11 de ago de 2018

A proposta necessária de limpar o nome dos inadimplentes


A proposta de limpar os nomes de inadimplentes do SPC (Serviço de Proteção ao Crédito), pelo candidato Ciro Gomes, não é apenas factível, como imprescindível para tirar o país da crise. Quando uma parte irrelevante dos consumidores entra em inadimplência, é problema individual deles. Quando é um percentual relevante, é questão sistêmica. Se é sistêmica, não pode ser debitada a condutas individuais, mas a disfunções sérias do sistema. E só se resolve com ação coordenada pelas autoridades públicas.

A gestão Joaquim Levy, seguida da gestão Henrique Meirelles, promoveu um choque irresponsável de preços, juros e créditos. Repetiu os mesmos erros crassos do pós-real.

A economia vinha caminhando em determinado ritmo. Clientes pessoa física e jurídica planejaram seu endividamento em cima do ritmo passado da economia. Se o cenário piora, a política mais prudencial, da parte do Banco Central e da Fazenda, é induzir a uma redução gradativa do endividamento, com os tomadores tomando consciência do novo cenário e tendo condições de reciclar gradativamente seu passivo.

Nos dois momentos, recorreu-se a terapias de choque irresponsáveis: choque de juros, de tarifas e cortes de crédito. O resultado é o chamado efeito-engavetamento. As empresas que corriam mais, no período anterior, são as primeiras a bater na muralha da iliquidez. Atrás delas vem seus fornecedores, empregados, multiplicando a inadimplência por todo o sistema.

Pior. Ao primeiro sinal de atraso nos pagamentos, os clientes são apontados no SPC e aí se cria um cordão total de isolamento, que impede o acesso a qualquer forma de renegociação dos passivos.

Depois de lucrar com a expansão do crédito, os bancos deveriam ser co-responsáveis pelos prejuízos advindos da inadimplência. O correto seria chamar os clientes e propor uma renegociação acessível a cada um, com os bancos abrindo mão do excesso de juros visando viabilizar novamente a vida financeira do cliente.

Mas esse movimento só é possível se existir um agente coordenador, que seria o governo.

No caso brasileiro, quando a inadimplência começa a explodir, há uma competição entre os bancos pelos despojos dos clientes. O primeiro passo é jogar os clientes em faixas de crédito extorsivas, como o cheque especial cobrando 15% ao mês. Tiram o que podem, antes que o competidor faça o mesmo, sabendo que o resultado final será a inadimplência do cliente. Mas, quem chega primeiro consegue reduzir o prejuízo. A rodada seguinte é sobre as garantias. O corpo do cliente nem esquentou no caixão e lá estão os bancos disputando seu espólio.

No pós-Real, a saída com muito atraso foi o REFIS, exclusivamente para os tributos federais. Mas nos dois governos FHC a economia patinou porque não se resolveu adequadamente a alavancagem na economia.

Agora, teria que haver uma saída, coordenada pelo Banco Central, permitindo perdão de juros de mora e multa. Até como condição para a normalização do crédito e alguma esperança de recuperação da economia.

Aliás, essa proposta de limpar o nome do SPC deveria ser encampada por todos os candidatos.

Luís Nassif
No GGN
Leia Mais ►

Professora da UnB e socióloga conservadora cunhou o termo URSAL em 2001 como chacota

Putin, patrono da URSAL, em seu cavalo
O termo URSAL, sigla para União das Repúblicas Socialistas da América Latina, foi usado pela primeira vez em dezembro de 2001 num artigo de Maria Lúcia Victor Barbosa.

Ele saiu na Folha de Londrina e no site do “filósofo” Olavo de Carvalho, guru da extrema direita brasileira.

Maria Lúcia, informa o Instituto Millenium, é professora universitária formada em Sociologia e Administração Pública e tem especialização em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UNB).

É autora de livros como “O voto da pobreza e a pobreza do voto – A ética da malandragem”, “América Latina – Em busca do paraíso perdido”, “Fragmentos de uma época” e “A colheita da vida”.

O cabo Daciolo tirou a URSAL do armário das teorias conspiratórias no debate da Band e o apresentou ao Brasil em grande estilo.

Virou uma piada nacional.

Curiosamente, Maria Lúcia também não tratava a coisa a sério. Ela disserta sobre a relação entre Lula, Fidel Castro e Hugo Chávez.

“Mas qual seria, me pergunto, essa tal integração no modelo Castro-Chávez-Lula? Quem sabe a criação da União das Republiquetas Socialistas da América Latina (URSAL)?”, questiona, em tom de deboche.

Em 2006, Olavo voltaria ao tema, com uma tese — como definir? — apocalíptica.

“Para mim já se tornou evidente, por exemplo, que o sucesso no plano do Foro de São Paulo, a implantação da URSAL, União das Repúblicas Socialistas da América Latina, não somente não se opõe em nada aos objetivos do globalismo, mas contribui decisivamente para eles, fomentando uma integração regional que provocaria orgasmos em Hans Morgenthau e que, a longo prazo, só tornaria a América Latina ainda mais dependente dos bancos internacionais”, escreve.

O resto é história.

Eis a peça de Maria Lúcia que deu origem à série.

Os companheiros

A conhecida frase, “uma imagem vale mais que mil palavras”, me veio à mente quarta-feira passada quando vi uma fotografia na capa do primeiro caderno do O Estado de S. Paulo. Nela estavam Fidel Castro e Lula sentados, lado a lado, barbas viradas de perfil um para outra. O motivo dos dois estarem mais uma vez juntos devia-se à reunião de partidos de esquerda da América Latina, que se realizava em Havana.

Até aí nada de mais. Todos sabem que Lula e seu PT se intitulam-se de esquerda. Além disso, é conhecido o fato de que o tetracandidato presidencial nutre um prazer peculiar em visitar a Ilha e fumar charutos cubanos, considerados os melhores do mundo. Gosto não se discute, mas a questão é que Lula continua em primeiro lugar nas pesquisas de opinião e ninguém pode ainda prever o resultado das urnas em, 2002.

Maria Lúcia Victor Barbosa

Assim sendo, sua foto com o ditador Castro não é exatamente a de um inocente turista fazendo pose de álbum de retrato. E, por isso, prestei atenção na expressão do presidente de honra do PT. Ele contemplava El Comandante-Jefe que lhe sussurrava alguma coisa, e tinha no rosto aquela expressão de embevecimento do discípulo diante do mestre, quando aquele coloca no rosto um sorriso beatífico e petrificado. A imagem ilustrava de forma inequívoca, mais que mil palavras, o sublime encantamento de Lula para com o ditador que comanda há 42 anos a desventurada e miserável Cuba.

Anteriormente ao encontro dos partidos de esquerda, o eterno candidato do PT tinha estado mais uma vez na Ilha. Voltou de lá dizendo que “Cuba é um modelo de democracia”. Achei isso, para dizer o mínimo, excêntrico. Agora a foto confirma algo que vai além: o modelo de Lula é o próprio Fidel Castro. Seria, então, Cuba, um modelo para o Brasil, segundo o candidato à presidência da República? Deus nos acuda!

Para ser justa, reconheço que há outro companheiro que fascina a magna estrela do PT: Hugo Chávez. Curiosamente, o controvertido presidente da Venezuela enfrentará no próximo dia 10 uma paralisação pouco usual, pois reúne empresários e trabalhadores. Ambas as categorias se posicionarão irmanadas contra as arbitrariedades do governo de Chávez. A gota d’água foi um pacote de 49 itens, considerado estatizante, intervencionista e que “viola de forma grosseira o princípio da propriedade privada”, segundo a Federação de Câmaras da Venezuela (Fedecamaras). Mas voltando ao assunto do encontro, pode-se dizer que Lula da Silva tem algo a comemorar além do souvenir fotográfico. Ele fez um discurso.

Políticos são extremamente egocêntricos e o petista não foge à regra, assim, dá para imaginar sua imensa felicidade quando discursou na sessão de abertura da reunião dos partidos de esquerda. Sentindo-se entre companheiros, foi fundo no ataque a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Do alto do seu triunfo ele soltou o verbo para gáudio de esquerdas e, para ser imparcial, direitas latino-americanas: “É um projeto de anexação que os Estados Unidos querem impor. Será o fim da integração latino-americana”. Mas qual seria, me pergunto, essa tal integração no modelo Castro-Chávez-Lula? Quem sabe, a criação da União das Republiquetas Socialistas da América Latina (URSAL)?

Curiosamente, enquanto Lula discursava demonstrando todo seu horror contra a Alca, um grupo de empresários norte-americanos lhe fazia coro, pois, segundo estes, não se deve permitir “que as leis americanas de comércio justo (fair trade) venham a ser parte de negociações globais da Organização Mundial do Comércio”. Portanto, de novo, o cândido e empolgado Lula defendeu interesses alheios, como quando esteve na França.

Naquela encantadora viagem onde se avistou com o primeiro-ministro Leonel Jospin, ele defendeu a política agrícola européia que impede o acesso de produtos agroindustriais brasileiros àquele mercado por meio de barreiras alfandegárias e, ao mesmo tempo, cria condições desfavoráveis nos mercados internacionais à agricultura brasileira ao subsidiar o setor rural francês. Alguém mais ajuizado do PT deveria tentar moderar os arroubos retóricos de Lula, sobretudo os cometidos em suas numerosas viagens ao exterior. Não pegam bem nem para o partido nem para o Brasil.

Kiko Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

A revelação fantástica da U.R.S.A.L mostra a subcultura política brasileira

A maioria das pessoas foram tomadas de surpresa pela fantástica “revelação” do Cabo Daciolo sobre o plano de criação de uma “URSAL” (União das Repúblicas Socialistas da América Latina) pelo fórum de São Paulo, que junto com a teoria que a Terra é plana e que a NASA esconde isto, desnuda para a imensa maioria da população brasileira a subcultura política que lunáticos vinculados a gurus também lunáticos que corre por baixo da política oficial brasileira.

O mais surpreendente de tudo é que o Cabo Daciolo foi eleito pelo PSOL, para posteriormente ser expulso não por ser paranoico delirante, mas por contrariar a linha de laicidade do Estado que o PSOL adota. Ou seja, no lugar de propor remédios para a paranoia de seu deputado, o PSOL lava-o ainda a sério e o expulsa por suas ideias evangélicas-religiosas-atrasadas.

Mas tirando o desespero do PSOL na campanha passada que para conseguir alguns votos a mais, coloca como candidato alguém que poderia ser definido como “louco de atar”, é necessário discutir esta subcultura política delirante seriamente.

Se for colocado na busca do YouTube a palavra URSAL, surgirá há anos diversos vídeos, alguns com centenas de visualizações em que as pessoas levam extremamente a sério este delírio, ou seja, que houve no fórum de São Paulo a união de forças de esquerda para a criação de uma URSAL.

Como toda boa teoria da conspiração, conforme um excelente vídeo do Pirula (um biólogo que faz vulgarização científica no YouTube), a URSAL segue todos os passos necessários para constituir uma boa teoria da conspiração, no caso do Vídeo do Pirula trata-se de teorias da conspiração “científicas” que adaptado ao cenário político encaixa como uma luva:

1) Pegar um fato bem estabelecido, e pela ciência (ou uma realidade social), no caso seria a reunião ocorrida em São Paulo que gerou o que veio a se chamar o Fórum de São Paulo.

2) Inventar alguma fórmula que um fato possa ser uma mentira, e que todo mundo está sendo enganado por conspiradores pertencentes a um determinado grupo SECRETO, no caso seria a transformação de uma reunião aberta de partidos e movimentos de esquerda em uma conspiração para criar a URSAL.

3) Feita a lambança, procura-se pinçar dentro da realidade fatos que corroboram com a teoria da conspiração, ou seja, o fórum de São Paulo existe, quem faz parte deste fórum são organizações de esquerda, a esquerda sempre propõe organizações internacionalistas e daí por diante.

4) Cria no Facebook, no YouTube ou numa página qualquer de um blog um documentário tosco qualquer em que se possa espalhar a ideia mirabolante (no caso a URSAL).

5) Começa a falar que a ciência (no caso comentaristas de política) não sabem de nada, ou que todos os jornalistas e demais envolvidos na divulgação da política estão todos vendidos para um poder maior, no caso financiado pela “nova ordem mundial” (que é um conluio gigantesco que envolve os USA, os comunistas, Lula, FHC, e talvez o cachorro da sua vizinha).

6) Depois de achincalhar a ciência e mídia em geral, que estão escondendo a verdade, é só citar alguns “grandes experts” sobre o assunto que confirmarão a tua verdade, no caso o “filósofo-astrólogo” Olavo de Carvalho, ou seja, milhares de jornalistas, comentaristas políticos estão mentindo, mas Olavo de Carvalho estará dizendo a verdade. Como se pode ver, a URSAL se encaixa perfeitamente na formação de uma verdadeira teoria da conspiração, porém sugiro para quem estiver interessado mais sobre o assunto que assista o vídeo do Pirula.

O interessante é o tal Dossiê Ursal, uma verdadeira peça de falsificação para ignorantes de um primarismo espantoso. É um documento apócrifo (algo que é proibido por lei) onde são colocadas frases curtas entre links nada confiáveis.

Mais ou menos 30% dos links enviam para vídeos do YouTube que foram retirados por contrariarem a política do YouTube, mais uns 50% são links a notórios direitistas, como os deputados Bolsonaro e Ônix Lorenzon, páginas e vídeos do “filósofo-astrólogo” Olavo de Carvalho, notórios jornalistas de extrema direita, páginas de pastores norte-americanos de propaganda anticomunista e alguns links a projetos de lei. O restante continua a generalidades que são um verdadeiro lixo de informação. Tive o trabalho de tentar abrir todos os links do tal “Dossier” (alguns já foram retirados da Internet), e não recomendo que ninguém faça esta penosa tarefa, acreditem em mim e não percam o seu tempo.

Este dossier Ursal, é uma das dezenas de lixo de extrema direita, que alia o primarismo da argumentação a pobreza da estrutura, que somente pessoas muito ignorantes ou mal-intencionadas conseguem se ater ou utiliza-la como fonte de informação, mostrando que a nossa extrema-direita não tem a mínima capacidade de articulação, beirando ao analfabetismo funcional.

Devido a má qualidade dos textos e dos vídeos que são utilizadas pela extrema-direita, pode-se entender a má qualidade do discurso da mesma, porém é importante destacar as seguintes observações:

1) Que alguém que lê e cita este lixo como fonte de informação, foi adotado por um partido que se diz de esquerda revolucionária e intelectualizada, o PSOL, para compor uma chapa a deputado federal da cidade do Rio de Janeiro. Ou seja, se alguém dos quadros dirigentes deste partido, se tivesse algum critério de seleção e não desespero para conseguir votos a mais, no máximo meia hora de conversa com esta criatura teriam simplesmente sugerido que ele se candidatasse a síndico de seu edifício.

2) Que apesar de ignorantes e sem noção, pessoas como este candidato, que devido a sua profissão, fazem parte de grupos profissionais que andam armados e teoricamente deveriam ter um grau mínimo de instrução cívica.

3) Que a legislação eleitoral brasileira é uma verdadeira piada, pois veta um ex-presidente de falar em debates televisivos e deixam criaturas que beiram ao nível da imbecilidade política de ocuparem minutos preciosos da TV.

4) Que a subcultura política tem espaço breve em partidos ditos de esquerda, como o PSOL, seguem na sua posição de deputados federais propondo modificações absurdas na constituição e leis gerais do país, e atingem a situação de candidatos ao cargo máximo da república.

Ou seja, diferentemente o que disse o candidato Ciro Gomes, “A democracia é uma delícia, uma beleza...”, podemos dizer que a democracia burguesa é uma farsa.

Rogerio Maestri
Leia Mais ►

Corrupção na Ditadura Militar?


Leia Mais ►

Globo e Lava Jato nem disfarçam mais

https://www.balaiodokotscho.com.br/2018/08/11/haddad-e-dilma-na-mira-lava-jato-volta-com-tudo-contra-o-pt/

Haddad e Dilma na mira: Lava Jato volta com tudo contra o PT

Como costuma acontecer desde 2014, quando as eleições se aproximam, a força-tarefa da Lava Jato, que andava meio sumida, voltou com tudo nesta sexta-feira - contra o PT, é claro.

Sem fatos novos, requentaram uma delação de Monica Moura, aquela moça que masca chicletes quando é presa, mulher de João Santana, o ex-marqueteiro do partido.

Não por acaso, os alvos agora são os principais líderes do PT nesta disputa eleitoral: Fernando Haddad, que substitui Lula na campanha presidencial, e Dilma Rousseff, a ex-presidente que lidera a com folga a corrida para o Senado em Minas Gerais e fez Aécio Neves desistir de enfrentá-la.

A nova versão da delação da marqueteira, que acusa diretamente Dilma de negociar valores de caixa dois, fez a festa dos telejornais noturnos que a transformaram na principal manchete do dia.

A tabelinha Lava Jato-mídia sempre é acionada nestas horas em que os candidatos do sistema estão empacados nas pesquisas lideradas pelo PT.

Com Lula, mesmo preso há mais de 100 dias, liderando absoluto a disputa presidencial, podendo ganhar até no primeiro turno, as baterias se voltaram contra Fernando Haddad, oficializado há apenas cinco dias como vice, acusado por Monica Moura de ter recebido dinheiro de propina da Odebrecht para pagar as contas da sua campanha para a prefeitura de São Paulo.

Diante da nova ofensiva, o que o PT pode fazer, se o Judiciário claramente escolheu um lado nestas eleições para evitar que o PT volte ao poder depois do golpe de 2016?

Em nota, a direção do partido e Haddad acusam a Lava Jato de armar espetáculos contra o partido de olho nas eleições às vésperas do registro oficial da candidatura de Lula à Presidência da República, no dia 15. E fica tudo por isso mesmo.

Curioso que a mesma mídia não se pergunte que fim levaram os processos abertos pelos mesmos motivos contra os tucanos Geraldo Alckmin, o candidato do governo Temer e do Centrão, e o ex-presidenciável Aécio Neves, agora candidato a deputado por Minas.

Que fim levaram estes processos todos, com denúncias de contas na Suíça mantidas por Paulo Preto, o homem de Geraldo Alckmin e José Serra na Dersa, denunciado por Dilma já na campanha de 2010, e as gravações de áudio e vídeo de Aécio Neves tomando grana de Joesley Batista?

Alguém sabe a quantas andam as investigações sobre subornos pagos por multinacionais e empreiteiras nas grandes obras do governo paulista comandado pelo PSDB há 24 anos, no chamado Tucanistão?

Não se fala mais naquelas centenas de políticos delatados pela Odebrecht e outras empreiteiras, além de Joesley Batista, todos eles livres, leves e soltos fazendo suas campanhas pela reeleição para manter o foro privilegiado.

Nenhum até hoje foi sequer a julgamento.

Lula é o único candidato julgado, condenado e encarcerado por conta de um tal triplex no Guarujá que não provaram ser dele.

Tudo isso é tratado com a maior naturalidade, como fato consumado, nem se toca mais no assunto.

Se não bastasse esta aberração, agora querem também tirar Haddad e Dilma das eleições de 2018, para que os golpistas possam ganhar as eleições por WO, já que nas urnas perderam quatro eleições presidenciais seguidas e, até agora, não conseguiram emplacar um candidato competitivo.

Já nem disfarçam mais: tudo é feito à luz do dia, na cara dura, e ainda ficam repetindo que as instituições estão funcionando às mil maravilhas nesta democracia de fancaria, em que a eleição é decidida nos tribunais e não mais nas urnas.

Dá até vergonha.

Vida que segue.

Ricardo Kotscho



Globo e a Lava Jato colocam Haddad na linha de tiro


Desde o mensalão, setores do Judiciário brasileiro parecem ter colocado seu calendário em sintonia com o das eleições.

Sempre que se aproxima um evento eleitoral importante, são colhidos depoimentos ou cumpridos mandados que podem provocar desgaste nas campanhas do PT.

Quem não se lembra de Alexandre de Morais, em campanha pelo PSDB em Ribeiro Preto, em 2016, antecipando a eleitores que, na semana seguinte, haveria algo impactante relacionado à Lava Jato?

“Vocês vão se lembrar de mim”, disse, com um sorriso maroto.

Dito e feito: na semana seguinte, às vésperas da eleição para governador, Antonio Palocci foi preso, por ordem de Sergio Moro.

O teatro agora se repete.

Ontem, a cinco dias da data de registro da candidatura de Lula e Haddad na justiça eleitoral, o Jornal Nacional deu destaque ao depoimento da publicitária Mônica Moura, colaboradora da Lava Jato, ao juiz Sergio Moro, ele de novo.

Mônica prestou depoimento num processo específico sobre o departamento de Operações Estruturadas da Odebrecht, que, segundo a Lava Jato, fazia os pagamentos de propina.

Fez acusações graves, num depoimento gravado (com áudio, sem imagem), em que menciona Fernando Haddad e Dilma Rousseff.

Não apresentou uma mísera prova, mas suas falas mereceram destaque no Jornal Nacional:

“Chegavam com o dinheiro em mochila, malas ou na roupa, jaquetas, meia, diversas formas. Eu esperava no local pré-determinado, a pessoa chegava, me pedia a senha, entregava o dinheiro e ia embora”.

Disse também:

“Negociei com a Dilma, o valor foi todo negociado diretamente com ela, eu e ela. Pela primeira vez na vida eu negocio diretamente com uma presidente e com um candidato, valores”.

No depoimento, Mônica Moura também citou supostos pagamentos via caixa dois feitos pela Odebrecht nas campanhas para prefeitura de Fernando Haddad e Patrus Ananias, em 2012, além de campanhas no exterior. Disse:

“Nesse caso dos depósitos, que somam US$ 3 milhões, teve um fato inusitado. Como em 2012 foi o ano que fizemos recorde de campanhas, a Odebrecht estava colaborando em quatro das cinco campanhas: Angola, Venezuela, São Paulo Haddad e Minas Gerais, Patrus Ananias. Esses valores, quebradinhos, cada parte se refere a uma dívida. Mas todos campanhas políticas, não todos do PT”.

A repórter Ana Zimmerman, da Globo, informou que a Lava Jato identificou nas planilhas da Odebrecht repasses que somam 23,5 milhões ao casal, em contas no exterior, entre 2014 e 2015, e frisa: “quando a Lava Jato estava em andamento”.

Lembre-se que, nesse período, o casal João Santana/Mônica Moura, fez campanhas no exterior, sempre a serviço da Odebrecht, o que, no mínimo, deveria levantar a desconfiança de que os dois eram, primeiramente, ligado ao grupo empresarial.

Além disso, a repórter não informa que essas planilhas estão sob suspeita de fraude. A perícia da PF não conseguiu comprovar sua autenticidade, já que os arquivos originais, de onde foram extraídas as planilhas, estão inacessíveis.

Há indícios de que seriam mesmo provas forjadas.

Rodrigo Tacla Durán, advogado que trabalhou no setor de Operações Estruturadas da Odebrecht e que nunca foi sequer mencionado na Globo, já apresentou cópias de arquivos em seu poder que são diferentes das que foram juntadas pelo Ministério Público Federal nos processos sob condução de Moro.

Se Moro quer buscar a verdade — razão de qualquer processo — sobre como funcionava o setor de Operações Estruturadas, deveria ouvir Tacla Durán.

Mas ele foge do advogado como o rato foge do gato, com o pré-julgamento de que não falaria a verdade.

Pode-se dizer que, nesse processo, o testemunho de Tacla Durán não foi solicitado. Mas, em outros, foi. E Moro não quer nem ouvir falar dele.

A Globo também não apresenta esse contraponto, sonega de seu público a oportunidade de colocar na balança tudo o que se refere à Lava Jato e formar sua opinião.

Não é difícil entender por que. Desde que o nome de Haddad começou a ser ventilado como possível alternativa à candidatura de Lula, no PT já se esperava ataques rasteiros a ele.

Já se sabia que viriam da Lava Jato, com repercussão na Globo. Não deu outra. Mônica Moura foi a primeiro petardo. Vêm outros.

Hoje, a Lava Jato é um núcleo da disputa pelo poder político. Escrevi sobre isso em abril de 2018, no artigo “Preste atenção neste nome: Álvaro Dias. Ele é o candidato da Lava Jato e da Globo”.

A Polícia Federal, Ministério Público e a justiça federal em Curitiba, agindo em conjunto, são capazes de atuar para levantar nomes e derrubar outros.

Sozinhas, sem o apoio dos grandes veículos de comunicação — a velha imprensa —, não conseguem muito.

Mas, quando uns seguram (os aparelhos do Estado) e outros batem (a velha imprensa), provocam estragos.

É isso que se viu ontem, no Jornal Nacional. Com a boca de Mônica Moura, deram uma demonstração de força.

Não ficará só nisso.

Eles podem fazer o “faz de conta deles”, mas nós não precisamos engolir calados.

A cada tiro desses, é preciso reagir e contar que o objetivo da Lava Jato é qualquer coisa menos permitir que a democracia tenha o seu funcionamento normal.

Haddad está na mira deles, mas o público em geral já não acredita naquela farsa de Moro super herói. Ele age como parte. Mais do que isso, como político.

Esses tiros podem sair pela culatra.

Joaquim de Carvalho
No DCM
Leia Mais ►

Colunista da Veja que não lê a Veja

José Roberto Guzzo
O jornalista J.R. Guzzo tem uma coluna na Veja chamada “Fatos” em que não costuma dar muita bola para os fatos.

O piro mais recente é sobre Jair Bolsonaro.

“A dois meses da eleição para escolher o próximo presidente da República, está na hora de dizer com franqueza algumas coisas possivelmente incômodas a respeito do deputado Jair Bolsonaro, o candidato mais discutido desta e talvez de qualquer outra eleição presidencial brasileira”, diz.

“Não há lembrança de nenhuma figura parecida com ele. Nunca alguém foi tão odiado pelos adversários como Bolsonaro. Nunca um candidato a qualquer coisa neste país encontrou tanta oposição nos meios de comunicação quanto ele. Nunca houve tanto esforço para implodir uma candidatura quanto o que está sendo feito contra a sua. Ninguém, antes dele, foi descrito com tanta indignação como uma ameaça à democracia, à população brasileira e à própria ideia de uma vida civilizada no Brasil.”

Abaixo, algumas capas da própria Veja contra Bolsonaro. Nunca antes na história desse país um candidato encontrou tanta oposição nos meios de comunicação, lembra o Guzzo.


No DCM
Leia Mais ►

Assessor nomeado na Câmara do Rio trabalha na campanha de Bolsonaro

Eles
Assessor pessoal de Jair Bolsonaro (PSL) durante toda a pré-campanha, Tercio Arnaud Tomaz, dono de ao menos uma página de apoio ao capitão da reserva no Facebook, além de outra no Instagram, recebe salário da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro desde dezembro de 2017 sem trabalhar de fato no legislativo carioca.

Tercio foi nomeado para o cargo de auxiliar de gabinete, com salário de R$ 3.641, pelo vereador Carlos Bolsonaro (PSL), filho do presidenciável. A função do assessor, no entanto, é acompanhar Jair Bolsonaro para a produção de vídeos e postagens do candidato do PSL em redes sociais.

Na terça-feira, 7 de agosto, a reportagem de O GLOBO entrou em contato com o gabinete de Carlos Bolsonaro na Câmara Municipal. Um funcionário informou que Tercio não costuma cumprir expediente no local. Outras duas fontes próximas a Bolsonaro confirmaram a informação.

— Ele é externo. Ele acompanha o deputado Jair, entendeu? Fica externo — disse Edivaldo Souza da Silva, funcionário do gabinete de Carlos Bolsonaro no Rio.

No ar desde junho de 2015, a página “Bolsonaro Opressor 2.0” costuma promover o candidato por meio de memes agressivos contra adversários do político - entre eles Geraldo Alckmin, Lula, Marina Silva e Ciro Gomes - além de publicar mensagens de apoio ao presidenciável do PSL.

A página também promoveu críticas pesadas à vereadora Marielle Franco um dia depois do seu assassinato no bairro Estácio, em 14 de março. Em uma matéria que anunciava a intenção da irmã de Marielle de se lançar na política, a legenda dizia: “Do jeito que tá indo, vão empalhar o cadáver e levar em comício”.

Desde a última sexta-feira, a equipe de reportagem vem procurando Tercio nos gabinetes de Carlos, Eduardo e Jair Bolsonaro. Na última sexta-feira, O GLOBO procurou ele na Câmara dos Vereadores e no gabinete de Jair, em Brasília. Na Câmara do Rio, uma funcionária afirmou não conhecer nenhum Tercio. Em Brasília, um servidor do gabinete do deputado Eduardo disse que Tercio "não havia chegado ainda", e que não poderia passar o número de telefone de "assessores que não estão aqui".

Segundo as fontes, a verdadeira ocupação do assessor parlamentar é a produção de conteúdo digital da campanha do capitão da reserva, filmando e fotografando o deputado em momentos de descontração e em intervalos da agenda de pré-campanha.

O material produzido por Tercio e outros auxiliares com função semelhante é remetido para o gabinete de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados, onde dois funcionários editam e produzem memes. As postagens são aprovadas pessoalmente por Jair Bolsonaro antes de publicadas. A página "Bolsonaro Opressor 2.0" acumula mais de 1 milhão de seguidores no Facebook e 211 mil no Instagram.

Uma segunda página chamada “Bolsonaro Opressor 2.0²” costuma republicar o mesmo conteúdo postado pela página do assessor. Em janeiro, quando Jair Bolsonaro gravou um vídeo em sua casa em Angra dos Reis ambas as páginas publicaram o mesmo vídeo com o mesmo post, inclusive com os mesmos erros de português com minutos de diferença. “Bolsonaro vai na casa em angra e MOSTRA a mentira da Folha de são paulo”. O caso se repetiu outras vezes como, em 20 de março, nas críticas a vereadora Marielle Franco. No dia seguinte à sabatina na Globonews, a “Bolsonaro Opressor 2.0²” publicou um vídeo do candidato nos bastidores.

Uma postagem de 2016 da “Bolsonaro Opressor 2.0²”, porém, faz graves ameaças a adversários políticos de Bolsonaro. Em uma fotomontagem com a inscrição "Caso Bolsonaro seja presidente.." a deputada Maria do Rosário caída como se tivesse levado um tiro e os deputados Jean Wyllys (Psol-RJ) e Benedita da Silva (PT), além dos ex-presidentes Lula e Dilma estão amarrados por camisas de força.

Página faz postagens de ataque aos adversários políticos de Bolsonaro 
Facebook / Reprodução
MAIS DE R$ 27 MIL EM SALÁRIOS

A nomeação de Tercio foi publicada no Diário Oficial da Câmara dos Vereadores em 14 de dezembro de 2017, uma semana da exoneração do assessor do gabinete de Jair Bolsonaro, mas foi válida desde o primeiro dia daquele mês.

Desde então, o auxiliar de gabinete recebeu, em valores brutos, ao menos R$ 27,6 mil, sem contar possíveis gratificações. Tercio esteve nomeado entre abril e dezembro de 2017 no gabinete de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados, onde recebia R$ 2,1 mil mensais.

Formado em biomedicina em uma faculdade de Campina Grande - mesma cidade de Julian Lemos, presidente do PSL na Paraíba e aliado de primeira hora de Bolsonaro - Tercio trabalhava como recepcionista em um hotel antes de ser convidado a integrar o gabinete do deputado em Brasília.

— Ele pediu para sair, conseguiu uma proposta melhor — disse Edilma Gaudino, sua antiga chefe, segundo a qual as funções de Tercio incluíam ajudar hóspedes a acessar a internet.

Jair Bolsonaro e sua assessoria foram procurados por telefone e mensagens de texto, mas não retornaram os contatos. O chefe de gabinete de Carlos Bolsonaro, Jorge Luiz Fernandes, negou que Tercio trabalhe na campanha do capitão da reserva, embora admita que ele o acompanhe em algumas agendas da pré-campanha.

— Nenhum funcionário do gabinete do vereador Carlos Bolsonaro trabalha na pré-campanha de Jair Bolsonaro — afirmou, em nome do vereador.

Em nota, a Câmara dos Vereadores do Rio afirmou que "os cargos em comissão são de livre nomeação e responsabilidade de cada parlamentar", além de destacar que os comissionados estão submetidos à mesma legislação que rege a atuação dos servidores públicos da prefeitura do Rio.

ESPECIALISTAS VEEM POSSÍVEL IRREGULARIDADE

Para Paulo Corval, professor de Direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), se comprovada pelas autoridades, o desvio de função de Tercio para a campanha de Jair Bolsonaro pode configurar improbidade administrativa.

— É uma violação funcional do servidor e de seu chefe imediato, que é o vereador — explica — O fato poderia caracterizar improbidade administrativa. O mero descumprimento da lei, por si só, já é caracterizado assim. Se for caracterizado que o servidor atuava fora de sua função, pode até ser obrigado a devolver os recursos ao erário.

Já Daniel Falcão, professor do Instituto Brasiliense de Direito Público e especialista em Direito Eleitoral e Constitucional, diz que, em tese, pode ter havido irregularidade também do ponto de vista da candidatura de Jair Bolsonaro.

— Isso pode ter configurado abuso de poder político, porque estaria usando um funcionário subordinado a outra pessoa, utilizando-se de seu prestígio como deputado, para trabalhar para si próprio — avalia.

No Globo
Leia Mais ►

O “cascatão” da Justiça, um poder sem pudor


Na esteira do reajuste “chapado” do Judiciário autoconcedido anteontem, ontem foi a vez do Ministério Publico doar-se um reajuste nos vencimentos.

Calma, porque não vai parar aí: vem uma chusma de ‘gravatinhas’ atrás: parlamentares, procuradores, auditores, toda aquela gente que se proclama guardiã da moralidade pública. Ah, sim, virão também os delegados e toda a corja que se arroga em campeã da honestidade.

No Rio de janeiro, quebrado.

Não, não estou pregando “sacerdócio” aos meritocratas e muito menos a redução do servidor público à pobreza franciscana.

Apenas reflito sobre a capacidade de que essa gente possa trabalhar, efetivamente, para a redução das injustiças, quando passa a aceitar que a satisfação de seus interesses pessoais , que consideram legítimos, nada tenha a ver com a penúria coletiva.

Todos alegam que vão cortar o correspondente a seus aumentos de benefícios em outras despesas, mas despesas que têm a ver com a sua própria capacidade de exercerem a função pela qual são regiamente pagos.

Porque cortar naquelas que fossem supérfluas seria, antes, um dever de quem prega a austeridade no uso dos recursos públicos.

As carreiras de Estado são, obviamente, presas à natureza do Estado. Se o queremos igualitário, equilibrado socialmente, assim também elas devem ser.

Do contrário, estaremos admitindo que, dentro do Estado, formem-se subdivindades, com o poder da verdade, às quais o povo tenha de prestar tributo, em sua miséria.

Todos os governantes que se opuseram a isso enfrentaram o ódio desta casta.

No seu governo no Rio de Janeiro,  mesmo um mecanismo suave e progressivo de equalização de vencimentos proposto por Leonel Brizola aceitaram. Derrubaram na Justiça – ora, ora, poderia ser diferente?” – a figura do “redutor remuneratório”, uma espécie de gatilho que podava em 20% o valor dos reajustes para as categorias mais bem pagas em relação ao concedido à generalidade do funcionalismo. Por exemplo, se o reajuste geral fosse de 10%, para estas categorias seria de 8%. Nada draconiano, portanto.

Agora, a situação é pior, muito pior.

Não é preciso dizer que delegados, promotores e juízes se tornaram donos da vida política do país, decidindo, como césares, com seu polegar quem deve viver e quem deve “morrer”, sepultado pelo noticiário dos jornais.

Se nos deprime e revolta, o episódio a uma coisa ao menos serve: evidencia a falta de sensibilidade e de espírito público desta casta.

Fernando Brito
No Tijolaço
Leia Mais ►

“URSAL” – Loucos? Pero no mucho…

A fake news sobre a exustência da URSAL, lançada pelo cabo Daciolo no debate da Band, virou piada mas é coisa muito séria, e não é novidade...


Vladimir Ilitch Ulianov (Lênin), em agosto de 1915, numa revista russa chamada Sotsial-Demokrat, argumentava pela criação dos “Estados Unidos da Europa”. Lênin afirmava que a Europa NECESSARIAMENTE precisaria se unir para sobreviver. Seja em torno de um projeto capitalista, para manter a competição capitalista em mínima igualdade com os EUA, seja em torno do projeto socialista/comunista, a única solução para a Europa, de acordo com Lênin, seria a unificação. Não deixa de ser interessante que, dois anos antes da Revolução de Outubro, o principal pensador socialista do século XX, e também o principal líder revolucionário, tenha dado não apenas o caminho, mas as razões pelas quais a Europa viria a se unir em 1993 pelo Tratado de Maastricht.

Mapa da União Europeia
Os projetos de unificação dos espaços geográficos, geralmente passando por cima dos “nacionalismos”, apesar de terem sido uma política internacional de diversos partidos comunistas, não se restringe somente a eles. Desde o século XIX, unificações e uniões dinásticas aumentavam os territórios e acumulavam suas capacidades econômicas para fortalecer as burguesias e o capitalismo. O primeiro exemplo é de Napoleão Bonaparte e toda a reorganização do mapa Europeu com a criação da Confederação do Reno e do Reino da Itália. Não fosse pela oposição britânica e pela fuga de D. João VI para o Brasil, o imperador francês teria unificado também (e de novo) a península ibérica.

Em 1815, no Congresso de Viena, desfazem-se as unificações de Napoleão, apenas para se criarem outras, como os “Países Baixos”, o “Reino da Baviera” ou o “Reino das Duas Sicílias”. Mais adiante, no final do século XIX, as unificações de Alemanha e Itália, promovem outras formas de associações de estados pequenos em unidades maiores, frequentemente desconsiderando todas as diferenças culturais, étnicas e políticas com o objetivo de criar estados que pudessem resistir às investidas econômicas e militares de outros. No final da primeira guerra e, também da segunda, a mesma ideia foi colocada em prática pelos vencedores criando-se, por exemplo, a Tchecoslováquia e a Iugoslávia.

Na América, a própria independência dos EUA é um caso de união de unidades administrativas menores em um corpo político maior, cujo objetivo era – ainda que passando por cima de diferenças culturais – fortalecerem-se frente ao imperialismo inglês. Simon Bolívar vai criar a “República de la Gran Colômbia” entre 1819 e 1830, unindo Equador, Colômbia e Venezuela e não escondia o desejo de criar na América “a maior nação do mundo” com o nome “Colômbia”, que reuniria todas as antigas colônias espanholas.

Cena do filme Libertador, que narra a história de Simón Bolivar,
libertador das americas
No último debate presidencial, a pergunta de um candidato de direita sobre o “plano para criar a URSAL” está movimentando as redes. Segundo o candidato, haveria um planejamento “pela esquerda” da criação da “União das Repúblicas Socialistas da América Latina” e contra tal plano, o candidato asseverou fortemente que seria contra. Afinal, o que é a “URSAL” e contra o quê efetivamente o candidato se insurgia?

O termo “URSAL” surge entre 2007 e 2008, em postagens de um conhecido colunista de direita de uma revista brasileira para expressar o desespero que este conservador sentia diante da vitória eleitoral de tantos candidatos de esquerda. Álvaro Colom, na Guatemala, Daniel Ortega na Nicarágua, Oscar Árias na Costa Rica, Hugo Chavez na Venezuela, Mauricio Funes em El Salvador, Rafael Correa no Equador, Evo Morales na Bolívia, Michelle Bachelet no Chile, Fernando Lugo no Paraguai, Tabaré Vázquez no Uruguai, Cristina Kirchner na Argentina se juntavam a Lula no Brasil e Raúl Castro em Cuba. Ao invés dos conservadores perceberem este movimento como a negação clara e objetiva do fracassado projeto neoliberal dos anos 90, eles preferiram criar uma teoria da conspiração em âmbito mundial. Aproveitando-se do que foi a guerra de propaganda que os EUA impuseram no mundo a partir dos anos 60, a histeria comunista foi resgatada por uma geração que foi educada sobre esta sombra.

Não poderia ser o neoliberalismo e seus efeitos a causa da vitória da esquerda. Afinal, na cabeça destes conservadores, os dados objetivos do aumento da fome, da miséria, das dívidas com fundos internacionais e a destruição dos empregos junto com o rebaixamento de países à condição de meros fornecedores de matérias-primas não foram resultado das terríveis políticas neoliberais implementadas. A partir de 2008, após a grande crise do capitalismo mundial, era preciso limpar a história do neoliberalismo. Dizer que tudo o que o Brasil e a América Latina tinha experimentado, nos penosos anos 90, eram fruto de desgovernos e “populismo”, mas não de planos e objetivos equivocados e, entre eles, o neoliberalismo.

Ali começava um trabalho de reescritura do passado, cujo objetivo era não permitir que a crise de 2008 desse ainda maior espaço para as críticas da esquerda a respeito do capitalismo. Narrativas de conspiração foram criadas, e entre elas, o pânico da integração Latino-Americana ganhava as páginas de revistas conservadoras. A criação da ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), criada em 2004 e com tratado de comércio em 2006 e a UNASUL, criada em 2008 precisavam ser atacadas. Não pelas iniciativas de cooperação e diminuição de tarifas e barreiras entre os países do sul e, no caso da ALBA, do Caribe, mas pelo risco que este bloco trazia aos interesses capitalistas.

Do ponto de vista de um colunista conservador, semi-informado, lunático e, provavelmente, sem seus medicamentos neurolépticos, todo este movimento não poderia ser explicado pela negação do povo aos efeitos maravilhosos do capitalismo (entre eles a fome, a miséria, desemprego, inflação, dívida e etc.). Era preciso que se instilasse o medo. Era preciso criar o mesmo gatilho que os pais e avós desta geração vivenciaram. O comunista “comedor de criancinha”, aquele que viria tomar a sua casa e o carro (no caso hoje, o seu Iphone e computador), aquele barbudo fumador de ervas extravagantes que não tinha nenhum apreço pelos valores do ocidente como “democracia”, “liberdade” ou mesmo o salutar banho.

Capa do Dossiê Ursal, que “denunciava” a criação da URSAL,
ainda em 2007
Entre 2007 e 2008, o acrônimo “URSAL” surge ligado a sites de militares (como o “brasilacimadetudo.com”) ou a grupos conservadores (como a midiasemmascara.org) como uma ferramenta para compreender a guinada à esquerda de toda a América Latina. O termo ganha até uma página falsa, feita por conservadores, para parecer real (http://www.socialismobrasil.xpg.com.br/URSAL.html) com direito a banner com letras russas e foto de Karl Marx, Lenin e Che Guevara. O devaneio conta também com a ajuda do presidente Lula que, numa das reuniões do Foro de São Paulo, após a morte de Chavez, afirma que as eleições de progressistas na América Latina “não poderiam ter acontecido sem o Foro de São Paulo”. Pronto! Não apenas os nossos Sherlock Holmes tinham desvendado o mistério, mas tinham agora um vídeo do Professor Moriarty confessando tudo. A URSAL era o plano diabólico final da união entre a ALBA e a UNASUL, trazendo o comunismo soviético de volta e deixando os “homens de bem” em desespero. Era preciso, na visão sem haloperidol, destes colunistas, “acordar a classe média”. Era preciso salvar a família, o capitalismo e a “liberdade”.
O governo Lula sequer foi o primeiro governo a olhar para o Sul com uma visão mais agregadora e cooperativa. Jânio Quadros e João Goulart já haviam feito isto com a PEI (Política Externa Independente). A bem da verdade, até a política externa do ditador militar Ernesto Geisel foi mais voltada para o Sul do que o desastre neoliberal de Fernando Henrique. A subserviência de Luiz Felipe Lampreia e Celso Lafer entraram para a história das Relações Internacionais do Brasil e eram um modelo (a não ser seguido) até os desastres maiores de José Serra e Aloysio Nunes no comando do Itamaraty.
Por um lado, a URSAL é um delírio de conservadores brasileiros a explicarem porque o povo de toda a América Latina votou massivamente em projetos progressistas de esquerda a partir do fracasso das políticas neoliberais. Por outro lado, a URSAL é a comprovação da incapacidade da equipe do presidenciável que fez a pergunta de, pelo menos, buscar um tipo de ajuda profissional psiquiátrica ou psicológica ANTES de assumirem a responsabilidade do trabalho de assessorar um candidato. Contudo, há também um outro lado nesta história … A URSAL, afinal, nos parece uma grande ideia … Uma ideia de união dos povos que remonta a Lênin e Bolívar. Uma ideia contra a qual o capital internacional desesperadamente gasta milhões para convencer jovens pobres, esfomeados, sem emprego e perspectiva que eles não devem buscar uma mudança política, pois esta mudança lhes resultará num mundo sem, comida, emprego e perspectiva.

Pois é preciso que digamos: bem-vinda a ideia da URSAL! Que possamos nos unir e nos tornar mais fortes, afirmando nossas peculiaridades e nossa crença que um futuro mais igual, social e economicamente, é possível. Como disse o maior dos comedores de criancinha, na grande “bíblia vermelha” (O Manifesto Comunista): “Os proletários não têm nada a perder, a não ser e talvez, suas próprias correntes. E tem o mundo a ganhar.”

Fernando Horta
No Jornalistas Livres
Leia Mais ►

Noruega planeja tratar dependentes de droga com fornecimento gratuito de heroína

A Noruega tem uma das maiores taxas de mortalidade por overdose na Europa – 81 vítimas fatais por milhão de habitantes em 2015.


O governo norueguês anunciou um plano para fornecer heroína gratuita aos usuários de drogas mais dependentes, em uma tentativa de melhorar a saúde e condições de vida desses cidadãos e reduzir as altas taxas de overdoses fatais, noticia a agência AFP.

"Esperamos que isso forneça uma solução que proporcione uma melhor qualidade de vida a alguns dependentes de drogas que hoje estão fora de nosso alcance e a quem os atuais programas de reabilitação não ajudam em nada", afirmou o ministro norueguês da Saúde, Bent Hoie.

O projeto experimental envolvendo a prescrição de heroína gratuita aos dependentes deve ser lançado pelo Departamento Norueguês de Saúde e Assuntos Sociais até 2020.

Como a expectativa do número de dependentes abrangidos é de cerca de 400 pessoas, ainda não está claro como estas serão selecionadas e quanta droga será prescrita.

Muitos noruegueses não concordam com esse tipo de terapia, que já foi adotada ou testada na Dinamarca, Holanda e Suíça.

Defensores do plano apontam reiteradamente para as supostas melhorias na qualidade de vida dos dependentes, queda nas taxas de mortalidade por overdose e redução da criminalidade.

Leia Mais ►

O maior fake news foi a criação do fantasma do fake news


O país tem imensa dificuldade em analisar fenômenos novos, de ruptura. Há uma emulação atrasada das discussões que ocorrem nos grandes centros, com pouca análise e enorme vontade de protagonismo por parte de autoridades.

É o que explica as manifestações virulentas do Ministro Luiz Fux – um penalista no sentido mais restrito do termo – ameaçando com o fogo do inferno os geradores de fake news, apresentado por ele como a última grande ameaça à democracia. Fux convocou Ministério Público Federal, Polícia Federal, Gabinete de Segurança Institucional para a grande frente destinada a fazer busca e apreensão nas casas dos geradores de boatos, antes que eles fossem divulgados. Ou seja, instituir a censura prévia.

Os jornais entraram na mesma onda. Por aqui mostramos que a campanha contra os fake news foi deflagrada por uma pesquisa fake propagada por blogs ligados à Atlantic Council – um escritório de lobby nos Estados Unidos – com a intenção de controlar o conteúdo nas redes sociais.

Veja, a propósito, o “Xadrez do jogo político dos fakenews”.

Nos últimos dias, duas manifestações relevantes mostraram o engodo por trás da dramatização do fenômeno.

A primeira delas foi em uma palestra exemplar do Procurador Geral Eleitoral Humberto Jacques de Medeiros.

Ele identificou dois fenômenos, um velhíssimo, outro recente. O fenômeno velho é o da mentira, tão antigo quanto a civilização. Lembrou ele que a proclamação da República foi acelerada pelo boato de que a sucessão da coroa seria para um príncipe francês, o Conde D’Eu, marido da princesa Isabel.

Quando surgem novas mídias há uma desorganização no mercado de informações. Mas nada que não possa ser combatido pelos mecanismos jurídicos tradicionais – crimes contra a honra, direito de resposta etc. Discursos de ódio são de outra natureza, que nada tem a ver com o direito à informação e à opinião. Ódio não é opinião, é expressão. E a liberdade de expressão tem seus limites, principalmente quando o ódio incita a condutas ilícitas.

O fenômeno novo, diz ele, é o discurso de ódio contra as opiniões divergentes, no qual a manobra mais ostensiva consiste em recorrer ao vocábulo fake news, por si só uma manifestação de ódio. Hoje em dia, pode-se desqualificar qualquer informação com o carimbo de fake news.



Entende ele que a campanha contra fakenews visa, no fundo, impor a censura às ideias e opiniões.

Uma coisa é o perfil falso em redes sociais e o discurso de ódio, que nada tem a ver com o mercado de notícias. Outra coisa são as opiniões e discussões que devem ser as mais abertas e plurais possíveis, porque este é um princípio da civilização. Esse termo, fakenews,  pode desqualificar o trabalho jornalístico sério. Basta impingir o carimbo de fake news.

A resposta às notícias falsas não pode ser uma resposta violenta. Mas com mais informação, mais empoderamento do eleitor, do destinatário das mensagens.

Entende ele que os discursos polarizadores mais tradicionais são os discursos de ódio. Faz com que toda a cidadania se concentre em certos assuntos, queira saber a opinião do candidato exclusivamente sobre aquele tema, deixando de lado a discussão de propostas.

A segunda manifestação foi de David McCraw, vice-presidente do The New York Times – jornal que na década de 1870 protagonizou uma das primeiras manipulações políticas nas eleições, em parceria com uma nova tecnologia que surgia, o telégrafo sem fio.

Sobre as leis contra os fake news: Acho que essas leis serão distorcidas e usadas contra a verdade. Na maioria dos países em que leis foram implementadas, elas foram pensadas para calar os oponentes”.

Sobre o controle a checagem de notícias falsas pelas redes sociais: Mas é importante que as plataformas sejam transparentes. Como eles tomaram essas decisões? Como identificaram essas contas falsas? Porque é muito fácil para eles exagerarem e começarem a silenciar vozes com as quais discordam. Esse não deve ser o objetivo, a meta tem que ser uma discussão honesta, com variedade de discursos. Fico preocupado porque as plataformas não têm sido sempre abertas a explicarem como tomaram essas decisões. E precisamos saber para que possamos decidir se elas estão trabalhando para o melhor interesse da sociedade ou se tem uma agenda oculta.

Luís Nassif
No GGN

Veja também: Fakenews é fake
Leia Mais ►

Alckmin ou Bolsonaro? Tanto faz. Quem vai mandar na economia vai ser o banco BTG Pactual


Quando o jornalismo se refere a esse ente abstrato chamado “mercado”, saiba que é apenas o nome impessoal dado um punhado de empresas do setor financeiro, de origem nacional e estrangeira, cujas sedes se concentram no Rio e em São Paulo.

O Banco Central divulga semanalmente o Relatório Focus, que apresenta as expectativas do “mercado” sobre uma série de variáveis econômicas. Em seu último número, vê-se que “ele” espera para 2018 uma inflação de 4,11%, e de 4% para 2019 e 2020.

O valor científico dessas previsões é próximo de zero, já que os economistas não acertam sequer a inflação do mês corrente. Mas isso não significa que elas são inúteis. O fato de o mercado projetar uma inflação no centro da meta para os anos vindouros, significa que ele está tranquilo em relação ao próximo governo do país.

Na República Velha, que durou entre 1889 e 1930, São Paulo era café, e os cafeicultores elegiam seus presidentes. Na Nova República, São Paulo é derivativos, e o setor financeiro elege seus presidentes.

Mesmo quando um outsider ameaça romper a política do café-com-leite moderno, ele é obrigado a beijar a mão do “mercado”.
Na República Velha, São Paulo era café, e os cafeicultores elegiam seus presidentes. Na Nova República, São Paulo é derivativos, e o setor financeiro elege seus presidentes.
Exemplo claro disso foi Lula em 2002, com sua Carta aos Brasileiros e a escolha de Henrique Meirelles para comandar o Banco Central. Meirelles era àquela altura deputado federal eleito pelo PSDB e ex-funcionário da alta cúpula internacional do Bank Boston. Ou seja, era um digno representante dos que mandam nesta terra, feito o filho bacharel de um grande cafeicultor de Campinas no início do século passado.

Agora, o plano A do “mercado” é Alckmin. Além de paulista, e com bom trânsito nas regiões da Paulista e Vila Olímpia, sede de grandes empresas e bancos, Alckmin tem sua equipe econômica liderada por Pérsio Arida.

Arida é ele mesmo um desses milionários do “mercado”, sendo quem assumiu o controle do banco BTG Pactual quando André Esteves foi para o xilindró, na esteira da queda de Delcídio do Amaral.

Nascido em São Paulo, Arida é doutor em Economia pelo MIT, o badalado Massachusetts Institute of Technology. Tornou-se nacionalmente conhecido no início dos anos 1980 como professor da PUC-Rio, quando elaborou um plano de combate à inflação junto com André Lara Resende, que serviria de base para o Plano Real.

Arida trabalhou na burocracia estatal já no governo Sarney, durante a implementação do Plano Cruzado. Depois voltou à cena no governo FHC, dirigindo o Banco Central e o BNDES. Na época do BC, surgiram denúncias de que ele teria repassado informações privilegiadas para Fernão Bracher do banco BBA, banco de investimentos que administra fortunas incorporado pelo Itaú em 2002.

Saindo do governo, entrou pela porta da frente do “mercado”.

Arida é um liberal. Em entrevista recente disse: “O Estado tem de deixar de ser empresário. O que as pessoas querem hoje e o que Brasil precisa é de uma economia dinâmica. Para isso, não precisa de estatal”. Acredita que o Brasil não pode crescer mais de 2% ao ano, bem como que os juros bancários só poderão ser reduzidos se forem retiradas as interferências governamentais. Subsídios creditícios e crédito direcionado, acredita, são as causas dos juros elevados. Nada de errado com os bancos, pois.

Sua proposta é, resumidamente, a de avançar nas privatizações, abrir a economia à competição internacional e reduzir a regulamentação estatal sobre o funcionamento dos mercados.

No caso do plano A falhar, o “mercado” está claramente disposto a acionar seu plano B: Bolsonaro.

Suas declarações afirmando ser ignorante em assuntos econômicos têm duas dimensões. A primeira, suas óbvias limitações cognitivas. Segundo, e mais importante, sinaliza ao “mercado” que toda as coisas que disse ao longo de sua vida parlamentar sobre assuntos econômicos, que tendiam para um nacionalismo do tipo Médici-Geisel, eram palavras ao vento de um incauto.

A equipe econômica de Bolsonaro é liderada por Paulo Guedes.

Guedes é doutor em Economia pela Universidade de Chicago, a mais famosa escola econômica liberal do mundo. Como Arida, teve seu momento como acadêmico, lecionando na PUC e na FGV do Rio. No início dos anos 1980, foi um dos fundadores do banco Pactual, que está na origem do BTG Pactual há pouco mencionado.

Coincidência? Quiçá.

A verdade é que o universo das grandes finanças do país é pequeno. E o BTG Pactual orgulha-se de ser o quinto maior banco brasileiro, e o maior banco de investimento “puro sangue” da América Latina.

No dia 2 de agosto, o economista Paulo Guedes e o candidato à Presidência Jair Bolsonaro participaram de uma "live" do PSL nas redes sociais.
No dia 2 de agosto, o economista Paulo Guedes (à esquerda) e o candidato à 
presidência Jair Bolsonaro participaram de uma “live” do PSL nas redes sociais.
Foto: Divulgação/PSL

Estamos, pois, falando de uma máquina de fazer dinheiro em grande escala e cujos donos interferem de maneira republicana (ou não) nos rumos da política nacional.

Guedes era um dos dirigentes da Bozano Investimentos, empresa do bilionário Júlio Bozano (que ganhou uma bolada na época das privatizações dos anos 1990). A empresa tem hoje uma carteira de investimento acima dos 3 bilhões de reais.
A “agenda Guedes” é a mesma de Arida, mas sob o efeito de anabolizantes.
Guedes é também um dos principais nomes do Instituto Millenium, o think tank ultraliberal, cujo panteão de colunistas conta com grandes nomes do “mercado”, como Gustavo Franco e Alexandre Schwartzman, para ficar nos mais conhecidos.

A “agenda Guedes” é a mesma de Arida, mas sob o efeito de anabolizantes.

E se tudo der errado, há ainda Marina Silva, que viveu encangada com Neca Setúbal, filha do fundador e sócia do banco Itaú. O maior banco privado do país (junto com Bradesco) e uma de nossas grandes multinacionais. Cabe lembrar que Itaú, BB, Caixa e Bradesco controlam quase 80% de todos os depósitos bancários do país.

Marina conta ainda com o auxílio de Lara Resende, parceiro intelectual de Arida nos anos 1980.

Lara Resende tem currículo parecido com os dois anteriormente citados: doutor pelo MIT, passagem pela academia, pela burocracia estatal e pelo “mercado”.

Foi recentemente apedrejado por seus pares, quando suspeitou de que poderia haver algo de errado no sistema financeiro nacional, dono das maiores taxas de juros.

Lara Resende, porém, está a anos-luz de ser um heterodoxo ou outsider. Só vacilou em sua fé.

Enfim, não tem como dar errado. O “mercado” já elegeu seu próximo presidente.

Não se governa país algum indo-se contra a elite econômica local. E a elite econômica do Brasil de hoje são as empresas financeiras.

A nós, resta o voto de cabresto desse coronelismo repaginado.

Alexandre Andrada
No The Intercept
Leia Mais ►

Como tratar os militares: a lição de Kirchner a seus colegas brasileiros


Decorridos 34 anos da redemocratização, o Brasil assiste estupefato ao surgimento de uma chapa puro sangue de extrema direita disputando a  corrida presidencial.

Defensores da ditadura militar que por duas décadas controlou com mão de ferro o país, os candidatos do PSL, o capitão da reserva Jair Bolsonaro e o general de pijama Hamilton Mourão, não apenas estimulam as viúvas de 1964, que pregam uma nova intervenção militar, como se identificam e  glorificam torturadores.

O mais tristemente famoso deles é o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, responsável pela prisão de mais de quinhentos brasileiros e pela morte de cinquenta no tempo em que comandou o Doi-Codi, em São Paulo, no início dos anos 1970.

Na origem desse fenômeno, seguramente está a forma como foi negociada a transição do regime militar para o civil. A começar pela anistia ampla, geral e irrestrita, que nivelou e tratou de forma igual perseguidos e perseguidores.

Isto é, colocou-se no mesmo balaio as pessoas que haviam sido condenadas e cumpriram suas penas, os que se exilaram ou foram banidos do país, e os agentes do terrorismo de Estado, da alta hierarquia das Forças Armadas aos agentes da repressão, responsáveis por 223 mortes e pelo desaparecimento de 210 presos políticos, de acordo com a Comissão Nacional da Verdade.

Em seu relatório final, com 4328 páginas, entregue no dia 10 de dezembro de 2014 à presidente Dilma Rousseff, a Comissão aponta 377 pessoas como responsáveis diretas ou indiretas pela prática de tortura e assassinatos durante a ditadura militar, entre 1964 e 1985.

À exceção de Ustra, que confirma a regra, condenado pela morte do jornalista Luiz Eduardo Merlino em 1971, todos os agentes identificados pela Comissão da Verdade foram poupados de qualquer julgamento.

A conciliação à brasileira, que jogou para debaixo do tapete toda tentativa de revisar a lei de Anistia e penalizar os carrascos, contou com a conivência do Judiciário, do Congresso e de todos presidentes que se sucederam desde 1985. Em nome da prudência, para não melindrar os militares, optou-se pelo silêncio.

Situação bem diferente do que ocorreu na vizinha Argentina.

Desde a queda da ditadura militar, em1983, seus crimes foram cobrados publicamente. Mesmo as tentativas de beneficiar os criminosos, que durante algum tempo prevaleceram, acabaram na lata do lixo da história.

Foram decisivas, no caso argentino, a firmeza e a coragem política de dois de seus presidentes pós-ditadura.

O primeiro foi Raul Alfonsin, do Partido Radical, que revogou uma auto anistia promulgada pelos militares nos estertores do regime, o que permitiu a condenação e encarceramento de dezenas de integrantes das forças armadas e policiais, incluindo ex-chefes de governo.

O segundo foi o peronista Néstor Kirchner, que ao assumir o poder, em 2003, anulou um indulto concedido em 1990 por um de seus antecessores, o também peronista Carlos Menem.

Kirchner, da ala esquerda do Partido Justicialista, fundado pelo general Juan Domingo Perón, foi além. Publicamente, pelo menos em duas oportunidades enquadrou os militares, reafirmando seu repúdio ao arbítrio e compromisso com a democracia.

A mais sensacional dessas manifestações foi seu pronunciamento à tropa e ao oficialato do Exército, reunidos no Colégio Militar, em Buenos Aires, no dia 29 de novembro de 2006 (vídeos abaixo).

Com voz firme, do alto de uma tribuna, Kirchner encarou o mar de homens fardados e armados à sua frente:

“Quero que fique claro que, como presidente da nação argentina, não tenho medo, nem os temo. Só queremos o Exército de San Martin, Belgrano  e Sávio e não daqueles que assassinaram nossos próprios irmãos, que foram Videla, Galtieri, Viola e Bignone. Há um novo país. Necessitamos de soldados comprometidos com a pátria.

E como presidente da nação argentina, venho reivindicar um Exército Nacional, comprometido com o país e distanciado definitivamente do terrorismo de estado.

Senhores oficiais e suboficiais: lhes peço fortemente que definitivamente incorporem esse conceito e essa filosofia à construção da pátria que nós argentinos necessitamos.”

Dois anos antes, no mesmo Colégio Militar, ao deparar com as fotografias dos ditadores Jorge Rafael Videla e Reynaldo Bignone na galeria de ex-diretores da instituição, Kirchner ordenou ao comandante do exército Roberto Bendini que as retirasse da parede. “Proceda”, disse.

Obediente, o próprio Bendini baixou as fotos.

Pelo que consta, até hoje nenhum saudoso da ditadura de Videla e companhia ousou colocar as manguinhas de fora na Argentina.

Muito menos apareceram cavalgaduras puro sangue candidatando-se à presidência da República.





Miguel Enriquez
No DCM
Leia Mais ►

Pobre vota Lula

Encontrem a prova na pesquisa Ibope: com o apoio da maioria, o ex-presidente esmagaria Bolsonaro, sem contar o apoio incondicional das mulheres


A pesquisa de intenções de voto para a disputa presidencial de outubro tem mostrado que a mídia brasileira reacionária e preconceituosa esconde um dado significativo no processo eleitoral e evita informações sobre um aspecto valioso da competição: o caminho tomado pelos eleitores ao longo do início e o fim do processo até a boca das urnas.

Limita-se, a mídia, a publicar o que tempos atrás era chamado ironicamente no mundo político de “corrida de cavalo”. Publica-se, em regra, apenas o porcentual de votos de cada um dos candidatos. E isto, então, bastaria para o eleitor. Mas não basta.

É o que indica a eleição de agora. Não aparece, por exemplo, o fato de os eleitores mais pobres estarem dispostos a garantir a vitória de Lula, possivelmente ainda no primeiro turno, se somados os votos de outros agrupamentos eleitorais favoráveis a ele.

Sondagens, como a mais recente divulgada pelo Ibope, apontam nessa direção. Caso a eleição fosse hoje, o ex-presidente teria 33% dos votos e Bolsonaro, 15%. Lula, com tal quantia de votos, teria também vantagem sobre a soma dos votos de uma dezena de outros candidatos dispostos, até agora, a entrar no jogo. O metalúrgico esmagaria o capitão.

Uma comparação, restrita aos números do “salário mínimo” e da “escolaridade”, extraídos da pesquisa Ibope, indica que, em classes mais ricas ou mais próximas a tanto, Bolsonaro empata ou supera as intenções de votos em Lula.

Considerando as regiões Sul e Sudeste, o capitão anda atrás dos calcanhares de Lula, que, por sua vez, explode no Norte (32% contra 17%) e no Nordeste (54% contra 17%).

Hoje representadas por mais de 76 milhões de eleitoras (53% dos votos do Colégio Eleitoral total), as mulheres, por razões sabidas, não gostam de Bolsonaro, para não dizer que o odeiam. Junto a elas, ele não passa de 9%. Lula alcança 35%.

Quem buscar o comportamento dos eleitores mais pobres há de ver que, ao longo da história da República, eles acertaram mais do que erraram na escolha do presidente. Que os preconceituosos duvidem.

Está registrado que Vargas venceu Eduardo Gomes, JK ganhou de Juarez Távora e Lula derrotou Serra e Alckmin. Dilma, por sua vez, superou Serra e Aécio Neves.

Após o golpe contra ela, veio o dilúvio.

Maurício Dias
Leia Mais ►