas das peças mais agressivas da campanha do tucano. Ela reproduz vídeos em que ele aparece hostilizando a deputada Maria do Rosário e uma jornalista. Chama a primeira de vagabunda e a segunda de analfabeta. A peça se encerra com a pergunta: “Você gostaria de ter um presidente que trata as mulheres como Bolsonaro trata?” Se Alckmin não vinha conseguindo recuperar os eleitores tucanos que migraram para a extrema direita, depois do atentado pode ficar ainda mais difícil.

Mas pode sobrar também para o PT, na hora crucial em que trocará oficialmente Lula por Fernando Haddad e dará início ao esforço hercúleo para promover a transferência de votos. Bolsonaro cresceu cavalgando o antipetismo. No sábado, prometeu “fuzilar a petralhada do Acre”. A primeira reação de seus seguidores, nas redes sociais, foi acusar o PT. Na primeira hora, seu candidato a vice, general Hamilton Mourão, sem dispor de qualquer indício, disse ao repórter Eduardo Barreto, da revista de direita Crusoé: “Eu não acho, eu tenho certeza, o autor do atentado é o PT”. Deste veneno o PT já provou. Em 1989, após prender os sequestradores do empresário Abílio Diniz, a polícia difundiu na mídia a informação de que material da campanha de Lula fora apreendido no cativeiro, sugerindo envolvimento do PT no sequestro. Lula perdeu milhões de votos com a suspeita que foi desmentida depois da eleição.

A imprevisibilidade, marca desta campanha, agora foi turbinada.
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A ditadura na República de Curitiba - assista

Em pleno Dia da Independência, Edna Dantas, candidata a deputada estadual, e mais dois militantes são criminalizados

Os militantes do Acampamento Marisa Letícia, Edna Dantas, Edson (DK) e Adonai foram detidos na manhã desta sexta-feira, dia 7, feriado do Dia da Independência do Brasil.

Segundo informações iniciais, o agrupamento de militantes fez uma caminhada paralela ao desfile oficial, que ocorre no Centro Cívico, gritaram “Lula livre”, vestindo camisetas em apoio ao ex-presidente, detido há 154 dias na superintendência da Polícia Federal, no Santa Cândida.

Depois disso, foram presos e encaminhados ao 12 BPM, no centro de Curitiba. De acordo com relatos, ao afirmar que é candidata a deputada estadual, Dantas teria recebido tratamento mais agressivo por parte dos policiais.

“Democracia tem que ser vivida, tem que ser exposta. Nós fomos denunciar o golpe na rua, como nós fazemos todos os dias", afirma Maria Gabriely Dantas, filha de Edna.


Camila Vida
No Brasil de Fato
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A farsa do atentado a Bolsonaro


A História ensina que um “fato” só é um fato a partir do momento em que o elemento humano a ele se relaciona. A cada segundo, milhões de “fatos” acontecem por todos os lados do globo, mas só alguns recebem significação pelo sujeito. Assim, é ser humano, em sua complexidade, que diz o que é um “fato” e como ele deve ser entendido dentro da teia de relações e correlações no tempo e no espaço.

É através da contextualização que o processo de dar significado a algo se inicia. Não basta “ter acontecido”, é preciso que os homens e mulheres falem a respeito. Que estabeleçam o esforço de situar aquilo que “aconteceu” dentro do universo conhecido. As coisas só adquirem significados a partir dos seres que nelas colocam sentido, atenção e a transportam do mundo das insignificâncias para o ambiente político-narrativo.

Houve uma facada. O fato de não ter saído sangue no momento é bastante comum, já que o agressor apenas estocou a faca, não a mudou de direção. Provocou um pequeno corte e não uma laceração externa evidente. Os médicos e atendentes estavam sem luvas e com as máscaras fora do lugar porque a foto que circula do ex-capitão foi tomada no momento em que a equipe, tomada de surpresa, decidia o que fazer. Se não é o melhor procedimento médico, também não é suficiente para colocar em dúvida a gravidade da agressão.

Os vídeos do agredido feliz em visita a um hospital foram feitos pela manhã do mesmo dia, em visita a um hospital do câncer. Daí resulta a mesma roupa e a felicidade de campanha, tão verdadeira quanto as lágrimas de crocodilo. As manifestações, via Twitter, do filho não-fraquejado do ex-capitão só mostram o quanto a figura é despreparada para manejar uma simples ferramenta de comunicação. Não podem, contudo, alimentar a dúvida sobre a veracidade da agressão.

E toda a verdade sobre o “fato” se esgota aqui. A partir de agora, tudo é uma farsa. Montada na simbólica véspera do sete de setembro. O momento da independência sem povo é exaltado pelo exército como a formação deu uma país sem alma. Nos quartéis, a bandeira substitui os laços de solidariedade e é mais comum ver um militar chorando durante o hasteamento do “pavilhão nacional”, do que diante de crianças pobres esfomeadas a dormirem ao relento. Dar significado às coisas é um ato político, e amar uma bandeira mais do que à criança que ela representa é um dos assombros recorrentes das nossas forças armadas.

O vice-general Mourão, saiu rapidamente a montar a farsa do “atentado da esquerda” disparando sobre o Partido dos Trabalhadores e sobre o PSOL. O mesmo general que há poucas semanas honrava a chapa que participa chamando os índios de “preguiçosos” e os negros de “malandros”. É preciso que se diga que o general, claramente de linhagem dinamarquesa-islandesa, se alinhou rápido ao discurso do capitão. Todavia, se o general maneja uma arma (ou um tanque) com a mesma precisão que analisa a história e a política brasileira, entendemos um pouco da incapacidade e despreparo das nossas forças.

A Rede Globo Monopólio de Televisão também adicionou cores à farsa informando que a facada atingira a “democracia brasileira”. A afirmação chega a ser risível. Primeiro porque Bolsonaro não representa, nem nunca representou qualquer ideal de democracia. Simbolicamente o agressor não atacava a “democracia”, mas o fascismo bruto e descarado que o ex-capitão representa. Em segundo lugar, a afirmação da Globo faz parecer que ela sempre foi um bastião na defesa da democracia. E isto, até mesmo o ex-capitão havia jogado no colo dos entrevistadores da empresa como uma mentira mal-vomitada.

A montagem da farsa ainda ganhava outro ator, o presidente do partido pelo qual se candidata o fascista. Segundo aquela figura-referência de conhecimento e educação, “agora é guerra”, como se a campanha inteira do fascista não fosse fazendo apologia e promessa de guerra o tempo todo. Desde crianças de colo a fazerem sinais de armas, até promessas abertas de massacres e abusos em que Sua Santidade a procuradora-geral imperatriz da União Raquel Dodge não enxerga “problema algum”. Por anos, o mundo reconheceu o ex-capitão como um dos seres mais desprezíveis, abjetos e incitadores de violência que atualmente anda sobre este planeta. Não foi somente após a agressão que os fascistas decidiram “ir para a guerra”. Foi apenas uma desculpa para mais desrespeito e ignorância.

Mas a farsa foi completada pela fala da Sua Santidade Divina a Presidenta impoluta do STF, Carmem Lúcia. Sua Santidade deu entrevista em tom e feição que quase convenceu o país que estava preocupada com a “garantia das liberdades dos candidatos e eleitores” como a “expressão de um processo eleitoral democrático”. Sua Santíssima impoluta deverá me perdoar, mas condenar alguém sem provas, apressar julgamento e prender em presunção de inocência, mudar agenda do STF para mantê-lo preso, ignorar ordem da ONU e tratados internacionais e assumir conluio entre o judiciário e o MP para ignorar ordem de soltura são violências extremas contra as “liberdades dos candidatos” e, certamente, não representam “expressão de um processo eleitoral democrático”. E diante das reiteradas agressões de um dos judiciários mais caros do mundo ao seu povo, a faca do agressor se torna pequena, pequeníssima.

Não sou hipócrita, não desejo ao fascista pronto reestabelecimento. Sou justo, desejo a ele exatamente o que ele deseja a negros, índios, militantes de esquerda, do movimento sem-terra, aos transexuais, aos homossexuais e aos que dele divergem. Desejo exatamente o mesmo. Em gênero, número e grau.

A faca atingiu o intestino do fascista, e ter as próprias fezes a misturarem-se internamente com seu corpo é uma caricatura da vida do infelizmente presidenciável. Dar significado às coisas é um ato político.

Fernando Horta
No GGN
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Entre Vistas - Boaventura de Sousa Santos


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Carmen Lúcia e o jogo para beneficiar grandes laboratórios


Carmen Lucia e João Pedro Gebran Neto em encontro da Interfarma
Declaração da Ministra Carmen Lúcia:

“Saúde não é mercadoria. Vida não é negócio. Direitos conquistados não podem ser retrocedidos, sequer instabilizados”.



Vamos ver na prática como se comporta a Ministra.

Desde 2009, a Ministra Carmen Lúcia sentou em cima de um dos grandes processos da República, beneficiando claramente a indústria farmacêutica multinacional.

No dia 30/04/2009, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, ligada à Procuradoria Geral da República, entrou com uma ação direta de inconstitucionalidade contra os artigos 230 e 231 da Lei Federal no. 9.279, sobre as patentes pipeline. Tratava-se de um dos negócios mais suspeitos da República. No bojo da nova Lei de Patentes, o governo FHC reconheceu até o direito de patente pipelines, que já se encontravam em domínio público. O documento da PGR dizia que foi “uma espécie de apropriação de um bem comum do povo sem qualquer amparo constitucional”.

Essa lei encareceu absurdamente uma relação enorme de remédios, prejudicando os consumidores e prejudicando o SUS (Sistema Único de Saúde).

No despacho, Carmen Lúcia dizia que

“Adoto o rito do art. 12 da Lei n. 9.868/99 e determino sejam solicitadas informações ao Congresso Nacional, no prazo máximo de dez dias.4.Imediatamente após aquele prazo, dê-se vista ao Advogado-Geral da União e ao Procurador-Geral da República, sucessivamente, no prazo de cinco dias, para que cada qual se manifeste na forma da legislação vigente. Publique-se."

No dia 19 de maio de 2009, Carmen Lúcia reiterava:

"Em complementação ao despacho de 28.4.2009, determino sejam requisitadas informações ao Presidente da República, no prazo máximo de dez dias, abrindo-se, após, o prazo de cinco dias para manifestação do Advogado-Geral da União e do Procurador-Geral da República, sucessivamente (art. 12 da Lei n. 9.868/99). Publique-se."

Nos meses seguintes, ingressaram na ação como amicus curiae a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids - ABIA, Médicos sem Fronteiras - MSF, Federação Nacional dos Farmacêuticos - FENAFAR, Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor - IDEC, Grupo de Incentivo à Vida - GIV e o Grupo de Apoio à Prevenção da Aids no Estado do Rio Grande do Sul, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Associação Brasileira de Propriedade Intelectual e a Conectas Direitos Humanos.

No dia 07/11/2016, denunciamos no GGN o jogo da Ministra. O atraso beneficiava diretamente os grandes laboratórios internacionais.    

Apenas no dia 28 de junho de 2018 o caso foi incluído na pauta de julgamento.

Ontem, sem nenhuma explicação maior, Carmen Lúcia retirou o tema da pauta do Supremo.

Em qualquer país com estado de direito pleno, a presidente do Supremo estaria respondendo por prevaricação.

Em 2016, a Interfarma – que representa os grandes laboratórios – montou um enorme lobby em favor da judicialização da saúde. Havia a suspeita de que, por trás das ações judiciais, criou-se uma verdadeira indústria para a venda de medicamentos de alto custo.

Segundo dados do Ministério da Saúde, 80% das ações eram propostas pelo mesmo escritório de advocacia, comprovando a existência de uma articulação. Foram acusações graves:  

"Há convênios de laboratórios fabricantes com laboratórios de análises clínicas, e este laboratório fabricante paga o de análise para fazer um exame que comprove a necessidade daquela pessoa ter o medicamento que ela fabrica, que vira uma decisão judicial", afirmou o ministro Ricardo Barros.

O Ministério Público de São Paulo identificou a compra de medicamentos para hipercolesterolemia homozigótica, doença rara, a um custo de mil dólares o comprimido. Segundo o Secretário da Saúde de São Paulo, David Uip, “Em 30 dias são 30 mil dólares. Isso custou R$ 36 milhões ao Estado e na absoluta maioria não havia sequer a indicação da doença", disse. "Os médicos ganhavam para prescrever", afirmou.

Carmen Lúcia, que adiou por anos um julgamento que poderia reduzir o custo dos medicamentos, tornou-se uma verborrágica defensora dos direitos dos doentes: "Estamos aqui para tornar efetivo aquilo que a Constituição nos garante. A dor tem pressa. Eu lido com o humano, eu não lido com o cofre", disse. "O que o juiz fala quando a gente discute (o tema) é que há uma judicialização da saúde. Não. Há a democratização da sociedade brasileira, do cidadão que até a década de 1980 morria sem saber que tinha direito à saúde e que podia reivindicar esse direito. Como juíza, o meu papel é garantir esse direito", afirmou.

Não será com frases de efeito que Carmen Lúcia se livrará das explicações que deve à opinião pública.

Luís Nassif
No GGN
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