25 de ago. de 2018

Se alguém te mandar um arquivo ‘.exe’ do Bolsonaro, não abra

Ilustração: João Brizzi
Entramos no grupo público de WhatsApp Resenha Política em julho para uma experiência antropológica: acompanhar as 256 pessoas que lá passam o dia tratando de política e segurança pública e também compartilhando algumas fake news. O grupo é quente e as conversas rendem tipo 2,5 mil mensagens por dia (!). No entanto, os debates apaixonados acontecem mesmo quando os integrantes falam de seu principal assunto: Jair Bolsonaro. “É contra o aborto, é contra o kit gay nas escolas, é contra a ideologia de gênero. É por isso e muito mais que eu voto e faço campanha de graça para Jair Messias Bolsonaro”, disse um participante, elencando seus motivos.

Os aficcionados do Resenha Política foram os escolhidos para receber em primeira mão o anúncio do lançamento do Bolsocop, um programa de computador que não poderia ser mais descarado: ele transforma os usuários que instalam o arquivo .exe em robôs de spam, que compartilham automaticamente no Facebook publicações da campanha do deputado.

O Bolsocop nada mais é do que uma espécie de browser com as cores da bandeira nacional (lógico) que serve basicamente para abrir o Facebook. O usuário deve entrar com login e senha pessoal. Instalado e logado no rede, o aplicativo começa a postar automaticamente conteúdos dos perfis oficiais do Bolsonaro em todos os grupos ao qual o usuário tem acesso e também em sua timeline. A pessoa vira um replicador zumbi de conteúdos, dando impressão que, publicamente, os assuntos são mais relevantes do que de fato são.

O objetivo do Bolsocop – que parece uma alusão ao Robocop, o policial humanóide –, segundo seu anúncio oficial, é criar um “exército de robôs” para combater as fake news relacionadas ao candidato. E ainda torce: “Imagine quantos milhões de pessoas podemos alcançar por dia? Podemos eleger Bolsonaro no primeiro turno”. Acontece que o Bolsocop viola a Lei das Eleições, que proíbe o uso de perfis falsos e robôs nas redes sociais para fazer propaganda eleitoral.

A mensagem enviada ao Resenha Política não trazia informações sobre os responsáveis pelo programa, apenas um link para download. O arquivo tipo .exe é daqueles que podem, literalmente, fazer qualquer coisa com o computador da pessoa que o baixar – de espionar a câmera a roubar senhas de banco, por exemplo.

‘Sou um robô do Bolsonaro’

Fomos atrás dos responsáveis e descobrimos que o aplicativo foi desenvolvido por um site chamado JF Startup Studio, uma empresa de Ji-Paraná, em Rondônia, que promete desenvolver softwares que ajudam no desempenho de vendas ou anúncios, com produtos que enviam mensagens de WhatsApp ilimitado, aumentam seguidores e curtidas no Instagram. No site, o texto marqueteiro diz que a empresa é capaz de transformar “o seu computador em uma verdadeira máquina de vendas!”.

Ligamos para o número de telefone publicado no site. Quem nos atendeu foi Jonatas Freira da Silva, sócio da empresa. Ele diz que a iniciativa não tem vínculo formal com o candidato. “Nós desenvolvemos o programa voluntariamente para combater notícias falsas que muitos usuários do próprio Facebook espalham a respeito do Bolsonaro.”

Silva contou que irá votar (claro) em Bolsonaro e que cerca de 40 pessoas já estão usando o programa ativamente. Perguntamos se ele não acha que é um número pequeno de downloads. “Por enquanto só divulgamos o app em um grupo de amigos e fizemos alguns comentários em posts no perfil oficial do Bolsonaro convidando os apoiadores a baixar”, explicou.

Segundo Silva, uma versão mais elaborada do software seria lançada na terça-feira passada. Pouco antes da publicação da reportagem, questionamos em outro grupo de WhatsApp, o ‘BolsoCop – Somos robôs’, criado para tirar dúvidas sobre o aplicativo, sobre o lançamento da versão. Imediatamente fomos removidos do grupo pelo administrador, que disse aos demais: “Ele é jornalista de esquerda”.

Trapaças digitais

De acordo com o cientista político Sérgio Amadeu, professor da Universidade Federal do ABC e especialista em inclusão digital, o Bolsocop só está no ar porque a Justiça Eleitoral se preocupa apenas com a página online dos candidatos e dos partidos, deixando de lado os seguidores. É um flanco enorme: um outro app relacionado a Bolsonaro, que teve 10 mil downloads e também foi lançado por pessoas que se diziam “fãs” do candidato, estava espionando celulares.

“Todo mundo sabe que a campanha política na internet é minoritariamente feita pelo comitê oficial dos candidatos. Ela é realizada pelos apoiadores, muitas vezes pagos pelos candidatos, que agora estão utilizando robôs e replicadores automáticos”, explicou.

A replicação de conteúdo não é uma novidade. O MBL foi um dos que se beneficiou desse tipo de trapaça. Em março, o grupo criou um aplicativo que compartilhava seu conteúdo de forma automática na timeline dos usuários como se fossem eles próprios.
Facebook não permite ‘comportamento inautêntico coordenado’, mas aplicativos do tipo seguem funcionando.
Segundo Francisco Brito Cruz, diretor do InternetLab e autor de “Direito Eleitoral na Era Digital”, esse tipo de programa pode ser alvo de investigação na Justiça Eleitoral uma vez que serve para espalhar propaganda eleitoral.

O Facebook também faz sua própria cruzada para remover “comportamento inautêntico”, como define. Recentemente, a rede social informou que tirou do ar 72 grupos, 50 contas e cinco páginas no Brasil que violaram suas políticas de autenticidade e spam, por encorajar e permitir a obtenção de seguidores e curtidas, e até a troca de páginas, com o objetivo de ampliar o engajamento em busca de ganho financeiro. “Nós não permitimos um comportamento inautêntico coordenado”, disse o Facebook em uma nota. O Bolsocop, no entanto, segue operando.

Ilegais e coordenados

Bolsonaro conhece bem essa lógica da campanha. Com apenas nove segundos na televisão, o candidato aposta na internet – sobretudo no zapzap – para propagandear suas propostas. Como se apoia em uma ideia antimídia, vende a ilusão de que só o que seus canais oficiais propagandeiam é confiável para seu público. E seus eleitores compram a ideia, baixando aplicativos duvidosos – e ilegais – para fazer a campanha do candidato.

Dessa forma, os eleitores se expõem aos perigos de uma instalação, ressalta Erin Pinheiro, programadora do LabHacker. “Se o bot [robô] consegue controlar suas postagens em mídias sociais, com certeza, é o equivalente a um malware [softwares maliciosos que tentam infectar um computador ou dispositivo móvel]”.

A campanha de Bolsonaro informou, por telefone, que não têm envolvimento com os aplicativos.

Gabrielly Oliveira, João de Mari, Camila da Silva
No The Intercept
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Violência e paixão: o apelo homoerótico do culto a Bolsonaro

Bolsonaro em comício: só rapazes
Algumas coisas chamam a atenção na legião de seguidores de Jair Bolsonaro.

A primeira, óbvia, é o fanatismo. Bolsomito, como eles chamam, é incorruptível, infalível, inteligente, a encarnação do Profeta.

A segunda é a truculência. Eles gostam de porrada, de testosterona, eles atropelam o que vêem pela frente, especialmente se as vítimas forem mais fracas.

A terceira, e esta é a mais interessante, é que são todos homens. Não propriamente homens — meninos. Há raríssimas fãs do sexo feminino.

Os rapazes idolatram o jeito de ele falar, a boca torta num esgar que fica mais estranho quando está nervoso, o jeito de ele andar, o jeito de ele ser.

Bolsonaro gosta de ficar entre esses machos e os machos gostam de ficar com Bolsonaro.

A cada artigo sobre ele no DCM, essa garotada aparece aos magotes, revoltadíssima com qualquer coisa que conspurque a imagem de seu ídolo, um sujeito imaculado de alma e corpo.

Ele é um pop star do extremismo político, o homem dos sonhos para eles.

“Eu amo ele, sim!”, escreveu um bolsominion em resposta a um artigo.

Bolsonaro exerce um intenso apelo homoerótico sobre seu eleitorado. É o fascínio homossexual do fascismo, disfarçado sob a homofobia.

Os jihadistas de JB gostam de ficar entre si, de se amassar nos eventos do mito. Eles suam e se roçam e gritam em louvor ao chefe.

Dispensam namoradas e esposas. Parte é misoginia, mas outra parte enorme é vontade mesmo de estar apenas entre homens exaltados.

Após a Segunda Guerra, a parafernália nazifascista foi adotada por praticantes do sado masoquismo.

Artistas embarcaram nisso. David Bowie, em sua fase gay no início dos anos 70, chegou a colecionar uniformes de oficiais da SS e foi preso na Polônia com eles.

Os membros da Escola de Frankfurt descreveram um “tipo de personalidade homossexual” entre os nazifascistas. As tendências de submissão masoquistas desse tipo o tornaram vulnerável ao apelo sedutor da causa.

Na Alemanha de Hitler, uma elite de homens firmemente unidos, aduladores de um deus de bigode esquisito, era a condição necessária para uma nação forte, pura, honesta e viril.

Segundo a professora Elizabeth D. Heineman, era o “Mannerbund” — que pode ser traduzido como “coletivo do sexo masculino” —, a união de homens disciplinados física e mentalmente, sem distrações femininas, transformando seus laços profundos uns com os outros e com seu líder em potência.

O eventual sexo entre eles era considerado um vínculo a mais.

É evidente que não há problema algum no homoerotismo dos bolsonaristas. Ninguém tem nada a ver com isso. A questão é a histeria homofóbica deles e como esse caldo é transformado em virulência, intolerância e apologia à tortura.

Bolsonaro, seus mancebos e o país que querem salvar só têm a ganhar quando se aceitarem como são.

Kiko Nogueira
No DCM
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A eleição presidencial entre a denúncia da fraude e o desespero

A eleição presidencial entre a denúncia da fraude e o desespero
Um expressa a esperança. O outro, o medo
A atual eleição é incompreensível sem o golpe de 2016. Lembremos que as disputas municipais de 2016, sob a ação do conluio entre a mídia venal e a Lava Jato, dizimaram o PT e fizeram o PSDB renascer das cinzas.

O quadro político hoje é completamente diferente. Lula tem quase 40% dos votos válidos e Bolsonaro quase 20%. O candidato diretamente golpista mais bem colocado, Geraldo Alckmin, tem menos de 5% das intenções de voto.

Embora não tenha havido nem aprendizado coletivo real nem debate público articulado, o povo não é imbecil. O cheiro é de coisa podre e todos o sentem. A grande dificuldade do conluio golpista comandado pela mídia venal e pela “casta jurídica” do Estado, ansiosa por mesquinhos dividendos corporativos de curto prazo, é o fato de serem lacaios de um capitalismo rentista não só improdutivo como abertamente fraudulento e destrutivo.

O País é literalmente assaltado pela pirataria rentista e o povo empobrece a olhos vistos. Este é o real pano de fundo das eleições.

Lula cresce a cada dia posto que é a memória viva de quando as coisas eram diferentes e melhores. Ainda que não tenha havido uma reconstrução coletiva consciente dos motivos inconfessáveis do golpe, essa lembrança basta como esperança para muita gente.

Preso, seu prestígio só aumenta, pois seu ordálio é concomitante e tem o condão de representar o sofrimento da imensa maioria da população. Ele é, portanto, o “profeta exemplar” do crime cometido contra todo o povo brasileiro. Isso é algo que os pigmeus intelectuais da “casta jurídica”, que comanda a estratégia golpista na dimensão conjuntural e concreta, têm enorme dificuldade de compreender.

Exceto a eficiente rapina de todos os ativos importantes do País, articulada de fora para dentro, a estratégia interna dos pigmeus jurídicos e midiáticos é burra e, por conta disso, obviamente ineficiente.

A condenação pela ONU da perseguição política a Lula só faz agravar o processo. A “casta jurídica” golpista, embora não confesse, foi atingida no coração e posta na defensiva. O “ônus da prova” foi simplesmente invertido. O Brasil tende a perder qualquer credibilidade e respeitabilidade internacional, cujo reflexo interno, ainda mais em um país “vira-lata” que idealiza as “culturas superiores”, não é pequeno.

Como a “casta jurídica” não vai ficar mais inteligente de um dia para o outro, o preço no médio prazo será altíssimo em termos de perda de respeitabilidade institucional das corporações jurídicas.

Bolsonaro monopoliza o voto não da esperança, como Lula, mas do protesto desesperado. Qualquer idiota percebe que a corrupção, tanto a ilegal quanto a legalizada pela captura do Estado pelo sistema financeiro, só fez aumentar. O contexto social, ademais, é marcado pelo cinismo e pela hipocrisia diária da mídia tradicional, do Ministério Público e do STF, assim como das demais instâncias da “casta jurídica”.

Bolsonaro é a reação de quem se sentiu enganado pelos justiceiros que prometeram “limpar” o Brasil e entregaram o galinheiro às raposas. É o pessoal que percebe a “crise moral” como a verdadeira crise do País. Para eles, Bolsonaro é a honestidade rebelde e enraivecida como a deles mesmos.

O medo da proletarização de amplos setores da baixa classe média e da marginalização de setores da classe trabalhadora é, deste modo, moralizada e expressa de modo distorcido na figura do arauto da tortura e da violência aberta.

Pessoalmente, posso estar enganado, não acredito que ninguém ligado ao golpe, ainda que com todos os minutos de tevê do mundo e todo o apoio da mídia desacreditada, consiga chegar ao segundo turno. São os perdedores do golpe e da consequente rapina que irão decidir as eleições de 2018.

A hipócrita Lava Jato não tem mais nada na cartola – aliás, nunca teve além da criminalização de Lula e das classes populares que ele representa - e a elite não tem mais qualquer discurso crível e convincente, além do hoje crescentemente desacreditado moralismo de fachada.

A elite brasileira, sem este moralismo de fachada inventado depois, é exatamente a mesma da República Velha.

O essencial da República Velha era seu combate e seu medo da participação popular. Nenhuma eleição teve mais de 5% da população votante. Além, é claro, de seu interesse em se apropriar do Estado como seu “banco particular”.

É apenas o Estado para maioria da população que é combatido, não o Estado como butim para o saque e rapina da elite de proprietários por meio de juros escorchantes, isenções fiscais ou ataque direto ao orçamento público via dívida pública fraudulenta e nunca auditada e que possui ramificações em todos os níveis da administração pública.

À dita esquerda cabe a responsabilidade da denúncia corajosa dessa gigantesca fraude como forma de alimentar a esperança, de modo a possibilitar que esta vença o desespero da raiva e do medo.

Jessé Souza
No CartaCapital
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Lula e PT na cabeça

A próxima eleição engatilha uma desagradável surpresa para os golpistas. Será que já entenderam e se conformam?

Jair Bolsonaro é uma surpresa que emergiu para o cenário eleitoral com alguma consistência e pouca inteligência
Soam como alerta aos leitores reacionários as chamadas de primeira página de alguns jornais e de certas revistas que cruzam o Brasil de Norte a Sul. Tentam estimular uma espécie de chamamento às urnas com a aproximação das eleições. Por isso, estão diante de uma inescapável vitória do Partido dos Trabalhadores. Seja pelo retorno de Lula, seja pela chegada ao poder de Fernando Haddad, ex-prefeito paulistano.

Insuportável. Odiento. Esbravejam sem ter, no entanto, a possibilidade de mover uma ação para além das regras do jogo. Contra Lula ou Haddad resta somente o confronto das urnas. Fora isso só mesmo uma desagradável surpresa. Que assim seja. O esforço para mudar regras precisará ser grande, como indicam números recentes, divulgados simultaneamente por três institutos de pesquisas. Lula está bem perto da vitória. Mas permanece encarcerado.

A intenção de voto para o ex-presidente subiu, até agora, de 30% para 33% e, em seguida, para 39%. Um pouco mais e a vitória dele pode ser em turno único? A eleição será disputada por 13 candidatos. Levando a sério, há cinco nomes na disputa. São eles: Lula ou Haddad, Bolsonaro, Marina, Ciro Gomes e, com boa vontade, Geraldo Alckmin.

Jair Bolsonaro é uma surpresa que emergiu para o cenário eleitoral com alguma consistência e pouca inteligência. Esta, no futuro, é uma história que terá de ser explicada.

O perfil do capitão é de militante de ultradireita. Ele não adotou essa posição agora. E nem se importa com isto. Muito menos saberia dizer que bicho é esse! Não basta apenas puxar o revólver.

Bolsonaro deixou o Exército quase enxotado. Foi acusado de comandar uma ação contra as bancas que vendiam o jornal O Pasquim, no Rio de Janeiro. Faltaram as provas, no entanto. Desacreditado como candidato à Presidência, ganhou credibilidade na medida em que os reacionários se amontoaram para a disputa da qual Lula não participaria. Voracidade política fracassada, pode-se dizer.

Alguém, neste período, associou Bolsonaro a Carlos Lacerda. Ressalvada a ignorância de Bolsonaro, as contas entre os dois não podem ser acertadas. Intelectual conservador agressivo, Lacerda, expressão da UDN, um partido golpista, foi o principal responsável pelo fim de Getúlio Vargas. Mas parou por aí. 

Bolsonaro não é da mesma personalidade. No fundo, está mais para cabo Daciolo do que para general Mourão. Este, nada mais nada menos do que o vice de Bolsonaro na disputa pela Presidência.

Maurício Dias
No CartaCapital
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Ficha que cai

http://www.jb.com.br/colunistas/coisas_da_politica/2018/08/607-ficha-que-cai.html

Esta foi a semana em que o bloco político-econômico vitorioso em 2016 com a deposição de Dilma Rousseff deu-se conta de que, se nada for feito, apesar de tudo o que fizeram, o PT vai ganhar a eleição com Fernando Haddad. Chame você como quiser a estas forças, é fato que elas hoje têm dois candidatos mas não têm nenhum. Geraldo Alckmin continua empacado apesar do apoio do Centrão. E Bolsonaro, que alguns empresários até já abraçaram como último recurso, chega ao segundo turno mas, dizem as pesquisas, perde para qualquer adversário.

E o que pode ser feito? A solução óbvia seria turbinar um terceiro nome que, superando Bolsonaro, chegaria ao segundo turno para enfrentar Haddad, no pressuposto de que ele terá vaga garantida pelo combustível que receberá de Lula. E o nome mais indicado seria o de Marina Silva, que habita hoje uma terra do meio ideológica: adotou posições liberais em economia mas é progressista em áreas temáticas e tem compromissos sociais. Ela é a candidata que mais cresce na ausência de Lula, dobrando de tamanho quando ele é tirado do páreo. Chega a 16%, contra 10% de Ciro Gomes (que também dobra o índice mas parte de base inferior). Está isolada no segundo lugar em cenários sem Lula.

Mas isso é hoje, antes da confirmação oficial do ex-prefeito como substituto de Lula. Muitos analistas acham que, quando isso acontecer, Marina e também Ciro sofrerão um significativo esvaziamento.

Tucano sem asas

Geraldo Alckmin ganhou oxigênio com a adesão do Centrão mas enfrenta novas adversidades em seu próprio campo. A mercadoria que o Centrão lhe vendeu foi o tempo de televisão, que lhe dará enorme vantagem sobre os outros. Quando ela começar a ser utilizada, o crescimento virá, ele vive prometendo. Enquanto isso não acontece, Alckmin começa a enfrentar uma espécie de cristianização, não pelo próprio partido (embora haja tucanos indóceis por aí) mas pelos aliados. O presidente do PP, Ciro Nogueira, desfila na caravana petista no Piauí, e o líder do PR, José Rocha, faz o mesmo na Bahia. Em Minas, onde o tucano precisa crescer muito para compensar os votos perdidos para Bolsonaro em São Paulo, os aliados estão fazendo as próprias campanhas, mas não suam a camisa pelo tucano, que até agora não conseguiu voar.

Candidato armário

Se, alguns dias depois do início do horário eleitoral, Alckmin não pegar impulso, pode ser apenas deixado na estrada. Mais complicado, para o establishment, é lidar com Bolsonaro. Ele tem eleitorado cativo, na casa dos 20%. Ao contrário do previsto, não desidratou, mas parece ter batido no teto. Como adotar um candidato que, embora chegue ao segundo turno, pode perder para o petista ou para qualquer um? É diferente de Collor, que o sistema abraçou em 1989, embora preferisse Mario Covas. Ali estavam claros os sinais de que o alagoano poderia bater Lula ou Brizola no segundo turno. Deu Lula e ele ganhou.

Uma solução seria a remoção de Bolsonaro através de alguma feitiçaria jurídica. Isso abriria terreno para Marina. Devemos, pois, prestar atenção às pendengas dele com a Justiça. Esta semana o ministro Marco Aurélio deu aquele aviso, de que candidato que é réu pode ganhar, mas talvez não tome posse. Para ser coerente, o STF teria mesmo que impedir a posse de qualquer réu. Em 2016, tentou tirar Renan Calheiros da presidência do Senado porque se tornara réu. O Senado reagiu e o STF recuou, expropriando Renan apenas da condição de segundo substituto de Temer. Não está escrito em lugar algum que réu não pode se sentar naquela cadeira mas isso se tornou secundário. A palavra do STF hoje tudo rege. Na terça-feira, Bolsonaro deve tornar-se réu em ação penal. Mas pode ser outra a feitiçaria jurídica. O sistema é criativo.

A que veio a OEA?

Pela primeira vez a OEA terá uma missão acompanhando a eleição brasileira. Está certo que esta é uma eleição atípica mas a iniciativa deixa muita gente com pulga na orelha. O Brasil caiu mesmo na boca do povo. Quer dizer, do mundo.
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Doria já perdeu a eleição para o governo de SP

https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2018/08/25/doria-ja-perdeu-a-eleicao-para-o-governo-de-sp/

Sua estratégia de ficar atacando o PT e Lula enquanto exalta a eficiência tucana e sua honestidade de gestor moderno não ficam mais em pé.


A Rede TV realizou ontem o segundo debate entre os candidatos ao governo de São Paulo. Para uma sexta das 22h às 24h não foi assim um programa tão emocionante, mas valeu a pena pelo resultado. Ao final, uma avaliação clara e límpida corria pelos 30 anos de jornalismo do blogueiro. Será uma imensa zebra a vitória de Doria ao governo. Ele já teve seu discurso e estratégias derrotados pela conjuntura e parece um boneco de playmobil repetindo frases que decorou em 2016.

Doria se tornou uma caricatura de si mesmo e ontem só não perdeu mais votos porque eram poucos os heróis da resistência que assistiram ao debate.

Sua estratégia de ficar atacando o PT e Lula enquanto exalta a eficiência tucana e sua honestidade de gestor moderno não ficam mais em pé.

A professora Lisete, do PSOL, por exemplo, tirou ele completamente do sério apenas dizendo que sua nota no governo de São Paulo foi 3,7 o que lhe deixou em recuperação, mas que a condenação por improbidade pela justiça que havia sido divulgada ontem o havia reprovado.

Luiz Marinho, do PT, no melhor momento da noite, (assista abaixo), ofereceu ao tucano a possibilidade de pedir desculpas pelo fato de ter como presidente da Embratur publicado publicidades oficiais com fotos de mulheres nuas para divulgar o Brasil no exterior. Ao invés de tratar do assunto de maneira séria, Doria espumou xingando o PT e chamando Marinho de ladrão, o que lhe permitiu um direito de resposta. Doria teve que engolir que era o único condenado naquela sala.

Sua arrogância e prepotência não permitirão que mude o rumo e saia do discurso anti-Lula. Ele está preso a este personagem. E ninguém vai ganhar eleição a cargo executivo no Brasil de 2018 xingando Lula da forma que ele faz. Nem em São Paulo.

Neste momento o favorito passa a ser Paulo Skaf, que tem um imenso telhado de vidro por ser o candidato do partido de Temer. Mas a eleição está aberta. Tanto Marcio Franca quanto Marinho ainda podem crescer e ir ao segundo turno. Doria tende a ser o grande fiasco desta eleição. Exatamente o inverso de 2016.

Política é mais complexa do que gestão de marketing. Ele ajuda, mas não resolve tudo. Doria envelheceu como produto e se tornou um mala sem alça a ser carregado pelo tucanato.

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Eleição presidencial de 2018: o favoritismo da oposição


O primeiro slide da série abaixo mostra os resultados da pesquisa mais recente do Datafolha. Note-se que há os votos totais e os votos válidos. O que é mais divulgado e que todas as pessoas leem nesse momento da campanha são os votos totais, porém o slide mostra os votos válidos. 

Trata-se de uma vantagem bastante confortável. Faz recordar as eleições de 2002 e 2006 nas quais Lula venceu com facilidade Serra e Alckmin respectivamente. A vantagem final ficou em torno de 60 a 40, isto é, 20 pontos percentuais, foram as maiores vantagens até hoje em segundos turnos.

O que o dado do Datafolha de agora (junho de 2018) mostra é que a eleição está configurada da mesma maneira que 2002 e 2006.


No slide seguinte, na coluna da direita estão os votos totais dos confrontos em 2018: Lula x Alckmin e Lula x Bolsonaro, são os mesmos dados que serviram de base para o cálculo dos votos válidos que estão no primeiro slide dessa sequência.


A primeira coisa que merece destaque é a proporção de eleitores “sem candidato”, são aqueles que declaram que irão votar branco, nulo, os indecisos e os que não responderam à pergunta de intenção de voto. 

Note-se que em junho de 2014 essa proporção era apenas um pouco menor do que em junho de 2018. Assim, derruba-se aqui um primeiro mito dessa eleição: o de que o eleitor está mais descrente e frustrado do que em 2014. O dado mostra que isso não é verdade. É possível notar, inclusive, que na simulação de 2014 entre Dilma e Eduardo Campos havia mais gente sem candidato do que hoje quando são confrontados em segundo turno os nomes de Lula e Bolsonaro.

Outra coisa que merece destaque é – em 2014 – a vantagem de Dilma sobre Aécio. Ela é praticamente a mesma vantagem do resultado final da urna. Veja-se que acima Dilma tem 46% dos votos totais e 54,76% dos válidos. Ela terminou com 51,64%. Ou seja, entre junho de 2014 e o resultado final da urna em outubro a Dilma perdeu 3,12% de votos. 
Primeira conclusão: a pesquisa de junho previu com bastante precisão o resultado final. Segunda conclusão: se acontecer o mesmo agora, e sabendo que a vantagem de Lula sobre os adversários em qualquer simulação de 2º turno é grande, a eleição está encaminhada para uma vitória do candidato do PT. Hoje há mais gordura do que 3,12% de votos para perder e ainda assim vencer a eleição.
Agora veja-se no slide abaixo a série de dados do Datafolha para o segundo turno Lula x Alckmin. Note-se que nada mudou desde novembro de 2017. Note-se também que na medida em que passou o tempo do impeachment de Dilma, o voto em Lula foi aumentando e o voto em Alckmin diminuindo. O motivo é simples: o PT é oposição e o PSDB é governo, o eleitorado quer mudar, daí o favoritismo de quem é oposição.


Imaginando-se o cenário mais provável de que Lula não será candidato, para que o favoritismo do PT se concretize é preciso que Lula seja capaz de “transferir votos”. 
Em primeiro lugar, é preciso registrar que não há transferência de votos para cargos diferentes. 
Pensando na atual força eleitoral de Lula, basta imaginar quantos candidatos a prefeito e governador ele apoiou quando era o presidente mais popular da história do Brasil e que, mesmo assim, tais candidatos não venceram. 

Lula elegeu Dilma presidente em 2010 pedindo para que a população votasse nela. Ainda assim, ouso afirmar – vou mostrar os dados que sustentam isso – que o que ocorreu não foi “transferência de votos” da maneira como a maioria das pessoas entende isso.

A partir de janeiro de 2009 a nossa pesquisa mensal passou a registar os principais determinantes do voto presidencial. Em abril daquele ano decidi fazer uma pergunta na qual os entrevistadores mostravam o cartão abaixo. Eles iam a campo com um cartão plastificado tamanho A4 com as fotos tal como está no slide. 

Aí nós perguntávamos, “Se o segundo turno da eleição presidencial fosse hoje em quem você votaria, Dilma apoiada pelo Lula ou Serra candidato a presidente com Aécio de vice?”.


Feita a simulação de voto dessa maneira, o resultado de abril de 2009 foi absolutamente espantoso. Deu empate técnico, Dilma com apoio do Lula teve 42% dos votos, e Serra a presidente e Aécio de vice teve 44%. Na sequência dos resultados, nos meses seguintes Dilma passou a liderar na pesquisa. Em julho de 2009 ela já batia a chapa do PSDB por 48% a 35. O empate que ocorreu em outubro se deveu à saída de Dilma da campanha por conta do tratamento de saúde. Com a volta ela passou novamente a liderar com folga.


O que ocorreu, porém, não era pura e simples “transferência de votos” em função do prestígio pessoal de Lula, mas sim era algo relacionado com o desempenho de seu governo. No slide abaixo mostro o resultado para a seguinte pergunta:

- Você gostaria que o próximo presidente:

- continuasse tudo que o Lula fez

- continuasse a maior parte das coisas que o Lula fez

- mudasse a maior parte das coisas que o Lula fez

- mudasse tudo que o Lula fez

Note-se nas duas linhas superiores em cores laranja e vermelho o desejo de continuidade. Se somarmos os dois percentuais tínhamos algo em torno de 80% em todo o período. É possível também ver embaixo no gráfico a proporção de quem queria mudança das coisas que o Lula fez, está em verde e em azul escuro, a soma dos dois ficou sempre em torno de 15%. O restante (de 2 a 5%) não sabia responder à pergunta ou não quis responder, o que é uma proporção normal e aceitável.


O passo seguinte foi perguntar ao eleitor quem ele achava que poderia dar continuidade ao que o Lula fez. De novo, demos duas opções, se a Dilma era quem poderia dar continuidade ou se eram Serra presidente e Aécio de vice. Veja que na série algo em torno de 50% diziam que a Dilma era quem mais poderia dar continuidade ao que Lula vinha fazendo, ao passo que torno de 33% achavam que a dupla do PSDB era quem mais poderia dar continuidade ao que Lula vinha fazendo no governo. 

Então temos a seguinte conta: 80% queria continuidade e 50% achava que quem mais poderia fazer isso era a Dilma, ou seja, ela tinha 40% de votos totais (não é voto válido) somente por causa do desejo de continuidade.
Isso é a demonstração de que a “transferência de votos” é um processo mais profundo e complicado do que se diz por aí. Ela não é transferência de prestígio pessoal, mas sim algo mais amplo, conectado com um partido (PT ou PSDB) e com um posicionamento ou de governo ou de oposição.

O que está acontecendo hoje é que a grande maioria quer mudança. Veja-se abaixo os dados da pesquisa BRASILIS. Hoje, nada mais nada menos do que 83% querem um presidente que mude o que o Governo Temer fez, note-se que quase 50% quer que o próximo presidente mude TUDO o que o Temer fez. O resultado da pesquisa é claro: tende a vencer o candidato de oposição, e hoje o PT é visto como oposição.


Analisei a pesquisa que a Ipsos fez para o jornal Estado de SP testando a aprovação/reprovação de cada político. A reprovação do Temer aumenta, e aumenta junto com ela a reprovação de Alckmin, Fernando Henrique, Doria, Meirelles e Rodrigo Maia. Por outro lado, melhora a imagem de Lula. Não são testados outros nomes do PT, mas não é difícil imaginar que todos melhorariam sua aprovação. O motivo é simples, repito, o PT é a oposição. 

Pensando nisso fiz um slide que brinca com o dito popular de que todo político é “farinha do mesmo saco”. Não é verdade, pois há dois sacos, o de governo e o de oposição. Cabe a observação de que Bolsonaro não está em nenhum dos dois, ao menos por enquanto.















Alberto Almeida
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América Latina: La guerra jurídica contra la democracia

El expresidente brasileño Luis Inácio Lula da Silva.
Foto: EFE.
El 1 de septiembre de 2016 el Senado de Brasil destituyó a Dilma Rousseff de la presidencia del país en un “juicio político” en el que resultó condenada por supuestamente haber manipulado el presupuesto público.

Entre el 2 de noviembre de 2017 y el 6 de marzo de 2018, la expresidenta argentina Cristina Fernández de Kirchner recibió tres procesamientos judiciales, dos por presuntos delitos de corrupción y uno por interferir presuntamente en la investigación del atentado de la AMIA, ocurrido en Buenos Aires en el año 1994.

El 24 de enero de 2018 el Tribunal Supremo de Brasil ratifica la sentencia contra el que fuera presidente del país y actual candidato mejor situado en las encuestas para las próximas elecciones presidenciales, Lula da Silva, condenado a 12 años de prisión por corrupción. Acaba en prisión en abril de 2018 y resulta inhabilitado para la reelección presidencial.

El 9 de abril 2018 la Fiscalía de Colombia ejecuta una orden de captura con fines de extradición de los EEUU contra el diputado electo del partido FARC y responsable de la implementación del Acuerdo de Paz Jesús Santrich, por un supuesto delito de conspiración para exportar cocaína a los EEUU. Desde entonces permanece en prisión, apartado de la implementación del acuerdo de paz y sin haber podido tomar posesión de su escaño en la Cámara Legislativa a pesar de no existir acusación alguna contra él en Colombia.

El 3 de julio de 2018 se dicta por un tribunal de Ecuador una orden de prisión y captura internacional contra el expresidente Rafael Correa. Previamente, el 14 de diciembre de 2017, era condenado a seis años de prisión el vicepresidente Jorge Glas, acusado de corrupción. Y el 17 de junio de 2018 era capturado en Madrid, por solicitud de Ecuador, Pablo Romero, quien fuera parte del equipo de Gobierno de Rafael Correa.

“La legitimidad otorgada al proceso de judicialización de la política emana del consenso sobre la ‘corrupción’ como problema fundamental de América Latina”. Esta premisa cargada de razón formal fue manifestada por instituciones financieras internacionales y agencias del Gobierno estadounidense promotoras del Ajuste Estructural del Estado en la década de los años 90. Viene siendo utilizada para atacar gobiernos, fuerzas políticas y líderes de izquierdas de América Latina que se oponen a los ajustes neoliberales dictados por el FMI, afirmando que los “populismos de izquierda” presentan un problema de corrupción estructural, omitiendo que la corrupción es intrínseca al neoliberalismo y a las políticas de ajuste y austeridad.

Contra todos los que han puesto en marcha con éxito alternativas a las políticas neoliberales se ha utilizado el ‘lawfare‘, la “guerra jurídica asimétrica”, que ha sustituido la doctrina de la Seguridad Nacional -guerra contra insurgente- que se impartía desde las Escuelas de las Américas. Ahora son judiciales las escuelas desde las que el Norte expande su estrategia para acabar con los gobiernos de izquierdas inhabilitando políticamente a los líderes que pretenden rescatar la soberanía nacional de sus pueblos.

Guerra jurídica o ‘lawfare’ es una palabra inglesa correspondiente a una contracción gramatical de las palabras “ley” (Law) y “guerra” (warfare), que describe una forma de guerra asimétrica. Una “guerra jurídica” que se despliega a través del uso ilegítimo del derecho interno o internacional con la intención de dañar al oponente, consiguiendo así la victoria en un campo de batalla de relaciones políticas públicas, paralizando política y financieramente a los oponentes, o inmovilizándolos judicialmente para que no puedan perseguir sus objetivos ni presentar sus candidaturas a cargos públicos. De esta forma describe el ‘lawfare’ el “Informe del Encuentro de expertos en Cleveland sobre el 11 septiembre y sus consecuencias”, del año 2010.

El ‘lawfare’ se muestra ahora con toda intensidad. Su planificación comenzó hace años mientras la izquierda en América Latina ponía en marcha sistemas democráticos más participativos e igualitarios que eran apoyados mayoritariamente. Mientras esto ocurría, las fuerzas neoliberales lideradas por el “establecimiento” estadounidense, diseñaban la nueva estrategia de combate y desprestigio a esos movimientos políticos que cosechaban éxitos para la izquierda.

Remontémonos al 16 de octubre de 1998. El exdictador chileno Augusto Pinochet fue detenido en Londres acusado de crímenes contra la humanidad por una orden emitida por el juez Garzón a petición de colectivos defensores de víctimas. El final de la “guerra fría” causó la desorientación estratégica de su vencedor, los EEUU. Era imprescindible definir un nuevo enemigo que permitiera mantener el conglomerado militar-industrial base del sistema capitalista que doblegó a los países socialistas. Ese periodo de desorientación posibilitó que el ejercicio de acciones penales desde terceros países - la ‘jurisdicción universal’ contemplada en las legislaciones nacionales desde hacía años, pero imposible de aplicar durante la ‘guerra fría’ -, se convirtiera en una poderosa herramienta contra regímenes autoritarios responsables de crímenes contra la humanidad, conductas ilícitas ejecutadas para reprimir los anhelos de cambio de los pueblos.

Fueron años de expansión de la ‘jurisdicción universal’. A la detención de Pinochet le siguió el inicio de procedimientos judiciales impulsados por colectivos de víctimas contra militares y políticos argentinos, uruguayos, colombianos, congoleses, estadounidenses, israelíes… responsables de masivas violaciones a los derechos humanos.

La respuesta de las democracias occidentales no fue expandir la jurisdicción universal, sino combatir la oportunidad abierta para hacer respetar el derecho internacional y acabar con la impunidad de los crímenes internacionales. Las contrarreformas legales de la ‘jurisdicción universal’ en Bélgica en el año 2003 y España en los años 2009 (PSOE) y 2014 (PP), son ejemplos de esta regresión, así justificada:
“(…) La jurisdicción universal puede usarse por motivos políticos o con fines vejatorios, y puede afectar negativamente al orden mundial causando fricciones innecesarias entre los Estados, abusos potenciales de los procedimientos legales y privación de derechos humanos individuales” (I.B.C. Revue internationale de droit pénal, 2008/1, Vol. 79).
Quienes mantienen el actual orden mundial extrajeron lecciones sobre las potencialidades de la ‘jurisdicción universal’ - fácil accesibilidad, bajo coste y alta eficiencia - para utilizarla a favor de sus intereses. Comenzó el diseño de nuevas estrategias que les permitieran mantener su poder y capacidad de intervención cuando ello fuera necesario. Debido a los efectos políticos contraproducentes que tuvo la doctrina de la Seguridad Nacional - torturas, desapariciones forzadas, dictaduras, protestas sociales… -, desde el fin de la guerra fría los Estados Unidos no utilizan como primera opción la implantación de regímenes autoritarios si les es posible mantener el control sobre cualquier país por medios de apariencia más democrática.

La intervención jurídica se convierte en una opción eficaz siempre que exista un plan para alcanzar el fin buscado. El plan requiere una táctica - intervención jurídico-política para cooptar al poder judicial y operadores jurídicos -, unos recursos - escuelas y programas de formación de jueces y juristas - y unos objetivos: derrocar a los gobiernos que pretenden rescatar la soberanía nacional de sus pueblos. La estrategia es desprestigiar a las fuerzas políticas que los dirigen e inhabilitar electoralmente y destruir políticamente a los líderes que los encabezan.

Los precedentes de esta estrategia jurídico-política los encontramos en la denominada “guerra contra el terrorismo” impulsada después del 11-S de 2001. Los EE.UU. intentaron crear una nueva interpretación del derecho aplicable a los conflictos armados, pretendiendo hacer desaparecer paulatinamente la abismal diferencia entre derecho penal interno y derecho internacional humanitario. Han intentado imponer nuevas categorías jurídicas no previstas en las leyes internas ni internacionales, como el “combatiente enemigo ilegal” o su derecho unilateral a “vigilar y ejecutar” con el que justifican la utilización de drones asesinos.

Un paso más ha sido la masiva judicialización de la política con sustento en el consenso sobre la “corrupción”, aplicada de forma generalizada a los líderes de la izquierda alternativa latinoamericana que han pretendido garantizar la soberanía nacional frente a la injerencia.

Desde principios del siglo XXI comenzaron a invertir recursos en programas de cooptación de las instituciones judiciales de numerosos países, en especial los de América Latina. Las “Escuelas de las Américas” para militares se han sustituido por escuelas judiciales y programas de capacitación jurídica, tanto en los Estados Unidos - donde acuden a recibir doctrina jueces y operadores jurídicos -, como en los países de América del Sur, donde a través de una generosa financiación de la agencia estadounidense para el desarrollo, la USAID, se han creado y controlado políticamente las escuelas de capacitación judicial.

En Colombia, desde la creación de la escuela de formación del poder judicial “Rodrigo Lara Bonilla”, financiada por USAID, se ha transitado del sistema jurídico de naturaleza ‘continental’ - imperio de la ley escrita - previsto en la Constitución Política, a un sistema de precedente judicial - ‘common law’ estadounidense - carente de sustento constitucional. Ahora son los jueces de la Corte Constitucional quienes redactan las leyes mediante el proceso de revisión constitucional. En caso de sentenciar que una ley no se ajusta a la Constitución, proceden a darle una nueva redacción actuando como una segunda y definitiva cámara legislativa.

En América Latina asistimos a la paulatina sustitución de los sistemas penales inquisitivos o mixtos, por el sistema penal acusatorio a imagen y semejanza del de los Estados Unidos, provocando un desmesurado empoderamiento de las fiscalías nacionales, que en la práctica operan sobre las instrucciones, informaciones e ‘indictments’ remitidos por la justicia estadounidense.

El plan diseñado para la expansión del ‘lawfare’ ha comenzado a alcanzar sus objetivos. Dilma Rousseff, Fernando Lugo, Cristina Kirchner, Lula, Jesús Santrich, Rafael Correa… todos ellos han sido objeto de esta estrategia político-jurídica que los inmoviliza políticamente en esta nueva guerra jurídica. El objetivo es desprestigiarlos a ellos y a sus fuerzas políticas equiparándolos a delincuentes comunes e inhabilitándolos electoralmente.

El poder judicial que permitió que América Latina fuera uno de los continentes con más corrupción institucional - en muchos casos se benefició de ella -, que nunca fue capaz de combatirla, ahora se ha convertido en un arma de intervención directa en los asuntos políticos internos, al servicio de los intereses de las oligarquías y fuerzas conservadoras foráneas y locales.

La guerra jurídica implica un gran retroceso en los procesos de fortalecimiento institucional de los países de América Latina. El Poder Judicial debería mantenerse al margen de la confrontación política para evitar repetir fracasos institucionales de otras épocas que le causaron graves crisis de legitimidad y el desafecto popular. Esta injerencia en los asuntos políticos supone la anulación de la independencia judicial por su consciente politización, y provoca irremediablemente la desaparición de la división de poderes que sustenta el Estado de Derecho. El ‘lawfare’ se ha convertido en uno de los mayores peligros para la democracia en todo el mundo y en especial en América Latina.

No Cuba Debate
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Voto das mulheres vira pesadelo de Bolsonaro

Mulheres protestam a favor da legalização do aborto na frente do consulado da Argentina, em São Paulo.
Luís Felipe Manvailer espancou Tatiane Spitzner no carro, na garagem, no elevador, até ela despencar do quarto andar do prédio onde moravam. Se foi empurrada, morta ou viva, ou pulou em desespero pouco importa: foi assassinato. Anderson da Silva contou ter asfixiado Simone da Silva na frente do filho deles, de três anos. Ao matá-la, ele sabia que ela estava grávida.

A Justiça decretou a prisão de Pedro Paulo Barros Pereira, suspeito de ser o mandante da execução de Karina Garofalo, baleada diante de um menino de 11 anos, filho de ambos (“Papai mandou matar mamãe”, teria dito o garoto). Altamiro Lopes dos Santos agrediu até a morte Patrícia Mitie Koike. Rodrigo Bessa Paixão foi preso pela suspeita de ser o autor dos três disparos que tiraram a vida de Natasha Conceição Fonseca da Silva. Duas vezes Natasha prestara queixa de Rodrigo, por agressão e ameaça.

Na cidade paranaense de Guarapuava, no complexo do Alemão, na Barra da Tijuca, em Nova Iguaçu e Jacarepaguá, os suspeitos, acusados ou assassinos confessos eram marido, ex-marido, namorado ou ex-namorado das mulheres mortas. O gênero das vítimas foi determinante para os crimes, todos deste ano. Por isso, a tipificação apropriada é feminicídio.

De 2016 para 2017, os episódios de feminicídio subiram 22% (929 para 1.133), embora persistam resistências à aplicação da norma sancionada em 2015 por Dilma Rousseff. Os registros de violência doméstica somam anualmente 221.238, ou 606 por dia. No aniversário de 12 anos da Lei Maria da Penha, Brasília despertou com mais dois feminicídios.

A Lei 13.104 alterou o Código Penal e introduziu o feminicídio “no rol dos crimes hediondos”. Definiu-o como delito “contra a mulher por razões da condição do sexo feminino”. Decorre de “violência doméstica e familiar”, de “menosprezo ou discriminação à condição da mulher”. A pena é dez anos maior do que a de homicídio. A taxa de feminicídio no Brasil é a quinta mais alta do mundo.

“Nós temos que acabar com o mimimi, acabar com essa história de feminicídio”, declarou Jair Bolsonaro no ano passado. No começo do mês, o deputado falou: “Se uma pessoa matar o meu pai ou a minha mãe, eu vou me sentir triste de qualquer maneira”; “não tem que ter Lei do Feminicídio”. O candidato a presidente omitiu que o padrão é companheiro matar companheira, e não o contrário.

No jornalismo, há quem teime em chamar de “crime passional” o que é feminicídio. Paixão e amor são uma coisa. Ódio, outra. Quem ama não mata.

Mentira tem pernas curtas

Na sexta-feira, no debate da RedeTV!, Bolsonaro perguntou a Marina Silva sobre posse de armas de fogo – para não esquecer o tema, ele consultou uma cola anotada na palma da mão esquerda. A ex-senadora mudou o rumo da prosa. Disse que o adversário desconhece “o que significa uma mulher ganhar um salário menor do que um homem e ter as mesmas capacidades, a mesma competência e ser a primeira a ser demitida, ser a última a ser promovida”.

Candidatos à Presidência da República participam do segundo debate das eleições de 2018
Marina desafia Bolsonaro no debate realizado pela RedeTV! e Revista Isto É, em São Paulo.
Foto: Diego Padgurschi/Folhapress

O concorrente do PSL contra-atacou: “Temos aqui uma evangélica que defende o plebiscito para aborto e para maconha”. A candidata da Rede viveu seu momento mais glorioso na campanha até agora: “Você acha que pode resolver tudo no grito, na violência”; “você um dia desses pegou a mãozinha de uma criança e ensinou como se faz para atirar”.

Bolsonaro encarou Henrique Meirelles. O candidato do MDB indagou sobre desigualdade salarial entre mão de obra feminina e masculina. O deputado engrossou: “É mentira que eu defendi em qualquer época da minha vida que mulher deve ganhar menos do que homem! É mentira! Não existe um só áudio, uma só imagem minha nesse sentido”.

Bastou uma visita ao YouTube para assistir ao que Bolsonaro descartara como mentira. No programa Superpop, ele se abriu: “A mulher, por ter um direito trabalhista a mais, no caso a licença gestante [maternidade], o empregador prefere contratar homem […]. Muitas vezes, por ser mulher, prefere dar um emprego ganhando menos”. A apresentadora Luciana Gimenez questionou: “O que você acha?” Ele respondeu: “Eu não empregaria com o mesmo salário”.

O repórter José Roberto de Toledo conferiu o programa de governo de Bolsonaro e descobriu: a palavra “mulher” é mencionada uma vez. “Deus”, 82.

Rogando pela morte de Dilma

No Brasil que o veterano capitão pretende administrar, o desemprego entre os homens é de 11%; entre as mulheres, de 14,2%. O de pretos alcança 15%, e o de brancos permanece aquém dos 10%. A mulher negra é a mais afetada pela falta de ocupação. Nem um terço das crianças até três anos têm acesso a creches, sobrecarregando muito mais as mães do que os pais.

A Agência Nacional de Cinema divulgou que três em cada quatro dos 142 longas-metragens nacionais que estrearam comercialmente em 2016 foram dirigidos por homens brancos, e nenhum por cineasta negra. Em junho se soube que uma mulher pobre, Janaína Aparecida Quirino, fora submetida a laqueadura por determinação judicial. Não havia diagnóstico clínico que respaldasse a ordem.

A Polícia Militar do Paraná instituiu o critério de “masculinidade” num edital para 16 vagas de cadetes. Explicou o quesito como “capacidade do indivíduo de não se impressionar com cenas violentas, não se emocionar facilmente, tampouco demonstrar interesse em histórias românticas e de amor”. Depois da grita, a PM reformulou o edital. De vez em quando eu, que me delicio com comédias românticas, choro vendo filmes; devo ser fraco em matéria de “masculinidade”.

Para contornar a obrigação de encaminhar ao menos 30% do fundo eleitoral para as mulheres, partidos as escalam como suplentes de candidatos homens ao Senado, contabilizando o dinheiro que se destina aos postulantes titulares. No “Roda Viva”, Manuela D’Ávila foi interrompida no mínimo 40 vezes pelos entrevistadores. Ciro Gomes, oito. Guilherme Boulos, nove. A deputada vestia uma camiseta com a inscrição “Lute como uma garota”.

Bolsonaro praguejou, em 2015, sobre o mandato da então presidente: “Eu espero que acabe hoje, [com ela] infartada ou com câncer, [de] qualquer maneira”.

No passado recente, Dilma tinha pelejado contra o câncer.

‘Ideologia mata!’

As mulheres vão à luta contra a injustiça e a covardia. No campus de Belém da Universidade Federal Rural da Amazônia, estudantes protestaram contra colegas que disseminaram por WhatsApp mensagens misóginas, homofóbicas e racistas. Um dos interlocutores incitou, aparentemente em referência a uma aluna: “Bora logo meter o estupro”. Outro emendou: “Estupro não, sexo surpresa”.

Na quinta-feira, secundaristas da rede carioca de colégios Pensi denunciaram no Twitter assédio sexual cometido por diretores, professores e inspetores (#AssédioÉHábitoNoPensi). Elas relataram comentários, cantadas, carícias, abraços, toques – um conjunto de abordagens não consentidas e intimidadoras, portanto abusivas. A gota d’água foi a demissão de duas professoras que as apoiavam.

Anteontem, houve manifestações em várias unidades da rede e em outros colégios, com gurias e guris vestidos de vermelho. Uma garota carregou um cartaz que ensinava: “Quem cala as vítimas é cúmplice”. As manifestantes entoaram: “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim do assédio escolar!”

Jornalistas esportivas lançaram em março a campanha #DeixaElaTrabalhar, contra o assédio, o machismo e a violência de que são alvo no ambiente do futebol. Exigiram respeito. “Sai daqui, puta”, uma delas ouviu de um cafajeste travestido de torcedor, antes de ser agredida por ele. Outras foram surpreendidas por quem tentou lhes agarrar enquanto trabalhavam. Na Copa da Rússia, um cretino quis beijar a repórter Julia Guimarães, que se preparava para entrar no ar. “Eu não permito que você faça isso!”, ela reagiu altiva, em inglês. “Nunca!”

Mobilizadas por movimentos feministas e outras entidades, manifestantes acompanharam neste mês a audiência pública do Supremo Tribunal Federal que discutiu a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação – uma questão de saúde pública. O procedimento só é legalmente autorizado em casos de estupro, risco da mulher e anencefalia do feto. O Ministério da Saúde estima que no ano passado tenham ocorrido de 938 mil a 1,2 milhão de abortos provocados, quase todos clandestinos. Ao menos 224 mulheres morreram ao interromper a gestação, numa estimativa afetada por subnotificação.

Na barca Rio-Niterói, na sexta-feira, um PM contrariou-se com um passageiro que o fotografava e sacou a arma. O sargento encrencara com a candidata a deputada federal Talíria Petrone e militantes que carregavam material de campanha. A vereadora do PSOL em Niterói, contudo, não distribuía panfletos. “Arma mata!”, advertiu Talíria. “Ideologia mata mais!”, esbravejou o sargento. O fotógrafo Bruno Kaiuca filmou a truculência, documentando a grotesca tirada filosófica do policial.

Quem matou Marcos Vinícius da Silva foi um policial civil, asseguraram testemunhas. Em junho, o adolescente de 14 anos caminhava para a escola no complexo da Maré, onde morava. Sua mãe, a empregada doméstica Bruna da Silva, narrou o último diálogo com o filho. “Ele falou ‘mãe, eu sei quem atirou em mim, eu vi quem atirou em mim. Eu falei ‘meu filho, quem foi que atirou em você?’ ‘Foi o blindado, mãe. Ele não me viu com a roupa da escola’”.

Carregando a camisa escolar ensanguentada do filho, Bruna participou em São Paulo de um protesto de mães. Desabafou: “Eu criei meu filho na comunidade até os 14 anos sem tomar tiro do poder paralelo. Aí, o Estado, que era para proteger e servir meu filho, alveja e assassina ele. Não pode. Chega! Aquela blusa do meu filho é uma vergonha para o Estado e para o Brasil!”.

Hoje faz 161 dias que Marielle Franco e Anderson Gomes foram assassinados. O crime continua sem punição.

Sufragistas

Na nova pesquisa presidencial do Ibope, Bolsonaro é o único dos oito primeiros colocados que não colhe no eleitorado feminino nem metade da intenção de votos que obtém no masculino: 13% entre as mulheres e 28% entre os homens, no cenário que Lula lidera com folga. No total, o deputado atrai 18%, atrás de Lula (37%) e à frente de Marina (6%), Geraldo Alckmin e Ciro (ambos com 5%).

O desempenho de Bolsonaro entre os homens é 115% melhor. Outro contraste expressivo, que contribui para o deputado minguar entre as entrevistadas, é de Marina: a ex-ministra atinge 15% entre elas – 50% a mais – e 10% entre eles. Se somente eleitoras votassem, a dianteira de Lula, com 39%, seria mais ampla (ele se limita a 35% no eleitorado masculino). A candidatura do ex-presidente está na iminência de ser cassada pelo tapetão.

A vantagem de Lula sobre Bolsonaro é imensa também no universo dos brasileiros mais pobres. Entre os de renda familiar até um salário mínimo mensal, o ex-presidente ganha por 53% a 12%. Entre os com mais de cinco salários, Bolsonaro prevalece, com 32% a 17%. A esmagadora maioria das mulheres pobres recusa Bolsonaro.

O problema do extremista de direita é ainda mais grave porque as mulheres compõem 52,5% do eleitorado, com 7.436.871 inscritas a mais. Elas podem fazer a diferença, sobretudo em eventual segundo turno.
Bendita a hora em que as sufragistas saíram às ruas.

Mário Magalhães
No The Intercept
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Alckmin e a merenda: por que o escândalo está carimbado em sua testa


A foto de Geraldo Alckmin, com chapéu de sertanejo e panela na mão, se tornou meme e teve um efeito viral na internet: “Grande Sertão, merendas”. A rapidez com que o meme se propagou se deve à associação de Alckmin a um escândalo de corrupção descoberto durante o seu governo, quando foi denunciado o desvio de recursos destinados à merenda escolar.

Em janeiro de 2016, a Polícia Civil do Estado deflagrou a chamada Operação Alba Branca, resultado de uma investigação que começou com o depoimento de um ex-funcionário da Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar (COAF). Houve prisões e busca e apreensão autorizadas pela justiça, todos os mandados relacionados a bagrinhos, nenhum peixe graúdo.

A investigação apontou sobrepreços em alimentos fornecidos pela cooperativa a 22 prefeituras, através de convênio firmado pela Secretaria Estadual de Educação. O governo do Estado, portanto, estava envolvido no caso, mas Geraldo Alckmin nega envolvimento. Como foi a Polícia Civil que conduziu a investigação, diz que seu governo é que levantou o caso.

Não é verdade.

A Polícia Civil agiu depois da denúncia de um ex-funcionário da cooperativa. A partir do escândalo, fogo amigo no ninho tucano atingiu o presidente da Assembleia Legislativa do Estado, Fernando Capez, procurador de justiça de carreira, há muito tempo afastado para se dedicar à política, sempre no PSDB.

Capez tinha planos de se candidatar a governador, na sucessão de Alckmin, mas o envolvimento de seu nome no escândalo o fez recuar. Desde 2016, luta contra a denúncia, mais tarde confirmada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. Em junho deste ano, o processo contra ele foi arquivado por decisão da Segunda Turma do Supremo Tribuna Federal.

Alckmin de panela na mão ou comendo sempre lembrará o desvio da merenda, um caso que provocou, segundo o Ministério Público, o desvio de pelo menos 1,1 milhão de reais.

Relativamente ao orçamento público, é pouco dinheiro, muito menos do que os desvios apurados no caso das propinas pagas pela Alstom e Simens durante os governos de Serra e Alckmin para fornecer trens e fazer a manutenção na CPTM, estatal que administra o transporte ferroviário metropolitano no Estado de São Paulo.

Mas, para a população, o efeito negativo é muito maior. Denunciar desvio na merenda remete à imagem de corruptos tirando comida da mesa das crianças.

Alckmin diretamente não teve nada a ver com isso, exceto pelo fato de que sua gestão permitiu que o correligionário Capez tivesse influência na área das merendas.

Mas, como o governo era dele, Alckmin não se livrará facilmente do carimbo que aparece em sua testa: ladrão de merenda.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Onde a Veja escondeu o dinheiro dos demitidos?


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A irrelevância de FHC foi a maior perda para o liberalismo brasileiro


O liberalismo brasileiro esbarrou em dois muros intransponíveis. O primeiro deles, o fenômeno Lula que explode em 2008 casando as políticas sociais anteriores com uma visão integrada de nação, contemplando a diplomacia, o papel da defesa, das políticas industriais e das formas de interação com as políticas sociais.

O segundo muro foi o destino ter jogado o neoliberalismo brasileiro nas mãos de Fernando Henrique Cardoso, provavelmente o mais desinteressado presidente da história moderna do país. FHC saiu do governo desmoralizado não apenas entre as classes populares, mas entre a elite econômica paulista.

Mas as circunstâncias políticas colocaram a máquina de propaganda para recriar a imagem pública dele, como um contraponto a Lula. Não adiantou. Faltou grandeza a FHC como presidente e, mais ainda, como ex-presidente. Não encarnou nem as virtudes públicas, nem as pessoais. Como, por exemplo, manifestar solidariedade a um companheiro de caminhada democrática, como foi o caso de Lula.

Com todas as ressalvas que se pudesse fazer a eles, Mário Covas, Itamar, até José Sarney nos momentos mais dramáticos da vida nacional, eram figuras presentes. Quando o mensalão ameaçava provocar desequilíbrios relevantes na vida política nacional, Itamar, Sarney, Fernando Collor, todos assumiram suas responsabilidades, como ex-mandatários, com manifestações públicas em defesa da democracia. Menos FHC.

Nem a idade incutiu-lhe generosidade, responsabilidade institucional com o país. Tornou-se um político e um intelectual irrelevante.


Luís Nassif
No GGN
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“Não, não, comigo não... Eu voto é no Lula!”



Presta atenção na voz ao fundo! O Alckmin veio ao Nordeste e gravou esse vídeo falando da criação de ovelhas da Dona Marluce.

Ao fundo, se ouve a voz dela: “não, não, comigo não... Eu voto é no Lula!”

Eu amo a Dona Marluce! 😍


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TSE abre debate sobre proibição de campanha em templos religiosos

A pouco mais de um mês das eleições, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) abre o debate sobre a possível punição de candidatos que se utilizam de espaços religiosos para campanhas políticas.

A cassação dos mandatos do deputado federal Franklin Roberto Souza (PP-MG) e do deputado estadual Márcio José Oliveira (PR-MG), confirmada pelo TSE, levantou a discussão sobre abuso do poder religioso, que não está previsto na legislação, mas é suscitado na esteira do abuso do poder econômico.

No julgamento dos parlamentares mineiros, o ministro Jorge Mussi citou a decisão de abril do ano passado, que proíbe campanha em eventos religiosos. Na ocasião, o relator foi ex-ministro Henrique Neves, que ressaltou que a liberdade religiosa não pode ser utilizada para fins políticos.

Diz a decisão de Henrique Neves que, “em nenhuma hipótese, a proteção constitucional à livre manifestação de crença e à liberdade religiosa permite que tais celebrações convertam-se em propaganda, seja mediante pedido de voto, distribuição de material de campanha, uso de sinais, símbolos, logotipos ou ainda manifestações contra ou a favor de candidatos”.

Além de perder o mandato por abuso do poder econômico, praticado nas eleições de 2014, os dois deputados foram punidos com inelegibilidade por oito anos.

Os ministros determinaram a imediata execução da decisão, com o afastamento dos políticos cassados e a posse dos suplentes, sendo desnecessário aguardar o trânsito em julgado da decisão.

Exemplo

O TSE confirmou o julgamento do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG), que condenou os deputados por terem participado de evento religioso da Igreja Mundial do Poder de Deus, na véspera do primeiro turno das eleições de 2014.

No evento, que reuniu cerca de 5 mil pessoas, o apóstolo Valdemiro Santiago, líder da igreja, pediu votos para os dois no microfone e em panfletos distribuídos.

Segundo a denúncia, o líder religioso pediu que cada fiel conseguisse “mais dez votos” para os candidatos. O deputado estadual é sobrinho do religioso. Para a presidente do TSE e relatora do processo, ministra Rosa Weber, os fatos relatados são de “enorme gravidade”. O evento foi amplamente divulgado, durou cerca de quatro horas e teve shows artísticos.

O advogado Rodrigo Queiroga, da defesa dos dois deputados, disse que irá recorrer da decisão ao próprio TSE, com embargos de declaração, e, posteriormente, ao Supremo Tribunal Federal (STF), com recurso extraordinário. A ideia é conseguir descaracterizar o abuso de poder econômico para evitar que ambos sejam inelegíveis. Franklin registrou candidatura à reeleição, mas Márcio não.
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