8 de ago de 2018

Um é tucano e o outro é um corredor bolsominion

Tinha que ser dinheiro vivo!



Delação atinge Richa e coordenador da campanha de Bolsonaro no PR

Na campanha à reeleição de 2014, o então governador do Paraná, Beto Richa, PSDB, tinha o apoio de uma coligação composta por dezessete partidos. Agora, candidato ao senado, viu encolher o leque para apenas três siglas. A desidratação política de Richa tem razão de ser. Envolvido até a medula em denúncias de corrupção, o tucano vive um período de intensa turbulência.

Citado em duas delações premiadas na Operação Quadro Negro como beneficiário de cerca de 20 milhões de reais desviados da secretaria de Educação do Paraná para sua campanha, viu seu nome voltar às manchetes no último dia 26, com a divulgação de outro depoimento à Justiça feito pelo ex-amigo de viagens internacionais, Mauricio Fanini, nomeado diretor da pasta em seu governo.

Segundo Fanini, Richa teria autorizado a “arrecadar” mais dinheiro para a campanha, via caixa dois. Ainda de acordo com o delator, o tucano justificou o pedido pela necessidade de mais recursos para comprar o apoio de três deputados federais: Ricardo Barros, PP, marido da governadora Cida Borghetti; Alex Canziani, PTB e Fernando Francischini, PSL.

O delator afirmou que, a partir de então, a secretaria de Educação passou a liberar o pagamento fraudulento para as empresas que financiavam a campanha de Richa, mediante a adulteração nos projetos de reformas de escolas públicas.

Fanini relatou o diálogo em detalhes. Disse que, em 2014, numa tarde chuvosa de domingo, recebeu o convite de Richa para jogar tênis no Graciosa Country Club, em Curitiba. Escolheram a “última quadra, onde não havia ninguém”.

Richa teria dispensado os seguranças e motorista para que ficassem aguardando no carro. “No intervalo entre um set e outro, fomos tomar água e ele falou: ‘Olhe, precisamos arrecadar, você precisa arrecadar. Este ano a coisa é bastante brava’. Daí eu falei: ‘Mas eu posso propor alguma coisa diferente para as empresas, posso combinar alguma coisa com eles que possa ser acertado depois, algo nesse sentido, Beto?’”, perguntou Fanini. “Pode, porque eu tenho grandes chances de ser eleito, devo ser reeleito. E aí a gente tem quatro anos depois pra ajeitar a situação dessas empresas parceiras. Pode fazer a parceria que você tiver que fazer”, teria dito o tucano.

Tempos depois, em uma “reunião de trabalho” na casa de Richa, o então governador reiterou a carta branca. “Pode fazer o que tiver que fazer. Faça para arrecadar”. O tucano justificou a necessidade do dinheiro por ter assumido “compromissos enormes” e mostrou uma lista de pagamentos a serem feitos. Em detalhes, deu uma aula de como faz política.

“Ele me mostra assim, indignado: ‘Veja aqui o papel, ó. 800 mil tive que arrumar aqui pro Francischini, pro Solidariedade. 2 milhões aqui pro Ricardo Barros’. Ele me mostra assim... os nomes que eu lembro na época. Era 1,5 milhão pro Canziani, pra ter o PTB. E ele falou assim: ‘Então, veja como é isso aqui, entenda como que é a política. Política a gente faz assim ó. Tem que arrumar dinheiro e tudo dinheiro vivo’” contou o delator. Questionado pelo Procurador, Fanini foi enfático ao afirmar que o dinheiro era para “a compra de apoio político”. E reiterou: “tinha que ser dinheiro vivo. Não era nada dinheiro de caixa 1”. (...)

Em tempo: o nobre deputado Francischini é aquele que bateu o record mundial de 100m rasos, ao fugir dos professores quando era Secretário de Segurança, numa greve em que o governador Richa fez jorrar sangue.

Em tempo2: o nobre deputado-corredor faz parte da seleta turma de delegados da Polícia Federal que submete o ansioso blogueiro a uma condução coercitiva. O ansioso blogueiro segue o aforismo "diz-me quem te processa e dir-te-ei quem és". - PHA

No CAf
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Ibraspal repudia Bolsonaro por querer fechar Embaixada da Palestina no Brasil


Candidato da extrema-direita também se refere a palestinos como terroristas
A última declaração polêmica do candidato de extrema-direita à presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), causou reações na comunidade palestina. Ele afirmou nesta terça-feira, 7, que pretende fechar a Embaixada da Palestina se for eleito.

O Instituto Brasil Palestina (Ibraspal) rechaçou a postura do extremista. “O candidato Bolsonaro repete a mesma indecência dos seus chefes sionistas, ao não reconhecer um direito legítimo do Estado Palestino à sua representação no Brasil” ressalta o secretário-geral do Ibraspal”, Marcos Tenório.

Em matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo, Bolsonaro trata os palestinos como terroristas. “Dilma negociou com a Palestina e não com o povo de lá. Você não negocia com terrorista, então, aquela embaixada do lado do (Palácio) do Planalto, ali não é área isso.”

Ele também ressalta que não reconhece o Estado palestino. “A Palestina não sendo um país, não teria embaixada aqui. (...) Não pode fazer um puxadinho, senão daqui a pouco vai ter uma representação das Farc aqui também.”

Para o secretário-geral do Ibraspal, as declarações de Bolsonaro são uma afronta ao povo palestino. “Por sorte, os brasileiros com sua tolerância e reconhecimento, não darão votos a este senhor para que cometa ilegalidades em nome do amigo Estado brasileiro contra o povo palestino”, frisa Tenório.

Lúcia Rodrigues
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Bola rola no jogo eleitoral e a direita joga à base de pontapés em Lula



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STJ nega absolvição sumária de dona Marisa Letícia


Impossibilitado de se defender e cumprir pena, todo cidadão falecido pode ter requerida pela família, sua absolvição em processos judiciais, menos dona Marisa Letícia, vítima de complicações advindas de um AVC. A defesa da ex-primeira-dama requereu sua absolvição a Sérgio Moro, depois ao TRF-4 e agora o ministro Felix Fischer, do STJ acaba de negar um direito estabelecido à memória de pessoas falecidas.

Os advogados pediram que fosse declarada sua absolvição sumária. Para a defesa da ex-primeira-dama, a “absolvição sumária se evidencia como um benefício prático, de natureza imaterial”. Isso teria influência, na visão dos advogados, sobre sua “dignidade, honra e memória”.

Segundo o ministro, os advogados – os mesmos que defendem Lula, na equipe liderada por Cristiano Zanin Martins – perderam o poder como representantes da ex-primeira-dama em função de seu falecimento.

Estranho, por que segundo a decisão de Felix Fischer, ninguém poderá requerer a absolvição de Dona Marisa Letícia, já que nenhuma pessoa poderá representar um falecido em pedido de absolvição sumária, por motivo, justamente, do falecimento. Na lógica de Fischer, só se um morto levantar da cova e pedir a própria absolvição.

Como observado, o judiciário vai se enterrando a cada medida desumana e de desrespeito à ordem constitucional, quando o assunto é o ex-presidente Lula. Beira à perseguição doentia.

No A Postagem
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Pesquisa “dá ruim” (de novo) para Alckmin até em São Paulo


Se há um lugar em que Geraldo Alckmin não pode alegar ser “desconhecido” é São Paulo.

Portanto, é onde menos pode fazer diferença positiva o caminhão de tempo de televisão de que disporá, a partir do final do mês, na propaganda eleitoral.

E, aliás, a semana das convenções deu a ele toda a exposição possível, sendo apresentado como vencedor da “batalha” pela conquista do Centrão, em bloco.

Mas não adiantou, “deu ruim” para Alckmin a pesquisa CNT/MDA divulgada hoje, feita com 2.002 eleitores de São Paulo, capital e interior. No ninho tucano, portanto.

Ele aparece em terceiro lugar , como no levantamento publicado cinco dias atrás pelo Ibope/Band.

Lula fica em primeiro, com 21,8% (23% no Ibope), seguido de Jair Bolsonaro, com 18,4% (18% no Ibope) e o ex-governador tem 14% (um a menos que no Ibope).

Se no cenário com Lula nada se altera muito, na substituição de Lula por Haddad, a coisa fica pior: Alckmin, que teria, neste caso 3% de vantagem sobre Bolsonaro (19% a 16%), segundo a CNA perde para o candidato da extrema direita por 4 pontos (18,9% contra 15%). Neste cenário, a diferença da pontuação de Fernando Haddad é muito perceptível: sai de 4% no Ibope e vai a 8,3%, igualando-se a Marina Silva.

E não vai ser o Joãozinho da Farinata quem poderá ajudar – será que ajudaria, se pudesse – o cambaleante Geraldo. E que ele empata com Paulo Skaf, num verdadeiro “duelo de anões” que deixa a eleição para governador de São paulo completamente aberta: Doria tem 16,4% das intenções de voto, seguido por Skaf com 16,2%.

Ou seja, os dois líderes somados sequer chegam a um terço do eleitorado, no qual nada menos que 50,9%  se dizem indecisos (21,4%) ou dispostos a votar branco ou nulo (29,5%).

No eleitorado das camadas mais altas da população, mais informado e, ao menos em tese, ciente da candidatura Alckmin este resultado, a 60 dias da eleição, é devastador.

Daqueles de transformar chuchu em pepino.

PS: Os dados completos da pesquisa podem ser acessados aqui.

Fernando Brito
No Tijolaço



Bolsonaro vs. Alckmin: quem ocupará a Casa Grande?

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Policial militar que morreu e imprensa noticiou como mulher lésbica é um homem trans


Acontece que durante toda divulgação do caso, o gênero e orientação sexual da vítima foram deduzidos por toda imprensa (e até nós mesmos aqui), se referindo ao PM como a mulher lésbica Juliane dos Santos, seu nome de batismo e como ainda constava em seus documentos e cadastro na Polícia. Mas sabe-se agora que na realidade se tratava de Dudu, um homem transgênero.

Ou seja, Dudu nasceu do sexo biológico feminino, sendo batizado como Juliane, mas em seu processo de descoberta da sexualidade e gênero, mais recentemente, tinha se entendido um homem transgênero.

Em seu perfil do facebook inclusive – deletado pela família após a morte – ele já não se identificava pelo nome de batismo Juliane dos Santos, mas sim como Dudu dos Santos.

Como muitas pessoas trans em seu processo de identificação, até que se realize o gênero verdadeiro com o qual a pessoa se entende, Dudu se apresentou como uma mulher lésbica até se encontrar definitivamente como homem trans.

No Facebook também é possível encontrar postagens de amigos próximos se referindo a ele como Dudu:





Ainda sobre o caso, vale ressaltar duas coisas:

A imprensa provavelmente não agiu de má fé ao noticiar o caso como uma PM mulher cis e lésbica. Esta ainda era “oficialmente” a identidade de Dudu nos documentos e na polícia, de onde a imprensa tirou as informações na intenção de se divulgar corretamente o caso.

Estamos noticiando o fato apenas em respeito ao gênero com o qual Dudu se identificava, porque consideramos importante que se divulgue e se corrija, ainda que nesta hora, o mais importante não seja orientação sexual, nem identidade de gênero ou qualquer característica pessoal, mas acima de tudo, a vida perdida de uma pessoa batalhadora e honesta, querida e admirada pela família e colegas de trabalho.

A motivação do assassinato e sequestro ainda é investigada pela polícia. E que seja feita justiça. De qualquer forma, temos aí, mais um corpo LGBT ensanguentado no país que mais mata LGBTs no mundo.

Pedro HMC
No Põe na Roda
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Igualdade de oportunidades é o coração do projeto liberal

A igualdade de oportunidades é o coração do projeto liberal. É o que marca sua oposição às sociedades aristocráticas, em que o acesso a tais ou quais posições era determinado inflexivelmente pela origem familiar.

Pode ser uma igualdade originária, que vale apenas para o momento zero da história humana, na versão de liberais da extremidade direita do espectro político, como Robert Nozick. Pode ser redefinida como uma base mínima disponível a todos, não uma verdadeira igualdade de oportunidades, que é o que sustenta ideias como a educação universal. Pode ser mais exigente e dinâmica, incorporando formas de apoio aos mais vulneráveis, como no liberalismo progressista de um John Rawls.

Em todos os casos, a igualdade de oportunidades é um valor central.

É um avanço? Sem dúvida. Marca um compromisso de base com a ideia da igualdade entre todos os seres humanos (mesmo que tenha sido uma longa luta até que o liberalismo aceitasse as mulheres, a classe trabalhadora e as populações não europeias no seu conceito de “seres humanos”).

Mas a igualdade de oportunidades pode conviver com enormes desigualdades reais. Uma sociedade absolutamente iníqua, em que uns poucos controlem toda a riqueza e o poder e os restantes vivam na privação e na servidão, é um resultado possível de uma situação de oportunidades iguais.

Esta sociedade é justa? Vamos julgar que os que se deram bem estão sendo premiados pelos seus “méritos” – e os que se ferraram, punidos por carecer deles? Quem por algum motivo desperdiçou sua oportunidade fica no sal, é isso?

É correto apontar que o capitalismo não efetiva a igualdade de oportunidades que ele mesmo proclama. Que, em todos os momentos, as origens sociais e o controle da propriedade condicionam as trajetórias possíveis.

Mas o socialismo não pode ser apenas a efetivação do que o capitalismo promete mas não cumpre.

A ideia de igualdade de oportunidades projeta a sociedade como uma corrida: todos devem partir do mesmo lugar e daí cada um avança na velocidade que puder. Mas o socialismo se coloca contra esta visão individualista e competitiva.

Não é uma sociedade em que cada um dá o melhor de si para chegar na frente dos outros. É a busca por uma sociedade em que solidariedade e cooperação se imponham no lugar da competição. Em que cada pessoa desfrute o máximo de autonomia sem, para isso, precisar reduzir a autonomia dos outros. Em que a igualdade seja de acesso à autonomia, não apenas de oportunidades.

Trata-se de revolucionar as relações humanas e construir novos valores societários.

Por isso, é preocupante ver que o candidato mais avançado das eleições presidenciais deste ano repete sempre que “socialismo é igualdade de oportunidades”.

Alguns justificam dizendo que é uma “simplificação” para atingir um maior número de pessoas. Mas não é uma simplificação, é uma concessão ao senso comum, que bloqueia qualquer avanço na discussão central: qual é a sociedade que queremos?

A adesão ao senso comum pode produzir vantagens imediatas, mas cobra seu preço a médio e longo prazos.

Guilherme Boulos é, todos sabemos, um candidato cujo papel não é ganhar as eleições, mas ajudar a colocar em marcha um projeto de reconstrução da esquerda no Brasil. Ele pode almejar fazer 2, 2,5% dos votos, não mais do que isso. O sucesso de sua campanha, a meu ver, não reside na votação alcançada, mas na sua capacidade de qualificar o debate político.

A baixa competitividade eleitoral é – vejam só – uma “oportunidade”. Quando maiores as chances de vitória, maiores os incentivos para que sejam feitas concessões no discurso, no programa, nas alianças. A trajetória do PT é exemplo suficiente.

Nesta campanha, Boulos tem apresentado em geral um discurso, a meu ver, muito bom. É firme, é claro. Sua insistência em dizer o que deveria ser o óbvio – o grande problema do Brasil é a desigualdade – já marca um diferencial na campanha.

É uma pena que permaneça com esta definição tão limitada e equivocada do socialismo, que, no fim das contas, reafirma a “verdade” ideológica de que nenhuma sociedade radicalmente diferente da atual será possível.

Luis Felipe Miguel
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Ministro acobertava roubalheira

Ministério da Integração fraudava contratos de tecnologia


Do "Globo Overseas" (empresa que tem sede na Holanda para lavar dinheiro e subornar agentes da FIFA com objetivo de ter a exclusividade para transmitir os jogos da seleção):

Ex-secretário-executivo da Integração acusa ministro de abafar caso suspeito com empresa de TI

Antônio de Pádua 'teve acesso aos documentos e acobertou’, diz ex-número dois

Mário Ribeiro
Ex-número dois do Ministério da Integração Nacional até o mês passado, o economista Mário Ramos Ribeiro resolveu deixar a pasta para denunciar o seu superior, o ministro Antônio de Pádua, por supostamente acobertar um esquema milionário de fraudes em contratos de Tecnologia da Informação (TI) no ministério. Encarregado de avalizar as contratações na área, o ex-secretário-executivo descobriu que os seus subordinados estavam fechando negócios suspeitos com empresas de TI sem o seu conhecimento. Leia a íntegra da entrevista aqui.

Ao tentar exonerar os auxiliares e suspender os negócios, ele esbarrou na atuação do ministro que, em suas palavras, teria “acobertado as irregularidades”. Depois de alertar Pádua por várias vezes sobre a gravidade do caso, ele resolveu agir. Em entrevista ao GLOBO, ele explica os motivos que o levaram a denunciar o ministro e os servidores à Controladoria-Geral da União (CGU).

— O ministério virou caso de polícia. O ministro teve acesso aos documentos e acobertou as irregularidades. Foi a gota d'água — disse ontem Ramos Ribeiro.

Em maio deste ano, O GLOBO revelou o caso da RSX Informática, uma empresa de fachada registrada em um estoque de vinhos em Brasília. Ela havia fechado um negócio milionário para fornecer um programa de computador ao INSS sem licitação e sem possuir qualquer capacidade técnica para cumprir o contrato para o qual fora remunerada em R$ 8,8 milhões. Por ter ignorado alertas da área técnica contrária ao negócio e por ter pago R$ 4 milhões à RSX sem receber qualquer serviço em troca, o então presidente do INSS foi sumariamente demitido pelo governo.

Ministério nega

A crise começou quando Ramos Ribeiro descobriu que o ministério havia contratado a mesma RSX sem a sua autorização.

— Os contrato na área de TI foram escolhidos porque são complexos. Compraram software sem justificar a necessidade. No dia que descobrir o contrato da RSX, eu disse, ministro, me sinto traído — disse.

A CGU confirmou que investiga o caso. Tanto a assessoria do Ministério da Integração quanto a assessoria da RSX negaram ontem qualquer irregularidade no contrato.

Em nota o Ministério da Integração informou que suspendeu, temporariamente, todos os contratos apontados pelo ex-secretário da pasta por suposta irregularidade. E determinou investigação do caso. "É de interesse do Ministério da Integração Nacional que todos os fatos sejam apurados e esclarecidos, justamente para manter transparência aos processos executados. Por isso, o órgão tem colaborado com informações solicitadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e CGU", diz a nota do ministério.

A assessoria do ministério informou ainda que o ministro só recebeu comunicado oficial do ex-secretário sobre os casos de TI na noite do dia 19 de julho deste ano, uma quinta-feira. "Já no dia 23 de julho, segunda-feira, o ministro Pádua Andrade determinou providências para a exoneração do ex-secretário e dos dois servidores". Apesar disso a exoneração não ocorreu de imediato.

Segundo a nota, as portarias foram publicadas no Diário Oficial do dia 1º de agosto, mesmo dia em que O GLOBO publicou reportagem sobre o tema. "O órgão também abriu uma sindicância para apurar a conduta dos citados. A questão é acompanhada pelo corregedor da Pasta, que é funcionário de carreira do Ministério da Transparência e Controladoria-Geral da União (CGU)."

No CAf
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O Brasil, entre Lula e Bolsonaro

O liberalismo no Brasil sempre foi uma farsa. Justificativa para a política primário exportadora lá atrás, argumento para a destruição da economia nacional mais recentemente. A direita usou o liberalismo até para justificar a ditadura, que viria para defender os indivíduos, ameaçados pelo suposto risco de uma ditadura estatista, imposta pelo nacionalismo.

Mas foram as correntes nacionalistas as que promoveram os direitos de todos, garantiram o direito de organização e de manifestação da massa da população, defenderam a soberania nacional e a democracia. Nunca o Brasil foi tão respeitoso dos direitos de todos como durante os governos do PT, neste século. A direita tradicional fracassou, ao impor os interesses do mercado e do capital internacional, intensificando a recessão e as desigualdades, nos anos 1990.

Apoiando o golpe, a direita tradicional cometeu seu suicídio. Carrega o peso das politicas neoliberais, com a aceitação da ruptura da democracia no golpe de 2016 e no apoio ao governo golpista de Temer. Agora semeia a impopularidade dos seus candidatos – em especial o mais representativo deles, Alckmin – e ameaça terminar seu reino sobre São Paulo, seu bastião histórico.

O desespero da direita tradicional não vem apenas da nova derrota iminente, a quinta consecutiva. Vem da possibilidade de nem sequer chegar ao segundo turno, sendo suplantada pela extrema direita de Bolsonaro e, pior ainda, ter que optar entre o Lula e esse representante do extremismo.

Porque a direita tradicional saiu de cena com o apoio ao golpe e à sua política econômica. Carrega agora o ônus dessas opções, pela sua obsessão com o neoliberalismo e seu ódio ao PT e ao Lula, que a levaram ao suicídio.

No Brasil de hoje, espelhado nas eleições de outubro, apenas duas ideias-forca tem peso: aquela representada pelo Lula e a representada por Bolsonaro. Apenas essas duas perspectivas despertam interesse e paixão, mobilizam mentes e corações, em direções totalmente antagônicas.

Ou o Brasil retoma o caminho do desenvolvimento econômico na perspectiva da inclusão social e da distribuição de renda ou avança no caminho do autoritarismo, da repressão e da exclusão social. Assim colocam-se as alternativas para o Brasil hoje. As outras são periféricas, complementares ou se diluem sem personificar projetos de pais e de sociedade.

Não se trata de que as alternativas eleitorais conduzam necessariamente ao enfrentamento entre Lula e Bolsonaro. Outra alternativa de direita pode chegar ao segundo turno para enfrentar o candidato petista, mas sem um projeto que galvanize a setores significativos da sociedade. Serão muito mais alternativas para quem localiza no PT e no Lula o maior risco para seus interesses, do que entusiasmo com um projeto que já havia fracassado nos anos 1990 e agora confirma seu fracasso no governo Temer.

Mas o Brasil tem essas duas possibilidades diante de si. Ou derrota o viés autoritário, repressivo e excludente de Bolsonaro, com o triunfo do Lula ou terá que se enfrentar com as consequências da escolha aventureira dos que preferem qualquer coisa menos o retorno do PT ao governo.

Embora a direita tradicional tente apresentar-se como alternativa ao Bolsonaro, tentando diferenciar-se dele, eles compõem o mesmo campo da direita no Brasil de hoje. Assim como o campo da esquerda está inevitavelmente representado pelo Lula e pelo PT, a única alternativa real de derrota da direita e da extrema direita, assim como o resgate da democracia, do desenvolvimento econômico e da justiça social.

Emir Sader, é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros
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Eleições 2018, terreno fértil para os “piratas da informação”

É consenso entre todos os institutos que se atrevem medir os índices de popularidade dos candidatos à presidência da República que o desânimo tomou conta dos eleitores. Os percentuais de desinteresse variam de 48 a 53%, dependendo do método que se use para fazer tais aferições.

Ninguém também tem dúvida de que está será uma das mais complicadas eleições realizadas, desde de 1989. Ela é curta. Vai durar pouco mais de 30 dias. E, pela primeira vez, acredita o Tribunal Superior Eleitoral – TSE, dependerá única e exclusivamente dos recursos do fundo partidário e das doações espontâneas dos militantes. Até prova em contrário, os grandes conglomerados não irão mais abastecer os cofres das campanhas com o ervanário proveniente do caixa 2. É ver para crer!

O programa eleitoral gratuito, a Internet e os debates serão os campos de batalhas onde assistiremos uma das mais polarizadas, desleais e enraivecidas eleições presidenciais. Não poderia haver um solo mais fértil para as chamadas “fake news” (notícias falsas). Até aqui nenhuma novidade. Até Mark Zuckerberg, multibilionário dono do Facebook, quando depôs sobre o assunto, perante o Senado norte-americano, demonstrou preocupações explícitas de que as “fake news” correrão soltas no pleito de outubro vindouro.

Antes mesmo, do escândalo da Cambridge Analytica sacudir a política dos Estado Unidos e impor uma perda de US$ 16 bilhões à companhia do jovem Zuckerberg, já se sabia, por estas bandas, que o bicho iria pegar na sucessão presidencial brasileira. E, o que foi feito para conter o anunciado torvelinho? Nada.

O presidente do TSE, ministro Luiz Fux, do alto da sua vistosa e artificial cabeleira, conclamou os veículos de comunicação para ajudarem os cidadãos vigiando aqueles que irão fazer traquinagens nas redes sociais. Como é do feitio da Justiça e de todas as autoridades públicas deste rincão, prometeu degredo e o mais severo dos castigos para os que fosse pegos fraudando informações.
Com grande estardalhaço, as Organizações Globo, embarcaram na onda do ministro. Lançaram a campanha publicitária “Fato ou Fake”. Prometem que todos os veículos do grupo estarão empenhados em desmascarar aqueles que mentem para os cidadãos/eleitores. Como marketing pode até ser bacana. Passam nas entrelinhas que um exército de profissionais de comunicação será colocado à disposição para darem combate a todo e qualquer bucaneiro da informação.

De cara, começaram vigiando o que os candidatos estão falando nos primeiros debates promovidos pelos seus canais de televisão. Pelo que foi publicado, por enquanto, estão preocupados apenas com firulas.

Explicar aos desesperançados e incrédulos o que se passa, realmente, nos bastidores da política nem pensar. Depauperadas de recursos financeiros e humanos, as redações de todos os veículos de comunicação mal têm braços e pernas para acompanhar a frenética agenda de comícios e debates que vêm aí, quanto mais vigiar os piratas da Web.

A crise na mídia é fato. A “Abril”, a maior editora de revistas do País, está em situação pré-falimentar. Anunciou esta semana a demissão de 500 funcionários. Entre eles mais de 170 jornalistas. Não é apenas a empresa da família Civita que passa por percalços. Até mesmo, a monopolista Globo dos irmãos Marinho tem visto seu faturamento encolher de maneira comprometedora. Assim como, os Frias da Folha de S. Paulo, os Saads da Bandeirantes e os Mesquitas do Estadão também vêm se equilibrando, há algumas décadas, num arame farpado.

Se os principais veículos continuarem insistindo em se transformar na chefatura de polícia da verdade, preparem-se para presenciar a mais rala e irresponsável cobertura jornalística de uma campanha eleitoral de todos os tempos. A Internet será preponderante.

Por isso, enganam-se os que acreditam que os marqueteiros foram varridos do mapa nestas eleições. Eles estão aí fortes e firmes. Só que, desta vez, um pouco mais discretos. E, se apresentam empunhando ferramentas bastante sofisticadas como: a robótica.

Na TV, Bolsonaro e seu vice terão nove segundos.
O inesquecível Enéas teve 15 segundos, em 1989.

Na partilha dos espaços nos programas eleitorais gratuitos, o capitão Jair Bolsonaro e o seu vice, o general Hamilton Mourão, terão exatos nove segundos (em uma exibição a cada três dias) para expor seus ideários e o que pretendem fazer pelo País.  Nem o inesquecível Dr. Enéas Carneiro – do Partido da Reedificação da Ordem Nacional – conseguiria se safar desse enrosco. Quando se candidatou em 1989, Enéas tinha 15 segundos.

Os articuladores da campanha do capitão do Exército sabem disso. É por isso, que já há algum tempo vem atuando de maneira consistente nas redes sociais. A ponto de serem levantadas suspeitas que teriam lançado mão de robôs para responder perguntas de pesquisas de opinião feitas através de ligações telefônicas.

Na eleição de Dilma Rousseff, em 2014, foram gastos R$ 12 milhões para montar uma equipe e uma estrutura técnica para fazer campanha exclusivamente nas redes sociais. Aécio Neves teria gasto um pouco mais. Algo como R$ 15 milhões. Diante do que a Cambridge Analytica fez na eleição do Trump e no plebiscito do Brexit, na Inglaterra, as ações nas campanhas presidenciais brasileiras de 2014 foram de uma inocência angelical.

Como se sabe, Robert Mercer, um temido investidor norte-americano especializados em fundos abutres e criador da Analytica trabalhou com seus pesquisadores, engenheiros e cientistas em cima de 87 milhões de perfis de eleitores do seu País (perfis estes fornecidos pelo Facebook).

Oferecendo notícias falsas e verdadeiras para uma base tão significativa, Cambridge Analytica conseguiu tumultuar as cabeças de boa parte dos 137 milhões eleitores que compareceram às urnas nos Estados Unidos, em novembro de 2016. Todos os institutos davam como certa a vitória de Hilary Clinton. Deu Trump. Só descobriram as mágicas feitas através da Internet um ano depois de Trump tomar posse.

O marqueteiro baiano André Torreta, que já trabalhou para família Sarney no Maranhão e Fernando Henrique Cardoso, andou se apresentando aos caciques dos principais partidos brasileiros com o legítimo representante da Cambridge Analytica no Brasil. Em novembro do ano passado, Torreta foi entrevistado pela edição em português do periódico espanhol “El País”. O escândalo do Facebook ainda não tinha vindo à tona.

Naquela ocasião, anunciou que já se preparara para utilizar as maravilhas da robótica no WhatsApp, considerada por ele a verdadeira rede social brasileira. Depois desta entrevista, o publicitário recolheu-se em copas. Ele costuma cobrar muito caro por seus préstimos.

Só que pelas suas ligações passadas com o PSDB, não será surpresa se Torreta e sua equipe tenham sido contratados para terçar armas ao lado de Geraldo Alkmin e João Doria, em São Paulo. Não podemos esquecer que a coligação de centro direita liderada pelos tucanos não só terá a latifúndio de espaço nos programas nas rádios e nas TVs como abocanhará a maior fatia do fundo partidário.

Absorvidos por questões mais premente, os partidos de centro-esquerda, especialmente, o PT de Lula, PTD de Ciro Gomes e a Rede de Marina Silva ainda não tiveram nem tempo e nem dinheiro para se ocuparem desse tema. Pretendem ir para o embate eleitoral-cibernético com a cara e a coragem.

Que a força das militâncias os proteja!

Arnaldo César é jornalista e colaborador do Blog Marcelo Auler.
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Fernando Haddad, candidato à vice na chapa de Lula, fala com a Rádio Guaíba, do Rio Grande do Sul


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Vamos fingir que não sabemos que eles fingem que não sabem???

CASO LULA: CONDENAÇÃO E HABEAS CORPUS.

Na verdade, o Superior Tribunal de Justiça resolveu fingir que não percebeu que o Supremo Tribunal Federal fingiu que não existiam as regras do artigo 283 do Cod.Proc.Penal e art.105 da Lei de Execução Penal.

Posteriormente, o próprio Supremo Tribunal fingiu que tais regras jurídicas não existem, preferindo o “princípio da colegialidade”, este, sim, não existe no mundo jurídico.

Assim, embora não declarados inconstitucionais ou revogados, estes artigos, para eles, não existiriam ou não se aplicariam ao ex-presidente Lula !!!

Vejam o que dizem estes dispositivos legais, que nossos tribunais fingem que não existem:

“Artigo. 283. Ninguém poderá ser preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente, em decorrência de sentença condenatória TRANSITADA EM JULGADO, no curso da investigação ou do processo, em virtude de prisão temporária ou prisão preventiva. (Redação dada pela Lei nº 12.403, de 2011)”

“Artigo 105. TRANSITANDO EM JULGADO a sentença que aplicar pena privativa de liberdade, se o réu estiver ou vier a ser preso, o Juiz ordenará a expedição de guia de recolhimento para a execução.”

Ainda dizem que estamos no Estado Democrático do Direito. Até nisto a Constituição da República não é respeitada.

Ainda dizem que nossos tribunais aplicam o direito legislado de forma imparcial …

Ainda dizem que a Constituição da República consagra o princípio da inocência até o trânsito em julgado de uma condenação e que isto não impede a execução antecipada de uma pena de prisão (execução provisória) …

Ainda dizem que o ex-presidente Lula foi condenado por um juiz e um tribunal imparciais e desinteressados pelo resultado do processo …

Ainda dizem que um juiz pode despachar durante as suas férias, diretamente de Portugal, impedindo que seja cumprida a ordem de um desembargador …

Ainda dizem que, no domingo, a competência para deferir ou não uma liminar é do desembargador que está em casa e não do desembargador que está no plantão do tribunal …

Ainda dizem que o ex-presidente recebeu um apartamento que não recebeu … (não dizem como, onde e quando!!!)

Ainda dizem que o ex-presidente praticou o crime de lavagem de dinheiro sem que ela tenha auferido qualquer vantagem indevida que pudesse ser “lavada” …

Ainda dizem que o ex-presidente teria recebido um tríplex em pagamento de um ato indeterminado!!!

Ainda dizem que temos de aceitar todo este engodo” de forma bem comportada e respeitosamente …

Afrânio Silva Jardim, professor associado de Direito Processual Penal da Uerj. Mestre e Livre-Docente em Direito Proc.Penal pela Uerj.
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O risco de simplificar o fenômeno Bolsonaro

Das redes sociais à PM, dos bolsominions ao deus mercado, a candidatura é mais consistente do que supõe nosso estupor diante da barbárie

Ocupou o espaço vazio do outsider, que a direita tradicional desta vez não conseguiu emplacar
Depois da passagem de Jair Messias Bolsonaro pelo Roda Viva, hoje também conhecido por Roda Morta, a internet tratou de fabricar a imagem que aparentemente resultava da sabatina ao presidenciável, cuja audiência bateu recorde na TV Cultura e alcançou o primeiro lugar na repercussão das redes sociais. Em tal imagem o candidato não constava no centro da roda de jornalistas – fora substituído por um burro.

Numa análise supostamente mais arguta, a entrevista na qual Bolsonaro foi mais uma vez convidado a expor seu compêndio de barbaridades teria produzido na verdade a imagem invertida: ao centro, o candidato cuja fala odiosa repercute aos seus – e quem sabe aos indecisos –, um misto de autenticidade, coragem, nostalgia e antipolítica; no seu entorno, a tropa de burricos que, no lugar de instá-lo às propostas (quando o fizeram, ouviu-se a inacreditável referência ao “pergunte no Posto Ipiranga”), só fez levantar-lhe a bola para obrar opiniões infames e distorcer a história, duas de suas especialidades, se não as únicas.

“Passeio de Bolsonaro no Roda Viva”, cravou, no calor da hora, o professor de Comunicação Fabio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura da Universidade Federal do Espírito Santo (Labic), um dos mais importantes grupos de estudo das redes sociais no Brasil. “Há uns 30 vídeos curtos para a equipe da campanha editar.

Todos terão o ‘oclinho’ [referência a um meme popular]. Bolsonaro vai esmagar adversários moderados no debate. E até seus opositores gostarão de vê-lo em cena. Ele faz internet na televisão.” Com direito a 6 segundos e meio no horário eleitoral e uma inserção de 30 segundos na tevê a cada cinco dias, é particularmente importante para Bolsonaro tornar-se o ás, ainda que asno, das redes sociais.

Na noite de segunda, o Labic inaugurava um novo modelo para aferir rejeição e aceitação dos presidenciáveis em eventos pontuais como a entrevista de Bolsonaro. Para surpresa de Malini, o resultado divulgado na quarta-feira dava conta de que “Bolsonaro pautou todo o ecossistema político, mas as redes contrárias ao candidato mediaram mais a repercussão”.

De cada 10 compartilhamentos sobre o tema, apenas 3 foram favoráveis a ele. “Pelo jeito, a performance do capitão não foi aquilo que se esperava. Mas provou que é o político que gera mais tráfego, atrai a audiência da tevê para a internet e vice-versa.”

O verso e o reverso da imagem do burro não encerram a guerra narrativa dos apoios e rechaços ao candidato da extrema-direita. Antes, é a mesma falta de compreensão do fenômeno de sua candidatura que se podia verificar nos meses que antecederam a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.

Entender o mecanismo das forças que mantêm as chances de Bolsonaro em bases relativamente confortáveis parece o melhor caminho para combatê-lo eficientemente enquanto há tempo.

Foi assim que a cientista social Esther Solano Gallego, das universidades Federal de São Paulo e Complutense de Madri, dedicou-se a conhecer o pensamento e as demandas de um grupo heterogêneo de admiradores de Bolsonaro, permitindo desmitificar o “Mito” e seu eleitor, comumente igualados na equina condição de símbolos da burrice e do atraso.

As conclusões de Esther Solano revelam motivações para o voto em Jair Bolsonaro muito mais profundas do que essa relativa ao QI dos “bolsominions”. Ei-las:

1. Bolsonaro representa o tipo de político honesto em contraposição à “classe política corrupta” – ocuparia, assim, o espaço vazio do “outsider” que, não por acaso, a direita desta vez não conseguiu emplacar (só o instituto de pesquisas Vox Populi testou 15 desses nomes apenas em 2018).

2. Sua retórica do “bandido bom é bandido morto” encontra respaldo na visão de que o “cidadão de bem” é uma vítima abandonada, enquanto o criminoso está superprotegido pelo Estado. A segurança pública é “fixação” plenamente justificada, diga-se, pelo recorde de 62,5 mil homicídios registrados no País em 2016 (estes são os últimos dados disponíveis).

3. O Bolsa Família e as cotas raciais universitárias são negativos, por fomentar a preguiça e o parasita do Estado. O self-made man é o modelo de sucesso.

4. O Movimento Negro, o Feminista e o LGBT representam grupos que sofrem preconceito, mas que se vitimizam em excesso, a fim de obter regalias – ao passo que seriam, também, indutores do “caos” que desestrutura a “família-padrão”.

5. Os jovens identificam Bolsonaro como rebelde. É uma opção política que se comunica com eles e se contrapõe ao sistema. “Se, nos anos 1970, ser rebelde era ser de esquerda”, explica Solano, “agora, para muitos desses jovens, é votar nesta nova direita que se apresenta de uma forma cool, disfarçando seu discurso de ódio em forma de memes e vídeos divertidos.”

6. Vários dos entrevistados que votam agora em Bolsonaro votaram antes no PT, em especial nos mandatos de Lula. Justificaram a escolha do petista com argumentos muitos parecidos aos que explicam o voto atual na ultradireita: a proximidade com o povo, o carisma e a honestidade. Que, no caso de Lula, se teriam perdido.

“Bolsonaro vem do povo, da Zona Norte carioca, da Zona Leste de São Paulo, da classe média antiga de Belo Horizonte e Porto Alegre”, confere o presidente da Vox Populi e colunista de CartaCapital, Marcos Coimbra. “Ele fala errado, diz bobagens, e o povo se vê representado.”

Além dessa classe média tradicional, que divide com o militar da reserva as mesmas ideias conservadoras a respeito de temas do comportamento, sua base eleitoral abarca ainda a classe média alta do interior do País, aquela “de chapéu e caminhonete” que, em viagem no tempo, desembarcou há pouco na Guerra Fria. “São homens jovens de renda alta que, se pudessem, matavam todos os comunistas.”

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Partícipe do golpe, a Polícia Militar está com Bolsonaro
Anderson Barbosa
A pouco mais de dois meses das eleições, é prudente não contar com o esfarinhamento da candidatura Bolsonaro. Há pelo menos três anos ela se constrói no vácuo da tradicional arrogância da própria direita – que, tendo operado o golpe, se achou na condição de fabricar seu candidato, mas, ao que indicam as pesquisas, a linha de produção não conseguiu passar pelo controle de qualidade do eleitor.

Apesar de um Alckmin posto à venda como redivivo pelo abraço do Centrão, o fato é que, diz Coimbra, “parece não haver espaço entre a vida que melhorou com Lula e Dilma e a direita chucra que se impôs”. Assim um segundo turno pode mesmo cair no colo do capeta.

O deus da direita tradicional, chamado O Mercado, captara os sinais do apocalipse e já se vinha preparando para o exercício daquilo que em nada trai sua crença ou história: tá no inferno, abraça o Bolsonaro.

Dessa forma, em meados do mês passado, o candidato que faz do economista neoliberal Paulo Guedes o seu “Posto Ipiranga”, foi aplaudido 12 vezes por empresários em evento com presidenciáveis na Confederação Nacional das Indústrias (CNI). Ciro Gomes saiu vaiado.

Dois dias depois, O Mercado pronunciou-se em mensagem psicografada no Twitter por um dos maiores gestores de investimentos do Brasil, Henrique Bredda, da Alaska, que havia acabado de se ver com Bolsonaro: “Tivemos excelentes impressões até agora. Desmistificou muita bobagem que temos lido por aí. Podem descartar 80%, 90% do que andam escrevendo”.

A esta altura, a estratégia de Bolsonaro para vencer a esquerda em um provável segundo turno conta com o voo de galinha de Geraldo Alckmin; classificado à finalíssima, espera a bênção de O Mercado e, por conseguinte, da própria direita tradicional.

Para tanto, é ótimo que diga e repita, como tem feito, não entender coisa alguma de Economia, passando providencialmente por burro e sugerindo uma espécie de terceirização de seu governo.

Para O Mercado, tanto melhor que tenhamos no Palácio do Planalto alguém talhado a tratar na ponta da botina os movimentos populares que venham a se levantar contra privatizações e reformas que retiram direitos, sem falar no MST e MTST.

Estaríamos, enfim, adentrando o terreno do capitalismo autoritário em estado de arte, sob auspícios de O Mercado e a porrada (ver artigo à página 24). “Bolsonaro foi aplaudido porque gostaram do que ele falou”, disse o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade. “Principalmente naquilo que ele demonstra de autoridade em relação a alguns desmandos que existem no Brasil.”

A “autoridade” de Bolsonaro não decorre apenas de sua retórica violenta. Partícipes do golpe desde o início dos protestos de 2013, quando reprimiam a esquerda e faziam selfies com os demais, policiais militares têm especial afeto pela figura truculenta do capitão, que de quando em vez é chamado a apadrinhar turmas de formandos em escolas militares.

“Bolsonaro é o militar-padrão: boca dura, o cara que diz o que quer, que se apresenta para resolver o problema”, diz o tenente-coronel Adilson Paes de Souza, que, depois de 30 anos na corporação, se tornou um conceituado pesquisador da USP sobre a violência da Polícia Militar.

“Como uma polícia militarizada é sempre imagem e semelhança do Exército, o PM reconhece-se completamente num tipo como Bolsonaro. O policial assassino não se sente um assassino, mas um herói – e é assim que enxerga Bolsonaro quando ele diz que bandido bom é bandido morto.”

Simplificar o entendimento do fenômeno Bolsonaro à ignorância política de seus seguidores ou desdenhar sua base de apoio como inconsistente indica a mesma trilha equivocada que veio dar em Trump. O burrinho pedrês, de Guimarães Rosa, era burro, mas resistente. E, quando os cavalos ficaram pelo caminho, só ele chegou do outro lado do rio.

Fred Melo Paiva
No CartaCapital
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Puros e mortos


O Estadão dedica a sua manchete, hoje, a algo que os “vigilantes ideológicos” gostam de fazer sempre.


“O PT se aliou em 15 Estados a partidos que apoiaram o impeachment da presidente cassada Dilma Rousseff e integraram o governo Michel Temer. O PT será cabeça de chapa ao governo de seis Estados em coligações com siglas classificadas por militantes e dirigentes petistas de “golpistas”. Na mão inversa, outros nove candidatos a governador de partidos que votaram pelo afastamento de Dilma vão ter o apoio do PT. Desses nove, há filiados ao MDB, PSD, PTB, PR e Rede.”

Louvável a pureza ideológica do jornal dos Mesquita, no diapasão que seguem outros jornais que, claro, também apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff.

Quem sabe publicariam nas suas capas: “Este jornal apoiou a entrega do governo a Michel Temer”?

Sabe-se desde antes de minha bisavó que, quando faltam virtudes a algum cidadão, sua primeira providência é invocar os “pecados” alheios.

Nada surpreendente, pois, como não é surpresa que, também à esquerda surjam, aqui e ali, posturas semelhantes.

Gente cujo objetivo principal é permanecer “pura e casta” no jogo da política, pouco importando que, com isso, o país seja retalhado, vendido e o seu povo mergulhe na miséria extrema e no desespero.

Bem vemos, por Marina Silva, onde acabam indo parar.

Isso nada tem a ver com honradez pessoal e honestidade na gestão pública, mas com uma noção de “superioridade moral” que, no fundo, só traduz o elitismo de quem age assim.

Engraçado é que, à direita e à esquerda, estes mesmos sujeitos reclamem da insistência de Lula e do PT em manterem a sua real posição hegemônica no campo popular. Real, sim, porque não há nem de longe quem possa representá-lo como o ex-presidente.

Aí, ceder o comando a quem não tem voto é “bonito”,  é “desprendimento” e “comportamento democrático”.

Tratam a política com ares “religiosos”, como “bons e maus” e, em nome da pureza não vacilam em entregar os postos de governo aos maus.

Estes, quando fazem suas alianças, são “hábeis”, “democráticos”, “agregadores”.

Sejamos claros, este não é um concurso para ver quem, entre nós, é o mais puro e virtuoso.

É uma luta de vida ou morte para a democracia e para, no horizonte próximo, retomar-se o caminho para a inclusão, para a justiça social, para a nossa própria existência como Nação.

Há um homem numa cela por ter pensado e agido assim.

Mas isto não vem ao caso, o importante é que fiquemos sempre limpinhos, cheirosos e falando apenas entre nós.

Enquanto eles, os donos do mundo, chafurdam no sangue e nas vísceras de um país e de seu povo.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Coronel acusa general Mourão de favorecer empresa em contrato do Exército

Suspeitas de irregularidades em contrato envolvem militares, uma companhia da Espanha e um lobista.

Oficial da reserva questiona atuação do atual vice de Bolsonaro no negócio entre 2012 e 2016


A corrupção nem sempre acontece com mala de dinheiro. Ela acontece também no Diário Oficial, disfarçada de atos oficiais”. As palavras são do coronel da reserva Rubens Pierrotti Junior, de 49 anos. Ele foi supervisor operacional durante o desenvolvimento do Simulador de Apoio de Fogo (SAFO) do Exército Brasileiro, elaborado pela empresa espanhola Tecnobit para projetar cenários e missões virtuais para treinamentos de militares a custos mais enxutos. Inaugurado em 2016, seis anos depois da licitação, o Exército garante que o simulador gera hoje uma economia de 50 milhões de reais por ano, mas o projeto acabou se tornando o epicentro de uma batalha na corporação: gerou resistência entre oficiais, demorou mais do que deveria para ser entregue e se tornou a razão de uma briga entre Pierrotti e o então general quatro estrelas Antonio Hamilton Martins Mourão, atual candidato a vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro.

A história do simulador ainda envolve relações estreitas demais entre oficiais da alta patente e executivos da empresa e até a suposta dívida por um favor prestado por um membro da maçonaria espanhola a um general brasileiro, segundo documentos reunidos em um dossiê de 1.300 páginas ao qual o EL PAÍS teve acesso através da BrasiLeaks, uma plataforma on-line de denúncias anônimas ao estilo da WikiLeaks. A partir da documentação, a reportagem conseguiu contactar Pierrotti, que era um dos mencionados nos documentos e aceitou relatar com detalhes o desenrolar do projeto.

Ao longo do desenvolvimento do simulador, a Tecnobit recebeu um total de oito reprovações do corpo técnico do Exército de etapas que eram dadas como concluídas. Mais de dez oficiais foram afastados ou pediram para deixar o projeto. Pierrotti foi um deles: ele pediu seu afastamento em março de 2014, após ele mesmo reprovar sete vezes o simulador. Depois de deixar o projeto, Pierrotti comandou um quartel paraquedista no Rio de Janeiro e passou para a reserva em setembro de 2016, após quase 32 anos de serviço. Hoje ele atua como advogado. Já o general Mourão, que a partir de 2012 passou a se envolver mais na coordenação do projeto, fazendo a interface entre o Exército e a Tecnobit, ficou conhecido por suas manifestações a favor de uma intervenção militar como forma de resolver a crise política brasileira. Desde que entrou na reserva, em fevereiro deste ano, vem se envolvendo mais ainda em assuntos políticos e promovendo candidatos militares nas eleições de outubro de 2018.

A origem da relação entre a Tecnobit e oficiais do Exército brasileiro é alvo de diversas especulações e teorias. Um delas, relatada por uma das fontes consultadas por este jornal e que pediu anonimato, diz respeito a uma suposta relação de proximidade entre o Departamento de Educação e Cultura do Exército, comandado pelo general Rui Monarca da Silveira, quando o contrato com a Tecnobit foi assinado, e membros do Partido dos Trabalhadores (PT), que governava o país na época. Segundo essa teoria, havia um interesse do governo em estreitar os laços militares com a Espanha — algo que de fato se concretizou em acordos assinados entre ambos os países — ao mesmo tempo em que se garantia vantagens indevidas para os envolvidos, sejam eles militares ou membros do partido, a partir da assinatura do contrato.

A segunda teoria, relatada pelo próprio Pierrotti, diz respeito ao papel desempenhado por Tomas Sarobe Piñero, conhecido como Tom Sarobe, junto a oficiais do Exército. Ele é um engenheiro e conhecido membro da maçonaria espanhola que fazia as vezes de representante comercial da Tencnobit por meio de sua empresa, a Semit Continental. "Ele é um mercador da morte", reconheceu Mourão a este jornal. "Atua no mercado internacional de produtos de defesa", explicou, para na sequência dizer que Sarobe era um "lobista" e, em seguida, "relações públicas", para então finalizar com "representante comercial" da Tecnobit. A empresa afirma que Sarobe "formava parte de uma agência comercial que deu efetivamente respaldo [ao projeto]". Em fevereiro de 2008, dois anos antes da assinatura do contrato com a Tecnobit, um decreto do Ministério da Defesa concedia a medalha do mérito militar, no grau de cavaleiro, a Sarobe, sem nenhuma justificativa aparente.

Suspeitas de fraude na licitação

Pierrotti conta que as conversas e os problemas sobre o projeto SAFO começaram no primeiro semestre de 2010, meses antes da contratação da empresa que o desenvolveria. Um processo que, segundo garante, foi "moldado" para favorecer a Tecnobit. “A Diretoria de Educação Superior Militar, chefiada na época pelo general Marco Aurélio Costa Vieira e subordinada ao Departamento de Educação e Cultura do Exército, resolveu encampar essa ideia e comprar o simulador da Tecnobit a qualquer custo”. Pierrotti narra que antes mesmo de a licitação ser aberta, “todo mundo já sabia” que haveria “uma missão para a Espanha”. Outra fonte próxima ao projeto, que não quis se identificar, confirmou o conhecimento prévio da empresa que ganharia o contrato e contou que o então chefe do Departamento, o general Rui Monarca da Silveira, chefe de Marco Aurélio, "deu total apoio" à empreitada.

Parte do documento que trata da necessidade de um simulador de artilharia brasileiro, e a menção à visita ao simulador espanhol.
Parte do documento que trata da necessidade de um simulador de artilharia brasileiro,
e a menção à visita ao simulador espanhol.
O caminho começou a ser traçado em março de 2010, quando o Exército encomendou um estudo para justificar a necessidade de um simulador de apoio de fogo. Nele, é mencionado como exemplo somente o simulador do Exército espanhol, projetado pela Tecnobit e inaugurado em 2002 com o nome de SIMACA (Simulador de Artilharia de Campanha). O documento ainda revela que foi feita uma visita de oficiais brasileiros à Academia de Artilharia do Exército da Espanha, o que “acrescentou algumas ideias-força relevantes que fazem parte da solução proposta” (veja na imagem ao lado). Não menciona nenhuma visita a outro simulador desenvolvido por outra empresa.

Com o estudo pronto, a portaria que oficializava a necessidade de um simulador para o Brasil fora publicada poucos meses depois, já em junho de 2010. O organismo responsável por promover uma licitação é a Comissão do Exército Brasileiro em Washington (CEBW), que fez então uma primeira tentativa em agosto, segundo conta Pierrotti. Três empresas, todas espanholas, incluindo a Tecnobit, teriam participado do processo, segundo o coronel, que garante que o edital dificultou a participação de outras companhias, o que teria gerado suspeitas de fraude e anulado todo o processo. Não há rastros documentais sobre a licitação em si, mas portarias publicadas pelo comando do Exército autorizavam a viagem de oficiais ao exterior para acompanhar o processo licitatório. Cerca de um mês e meio depois, uma nova licitação foi aberta e cinco empresas concorreram, incluindo, novamente, a Tecnobit. “Empresas com reconhecida capacidade tecnológica ficaram de fora”, conta Pierrotti. Ele menciona o ranking Simulation and Training Companies feito pela revista Military Simulation & Training Magazine, que lista anualmente as melhores empresas no ramo de tecnologia militar. A Tecnobit não estava no ranking em 2010, quando ganhou a licitação brasileira, nem no ano anterior, 2009, ou no ano seguinte, 2011.

Parte da portaria que oficializa a necessidade de um simulador para o Brasil, de junho de 2010.
Parte da portaria que oficializa a necessidade de um simulador para o Brasil, de junho de 2010.
Como um ranking não tem nenhuma interferência em uma licitação, a Tecnobit se saiu vencedora do processo. Em 22 de outubro de 2010, o contrato entre o Exército e a empresa espanhola era assinado, com a promessa de entregar um simulador em Resende (RJ) e outro em Santa Maria (RS), além de equipamentos como biblioteca, e o estabelecimento de uma filial brasileira da Tecnobit até outubro de 2013. Tudo isso a custo de 13,98 milhões de euros — pela cotação ao longo de outubro de 2010, esta cifra equivalia a cerca de 32 milhões de reais.

Por meio de nota, o Exército afirmou ao EL PAÍS que a decisão para a aquisição do simulador partiu da necessidade de adestramento das tropas por meios "auxiliares de instrução que minorem gastos e otimizem o emprego judicioso dos recurso públicos". Também disse que foram feitos estudos sobre a necessidade do simulador e que hoje ele "vem cumprindo de forma satisfatória os objetivos para os quais foi desenvolvido".

"Proposta indecente"

Não demorou para que os primeiros problemas entre a Tecnobit e o Exército aparecessem. Em abril de 2011, estava prevista a entrega da primeira das quatro fases do desenvolvimento do simulador, que consistia em detalhar e analisar os requisitos técnicos e operacionais da empresa. Foi quando o então major Renato Carvalho de Oliveira, do escritório de gerenciamento do projeto, enviou um e-mail a generais afirmando que existia uma “falta de capacidade técnica por parte da Tecnobit”, fazendo com que a empresa quisesse “tomar atalhos para se livrar de algumas responsabilidades previstas em contratos ou acertos”. O conteúdo do e-mail foi redigido após uma conversa com o então fiscal do contrato, o tenente coronel Eric Julius Wurts, e o supervisor técnico, na época major André Gustavo Monteiro Lima.

E-mail do major Carvalho tratando da “falta de capacidade técnica por parte da Tecnobit” (grifos da fonte).
E-mail do major Carvalho tratando da “falta de capacidade técnica por parte da Tecnobit” (grifos da fonte).
Na segunda fase, na qual um protótipo deveria ser apresentado, o constrangimento ficou maior. No dia de sua apresentação, o simulador ainda não conseguia realizar o cálculo da trajetória balística, como se esperava, lembra Pierrotti. “A proposta da Tecnobit foi indecente”, diz ele. “Eles pegaram um programa executável do simulador de artilharia de campanha da Espanha, o Simaca, e apresentaram como se fosse um protótipo do simulador brasileiro”. Fontes militares que participaram desta etapa contam que os executivos da Tecnobit entregaram um CD com uma cópia do simulador espanhol sem levar em conta as especificidades do armamento e da geografia brasileira e já defasado. “A apresentação do protótipo já foi fake”.

Mesmo com claros problemas na apresentação do protótipo, a empresa recebeu quase 5 milhões de euros pela conclusão da segunda fase do projeto. As demais fases foram todas parecidas em termos de atrasos e desentendimentos. Com o tempo, os próprios engenheiros militares brasileiros, que já trabalhavam lado a lado com os engenheiros espanhóis, passaram a solucionar os problemas da empresa. A transferência tecnológica acabou ocorrendo ao contrário, o que levantou a suspeita de que o projeto poderia ter sido desenvolvido dentro do Brasil com um custo menor, segundo Pierrotti.

Informe do Exército de julho de 2012 com a nomeação do coronel Wurts para o Curso de Política e Estratégia Aeroespaciais, afastando-o, portanto, do projeto SAFO.
Informe do Exército de julho de 2012 com a nomeação do coronel Wurts para o
Curso de Política e Estratégia Aeroespaciais, afastando-o, portanto, do projeto SAFO.
Por meio de nota, a Tecnobit diz que o projeto atrasou mais do que o previsto porque, de acordo com o contrato, ele era, inicialmente, uma "colaboração" entre a empresa espanhola e o Exército Brasileiro para o desenvolvimento do simulador "baseado em uma evolução e modernização do Simaca espanhol". Mas que, ao longo do desenvolvimento do projeto, "o cliente brasileiro fez pedidos que superavam amplamente os requisitos estabelecidos no contrato". O documento, ao qual o EL PAÍS também teve acesso, previa que o equipamento seria desenvolvido juntamente com engenheiros militares brasileiros para garantir a transferência tecnológica. Este era inclusive o item mais caro do acordo.

Mourão surge para "destravar" o projeto


General Mourão (no centro da foto) ao lado de Tom Sarobe (de gravata listrada), na Espanha.
General Mourão (no centro da foto) ao lado de Tom Sarobe (de gravata listrada), na Espanha.

Diante de sucessivos atrasos e constrangimentos, o Exército Brasileiro designou em julho de 2012 o general Antonio Hamilton Martins Mourão, que já participava do projeto de forma discreta como vice-chefe do Departamento de Educação e Cultura do Exército, para sua primeira missão na Espanha com o objetivo de acompanhar e, nas palavras de Pierrotti, "destravar o andamento do projeto". "Existe uma grande maioria no Exército que trabalha bem e que é honesta. Mas existe uma parcela, que não é pequena, que sob uma falsa justificativa moral, é conhecida como a tropa que resolve problema, ainda que ilegalmente ou de qualquer maneira", explica. "Ninguém vai sair com uma mala de dinheiro, mas o camarada pode sair promovido a general ou receber uma missão no exterior como prêmio".

Nessa viagem, Mourão e outros militares levaram suas respectivas esposas. Uma programação especial fora elaborada pelo adido militar brasileiro na Espanha para elas durante a missão de uma semana. No primeiro dia, um jantar foi oferecido para todos da missão pelo representante comercial da Tecnobit, Tomas Sarobe Piñeiro. Traje: esporte fino, previa o convite. A prática de oferecer jantares pelos executivos da empresa aos oficiais seria recorrente durante todo o processo. “Eu mesmo presenciei atitudes estranhas envolvendo viagens, jantares e pagamentos nesse projeto”, diz Pierrotti. “Em dezembro de 2013, depois que eu reprovei pela sexta vez o simulador, escrevi um relatório para o comando do Exército e disse que um dos diretores da Tecnobit me chamou para um jantar para resolver todos os problemas. Eu suspeitava que ele ia me oferecer alguma coisa durante o encontro e não aceitei o convite”.

Em uma reunião posterior a esse relatório, em janeiro de 2014, Pierrotti conta ter dito a Mourão que estava preocupado e que poderia assessorá-lo tanto na parte técnica como na parte jurídica, já que é formado em direito. "Mas ele ameaçou me mandar para a prisão". Dois meses depois, em março de 2014, o general assinou um certificado de que a empresa havia terminado seu trabalho, apesar de mais um parecer negativo de Pierrotti, do fiscal do contrato e de outros militares envolvidos no projeto. "Entramos em uma reunião na AMAN [Academia Militar das Agulhas Negras] com Mourão para prepará-lo para um encontro com representantes da Tecnobit. Ficamos ali conjecturando ideias e propostas para dar continuidade ao projeto. Uns vinte minutos depois, ele se encontrou com o Tom Sarobe no corredor e disse tudo o que a gente tinha falado pra ele", relata Pierrotti. "Isso pode se enquadrar em quebra de sigilo profissional. Ele entregou de bandeja todos os nossos argumentos para o representante da empresa. De que lado ele estava nisso?".

Informe do Exército de maio de 2013 anunciando a mudança de posto de alguns oficiais.
Informe do Exército de maio de 2013 anunciando a mudança de posto de alguns oficiais.
À reportagem, o general Mourão, que hoje está na reserva, admite que os atrasos ocorreram porque a empresa não "conseguia atingir aquilo que havia sido acordado no contrato", mas justifica dizendo que se tratava do desenvolvimento de um "software difícil". Ele nega que a empresa não tivesse capacidade técnica para realizar o trabalho, mas afirma que o processo ocorreu com certa dificuldade. "Tivemos várias discussões com a empresa, muita briga em determinado momento, mas ela cumpriu com o que foi contratado", disse. "Mas foi debaixo de muita pressão".

Com o afastamento do tenente-coronel André Gustavo Monteiro Lima.
Com o afastamento do tenente-coronel André Gustavo Monteiro Lima.
Em referência a Pierrotti, ao qual não chega a citar nominalmente, taxa o coronel da reserva de "psicopata" e "ressentido". "Esse camarada depois vai ser pego. Eu sei quem ele é", diz. "Ele vem divulgando coisas que não poderia divulgar. Por isso está cometendo um crime. Tomem cuidado onde vocês vão se meter. Há um crime em andamento". O general menciona que Pierrotti poderia responder pela quebra de acordo de confidencialidade, mas não diz se as revelações de Pierrotti poderiam se tratar de injúrias ou difamações.

Sobre os jantares que frequentava com representantes da Tecnobit, afirma que eram "normais". "Você está visitando um país, visitando uma empresa, o camarada convida para jantar na casa dele", argumenta. "É uma coisa normal, ué. Quando ele [Tom Sarobe] veio ao Brasil, eu o convidei para jantar na minha casa". A passagem aérea para a sua esposa foi paga pela Tecnobit, segundo documentos. Mourão confirma. "Eu tinha direito a uma passagem de primeira classe. Troquei por duas de classe econômica", explica. Ele também garante que os gastos com a esposa dele nas viagens foram cobertos com a diária que recebia do Exército. "Eu recebia as diárias e pagava as minhas despesas. Quem pagava [pelos passeios] era a diária que eu recebi". Mas Pierrotti contesta, ao dizer que a aditância militar brasileira na Espanha colocou à disposição da esposa de Mourão carro, motorista e secretária. O EL PAÍS teve acesso a documentos do Exército com uma programação montada especialmente para ela à cargo da aditância. Já a Tecnobit nega que tenha dado qualquer tipo de presente ou oferecido jantares a oficiais do Exército. A reportagem não conseguiu contato com Tom Sarobe.

Programação feita pela aditância do Exército na Espanha para as esposas de oficiais.
Programação feita pela aditância do Exército na Espanha para as esposas de oficiais.

Sobre o oferecimento de vantagens ou favorecimentos por parte da empresa a ele, o general é taxativo: "Jamais [recebi]. Até porque, se houvesse alguma coisa dessa natureza, o cara levava um murro na cara, né?", diz. "É desse jeito que funciona. A não ser [com] político, né? Eu sou soldado. Se fosse político, aí eu teria uma boa conta no exterior", afirmou ele à reportagem, em entrevista feita antes de ele ser escolhido como vice de Bolsonaro. Ele afirmou ainda "ter a consciência tranquila".

De SAFO a SIMAF

O equipamento deveria ter sido entregue em outubro de 2013, mas acabou sendo inaugurado apenas em 2016. A Tecnobit afirma se considerar "altamente prejudicada", e buscou uma corte internacional para resolver as questões e traçar um novo calendário de entrega. O novo acordo, diz a empresa, permitiu que o projeto fosse concluído "com êxito". A companhia assegura ainda que, exceto pela biblioteca — que o Exército ainda não teria definido sua localização — todos os itens do contrato foram cumpridos. Incluindo a abertura de filial no Brasil — que hoje, diz, conta com apenas dois funcionários — e de um laboratório de simulação. A reportagem esteve no endereço da suposta filial brasileira, em um prédio comercial na Barra, no Rio de Janeiro, e a sala está vazia e trancada. Depois de confirmar que a sede estava no Rio, a companhia voltou atrás e informou que, na verdade, havia se mudado para São Paulo.

Para dissociar o simulador de apoio de fogo da má fama que o nome do projeto já estava evocando em alguns círculos, o SAFO (Simulador de Apoio de Fogo) mudou de nome. Passou a ser chamado de SIMAF (Sistema de Simulação de Apoio de Fogo). Com isso, em uma cerimônia realizada em 19 de fevereiro de 2016, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas inaugurava, finalmente, o primeiro simulador na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende (RJ). Quatro meses depois, em 11 de junho, era inaugurado o simulador em Santa Maria (RS).

Em 2017, foram realizados 20 exercícios pelos cursos de formação de militares com os simuladores nas duas unidades, segundo o Exército. A previsão para este ano é que sejam realizados 23 exercícios, ainda segundo o Exército, que ressalta ainda que o simulador economiza 50 milhões de reais em munição ao ano, "valor que ultrapassa a quantia paga pelo simulador, comprovando a viabilidade econômica do projeto". Pierrotti contesta esta afirmação. "O Exército não deixou de gastar nenhum centavo de munição de artilharia por conta do simulador. A economia é virtual".

Todos os demais questionamentos da reportagem feitos ao Exército sobre atrasos, o processo de licitação, custos com viagens, cláusulas do contrato que a Tecnobit não teria cumprido e a possível relação de executivos da empresa com oficiais do Exército antes mesmo de aberta a licitação não foram respondidos ou foram negados.

Marina Rossi | Felipe Betim
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