25 de jul de 2018

Meirelles e Álvaro Dias também vão dançar?


A direita nativa – que a mídia venal carinhosamente chama de centro – tem feito um enorme esforço, inclusive financeiro, para se unificar com vistas às eleições presidenciais deste ano. Até agora, o nome ungido para representar este campo é o do “picolé de chuchu” Geraldo Alckmin. O chamado “Centrão”, liderado pelo DEM e por outras siglas fisiológicas, já assumiu o casamento com o grão-tucano, garantindo-lhe um latifúndio no tempo de televisão. Mas ainda há pedras no caminho para a união da direita. Ao que tudo indica, porém, elas podem ser removidas. Nos bastidores – ou melhor, no esgoto –, há vários movimentos para demover o rentista Henrique Meirelles e o direitista de botox Álvaro Dias, que ainda sonham com a Presidência da República.

Duas notinhas na Folha confirmam estas “transações”. A primeira, publicada no domingo (22), refere-se ao ricaço que já presidiu os conselhos do BankBoston e da corrompida JBS. “O pré-candidato do MDB, Henrique Meirelles, passou os últimos dias telefonando para os convencionais de sua legenda. Nas conversas, reforçou o pedido de votos a favor do lançamento de seu nome na corrida pelo Planalto. Com o pré-acordo do centrão com Geraldo Alckmin (PMDB), cresceram as especulações sobre o abandono da candidatura do ex-ministro da Fazenda. O Planalto diz que não há chance”. Quem conhece a trajetória do velho MDB, sabe que seus caciques não dão ponto sem nó. E, como diz o ditado, onde a fumaça, há fogo!

Já a segunda nota, publicada nesta segunda-feira (23), confirma o isolamento do ex-tucano do Paraná, que tenta se exibir como o candidato da “ética” Lava-Jato. “Aliados do senador Álvaro Dias (Podemos) tentam articular uma última cartada para cacifá-lo na propaganda eleitoral. O presidenciável atua para atrair os partidos pequenos que costumam lançar candidatos próprios, como o PRTB, de Levy Fidelix, e o PSDC, de José Maria Eymael”. A operação de salvamento não tem sido fácil. Famosas pelo fisiologismo, as duas siglas costumam vender caro seu apoio e seus segundos no rádio e televisão. Neste caso, Geraldo Alckmin, o atual queridinho da cloaca empresarial e da máfia golpista, possui muito mais “cacife” para negociar adesões.

Diante dos obstáculos às suas pretensões, o ricaço e o tucano camuflado têm surtado. No desespero, Henrique Meirelles até chegou a dizer que não seria o candidato do odiado Michel Temer. Mas levou uma enquadrada do MDB e voltou atrás, agora jurando que defenderá o “legado” da quadrilha no poder – o que talvez explique porque nas pesquisas ele tenha no máximo 3% das intenções de voto. Nesta semana, em outra esquizofrenia, o comando de sua campanha apresentou uma peça publicitária em que Henrique Meirelles surge como o responsável pelos êxitos na economia durante o governo de Lula. O vídeo afirma que “Lula, Dilma, Temer, FHC, Ciro, Doria” e outros políticos divergem sobre quase tudo, “menos sobre as qualidades do presidenciável”. É risível, grotesco!

Já o senador Álvaro Dias, que durante vários anos chafurdou na lama do ninho tucano, segue com o discurso de que é o candidato da “ética”. Em abril passado, quando ainda gerava simpatias de um setor das elites, o falso moralista disse em entrevista ao Jornal do Brasil que sua missão seria a de acabar com a corrupção no país e “refundar a República, interrompendo esse sistema político”. Após explicitar sua excitação com a prisão de Lula, ele fez rasgados elogios à midiática Lava-Jato, tentando capitalizar a popularidade que ainda estava em alta do “juiz” Sergio Moro. De lá para cá, porém, Álvaro Dias estancou nas pesquisas, assim como a credibilidade do “justiceiro”. Agora, ele faz de tudo para atrair o apoio dos impolutos Levy Fidelix e José Maria Eymael.

Altamiro Borges
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A empresa de palestras de Rosângela Moro

Nova sociedade de esposa de Sérgio Moro com advogado Carlos Zucolloto Jr. vai explorar ramo de atividade no qual juiz tem se destacado

Ela
A advogada e esposa do juiz federal Sérgio Moro, Rosângela Wolff Moro, abriu, em janeiro deste ano, uma empresa de cursos e palestras no mesmo endereço do escritório de Vicente Paula Santos, listado como advogado dos procuradores da força-tarefa da Lava Jato Carlos Fernando dos Santos Lima e Januário Paludo.

Rosângela possui três sócios na HZM2 Cursos e Palestras, incluindo um amigo antigo da família e padrinho de seu casamento, o advogado Carlos Zucolotto Júnior. O capital social é de R$ 20 mil. De acordo com dados da Receita Federal, na rua Nilo Peçanha, 897, no bairro Bom Retiro, em Curitiba, funcionam três empresas: HZM2 cursos e palestras, Zucolotto Sociedade de Advogados  e o escritório de advocacia Vicente Paula Santos Advogados Associados.

A esposa do juiz federal Sérgio Moro, Rosângela Wolff Moro, abriu, em janeiro deste ano, uma empresa de cursos e palestras no mesmo endereço do escritório de Vicente Paula Santos
Henry Milleo/Agência Pública

A nova sociedade entre Carlos Zucolotto Júnior e Rosângela Moro, que já foram parceiros no escritório Zucolotto Sociedade de Advogados, foi oficializada cerca de um mês depois de o ex-funcionário da Odebrecht Rodrigo Tacla Duran ter acusado o amigo dos Moro, em depoimento à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga a JBS, de ter cobrado propina para intermediar sua delação premiada na Operação Lava Jato. O advogado e o juiz Sérgio Moro negam. (Veja mais no box ao final da matéria).

Vicente Paula Santos aparece como advogado de Carlos Fernando dos Santos Lima em oito processos que tramitam e/ou tramitaram nos Tribunais de Justiça Estadual e Federal do Paraná, no TJ de São Paulo, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Superior Tribunal de Justiça (STJ). O processo mais antigo localizado pela Agência Pública é uma ação popular com data do ano 2000. Ele foi encerrado no Tribunal Regional Federal da 4a Região (TRF4), com causa ganha para os réus. O autor dessa ação, com base em uma reportagem veiculada na imprensa informando o pagamento ilegal e irregular de diárias aos integrantes do Ministério Público Federal, solicita que os procuradores devolvam o dinheiro aos cofres públicos. Nesse mesmo processo, Vicente Paula Santos defendeu também Januário Paludo, no STJ e em uma causa no tribunal do Paraná.

Vicente Paula Santos aparece como advogado do
procuradorda força-tarefa da Lava Jato 
Carlos Fernando dos Santos Lima
Otavio Conci

Apesar de atualmente não constarem como sócios na Receita Federal, Vicente Paula Santos e Carlos Zucolotto Júnior dividem escritório na mesma casa – onde também foi registrada a HZM2 Cursos e Palestras. Os sites dos dois escritórios de advocacia, Zucolotto Sociedade de Advogados  e Vicente Paula Santos Advogados Associados, inclusive, divulgam o mesmo número de telefone. Além de Carlos Zucolotto e Rosângela Moro, participam do quadro societário da HZM2 o advogado Guilherme Henn, que trabalha no Zucolotto Sociedade de Advogados, e o professor de direito Fernando Mânica, que atua também no ramo de consultoria para celebração de parcerias público-privadas. 

Os procuradores, por meio da assessoria de imprensa do Ministério Público Federal no Paraná, afirmaram à reportagem que o advogado Carlos Zucolotto compunha a sociedade de advogados com Vicente Paula Santos até 2012, atuando na área trabalhista, e nunca participando efetivamente de qualquer processo judicial que envolva os procuradores. Além disso, eles informaram que nenhum dos membros da força-tarefa da Lava Jato possui ou já possuiu relacionamento pessoal ou profissional com o advogado Carlos Zucolotto Jr.

A Agência Pública encaminhou algumas perguntas a Sérgio Moro através da assessoria do TRF em 5 de julho, para esclarecer a sua relação com a HZM2, uma vez que ele é muito requisitado como palestrante no Brasil e no exterior. O juiz reiterou sua negativa sobre as acusações de Tacla Duram e escreveu que “quanto as demais perguntas, são meramente especulativas e que partem de um pressuposto equivocado.” Afirmou ainda que não vai manifestar-se sobre o assunto.

A reportagem tentou contato com a advogada Rosângela Moro em seu escritório de advocacia, mas ninguém atendeu. Também foi encaminhado e-mail, sem resposta. A Pública também enviou os questionamentos para o sócio de Rosângela, Guilherme Henn e pediu para que ele respondesse as perguntas e as encaminhasse à Rosângela. Por telefone, Guilherme disse que Rosângela estava viajando, mas iria tentar falar com ela. Guilherme e Rosângela não deram nenhum retorno até o fechamento desta edição. Também entramos em contato com o advogado Carlos Zucolotto por e-mail e no escritório de advocacia. No mesmo contato, a Pública procurou Vicente Paula Santos, mas a secretária pediu para que fosse encaminhado um e-mail ao advogado Zucolotto que ele enviaria também a Vicente. A Pública destinou a mensagem para os dois advogados, sem resposta até a publicação da reportagem.

Sérgio Moro, o palestrante

Entre janeiro de 2017 e julho de 2018, o juiz ministrou ao menos 22 cursos e palestras no Brasil e no exterior – um por mês, em média. O levantamento foi feito pela Pública com base em notícias veiculadas na imprensa nacional e internacional e com informações do portal da transparência do TRF4. A reportagem pediu ao órgão, via Lei de Acesso à Informação, dados de todos os cursos e palestras ministradas pelo juiz nos últimos cinco anos. Foram questionados: o honorário recebido, o contratante, local e data do evento. Em resposta, o tribunal disse que as informações estavam disponíveis no site e que a administração da corte havia solicitado aos magistrados que “atualizassem os registros sobre o exercício de docência eventual no sistema de recursos humanos”.

Entre janeiro de 2017 e julho de 2018, o juiz Sério Moro ministrou ao menos 22 cursos e palestras no Brasil e no exterior
Porém, além dos dez eventos que contaram com a participação de Moro desde 2017, divulgados no portal do órgão, a Pública encontrou outros 12 que ocorreram no mesmo período e não estão listados. Entre eles, as participações do juiz em congressos internacionais, como as palestras que ele deu este ano no Fórum do Grupo Lide – criado pelo ex-prefeito João Doria (PSDB) – em Nova York; no Brazil Fórum 2017, em Londres; e no Brazil Conference, nos Estados Unidos. Não está claro se houve pagamento por essas palestras. 

O Lide Brazilian Investment Forum é realizado anualmente em Nova York e “reúne empresários e investidores nacionais e internacionais para debater relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos”. O evento contou este ano com patrocínio de quatro empresas: dois escritórios de advocacia; da empresa Cosan, que atua em setores como agronegócio, distribuição de combustíveis e gás natural; e da empresa de segurança Gocil Seguranças e Serviços. Já o Brazil Fórum é organizado por estudantes brasileiros no Reino Unido desde 2016, na London School of Economics and Political Science, na cidade de Londres, e na Universidade de Oxford, na cidade de Oxford. O evento foi patrocinado por escritórios de advocacia, embaixada brasileira em Londres, empresas como Uber e Latam e a Fundação Lemann. Assim como o Brazil Fórum, o Brasil Conference at Harvard & Mit é organizado por estudantes brasileiros e também contou com o patrocínio da Fundação Lemann e de escritórios de advocacia, além do apoio de empresas como a Azul, a Ambev, o grupo Boticário e o banco BTG Pactual.

A Resolução 226/2016 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determina que o exercício de qualquer atividade docente por magistrado “deverá ser comunicado formalmente ao órgão competente do Tribunal, mediante registro eletrônico em sistema por ele desenvolvido, com a indicação da instituição de ensino, do horário e da(s) disciplina(s) ministradas”. O CNJ reconhece cursos e palestras como atividade docente.

Além disso, o texto da resolução diz que o Conselho e a Corregedoria Nacional de Justiça promoverão o acompanhamento e a avaliação periódica das informações.

Ao ser questionado sobre o controle desses dados, no entanto, o CNJ, por meio da assessoria de imprensa, ressaltou que não possui as informações consolidadas sobre a participação dos magistrados em atividades de docência.

O órgão argumentou que atua mediante notícia ou denúncia de irregularidade, com abertura de processo próprio, “devendo os tribunais disporem das informações conforme previsto na resolução”.

“Quanto a punições de magistrados por infração a estas resoluções, ainda não houve casos de punição aplicada”, acrescentou o Conselho.

Apesar de não revelar o valor que cobra para dar aulas, cursos ou palestras, Sérgio Moro informou, entre os dez eventos listados no portal da Justiça Federal no Paraná, que recebeu cachê em quatro situações: nos cursos ministrados na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) sobre corrupção e negócios, no curso de Formação Inicial na Carreira da Magistratura da 4ª Região, em Porto Alegre, e no Curso Direito Penal e Processual – Temas Contemporâneos, em Curitiba.

A Pública entrou em contato com a PUCRS para saber o valor do pagamento ao juiz e se a empresa da sua mulher intermediou as negociações. A universidade informou que Moro é professor convidado do curso Finanças, Investimentos e Banking (FIB) do Pós PUCRS Online. “Nesta data, dia 10 de abril, ele foi convidado pela Universidade e ministrou a disciplina Direito e Crimes Financeiros deste curso. O FIB é uma parceria com a empresa UOL Edtech. Por políticas internas da PUCRS, os valores de pagamentos do corpo docente não são divulgados”, respondeu a assessoria de imprensa.

O TRF4 informou, por meio da assessoria de imprensa, que todos os valores recebidos pelos magistrados são “necessariamente informados na declaração de ajuste anual, a qual é submetida à Receita Federal e ao TCU” e que “o sistema para registro de docência eventual deste Tribunal, na forma da Resolução nº 34/2007 do CNJ, prevê a inserção de informações como data, tema, local e entidade promotora do evento (art. 4º-A, § 1º).” “No Portal da Transparência, para melhor visualização das informações mais relevantes, não aparece o campo da entidade promotora, que pode ser informada a qualquer tempo aos interessados, caso necessário”, disse o órgão. “Esta Corregedoria não possui registro da participação do Juiz Federal Sérgio Fernando Moro em evento no dia 16-05-2018. Cabe informar, em complementação, que no período de 11-05 a 19-05-2018 referido Juiz Federal esteve em férias”, acrescentou. Como o juiz Sérgio Moro está de férias, a assessoria do TRF4 não conseguiu responder o motivo das outras palestras levantadas pela reportagem não estarem listadas no portal da transparência. 

Palestras e congressos aproximam empresas do Judiciário

Os juízes não são obrigados a dizer o valor que recebem pelos cursos e palestras nem quem as paga. Isso impede, no entanto, que a sociedade saiba quem são as empresas que desembolsam dinheiro nesses contratos, e a possível influência que elas poderiam ter sobre os magistrados, na hipótese de contratá-los por altos cachês. A Articulação Justiça e Direitos Humanos (JusDh), uma rede nacional de organizações que lida com ações judiciais em temas de direitos humanos, entregou, em abril, ao relator especial das Nações Unidas sobre independência dos juízes, Diego García-Sayán, um documento denunciando o patrocínio empresarial de eventos e o pagamento de honorários como formas de captura corporativa do Judiciário. Uma denúncia com teor parecido já foi encaminhada pela entidade à presidente do CNJ, Cármen Lúcia.

Desde 2009, organizações que integram o JusDh alertam sobre essa prática. Naquele ano, eles denunciaram o XX Congresso da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), que foi financiado pela Confederação Nacional da Agricultura e contou com palestra da então presidente, representante do agronegócio, Kátia Abreu. “Para nossas organizações, esse foi um alerta de que o Judiciário escolheu um lado para ouvir, e esse lado não foi o dos movimentos sociais que historicamente lutam pelo direito à terra”, afirmou a advogada e coordenadora da Terra de Direitos, Luciana Pivato.

Em 2009, o JusDh denunciaram o XX Congresso da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) que contou com palestra da então presidente, representante do agronegócio, Kátia Abreu
A JusDh destaca também o XXI Congresso da AMB, em 2012, financiado pela Norte Energia, responsável pela construção da hidrelétrica de Belo Monte. O congresso ocorreu em Belém, com participação de cerca de 1.500 juízes, no momento em que as organizações denunciavam as violações decorrentes da construção do megaempreendimento. Em 2015, a mineradora Anglo American, com denúncias de violações de direitos humanos, patrocinou o I Congresso Mineiro sobre Exploração Minerária, organizado pela Associação dos Magistrados de Minas Gerais. O diretor jurídico da mineradora, Gerson Ferreira do Rêgo, foi um dos palestrantes do painel com o tema “Exploração Minerária: Evolução e Perspectivas”. No mesmo ano, ocorreu o desastre ambiental de Mariana. “Nossas organizações estão preocupadas com a prática recorrente de patrocínio, aliada à presença de temas de interesse das empresas, conferidos muitas vezes por palestrantes que representam seus interesses”, acrescentou Luciana.

A AMB informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que os eventos organizados pela entidade seguem as orientações da Resolução 170/2013 do CNJ. A norma determina que os eventos promovidos por magistrados ou órgãos da magistratura podem contar com até 30% de recursos de entidades privadas.

Segundo a resolução, “a documentação relativa aos congressos, seminários, simpósios, encontros jurídicos e culturais e eventos similares, quando realizados por órgãos da Justiça submetidos ao Conselho Nacional de Justiça, inclusive as Escolas Oficiais da Magistratura, ficará à disposição do CNJ para controle, bem como de qualquer interessado”. O CNJ informou à Pública que também não possui a consolidação de dados sobre esse assunto e que nunca houve casos de punição aplicada.

Na avaliação da JusDh, a participação de empresas deveria ser proibida. “Sempre é importante lembrar que juízes e juízas são pessoas iguais a todo mundo e também podem sofrer influências da realidade que os cerca. Participar de eventos e seminários patrocinados por entidades com interesses judiciais, como os casos citados anteriormente, pode ter o mesmo efeito que participar de um ‘curso imersivo’ sobre por que tais entidades teriam razão nos processos”, compara o representante da Conectas Direitos Humanos, João Godoy.

Cobranças por palestras a partir de R$ 40 mil

Apesar da falta de transparência quando o assunto é o cachê, há casos em que os valores de contratos negociados com órgãos públicos acabaram vindo à tona.

Para justificar a regularidade e licitude da celebração de um contrato com a empresa Supercia Capacitação e Marketing, pelo qual estava previsto o pagamento de R$ 46,8 mil por uma palestra do ministro do STF Luís Roberto Barroso, a Escola Superior de Contas do Tribunal de Contas de Rondônia (TCE-RO) listou, em um documento ao qual a reportagem teve acesso, outros casos em que valores teriam sido negociados ou pagos para palestras de outros ministros do Supremo.

Um exemplo, segundo o documento, seria um pagamento ao ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, em palestra na Câmara dos Vereadores de Itajaí (SC), em 13 de abril de 2015, no valor de R$ 60 mil; outro, ao ministro Luiz Fux, em palestra contratada pelo governo de Minas Gerais, realizada em 8 de maio de 2015, por R$ 40 mil.

Segundo o documento, o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa, teria recebido R$ 60 mil pela palestra na Câmara dos Vereadores de Itajaí (SC)
A Escola Superior de Contas coletou essas informações em reportagens publicadas na imprensa. Em uma delas, Joaquim Barbosa disse não saber que o recurso viria do órgão público. Já Fux pediu a suspensão do pagamento após ser informado pela reportagem da Folha de S Paulo.  

O documento afirma ainda que a Escola Superior de Contas (ESCon), em 2017, pleiteou um contrato, não assinado, com Joaquim Barbosa e recebeu a proposta da empresa Supercia Capacitação e Marketing no valor de R$ 121 mil.

O documento, assinado pelo diretor-geral da Escola Superior de Contas, Raimundo Oliveira Filho, informa também sobre  a rescisão do contrato do órgão com a Supercia no caso da palestra de Luís Roberto Barroso orçada em R$ 46,8 mil.

O ministro receberia esse valor por uma hora de fala no VII Fórum de Direito Constitucional e Administrativo Aplicado aos Tribunais de Contas, marcada para o dia 18 de maio. “No que toca à contratação da empresa Supercia Capacitação e Marketing Ltda., pessoa jurídica de direito privado, com atuação de 22 anos nesse mercado específico, temos a dizer que esta se apresentou, conforme os documentos juntados aos autos, como ofertante da agenda para palestra do palestrante/doutrinador de renome nacional, Luís Roberto Barroso”, informa o documento.

O valor do contrato para a palestra do ministro foi divulgado na imprensa. O magistrado afirmou, à Folha de S.Paulo, na época, que foi convidado para falar na cidade, mas negou ter sido contratado pelo TCE e cobrado o valor anunciado por sua participação. Ao jornal, ele disse ainda que não firma contratos com órgãos públicos. “Não tenho a menor ideia de que valor é este. É um valor completamente fora do padrão, fora do que eu cobro”, ressaltou Barroso.

Após tamanha visibilidade, o contrato entre o TCE de Rondônia e a Supercia foi rescindido e o ministro acabou indo ao local para divulgar um livro, sem custos para o tribunal.

As acusações de Tacla Duran

Foragido na Espanha, Rodrigo Tacla Duran é apontado pela Justiça como o operador da Odebrecht no esquema de corrupção que desviou recursos da Petrobras. As suas declarações foram feitas por videoconferência a parlamentares em 30 de novembro do ano passado.

Segundo Tacla Duran, Carlos Zucolotto o procurou em 2016, com a proposta de fazer contatos com integrantes da força-tarefa para reduzir sua pena e a multa, no valor de US$ 15 milhões, para US$ 5 milhões, caso o ex-funcionário da Odebrecht firmasse o acordo. Em troca, no entanto, ele teria pedido US$ 5 milhões “por fora” para pagar pessoas que o ajudariam nessa empreitada. As conversas teriam ocorrido por meio de texto em um aplicativo de mensagens de celular e teriam sido fotografadas por Tacla Duran. À Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, o advogado entregou as imagens do diálogo e uma perícia feita por autoridades espanholas – a pedido dele – referendando a veracidade da conversa. Tacla Duran disse que Zucolotto era representante de seu escritório de advocacia em Curitiba, por isso já o conhecia.

O sócio de Rosângela Moro negou as acusações. O juiz federal saiu em defesa do amigo e dos procuradores da Lava Jato. Moro divulgou uma nota em 27 de agosto dizendo que Zucolotto “é advogado sério e competente, atua na área trabalhista e não atua na área criminal”. Segundo Moro, o relato de que Zucolotto teria tratado com Tacla Duran sobre acordo de colaboração premiada é “absolutamente falso”. O juiz disse ainda que nenhum dos membros do Ministério Público Federal da força tarefa em Curitiba confirmou qualquer contato de Zucolotto sobre o referido assunto ou sobre qualquer outro. “Porque de fato não ocorreu qualquer contato”, acrescentou. Na nota, o juiz federal desqualificou as acusações de Tacla Duran ao reforçar seu envolvimento no esquema de desvio de dinheiro. “Rodrigo Tacla Duran é acusado de lavagem de dinheiro de milhões de dólares e teve a sua prisão preventiva decretada por este julgador, tendo se refugiado na Espanha para fugir da ação da Justiça”, disse.

De acordo com o Ministério Público Federal, o escritório de advocacia de Tacla Duran movimentou R$ 54 milhões em propinas a pedido de construtoras envolvidas no esquema de fraudes de licitações da Petrobras.

Logo depois de a denúncia de Tacla Duran ter sido divulgada, Carlos Zucolotto renunciou à defesa dos procuradores da força-tarefa da Lava Jato Carlos Fernando dos Santos e Januário Paludo em processos que tramitam no STJ em que eles solicitam, individualmente, aumento retroativo de subsídios.

A respeito das acusações feitas por Tacla Duran, os procuradores responderam à Agência Pública por meio da assessoria de imprensa do Ministério Público Federal no Paraná: “Rodrigo Tacla Duran foi acusado pela força-tarefa da Lava Jato por crimes de lavagem de dinheiro e de pertinência à organização criminosa, e se encontra foragido do país e confinado na Espanha. Os recursos ilícitos obtidos por Rodrigo Tacla Duran da Odebrecht, no exterior, foram bloqueados por autoridades estrangeiras e permanecem nessa condição. A força-tarefa também solicitou a prisão de Rodrigo Tacla Duran, sendo requerida a difusão vermelha junto à Interpol para a sua prisão no exterior. Tacla Duran foi preso na Espanha e chegou a ter sua extradição autorizada para o Brasil, o que não ocorreu apenas por ausência de promessa de reciprocidade pelo governo brasileiro. As inverdades propaladas por Rodrigo Tacla Duran não revelam mais do que a total falta de limites de um criminoso foragido da Justiça, acusado da prática de mais de 100 delitos de lavagem de dinheiro, cujo patrimônio – ilicitamente auferido – encontra-se bloqueado no Brasil e no exterior. Diante da absoluta impossibilidade de enfrentar os fatos criminosos que lhe são imputados, Rodrigo Tacla Duran tenta desesperadamente atacar aqueles que o investigam, processam e julgam, no intuito de afastar o seu caso das autoridades que atuam na Operação Lava Jato”.

Alice Maciel
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Novo mico do Benedito? MPF dá prazo para Facebook explicar remoção de perfis de fake news do MBL


O Ministério Público Federal em Goiás pediu ao Facebook, em caráter de urgência, explicações sobre a remoção de 196 páginas e 87 perfis ligados ao MBL, por divulgação de fake news.

Em ofício, Ailton Benedito de Souza deu um prazo de 48 horas para que as informações fossem fornecidas. "Por oportuno, assevero que os dados requisitados são imprescindíveis à atuação do Ministério Público Federal, inclusive eventual propositura de ação civil pública, ao teor do artigo 10 da Lei federal nº 7.347/85, pelo que a falta injustificada ou o retardamento indevido implicará a responsabilidade de quem lhe der causa", explicou o procurador.

O texto de divulgação da ação do MPF-GO diz que, "embora a rede social não tenha especificado oficialmente quais perfis foram removidos, informações divulgadas pela imprensa dão conta de que as páginas desativadas variavam de notícias a temas políticos".

"As normas constitucionais e legais que regulam a internet no Brasil atuam sempre com vistas à liberdade de expressão, ao direito de acesso de todos à informação, ao conhecimento e à participação na vida cultural e na condução dos assuntos públicos; e a impedir a censura, bem como a discriminação dos usuários, por motivo de origem, raça, sexo, cor, idade, orientação política, entre outros, competindo ao MPF atuar nesse sentido", disse Benedito de Souza, segundo o MPF-GO.



 Publicado em 30/11/2014 

O procurador exibicionista que expôs o MPF ao ridículo


Não há nada que comprometa o esforço geral de uma corporação, do que o exibicionismo de um de seus membros – especialmente quando dispõe de prerrogativas de poder de Estado.

É o caso do Procurador da República em Goiás Ailton Benedito de Souza.

Ontem expôs o MPF ao ridículo, ao agir contra decisão do governo venezuelano de convocar 26 jovens do Brasil para compor uma tal Brigadas Populares de Comunicação.

Imediatamente o procurador Ailton intimou o Itamaraty, em um prazo de dez dias, a levantar a identidade dos jovens sequestrados e investigar uma possível rede de tráfico humano.

Era uma mera notícia de Internet, mencionando a comunidade Brasil, um bairro popular da cidade venezuelana de Cumaná que, com exceção do nome, não tem a menor relação com o país Brasil.

A barriga repercutiu no mundo todo, sendo ironizada em vários idiomas.

Uma barriga desse tamanho basta. Mas a atitude do Procurador em se basear em qualquer factoide para propor ações já virou compulsão.

Tornou-se membro do Instituto Millenium, valendo-se das prerrogativas do cargo para desmoralizar o Ministério Público.

Em maio passado tentou suspender toda a publicidade da Copa do Mundo (http://migre.me/nabDB) por estar “absurdamente divorciada da realidade”.

Montou um catatau de 50 páginas argumentando que "de fato, os brasileiros ficaram bastante esperançosos e que as obras da Copa, que consumiram bilhões de recursos públicos, proporcionassem um legado auspicioso, a ser usufruído nos anos vindouros pela sociedade, que, afinal paga a conta".. No entanto, "vários empreendimentos projetados para o transporte público e o trânsito foram cancelados ou substituídos por outros de menor impacto, que, primeiro, não serão concluídos a tempo; e, segundo, visam, exclusivamente, mitigar os efeitos da desorganização, da falta de planejamento, da incompetência em executar o que se planejou, relativamente à infraestrutura e aos serviços voltados à realização da Copa, a fim de evitar que o pior".

Consultasse o próprio MPF, esse despreparado saberia do enorme trabalho que juntou praticamente todos os poderes – do Executivo aos estados, da Polícia ao Ministério Público – na organização do evento. Baseou-se em meras notícias não confiáveis da mídia  para sair atirando.

Em novembro de 2011,  processou professores por desacato, depois de terem ido ao MPF-GO denunciar supostos desvios de verba do Fundeb (Fundo de Desenvolvimento do Ensino Básico) pela prefeitura de Goiânia.

Quando foi lançado o programa Mais Médicos, viu mais uma oportunidade de aparecer. Com base em notas de jornal, instaurou um inquérito civil-público para apurar “possíveis ações e omissões das administrações públicas – em todas as esferas – a respeito do programa Mais Médicos” (http://migre.me/nabUf).

Baseava-se exclusivamente em reportagens mal apuradas, sem a preocupação em aprofundar as investigações. Indagado sobre a razão do inquérito, alegou que:

“Primeiro: a notícia de que municípios estariam substituindo profissionais próprios por médicos do “Mais Médicos”. Segundo: a notícia de que profissionais originários de Cuba estariam sofrendo algum tipo de violação aos seus direitos, principalmente o direito de se locomover no território nacional. Terceiro: a situação de abandono do programa por médicos que se inscreveram no programa e ingressaram na atividade”( http://migre.me/nac3x).

Se amanhã um jornal noticiar que há indícios de propina no escavamento das crateras da Lua, não se tenha dúvida e que o bravo procurador atuará firmemente em defesa da moralidade intimando os lunáticos.

O procurador tem um blog, o “Bendito Argumento”, onde elabora textos assim:

“Portanto, todos nós, queiramos ou não, participamos ou omitamos, ajamos ou quedamos, ativos ou passivos, independentemente de nossos sonhos e pesadelos, virtudes e vícios, desejos e repulsas, crenças e incredulidades, saberes e ignorâncias, bravura e covardia, riquezas e misérias etc., somos seres políticos. E, como tais, responsáveis perante nós mesmos, as famílias, a sociedade, o mundo no qual vivemos”.

(...) Se eu fosse cruel, torceria pela vitória daqueles que almejam transformar a democracia do Brasil numa cópia dos regimes ditatoriais bolivarianos, para que eles fossem devorados pelo Saturno dos seus sonhos”.

Em seus textos, Ailton denuncia a “propaganda eleitoral subliminar”, “sobretudo a que se utiliza da máquina pública”.

Define a tal propaganda eleitoral subliminar como aquela que “consubstancia mensagem que não ultrapassa o limiar da consciência, que não é suficientemente intenso para penetrar na consciência, mas que, pela repetição ou por outras técnicas, pode atingir o subconsciente, afetando as emoções, desejos, opiniões; subconsciente. Nessa perspectiva, a propaganda política também se serve das técnicas subliminares para chegar à inconsciência dos cidadãos, sobretudo os eleitores, especialmente durante os processos eleitorais. Todavia, não é incomum que tais processos perdurem todo o período que medeia  entre a posse dos eleitos num pleito e o próximo. Noutras palavras, políticos estão sempre em campanha, muitas das vezes sem que o cidadão-eleitor tenha consciência”.

Em um dos artigos, deblaterou contra a afirmação de Dilma Rousseff, de que poderia utilizar as Forças Armadas nas manifestações contra a Copa:

“Por que, em lugar usar que “o Exército pode agir contra manifestações anti-Copa”, não se determinar aos órgãos competentes, responsáveis pela segurança pública, que façam uso da apropriado da Lei de Segurança Nacional para punir os que atentam contra a democracia, o Estado de Direito, os direitos fundamentais dos brasileiros, seja antes, durante ou depois da Copa? Pois que, sendo necessário, que se invoquem as Forças Armadas para defender a sociedade, a democracia, o Estado de Direito, não a #CopaDasCopas” (http://migre.me/nacLy)”.

Luís Nassif
No GGN



Procurador que cobrou Facebook no caso MBL já disse que nazistas eram de esquerda

Twitter MPF-GO

O procurador Ailton Benedito, do Ministério Público Federal de Goiás (MPF-GO), que deu 48 horas para o Facebook explicar a retirada de 196 páginas e 87 perfis de fake news ligados ao MBL, organizou em Goiânia uma audiência chamada "Segurança Pública e Manifestações Sociais".

Entre os convidados, Kim Kataguiri, do MBL. "MBL e Vem pra Rua foram chamados porque organizaram grandes manifestações nos últimos anos. Coincidentemente, elas não descambaram para a violência generalizada. Pretendo ouvi-los justamente para entender por quê", disse o procurador à revista Piauí, como lembra o jornalista Kiko Nogueira, do DCM.

Em agosto do ano passado, depois da manifestação fascista em Charlottesville, nos EUA, que terminou na morte de uma mulher atropelada, ele publicou no Twitter que o nazismo era de esquerda. "Partido Nacional SOCIALISTA dos Trabalhadores Alemães, conhecido como NAZISTA. Os próprios nazistas se declaravam SOCIALISTAS", escreveu.

Ailton Benedito também mandou investigar banheiros 'unissex' da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás por falta de identificação entre masculino e feminino e defendeu o Escola Sem Partido, dizendo "tratar-se apenas do exercício da cidadania".
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Veja o caminho do dinheiro na máquina de Fake News

Quem são os beneficiários das doações do MBL?


Há muita polêmica em torno do financiamento do Movimento Brasil Livre, o MBL, uma das entidades mais reacionárias e preconceituosas presenciadas no Brasil desde o movimento Integralista, no início do século XX. O que foi apurado, dá conta do caminho que o dinheiro faz após o recebimento da doação e seus possíveis beneficiários.

Registrada como uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), ou seja, uma organização social sem fins lucrativos, o Movimento Renovação Liberal parece ser apenas uma fachada do caminho do dinheiro do MBL. Porém, uma empresa desse tipo, assim como associações e entidade beneficentes, devem conter um estatuto registrado em cartório. Esse estatuto, embora referenciado no documento de fundação e registrado em julho de 2014, tem como presidente no registro da Receita Federal, os irmãos Stephanie Leporacci Ferreira Santos, irmã de Renan Santos. Ou seja, o que aparece na Receita Federal é inconsistente com o que aparece no quadro societário do estatuto.


Estatuto vazio da Organização da Sociedade Civil Movimento de Renovação Liberal

Note que o endereço da OSCIP é o mesmo do MBL e todas as doações, compras de objetos e “souvenirs” vendidos pelo MBL, são remetidos para a OSCIP do Movimento Renovação Liberal. Uma consulta no site da Receita Federal, pelo CNPJ da associação (22779685/0001-59) encontra-se uma sociedade privada criada, ironicamente, em 2015, cuja atividade principal é de “serviços de feiras, exposições e festas”.

Além disso, apenas Stephanie Liporacci Ferreira dos Santos, irmã de Renan Santos, aparece na Receita Federal como presidenta da entidade. Assim, o que aparece na Receita não corresponde ao quadro societário que aparece no estatuto da associação. O endereço do Renovação Liberal fica, atualmente, num bairro nobre da zona sul de São Paulo, no mesmo imóvel onde está a sede nacional do MBL. De acordo com fotos e publicações em suas páginas de Facebook, Stephanie mora na Alemanha, onde foi visitada por seus pais e irmãos em julho deste ano.

Interessante essa associação entre a OSCIP e uma empresa prestadora de serviços, já que uma das formas mais conhecidas para driblar a receita federal, é criar uma associação sem fins lucrativos e uma empresa que presta serviços a ela. Assim, todo o possível lucro é remetido à prestação de serviços, zerando o lucro proibido numa associação.

Nessas práticas, se incluem simulações de prestação de serviços e outras formas de efetivação de remessas de dinheiro da associação para a empresa privada associada. Desse modo, o imbróglio criado exime o conjunto de pagamento de diversos impostos.

Segundo Cecília Asperti, advogada e professora de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), o mero fato de que o estatuto social diga que a entidade se trata de uma OSCIP não significa que ela seja uma. “Somente podem qualificar-se como tal as pessoas jurídicas (de direito privado sem fins lucrativos) que tenham sido constituídas e que se encontram em regular funcionamento há, no mínimo, três anos”, afirma Asperti. “Para tanto, é necessário fazer um requerimento perante o Ministério da Justiça observando-se os critérios estabelecidos em lei. Cabe, então, à pasta federal julgar se a associação enquadra-se ou não nos requisitos”, explica a advogada.

A questão é tão descarada que a doação, ou compra, efetuada pelo site de recebimento de valores digitais, PayPal, consta como doação ao CNPJ da associação (OSCIP) Movimento de Renovação Liberal. Esse foi o descuido.


Imagem de uma compra feita na loja online do MBL. No destaque em vermelho, na parte inferior, o CNPJ do MRL

A questão vai ficando mais estranha, quando se busca a prestação de contas de ambas as entidades, o MBL e a associação Movimento Renovação Liberal. Ambas, não fazem prestação de contas. Como uma associação não presta contas? Como um movimento com mais de dois milhões de simpatizantes não presta conta de suas doações?

Portanto, todas as doações a uma OSCIP podem ser abatidas do imposto de renda. Aqui, surge algo mais intrigante ainda. A família Santos, responsável pela OSCIP que é usada pelo MBL, cujas doações são efetuadas pelos sócios constantes no estatuto que são unicamente dessa família, têm mais de 125 processos na Justiça relativos a negócios que tiveram antes da criação do Movimento Renovação Liberal e do MBL. A maioria relativos ao não pagamentos, justamente, de impostos e fraudes fiscais, em cobranças que acumulam mais de R$ 20 milhões de reais.

No A Postagem



Bloqueio da “rede MBL” no Facebook vira delírio coxinha

Falta pouco para a turma da direita ensandecida chamar o Mark Zuckerberg, dono do Facebook, de “lulopetista” ou que se deveu a algum sanduíche de mortadela dado pelo PT a decisão de retirar do ar as páginas de uma rede, segundo a Reuters, “administrada por membros importantes do MBL” que agia usando “contas falsas” para esconder das pessoas “a natureza e a origem de seu conteúdo com o propósito de gerar divisão e espalhar desinformação”.

Menos, menos, por favor.

O problema, ao que parece, nada teve a ver com o conservadorismo, mas com o banditismo de forjar contas para montar uma rede com elas  e é bom que seja assim.

Porque a turma que quer usar o argumento das “fake news” para justificar a censura nas redes sociais está aí, ativa, com ramificações no Judiciário, loucas para fazerem que a grande mídia reine sem contestação “no pedaço”.

E a grande mídia é cínica ao deixar agora seus “meninos”, a quem deram espaços e notoriedade, como se fossem jovens “espontâneos”, embora todos soubessem que recebiam apoio do PSDB, do PMDB (via Moreira Franco) e do DEM, além de, mais recentemente, do empresário e ex-candidato a presidente Flávio Rocha, dono das Lojas Riachuelo.

Quando eles serviram como massa de manobra para a derrubada de um governo legítimo e eleito, ninguém falava em “fake news”, embora elas jorrassem aos borbotões desta turma.

Idem quando fizeram de um juiz atrabiliário como Sérgio Moro uma espécie de “vingador”, um super-homem que segue por aí a praticar o “a Justiça sou eu”.

Por isso é que não se pode deixar que se confunda o episódio de hoje com o de uma supressão do direito de liberdade de opinião, mesmo que sejam as asquerosas opiniões dos Kinzinhos da vida sempre que não façam apologia do crime.

Quem conduz, há anos, um blog de esquerda sabe que não se monta estruturas imensas como aquelas sem dinheiro, e muito.

Por isso mesmo não pode dar chance para que os sufocadores de opinião nos abafem.

Fernando Brito
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PSL - Partido de Bolsonaro é o mais fiel a Temer

PSL foi o que mais se alinhou às pautas do atual governo Temer em 107 votações realizadas no primeiro semestre de 2018 na Câmara, de acordo com estudo da Arko Advice


Na convenção do PSL que oficializou a sua candidatura à presidência, no último domingo (22), Jair Bolsonaro atirou para todos os lados, com críticas ao seu adversário eleitoral, Geraldo Alckmin, mas também contra os governos de Dilma Rousseff e de Michel Temer.

Contudo, apesar dos ataques, o partido de Bolsonaro - o PSL - foi o que mais se alinhou às pautas do atual governo Temer em 107 votações realizadas no primeiro semestre de 2018 na Câmara. É o que aponta um levantamento da consultoria política Arko Advice, que mostrou 67,73% de fidelidade dos deputados do PSL às pautas do governo. Esse índice supera até mesmo o partido de Temer, o MDB, que tem fidelidade de 64,34%, sendo seguido por PSDB (63,05%), PPS (63,03%) e PP (58,26%).

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Fidelidade cada vez menor

Vale destacar que a média de apoio aos projetos de interesse do governo na
Câmara em julho atingiu seu menor índice desde que Temer assumiu a presidência, em maio de 2016, de acordo com o levantamento. O apoio foi de 41,84%, número decorrente da análise de 21 votações entre os dias 1º e 18 de julho, quando os parlamentares entraram em recesso. Das 21 votações analisadas, o governo foi derrotado em uma, durante a análise da LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) sobre o reajuste salarial e a contratação de funcionários públicos em 2019.

Assim, julho fechou um semestre marcado também pelo menor índice de apoio de Temer desde que ele assumiu, de 57,27%. Os índices são decrescentes
desde 2016. "Vale ressaltar que no primeiro semestre de 2018 foram analisadas apenas as votações de meados de maio, junho e julho. Antes disso, a presidente era Dilma Rousseff", destaca a Arko.

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UFERSA revoga homenagem a ditador Costa e Silva no RN


O Conselho Universitário (Consuni) da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) aprovou, à unanimidade, a retirada do nome General Costa e Silva que batizava o ginásio de esportes da instituição.

A decisão foi tomada nesta terça-feira (24) e divulgada em primeira mão pelo blog do jornalista Saulo Vale, de Mossoró.

A proposta de mudança foi encabeçada pelo grupo de pesquisa História Constitucional e Direitos Sociais, orientado pelo professor da Ufersa Rafael Cabral. Eles questionavam o fato da universidade homenagear um dos mais truculentos governantes do país.

Com isso, a estrutura passa a se chamar Ginásio de Esportes da Ufersa.

A decisão pressiona a UFRN a também retirar a homenagem feita a dois ditadores do regime militar. O general Humberto Castelo Branco, primeiro presidente militar pós golpe, e o general Emílio Garrastazu Médici receberam o título de Doutor Honoris Causa pela UFRN. Castelo Branco foi homenageado em abril de 1966 e Médici recebeu a honraria em setembro de 1971. Os dois títulos foram aprovados pelo Conselho Universitário da Instituição, o CONSUNI, o mesmo fórum que, na Ufersa, decidiu retirar a homenagem.

A Agência Saiba Mais publicou reportagem em 20 de maio deste ano destacando que a UFRN não pretendia rever as homenagens, mesmo após as recentes revelações de memorando da CIA, agência de inteligência americana, que mostrou que o presidente Ernesto Geisel (1974-1979) autorizou a execução de opositores do regime militar.

O memorando, divulgado em maio pelo jornal Folha de S. Paulo, relata um encontro entre Geisel, João Batista Figueiredo, então chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), e os generais Milton Tavares de Souza e Confúcio Danton de Paula Avelino, ambos na ocasião no Centro de Informações do Exército (CIE).

O mais duro golpe

O General Costa e Silva governou o Brasil durante o Regime Militar, no período de 1967 – 1969. Foi no governo dele que foi instituído o Ato Institucional nº 5 (AI-5), considerado o mais duro golpe do Regime.

Só para se ter uma ideia, foi através dessa medida que parlamentares contrários aos militares tiveram direitos políticos cassados. Foi também proibida qualquer manifestação popular. Jornais, revistas, peças de teatro e músicas eram censurados previamente, com o AI-5.

No Saiba Mais
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A bolsonarização da vida precisa ser interrompida


Quem já teve a oportunidade de assistir Relatos Selvagens sabe do que estou falando. Dirigido por Damián Szifron e estrelado por Ricardo Darín, o filme argentino, que estreou em 2014, traz seis histórias que em tempos normais poderiam parecer surreais ou bizarras. Mas que, infelizmente, traduzem bem o cotidiano da atual vida brasileira. No filme, situações corriqueiras do cotidiano transformam-se rapidamente em bolas de neve onde pessoas comuns tornam-se violentas, corruptas e até mesmo assassinas.

Por óbvio, essa onda de ódio à flor da pele não surgiu como um raio em dia de céu azul. Essa intolerância vem sendo alimentada há algum tempo, pelas beiradas, seja por atores políticos ou, até mesmo, por veículos de comunicação.

No Leblon, bairro hostil para quem usa roupas vermelhas, uma ativista social teve parte de um dedo cortado por uma mordida raivosa de uma simpatizante de outro partido durante a reeleição de Lula, em 2006. Nas chamadas Jornadas de Junho de 2013, no Centro da cidade, militantes com bandeiras de partidos foram agredidos covardemente: não pela polícia, mas por uma parcela dos próprios manifestantes que não aceitavam a presença de partidos políticos nos protestos.

A intolerância não é apenas política, mas também social. Sob a palavra de ordem “bandido bom é bandido morto”, grupos de musculosos frequentadores de academia do bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, passaram a agredir jovens negros suspeitos de assaltos. Os autointitulados “justiceiros” chegaram a acorrentar um menor de idade em um poste, sem roupas. Se o menor era um “bandido”, ninguém sabe. Mas sobre seus agressores não há dúvidas: são bandidos.

O desrespeito tem ainda sua face religiosa. Alguns crentes, que parecem não ter entendido bem os próprios valores de sua crença, passaram a atear fogo em terreiros de religiões de matriz africana, como o Candomblé. O autoritarismo é evidente: “se não professa a mesma religião que eu, então merece ser exterminado”, pensa esse criminoso que diz agir em nome de Deus.

A situação é ainda mais bizarra quando a turba se levanta para linchar um suposto criminoso, mas logo em seguida descobre que acabou matando a pessoa errada, um inocente. Foi o que aconteceu nos últimos anos em Santos, no Guarujá e no Maranhão, entre tantos outros casos. Quem é o criminoso nessa história?

Democracia não é consenso, como preconizam alguns, mas sim o reconhecimento da existência do conflito. Ocorre que esse conflito não pode ser sinônimo de intolerância, não pode significar o extermínio do outro. Faz parte da democracia o reconhecimento do conflito e a consequente organização de regras e procedimentos para o convívio de adversários.

Nesse registro, regras e procedimentos são palavras-chave. Quem age em nome de suas convicções, mas sem provas, em busca do extermínio do inimigo, age contra a justiça e a democracia. Esse inimigo pode ser um partido, uma religião, ou um menor de idade pobre e sem direitos. Junto com o seu extermínio, morre a justiça e a democracia.

Infelizmente, parece que caminhamos no sentido inverso ao do aprofundamento da democracia quando um candidato que promove a intolerância e o ódio contra minorias aparece em primeiro lugar nas pesquisas eleitorais para a presidência do país.

Mas nem tudo estará perdido enquanto houver quem acredite na tolerância ao diferente e na igualdade social e econômica.

Theófilo Rodrigues é professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ.
No Cafezinho
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Ciro, para o seu próprio bem, deveria parar de dar entrevistas

Sempre em boa companhia
Existe um ditado muito empregado nos profundos rincões nordestinos que diz que “bem fala quem bem cala”. Cearense que é, Ciro Gomes deveria dar mais ouvidos à sabedoria popular de seu povo.

Numa esclarecedora entrevista ao jornal Valor Econômico, Ciro mostrou, mais uma vez, que o seu discurso molda-se ao sabor da orientação de quem o está entrevistando.

Pela intensidade da dicotomia de pensamento, pode ser um caso único no mundo.

Se alguém comparasse com o que foi dito na sua palestra aos líderes sindicais a menos de uma semana atrás, um leitor desavisado poderia jurar que se trata de dois candidatos de campos ideológicos frontalmente opostos.

Mas como a sua incontinência verbal já deixou de ser exatamente uma novidade desde eleições passadas, o que realmente assombra é o fato dele mesmo ainda não ter percebido o mal que isso causa invariavelmente às suas próprias campanhas.

O gênio inconteste da física, Albert Einstein, uma vez disse que “insanidade é continuar fazendo a mesma coisa e esperar resultados diferentes”.

Ciro continua fazendo as mesmíssimas coisas, e como tal, colherá, por óbvio, os mesmíssimos resultados.

Só que dessa vez a coisa ainda é pior.

Após levar um “passa moleque” do “Centrão”, Ciro, gratuitamente, volta a metralhar o PT diante um jornal escancaradamente voltado às elites e à direita mais conservadora do país.

Parece ainda não ter percebido que essa mesma direita já mostrou que, além de não confiar nele, já possui candidato constituído, o santo Geraldo Alckmin.

Ainda que de esquerda não seja, é indiscutivelmente na esquerda a sua única e remotíssima possibilidade de chegar ao segundo turno.

Atirar contra o Partido dos Trabalhadores nesse momento, inclusive afirmando que Lula, de seu cárcere, estaria “orientando” Valdemar Costa Neto, é das mais cabais provas de inabilidade política já demonstrada até o momento.

Só para se ter ideia do abismo que separa o estilo Ciro Gomes de fazer política com a real possibilidade da tão alardeada “unidade das esquerdas”, basta mencionar que ao mesmo tempo em que o ex-governador do Ceará detonava a “burguesia petista”, Fernando Haddad - coordenador da campanha de Lula e integrante dessa suposta “burguesia petista” - em entrevista ao El País dizia que mantinha “excelentes relações” com Ciro e que tem “muito respeito e admiração pelos Ferreira Gomes”.

São formas honestas, sinceras, legais e legítimas de se construir e preservar pontes. Ciro, com a sua truculência, dinamita-as.

Haddad, inclusive, não descartou uma aliança com Ciro Gomes. Questionado, afirmou que essa hipótese não teria “morrido na praia”, mas apenas continuava parada “na ilha”.

Dado o fato de que o PT terá inquestionavelmente um candidato, o que Haddad pode ter dito, sem dizer, é que se de fato Ciro quiser uma verdadeira união da esquerda, o posto de vice na candidatura que está à frente de todas as pesquisas poderia lhe ser oferecido.

Seria, inclusive, a forma mais segura e garantida do candidato do PDT subir a rampa do Palácio do Planalto no dia 1 de janeiro de 2019.

Caso prefira se manter no comando de seu Titanic, convém economizar na sua verborragia se não quiser ver aprofundar os seus índices nas pesquisas eleitorais.

Só para lembrar, em 15 de abril, segundo o Datafolha, Ciro pontuava inexpressivos 5%. Dois meses depois, em 28 de junho, o Ibope o trazia com míseros 4%.

Para evitar a colisão com o iceberg de ser um mero erro estatístico, seria interessante falar menos e ouvir mais os ruidosos avisos emitidos pelos números.

Carlos Fernandes
No Esquerda Caviar
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Bolsonaro, quando era vereador no Rio de 1990: “pobre não sabe fazer nada”


O pobre "não sabe fazer nada". A contenção da explosão demográfica deve ocorrer "em cima da classe mais humilde". Mas não adianta distribuir preservativos a moradores de favelas, pois "a molecada vai brincar de bexiga". Sobre mulheres, "tem muito pouco a falar", a não ser que nasceu de uma. Maus políticos vão desaparecer quando "se acabarem os pobres e os miseráveis".

Posições desse gênero eram defendidas na tribuna da Câmara Municipal do Rio de Janeiro pelo candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) quando ele foi vereador, de janeiro de 1989 a fevereiro de 1991. Àquela altura, o militar tinha 34 anos de idade e estava na reserva remunerada do Exército como capitão. Ele se elegera vereador em 1988 pelo conservador PDC (Partido Democrático Cristão), que depois se fundiria com o PDS de Paulo Maluf, ex-prefeito de São Paulo.

Ditas quando a Casa não tinha um canal de TV, as palavras de Bolsonaro foram transcritas no DCM (Diário da Câmara Municipal) do Rio. A Folha pesquisou as mais de 2.000 menções ao seu nome de 1989 a 1991.

O levantamento indica que Bolsonaro fazia pronunciamentos esporádicos.

Só às vezes pedia um aparte, como em junho de 1989, numa discussão sobre uma onda de crimes violentos. Na condição de capitão do Exército, disse que teria "uma solução, vamos assim dizer".

Sugeriu que malfeitores fossem "depositados" no meio da Amazônia. Eles não ficariam presos, mas soltos na mata. Poderiam "conviver com animais".

Um colega brincou com o absurdo da ideia. "O que o senhor tem contra a selva amazônica para fazer uma proposta desse gênero? [...] Acho que se eles forem espertos o bastante para chegarem perto de Manaus vão matar mais pessoas e nós estaríamos sendo responsáveis." Bolsonaro não se perturbou: "Garanto que não chegam".

Bolsonaro mencionou o controle da natalidade em duas ocasiões, sem esclarecer como pretendia fazê-lo. O vereador duvidava de métodos contraceptivos: "Não adianta vir com paliativo, mostrar folhetinhos para a população carente que é analfabeta".

Bolsonaro relacionou, de forma pouco clara, o aumento da população à falta de qualificação profissional dos mais pobres. 

"A mão de obra excedente no Brasil é dessa classe mais carente, que não sabe fazer nada. Eu recebo de vez em quando alguns ex-soldados em meu gabinete, então digo 'companheiro, vou te empregar onde? O que você sabe fazer?' E ele responde: 'Sei puxar cordinha de canhão, sei rastejar, sei fazer faxina'. Vou colocá-lo onde? Com que cara vou solicitar para um amigo meu um emprego para uma pessoa que não tem uma qualificação como essa?"

Procurada, a pré-campanha de Bolsonaro não respondeu a um pedido de comentários sobre essas declarações.

Rubens Valente
No fAlha
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Haddad confronta jornalistas a serviço da família Marinho — ouça


O ex-prefeito de São Paulo e coordenador do programa de governo da candidatura Lula, Fernando Haddad, confrontou uma bancada agressiva de jornalistas no Jornal da CBN, rádio da família Marinho, na manhã desta terça-feira (24). Apesar de ser o entrevistado, em vários momentos da entrevista de pouco mais de 6 minutos Haddad foi impedido de falar pelo jornalista Gerson Camarotti, que faz a linha de frente do "globismo" (o partido dos Marinho, donos da Globo) como analista político, ao lado de Merval Pereira, e pelo âncora Mílton Jung. A ofensiva das mídias das Organizações Globo contra o PT chegou a um ponto culminante com o veto da GloboNews a Lula ou um representante indicado por ele na rodada de cinco entrevistas que fará com os candidatos melhor posicionados nas pesquisas -o líder, entretanto, está proibido na Globo.

O veto à fala livre de pessoas de esquerda tem se disseminado pela imprensa conservadora e ganhou destaque depois que a pré-candidata do PC do B à Presidência, Manuela D'Ávila, foi interrompida 63 vezes no programa Roda Viva em 25 de junho, numa condição agravada pela misoginia da bancada. Pouco menos de um mês depois, Geraldo Alckmin foi ao mesmo programa da TV Cultura e não foi interrompido uma única vez. A mídia conservadora tem buscado manter a aparência de respeito à lei, que exige a presença dos candidatos e candidatas em suas sabatinas, mas cria um fogo de barragem para impedir que a mensagem da esquerda chegue aos eleitores. 

Na entrevista para a CBN, Camarotti dedicou-se a atacar sistematicamente o governo Dilma e fazer uma defesa sutil do governo Temer, enquanto Haddad apresentava os pontos centrais do programa de governo de Lula. Enquanto isso, o âncora Jung, assumindo as vestes de ministro do TSE ou do STF garantia aos ouvintes que "o PT está insistindo com a candidatura Lula apesar de ela ferir a Lei da Ficha Limpa" - como se sabe, não há qualquer decisão dos tribunais de impugnação da candidatura de Lula, mas a imprensa conservadora tem disseminado a versão de que ela seria "ilegal". Haddad lembrou que 122 juristas de primeira linha do país já se manifestou afirmando que "a sentença contra o Lula não para em pé". Jung interrompeu Haddad para insistir que "está claro que ele está condenado em segunda instância e em segunda instância a Ficha Limpa não permite que ele concorra como candidato". Haddad pacientemente explicou que a jurisprudência do TSE indica que o registro deve ser aceito - só será vetado se os ministros mudarem o entendimento da corte. Pela terceira vez, Jung insistiu que o PT "está perdendo espaço ao insistir numa candidatura que não deverá se concretizar". Haddad respondeu que "os adversários não estão comemorando isso; porque os adversários não estão comemorando isso que você aponta como um erro do PT? Provavelmente porque a população, apesar de tudo o que está acontecendo quer votar no Lula e elegê-lo presidente. É a estratégia de nossos adversários que não está dando certo".   

Ouça a íntegra da entrevista:

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Corrupção CCR-Alckmin: “lavagem de notícia” na Folha


A reportagem de Mario Cesar Carvalho, na Folha, contém todas as informações sobre a queda do executivo Renato Alves Valeque que presidia a CCR há 20 anos.

Mas o título, na Folha, “some” com o personagem central da história: Geraldo Alckmin que, segundo delações do doleiro Adir Assad seria um dos beneficiários da operação de troca de faturas fictícias por dinheiro vivo para a CCR, empresa formada pelas empreiteiras Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, Odebrecht, SVE e Serveng nos “bons tempos” de Fernando Henrique Cardoso e que abocanhou concessões a rodo desde então.

Com o dinheiro em papel, a CCR abasteceu a campanha de Alckmin pelo “caixa 2”:

A CCR também negocia um acordo de leniência com o Ministério Público de São Paulo no qual pretende contar que fez uma doação para o caixa dois da campanha do tucano Geraldo Alckmin em 2010, no valor de R$ 5 milhões, conforme a Folha revelou em maio.

Alves, diz a reportagem, era amigo de Paulo Vieira de Souza, o operador tucano que tentaram esquecer à beira do caminho. Mas o título, claro, evita o “Paulo Preto” conhecido de todos e o chama de “ex-diretor da Dersa”.

Geraldo Alckmin, como qualquer pessoa – exceto Lula, a quem parece que isso “não vem ao caso” – tem o direito á presunção da inocência.

Também para ele, é preciso que haja provas, não uma simples delação (o que, de novo, não se aplica a Lula).

Mas a edição da Folha é, com o perdão das palavras, “lavagem de notícia”. Ou seja, a dissimulação deliberada do essencial da informação: quem recebeu o dinheiro, porquê  e para quê.

Ainda mais que há, como se diz no jargão dos jornalistas, um “gancho” evidente: ontem,  Alckmin foi intimado a depor, mês que vem, sobre outro caso de caixa dois, os R$ 10,3 milhões que suas campanhas teriam recebido da Odebrecht.

Mas na Folha, como na lista da Odebrecht, Geraldo Alckmin é “Santo”.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Hora de jogar para ganhar: Unidade já!

“A unidade é a bandeira da esperança". A célebre frase de João Amazonas, dirigente histórico do PCdoB, encerra mais do que uma diretriz a ser perseguida ao fazer política. Ela condensa o aprendizado histórico do partido mais antigo do país, o único a sobreviver a duas ditaduras abertas, a participar dos processos de redemocratização de 1946 e 1985, do mais longo ciclo de governos progressistas do país, o primeiro a alertar que as classes dominantes engendravam um golpe travestido de impeachment contra a presidenta Dilma.

Essa rica experiência de 96 anos ininterruptos de atuação, que vai da luta armada à conquista de governos eleitos, da clandestinidade à vida partidária legal e ativa, da atuação permanente em movimentos sociais ao embate parlamentar, ensinou o PCdoB a lutar, sem hegemonismos, dogmas e esquematismos, de acordo com a exigência do momento político. Afinal, a melhor tática é sempre aquela que atende a um requisito básico: aproximar do objetivo a ser atingido, de acordo com a situação concreta.

Foi esse o guia político do PCdoB quando, depois da memorável campanha das “Diretas” – em que tínhamos multidões nas ruas e mesmo assim não alcançamos a aprovação da emenda Dante de Oliveira -, buscamos a formação de uma ampla frente que logrou derrotar a ditadura com seu próprio instrumento, o Colégio Eleitoral. Não cedemos à tentação de “marcar posição” quando o que estava em jogo era a abertura democrática do país.

Também foi buscando o objetivo de vencer e mudar o Brasil que defendemos a ampliação da aliança, em 2002, quando a chapa Lula-José Alencar representou o pacto dos setores interessados no desenvolvimento nacional, na valorização do trabalho e da produção. Fomos vitoriosos, mas não foram poucos os que, à época, criticaram a política frentista.

Pois bem, chegamos às portas das eleições de 2018 em um dos momentos mais graves e complexos da história brasileira. O golpe consumado em 2016, em suma, significou uma nova pactuação das elites para isolar o campo progressista e por fim ao ciclo aberto em 2002. A base econômica desse pacto diz que os direitos assegurados pela Constituição de 88 não cabem no orçamento, que as leis trabalhistas e previdenciárias não se aplicam mais e assegura ainda mais a hegemonia do capital internacional ante ao nacional, das finanças sobre a produção, do capital sobre o trabalho.

E mais: indo além até do controle dos artífices políticos do golpe parlamentar, a nova hegemonia que tenta se impor implica numa reconfiguração do Estado Democrático Direito, com a hipertrofia do poder judiciário, que, ao fim e o cabo, liquida as próprias garantias constitucionais que deveria resguardar, levando o país à beira de um estado de exceção.

O arbítrio virou o novo normal no Brasil. É isso que explica a prisão sem provas de Lula, em meio a um processo eivado de atropelos. É isso que garante que um juiz descumpra ordem superior impunemente, que dá poderes à magistrada responsável pela execução penal para impedir Lula de ser entrevistado. É o estado de exceção que impede que o maior líder político do país esteja livre e, ao que tudo indica, impedirá que tenha assegurado seu direito de participar das eleições. Não se quebra a base da democracia de um país das dimensões do Brasil para não ir até as últimas consequências.

Diante de situação tão grave era de se esperar que as forças políticas comprometidas com a nação brasileira estivessem rendidas e impossibilitadas de vislumbrar quaisquer chances nas eleições de outubro. Ocorre que o fracasso e a desmoralização do governo Michel Temer proporcionam uma chance de reverter o quadro.

O povo, ludibriado pela campanha pró-impeachment, se depara com uma realidade trágica: a economia não voltou a crescer, o desemprego aumentou, os direitos trabalhistas foram retirados, os investimentos em saúde e educação foram congelados e a desagregação do tecido social é visível nas grandes cidades. Esse povo não quer Temer e nada que se pareça com ele.

As pesquisas de opinião mostram que é possível colocar um freio à marcha da insensatez que engolfou o país, é possível galvanizar as esperanças e chegar ao segundo turno da eleição com uma candidatura ancorada no interesse nacional. Novamente, a história nos coloca diante de um dilema tático: unificar amplas forças para lutar pela vitória ou manter a fragmentação atual (ou no máximo montar uma articulação da Esquerda), correndo o risco de dar de bandeja a eleição aos conservadores?

Enquanto na chamada “Esquerda” se viu grande indisposição em unir amplos setores para construir uma saída para a grave crise brasileira, os conservadores agiram. Alckmin polariza partidos que noutro momento foram base de governos petistas, se consolida como a candidatura mais forte da direita e será a inquestionável herdeira do programa do governo Michel Temer. O cenário se completa com a candidatura fantoche de Henrique Meirelles, que cumpre o papel de atrair a rejeição de Temer e tirar do ex-governador paulista o ônus de defender a continuidade de um governo odiado pelo povo.

Qual seria a resposta das esquerdas? Conforme apontou o XIV Congresso do PCdoB, o necessário seria construir uma frente ampla em defesa da nação brasileira, da democracia e dos direitos dos trabalhadores.

É possível vencer as eleições e derrotar nas urnas o programa antinacional, antipopular e antissocial das elites. Para somar a este projeto, a candidatura própria do PCdoB, que tem cumprido enorme papel e ajudado sobremaneira a dar visibilidade ao Partido, não será óbice.

Mas será necessária uma mesa de diálogo em que todos tenham a disposição sincera de buscar unir forças pelo país. Não é hora de marcar posição nem de alimentar ilusões vãs, é hora de jogar para ganhar. O Brasil depende de nós.

Temos pouco tempo.

Orlando Silva, líder do PCdoB na Câmara e deputado federal por São Paulo.
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Doutor Bumbum promoveu Bolsonaro, votou em Aécio, pregou derrubada de Dilma e pediu prisão de Lula


Um tipo manjado costuma frequentar o transporte público: o sujeito que, ao perceber um velhinho ou uma mulher com barrigão de grávida se aproximando, finge cochilar, para não ceder o banco onde está sentado. Na hipótese mais generosa, torce para que outro passageiro se levante. Na mais egoísta, prefere que se dane quem necessita mais do assento do que ele.

Na imprensa também há quem afete um cochilo para não contar as histórias por inteiro. É o caso do relativo silêncio sobre o febril ativismo político, nas redes (antis)sociais, do médico Denis Cesar Barros Furtado. Conhecido como Doutor Bumbum, apelido que lhe “dá muita alegria”, ele foi preso na quinta-feira, indiciado por homicídio doloso qualificado de Lilian Calixto. A bancária de 46 anos morrera na madrugada do domingo anterior, horas depois de se submeter a uma intervenção estética de incremento dos glúteos conduzida por Furtado numa cobertura residencial na Barra da Tijuca.

A omissão acerca da militância digital talvez se justificasse pelo receio de generalizar: todos os que se identificam com o ideário de Furtado aprontariam como ele (é óbvio como peruca de ministro do Supremo que essa comunhão inexiste). O raciocínio é débil. Levado ao extremo, implicaria calar sobre o episódio, pois um desmiolado poderia interpretar que todos os médicos são trambiqueiros e eventualmente assassinos (mais uma estultice).

É compreensível, e recomendável, que os perfis jornalísticos do caricatural Doutor Bumbum assinalem a contradição entre suas promessas de beleza e saúde e os resultados concretos de frustração e morte. Mas não é igualmente relevante expor o abismo entre a pregação dele contra violações éticas e, conforme numerosos fatos e acusações, a condição cínica de useiro e vezeiro em práticas dessa natureza?

Furtado imprimiu nas redes as digitais de seus pensamento e caráter. É um provinciano hedonista dado a se fotografar com bíceps avantajados e um cérebro bem menor do que o do fortão Popeye alimentado a espinafre. O deslumbramento ególatra disfarça o pragmatismo da sua atividade na internet, voltada à autopromoção e ao proselitismo político.

O parlapatão apregoa seus tratamentos que ofereceriam benefícios com aura miraculosa, sem desprezar o expediente ladino das fotos de bundas “antes” e “depois”. Seus anzóis fisgam gente desconsolada com as imperfeições de seus corpos, como se corpos perfeitos pudessem ter algum encanto. Um passeio pelos perfis de Denis Furtado no Instagram e no Facebook o radiografam. Eles são as fontes primárias da maioria das citações aqui reunidas.

‘Cansado de mentiras e roubos’

Em março de 2015, o médico postou uma foto de protesto em Brasília onde um manifestante desfraldava uma bandeira com o slogan “Fora, Dilma”. E bravateou: “[…] Estamos cansados de tantas mentiras e roubos!”

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Imagem: perfil de Denis Furtado no Instagram

Sabe-se agora que uma pessoa que trabalhou como enfermeira para ele declarou que o patrão “ficava com parte dos produtos” que as pacientes lhe compravam. “Ele vendia 500 ml de metacril e aplicava 300 ml”, disse Wanessa Ribeiro Reis. “O restante do produto ele vendia novamente para outras mulheres.”

Em março, uma juíza de São Paulo condenou-o a pagar R$ 12,2 mil a duas pacientes que receberam dose menor do que a combinada em tratamento hormonal. O Doutor Bumbum foi punido com sua mãe, Maria de Fátima Barros, médica cujo registro no Conselho Regional de Medicina havia sido cassado. Ela teria participado do procedimento depois do qual Lilian morreu. Seu filho não poderia trabalhar no Rio, pois não tem autorização do Cremerj; seus registros ativos são de Goiás e do Distrito Federal.

Em março de 2016, em diapasão justiceiro, Furtado distribuíra mensagem do Movimento Contra Corrupção: “Teori Zavascki, indicado por Dilma, dá mais um golpe – Cuspiu na cara de quem paga impostos! Riu de quem foi às ruas! Pisou na Constituição! Se você tem vergonha de ele ser ministro do STF, compartilhe!”

O Doutor Bumbum aconselhou, em junho de 2017: “Julgue seu médico também pela ética em que este trabalha, valorizando a avaliação médica presencial para garantir resultados de excelência e qualidade”.

“A paciente saiu rígida do meu consultório; ela saiu íntegra”, ele alegou em vídeo que veiculou pouco antes de ser preso – Lilian Calixto morreu no Hospital Barra D’Or. Acontece que o Doutor Bumbum operava em casa, não em ambiente hospitalar seguro ou num “consultório”. Faz dez anos que ele não paga o condomínio da sua cobertura na Barra. A dívida gira em torno de meio milhão de reais, calculou a Justiça.

‘Cidadão brasileiro honesto’

O Doutor Bumbum, contudo, arrota ser um varão da honestidade. Em março de 2015, passou adiante uma mensagem oposicionista: “Eu sou um cidadão brasileiro honesto. Eu sou contra o PT. Simples assim”. Na 16ª Delegacia Policial do Rio, uma mulher denunciou o médico por não restituir o dinheiro que ela adiantara para um procedimento de que desistiu. Outra, desconfiada após uma consulta, também pediu a devolução. Sem sucesso, perdeu R$ 9,3 mil.

Em agosto de 2015, Furtado criticou quem não apoiava aumento salarial para delegados federais por não fazer “sua parte contra a corrupção”. Em março do ano seguinte, aderiu a manifesto de apoio ao juiz Sérgio Moro e à Lava Jato. Fizera coro com o desabafo: “Segundo aumento de combustíveis em 15 dias. O PT rouba e quem paga é você”.

Furtado aplicava PMMA, ou o palavrão de nove sílabas polimetilmetacrilato, nas bioplastias de glúteos. A Sociedade Brasileira de Dermatologia e a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica não recomendam o emprego de tal substância com objetivo estético. Seu uso em grande quantidade pode causar morte, adverte o Conselho Federal de Medicina.

Mas a calamidade, brama o Doutor Bumbum, é o programa Mais Médicos. Em fevereiro de 2015, esse “cidadão de bem” afligiu-se: “Se por nenhum motivo plausível o PT trouxe médicos cubanos sem revalida de diploma, e muitas vezes até sem diploma para o Brasil, muito em breve, por sua própria metodologia de certificação, estará trazendo professores cubanos”.

Furtado não vai com cara de cubano, ainda que nascido na Argentina. Em fevereiro de 2014, malhou o Che Guevara. Dali a dez meses, perguntou: “Desmilitarização das polícias: você é contra ou a favor?” Ensinou: “Devemos ficar muito atentos a essa questão. Será esse um passo decisivo para a instalação de um golpe comunista no Brasil. Fica o alerta!” Em agosto de 2015, os brasileiros corriam o risco iminente, preveniu o Doutor Bumbum, de serem “escravos do comunismo ditatorial”.

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Imagem: perfil de Denis Furtado no Instagram

A mesma postagem louvou a ditadura. Quer dizer, compartilhou um vídeo nostálgico do “Regime Democrático Militar”. Na tela, sucedem-se fotos dos ditadores, inclusive do mais carniceiro, Emílio Garrastazu Médici. E rememora-se um dos bordões mais desprezíveis do governo: “Brasil: ame-o ou deixe-o”.

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Imagem: perfil de Denis Furtado no Facebook

O Doutor Bumbum é uma chorosa viúva da ditadura. Ele propagou em outubro de 2014 uma declaração – com pinta de fake – do ditador Ernesto Geisel: “[…] Chegará um tempo que o povo sentirá saudade do Regime Militar”. Furtado, de 45 anos, sente. Era “uma época linda aonde [sic] todos se respeitavam e prosperavam”. Ele posta fotos trajando seu uniforme militar de tenente médico do Exército.

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Imagem: perfil de Denis Furtado no Facebook

O médico promove outras carpideiras, como o deputado Jair Bolsonaro. Em dezembro de 2014, postou vídeo com discurso do antigo capitão do Exército amaldiçoando os direitos humanos. O hoje candidato à Presidência dirigiu-se à deputada Maria do Rosário: “Eu falei que não iria estuprar você porque você não merece”. Furtado difundiu um queixume: “Militância: PT, LGBT, além de acusar Bolsonaro de assassino, o agridem fisicamente e verbalmente. E eles dizem que a direita é quem estimula a violência”.

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Imagem: perfil de Denis Furtado no Facebook

‘O MST é uma quadrilha’

Petistas, como Maria do Rosário, são os alvos preferenciais do Doutor Bumbum, que em dezembro de 2014 espalhou um vídeo sobre o duvidoso “triplex do Lula”. Em junho de 2016, ele queria o ex-presidente “na cadeia”. Em agosto de 2015, republicara montagem mostrando Dilma Rousseff atrás das grades. Um mês depois, clamou por “impeachment já”.

Antes, supusera que a presidente soçobraria nas urnas. Às vésperas do segundo turno, augurou: “Uma semana para o fim da vergonha”. Exibiu em suas redes um pronunciamento de Aécio Neves na reta final da campanha. Em novembro, na ressaca da derrota, ecoou outra gravação do tucano. Ignoro se mais tarde ele vestiu a camiseta com a inscrição “A culpa não é minha: eu votei no Aécio”.

O Doutor Bumbum já colecionava sete anotações criminais contra si na polícia, entre elas uma por suspeita de homicídio e outra por porte ilegal de armas – ele abomina o estatuto do desarmamento. No ano passado, policiais encontraram na residência dele em Brasília duas pistolas e uma espingarda, todas sem registro. Em 1997, o médico e sua mãe foram suspeitos do assassinato do companheiro dela, crime não elucidado.

Mãe e filho estão hoje em cana devido à morte de Lilian Calixto. No domingo, ele fugiu às pressas, arrancando com seu carro a cancela de um shopping. A terceira pessoa presa é Renata Fernandes Cirne, secretária e namorada de Furtado. Há indícios de que Renata o teria auxiliado no procedimento no corpo da bancária que viajou de Cuiabá ao Rio para ser atendida pelo Doutor Bumbum.

O Barra D’Or informou que Lilian chegou ao hospital com falta de ar, taquicardia e pele azulada. Ela teve ao menos três paradas cardíacas antes de morrer. O laudo do Instituto Médico Legal definiu como inconclusiva a causa da morte.

Enquanto permanecer encarcerado, Furtado terá de dar um tempo em seus sermões digitais. Em fevereiro, ele compartilhou um artigo, mezzo linha-dura, mezzo ficção, versando sobre “por que a esquerda se esforça tanto em defender bandidos comuns, ladrões, assaltantes e até pedófilos”.

Continuam no ar opiniões como “o MST é uma quadrilha” (palavra de quem foi indiciado também por associação criminosa). A expressão indigente “mimimi”. Vídeos do cardiologista Enéas Carneiro, transformado post mortem em totem da extrema direita, e do MBL, pró-redução da maioridade penal. Apelos de grupos e comunidades como Vem Pra Rua, Direita Vive 3.0 e Destra Corporação (essa vende roupas com a ameaça “Se essa rua fosse minha, nem petista nem feminista ia pisar”). Sobrevive a previsível ironia de Furtado, a respeito de um adolescente apreendido: “Tá com pena? Leva pra sua casa”. E outra, mencionando “o tão chamado ‘golpe’” contra Dilma.

Ao se defender nas redes, antes de ser encontrado pela polícia e ir para o xilindró, o Doutor Bumbum esbravejou: “Eu estou sendo julgado por um crime que eu não cometi”. “Me caluniam e difamam.” “Esses serão punidos pelo homem e também por Deus.”

Na segunda-feira, seu perfil no Instagram somava 666 mil seguidores.

Mário Magalhães
No The Intercept
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