5 de ago. de 2018

Estratégia brilhante de Lula assusta Globo


O grupo Globo descobriu, assustado, a estratégia eleitoral de Lula. O portal G1 ouviu Marcelo Ribeiro, ex-ministro do TSE, e Francisco Emerenciano, especialista em direito eleitoral, sobre as possibilidades da candidatura do ex-presidente e descobriu uma estratégia brilhante, que, segundo a maior consultoria de risco político do mundo, vai funcionar.

A coluna do jornalista Clóvis Rossi na Folha de São Paulo deste domingo 5 de agosto trouxe uma notícia que a grande mídia brasileira escondeu.

Rossi disse, literalmente, que “O Eurasia Group, consultoria de risco político, bate mais palmas do que os convencionais para o candidato que o PT vier a lançar se Lula for mesmo vetado. Terá ‘grandes chances relativas de ir ao segundo turno’, diz [o Grupo Eurasia] em nota desta semana”

O Eurasia Group, para quem não sabe, é uma consultoria de risco político com escritórios em Nova York, Washington, DC, Londres, Tóquio, São Paulo, São Francisco e Cingapura. A empresa é considerada “a maior consultoria de risco político do mundo”.



Consultorias de risco político são utilizadas por grandes investidores internacionais para saberem quais são os riscos de investir neste ou naquele país de acordo com as chances de cada grupo político ascender ao poder.

No Brasil, porém, pouca gente sabe do que os banqueiros e investidores nacionais e internacionais estão cansados de saber: que Lula e o PT têm uma estratégia infalível para vencer as eleições de 2018. Uma estratégia que Ciro Gomes aparenta não ter tido inteligência para entender.


Nas semanas anteriores, a revista Veja e o jornal O Estado de SP descobriram essa estratégia quando entrevistaram o presidente da  seção de Direito Eleitoral da OAB-SP, Silvio Salata, e a especialista em Direito Eleitoral Karina Kufa. Outro especialista na matéria que tem tratado disso é Luiz Fernando Casagrande Pereira.


Agora, o portal G1 procura outros especialistas e descobre a mesma coisa que Veja e Estadão. Os especialistas são:

Marcelo Ribeiro, ex-ministro do TSE


Francisco Emerenciano, advogado com atuação no TSE e especialista em direito eleitoral, autor de livros como Direito Eleitoral Brasileiro – teoria e prática


Esses especialistas explicaram claramente por que Lula foi oficializado candidato. Duas perguntas do portal aos especialistas esclarecem tudo:



Como se vê, Lula pode estar na eleição até pelo menos meados de setembro. Até lá, se houver confirmação da inelegibilidade provisória de hoje, o PT pode trocar de candidato colocando o vice que Lula escolher na cabeça de chapa.

E, se Lula conseguir disputar a eleição e não for diplomado por rejeição posterior do TSE à sua candidatura, haverá que fazer outra eleição presidencial e, aí, não se tenha dúvida de que quem votou em Lula na primeira eleição votará em seu substituto na segunda.

Eduardo Guimarães
No Blog da Cidadania
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PT terá que definir o vice até segunda?

Apesar de uma possível pressão para o nome ser definido antes, o PT deverá divulgar o vice antes do dia 15 somente se for obrigado a fazê-lo


Contra os planos da executiva nacional do PT, que quer aguardar mais 10 dias para a definição do vice, seguindo o prazo legal para o registro das chapas de candidatos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), uma nota divulgada pela Agência Brasil indica que o Tribunal poderá cobrar o nome do escolhido até amanhã (06).

"Segundo resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as chapas completas têm de ser oficializadas até a próxima segunda-feira (6), um dia após o encerramento do prazo estabelecido para realização das convenções partidárias", informou a agência, com base em uma normativa da Justiça Eleitoral [leia aqui].

A mensagem é direta ao candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, que na Convenção do partido realizada neste sábado (04), deixou claro que seguirá o prazo estabelecido para o registro das chapas, que é até o dia 15 de agosto e que, até lá, nenhum nome será divulgado, mesmo com os rumores de aliança com a candidato do PCdoB, Manuela D'Ávila, ou com o atual coordenador de campanha do PT, Fernando Haddad.

O trecho mencionado pela nota indica que as coligações devem ser registradas até as 19h do dia 15 deste mês, mas que a definição por parte das siglas deve ocorrer até o dia 5 de agosto, devendo ser lavrada em ata de livro aberto reconhecido pela Justiça Eleitoral até 24h depois do encerramento deste prazo, ou seja, até amanhã (06).

"A escolha dos candidatos pelos partidos e a deliberação sobre coligações deverão ser feitas no período de 20 de julho a 5 de agosto do ano em que se realizarem as eleições, lavrando-se a respectiva ata em livro aberto, rubricado pela Justiça Eleitoral, publicada em vinte e quatro horas em qualquer meio de comunicação", diz a legislação eleitoral.

Entretanto, apesar de o recado ter sido enviado ao PT, outros quatro partidos também não definiram seus vices. Além de Lula, Jair Bolsonaro (PSL), Ciro Gomes (PDT), Manuela D'Ávila (PCdoB) e Levy Fidélix (PRTB) precisam divulgar os nomes que levarão para compor a chapa. 

Quando a dúvida começou a ser levantada pela imprensa, a presidente nacional do partido, senadora Gleisi Hoffmann, e o coordenador de campanha, Fernando Haddad, decidiram visitar o ex-presidente na sede da Polícia Federal, em Curitiba, para definir os rumos. 

E a concusão tomada após o encontro foi de que o partido usará os meios legais, se for preciso, para provar a validade de que a chapa para a disputa eleitoral poderá ser composta até o dia 15 de agosto, não antes. 

Mesmo articulando o mais rápido possível qual será esse nome, seja junto à Executiva Nacional, seja com o próprio ex-presidente, o PT pretende manter-se firme na decisão de divulgar o vice somente daqui a 10 dias, ainda que se prevenindo com uma carta na manga, caso seja pressionado pela Justiça a fazê-lo antes.

No GGN
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A guerra na direita é para ver quem é o candidato do ódio


Não tem mais centro-direita no Brasil.

Essa é a impressão que fica dos movimentos dos dois principais candidatos da direita, Jair Bolsonaro e Geraldo Alackmin depois de “resolvida” a indicação de seus candidatos a vice.

Bolsonaro, depois de suas viagens espaciais por estações lunáticas e delírios imperiais, escolheu o General Hamilton Mourão, numa escolha que a ele soma bem pouco e, infelizmente, é terrível para o Exército Brasileiro, seja porque o general será o ordenança do ex-capitão, seja porque estimula atos de indesejável indisciplina como os que o próprio Mourão protagonizou.

Que Bolsonaro possa ser o “Rambo” de cadetes e aspirantes, ávidos pelo sonho de serem um “top gun” juvenil e sedentos por exercer aos 20 e poucos anos o mando que as divisas de oficial lhes dará, é compreensível. Maturidade, armas e poder costumam mesmo ser um coquetel inebriante. E sempre há, como em qualquer lugar, boçais, para ficar na palavra com que o próprio Mourão descreve parte de seus agora correligionários.

Mas que oficiais generais, ciosos de suas missões, capazes de compreender o que é uma força de Defesa para um país gigante como o nosso certamente franzem as sobrancelhas sob o quepe quando vêem uma situação destas, francamente desestimuladora da hierarquia e da disciplina essenciais à vida militar. Sem falar, é claro, na visão estratégica das Forças Armadas a caminho de ser  virada pelo avesso, porque será inevitável que se as envolva ainda mais nas questões de segurança e se deixe de lado o conceito de terem núcleos de vanguarda tecnológica, porque são eles que, hoje, atuam no ponto central da Defesa: a capacidade de dissuassão de aventuras expansionistas sobre nosso território.

Não subestimem os nosso generais achando que eles pensam que é o número de fuzis que vence batalhas.

Já Geraldo Alckmin, depois de um flerte mal-sucedido com um empresário liberal, Josué Alencar, escolheu a senadora Ana Amélia, a “mulher do relho” que, numa frase magistral, Janio de Freitas definiu hoje, na Folha, como a “versão nunca fardada de Jair Bolsonaro”, em termos políticos.

O movimento é autoexplicativo. O candidato do PSDB investe sobre a porção direitista do eleitorado do Sul do país, onde Bolsonaro nada de braçada e ele perde até mesmo para Álvaro Dias, o dissidente tucano do tal “Podemos”. Um alvo, convenhamos, bem modesto para “gastar” um cartucho do calibre de uma vice-presidência.

Bolsonaro e Alckmin, como se vê, estão disputando nacos da mesma carne e é difícil achar que, neste puxa-repuxa, as mandíbulas do ex-capitão sejam mais fracas que as de Alckmin.

Nenhum dos dois, em suas composições políticas, conseguiu ameaçar o território onde viceja a candidatura Lula: os mais pobres, o Nordeste e as periferias. Notadamente a Alckmin falta gás nestes terrenos e suas escolhas não o ajudam.

Além do mais não é preciso ser gênio do marketing para saber que a onda da direita já teve melhores dias.

Mas o PSDB não pode reclamar: foi ele que levou àquilo que se apontou na primeira linha deste texto, a extinção de uma centro-direita no país, quando estimulou e executou o golpismo feroz que agora o leva a ter de ser, como disse em carta, hoje, o ex-presidente Lula:  um prato da extrema-direita onde virou o recheio, o escondidinho de tucano.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Quem é o general Mourão, vice de Bolsonaro?

Escolhido para integrar chapa com candidato do PSL chegou a defender intervenção no ano passado e também elogia Ustra

Ao passar para reserva, Mourão chamou Ustra, também elogiado por Bolsonaro, de "herói"
Jair Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PSL, anunciou seu vice neste domingo 5. Após negociações frustradas com a advogada Janaína Paschoal e sondagens ao 'príncipe' Luiz Phillipe, descendente da família imperial, o deputado confirmou a escolha do nome do general da reserva Hamilton Mourão como integrante de sua chapa.

A indicação foi confirmada em nota pelo PRTB e a oficialização ocorrerá em convenção nesta tarde. Ao jornal Estado de S.Paulo, Mourão afirmou ter aceito o convite e se disse "honrado".  

O partido de Mourão, presidido por Levy Fidélix, acrescenta pouco à coligação de Bolsonaro em termos estratégicos, pois leva apenas um segundo de televisão para o programa eleitoral de televisão e rádio do candidato. Antes de Mourão, Bolsonaro tentou convencer o PRP a indicar o general Augusto Heleno como seu vice, mas o partido preferiu não se coligar com o PSL. 

Antonio Hamilton Martins Mourão ingressou no Exército em 1972, na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, no Rio de Janeiro, também frequentada por Bolsonaro. Foi instrutor da mesma academia, cumpriu missão de Paz em Angola e foi adido militar do Brasil na Venezuela. Ele também comandou a 6ª Divisão de Exército e o Comando Militar do Sul. 

Embora também seja militar, Bolsonaro tem um currículo bem mais modesto que o de seu vice no Exército. O presidenciável chegou a capitão, enquanto Mourão foi general de exército, segunda patente mais alta da coorporação. 

Nos últimos anos, Mourão passou a adotar um perfil linha dura semelhante ao de Bolsonaro. Em seu último discurso como general no Salão de Honras do Comando Militar do Exército, no fim do ano passado, chamou o torturador Carlos Bilhante Ustra de "herói". 

Chefe do DOi-Codi quando foram registradas 45 mortes e desaparecimentos de presos políticos, segundo a Comissão Nacional da Verdade, Ustra também costuma ser enaltecido por Bolsonaro. Na sessão da Câmara que aprovou o impeachment contra Dilma Rousseff, o presidenciável referiu-se ao torturador como o "terror" da ex-presidenta. Em recente entrevista ao Roda Viva, Bolsonaro disse que seu livro de cabeceira era "Verdade Sufocada", de autoria de Ustra. 

Antes de deixar o cargo de secretário de Economia e Finanças do Comando do Exército e seguir para a reserva, Mourão causou enorme polêmica ao defender, em uma palestra promovida pela maçonaria em Brasília em 2017, uma possível intervenção das Forças Armadas caso as instituições não resolvessem "o problema político"

À época, o militar afirmou que ou o Judiciário retirava da vida pública "esses elementos envolvidos em todos os ilícitos" ou o Exército teria de "impor isso". Ele afirmou que não existe uma fórmula de bolo para uma revolução ou uma intervenção, mas que haveria "planejamentos muito bem feitos".

Muitos cobraram à época uma punição para o general, mas Villas Bôas preferiu resolver o caso internamente e acelerar a aposentadoria de Mourão. 

Em 2015, o comandante do Exército também resolveu internamente outra polêmica. Exonerou Mourão do Comando Militar do Sul e o transferiu para a secretaria de Finanças após seu subordinado criticar abertamente o governo de Dilma Rousseff.

Há três anos, Mourão chegou a afirmar em uma apresentação que a mera substituição da petista, embora necessária em sua visão, não traria uma mudança significativa no "status quo", que dependeria do "despertar para a luta patriótica".

No CartaCapital
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O Santo não é nada santo...

Crusoé faz breve lista dos pecados de Alckmin


Da revista Crusoé:

A santidade de Alckmin

O envolvimento de Geraldo Alckmin com o sagrado vem de longa data. No final dos anos 1970, quando exercia seu primeiro cargo executivo na Prefeitura de Pindamonhangaba, no interior paulista, ele inaugurou uma rua com o nome do sacerdote espanhol que fundou a Opus Dei, uma corrente radicalmente conservadora do catolicismo. O homenageado seria transformado em sаnto pelo Vaticano em 2002. E Alckmin também, alguns anos depois, só que em circunstâncias bem menos nobres. O tucano foi apontado, nas investigações da Operação Lava Jato, como o “Santo” das planilhas de distribuição de dinheiro da Odebrecht. Ele nega. Com base no testemunho de um dos delatores da companhia, sustenta que “Santo”, na verdade, era um burocrata de uma estatal do governo paulista. Mas a alcunha o incomoda enormemente. Tanto é assim que, em seu site na internet, há uma nota que tenta explicar: “Alckmin não é o Santo da lista da Odebrecht”. Nem de lista nenhuma. O homem que o PSDB ungirá (...) como o seu candidato ao Palácio do Planalto está longe, bem longe, de gozar das virtudes exigidas para a canonização. Por trás da imagem do homem cordato e hígido, há um personagem que carrega traços marcantes da velha política. Com jeito, o Alckmin que você não conhece é hábil em travar investigações capazes de comprometê-lo e, nas quatro vezes em que governou São Paulo, deu sustentação ao mesmo modelo de relacionamento com empreiteiras que acendeu o pavio da Operação Lava Jato – aquele em que obras são trocadas por polpudos repasses de dinheiro a políticos.

(...) apenas em seu último mandato como governador, exercido entre 2015 e 2018, Alckmin distribuiu secretarias para nove partidos. Muitas delas ficaram nas mãos de gente sem qualquer experiência na área. Outras práticas antigas também integraram a cartilha do tucano, como tirar deputados eleitos da Câmara para que suplentes ligados a ele assumissem os mandatos. Ou, ainda, impedir a abertura de comissões parlamentares de inquérito na Assembleia Legislativa: 69 CPI’s foram barradas entre 2001 e 2006, 23 entre 2011 e 2014 e 14 depois de 2015. Ao todo, 106 investigações parlamentares que tinham por alvo supostas irregularidades no governo nem sequer foram abertas. Crises políticas também passaram a ser contidas no velho esquema do toma-lá-dá-cá. No ano passado, após uma ameaça de rebelião em sua base parlamentar, Alckmin não só liberou emendas para os deputados se aquietarem como permitiu que elas fossem incluídas no orçamento deste ano com o compromisso de que seriam pagas. (...) Na ponta do lápis, serão 5 milhões de reais para cada um dos deputados estaduais. Além disso, inaugurações de obras foram concentradas no final do mandato — entre janeiro e abril deste ano, pouco antes de ele deixar o cargo de governador para se candidatar a presidente, foram 50 eventos dessa natureza, um a cada dois dias. Detalhe: muitas das obras nem sequer estavam concluídas.

Como todo político tradicional, há também várias promessas não cumpridas. As obras do chamado Trecho Norte do Rodoanel, o grande anel viário que circunda a capital paulista interligando as rodovias que nela chegam, foram iniciadas em 2013 com previsão de conclusão em 2016. Devem ser entregues apenas em 2019, com custo 30% superior ao inicial. Uma linha do metrô foi licitada em 2013 com promessa de entrega em 2015, mas só foi implantada de verdade neste ano. (...)

Há outros dados, mais objetivos, que devem facilitar o trabalho dos adversários de Alckmin durante a corrida presidencial. A educação pública em São Paulo também patina e vários índices oficiais apontam que o aluno da rede pública no estado é deficiente no aprendizado de matemática e português. O sistema educacional paulista chegou a ser alvo de reparos em uma análise recente das contas do tucano no Tribunal de Contas.

Para blindar-se no jogo da política, Alckmin se cerca de auxiliares ligados ao próprio Ministério Público. Desde que assumiu o cargo com a morte de Mário Covas, em 2001, o tucano potencializou um antigo formato herdado do ex-governador do MDB Orestes Quércia, já falecido, de atrair para áreas-chave do governo integrantes da instituição que é responsável por, dentre outras funções, investigar e fiscalizar o governo. Os dois últimos procuradores-gerais de Justiça de São Paulo, o cargo máximo do MP estadual, integraram o governo de Alckmin após deixarem o posto. Um deles foi nomeado secretário de Justiça. O outro foi escolhido para a Secretaria de Segurança Pública. Na área de segurança, por sinal, sete dos últimos oito secretários vieram do MP. Havia ainda vários promotores espalhados pelo segundo escalão do Poder Executivo estadual. A aliança estratégica também passa pelo Judiciário. Um ex-presidente do Tribunal de Justiça deixou o posto, em 2016, para assumir a Secretaria de Educação. Pode até ser coincidência, mas o bilionário setor de transportes, hoje alvo principal do braço paulista da Lava Jato, foi controlado na era Alckmin por um promotor. Era sob a alçada dele que ficava a Dersa, a estatal paulista responsável pelas obras viárias. E foi justamente esse promotor quem nomeou para a companhia Laurence Casagrande, preso em junho sob suspeita de corrupção em obras no estado.

Nenhuma grande investigação contra altas autoridades locais avança em nível estadual em São Paulo. As apurações no Ministério Público só começaram a andar depois que a Odebrecht fechou o acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República, em Brasília. Paralelamente, casos que podem respingar em Alckmin tomam rumos, digamos, estranhos. Delatado por executivos da Odebrecht que o acusaram de receber dinheiro de caixa dois para financiar suas campanhas em 2010 e 2014, o tucano passou à condição de investigado. Como perdeu o foro privilegiado após deixar o governo, o Superior Tribunal de Justiça decidiu que a acusação deveria ser enviada para o MP de São Paulo. Um promotor decidiu abrir uma investigação por improbidade administrativa, mas o procurador-geral, Gianpaolo Smanio, retirou o inquérito das mãos dele. O promotor se queixou ao Conselho Nacional do Ministério Público, em Brasília, e Smanio recuou. O caso é um dos que mais incomodam Alckmin porque envolve seu cunhado, Adhemar César Ribeiro, conhecido captador de recursos para as campanhas do tucano. Situações como essa são relativamente comuns. A cúpula do MP tenta, sempre que possível, levar na rédea curta as apurações com potencial de gerar danos ao ex-governador. (...)

Ao longo de seus governos em São Paulo, Alckmin manteve com as gigantes da empreita uma relação parecida com a que elas mantinham com o governo federal — e que originou, na esfera nacional, a descoberta pela Lava Jato de um bilionário esquema de corrupção. Todas as grandes empreiteiras (...) firmaram negócios bilionários com o governo paulista ao longo dos anos em que o tucano esteve no poder. E de alguns desses negócios, conforme surgiu em depoimentos prestados como parte de acordos de delação premiada, saíram pagamentos a gente ligada a ele. Incluindo o cunhado apontado como arrecadador de suas campanhas. Ele é acusado de ter obtido 10,3 milhões de reais da Odebrecht durante as campanhas de 2010 e 2014. (...)

A despeito dos ataques e do baixo desempenho experimentado até aqui entre os eleitores, Alckmin ganhou algum fôlego ao fechar um grande arco de alianças, após intrincada negociação com o chamado Centrão, um ajuntamento do que há de mais fisiológico na política brasileira. Ao todo, dez partidos deverão estar ao lado do tucano, o que lhe dará quase metade do tempo total da propaganda eleitoral na televisão. No discurso que fez na convenção que o lançou candidato em 2006, Alckmin atacou ferozmente o esquema do mensalão (...) Passados doze anos, os mensaleiros atacados pelo tucano, como Valdemar Costa Neto e Roberto Jefferson, viraram fiadores de sua própria campanha. Nada mais ilustrativo de como a política brasileira dá voltas e não sai do lugar.

No CAf
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Estudo confirma que evangélicos acham que dízimo é investimento financeiro

Fiéis acreditam na conversa de pastores de que Deus vai devolver o dinheiro com acréscimo
Estudo feito pela LifeWay Research nos Estados Unidos confirma que os evangélicos pagam o dízimo como se fosse uma aplicação financeira.

Eles de fato acreditam que o dinheiro retornará com correção.

Um terço dos 1.001 evangélicos entrevistados disse que suas congregações ensinam que Deus lhes abençoará se pagar o dízimo e fizer oferta.

Do total, 38% dos evangélicos concordam com a afirmação "Minha igreja ensina que, se eu der mais dinheiro para minha igreja e caridade, Deus me abençoará com retorno [financeiro]".

Dois terço deles afirmaram que Deus quer que eles prosperem.

O estudo vale também para o Brasil, onde a teologia da prosperidade se firmou tanto quanto erva daninha se alastra em qualquer tipo de solo.

Se Deus existe, ele é o todo poderoso, criador de trilhões de estrelas e planetas. Por que então ele se interessaria com o pagamento de dízimo? Ele precisa de dinheiro para quê?

Só pastores prosperam com a teologia da prosperidade.

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JN esfrega feminicídio na cara da família brasileira – e de quem nega que ele exista

(Para, horas depois, na Globo News, Bolsonaro seguir o exemplo de Alexandre Garcia e criticar a lei que tipifica o crime)


Quantas vezes você viu na imprensa uma mulher, se aproveitando da superioridade física, estapear um homem dentro do carro, arrastá-lo pelos cabelos, espancá-lo pela garagem de um prédio e continuar no elevador, para depois jogá-lo ou vê-lo se jogar da sacada de um prédio? Nenhuma. Esta cena nunca foi vista no Brasil nem em nenhum país do mundo. Este tipo de crime vitima mulheres, não homens.

É por isso que se especificou, em 2015, no Código Penal, o crime de feminicídio, que agrava o crime quando é praticado contra a mulher e por razões da condição do sexo feminino, quando envolve violência doméstica e familiar e menosprezo ou discriminação à condição de mulher. Matar uma mulher virou crime hediondo em virtude das estatísticas que apontam que mais de 60% dos estupros e crimes de lesão corporal dolosa e 40% das tentativas de homicídio contra as mulheres ocorreram dentro de casa, e seus algozes foram principalmente companheiros e ex-companheiros.
Infelizmente, há dentro da própria Globo “formadores de opinião” que negam a existência do crime de feminicídio, preferindo fazer chacota nas redes sociais
Nesta sexta-feira à noite, o Jornal Nacional, da Rede Globo, esfregou a realidade do feminicídio na cara da família brasileira –e de quem continua a negar que ele exista. Nas cenas bárbaras, que provocam revolta e uma sensação de impotência em quem assiste, o professor de Biologia Luis Felipe Manvailer, aparece nas câmeras de segurança do prédio onde morava com a mulher, a advogada Tatiane Spitzner, espancando, perseguindo e intimidando a esposa, que acabaria “caindo” da sacada do quarto andar do edifício minutos depois.



De forma incrivelmente covarde, Manvailer, um fortão com o dobro do tamanho  da mulher, começa a estapear Tatiane ainda no carro, persegue-a pela garagem do prédio, chuta-a caída no chão, arrasta-a até o apartamento, aparentemente atira-a pela sacada e desce para pegar o corpo estatelado na calçada. No elevador, ainda na presença da advogada, Manvailer desfere olhares claramente de ameaça; Tatiane parece saber o que a espera em casa, e tenta seguidas vezes escapar. Após jogá-la ou assisti-la se jogar da sacada, o biólogo retira o corpo da calçada e o leva para o apartamento, para depois reaparecer tentando limpar as marcas do crime.

É feminicídio desenhado de uma forma que raramente se viu diante das câmeras, mas nada que espante o leitor da página da Globo na internet: todos os dias, o lado esquerdo do portal estampa crimes de feminicídio. Neste sábado, trazia a história do vereador de Minas Gerais acusado de matar a tiros a ex-namorada e o pai dela na frente da filhinha de 1 ano de idade. Na lei do feminicídio, a pena é aumentada em um terço quando o crime for cometido “na presença de descendente ou de ascendente da vítima”.


Infelizmente, há dentro da própria Globo “formadores de opinião” que negam a existência do crime de feminicídio, preferindo fazer chacota nas redes sociais.



Seguindo o exemplo de Alexandre Garcia, horas depois de o Jornal Nacional ir ao ar, na Globo News, do mesmo grupo, o candidato de extrema-direita Jair Bolsonaro atacava a lei, da qual é adversário desde o princípio. Mais uma vez, o candidato se mostrou avesso às leis e a favor da justiça com as próprias mãos. Para Bolsonaro, em vez de lei para punir os assassinos, é melhor a mulher ter uma arma e se defender sozinha.

Sob este raciocínio, vítimas fatais como Tatiane Spitzner nem sequer veriam seus algozes presos.

Cynara Menezes
No Socialista Morena
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Descartável

Precisei fazer um exame de sangue. Hein? Não interessa por quê. Estou naquela idade em que perdemos a conta de tudo que nos espetam e nos extraem. O T.S. Eliot escreveu que podia medir a sua vida em colherinhas de chá. Eu posso medir a minha em agulhas. Então: precisei fazer um exame de sangue. 

A moça do laboratório era jovem, muito jovem. Não acredito em Deus, mas há momentos em que recorro a Ele, na esperança que, mesmo não existindo, Ele me ouça, e não tenha ressentimentos. Pedi a Deus que, apesar da sua evidente pouca idade, a moça tivesse se especializado em inserção da agulha – aquele instante que, numa tourada, corresponderia a uma estocada certeira no coração do touro.

Talvez para aliviar um pouco a solenidade do momento, a moça falou:

– As seringas são descartáveis.

Vi uma oportunidade para colaborar com a descontração. Disse:

– Eu também sou.

Eu não esperava uma gargalhada. Um sorriso me bastaria. Um meneio com a cabeça, para mostrar que ela ao menos me ouvira. Um “rá!” que fosse. Ou então a pior reação que uma piada pode provocar, o terror de todo o piadista profissional ou instantâneo. A pessoa que ouve a piada perguntar:

– Como assim?

“Como assim?” é mortal. “Como assim?” é o túmulo da piada. Não há vida inteligente depois de “Como assim?”. Ter que explicar a piada é uma humilhação da qual ninguém se recupera. Como responder a um “como assim?”?

“É uma piada, minha filha. Autodepreciativa, pois me compara a uma seringa de vida efêmera, que teve sua breve utilidade neste mundo e agora vai para o cemitério das gazes e das luvas sujas junto com o resto do lixo infectado pelo contato humano. Como eu, que não sirvo mais para nada e sou o lixo de mim mesmo.”

Mas fiquei quieto, como ela. Fizemos um pacto tácito de silêncio. Esqueceríamos o ocorrido, a piada e seu fracasso. Não tenho dúvida de que ela ouviu e entendeu a piada, mas a piada só a entristeceu. 

Não quero pensar mal da moça, mas desconfio que na hora da estocada – olé! – ela errou a veia de propósito, pra eu aprender. 

Luís Fernando Veríssimo
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Perfídia na Justiça

Perfídia. Vale prestar atenção nessa palavra. Um pérfido não é só um traidor, mas um traidor muito perverso porque conta com a boa fé daquele que será enganado. A ingenuidade do outro é parte fundamental na estratégia de traição.

Nas aulas de direito humanitário, eu uso o exemplo de alguém que está vestido com o emblema da Cruz Vermelha e que adentra território de conflito armado com essa veste que lhe dá salvo-conduto. Então, perfidamente, explode uma bomba ou dispara contra os desarmados com o fim de ganhar terreno de combate. A crueldade do ato advém do princípio de confiança depositada no emblema humanitário, na “bona fide” que remonta regras medievais da Cavalaria, de não se atirar pelas costas, por exemplo.

O que faz hoje a Suprema Corte do nosso país, quando nega o direito inalienável à presunção de inocência de Lula e de milhares de outros presos, é muito grave, é inconstitucional e danifica projetos de vida de forma irreparável. Isso nós já sabemos, mas quando penso na postura de certos ministros diante do impasse jurídico-político que vive o país, a melhor definição que me ocorre é a da perfídia.

Essa sensação vem intuitivamente quando me perguntam o por quê da postura de pessoas que negociaram seus nomes para compor a Corte Suprema jurando compromisso com os direitos humanos e os movimentos sociais. Um deles, que inclusive está no foco do impedimento de liberdade ao Lula, foi escolhido com a bênção do Movimento Sem Terra, ou seja, foi escolhido pela confiança dada pela gente humilde que compõe um dos maiores movimentos populares da América Latina. O que é isso senão perfídia?

Nosso país tem inúmeras tarefas de futuro para coser os rasgos e estragos no tecido democrático. Serão anos de trabalho de reconstrução e, entre tantas prioridades, será inevitável uma reforma do judiciário que vede a traição ao povo e às lutas. Uma reforma que crie instrumentos reais de compromisso com a democracia, uma justiça que atue com carinho e prioridade ao povo historicamente discriminado. Sei bem que a palavra é forte, mas quem é do campo jurídico sabe que a justiça nunca foi tão desacreditada como agora. E uma justiça que se afasta tanto assim do povo, que é reconhecidamente injusta por bloquear a democracia, deveria mudar de nome. Bom, não custa lembrar que a perfídia é considerada uma aberração para o direito de guerra: não há proteção de conduta, não há perdão.

Carol Proner, Doutora em Direito, professora da UFRJ, diretora do Instituo Joaquín Herrera Flores – IJHF
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O imponderável no pleito


Termina hoje, com as últimas convenções, a chamada pré-campanha. A escolha dos candidatos clareia o quadro mas continuamos a navegar no nevoeiro.  Observamos e analisamos a campanha com olhos do passado, segundo padrões, tendências e costumes que não terão agora o mesmo valor,  em função das singularidades da disputa, da psicologia de um eleitor desiludido com a política e de mudanças culturais/ comportamentais ditadas pelas tecnologias. 

O tão valorizado tempo de televisão acirrou as disputas por aliados na reta final desta etapa. Mas terá ele ainda o mesmo peso ou a TV perderá influência para a Internet, as redes sociais e outras mídias, afora as convencionais e o horário eleitoral dito gratuito? 

Se o tempo de TV ganhasse eleição, o tucano Geraldo Alckmin já estaria eleito. O acordo com o Centrão vai lhe garantir 40% do tempo diário que será repartido em duas edições a partir do dia 31.  Já foi surrado o exemplo de Ulysses Guimarães, o mítico líder da resistência parlamentar à ditadura que, apesar do maior tempo, ficou em sétimo lugar em 1989.  Em sentido contrário, em 2016 o candidato do PHS, Alexandre Kalil, elegeu-se prefeito de Belo Horizonte tendo apenas 23 segundos de tempo de TV.  A teia, a força e a influência das redes sociais cresceram muito de lá para cá, mas é impossível, hoje, precisar o papel que jogarão.  

A pesquisa da CNI “Retratos da Sociedade Brasileira” trouxe, na semana passada, afora resultados eleitorais já conhecidos, algumas informações sobre o sentimento do eleitor. A indefinição segue altíssima, com apenas 27% considerando sua escolha de hoje definitiva. A motivação em relação ao pleito é contraditória: 72% acham que ele pode mudar o país para melhor mas 45% declaram-se pessimistas  quanto ao resultado.  Todos prometem prestar muita atenção ao discurso dos candidatos. A maioria, 62%, disse que o fará através dos meios convencionais, como jornais, revistas, rádio e televisão, sendo que 25% farão uso exclusivo dela para se informarem.  Mas 48% dos entrevistados declaram-se usuários de diferentes plataformas na Internet, sendo que 26% incluem entre elas as redes sociais mais conhecidas; 16% só se informam pela Web, sendo que 5% apenas através de redes sociais e blogs; 8% valem-se apenas de portais de jornais e sites jornalísticas. A guerra contra as fake news reflete, em grande parte, a disputa por influência entre estes mundos midiáticos.

Sem medidas

Candidato singular é Bolsonaro, que parece ter vindo de outro mundo mas fala para uma extrema-direita preexistente que agora saiu do armário. O tamanho eleitoral dela só saberemos depois da apuração. Nunca foi antes representada nem mensurada. 

Fenômeno eleitoral não é só o estouro de um nome novo e arrebatador.  Nesta eleição, o único fenômeno é Lula, por se manter na liderança após quatro meses de prisão e contra todos os avisos de que sua candidatura será impugnada. Mas o êxito do PT com o substituto de Lula dependerá de outro imponderável, seu poder de transferência de votos. Lula o gastou muito com Dilma e Ciro Gomes já fala que “O Brasil não aguenta outro poste”. 

O apoio do Centrão garantiu máquinas eleitorais formidáveis a Alckmin, entendemos no primeiro momento: DEM, PP, PR etc.  Mas quando examinamos a situação nos estados, não é bem assim.  O acordo feito “pelo alto” entra em contradição com a realidade local.  Ninguém acredita que o presidente do PP, Ciro Nogueira, suará a camisa pelo tucano.  O lulismo campeia no Piauí e lá ele integra a coligação do governador petista Welligton Dias. O apoio do DEM não pode ser tomado ao pé da letra. O coordenador da campanha de Bolsonaro no Sul é o demista Onyx Lorenzoni.  Ao aceitar ser vice de Alckmin, a senadora Ana Amélia sacrificou a candidatura do pepista Luiz Heinze a governador, em favor do tucano Eduardo Leite. Mas o PP gaúcho continuará apoiando maciçamente é Bolsonaro.  

Por isso e muito mais, esta eleição não pode ser examinada com os instrumentos de outro tempo.
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O general Lott e o ministro Toffoli


Era uma madrugada fria e sombria de agosto de 1954 quando Getúlio Vargas se reuniu com o seu gabinete pela última vez em sua vida. A elite brasileira, golpista e entreguista, com o apoio de setores militares e a maior parte da imprensa (entre eles os jornais “O Estado de São Paulo” e “O Globo”) não se conformavam com o governo de Vargas... Era um homem controverso, mas firme no propósito de não se alinhar com os interesses imperialistas e manter a soberania de nossas principais riquezas (entre elas o Petróleo).

Uma enormidade de conspirações, ilações, tentativas de denegrir a sua imagem, suas posições pessoais, seu carácter, sua honestidade... Enfim... a imprensa escrita e as emissoras de rádio não poupavam Getúlio Vargas. Na realidade nunca se conformaram com a criação da CLT e da insistência do povo brasileiro em tê-lo colocado na presidência, pelo voto popular.

Diante de enormes pressões nacionais e internacionais, Getúlio foi firme com os seus ministros: “Se os militares vierem me depor não encontrarão um presidente, mas um cadáver.” E levou até o fim essa convicção. Entrou no seu aposento, apontou um revólver para o seu coração e disparou. Seus familiares correram para o interior do quarto e encontrou Vargas já morto, com seus olhos fechados e um semblante de tristeza e dor.

Junto com o seu suicídio, deixava uma carta inflamada onde denunciava os verdadeiros inimigos do povo, que se dedicavam dia e noite a tentar leiloar nossas riquezas para os estrangeiros, junto com a alma da classe trabalhadora. E em defesa do povo e da pátria, entregava sua vida em holocausto.

Essa carta saiu de seus aposentos e caiu nos braços do povo brasileiro. E a gigantesca maioria do povo, formada pelos mais humildes, em profundo sentimento de comoção, choravam e se abraçavam pelas ruas.

Em fúria contra os setores golpistas, incendiaram o Rio de Janeiro e outras grandes cidades do país. O jornal “O Globo” foi atacado e depredado, o líder anti-getulista, o jornalista Carlos Lacerda, deixou o país e a Embaixada dos EUA foi assaltada e vandalizada.

A direita havia sofrido um revés de enorme envergadura.

E iniciamos aqui um complexo e pouco lembrado período que sucedeu esse fato dramático: os acontecimentos de 24 de agosto de 1954 a 31 de janeiro de 1956.

O vice-presidente Café Filho, que na véspera do suicídio havia rompido com Vargas, recuou e disse que manteria o seu legado e garantiria a ordem constitucional. Em outubro de 1954 as eleições parlamentares manteve o PTB e o PSD (partidos getulistas) na hegemonia do parlamento. A direita, representada pela UDN, não avançou um centímetro em sua representação, ao contrário - perdeu cadeiras.

No dia 3 outubro de 1955 teríamos eleições presidenciais.

O candidato getulista era Juscelino Kubitschek e seu vice, João Goulart. A direita não conseguia emplacar nenhum candidato. Juscelino venceu e com a sua vitória se avolumaram mais uma vez os setores golpistas que queriam impedir a sua posse... Como porta-vozes do golpismo havia militares de alta patente que diziam ser a decisão soberana do povo, uma “distorção”, produto de sua “ignorância política”.

Mas havia generais que não fizeram coro às aventuras golpistas e que estavam dispostos a dar sua vida em defesa da Constituição. Entre eles despontava o general Lott, Ministro da Guerra.

No dia 3 de novembro Café Filho teve um ataque cardíaco e Carlos Luz, presidente do Congresso assumiu a presidência. O general Lott exigiu do novo presidente firmeza com os golpistas e obteve resposta negativa. Lott renunciou ao cargo de Ministro como forma de protesto. Mas não abandonou sua defesa à Constituição.

Vendo que as aspirações golpistas ganhavam cada vez mais adeptos, o general Lott - em defesa da Constituição - deu seu “golpe preventivo”, destituindo Carlos Luz da presidência e colocando o país no rumo da garantia da posse de Juscelino, decretando Estado de Sítio.

Nereu Ramos tornou-se presidente para a transição, enquanto Carlos Luz fugiu para o navio Tamandaré com medo de ser preso.

Numa última tentativa de evitar a posse de Juscelino, Café Filho saiu do hospital em 21 de novembro e exigiu tomar posse como presidente. Lott bloqueou essa manobra e foi além: interviu na imprensa brasileira - quartel general do golpismo - até a posse de Juscelino em 31 de janeiro de 1956.

Lott garantiu o princípio do respeito à vontade soberana do povo a qualquer custo, mesmo se valendo de ações consideradas “não ortodoxas”. E ao garantir esse princípio, o Brasil viveu uma era de prosperidade e crescimento econômico nos conhecidos “50 anos em 5” de Juscelino Kubitschek.

Semelhantes conjunturas vivemos depois de mais de 60 anos em nosso país. O princípio da vontade soberana do povo está sendo pisoteada em um ardiloso processo golpista liderado pelo judiciário e a mesma velha imprensa que, de uma certa forma, foi responsável pela morte de Getúlio.

Hoje temos um líder político que representa a defesa da soberania de nossas riquezas e que quer impedir o massacre econômico do povo brasileiro que a cada dia que passa se afoga na miséria e no desemprego.

Esse líder está preso por um processo farsesco e mais: está amordaçado por decisão judicial, impedido de falar publicamente. Ainda assim, é líder em todas as pesquisas. O povo quer, indubitavelmente, que Luiz Inácio Lula da Silva seja novamente presidente da República.

E a prerrogativa do respeito ao desejo soberano do povo brasileiro é o princípio mais elementar de qualquer democracia e de nossa Constituição.

Em setembro o “acovardado STF” terá um novo presidente, Dias Toffoli. E Toffoli pode ser considerado, positivamente e negativamente, qualquer coisa, menos um covarde e muito menos um homem descompromissado com as causas progressistas.

Como Presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli terá o poder de garantir a Constituição e os seus princípios mais elementares, garantindo que o povo tenha o direito de eleger ou não Lula como presidente.

Para tanto, terá que se valer de seus poderes como presidente do STF e também, se necessário, garantir a ordem constitucional por meios “não ortodoxos”, como fez o general Lott.

Para aqueles que entendem o processo histórico como dialético sabe que no meio de uma nação impregnada historicamente de entreguistas e golpistas, surge também aqueles que são sua contradição, ou seja, aqueles que defendem a soberania nacional e a legalidade constitucional.

No meio de uma rede de interesses poderosíssimos que englobava todo o capital nacional e internacional, o general Lott se levantou, enfrentou os golpistas e garantiu a democracia no Brasil. Não deve ter sido uma decisão fácil e muito menos serena... Exigiu enorme coragem e a certeza de que escreveria seu nome na História do nosso país.

Dias Toffoli terá diante de si a mesma conjuntura de pressões e poderosos interesses que tentarão fazer com que ele ignore as flagrantes ofensas à nossa Constituição e ao povo brasileiro. Terá diante de si, por outro lado, a possibilidade de - com enorme senso de coragem e patriotismo - reverter essa tendência nefasta que coloca em risco a soberania nacional.

O nosso país tem as dimensões que tem, as riquezas que tem e o povo que tem graças, entre outras tantas coisas, a coragem de alguns homens que compreenderam que - em determinados momentos - deveria atuar de forma contrária aos desejos de uma elite que sempre desejou fatiar territorialmente o Brasil e torná-lo em um protetorado das potências estrangeiras.

Dias Toffoli poderá ser um desse homens. Sob qualquer aspecto, é seu dever refletir o fato de que não foi o acaso que o fez ser daqui a algumas semanas o Presidente do Supremo Tribunal Federal. Pois na História não existe o “acaso”, mas conjunturas e processos muito bem localizados.

O destino de Toffoli se fundirá ao destino da nossa democracia. Espera-se que ele não traia o seu destino, a sua pátria e o desejo soberano de milhões de seus irmãos patriotas.

Em suma, que Dias Toffoli não deixe de escrever seu nome na História de nossa nação. E que seja em boas linhas e ao custo que for.

Carlos D'Incao, historiador
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Fora do armário

A escolha da senadora Ana Amélia Lemos, situada à direita da direita, para vice de Geraldo Alckmin é muito mais do que a complementação de uma chapa eleitoral.

A escolha exprime uma definição do dúbio Alckmin e acaba com a ambiguidade do PSDB. Em termos políticos, Ana Amélia é uma versão nunca fardada de Jair Bolsonaro.

A equipará-los ainda melhor, já em termos morais, se Bolsonaro não explicou aquisições imobiliárias, Ana Amélia tem no seu prontuário o recebimento de salários no Senado, muito antes de eleita, por cargo que não exercia.

Em termos institucionais, a condição de vice dá a Ana Amélia a possibilidade de ocupar a Presidência da República sem ter merecido dos próprios conterrâneos, apesar do intenso apoio jornalístico e financeiro, os votos para mais do que um terceiro lugar na eleição de governador gaúcho, em 2014.

Sua escolha para possível substituição de Alckmin, se eleito, é tão debitável ao candidato quanto ao partido, cuja cúpula se mobilizou para convencê-la. Inclusive com apelos de Fernando Henrique Cardoso, como noticiou o jornal do qual é colaborador, "O Globo".

Como jornalista, por três décadas Ana Amélia defendeu e fez propaganda da ditadura, com coluna em jornal e programas de TV e rádio, no Rio Grande do Sul.

Chefiava uma sucursal gaúcha em Brasília quando, em l987, foi nomeada secretária do gabinete do senador biônico (não eleito, apenas nomeado pela ditadura) Octavio Omar Cardoso. Seu marido. As 40 horas semanais de trabalho ficaram só no ato de nomeação, Ana Amélia ocupando-se apenas de sua atividade na sucursal e em receber no Senado o salário do fácil dinheiro público.

O despudor dos que falam em moralidade pública, se dizem liberais, e se acumpliciam para as vantagens é o propulsor do triste percurso brasileiro no tempo.

Os outros

As primeiras e apressadas impressões sobre o acordo PT-PSB e o direitismo explicitado pelo PSDB, quase unânimes, viram prejuízos demolidores para Ciro Gomes e Álvaro Dias, respectivamente.

O primeiro, impedido de obter o apoio do PSB. O segundo, ao perder votos carreados por Ana Amélia para Alckmin, nos estados do sul. Talvez não seja assim. E, se for, o provável é que não seja tão grave.

O PSB prejudicará Ciro ao negar-lhe mais segundos no horário gratuito. O compromisso de neutralidade, porém, não tem firmeza. Pode ser neutralidade oficial do partido, mas nada mudará no eleitorado, deixado à própria escolha.

Álvaro Dias não era o preferido da direita influenciável por Ana Amélia: seu candidato lógico é Jair Bolsonaro, e Dias é o mais autêntico concorrente de e do centro.

Marina Silva viu em Eduardo Jorge a escolha coerente. Foi mesmo.

Janio de Freitas
No fAlha
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