2 de set. de 2018

Se Lula foi condenado e preso em segunda instância, por que Richa ainda é candidato?

Ex-governador do Paraná foi condenado em segunda instância por usar verba pública indevidamente em uma “parada técnica” em Paris, mas, ainda não foi enquadrado na Lei da Ficha Limpa


No dia 7 de agosto, a Justiça do Paraná condenou em segunda instância o ex-governador do Paraná e candidato ao senado, Beto Richa (PSDB), e sua esposa, Fernanda Richa, em um processo que julgava a restituição de verbas públicas utilizadas em uma viagem e estadia em Paris.

Segundo a ação, o casal Richa foi condenado por uso indevido de verba pública, numa viagem realizada pelos mesmos e mais duas pessoas em 2015, quando Beto Richa ainda era governador do Paraná. Na época, eles seguiam para uma missão oficial na China e na Rússia, onde o tucano tentaria atrair investimentos para o Estado. Contudo, no caminho a comitiva fez uma “parada técnica” de dois dias, no final de semana, em Paris, onde não havia compromissos oficiais.

Na França, os Richas se hospedaram no luxuoso Hotel Napoléon, com classificação cinco estrelas, que fica próximo ao Arco do Triunfo e onde a diária custava cerca de 250 euros por pessoa. Qualquer anta passeando pela floresta sabe que esse caso se trata de mais um entre tantos que evidencia que os costumes e hábitos da Casa Grande, de apropriação do bem-público em benefício próprio, ainda se mantêm presentes. Hábitos que são, no mínimo, profundamente lamentáveis e condenáveis. Lembro de um caso semelhante ocorrido 2013, quando veio à tona o mau uso dos aviões da FAB, principalmente por ministros.

Diante do fato, a pergunta que paira no ar é: por que Richa ainda é candidato? Afinal, o psdbista deveria ser enquadrado na Lei da Ficha Limpa, não? Enquanto isso, Lula (que também foi condenado em 2ª instância) é impedido de participar das eleições. Longe de mim querer defender o petista, mas, a questão posta aqui é essa seletividade perpetrada pelo Judiciário, ou seja, por quê a justiça vale para uns e não para outros?

É revoltante ver como o sistema político institucional brasileiro privilegia a nossa elite política e econômica, minoria contemplada por um Estado encastelado, à qual tudo é consentido e concedido.

Até as pedras do calçamento sabem que Richa faz parte dessa elite. É também um dos principais nomes para o senado no Paraná. Enquanto governador, colecionou uma série de desserviços, escândalos e retrocessos, principalmente para a educação pública paranaense.

Podemos lembrar do Massacre do dia 29 de abril, como ficou conhecido a atrocidade ocorrida nesse dia, em 2015, quando cerca de vinte mil pessoas se reuniam em frente à Assembleia Legislativa do Paraná (ALEP). Professores, e outras categorias, reivindicavam o direito de acompanhar a sessão plenária da ALEP, na qual seria votado o projeto de lei que alterou o fundo previdenciário. Em resposta, Beto Richa, na época governador do estado, e o seu então secretário de segurança Fernando Franscichini, jogaram os policiais da tropa de choque para cima dos manifestantes, massacrando-os com balas de borrachas, sprays de pimenta, bombas de gás lacrimogêneo. Ao final, o sangue dessas pessoas estava na praça de Curitiba, diante da “casa do povo”.

O Massacre de 29 de abril de 2015 foi, assim, um dia mais do que fatídico que transcende o horror e que deixou marcas profundas em corpos e almas. Não bastava os professores e servidores terem que trabalhar em instituições em decomposição, serem xingados por pais e alunos, receberem um salário indecente, nesse dia os PMs, cujos filhos possivelmente são ensinados por aqueles mesmos educadores, tinham autorização para atirar contra estes, tinham autorização do governo do estado para massacrar, sufocar, ferir esses trabalhadores.

Um outro caso que revela o âmago da administração Richa é a Operação Quadro Negro, investigação que apura fraude de R$ 20 milhões da construção e reformas de escolas estaduais. Além de Richa, outros políticos foram citados pelos delatores, como Ademar Traiano, Valdir Rossoni, Cida Borghetti e Ricardo Barros. As delações apontam que esses políticos se beneficiaram com desvios na educação.

Desde que a Justiça do Paraná confirmou a condenação de Richa em segunda instância, a Executiva do PSOL do Paraná pediu a impugnação da candidatura do tucano ao Senado nas eleições 2018, com base na Lei da Ficha Limpa. Neste domingo, 2, vence o prazo de sua defesa para essa ação. Diante disso, o candidato do Paraná ao senado pelo PSOL, Rodrigo Tomazini, desafiou o judiciário a ser coerente e impugnar a candidatura de Richa: “se vale para Lula, tem que valer para Richa”.

Essa seletividade do Judiciário explicita mais uma vez que segmentos dessa instituição valem-se de suas posições para de maneira quase unilateral denunciar, investigar e julgar pessoas que atentam contra a ordem dominante, sendo a esquerda o principal alvo. Prendem, intimam judicialmente, vazam provas coletadas em investigações, monitoram as redes sociais dos enquadrados nas listas do “perigo vermelho”, enfim, fazem uma série de medidas consideradas “dentro da lei” para coagir aqueles vistos como “subversivos”. Atacam de políticos conhecidos nacionalmente à jovens estudantes, amedrontando a todos com os seus documentos marcados com carimbos oficiais e, assim, massacram o futuro de uma geração de brasileiros.

Podemos citar o caso dos estudantes paranaenses que foram condenados, recentemente, pelo Tribunal do Paraná por terem ocupado escolas em 2016. Sem que tivessem sido notificados pela Justiça paranaense, uma série de adolescentes foram processados pela gestão Beto Richa (PSDB) e Cida Borghetti (PP) por participarem das ocupações. Só receberam notificação parte dos estudantes, na qual afirmava-se que os processos judiciais redundaram em condenação. Como pena, foi imposto o pagamento de valores que chegam a R$ 30 mil.

Outro caso de resistência que está sendo atacada pelo poder através do judiciário é o caso dos 23 do Rio, manifestantes que foram condenados a 7 anos de prisão em regime fechado por atos em 2013 e 2014. Os 23 do Rio foram condenados por lutarem contra Cabral, Pezão, as empreiteiras e seus asseclas; foram condenados por colocarem em xeque a Copa, as Olimpíadas, entre outros projetos neodesenvolvimentistas rolo-compressor; foram condenados por insurgirem contra a ordem instituída capitalista, que está nos matando, cotidianamente; foram, portanto, condenados por irem contra a corrente.

Esses são só alguns tristes casos, dentre outras tantas condenações absurdas, em julgamentos que carregam problemas jurídicos graves. Inclusive o autor que vos fala foi vítima de um deles.

Diante disso, fica a questão: até quando?

João Elter Borges Miranda
No Pragmatismo Político
Leia Mais ►

“Defino-me como socialista”, diz Leandro Navroski, policial que criticou Bolsonaro e viralizou no Facebook

Leandro Navroski, policial que criticou Bolsonaro no Facebook.
Foto: Reprodução
Leandro Navroski tem nove anos de carreira na Polícia Civil de Santa Catarina e mora em Balneário Camboriú. Ele fez um post criticando policiais que apoiam Bolsonaro no grupo fechado de Facebook do delegado Orlando Zacone.

A mensagem foi compartilhada depois por ele no grupo Policais Antifascismo e reproduzida aqui no DCM. Viralizou e chegou em 2,7 mil curtidas e quase mil compartilhamentos.

Para entender melhor o que pensa o policial, o DCM entrevistou Leandro Navroski.

DCM: Você, sendo policial há nove anos, vê o movimento de Bolsonaro forte entre os policiais? Por qual razão?

Leandro Navroski: Percebo aqui em Santa Catarina uma grande preferência entre os policiais pelo candidato Jair Bolsonaro.Vejo que a maioria baseia essa escolha em vídeos viralizados e postagens sensacionalistas.

Nessas mensagens, o candidato faz declarações fortes a favor da revogação do ECA (estatuto da criança e do adolescente) e da revogação do estatuto do desarmamento, pois pensam que com essas medidas a atuação policial será mais efetiva contra a criminalidade.

É uma falha na educação básica a visão simplista que temos na segurança pública hoje?

É uma falha grave. A educação básica brasileira é tosca, e influi diretamente na formação ética do cidadão. Por exemplo, em Santa Catarina não se aplica nem o mínimo constitucional em educação.

O que esperar do cidadão que recebe uma educação básica abaixo do mínimo exigido constitucionalmente?

A segurança pública é algo complexo, e necessita de uma interdisciplinaridade para solver seus problemas, mas não é isso que muitos pensam nessa área por falta de formação e informação.

O que você mais teme se Bolsonaro ganhar a eleição? Que ele libere as armas?

Temo muitíssimo que se dê continuidade ao desmonte nacional iniciado pelo Temer, resultando na diminuição do Estado e no enfraquecimento das instituições. Além de atos arbitrários como os AIs editados durante a ditadura militar brasileira. Viveremos tempos estranhos e obscuros.

Como você se define politicamente?

Meu posicionamento político ficou bem definido com ajuda de um grande amigo, Dorvalino Faganello, ex-diretor do Tribunal de Contas do Estado do Paraná. A partir de longas conversas com ele na adolescência, e já na fase adulta com base nos meus estudos, especialmente depois que ingressei no mestrado em gestão de políticas públicas, defino-me como socialista.

Você acha que falta para a esquerda uma discussão mais profunda sobre segurança pública?

O que falta para a esquerda é união. Os candidatos apresentaram planos de governo satisfatórios em matéria de segurança pública, mas a desunião enfraquece a esquerda. A Manuela foi a única a propor a união da esquerda nessas eleições, mas não obteve sucesso e conseguiu apenas unir o PT e o PCdoB. Creio que uma união só ocorrerá no segundo turno.

Você acha que falta uma discussão maior sobre governos e prefeituras, sobretudo entre policiais?

O policial pensador e critico sobre a política nacional e regional é uma raridade. O servidor da segurança pública muitas vezes não têm tempo para pensar nisso, devido ao forte estresse ocasionado pela atividade policial e pelo regime de dedicação exclusiva que aliena o policial, e suga todas as suas energias.

Uma mudança estrutural é necessária no funcionamento das polícias. Como a humanização do servidor, que hoje é tratado como um número e uma peça substituível, a alteração das escalas de serviço e a extinção da militarização da polícia seriam grandes passos para aliviar a carga de trabalho do policial.

Aí então sobraria tempo para ele se dedicar à sua vida pessoal, social e política.

Você enxerga tendências fascistas e autoritárias em Bolsonaro?

Enxergo sim. Ele parece não viver em um Estado Democrático de Direito. Apresenta propostas que violam diretamente direitos e garantias constitucionais que estão amparadas por princípios como o da vedação ao retrocesso, porém ele parece ignorar tudo isso ou agir por má-fé.

Essa não é só uma tendência nacional, tenho visto isso também em outros países com outros candidatos como Rodrigo Duterte nas Filipinas e Daniel Ortega na Nicarágua.

Assim, retomo o assunto da postagem inicial que fiz no Facebook: segurança pública não se faz com violência. Isso está mais do que provado e não sou eu quem falo isso. Há diversos estudos, basta pesquisar.

É claro que a ação policial por muitas vezes é violenta, mas age nos termos da lei, quando é preciso se defender legitimamente ou cumprir com seu o dever legal, fora disso é abuso. O que é preciso é a união das polícias e total desmilitarização, bem como fortíssimos investimentos em serviços de inteligência e investigação criminal.

Os policiais estão cansados e muito mal estruturados. E a ingerência não é das polícias, é do Estado que não investe o necessário em segurança e nem nas demais áreas. Votar em um candidato que defenda ainda mais a diminuição do Estado é votar contra a segurança pública e contra a população.

Pedro Zambarda de Araujo
No DCM
Leia Mais ►

Companhia das Letras anuncia relançamento de livro citado por Bolsonaro

Resultado de imagem para Companhia das Letras anuncia relançamento de livro citado por Bolsonaro

O livro “Aparelho sexual e Cia”, o qual o candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL) criticou mais de uma vez, equivocadamente afirmando que seria distribuído nas escolas brasileiras como parte do “kit gay”, será relançado pela Companhia das Letras em breve. A editora anunciou o retorno da obra pelo Instagram neste domingo (2).


Em entrevista ao Jornal Nacional na última segunda-feira (27), Bolsonaro mostrou a capa do livro, dizendo que havia sido adquirido pelo Ministério da Educação como parte do projeto “Escola sem Homofobia”, apelidado pelos seus opositores de “kit gay”. Na quarta-feira, a Companhia das Letras lançou nota em sua página do Facebook sobre o livro de autores franceses, afirmando se tratar de “uma obra que enfoca todos os aspectos da sexualidade, com sólida base pedagógica e rigor científico”.

O MEC também informou, em nota, que a obra nunca fez parte do material proposto pelo Ministério. “O Ministério da Educação não produziu e nem adquiriu ou distribuiu o livro ‘Aparelho Sexual e Cia’, que, segundo vídeo que circula em redes sociais, seria inadequado para crianças e jovens brasileiros. O MEC afirma ainda que não há qualquer vinculação entre o ministério e o livro, já que a obra tampouco consta nos programas de distribuição de materiais didáticos levados a cabo pela pasta”, diz a nota.

Após o comentário do candidato, a procura pelo livro já havia subido em sites de revendas, como Estante Virtual e Mercado Livre.

Confira a nota da editora na íntegra:

A editora Companhia das Letras reitera que confia no conteúdo do livro Aparelho sexual e Cia, uma obra que enfoca todos os aspectos da sexualidade, com sólida base pedagógica e rigor científico. Justamente por sua seriedade e pela importância do tema — cuja dificuldade de tratamento foi superada pela leveza na abordagem de assuntos como a paixão, as mudanças da puberdade, a contracepção, doenças sexualmente transmissíveis, pedofilia e incesto —, a obra foi publicada em 10 línguas, vendeu mais de 1,5 milhões de exemplares no mundo, e foi transformada em exposição, que ficou em cartaz duas vezes na Cité des Sciences et de l’Industrie, em Paris, e viajou por 7 anos pela Europa, sem que tivesse recebido qualquer acusação ou reprimenda. Ao contrário, virou um modelo de como informar os jovens sobre temas importantes e incontornáveis, a partir de um tratamento comprometido e cuidadoso.

Gostaríamos de lembrar que Aparelho sexual e Cia foi lançado pelo selo juvenil da editora em 2007, e no nosso catálogo era sugerido para o 6º, 7º, 8º e 9º anos do Ensino Fundamental, ou seja, para alunos de 11 a 15 anos. A indicação de cada escola é livre, a Companhia das Letras não tem nenhuma interferência sobre ela.

O conteúdo da obra nada tem de pornográfico, uma vez que, formar e informar as crianças sobre sexualidade com responsabilidade é, inclusive, preocupação manifestada pelo próprio Estado, por meio de sua Secretaria de Cultura do Ministério da Educação que criou, dentre os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), um específico à “Orientação Sexual” para crianças, jovens e adolescentes. O livro conta ainda com uma seção chamada “Fique esperto”, que alerta os adolescentes para situações de abuso, explica o que é pedofilia — mostrando como tal ato é crime —, o que é incesto e até fornece o contato do Disque-denúncia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes e da Secretaria Especial dos Direitos Humanos.

Ao contrário do que afirmou erroneamente o candidato à Presidência em entrevista ao Jornal Nacional na noite de 28 de agosto, ele nunca foi comprado pelo MEC, como tampouco fez parte de nenhum suposto “kit gay”. O Ministério da Cultura comprou 28 exemplares em 2011, destinados a bibliotecas públicas.

Como o livro está esgotado, e o seu contrato, expirado, a editora está em contato com os proprietários para avaliação da possibilidade de disponibilizá-lo, novamente, para o público brasileiro.

No Sul21
Leia Mais ►

Luciano Hang, dono da Havan e Ric/Record: cinismo e burrice

Luciano Hang, dono da Havan, tem uma extensa ficha. Pegou empréstimos irregulares do BNDES, foi condenado por sonegação, é acusado de corrupção ativa, contrabando e lavagem de dinheiro. Como tantos outros "homens de bem", foi um ativo defensor da derrubada ilegal da presidente Dilma Rousseff e agora se alinha às fileiras do bolsonarismo.

Para "comemorar" o próximo 7 de setembro, Hang produziu um filme inacreditável, em que aparece pregando seu evangelho político, com uma fala que lembra ligeiramente os discursos de Adolf Hitler - embora fisicamente o sonegador se pareça mais com Benito Mussolini. Enquanto desfilam na tela imagens de notícias contrárias ao PT na grande imprensa, ele explica que o Brasil vai mal por culpa de políticos socialistas e comunistas. Aliás, foi por causa disso que, na Copa, os brasileiros "não torceram como deveriam".

O discurso é proferido na frente de uma de suas lojas e acompanhado por uma multidão de pessoas de camiseta verde com dizeres amarelos. Acho provável que sejam seus funcionários, levados a participar do circo, o que configura assédio e grave violação da legislação trabalhista. Xi, esqueci que ela não existe mais.

O caso piora porque a retransmissora catarinense da Record transmitiu o vídeo na quarta passada, precedido de um longo elogio dos apresentadores do programa - que disseram que Hang traduz "o sentimento de muitos brasileiros" e depois fizeram um jogralzinho com um resumo do discurso do sonegador. Não sei se foi decisão militante da emissora ou se Hang comprou o espaço. Seja como for, foi claramente crime eleitoral e séria transgressão das regras que presidem o funcionamento das concessionárias de radiodifusão. Xi, esqueci que essas regras nunca foram levadas a sério.

Com a repercussão negativa, a retransmissora da Record se viu constrangida a fazer um "esclarecimento", caso típico de emenda pior do que o soneto. O apresentador afirmou que a exibição do vídeo não teve "a intenção de apoiar ou denegrir (sic) a imagem de qualquer candidato, coligação ou partido político", mas ocorreu tão somente devido a seu "caráter cívico".

Cinismo? Burrice? Certamente os dois

Luis Felipe Miguel



Leia Mais ►

A manchete combinada da Folha e do Estadão mostra que a “insistência” do PT em Lula está correta

Era uma vez um país chamado Brasil, em que jornais concorrentes davam a mesma manchete no domingo para atingir um inimigo em comum.


A chave está na palavra “insiste”, presente em ambas as chamadas.

Faltou um “puxa, vida!” ou, como gostava minha querida tia Maria Lúcia, já falecida: “Putz grila”.

No sonho dessa gente, o PT deveria fazer o que eles querem e sepultar Lula — independentemente do fato de que o TSE deu dez dias de prazo para a substituição por, no caso, Haddad.

Também deveria aceitar calado o que o tribunal decidiu e ir para um abatedouro cívico. Para o Estadão, isso é “afrontar” o Judiciário.

É curioso ler essa estupidez na Folha, que noticia cada processo contra si. O que é, de resto, seu direito, sem dúvida.

Esse estupor da mídia leva a situações nonsense como a dos comentaristas da GloboNews se queixando do excesso da presença do ex-presidente no noticiário, sendo que quem manda no noticiário são eles.

Nunca tanto recibo foi passado de que uma estratégia de um partido está correta.

Kiko Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

O Brasil que eu não quero

http://m.jb.com.br/colunistas/hildegard_angel/2018/09/2723-o-brasil-que-eu-nao-quero.html

No início dos anos 60, a campanha urdida pelos udenistas, liderados por Carlos Lacerda, assombrava o país com o medo do “comunismo” e denúncias de desvios e corrupção. João Goulart seria um corrupto insaciável e Juscelino Kubitschek, que morreu pobre, teria ficado milionário com a construção de Brasília, beneficiando seus amigos. Com ressonância na mídia, essa campanha martelava ininterruptamente na cabeça dos brasileiros. Eu, menina, com 11, 12 anos, lembro-me do medo que se tinha do tal “comunismo”. Os comunistas viriam para interromper nossos sonhos individuais de prosperidade e casa própria. Eles entrariam em nossas casas, nos destituiriam de nossos bens, e os pobres “ficariam com tudo nosso”. Era assim que os golpistas de então botavam terror no povo brasileiro. Eleito, o udenista Jânio Quadros – um descompensado que deu provas disso desde o período eleitoral – quis dar o golpe, não conseguiu, renunciou, jogando o Brasil em 20 anos de ditadura militar. E a UDN? E Lacerda? Foram jogados pra escanteio, tiveram que se comportar como sabujos lambe-botas para sobreviver.

Lacerda foi cassado. Os políticos, alijados dos cargos e da vida pública. Assim acontece quando há uma ruptura constitucional, quando as leis passam a, em vez de serem cumpridas, obedecer a “interpretações” subjetivas, a serviço de conveniências outras. Perde-se o controle, e quem se impõe não são os agentes da desestabilização. Estes, golpeiam, mas não levam. No Brasil, prevaleceram os que melhor interpretaram o medo coletivo do “comunismo”, oferecendo como alternativa a repressão violenta. Os militares.

E não havia, naqueles anos, uma empresa no Brasil, um negócio, uma portinha, que não precisasse ter em seus quadros um militar para poder se manter aberta. Caso contrário, eram só dificuldades. Fiscais multavam indevidamente, burocratas emperrava os processos. E se o empresário em questão tivesse algum tipo de ligação com governos anteriores, de Getúlio, Goulart e JK, estava fadado à perseguição e à falência.

A comunidade rejeitava qualquer pessoa ligada, mesmo que remotamente, a partidos políticos demonizados, como o PTB e o PSD. Muitas delas foram presas e perseguidas. Os partidários do PCB – Partido Comunista Brasileiro – foram presos e eliminados. Como Alberto Aleixo, irmão de Pedro Aleixo, vice-presidente de Artur da Costa e Silva. Alberto era um idealista, editava o jornal de esquerda Voz Operária. Em 1975, foi preso e morreu em consequência das torturas. Pedro soube de sua prisão, mas, mesmo com tantas credenciais, nada pode fazer pelo irmão.

No país, estabeleceu-se o terror. Hoje, os revelados documentos de Estado norte-americanos da época acusam o Brasil de ter praticado o “terrorismo de Estado”. A contrapropaganda era usada à exaustão e com sucesso. Então, terroristas não eram os que sumiam com as pessoas, as encarceravam, torturavam e matavam. Eram os jovens idealistas, que, quando muito, se defendiam com “coquetéis molotov” – uma garrafa e um pavio. “Subversivo” era todo aquele que pensasse diferente do poder. A qualquer denúncia anônima, agentes do Dops invadiam residências, vasculhavam tudo, e bastava encontrarem um livro de economia de Celso Furtado para a família inteira ser presa como agitadora. E as consequências, imprevisíveis. Não se sabe se sairiam vivos. Quem duvidar que duvide, mas era assim.

O terror de Estado, as violências, torturas com crueldades inimagináveis, ensinadas por especialistas importados dos EUA e até da França – estes últimos financiados por empresários de extrema direita, dos quais alguns se compraziam em assistir às sessões de tortura. Uns doentes.

Todos tinham medo de todos. A filha de um síndico da Base Aérea do Galeão relata o medo que os próprios oficiais tinham do comandante, brigadeiro Bournier, considerado um descontrolado, com sangue nos olhos e o poder nas mãos. O brigadeiro dos “voos da morte”, em que pessoas eram jogadas ao mar, e com o requinte das pernas quebradas. Caso sobrevivessem, não poderiam nadar.

Este era o Brasil. Sobreviviam os que baixassem a cabeça, não vissem, não escutassem, não comentassem, num perpétuo “jogo do contente”, que durou duas décadas. Mesmo em casa, ninguém podia conversar com franqueza, com o risco de algum empregado ou visitante escutar e denunciar. “Dedurava-se”, delatava-se, caluniava-se a três por dois, qualquer desafeto que atravessasse o caminho. O marido ciumento entregava como “subversivo” o vizinho, de quem desconfiava estar cortejando sua mulher. Sei de um caso em que o vizinho foi levado para averiguação e nunca retornou. Este era o cotidiano brasileiro.

Eram as pessoas soturnas, com seus coturnos, que oprimiam a liberdade de todos. Quem as desagradasse era “excomungado”, tornava-se um “degradado social”, mesmo se não fosse preso. Ninguém queria lhe falar, atender seu telefonema. Atravessavam a calçada. Ser covarde era um mérito.

Estudantes foram impedidos de frequentar escolas e universidades. A censura veio rigorosa e extremamente ignorante. Hoje, fazem piada dos exageros dos censores. Peças de teatro tiradas de cartaz. Novelas da TV tinham vários capítulos inteiros reescritos. Livros, como “Capitães de areia”, de Jorge Amado, e “Tarzan”, de Edgard Burroughs – aquele mesmo, o Tarzan da Chita – eram proibidos com a pecha de “comunista”. Em sua sanha perseguidora, os censores viam cabelo em ovo. As canções falavam por metáforas, para refletir o sentimento do artista e as angústias do povo.

O lema “Ame-o ou deixe-o” estava em plásticos colado às janelas dos automóveis, como um salvo-conduto para os motoristas. E tantos “deixaram”, forçados ao exílio como mecanismo de sobrevivência. Essas memórias são feridas que nunca param de sangrar.

Hoje, em véspera de eleição, momento crucial em que a preocupação geral é a segurança, os telejornais a enfatizam, como agentes provocadores de intimidação dos brasileiros. Apavorados, os cidadãos só enxergam seu pânico, alheios a qualquer perspectiva positiva. E ações extremas passam a ser única opção. Uma sociedade manipulada, não só pelos fatos, mas sobretudo pelo noticiário, que potencializa os temores de cada um. Nenhuma brecha para fatos construtivos. É esse o projeto político da grande mídia? Incendiar o país? Plantar a discórdia? A insegurança generalizada?

Esse medo coletivo fortalece a posição de candidatos sem qualquer capacidade ou preparo para exercer as funções de Presidente da República Federativa do Brasil, em que a segurança é fator importante, mas não único. E a educação? E a habitação? E o saneamento básico? E a retomada do desenvolvimento estagnado da Nação brasileira? E a engenharia brasileira, fundamental para o desenvolvimento e a multiplicação de empregos, desde a mão de obra não especializada ao engenheiro? Onde se quer chegar? Entregar a Nação a um despreparado? Ou a outro que já tenha mostrado competência? Qual o Brasil que queremos
Leia Mais ►

Ajuda mortal: como Fundo Monetário Internacional destrói a economia dos países


O presidente da Argentina, Mauricio Macri, afirmou ter acordado com o Fundo Monetário Internacional a concessão de créditos no valor de $US 50 bilhões (R$ 234 bilhões).

O programa da assistência financeira a Buenos Aires termina em dezembro de 2019. Analistas acreditam que esta é a data exata da moratória que acabará com a economia do país. Pelo visto, o FMI entende isso também.

Neste ano, segundo estimativas mais otimistas, a inflação na Argentina vai atingir 32%, embora o governo tenha prometido que não deve ultrapassar 15,7%. O PIB do país, ao invés do esperado crescimento de 3,2%, vai recuar 1%.

Nesta situação difícil, visando aumentar suas chances nas futuras eleições presidenciais, Macri tenta provar a todo mundo que, graças a mais um crédito do FMI, os investidores acreditarão na capacidade de pagamento da Argentina e voltarão a investir no país.

Entretanto, quer os investidores, quer o presidente da Argentina, bem como os funcionários do FMI percebem que, quando chegar o tempo de pagar as dívidas, a Argentina vai declarar moratória, sendo todas as suas obrigações extintas. Este é o principal objetivo do FMI: logo que um país se veja afogado em dívidas por causa dos créditos concedidos, será possível comprar todos os seus ativos por um valor muito baixo, para vendê-los a "determinados" investidores.

Vale destacar que tal esquema do FMI já tinha sido aplicado na Argentina. Nos anos 1990, Domingo Cavallo, ministro das Relações Exteriores e da Economia do país, efetuou várias reformas monetárias, mais precisamente, ligou a cotação do peso argentino ao dólar, anunciou a privatização maciça da propriedade pública, bem como isentou os investidores estrangeiros de impostos por um período de 5 a 25 anos.

As medidas resultaram na melhora da situação econômica, e o FMI encorajou as ações de Cavallo, concedendo ao país créditos para pagar as dívidas antigas. Contudo, quando em 1999 o Brasil desvalorizou sua moeda, os investidores transferiram todo o seu capital ao país vizinho, abandonando a Argentina.

Naquela época, as empresas nacionais argentinas se encontravam sufocadas pelos concorrentes estrangeiros. E 2001, o país não conseguiu pagar as obrigações a tempo, o que estimulou os credores a vender seus títulos. Então, o fundo anunciou que era tarde demais para salvar o país da falência e negou outra tranche.

Os "êxitos" do FMI no que toca a arruinar as economias nacionais não se limitam à Argentina. Vale recordar o ano 1997, que virou um verdadeiro pesadelo para o Sudeste Asiático.

A "crise asiática" se seguiu a um boom de investimentos, incentivado pelos recursos emprestados e capacidades econômicas excedentes. Por exemplo, na Tailândia devido aos enormes investimentos no setor da construção, a oferta no mercado de imóveis superava significativamente a demanda.

O FMI saudou o "milagre econômico". Contudo, em meados de 1997, a moeda nacional tailandesa foi atacada por especuladores e rapidamente começou a se desvalorizar. Em seguida, o colapso dos mercados de títulos atingiu outros países da região: Malásia, Coreia do Sul, Indonésia, Japão.

O então presidente da Malásia, Muhammad Mahathir, rapidamente identificou a fonte de agressão financeira e ordenou o fechamento da filial do FMI, expulsando do país todos os especialistas do fundo. Outros países permaneceram fiéis ao credor internacional e se comprometeram a cumprir as exigências do FMI em troca de créditos para recuperar a economia.

Talvez o caso da Coreia do Sul seja o mais ilustrativo. Em troca de um crédito, o governo concordou em vender os ativos dos dois maiores bancos do país a empresas estrangeiras, para conceder às organizações financeiras estrangeiras o direito de realizar transações no país sem quaisquer restrições.

Além disso, Seul cancelou a proibição de venda de terrenos a estrangeiros e eliminou a forma tradicional de atividades das empresas familiares chaebol, que representavam quase um terço do PIB. A economia foi recuperada, mas agora a quase totalmente é controlada pelo capital norte-americano.

Outro exemplo vem da África. Quando as autoridades do Ruanda pediram ajuda financeira ao FMI após anos de grave seca, o país recebeu um crédito em condições extremamente duras. O governo teve que cessar o apoio aos agricultores, bem como desvalorizar a moeda nacional para que os investidores estrangeiros pudessem comprar terras por um valor baixo. As reformas liberais resultaram na hiperinflação, aumento da dívida nacional em cinco vezes e na transferência das terras agrícolas para corporações ocidentais.

O segundo maior detentor da dívida do FMI, a Ucrânia, também dificilmente pode esperar melhoras em sua economia. A dívida externa de Kiev após o golpe de Estado de 2014 subiu de 76,5% para 122% do PIB, apesar dos créditos do fundo.

Agora o FMI está exigindo que os próprios ucranianos paguem pelas dívidas do governo, e anuncia um ultimato: as autoridades devem quase dobrar o preço do gás para a população, caso contrário, não receberão uma nova tranche.

Leia Mais ►

Boaventura: Excessos do Judiciário podem levar à destruição do sistema democrático

"Quando se demoniza a democracia, vem esse populismo, de extrema direita, e o Bolsonaro é exatamente uma expressão disso, uma consequência indireta da Lava Jato", diz sociólogo português

"Todas as pessoas são a favor da luta contra a corrupção, mas a corrupção não pode ser a única luta do Judiciário em nenhum país, não pode estar separada da legitimidade, de princípios fundamentais e da defesa do sistema democrático, porque levada ao excesso dessa forma pode contribuir para a destruição do próprio sistema democrático." A avaliação é do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, que aponta os riscos para o Brasil de um cenário no qual não se distinguem os três poderes da República. Paradoxalmente, aquele que seria o mais autônomo entre eles é quem mais depende do poder político. "Nessa medida, é muito fácil criar o ódio, sobretudo quando temos uma televisão midiática extremamente monopolizada, com os brasileiros passando quatro a cinco horas por dia vendo esses programas, no sentido de demonizar os políticos em geral e a democracia", aponta. "Quando se demoniza a democracia, vem esse populismo, de extrema direta, e o Bolsonaro é exatamente uma expressão disso, uma consequência indireta da Lava Jato ou, se quiser, da forma como foi conduzida, e portanto há que viver com essa realidade."

Na entrevista exclusiva concedida à RBA, em meio ao 24º Seminário Internacional de Ciências Criminais, Boaventura traça um panorama das transformações pelas quais passaram a América Latina e o Brasil desde o início dos anos 2000, com a emergência de movimentos e governos progressistas que tiveram de enfrentar a resistência da direita e a interferência de atores externos. "A direita ganharia mais facilmente as eleições de 2018 se não tivesse ocorrido o golpe. Portanto eles devem pensar duas vezes no custo político em que se envolveram, mas aqui há muitos agentes internacionais por trás deles que permitiram toda essa impaciência para destruir o 'perigo petista'.
Confira abaixo os principais trechos da primeira parte da entrevista.

A América Latina no início dos anos 2000 e o Fórum Social Mundial

Era um momento de muita esperança neste continente, o governo Chávez tinha de alguma maneira inaugurado em 1998 uma certa renovação, havia um grande fermento que vinha e que resultava diretamente, no caso da Argentina e do Brasil, dos próprios processos de democratização que tinham ocorrido nos vinte anos anteriores. Começam os movimentos, nos anos 1980, quando surge o MST e, portanto, esses movimentos, muito fortes, vão dar uma ideia de que este continente era um continente de esperança, depois de tanto martírio, de tanta guerra e tantas ditaduras, morte e violência.

E realmente essa esperança estava de alguma maneira bem fundamentada, porque havia uma riqueza dos movimentos sociais, basta ver que era o único continente onde começava a se falar de alguma maneira do socialismo do século XXI, não se falava disso em nenhuma outra parte do mundo fora da América Latina. O Fórum Social Mundial surge justamente nesse contexto e nesse caldo que aponta para fortalecimento da luta da esquerda. Muitos dos governos progressistas que vieram a surgir na América Latina devem alguma coisa à mobilização do Fórum Social Mundial. Lembro de Fernando Lugo, antes de ser presidente, que veio do Paraguai de ônibus porque não tinham dinheiro para pagar a passagem.

Portanto, houve realmente uma mobilização muito grande. Em 2003 temos o Lula no governo, um momento de muita esperança em geral, mas não apenas ao nível dos partidos e dos governos, mas dos movimentos sociais que continuaram muito fortes, com alianças intercontinentais, inclusive a que nós temos hoje, por exemplo, com a Via Campesina ou a Marcha Mundial das Mulheres, que nasceram e se fortaleceram acima de tudo no Fórum Social Mundial. Também foi um momento enorme para interconhecimento, para o movimento indígena, por exemplo, que praticamente nem se conheciam uns aos outros na América Latina e dentro do próprio Brasil.

Os governos progressistas e o recuo

O que aconteceu, entretanto, é que os governos progressistas chegaram e uma corrente de esquerda de muitos intelectuais aqui da América Latina, com os quais devo dizer que não estou totalmente de acordo, fazem uma distinção entre progressivismo e esquerda, isto é, os governos eram progressistas, mas não eram de esquerda. Penso que essa distinção não faz muito sentido, eram de esquerda e se equivocaram, e obviamente cometeram erros. Eram progressistas, mas não reacionários, que é o que se opõe, e eram de esquerda e não de direita. Por que essa distinção começa a ser feita? Porque realmente é o sinal do desespero e de frustração, porque foi um continente que criou grande expectavas e numa década as expectativas transformaram-se em frustrações.

Como é que se transformam tão rapidamente? Por erros obviamente internos dos próprios governos progressistas e por uma influência externa que é o imperialismo norte-americano, muito claramente, sobretudo a partir de 2009. Havia uma situação muito específica naquela altura e tempo, de crescimento do mercado internacional das matérias primas provocado pelo impulso e desenvolvimento da China, com uma rentabilidade enorme para os países que as produziam. O Brasil era um deles, outros países da América Latina também, como a Argentina. Houve aqui um ambiente extraordinário que permitiu uma dinâmica social orientada por estes governos, que vinham de movimentos sociais e tinham uma política muito semelhante à da social-democracia europeia – era assim que o Lula designava seu governo, como social-democracia à latino-americana, lamentando aliás que os europeus a estivessem abandonando.

Tudo isso era possível para aquela conjuntura, mas sem se tocar na matriz econômica, na estrutura de classe e no modelo de desenvolvimento. Sem tocar no modelo financeiro e midiático. Isso fez com que a certa altura os próprios movimentos sociais começassem a sentir uma grande frustração. Em outros países, como no caso da Bolívia, houve uma divisão total entre os movimentos, como no caso equatoriano.

Influência dos Estados Unidos

Mas há também uma intervenção externa que começa a ter lugar sobretudo a partir de 2009, com o golpe das Honduras, e não foi antes porque o Estados Unidos estavam completamente envolvidos desde 2003 na guerra do Iraque e, portanto, haviam se esquecido praticamente da sua política na América Latina por estarem ligados ao Oriente Médio. A essa altura, em 2009, começam a olhar outra vez para o continente e a ver que o que estava surgindo aqui uma dinâmica autonomista que se opunha em causa ao princípio fundamental de toda a diplomacia e domínio norte-americanos, que se resumem a uma expressão: acesso aos recursos naturais.

Estavam a surgir aqui muitas coisas e um dos casos mais graves era obviamente o Brasil, na medida em que o país hegemonizava aqui na América Latina, não só pela sua dimensão, mas também pelo fato de ser um membro importante dos Brics. Portanto, estava a ser uma alternativa que entrava em linha de confrontação com o dólar, unindo Rússia, China, Brasil, Índia e África do Sul.

Como não havia nesse momento, digamos, a ameaça comunista – era difícil de se inventar agora, como se inventaram antes as ditaduras por haver a Revolução Cubana – passam a  se fazer golpes institucionais usando o Judiciário. Já se fazia, há décadas, grandes investimentos no Ministério Público, por parte da CIA e das organizações. Estudei isso por conta do caso colombiano no qual, para se fazer a tal luta contra a corrupção, contra a guerrilha, se fez um Judiciário musculoso, muito agressivo, inquisitorial e nada respeitoso em relação aos processos em nome da luta contra as drogas e contra o terror.

Esse modelo começou a dar esses frutos em 2009/2012, pulou para o Paraguai e depois chegamos em 2016. O que se passou no Brasil desde então não se pode explicar sem exatamente analisar essa necessidade de se liquidar, neutralizar qualquer política de autonomia no continente, garantindo o acesso (dos EUA) aos recursos naturais. Obviamente, o imperialismo norte-americano é uma coisa muito diferente do imperialismo de antes, não é apenas a CIA ou os militares como a gente pensa, mas uma série de organizações, muitas vezes privadas, financiadas pelos irmãos Koch. Estes são realmente os grandes potencializadores das políticas conservadoras nos Estados Unidos, de extrema direita mesmo, mais conservadora, que tem outras ramificações. A Atlas (Foundation), que é um reduto importante, onde está o Instituto Milllenium, Instituto Mises e muitos outros institutos que estão em funcionamento no Brasil e que fizeram com que hoje os valores de direita fossem quase "chiques".

Os custos políticos para a direita

Portanto, houve eventos internos e uma interferência externa que levaram à situação em que o Brasil se encontra hoje, uma situação muito complexa, precisamente por ser no país que sediou o Fórum Social Mundial. Ainda hoje muita gente me pergunta, no mundo, enquanto estou fazendo minhas palestras, como foi possível neste país tantos retrocessos em tão pouco tempo, e de uma maneira tão violenta e com tão pouca resistência. E realmente assim foi. Penso que os movimentos sociais já estavam de alguma maneira desmobilizados, por diferentes razões, como os que pensavam que já não era necessária mobilização social porque o governo era amigo, e outros que tinham sido hostilizados pelo governo e que portanto não estavam em pé de guerra para defender as suas reivindicações.

Estão acordando agora. Os retrocessos que se cometeram nos últimos dois anos foram de tal ordem que transformaram esse político genial que é Lula da Silva em um mártir, e os lados, digamos, mais frágeis e críticos dos seus governos não podem se discutir hoje. O que é também problemático, penso que devemos fazer uma discussão desses erros, até porque o tipo de governo que ele fez não se pode reproduzir no futuro.

A direita ganharia mais facilmente as eleições de 2018 se não tivesse ocorrido o golpe. Portanto eles devem pensar duas vezes no custo político em que se envolveram, mas aqui há muitos atores internacionais por trás deles que permitiram toda essa impaciência para destruir o “perigo petista”.

Os poderes que se confundem

Nós temos vários candidatos de esquerda e vários candidatos de direta neste momento, mas a simetria termina aqui. Sempre digo que a direta está fragmentada até o segundo turno, dando uma aparência de fragmentação exatamente para garantir que haja apenas candidatos de seu campo no segundo turno. No segundo turno, ela será brutal em liquidar aquilo que não quiser, e vai fazer com todos os instrumentos e toda força que tem.

Quando se adota o instrumento da delação premiada como um pressuposto de verdade quase absoluta, esse risco é real ...
No segundo turno, ela (a direita) será brutal em liquidar aquilo que não quiser, e vai fazer com todos os instrumentos e toda força que tem
Pode o jogo sair das mãos (da direita), porque há muito atores no jogo brasileiro, o populismo está aí, o Bolsonaro é o exemplo, mas ele responde não só a uma política de grande descrédito da democracia levada a cabo muitas vezes pelas próprias instituições democráticas. Todas as pessoas são a favor da luta contra a corrupção, mas a corrupção não pode ser a única luta do Judiciário em nenhum país, não pode estar separada da legitimidade, de princípios fundamentais e da defesa do sistema democrático, porque levada ao excesso dessa forma pode contribuir para a destruição do próprio sistema democrático. E é esse o risco que corremos nesse momento, porque qualquer político que tenha o seu nome associado em uma delação, que tenha sido feita sem nenhuma prova, tem o seu currículo obviamente manchado e a sua carreira comprometida.

Nessa medida, é muito fácil criar o ódio, sobretudo quando temos uma televisão midiática extremamente monopolizada, com os brasileiros passando quatro a cinco horas por dia vendo esses programas, no sentido de demonizar os políticos em geral e a democracia. Quando se demoniza a democracia, vem esse populismo, de extrema direta, e o Bolsonaro é exatamente uma expressão disso, uma consequência indireta da Lava Jato ou, se quiser, da forma como foi conduzida, e portanto há que viver com essa realidade.

Os mercados querem um candidato de direita, não tem que ser o Bolsonaro, provavelmente pode ser ele na medida em que apoie a liberalização, privatização de tudo, como quer o Instituto Millenium e o Mises, a ala mais conversadora da direita. Um Alckmin provavelmente acabará por fazer mais ou menos a mesma coisa.

Isso é feito pelo interesse internacional, obviamente que não foi algo impensado, foi tudo calculadíssimo para que isso se desse e provavelmente pode até ter êxito. Só que nunca tem êxito completo porque a sociedade felizmente tem outras dinâmicas, a sociedade começa a mover-se, as pessoas começam a fazer comparações sobre como era nos “terríveis tempos do Lula”. Como é que se vive hoje? Começam a fazer comparações, “ah, mas esse senhor não foi que o nos pintaram” e, portanto, as pessoas começam a acordar, e isso começa a notar-se já, na opinião pública.

Quem defende a democracia é a esquerda

Tenho defendido que nesse momento em que vivemos é a esquerda que tem que defender a democracia, e não a direita. E não é só aqui, penso isso na Europa. Porque a direita se vendeu de tal maneira aos interesses do neoliberalismo que não tem capacidade, mesmo que queira, para poder impor alguma regra ao capitalismo. Se não houver regras ao capitalismo é o capitalismo que impõe regras, situação em que nos encontramos neste momento.
A direta brasileira é golpista, quer dizer, não consigo identificar no Brasil ninguém genuinamente de direita, com uma política de direita que tenha sido contra o golpe, que tenha visto as limitações da Lava Jato e esses perigos
A esquerda, até porque perdeu realmente a vertente revolucionária, perdeu a vertente comunista, digamos assim, de uma alternativa total, hoje garante a democracia em todo o mundo. É dela que eu espero isso, acho que a direta está totalmente deslegitimada. A direta brasileira é golpista, quer dizer, não consigo identificar no Brasil ninguém genuinamente de direita, com uma política de direita que tenha sido contra o golpe, que tenha visto as limitações da Lava Jato e esses perigos. Isto é, colocados a democracia e o interesse republicano acima do interesse partidário. Não, porque é uma sociedade de extração colonial, que realmente continua com muitos vieses colonialistas, oligárquicos, em que sempre privatizaram o Estado, onde o Executivo, o Legislativo e o Judiciário praticamente não se distinguem uns dos outros.

Com o Judiciário mais autônomo do mundo, nenhum outro que eu conheço entre os grandes países do mundo tem o controle do próprio orçamento como tem o vosso Judiciário e, no entanto, acaba sendo o mais dependente do poder político. Isto é muito estranho, o candidato que vier a ganhar tem que tirar as lições do passado. Se for um candidato de esquerda tem que ter muito realismo, porque houve muita destruição nesse processo e é preciso nesse momento neutralizar algumas destas contrarreformas que foram feitas, por exemplo, o Teto de Gastos, obviamente um suicídio social, um absurdo.

Só isso vai levar muito tempo. Um governo de esquerda vai tentar em um primeiro momento minimizar os danos já causados, não vai ter nenhuma possibilidade de poder avançar com as políticas que nós podíamos ter avançado no início da primeira década do milênio, a reforma política, reforma da mídia e a reforma tributária, que era fundamental. Vai, acima de tudo, reduzir os riscos e começar a partir daí a criar condições para uma outra hegemonia, que a meu entender pode e tem que passar pela unidade da esquerda, e eventualmente, quem sabe, o surgimento de mais algum partido de esquerda. O Brasil, sendo um país com muitos movimentos sociais, não tem nenhum partido de movimentos como existe em outros países, por exemplo, na Espanha, com o Podemos. Aqui, os partidos sempre ficaram relativamente tentando ser os proprietários dos movimentos, mas os movimentos não pertencem a ninguém e, portanto, eles próprios podem sair organizados.

Esquerda confrontacional

Se for um governo de esquerda, eu mesmo apoiarei enquanto for reconhecidamente de esquerda, e não vou entrar nestas distinções se “é de esquerda” ou “é progressista” porque isso não faz muito sentido. Acho que vai ser uma política de realismo numa primeira fase, para começar a ver se há forças para atravessar esse cenário internacional de crises, no qual o mercado financeiro tem um controle como nunca havia tido antes.
O realismo não é cedência, o realismo vai ser confrontacional, porque foram muito agressivos e realmente, não vão abrir mão daquilo que já quiseram fazer
Portanto, se não se tirar dos ricos, não haverá nada para dar aos pobres. E isso pode ser o fim de qualquer expectativa nova em um governo de esquerda. Será necessário tirar dos ricos, a única maneira ou, digamos, mais simples que se pode fazer, é a via tributária. Uma política tributária nova que finalmente permita que se faça aquilo que a democracia pensava, quem tem mais paga mais, quem tem menos paga menos. Estamos em uma situação absolutamente inversa.

Mas o realismo não é cedência, o realismo vai ser confrontacional, porque foram muito agressivos e realmente, não vão abrir mão daquilo que já quiseram fazer. Até agora não conseguiram abrir mão da Previdência, que é a mãe de todas as reformas, mas conseguiram no caso do pré-sal, que já está profundamente minado. Aquilo que se puder fazer será de enfrentamento, não tenho dúvidas.

Nós criamos um momento de tão baixa intensidade de democracia que, aqui no Brasil, qualquer medida, por pequena que seja no sentido contrário, será confrontacional, não vai ser uma política de alianças. E, portanto, se um governo de esquerda pensar em alianças nesse momento, vai ser traído em um segundo momento. E não é preciso esperar por um Temer, vai ser uma coisa muito mais grotesca e mais rápida. Vão ter que aprender que não há e não vai haver uma conciliação de classes nos próximos tempos porque a direita mostrou que efetivamente isso não é um arranjo de conjuntura, ela quer continuar a ter o poder todo nas mãos, o poder político, econômico e social.

Glauco Faria
No RBA
Leia Mais ►

A batalha contra a ultradireita: o terreno da luta de classes e a dimensão cultural


As situações nacional e internacional estão marcadas pelo fortalecimento de distintas expressões da direita. Sua expressão no Brasil nos permite debater em profundidade o significado da ultradireita, e como combate-la. A polarização social crescente é uma marca que se fez presente em vários fenômenos políticos recentes.

Esse processo não é conjuntural. Trata-se de uma consequência da crise orgânica aberta em distintos países do mundo, como subproduto da combinação de distintos fatores, que englobam o processo de decadência história da hegemonia norte-americana, e os feitos da crise capitalista internacional aberta em 2008. Assim, a crise orgânica entendida de acordo com a formulação dada por Gramsci tem sido responsável pela crise de autoridade, e pela brecha cada vez maior entre representantes e representados, o que pode abrir caminho para “soluções de força e novas formas de pensar”.

Essas tendências se apresentaram com força no Brasil, e alentaram o golpe institucional de 2016, que retirou do poder Dilma Roussef. O PT, que abriu o caminho para a direita ao privilegiar os acordos com os mesmos golpistas, foi por conta disso parte ativa da abertura de espaço para a ascensão da direita. Desde então, através de um profundo bonapartismo de toga, juízes extremamente privilegiados, que não foram eleitos e não são controlados por ninguém, passaram a atuar cerceando crescentemente os direitos democráticos elementares dos trabalhadores e do povo. O mais recente ato do autoritarismo judiciário veio com a resolução do TSE de negar o direito de Lula ser candidato, justamente porque esse lidera as pesquisas de opinião com mais de 40% de intenções de voto.

Mas hoje vê-se que os efeitos das desventuras golpistas foram no mínimo contraditórios. Como produto da crise orgânica, que corroeu ao mesmo parcialmente o apelo dos partidos tradicionais e seus representantes entre as massas, o candidato à presidência do PSDB não conseguiu até o momento instalar-se como favorito. Temos ao contrário visto acumularem-se memes, essa nova forma de expressão da consciência popular trazida pelas redes sociais, que retratam e ironizam sua dificuldade em firmar-se como uma variante que realmente está concorrendo para vencer. Claro que em uma situação política como a que se apoderou do Brasil até outubro, quando o pleito deve ocorrer, o tempo equivalerá a algo muito superior aos poucos meses que nos separam das eleições, e em meio a isso grandes transformações não podem jamais ser descartadas. Porém, as tendências atuais não apontam nesse sentido.

Assim, se houve algo relevante que resultou da Lava Jato, além da proscrição de Lula e de seu fortalecimento imprevisto para os golpistas, foi a falência do PSDB como porta-voz da direita neoliberal, e a conformação de uma nova direita. Dentre a nova direita também muitas vertentes surgiram. Há os ultraliberais que sintetizam suas posições em “mais Mises menos Marx”, hayekianos, burkeanos, liberais e ultraconservadores que somam até mesmo aos outrora aparentemente sepultados historicamente monarquistas. Muito embora essas vertentes tenham se popularizado relativamente em artigos, e na voz de youtubersalgo desconhecedores dos autores aos quais se referenciam, a expressão que mais ganhou base social é a ultra-direita que evoca um discurso fascista, ferozmente anticomunista, misógino, homofóbico e racista através da figura do presidenciável Jair Bolsonaro.

Bolsonaro que ocupa o segundo lugar nas principais pesquisas de intenção de voto, foi se tornando conhecido do grande público conforme a crise orgânica caminhava para se consolidar. Em verdade seu programa econômico e político dista muito do fascismo tradicional, cujo peso do estatismo era algo relevante. Bolsonaro elegeu como futuro ministro da economia, caso eleito, Paulo Guedes, um neoliberal clássico, que poderia exercer a mesma função em um governo do PSDB. Como destacou Demetrio Magnoli:

Na transição à candidatura presidencial, sob a influência de oráculos amargurados, Bolsonaro substituiu o manto de ultranacionalista, nostálgico do estatismo militar, pela fantasia de fanático ultraliberal. A passagem de lagarta a borboleta exigiu a “intervenção civil” de Paulo Guedes, um porta-estandarte do “Estado mínimo”. O economista-guru fez a vida nas salas da academia e nos escritórios de planejamento estratégico de bancos de investimentos. Transportado desses círculos etéreos para a dimensão pragmática das políticas públicas, esclareceu involuntariamente a antiga relação que a nossa direita mantém com a doutrina liberal.

As analogias com o fascismo encarnam-se nas posições de defesa do aumento da repressão estatal, replicando o bordão do senso comum “bandido bom é bandido morto”, e sendo um entusiasta da ditadura militar. Tendo como candidato a vice-presidente o general Hamilton Mourão, Bolsonaro se apoia e dá vazão ao senso comum de que o país estaria inserido no caos, e que os militares haveriam de dar uma saída à incerta situação. Ademais, os discursos contra todos os protagonistas dos movimentos democráticos que entraram em cena com força nas últimas décadas nacional e internacionalmente, tais como as mulheres, LGBTs e negros são alvo de ataques cotidianos por parte de Bolsonaro, cuja base chega numa operação ideológica que de tão simplista termina sendo complexa, a caracterizar grandes monopólios capitalistas como a Rede Globo ou políticos capitalistas como Fernando Henrique Cardoso de “comunista”.

Essa identificação algo rara e inédita entre FHC e o comunismo deriva de uma percepção propagada por Bolsonaro e repetida pela sua base de que a questão que separaria a esquerda da direita não seria mais advinda meramente das classes sociais, mas dos posicionamentos em relação às demandas democráticas. E aqui há uma separação dentro da “nova direita” da base de Bolsonaro com os ultraliberais, que levando a ferro e fogo suas posições de garantia de “direitos individuais” defendem por exemplo a liberação do direito ao aborto.

Essa forma de expressão da direita bolsonarista poderia ser analisada de acordo com o arcabouço conceitual legado por Theodor Adorno. A obra de Adorno, um dos expoentes da “Escola de Frankfurt”, ou “teoria crítica”, integrada também por Horkheimer e Marcuse, foi uma das mais relevantes durante a década de 1950 em se apropriar de conceitos da psicanálise para explicar o fenômeno social do fascismo. Adorno elaborou sobre opotencial de certos indivíduos para desenvolver uma “personalidade autoritária”. De acordo com ele a personalidade autoritária que combinava numa mesma pessoa uma postura racional e irracional levaria à constituição de uma personalidade individualista e marcada pelo “ódio ao outro”, mas ao mesmo tempo com uma forte propensão a se submeter à autoridade. Essa personalidade seria a derivação de uma sociedade dominada pela “razão instrumental”, isto é um tipo de razão voltada para o conhecimento técnico-instrumental na qual a crítica não pode existir, e na qual a submissão social se torna um valor.

Trabalhando com a noção da dialética negativa hegeliana, e marcado por um profundo pessimismo histórico, Adorno atribuirá à busca pelo incessante avanço das forças produtivas onúcleo fundamental do abandono da possibilidade de pensar criticamente, que transforma a submissão à ordem como valor fundamental. Isso forneceria para Adorno uma explicação sobre a contradição do nazi-fascismo ter surgido justamente na Alemanha, berço da filosofia contemporânea inspiradora de Marx, que como se sabe sempre se constituiu como um dos maiores entusiastas do progresso técnico e do avanço das forças produtivas. Enquanto para Marx esse avanço é justamente o que cria as condições objetivas para a superação da escravidão assalariada, para Adorno essa busca incessante pelo progresso seria um dos elementos que colaboraram para a ascensão do fascismo, ao lado da personalidade autoritária que não poderia ser explicada apenas pelas condições socioeconômicas em que esse indivíduo encontra-se inserido.

Na introdução de seu escrito A Personalidade Autoritária, Adorno dirá:

 A preocupação maior foi com o indivíduo potencialmente fascista, aquele cuja estrutura é tal que é capaz de torná-lo particularmente suscetível à propaganda antidemocrática. Dizemos “potencial” porque nós não estudamos indivíduos que eram confessadamente fascista ou que pertenciam a conhecidas organizações fascistas(…)  Se o indivíduo potencialmente fascista existe, com o que, precisamente ele se parece ? O que faz com que haja um pensamento antidemocrático ? E se tal pessoa existe, quais têm sido os determinantes e qual o curso de seu desenvolvimento ?(…)  O fascismo precisa ter uma base de massas, a fim de ser bem sucedido como movimento político. Ele precisa se assegurar não apenas da submissão aterrorizada mas da cooperação ativa da grande maioria da população. Dado que por sua própria natureza ele favorece uns poucos às custas da maioria, ele provavelmente não pode demonstrar que vai melhorar a situação dessa última servindo a seus reais interesses. Desse modo precisar dirigir seus maiores apelos não aosinteresses racionais mas às necessidades emocionais, muitas vezes aos desejos e medos mais primitivos e irracionais. Argüindo que a propaganda fascista engana as pessoas fazendo-as crer que sua sorte vai melhorar, surge então a questão: Por que elas são tão facilmente enganadas? Podemos pensar que é por causa de sua estrutura de personalidade; por causa de modelos de esperança e aspirações, medos e ansiedades há muito tempo estabelecidos, que as predispõem a certas crenças e as tornam resistentes a outras.

Há aqui por parte de Adorno uma tentativa de criar um arquétipo de personalidade para a explicação do fenômeno do fascismo, que passaria de um modo latente para uma expressão ativa a partir do ambiente cultural que se deflagra como subproduto de determinadas situações, marcadas pela incerteza e pela crise. No caso concreto do Brasil é uma imagem que já se tornou um lugar comum: imaginamos um indivíduo frustrado, assustado com as perspectivas de futuro, algumas vezes um ex-eleitor do PT detrás de um computador revolvendo-se em posts misóginos, direitistas e clamando pelo seu direito de assassinar “vagabundos”. Tal imagem poderia perfeitamente encaixar-se nos escritos de Adorno de mais de 50 anos atrás, como um exemplar da “personalidade autoritária”.

Essa abordagem adorniana embora não seja a resposta clássica dos setores da esquerda brasileira, influi entre parte dos escritos que se dedicaram a analisar a questão do fascismo e da ultradireita. Uma delas é a coletânea A Onda Conservadora, que traz vários artigos, elaborados por distintos autores, e tem sido uma expressão utilizada para caracterizar o surgimento de uma nova direita no país. Dentre os quais encontra-se um elaborado por Álvaro Bianchi, intitulado A Guerra que estamos perdendo durante o período que seguiu-se ao golpe institucional de 2016, que coloca um aspecto particular, que queremos ressaltar. Trata-se do fundamento cultural da ultradireita, ao afirmar que:

É no terreno da cultura que as correntes tradicionalistas, conservadoras, liberais e fundamentalistas estão ganhando a guerra. O sistema de significações que organiza e dá sentido aos modos de vida existentes na sociedade adquire crescentemente características que produzem e reproduzem a heteronomia no lugar da autonomia, a sujeição no lugar da emancipação, o consumo no lugar da fruição. Ninguém expressa isso melhor do que a indústria cultural. O funk ostentação, o sertanejo universitário, os livros de Paulo Coelho e as pinturas de Romero Britto levam a mesma mensagem a diferentes públicos. (…)Expressões legítimas da cultura popular-periférica das grandes cidades convivem em tensão com manifestações orientadas em um sentido inverso.

Uma das questões que se colocam frente a tais interpretações do surgimento da ultradireita é o problema de que a personalidade autoritária seria um arquétipo que ilustra bem o fenômeno atual da base de Bolsonaro, e dele próprio. Mas essa personalidade não pode ser apreendida por fora de seu pertencimento a uma determinada classe social.Além disso, achave da questão reside na concatenação entre os terrenos de batalha a ser travado contra o fortalecimento nas dimensões ideológicas ou“culturais”, como chama Alvaro Bianchi, com uma resposta da classe trabalhadora para a crise social, econômica e política. Não se pode entender que seria possível ganhar a “guerra”, que na visão de Bianchi estaria sendo perdida, por fora de uma clara resposta anticapitalista e dos trabalhadores. A própria noção de que a ultradireita estaria ganhando a guerra, sem que os combates determinantes tenham sido sequer travados, é no mínimo equivocada, sobretudo quando hoje o cenário se marca pela disposição de 40% dos brasileiros em votar num candidato proscrito, motivados pelo anseio ao retorno das condições de crescimento gradualistas, e portanto reformistas, apontam outro cenário.

Portanto, ainda que as dimensões analíticas adornianas, ou os aspectos culturais, possam indicar elementos interessantes para a reflexão sobre a ultradireita e o fascismo, as abordagens que trataram esse fenômeno como um produto da subjetividade em especial da pequena burguesia arruinada em meio à crise, e como uma derivação da luta de classes segue sendo imprescindível. Dentre essas interpretações a de Trotsky continua sendo fundamental. Analisando o avanço do bonapartismo na França em 1936, Trotsky fornece uma leitura profunda a respeito desses aspectos, não apenas para explicar o surgimento do fascismo, mas para combate-lo. A ascensão do fascismo é para Trotsky o produto de uma intensa crise econômica e social, como a que devastou a Alemanha nos anos 20 e 30, que desmoraliza e desestabiliza as classes médias, a pequena-burguesia. Quando isso acontece, e a pequena-burguesia se empobrece e se desespera, essa classe passa a buscar uma solução imediata e de força. Abre mão da defesa da democracia como “valor universal” e se divide. Se há um partido marxista revolucionário os trabalhadores podem ganhar parte da pequena burguesia. Mas se não há, o caminho fica livre para que o grande capital financeiro instrumentalize a pequena-burguesia para os seus próprios fins, que é salvar o capitalismo a todo custo. Assim, o capital financeiro em forma reacionária lança a pequena-burguesia arruinada contra as organizações operárias, para assim instituir a sua dominação. Trata-se da resposta contrarrevolucionária (posterior ou preventiva) frente a revolução proletária e expressavam um ataque em toda a linha contra o movimento operário e suas organizações. Ou em outras palavras como diz o próprio Trotsky o partido nazifascista é o partido da desesperança contrarrevolucionária.

Os especialistas do Parlamento, que acreditam conhecer o povo, gostam de repetir: “Não se deve assustar as classes médias com a revolução; elas não gostam de extremos.” Generalizada desta forma, a afirmação é absolutamente falsa. Naturalmente, o pequeno proprietário tende à ordem, enquanto seus negócios marcham bem e enquanto tem a esperança de que marchem ainda melhor. Porém, quando perde essa esperança, é facilmente atacado pela raiva e se dispõe a abandonar-se a medidas mais extremas. Do contrário, como teria podido derrotar o Estado democrático e conduzir o fascismo ao poder na Itália e na Alemanha? Os pequenos burgueses desesperados vêem no fascismo, antes de tudo, uma força que combate o grande capital, e acreditam que, diferentemente dos partidos operários, que trabalham somente com a língua, o fascismo utilizará os punhos para impor mais “justiça”.

A isso Trotsky seguia com uma definição extremamente atual, de que se a classe trabalhadora demonstrar a mesma resolução em responder à crise econômica, política e social, se seu partido for capaz de convencer as grandes massas de classe média arruinadas, estas estarão dispostas a segui-lo. Não se pode, decerto, comparar a situação brasileira atual àquelas em que essa disjuntiva se deu, como na própria Alemanha nos anos 1930, com a perda dessa possibilidade por parte do PC, ou à situação russa, na qual a existência de uma direção marxista revolucionária que soube traduzir os mais concretos anseios de todos os setores que sofriam as mazelas da guerra em palavras de ordem claras tornando possível o maior triunfo histórico da classe trabalhadora internacional. E não houve hoje em nosso país quaisquer ataques às organizações operárias, como os sindicatos, tentando destruí-los inclusive fisicamente como ocorreu frequentemente durante o auge do nazi-fascismo nos anos 30 do século passado.Mas mesmo em momentos como o atual em que nosso país está imerso, as lições e a leitura da psicologia das massas elaborada por Trotsky traduz com grande exatidão e vigência a percepção de que a consciência em momentos convulsivos se transforma aos saltos, não sendo algo estagnado, ou meramente disputável no terreno cultural. Mas na luta de classes.

Simone Ishibashi
No Ideias de Esquerda
Leia Mais ►

No Brasil sem lei, Direita vai com tudo pra destruir Haddad

tribuninho inferior eleitoral rasgou a Ficha Limpa


O Conversa Afiada reproduz sereno (como sempre) artigo de seu colUnista exclusivo, Joaquim Xavier:

A decisão do tribuninho inferior eleitoral (tse), ao tentar barrar Lula, segue o script traçado desde o mensalão.

ONU, juristas nacionais e internacionais, jurisprudências, Constituição, lei da ficha limpa – que nada. Voltamos a ser capitania hereditária.

Cada um manda no seu quadrado. E desde o golpe de 2016, o Brasil funciona como propriedade privada dos gângsters que se aboletaram no Jaburu, no Planalto e no Judiciário.

A situação atual é transparente como uma vidraça. Não há mais três poderes.

O congressinho já deu as costas a qualquer coisa séria – e não é de hoje. O rebanho de parlamentares está negociando trocados no fundo eleitoral para presentear suas bases com vales refeição e cestas básicas. O Executivo resume-se a um morto-vivo, sobre o qual a compaixão recomenda não se estender muito. Não passa de um batedor de carimbos enviados diretamente pelo capital internacional. Chamá-lo de crápula seria ofender a categoria.

Temos então a democracia jabuticabal brasileira.

Mais de 100 milhões de pessoas votaram nas últimas eleições.

Mas o que temos hoje? Onze personagens que jamais foram eleitos por ninguém mandam no país.

Gente da estirpe de Gilmar Mendes, Carmen Lúcia, Luiz Fux, Rosa Weber, Barroso, Alexandre de Moraes (??!!) são ao mesmo tempo Executivo, Legislativo, Judiciário e mais: se auto-concederam o poder de Assembleia Constituinte. Jogaram a Carta de 1988 no lixo e criam leis ao bel-prazer—desde que contra Lula e forças progressistas.

Para não se estender em exemplos: além de a Carta de 1988 assegurar a liberdade de qualquer brasileiro até o trânsito em julgado, direito pisoteado pelo supreminho, a própria lei da ficha limpa assegura aos acusados e mesmo condenados todos os direitos políticos enquanto o processo estiver sub-judice – ou seja, enquanto houver a possibilidade de recursos.

A quem se interessar pela verdade, basta ler o artigo 26 da referida lei. O ex-presidente Lula está nesta situação. Pode recorrer ao próprio tse, stjJ e stf. Mas o que fez o tribuninho inferior eleitoral? Rasgou a própria ficha limpa para tirar Lula do páreo.

Vamos combinar: dá pra chamar isto de tribunal?

Desgraçadamente para os golpistas, mas para o bem do Brasil, a candidatura Lula cresce a cada demonstração de injustiça, truculência e ilegalidade. Já do outro lado assiste-se a um duelo de anões políticos, tipo MMA, todos incapazes de romper a barreira de um dígito. Aquele que conseguiu a proeza e pretende oficializar o esquadrão da morte, este não tem futuro. Podem escrever e me cobrar depois.

A conclusão: cuide-se, Fernando Haddad.

Todas as baterias a partir de agora vão se voltar contra você. Inclusive entre aliados de ocasião. Será uma casca de banana atrás da outra. Sabe-se que há gente mesmo dentro de sua aliança torcendo contra. Não passam de intelectuais sem intelecto. O alvo principal, imediato e indispensável é derrubar os golpistas com base num programa que restitua a soberania nacional e derrube uma por uma as medidas antipovo decretadas por Temer e sua turma de bandidos. Depois, reconstruir o Brasil com base numa Constituinte de verdade, livre e soberana.

Uma coisa de cada vez. Até o bom senso manda começar pelo mais importante.

Joaquim Xavier
Leia Mais ►

Conversas com José Dirceu


Hoje entrevistei José Dirceu para a TV GGN. Em breve a entrevista, gravada, será colocada.

Mas há algumas informações curiosas passadas por ele, algumas que constam da entrevista, outras nas conversas posteriores.

O caso Visanet

A mais surpreendente é que os advogados dos acusados do “mensalão” só se deram conta de que não havia desvios da Visanet – ponto central da denúncia da Procuradoria Geral da República – depois que o Ministro Ricardo Lewandowski derrubou o sigilo de um dos inquéritos da Polícia Federal, que investigara o caso. Até então, Joaquim Barbosa o mantivera sob estrito sigilo.

O extraordinário dessa história é que inúmeras vezes denunciamos o caso, não com base no inquérito da PF, mas da simples conversa com diretores do Banco do Brasil – que, saliente-se, detestavam Piziolatto, o diretor de marketing colocado pelo PT, mesmo contra a opinião de Luiz Gushiken.

Para abater do imposto a pagar, a Visanet teria que comprovar que as despesas foram efetuadas. Contratou, então, o escritório Pinheiro Neto para uma auditoria que comprovou o uso integral dos R$ 75 milhões em ações de divulgação da marca.

A “vaquinha” do PT e Gilmar

Outra informação é sobre o período em que o garantista Gilmar Mendes era o Ministro que mais denúncias levantava contra o PT. O “mensalão” impôs multas elevadas a José Dirceu e Delúbio Soares. Foi feita uma vaquinha virtual. Sem ter uma prova sequer, Gilmar denunciou que a vaquinha era estratagema para lavagem de dinheiro. A Polícia Federal foi colocada no encalço das pessoas que colaboraram.

Chegaram até uma senhora que depositara R$ 40 mil para Delúbio. Foi intimada a depor. Ela mostrou comprovação de renda, mas a PF insistia em saber a motivação da contribuição. E a senhora esclareceu:

- Ele é casado com minha filha.

Outro advogado, de Belém do Pará, professor de direito de diversos delegados da PF, também foi intimado a justificar uma contribuição a José Dirceu, para constrangimento dos seus ex-alunos.

A lembrança é importante para mostrar que o processo de criação do clima de desestabilização política foi longo, e com contribuição decisiva de Gilmar Mendes – hoje em dia, o mais corajoso dos Ministros contra o estado de exceção.

Luís Nassif
No GGN
Leia Mais ►

Morrer de véspera

http://www.jb.com.br/colunistas/coisas_da_politica/2018/08/2544-morrer-de-vespera.html
“Pressões enormes” atuaram, entre a noite de quinta-feira e a tarde de ontem, para que o TSE antecipasse o julgamento dos pedidos de impugnação da candidatura do ex-presidente Lula, barrando, por tabela, seu acesso ao horário eleitoral de hoje. Com a degola antecipada de Lula, antes dos cinco dias de prazo para as alegações finais dos impugnantes, o TSE atingiu em cheio a estratégia eleitoral petista da transferência de votos, ao impedir a aparição de Lula no programa eleitoral de hoje. Essa foi a razão da pressa e das pressões.

Na noite de quinta, o tribunal chegou a divulgar uma pauta para a sessão de ontem, que não continha qualquer matéria relacionada a Lula. Ontem a presidente da corte, Rosa Weber, atendeu aos apelos do relator, ministro Roberto Barroso, para incluir as impugnações na pauta. A candidatura de Lula seria impugnado mais cedo ou mais tarde, mas o TSE aceitou o risco de desgastar-se, atropelando a lei e os prazos, para impedir que ele falasse como candidato, hoje, no rádio e na TV. Seriam aparições provisórias, mas poderiam ser fortemente indutoras de voto no substituto. A decisão antecipada pode aumentar as desconfianças internas e externas sobre o Judiciário brasileiro e também fortalecer a narrativa do Lula perseguido, favorecendo o novo candidato do PT.

De pressões falavam até os corredores do TSE antes do início do julgamento. Quem garantiu que fossem atendidas foi Barroso, ao convencer Rosa a incluir o caso na pauta, de última hora. Dificilmente os ministros terão tido tempo para ler a defesa de 200 páginas, apresentada pelos advogados de Lula perto da meia noite de quinta-feira. Rosa baixou os olhos quando um deles, Luiz Fernando Pereira, recordou o que ela disse ao refugar, há algumas semanas, o pedido de impugnação antecipada do MBL: “Vamos observar os ritos e os prazos. O direito tem seu tempo”. Ontem ela mudou de ideia.

Dois alvos

A lei sempre garantiu aos candidatos sub judice o acesso ao horário eleitoral e o direito de praticar atos de campanha enquanto o tribunal não decidisse sobre suas candidaturas. Barrar previamente o acesso de Lula à TV seria, portanto, uma ilegalidade e um casuísmo gritantes demais. O jeito foi antecipar o julgamento da própria inelegibilidade, queimando o prazo que ainda havia pela frente.

A defesa fez sustentações brilhantes porém inúteis. Barroso foi um verdugo frio e preciso. Sapateou sobre a determinação do Comitê de Direitos Humanos da ONU, negando-lhe o efeito vinculante. E desculpou-se, antes de enfiar a faca e torcer: não se movia por razões pessoais, políticas ou ideológicas. Pensava nas instituições, na Constituição e na democracia. Queria garantir que o eleitorado conhecesse logo o quadro definitivo de candidatos e não via razões para aguardar mais cinco dias para apresentar seu voto. A decisão devia acontecer antes do início do horário eleitoral, para evitar a situação em que “no meio do caminho haja uma substituição”.

Exatamente a situação desejada pelo PT. Com esta ultima frase, Barroso explicitou cristalinamente que tinha um duplo alvo: antecipar a degola de Lula e também impedir que o PT tirasse proveito de seu favoritismo em favor do candidato substituto.

Surpreendente foi o voto do ministro Luiz Fachin, ao votar pelo acolhimento da recomendação do comitê da ONU, até que Lula tenha esgotados os recursos contra sua condenação penal. Se houver recurso ao STF, haverá lá outros ministros que pensam como ele? Mas depois dele, votaram com o relator os ministros Jorge Mussi, Og Fernandes e Admar Gonzaga, perfazendo a maioria de 4 a 1, a favor da impugnação.

O PT agora terá que reajustar sua estratégia. Nada será decidido antes da reunião que Haddad e outros terão com Lula na segunda-feira. A transferência de votos talvez ocorra do mesmo modo. Talvez seja mais complicado agora executá-la. Já a sessão de ontem do TSE ficará na história como um rasgado exercício do casuísmo eleitoral.
Leia Mais ►

O tribunal da inquisição do jornal nacional


Leia Mais ►