12 de jun de 2018

Jornal dos Trabalhadores e Trabalhadoras


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Moro recua e se declara incompetente para julgar tucanos do Paraná


Depois de declarar que “não faria sentido” dispersar provas envolvendo operadores já investigados na operação “lava jato”, o juiz federal Sergio Moro voltou atrás nesta segunda-feira (11/6) e abriu mão de julgar processos sobre suposto esquema de propinas envolvendo uma rodovia do Paraná. Ele alegou excesso de trabalho e baseou-se em voto derrotado no Tribunal Regional Federal da 4ª Região.

Assim, a chamada 48ª fase da “lava jato” — que fez buscas na sede do governo estadual e resultou na prisão de seis pessoas em fevereiro deste ano, mesmo sem ligação com denúncias na Petrobras —, deve passar agora para outra vara criminal de Curitiba, ainda indefinida.

O caso envolve a suspeita de que uma concessionária tenha superfaturado despesas e simulado contratos para esconder repasses de vantagem indevida, o que teria inclusive aumentado as tarifas de pedágio de forma artificial. A investigação chegou primeiro à Vara Federal de Jacarezinho (PR), mas o juízo preferiu encaminhar os autos a uma das varas especializadas em lavagem de dinheiro.

Moro quis assumir os processos em novembro de 2017, pois disse ter encontrado “pontos de conexões probatórias óbvios” no uso de atividades dos operadores Adir Assad e Rodrigo Tacla Duran.

O juiz reconheceu na época que atividades em outros estados poderiam ser distribuídas a outros juízos pelo país, porém considerou insensato impedi-lo de analisar os indícios de crimes em Curitiba, com entregas de dinheiro por lá e em benefício de agentes públicos da própria cidade.

O advogado José Carlos Cal Garcia Filho, que representa um dos acusados, questionou no TRF-4 a competência de Moro, assim como a defesa de outro envolvido, representado por Rodrigo Muniz Santos. A maioria da 8ª Turma analisou os argumentos em maio deste ano, porém considerou inadequada a via eleita — pedido de Habeas Corpus, em vez de exceção de incompetência.

O relator, desembargador federal João Pedro Gebran Neto, ficou vencido ao reconhecer que o inquérito originário não apresenta qualquer relação com a Petrobras.

Muito trabalho

Quase um mês depois do julgamento, foi Sergio Moro quem reconsiderou o próprio entendimento. Na decisão desta segunda, ele disse que já está sobrecarregado com “as persistentes apurações de crimes relacionados a contratos da Petrobras e ao Setor de Operações Estruturadas do Grupo Odebrecht”.

Embora esteja desde 2015 sem receber outros processos, o titular da 13ª Vara Federal de Curitiba disse que cuida de casos com muita complexidade, “gerando natural dificuldades para processamento em tempo razoável”. Afirmou ainda que, conforme “juízos de conveniência e oportunidade”, é mais recomendável acompanhar o voto do relator no TRF-4, apesar de vencido.

A medida, afirma, também encerrará qualquer novo questionamento das defesas sobre a prevenção. O julgador determinou a redistribuição de uma ação penal e processos conexos entre as varas criminais de Curitiba, excluindo-se a própria. Moro, entretanto, manteve válidos os atos processuais já praticados.

As defesas queriam que fossem derrubadas as decisões anteriores, mas ele disse que cabe ao próximo juízo decidir o que fazer com os atos antigos.

Clique aqui para ler a decisão.
5016582-60.2018.4.04.7000

Felipe Luchete
No ConJur
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Chupaa, Moro!


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Política, futebol e religião se misturam? Na Argentina, sim

Como a seleção argentina se meteu no conflito árabe-israelense e conseguiu desagradar judeus, muçulmanos e até católicos


Com o pouco entusiasmo dos argentinos em relação à Copa do Mundo da Rússia, a AFA (Associação de Futebol Argentina), sob a direção de Hector “Chiqui” Tapia, decidiu tomar medidas sobre o assunto e buscou despertar o espírito popular com uma “proposta” corajosa: inserir a equipe argentina no conflito do Oriente Médio.

O último jogo da seleção, dez dias antes do Mundial, seria contra o time de Israel na cidade de Haifa. Acontece que, dias mais tarde, a organização local acabou mudando a sede da partida para Jerusalém, justamente em meio à violência desatada com a transferência da embaixada norte-americana para esta cidade. Um detalhe bobo que passou despercebido pelos dirigentes da AFA, talvez distraídos com a quantidade de dinheiro recebida pela partida: 2 milhões de dólares. Ou o equivalente a uma meia usada do atacante Messi, que tem salário de 40 milhões de euros.
Em apenas 24 horas, a seleção argentina conseguiu gerar um conflito com judeus, muçulmanos e católicos. A AFA fez, em um dia, mais pelo estado laico do que o próprio estado laico nos últimos dez anos
A poucos dias da apresentação, tudo estava encaminhado para ver a seleção e seu capitão em solo israelense, quando surgiu um problema inesperado: o protesto dos palestinos contra o jogo. “Messi é um símbolo de paz e amor, pedimos a ele que não participe na limpeza dos crimes da ocupação israelense”, disse o presidente da Federalão Palestina, Jibril Raioub. Ele entregou ao representante da Argentina em Ramallah, na Cisjordânia, uma carta para a Federação Argentina pedindo o cancelamento da partida.

“Lançaremos uma campanha contra a Federação Argentina. Messi tem milhões de fãs nos países árabes e muçulmanos. Pedimos a todos que queimem as camisetas com seu nome e os pôsteres com sua imagem. De uma partida esportiva, este evento se converteu numa ferramenta política, o governo israelense está tentando dar um alcance político a ela, insistindo que aconteça em Jerusalém”, explicou Raioub.



Não foi nada agradável para os jogadores argentinos ver palestinos atearem fogo a camisas da seleção ou exibi-las manchadas de sangue. Pensaram então que participar da partida talvez não fosse uma boa ideia e se negaram a jogar. A partida foi suspensa. Mal estar em Israel.

Alguns extremistas apontaram a recusa da seleção argentina de jogar em Jerusalém como uma ação “antissemita”, um velho truque dos sionistas contra os críticos do governo israelense, embora entidades como a ONU e os Médicos Sem Fronteiras tenham condenado o “banho de sangue” em Gaza no dia da inauguração da nova embaixada.
Imediatamente, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ligou para o presidente da Argentina, seu aliado Mauricio Macri. O mesmo chamou a equipe nacional para tentar convencer seus jogadores a realizar a partida, mas, com Messi à frente, o pedido do presidente de tomar posição política no quiproquó foi nula. Macri, em seguida, ligou para seu amigo Bibi para se desculpar, explicando que a recusa dos jogadores era definitiva e que não havia nada a fazer a respeito.

Mas, para a seleção, a coisa estava apenas esquentando. À negativa de se jogar com Israel, somou-se também o inesperado cancelamento do encontro já agendado com o papa Francisco, que iria acontecer no dia 6 de junho. O diretor de imprensa do Vaticano, Greg Burke, teve que retificar no twitter, no mesmo dia, a suposta chegada do time e o posterior cancelamento.
Ou seja, em apenas 24 horas, a seleção argentina conseguiu gerar um conflito com judeus, muçulmanos e católicos. A AFA fez, em um dia, mais pelo estado laico do que o próprio estado laico nos últimos dez anos.

No final, apenas os palestinos ficaram felizes com o W.O.. “Num momento em que o presidente dos EUA e o governo de Israel estão tentando tirar Jerusalém da mesa de negociações, é importante ver que o poder do povo produz resultados”, comemorou a representante da Associação Palestina de Futebol, Susan Shalabi. Bem, os palestinos e o grupo terrorista Hamas, que parabenizou a seleção através de sua conta no twitter: “Obrigado, Argentina!”.
Tapia, no dia seguinte, explicou que a recusa da seleção em apresentar-se em Jerusalém teve o objetivo de garantir a segurança dos jogadores e que “é uma contribuição para a paz mundial”.
Não houve declarações do presidente da nação, o que não deixa de ser estranho quando se sabe que Macri, em todas as reuniões com os líderes mundiais que participa, não perde a oportunidade de comentar sobre o esporte “de la redonda”.

Em sua despedida do futebol, Maradona, um craque que sempre misturou futebol com política, disse uma frase para a história: “Não se mancha a bola.” Os jogadores da seleção não permitiram que a manchassem, e nisso temos que aplaudi-los. Dos políticos e dirigentes do futebol argentino não podemos dizer o mesmo.

Tapia, no dia seguinte, explicou que a recusa da seleção em apresentar-se em Jerusalém teve o objetivo de garantir a segurança dos jogadores e que “é uma contribuição para a paz mundial”.

Martín Fernández Lorenzo
No Socialista Morena
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“Lembrem-se: a Fifa era, e talvez ainda seja, uma organização criminosa”


O jornalista britânico Andrew Jennings diz por que não confia nas mudanças que ocorreram na organização e conta que o FBI continua investigando a Copa do Mundo e a Olimpíada

Se há um profeta do apocalipse da Fifa, seu nome é Andrew Jennings. O incansável jornalista investigativo de 75 anos se dedica há mais de duas décadas a perscrutar os dirigentes do futebol mundial. Revelou, entre outras coisas, as propinas de US$ 9,5 milhões dadas a Ricardo Teixeira e US$ 1 milhão ao ex-presidente da Fifa, e seu ex-sogro, João Havelange, para garantir à empresa de marketing esportivo ISL contratos de exclusividade em patrocínios da Copa do Mundo. O caso foi investigado pela Justiça suíça e se tornou um escândalo mundial.

Em 2009, Andrew colaborou com o FBI no inquérito que levou à prisão do ex-presidente da CBF José Maria Marin e outros seis dirigentes da Fifa em Zurique, em 2015. Durante os meses que antecederam a Copa no Brasil, alertou que os brasileiros iam acabar pagando o pato.

Andrew é autor dos livros Jogo Sujo – o Mundo Secreto da Fifa e Um Jogo Cada Vez Mais Sujo, da editora Panda Books, e colaborador da Pública desde a sua fundação. Nessa entrevista feita por Skype, ele mostra que mantém a ironia e o viço ao falar da Copa do Mundo na Rússia: “Tomara que o FBI faça uma operação antes do jogo inicial da Copa. Isso seria legal, não?”.

Olhando para a Copa do Mundo em 2014, no Brasil, o quanto a Fifa mudou desde então?

Muito pouco. Embora Sepp Blatter esteja agora suspenso e aguardando, e nos jornais suíços tudo o que ele diz é que não fez nada errado, vamos lembrar algumas coisas fundamentais. A Fifa era, e talvez ainda seja, um cenário de crime organizado. É disso que se trata: de uma conspiração para roubar as pessoas do que elas querem. E o Havelange, lembrem-se, se tornou um multimilionário graças ao futebol. Ele era absolutamente vigarista. É importante lembrar essas coisas para manter a perspectiva correta.

Por que você diz que a Fifa era, e talvez seja ainda, uma organização criminosa? Talvez os brasileiros já tenham se esquecido, já que faz quatro anos…

Eu não culpo os brasileiros. Acho que todo mundo esqueceu. E é por causa dos jornalistas esportivos – eles se concentram em quem chuta a bola para quem, como se fosse a notícia mais importante da cidade… E na verdade não é uma notícia importante, longe disso. Mas as pessoas precisam ser lembradas de que o FBI ainda está se concentrando na Fifa. Eu, no passado, também tive minhas desconfianças sobre o FBI. No entanto, o jogo deles tem sido totalmente limpo! Muita gente me pergunta: por que o FBI se envolveu nisso? Olha, idiotas: é um fato que todas as transações são em dólares. Se eu decido te dar uma propina ou te dar um presentinho em dinheiro – tudo isso vai ser aprovado pelo seu banco. E aí chega um valor de meio milhão, eles dizem: “Hello? Isso é interessante. Olha, essa pessoa é muito próxima da Fifa ou trabalha para a Fifa”. É assim que eles começam a trilha. E quando alguém me pergunta por que o FBI se envolveu com isso, eu respondo: por que a maioria dos repórteres não quer se envolver! Eu me pergunto o que pessoas como o Juca Kfouri andam dizendo, e espero que ele esteja ainda mandando ver.

Você acha que pode haver outra grande operação do FBI durante a Copa do Mundo?

Bem, nós podemos apenas ter esperanças, né? Tomara que seja agora, antes do jogo de abertura. Isso seria legal, não?

Com certeza haverá outra operação, só não sabemos quando, mas a investigação do FBI continua, porque um amigo meu foi entrevistado pelo IRS, o fisco americano, em São Diego, no fim do ano passado.

A Copa do Mundo de 2014 ajudou a mudar a visão que o mundo tem da competição?

Não tanto quanto a Olimpíada. A Olimpíada foi um desastre. E eu li uma reportagem interessante no New York Times, de uma jornalista – uma mulher, eu fico feliz em dizer – que entende bem o que está acontecendo, Rebecca Ruiz. Ela escreveu que  o FBI está sem sombra de dúvida investigando a corrupção que ocorreu na reunião de Copenhague em 2009 [quando o Brasil foi escolhido como sede da Olimpíada em 2016]. Mas também estão olhando para a IAAF, a Federação Internacional de Atletismo, que organiza os votos para a Olimpíada.

Por que a Olimpíada foi desastrosa?

Eu acho que foi um desastre para o Rio. O Rio não tinha como arcar com aquilo. Os problemas financeiros do Brasil estavam apenas começando, mas o principal é que ninguém deveria pagar tanto dinheiro. E havia um grupo de… homens, claro, que surpresa! Todos homens, dizendo “ah, que espírito olímpico maravilhoso”, e pegando um monte de dinheiro para seus próprios bolsos. Eu sei que o Carlos Nuzman foi preso. Ele tem que ir a julgamento! Ele é o responsável pelos dois eventos asquerosos que o Brasil fez em 2014 e 2016. Ele está agora preso no Brasil… Boa sorte para ele!

Ele está sendo investigado em um processo relacionado à Lava Jato, que apura se o Brasil pagou propina para ser sede da Olimpíada…

Vamos torcer para que o Ministério Público brasileiro tenha tempo e espaço para fazer um grande julgamento, trazendo muita, muita informação sobre o caso.

Voltando à Fifa: quando você diz que pouco mudou, avalia que as medidas de transparência e investigações internas foram ineficientes?

Olha, eles expulsaram todos os executivos do comitê de 2010, eram 30 até o final da última semana. Mas todos os 29 do novo comitê, eu não confiaria neles de jeito nenhum. Porque há dois tipos de pessoas, como sempre. Tem os deliberadamente corruptos e os tolos. E eu conto os britânicos no segundo grupo, porque eles não participam da corrupção, não pegam dinheiro, são apenas muito estúpidos. Mas olhe o jeito que o Gianni Infantino está gerenciando a organização. Basta olhar para a quantidade de times que ele está incluindo, ele está tentando colocar 48 equipes em 2022. Quarenta e oito equipes! Sobrou alguma no mundo? Está ficando ridículo, essa é supostamente uma competição de elite, mas agora todo mundo pode ir… E o que elas vão fazer são duas coisas. Todos acabam envolvidos naquela mentalidade de “vamos ganhar dinheiro com isso”. E eles ganham viagens bacanas. São viagens realmente bacanas, eles vêm de países pobres, ou então são federações muito, muito duvidosas.

Você acredita que a inclusão de novos países facilita mais corrupção?   

Ah, sim. Soa muito democrático: “Olha, tem um time de crianças jogando aqui na rua, vamos enviá-las para a Copa do Mundo”. Eles envolvem quanto mais nacionalidades for possível e nunca vão dizer “vocês não são bons o suficiente”. Agora, se você olhar para Moscou, olhe nos meus olhos e diga que a Rússia levou a Copa do Mundo sem pagar propina! Você não precisa ser muito esperto para saber que foi absolutamente corrupto. E não há nenhuma menção a isso. Ninguém diz “dane-se isso, não vamos tomar parte disso!”. Não, todo mundo vai competir na Rússia! E o Putin, todos os amigos dele ganham propina para construir os estádios, e os russos ainda vão dizer “oh, temos uma Copa do Mundo! Não é maravilhoso?”. Mas é asqueroso, absolutamente asqueroso. E se eles apenas deixassem o futebol em paz… É muito divertido!

Você vê uma relação entre a corrupção e a qualidade do futebol?

Muitos dos jogadores são inteligentes. São os caras que usam terno o tempo todo que não são de confiança. Os jogadores vão jogar bem no campo porque ganham para isso. Mas [a corrupção] perverte o jogo, as pessoas ficam desconfiadas. E sem necessidade! É por isso que precisamos de uma força independente para investigá-los. Desculpem, mas, quando os membros do FBI forem realizar uma operação, ninguém vai dizer “bem, eles estão bravos porque os americanos não se qualificaram”.

Eu fui a primeira pessoa que falou com o FBI, em 2009.

O que você disse a eles?

Os policiais listaram para mim os nomes das pessoas envolvidas no topo do mundo do futebol, um atrás do outro. E eu fui falando: “Corrupto, corrupto, corrupto, corrupto”. Eles foram muito sérios, estavam apenas absorvendo as informações. Depois, eles podem sair e ir checar tudo, porque eles têm seus meios. E alguma hora vão atacar. Que maravilha! O que é maravilhoso é que eles estão olhando o COI, a IAAF, e a Fifa! Pegaram o creme da gerência do atletismo mundial. Vamos lá, FBI!

No que você está trabalhando hoje em dia?

Eu mesmo não estou investigando a Copa do Rússia, porque, se as pessoas são estúpidas o suficiente para irem à Rússia, eu não posso fazer muita coisa. Mas em quatro anos tem o Catar. Eu vou ficar quietinho durante a Copa do Mundo, mas eu vou conseguir um tempo para falar durante a reunião da federação inglesa de torcedores. Vou começar pela base – que se dane o topo! Eu pedi para ir à conferência deles e falar por alguns minutos, e eles me mandaram a reserva na semana passada.

O que há de errado com a Copa do Mundo no Catar?

Mostre-me um lugar onde cresce grama no Catar e eu te chamo de mentirosa! Não cresce grama lá, só areia. Então eles tiveram que importar uma grama de plástico, sei lá o nome, e têm que construir todos esses estádios… E há a questão dos trabalhadores indianos, e também nepaleses, que recebem salários baixíssimos e não podem se organizar. E nós fingimos que não sabemos de nada.

Com o andamento das investigações no FBI e as mudanças na Fifa, você se sente realizado?

Eu acho que minhas investigações alcançaram muita coisa – fora do mundo habitado pelos jornalistas esportivos. Mas quem liga para eles? Como você sabe, a mídia está se retraindo, há menos e menos jornais sendo vendidos a cada dia, e no final eles vão ficar sem trabalho e eu não vou ligar nem um pouco, porque os sites, os blogs, é onde a investigação vai continuar. Eu escrevi dois livros sobre a Fifa, e cada um deles foi traduzido para 16 línguas, o que paga pelo meu café da manhã, então é bom, e fizemos seis edições do programa de jornalismo investigativo Panorama, que rodaram todo o mundo, também.

Minha última pergunta é como os brasileiros deveriam assistir à Copa do Mundo depois de tudo o que aconteceu?

Em geral eles vão ver como as partidas vão ser jogadas, como os jogadores vão competir. Eu não acho que os jogos vão ser roubados. Como vai ser na Rússia, se algo assim acontecer e os jornalistas esportivos não cobrirem, os jornalistas de verdade vão cobrir. Então, boa sorte! Tudo o que podemos fazer é continuar lutando.

Natalia Viana
No A Pública
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Na 'ex-Pátria de Chuteiras', jogadores já não são ídolos e na política não têm voz


Quando famílias se reuniam em torno do rádio para ouvir a narração do jogo da Seleção, atletas do futebol foram ferramenta de propaganda (e alienação política). Em 2018 de Copa e eleições, Neymar fala aos seus milhões no Instagram, mas para a campanha em outubro não deve ter qualquer influência. O que mudou?

Era quarta-feira, 3 de setembro de 1969 quando os gramados do Estádio Governador Magalhães Pinto, o Mineirão, se pintaram de verde e amarelo de um lado e vermelho e branco do outro. Uma noite memorável na história do futebol do Brasil: a Seleção Brasileira de Futebol - sob comando de João Saldanha vinda de uma sequência de seis vitórias em seis partidas, com 23 gols marcados e apenas 2 sofridos - e a equipe do Atlético Mineiro, usando uniforme pouco habitual em referência às cores da bandeira da Federação Mineira de Futebol.

A mera indicação das duas equipes já seria fato curioso o suficiente, aquela noite seria também histórica por outros motivos: era o início de um dos mais clássicos exemplos do uso do futebol como arma política.

Nas arquibancadas do estádio, um torcedor incomum observava a partida: o general Emílio Garrastazu Médici, que dali a poucas semanas, após um período de 60 dias de governo por uma junta militar devido ao derrame cerebral do marechal Artur da Costa e Silva, se tornaria o terceiro presidente da Ditadura brasileira.

Torcedor inconteste do Internacional, Médici observava atentamente um jogador em especial, Dario José dos Santos, o Dadá Maravilha, que pouco tempo antes tinha liderado uma vitória contra o Colorado gaúcho. Dono da incrível marca de 40 gols na temporada de 1969, o carioca à época já se firmava como estrela do Atlético. Era também conhecido pela pouca disciplina e pelas declarações provocativas à imprensa esportiva. Talvez por isso, odiado pelo técnico João Saldanha. A quem quisesse ouvir dizia: “Na minha seleção, Dadá não joga. No Brasil há pelo menos dez centroavantes melhor que ele”.

“Diga a João Saldanha que a Seleção está invicta porque não enfrentou o Dadá”, alardeou o jogador. A provocação atiçou os nervos da seleção, um dos fatores que podem ter contribuído para a magistral derrota da Canarinho. Aos olhos de 70 mil torcedores, o Brasil perdeu para o Atlético por 2 a 1, com gol da vitória marcado por Dadá.

Dadá ainda recorda o episódio. Em entrevista à Sputnik Brasil, o jogador conta a reação. “O Médici logo disse ‘esse cara tem que ir para a Seleção, ninguém pega ele na velocidade. O Saldanha [falando à imprensa] rebateu: ‘Ele [Médici] escala o ministério, eu convoco a seleção’. A imprensa voltou no presidente e ele disse ‘Tira ele [Saldanha] e manda sair todo mundo’”.

João Havelange, posteriormente presidente da FIFA, foi ter com o treinador. Ainda tentou convencê-lo a ceder à vontade do militar, lembra Dadá, sem sucesso. Diante da ordem, foi o responsável por comunicar a demissão. Para a história, ele seria conhecido como “João Sem-Medo”. Na época, contudo, perdeu a chance de liderar a equipe com craques como Pelé e Rivelino, ganhadora da terceira Copa do Mundo e considerada a melhor Seleção da história.



Dadá, como queria o general, foi convocado. E começou aí a intervenção militar na Seleção, posteriormente usada como exemplo máximo do sucesso do regime. Pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE/UFMG), Élcio Cornelsen estuda há décadas a relação do esporte com a política no Brasil. Ele conta que a intervenção do ditador na lista de convocados foi apenas um ponto de um projeto muito maior.

“A relação entre política e futebol naquele contexto da Copa de 70 é muito mais profunda do que isso. Houve uma intervenção militar na própria preparação da equipe brasileira, que começou em 68, com a comissão técnica composta por membros da Escola Superior de Educação Física do Exército, com Cláudio Coutinho e Carlos Alberto Parreira, oficiais com níveis de capitão”, conta Cornelsen. Com a conquista do título, veio o uso político. “A gente percebe pelas imagens da época, com fotografias, filmes [como foi usado]”.

Os jogadores foram recebidos como heróis. Mais um capítulo de uma tradição longa em misturar futebol e política.

De rivalidades à integração nacional, o futebol como arma política

A Copa de 70 pode ter entrado para a história pela intervenção do general, mas o precedente vem de muito antes. Como conta Cornelsen, o futebol como arma de poder data de 40 anos antes. À época, a rivalidade entre o estado do Rio de Janeiro e de São Paulo causou um racha, responsável por levar ao Uruguai apenas atletas cariocas.

“Houve uma dissidência entre a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), fundada em 1914 de âmbito nacional e a Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA). A APEA pretendia forçar a CBD a integrar a federação paulista na comissão técnica, a CBD se recusou e a APEA proibiu que jogadores afiliados a ela de disputar [a Copa]. Isso já estava no contexto político de uma rivalidade que culminaria com a Revolução de 1930 [golpe de Estado que derrubou o presidente paulista Washington Luís] e a Revolução Constitucionalista de 32 [guerra separatista que pretendia independentizar São Paulo]", conta o professor.

Posteriormente, na Era Vargas, o esporte já profissionalizado foi a arma do governo não de legitimação da ditadura do Estado Novo, mas como ferramenta de integração nacional. Em 50, em plena industrialização, o Brasil usaria a Copa do Mundo sediada no país seria a vitrine para expor o país no âmbito mundial.

“O Maracanã, foi uma construção para passar a imagem simbólica de monumentalismo de uma nação que se construía como um parceiro tanto no nível econômico e no político”, avalia o pesquisador.

Não por acaso, Nelson Rodrigues cunharia a expressão: “Brasil, a pátria das chuteiras”. Pelas seguidas utilizações, o esporte e a formalização do Estado-nação seriam indissociáveis.

'O público consome Neymar celebridade, não Neymar jogador'

“Futebol e política se misturam como água e sabão, e seria ainda melhor se um e outro fossem mais limpos do que são”. Assim o jornalista Juca Kfouri abre um capítulo de suas memórias no livro “Confesso que Perdi”. Considerado o mais importante cronista esportivo em atividade no Brasil, Juca acumula na memória o sem número de vezes em que uma o esporte e os bastidores em Brasília foram indissociáveis.

Em 94, fosse a seleção derrotada nos Estados Unidos, Juca acredita que seria Lula o vencedor das eleições presidenciais deste ano. Após a morte de Ayton Senna, “a única coisa que o brasileiro ainda se apegava” nas palavras do próprio Kfouri, era provável que o brasileiro acabasse optando por um político não tradicional. “Apareceu o tetra no bojo do Plano Real e as coisas se conjuntam de tal maneira que favoreceram a eleição do professor Fernando Henrique Cardoso, que normalmente não seria eleito em um país como o Brasil, com aquele discurso e racionalidade”, avalia em entrevista à Sputnik.

Curiosamente, é também neste período em que a própria trajetória pessoal de Juca se mistura com a política. Vencedor, FHC convida o jornalista para assumir o cargo de Ministro Extraordinário dos Esportes. Proposta recusada, ouve o presidente eleito pedir uma indicação. “Por que não Pelé?”, rebateu.

Soa cartunesco. Como recorda, nos tempos de ditadura e ainda um aguerrido militante de esquerda, Juca constantemente criticava o Rei do Futebol pelo seu pouco envolvimento na política e sua aparente indiferença em relação ao governo militar. Acabou por tornar aquele que detestava em ministro.

“Meu pai dizia ‘exija do Pelé que ele faça gols, Pelé é só um jogador de futebol’. Não gosto de pensar assim porque não acho que alguém seja uma coisa só e ponto, gostaria muito de ver os esportistas brasileiros tendo posturas como a do LeBron James em relação ao Trump, por exemplo. Mas o Pelé era um simplório e como tal, politicamente foi realmente um zero à esquerda e já não representa coisa nenhuma”, critica. A relação entre os dois ruiu quando o “Rei” usou de sua influência em Brasília para abafar uma CPI que investigaria a extensa rede de corrupção da CBF.
O jornalista esportivo Juca Kfouri em audiência da Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e o Comitê Organizador Local da Copa do Mundo FIFA Brasil 2014 (COL).
O jornalista esportivo Juca Kfouri em audiência da Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e o Comitê Organizador Local da Copa do Mundo FIFA Brasil 2014 (COL).
Na Seleção atual, já não há ninguém para ocupar o vácuo de ídolos com influência. E imaginar o uso político de um possível título como capital para qualquer pré-candidato. Se em 94 Lula capitalizaria o desgosto nacional com a derrota, em 2018 já não há grande relevância dos jogadores e prestígio com a população.

Élcio constrói seu argumento nessa direção. “Se avaliarmos 1998, o Brasil não venceu, mas FHC se reelegeu. No período globalizado, a identificação do brasileiro com a Seleção não tem mais a intensidade que tinha em outras épocas, quando jogadores atuavam no país. Causou um distanciamento do torcedor. Ainda há obviamente o interesse e a emoção em relação à equipe, não há mais aquela mobilização que havia na copa 70, 74, 78”.

Em tempos de jogadores com milhões de seguidores no Instagram - o próprio Neymar em 2014 fez bombar a hashtag #SomosTodosMacacos contra o racismo no futebol, só para depois se descobrir que se tratava de uma campanha publicitária da agência Loduca -, a forma de acompanhar o esporte também já não é mais a mesma.

Autor de 'Futebol e poder: algumas reflexões sobre o jogo da política', artigo publicado em coletânea pela Editora Vozes, o jornalistas José Esmeraldo Gonçalves argumenta que os jogadores atuais são consumidos como estrelas.

“Essa identificação passou a ser sazonal. O leitor se identifica o Neymar como celebridade. O Neymar da Bruna Marquezine, Neymar que comprou uma mansão e um helicóptero. Você se aproxima do jogador na Copa, ao longo do ano a gente o vê na Liga dos Campeões na Europa. Como era com o clube, a base da seleção vinda do Vasco, Botafogo, Flamengo. Não é mais como era antes, uma proximidade quase íntima”.

Para Kfouri, o Brasil mais educado já não se deixa levar e os próprios jogadores já não arriscam suas imagens com o público - como atletas e como estrelas que são - ao conturbado cenário político nacional.

“O país amadureceu, o brasileiro não se submete mais a isso. A Seleção sequer foi ao Palácio do Planalto se despedir como era frequente e como se faz em boa parte do mundo até hoje. Acho bom separar essas coisas. Embora tenha toda a poesia que tem, a Copa do Mundo é um festival de futebol, e só me resta torcer para que seja de bom nível”, conclui Juca.

Médici ‘coração de dama’ e admiração ao ditador

A relação entre a Granja Comary e o Palácio do Planalto pode ter se estremecido, mas permanece viva na memória dos craques do século passado. Dadá, que mesmo na reserva foi campeão em 70, sofreu a mesma pecha que Juca atribui a Pelé: foi acusado pelos intelectuais da época de colaboracionista do regime.



Ele recusa o rótulo de “convocado pelo presidente”, mas não esconde a admiração pelo general autor do Ato Institucional nº 5 e até hoje considerado pela história o responsável moral pela maioria dos casos de torturas, assassinatos e sequestros do período militar. Também não gosta de pensar que teve a imagem usada pela ditadura. Prefere acreditar em uma relação de respeito mútuo.

“Nós jogadores nos dávamos muito bem com os militares”, conta. Sobre as inúmeras denúncias de crimes políticos, se esquiva dizendo que “na época não se falava sobre isso”. E vai além. “Muitas das denúncias [de violação de direitos humanos] são manipuladas porque ninguém tem coragem de falar as coisas quando a pessoa está viva, mas quando morre fala até o que não aconteceu, coisa que sonhou”.

Convocado pelo ditador, Dadá ainda hoje diz que não se envolve em política “porque não quer virar ladrão”. Ídolo de outrora, o ex-jogador lembra com saudade do período negro da história brasileira. Tem saudade da ditadura. “Minha visão sobre Médici não mudou, ele é meu ídolo, sou fã dele porque o que eu soube verdadeiramente é que ele tinha um coração de dama”.

Igor Patrick
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"Lei Chico Pinheiro" — O AI-5 dos Marinho


Os jornalistas do Grupo Globo que trabalham em funções de chefia ou de algum destaque têm uma remuneração que o mercado reconhece como elevada, em valores de dezenas e até centenas de milhares de reais. A família Marinho tornou a empresa uma "gaiola dourada" para aprisionar corações e mentes de seus trabalhadores e trabalhadoras da informação. Depois de rasgar a Constituição com o golpe de 2016, os Marinho agora fazem do texto constitucional letra morta em suas empresas. Qualquer opinião em redes sociais ou grupos de WhatsApp está proibida.

O AI-5 dos Marinho atende pelo nome de "Lei Chico Pinheiro" e foi motivado depois que vazaram áudios do jornalista e apresentador do Bom Dia Brasil, Chico Pinheiro, criticando a prisão do ex-presidente Lula em abril (leia aqui). Os jornalistas do Grupo Globo estão expressamente proibidos de manifestarem preferência por clubes de futebol, de curtir posts de candidatos no Facebook e até de expressarem suas opiniões sobre temas políticos em conversas privadas no WhatsApp.

Para o apresentador Leonardo Stoppa, do programa Léo ao Quadrado da TV 247, a "lei da mordaça" da Globo só funciona numa direção: "Na época do impeachment da presidente Dilma, todos os jornalistas tinham liberdade para se expressarem politicamente, afinal, a crítica era contra o PT".  Tudo mudou: "Agora que a critica abate o seu representante no governo, que é o PSDB, ninguém pode se manifestar mais. A rede Globo gerou o golpe, a crise, e seus funcionários percebem que foram marionetes do grupo Marinho. Ter um emprego na Globo é uma gaiola dourada", afirma Stoppa.

De acordo com o jornalista Daniel Castro, do site Notícias da TV, chefias da área de Jornalismo estão se reunindo com seus subordinados para informar as novidades. Para repórteres e editores, ficou claro que as restrições a partir de agora serão totais, que eles não poderão mais opinar nem para um amigo. "Mesmo quando você escreve reservadamente para alguém, não deve emitir opinião porque, se isso vazar, vai se encaixar nas normas de comportamento em redes sociais", disse um chefe de São Paulo.
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Premiê da Suécia nega crime de Lula e Dilma na compra dos caças Gripen

Stefan Löfven ao chegar à Corte em Estocolmo; premiê depôs a pedido da defesa de Lula, investigado no âmbito da Operação Zelotes pela compra dos caças suecos Gripen e negou saber de qualquer irregularidade na escolha dos caças
Cinco anos após o anúncio da compra dos caças suecos Gripen NG pelo Brasil, o primeiro-ministro da Suécia e os principais executivos da empresa sueca Saab, fabricante dos aviões, compareceram nesta sexta-feira ao Tribunal Distrital de Estocolmo para depor no âmbito da operação brasileira Zelotes - em processo que acusa o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de tráfico de influência nas negociações que levaram à aquisição de 36 aeronaves suecas por US$ 5,4 bilhões em 2014.

Não há acusações de irregularidades contra o governo sueco ou a Saab. O premiê Stefan Löfven e os executivos da empresa foram chamados a depor pelo Ministério da Justiça do Brasil a pedido da defesa de Lula, que nega as acusações e está preso em Curitiba desde 7 de abril em decorrência de outro processo, relacionado ao tríplex do Guarujá.

"Não tenho conhecimento sobre qualquer tipo de irregularidade que possa supostamente ter ocorrido no processo de venda dos caças Gripen", disse à BBC News Brasil o primeiro-ministro sueco nesta sexta-feira, antes de entrar na sala de audiências da corte.

A presença de Löfven no tribunal foi destaque na imprensa sueca: o premiê foi chamado a depor em plena campanha política para as eleições gerais de setembro no país.

"Em uma sociedade, todos devem cumprir o seu dever. Quando se é chamado a prestar depoimento em um tribunal, portanto, deve-se depor. Espero que meu testemunho possa ajudar a esclarecer os fatos da melhor maneira possível", disse o premiê à reportagem.

Na ação penal que tramita em Brasília a partir das investigações da Zelotes, Lula é acusado de ter praticado tráfico de influência, lavagem de dinheiro e organização criminosa nas negociações para a aquisição dos caças, e também para a prorrogação de incentivos fiscais destinados a montadoras de veículos por meio da Medida Provisória 627.

A defesa de Lula afirma que as acusações se baseiam em uma "mirabolante e inconsequente teoria sem provas", e que o ex-presidente está sendo alvo de perseguição política.

A denúncia do Ministério Público Federal (MPF) atinge Lula, seu filho Luís Cláudio e o escritório do casal de lobistas brasileiros Mauro Marcondes e Cristina Mautoni, o M&M (Marcondes e Mautoni Empreendimentos) - que foi contratado pela Saab para representá-la no Brasil.

O depoimento do primeiro-ministro sueco no tribunal durou 12 minutos. Sob juramento, Löfven respondeu de forma lacônica - apenas "sim" ou "não" - às oito perguntas encaminhadas à Corte sueca pela defesa de Lula.

Disse que não se encontrou com Lula ou Dilma para tratar da escolha do caça e que desconhecia qualquer "influência ilegal, imoral ou indevida" dos ex-presidentes brasileiros nas negociações, ainda que tenha confirmado ter "participado, de alguma forma, da campanha da Saab para que o Gripen fosse o escolhido pelo governo brasileiro".

A escolha dos caças

Caça Gripen

As negociações para a renovação da frota da Força Aérea Brasileira começaram no governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), quando Löfven ainda trabalhava na poderosa organização sindical sueca IF Metall - que ele viria a comandar a partir de 2006. Ali, o atual premiê participou dos esforços da campanha pela venda dos caças Gripen ao Brasil.

"Em seu papel de chefe de uma entidade sindical, era natural Stefan Löfven apoiar as exportações suecas", argumentou a porta-voz Ingela Nilsson, em declarações à agência Reuters. "Isso inclui o caso do Gripen."

Na presidência do Partido Social Democrata sueco, cargo que passou a ocupar em 2012, Löfven teria escrito uma carta a Lula, segundo o MPF, pedindo que ele intercedesse junto a Dilma em favor da escolha dos caças suecos.

"Como líder do Partido Social Democrata na época, é claro que meu dever era apoiar aquele que era um importante negócio de exportação para a Suécia", disse Löfven à BBC News Brasil no tribunal, sem mencionar a existência da carta. "Qualquer negociação que envolva exportações suecas deve ser conduzida de maneira correta, e naturalmente é minha função contribuir para fomentar a indústria sueca e a criação de empregos no país. Se esclarecimentos são necessários, é claro que devo contribuir como testemunha."

Ainda segundo os procuradores do MPF, o então líder partidário Löfven teria se reunido com Lula e Dilma para tratar do assunto durante o funeral do ex-líder sul-africano Nelson Mandela, na África do Sul, em 2013. A alegação, negada por Löfven durante seu depoimento na Corte sueca, também é rejeitada pelos ex-líderes brasileiros.

Em depoimento em setembro passado, o ex-presidente FHC afirmou não ter presenciado eventuais encontros entre Lula, Dilma e Löfven na ocasião do funeral de Mandela.

Decisão

O anúncio da escolha dos caças Gripen pelo Brasil ocorreu nove dias após o funeral de Mandela, em dezembro de 2013. Na concorrência para fornecer caças supersônicos ao governo brasileiro, os suecos venceram o caça F-18 Super Hornet, da norte-americana Boeing, e o Rafale, da francesa Dassault.

Um ano depois, em 2014, com a vitória da oposição social-democrata sobre a aliança governista de centro-direita, Löfven tornou-se primeiro-ministro da Suécia.

Sobre as acusações contra Lula, o primeiro-ministro sueco não quis se pronunciar.

"Essa é uma questão que diz respeito naturalmente ao Brasil, e não farei comentários", disse Löfven à BBC News Brasil diante da sala de audiências do tribunal da capital sueca.

A fim de reunir esclarecimentos sobre o longo processo de negociações internacionais para a renovação da frota de caças da Força Aérea Brasileira, os advogados de Lula também convocaram como testemunhas da defesa os ex-presidentes da França François Hollande e Nicolas Sarkozy, além de Fernando Henrique Cardoso e Dilma Rousseff.

Nova fábrica do Gripen no Brasil

Também compareceu ao tribunal o próprio presidente do conselho administrativo da Saab, Marcus Wallenberg - um dos líderes da poderosa família sueca que controla um império industrial bilionário no país.

A direção da Saab na Suécia não quis conceder entrevistas. Mas, em nota enviada à reportagem da BBC News Brasil, diz que "a posição da empresa é a de sempre cooperar com as autoridades. A Saab acolhe favoravelmente as investigações que vêm sendo conduzidas no Brasil pelas autoridades judiciais. O Brasil é um cliente altamente valorizado por nós e com o qual mantemos uma relação duradoura, especialmente no programa em curso do desenvolvimento do Gripen. (...) Nem a Saab e nem qualquer um de seus funcionários foi ou está sendo acusado de qualquer tipo de irregularidade neste caso".

A Saab destacou ainda a apresentação, no mês passado, das instalações da nova fábrica de aeroestruturas do caça Gripen no Brasil, como parte do projeto de desenvolvimento e construção do avião supersônico no Brasil.

Situada em uma área de aproximadamente 5 mil m² em São Bernardo do Campo, na grande São Paulo, a Saab Aeronáutica Montagens (SAM) vai produzir seis segmentos para os caças brasileiros Gripen adquiridos pela Força Aérea Brasileira - o cone de cauda, os freios aerodinâmicos, o caixão das asas, a fuselagem traseira e a fuselagem dianteira para a versão monoposto (um assento) e a versão biposto (dois assentos).

"Estamos transferindo conhecimento e capacidade de produção de aeroestruturas complexas para o Brasil, cumprindo nosso acordo", afirma Mikael Franzén, chefe da unidade de negócios Gripen Brasil.

A SAM vai começar as operações em 2020, com cerca de 200 funcionários, e fará parte da cadeia de fornecimento global da Saab.

O contrato da Saab com o governo brasileiro para o desenvolvimento e a produção de 36 caças Gripen entrou em vigor em setembro de 2015. Em 2016, a Saab inaugurou em Gavião Peixoto, no Estado de São Paulo, o Centro de Projetos e Desenvolvimento do Gripen (GDDN), que é o hub de desenvolvimento tecnológico do Gripen no Brasil.

Até 2024, mais de 350 profissionais brasileiros, entre engenheiros, operadores, técnicos e pilotos das empresas parceiras da Saab e da Força Aérea Brasileira, participarão de cursos e treinamento on-the-job na Suécia - 140 brasileiros já concluíram o treinamento na sede da Saab, na cidade de Linköping, e trabalham atualmente no GDDN. O programa de transferência de tecnologia é composto por mais de 50 projetos-chave, com duração de até 24 meses.

A previsão é de que a entrega dos caças Gripen para a Força Aérea Brasileira será realizada entre 2019 e 2024.

A denúncia

Lula, seu filho Luís Cláudio e o casal de lobistas Mauro Marcondes e Cristina Mautoni foram denunciados pelo MPF em dezembro do ano passado. Todos são acusados de supostas práticas irregulares que teriam influenciado o contrato de compra dos caças Gripen, e também a edição da medida provisória 627, que prorrogou incentivos fiscais a montadoras de veículos, supostamente em troca de repasses a Luis Cláudio.

Segundo o MPF, a empresa de Marcondes representava, no caso das isenções fiscais, duas grandes montadoras, e teria oferecido R$ 6 milhões a Lula, quantia que seria destinada ao financiamento de campanhas do PT. As duas medidas foram tomadas em 2013, quando Lula já era ex-presidente.

Os procuradores afirmam que a denúncia está baseada em uma série de mensagens e documentos que apontam que teria havido encontros entre os acusados para tratar dos dois assuntos, e que uma empresa de Luís Cláudio recebeu R$ 2,5 milhões do lobista Mauro Marcondes, representante das empresas interessadas nas decisões, como remuneração pelo apoio de Lula. A defesa do ex-presidente nega.

Claudia Wallin, De Estocolmo
No BBC News Brasil
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Grabois sabe mais do que o Papa pensa de Lula do que qualquer cardeal brasileiro


Na tarde de ontem, Juan Gabrois, um jovem advogado argentino de 35 anos que coordena o Movimento dos Trabalhadores Excluídos e da Confederação da Economia Popular, esteve em Curitiba tentando visitar Lula para entregar um rosário que teria sido abençoado pelo Papa.

Ele foi impedido porque a juíza do caso Lula não o reconheceu como líder religioso, a quem são permitidas visitas às segundas-feiras.

Ao ser barrado, Grabois deu fortes declarações em relação à situação da democracia no Brasil e chegou a falar em uma nova Operação Condor.

Dali em diante instalou-se uma verdadeira guerra de informações. De um lado, os que diziam que ele estava em missão oficial do Vaticano e que aquilo teria sido uma agressão à Santa Sé. De outro, os que o acusavam de ser um impostor.

Nem uma coisa nem outra.

Fórum conversou com Pablo Gentili, secretário geral do Conselho Latino Americano de Ciências Sociais (Clacso). Ele explica como se dá a relação do Papa Francisco com algumas pessoas e com setores do movimento social.

“Que eu saiba o Juan Grabois não tem cargo no vaticano, mas ele é uma pessoa da estreita confiança do Papa Francisco”, afirma. Pelo que Fórum apurou, Francisco havia convidado Grabois para ser um dos 15 consultores do Pontifício Conselho para a Justiça e a Paz logo que assumiu, em 11 de junho de 2016. Mas o próprio Papa teria desativado o órgão em de 1º de janeiro de 2017 e incorporado-o ao Serviço do Desenvolvimento Humano Integral.

“Mas sendo ou não representante oficial do Vaticano, se ele disse que o Papa falou, a mensagem é do Papa mesmo. Grabois tem mais proximidade e informação do que o Papa pensa do Lula do que qualquer cardeal brasileiro”, sustenta Gentili.

Na Argentina, Francisco é conhecido por ter alguns porta-vozes informais. Aquilo que ele não pode dizer de forma direta, essas pessoas acabam falando por ele.

Além de Grabois, que tem relação com os movimentos sociais, Francisco tem muita proximidade com Eduardo Valdés, a quem o blogueiro conheceu na recente visita que fez a Buenos Aires acompanhando a comitiva da ex-presidenta Dilma.

“Valdés faz mais a ponte com os setores políticos e por isso foi o embaixador da Argentina no Vaticano durante o governo de Cristina Kirchner”, explica Gentili.

Mas o Papa poderia ter mandado um rosário para o Lula tendo como porta voz o jovem Juan Grabois, pergunta o blogueiro. Gentili garante que sim. “Se o Grabois veio visitar o Lula, certamente ele tinha alguma mensagem ou algum recado do Papa. Ele não se movimentaria por iniciativa própria”.

O Papa teria por hábito fazer essas conversas informais a partir de porta-vozes não oficiais. Em relação a Dilma, por exemplo, o blogue apurou que ele lhe enviou uma carta escrita de próprio punho após ter sofrido o impeachment. E que ainda mantém uma relação muito amistosa com ela. Com Lula não é diferente.

Renato Rovai
No Fórum
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Se Moro quer investigar reforma de imóvel ligado a FHC, ele poderia começar pelo de Mirian Dutra

Moro, o apartamento reformado com dinheiro de origem obscura e Mirian Dutra
As manifestações de Sergio Moro no depoimento de Fernando Morais deram a medida da regressão cultural do Brasil depois que o juiz de primeira instância foi alçado à condição de estrela do noticiário brasileiro.

“O processo não deve ser utilizado para esse tipo de propaganda”, disse Moro, depois que Fernando Morais, relatando sua experiência de biógrafo de Lula, disse o que ouviu do roqueiro Bono Vox, que comparou o ex-presidente a Nelson Mandela.

Morais arregalou o olho, afastou o dedo indicador que apoiava a face e exclamou: “Propaganda!?!” Num momento posterior da audiência, o escritor explicou como trabalha e tem suas despesas pagas pela Companhia das Letras, uma das maiores editoras brasileiras.

Moro confunde propaganda com jornalismo e sinaliza que se incomoda com referências positivas ao ex-presidente Lula. À primeira vista, pode parecer que rivaliza com Lula. Mas talvez não.

O comportamento dele não é muito diferente da reação das amigas da mãe de Carlos Zucolotto Júnior, padrinho de Moro, diante de uma foto que a mostrava abraçada ao juiz, ainda em 2015:

— Conta aí dona Olga. Quando vai ser o dia dos rojões?

— Fala pra ele prender logo o Lula e a Dilma kkkkk. 

Olga diz que perguntou:

— Já falei. Ele só deu risada, disse que seria o maior foguetório do Brasil, adoro.

E reforça:

— O maior foguetório no Brasil. Ele só sorri.

Como essas senhoras, o que Moro demonstra é preconceito. Preconceito de classe.

Lula ascendeu socialmente, mas, para setores expressivos da classe média, ainda é visto como o brasileiro que deveria se manter em posições subalternas.

O que gente como Moro e seu círculo mais próximo não perdoa é o sucesso de pessoas como Lula.

Há casos de pobres que ascendem, mas, depois que mudam sua condição social, se comportam como ricos.

São assim também os negros que, aceitos pelos brancos, se comportam como brancos.

Dizem que não sofrem preconceito, e talvez não sofram mesmo, já que não vivem como negros.

Lula subiu, mas se manteve conectado às suas raízes.

Como presidente, incluiu os pobres no orçamento e o vi uma vez, como repórter de TV, ele já presidente, passar uma tarde de Natal em reunião com catadores de latinha debaixo de um viaduto no bairro do Sumaré, em São Paulo.

Como esquecer a foto dele, presidente, caminhando pela praia com uma caixa de isopor na cabeça?

Com a mesma cabeça erguida, se viu Lula polarizando com George Bush em evento internacional.

Ou sendo elogiado por Barack Obama em reunião de líderes mundiais. Ele era o cara nesses encontros.

Moro é a expressão do brasileiro que não aceita que Lula tenha dado certo. É o caso de patologia social, a patologia de quem não tolera a pobreza.

Ontem mesmo, deu outro exemplo que confirma a tese.

Ao interrogar Fernando Henrique Cardoso, pediu desculpas para fazer uma pergunta que não tinha nada a ver com o processo.

Queria saber se alguma empresa que o contratou para palestra fez reforma em imóvel de propriedade dele.

Disse que a pergunta era necessária em razão de uma questão colocada pela defesa de Lula.

O advogado de Lula, Cristiano Zanin Martins, lembrou que não havia colocado nenhuma questão nesse sentido.

Era, naturalmente, uma provocação do juiz a Lula, sem relação com o processo, e Moro, ao se explicar, mostrou a pobreza de seu vocabulário, ao repetir duas vezes uma palavra que usa sempre para justificar perguntas sem propósito: “contexto”.

Fernando Henrique disse que não. Mas não é FHC quem está sendo julgado. E, se estivesse, o que não faltaria é motivo para perguntas pertinentes na esfera que mistura o público e o privado.

O Instituto Fernando Henrique Cardoso foi criado e é mantido por empresas que participaram do processo de privatização realizado em seu governo.

A empreiteira Camargo Correia, no primeiro ano do primeiro mandato de Fernando Henrique, construiu uma pista de pouso em propriedade vizinha à fazenda do então presidente.

Os demais vizinhos nunca viram nenhum avião da empresa descer ali, mas, em compensação, o movimento de aeronaves com o então presidente e com seus parentes e amigos era intenso.

Fernando Henrique foi pressionado pela namorada Mirian Dutra para a reforma do apartamento dela em Barcelona, na Espanha, e um dinheiro de origem obscura, administrada por José Serra, custeou a obra.

Mirian Dutra, mãe de um jovem cuja paternidade foi atribuída a Fernando Henrique, teve redução de salário pago pela TV Globo — que ela recebia sem que precisasse trabalhar — e foi um concessionário do governo federal, dono da empresa Brasif, quem arrumou um contrato de fachada para lhe garantir 3 mil dólares mensais.

O filho de Fernando Henrique Cardoso, Paulo Henrique, recebia 10 mil dólares por mês da Light depois que a empresa foi privatizada. Mas nada disso, para Moro e pessoas como ele, como as amigas de Zucolotto, tem importância.

Ao questionar Fernando Henrique Cardoso sobre reforma em propriedades, Moro tentou humilhar e debochar de Lula.

Mas, para o brasileiro que ainda mantém capacidade de discernimento, o que conseguiu foi confirmar que ele usa a autoridade conferida pelo estado para extravasar ódio e preconceito. Preconceito de classe.

PS: Se Moro está preocupado com o contexto em que FHC usufrui de imóveis, há mais quatro pistas: o Trump Tower, onde o filho de Mirian Dutra ficou hospedado quando passou uma temporada em Nova York; o apartamento que ele comprou para o jovem, em Barcelona, por 60 mil euros (pago em dinheiro); o apartamento que a companheira dele adquiriu na avenida Angélica, em São Paulo, que custou 950 mil reais, e o apartamento na Avenue Foch, em Paris, que o ex-presidente usa — este estaria em nome de Jovelino Mineiro, seu ex-aluno, genro de Abreu Sodré — curioso é que Jovelino tem um apartamento em nome dele e, no mesmo prédio, a mulher, Maria do Carmo, tem um em nome dela. Para que dois? Coisa de milionário excêntrico ou laranja.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Carone: uma pedra no sapato do tucanato mineiro


Há 14 anos o jornalista Marco Aurélio Flores Carone, 65 , é uma pedra no sapato do tucanato mineiro, em geral, e do senador Aécio Neves, em particular.

Nascido em Visconde do Rio Branco, Zona da Mata de Minas, Carone é filho de políticos cassados pela ditadura militar: Jorge Carone Filho e  Nysia Coimbra Flores Carone.

Em 2005, ele criou o NovoJornal, um site jornalístico que tratava de política, economia e cultura.

Carone tinha o hábito de madrugar na redação, no Bairro Cruzeiro, centro de Belo Horizonte.

Em 20 de janeiro de 2014, como sempre, chegou por volta das 6.

Mas, diferentemente de outras manhãs, três viaturas da Policia Civil de Minas Gerais estavam na porta.

Ele mal começou a descer do carro, seis policiais lhe apontaram metralhadoras e um disse: “Você está preso!”.

Três dias antes, a juíza Maria Isabel Fleck, da 2ª vara criminal de Belo Horizonte, decretara a prisão preventiva do jornalista, a pedido do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG).

Entre outras alegações, dizia que o NovoJornal  era “utilizado para lançar ofensas à honra de autoridades públicas” (…), imputando inverdades àqueles que cumprem seus deveres funcionais” .

E como “exemplo” de sua justificativa citava reportagem denunciando o mensalão tucano.


Na decisão, a juíza reproduziu trecho da denúncia do promotor André Luiz Garcia de Pinho, da Promotoria de Combate ao Crime Organizado do MPMG.

Nele, o promotor tacha Carone de ser “membro de quadrilha”, e o NovoJornal de atuar “como verdadeiro balcão para intimidação e desmoralização das vítimas da quadrilha”.


Em coletiva de imprensa, o promotor André Pinho e o delegado César Matoso, da 2ª Delegacia de combate a crimes cibernéticos, acusaram o jornalista de falsificação de documentos, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro.

CARONE FOI PRESO POR AÇÃO DIRETA DO GRUPO DE AÉCIO NO JUDICIÁRIO E NA POLÍCIA

No mesmo dia, o nome de Carone estava estampado em toda a mídia, como “achacador”, “falsário”, “integrante de quadrilha”.

Na verdade, o NovoJornal foi o único veículo em Minas que não se curvou à censura comandada com mãos de ferro por Andrea Neves durante os governos dos tucanos Aécio Neves (2003-2010) e Antônio Anastasia (2011-2014).

Carone foi preso por ação direta do grupo de Aécio no judiciário e na polícia.

Leia-se: o próprio Aécio, a então toda poderosa irmã, Andrea, e Danilo de Castro, secretário do governo de Minas de 2003 a 2014.

O encarceramento teve a ver com reportagens já publicadas, como as sobre as listas de Furnas e do mensalão tucano, reveladas pelo lobista Nilton Monteiro e comprovadamente verdadeiras.

Mas foi devido principalmente a denúncias que o NovoJornal iria publicar contra Aécio, então candidato à presidência da República.

Tanto que Carone só foi solto após o 2º turno da eleição de 2014.

Dos 9 meses e 15 dias de encarceramento, três meses foram na solitária, incomunicável.

O promotor André Pinho e o delegado César Matoso abriram dois inquéritos contra o jornalista.


Mas, como a função da verdade é aparecer, em 2 de maio de 2016 Carone obteve a primeira vitória.

A juíza Kenea Márcia Damato de Moura Gomes, da 12ª Vara Criminal de Belo Horizonte, mandou arquivar um dos inquéritos, pois nada se provou das denúncias do MPMG.

Abaixo, a última página da decisão da magistrada:


Agora, o segundo inquérito deve tomar um novo rumo.

O delegado Rodrigo Bossi de Pinho, que assumiu a investigação após o afastamento de Matoso, concluiu-o e relatou-o, sem indiciar Carone.

Rodrigo Bossi é o chefe do Departamento Estadual de Fraudes da Polícia Civil de Minas Gerais.

Em 11 de maio de 2018, ele enviou o relatório sobre o caso à 2ª Vara Criminal de Belo Horizonte, que o remeteu ao juiz Haroldo André Toscano.

Doutor Haroldo ainda não decidiu, mas, em tese, se ele seguir o relatório, remeterá o inquérito à Procuradoria Geral de Justiça, para investigar as irregularidades da atuação do promotor.

O delegado Rodrigo Bossi desvendou uma farsa:

* Após a prisão de Carone, seu ex-genro procurou o promotor André Pinho e ofereceu-lhe a notícia crime de que a conta bancária de seu filho, neto de Carone, estava sendo utilizada para lavagem de dinheiro.

* Como contrapartida, o promotor forneceu uma certidão para ser utilizada no Juízo de Família na ação de divórcio contra a filha de Carone.

* Na certidão, André de Pinho adianta-lhe que iria representar por providência cautelar sigilosa de quebra de sigilo bancário do neto de Carone.

“Nada mais conveniente”, observa Bossi em sua conclusão (veja trechos abaixo).

Carone, prossegue o delegado, sofreu todo tipo de perseguição por denunciar os esquemas de corrupção nos governos de Minas.


Com base nas investigações, doutor Rodrigo Bossi tem plena convicção de que Carone foi uma das vítimas de uma organização criminosa que operou em Minas Gerais para perseguição política.


O chefe do Departamento de Fraudes da Polícia Civil de Minas ainda salienta: Carone é “único, autêntico, preso político pós-redemocratização” e que seu caso deveria ser apreciado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA).


CARONE: “ALERTEI ANDREA DE QUE O QUE FAZIAM NO GOVERNO NÃO IA ACABAR BEM” 

Em entrevista exclusiva ao Viomundo após saber da sua absolvição no segundo inquérito, Carone fala sobre o comportamento da mídia, o alerta que fez a Andrea Neves anos atrás, os inquéritos, medidas que tomará contra os caluniadores e o neto . Veja a íntegra.

Viomundo – Como foi receber essas duas decisões? O que sentiu na hora em que as leu?

Marco Aurélio Carone — Na primeira, eu fiquei alegre, pois foi feita perícia que comprovou a inexistência de qualquer prática irregular. Na segunda, triste com o que ficou provado.

– Você foi massacrado, ficou incomunicável três meses, quase morreu na prisão.  Essas decisões reparam toda a injustiça que sofreu?

—  Pergunta difícil.

– Como a mídia o tratou na ocasião?

—  Como criminoso, principalmente porque a Andrea Neves colocou toda estrutura de imprensa do governo de Minas para distribuir notícias contra mim, informando que um falsário e chantagista tinha sido preso.  Até coletiva para rádio e televisão foi convocada.

— Esse comportamento foi só da grande mídia?

— Não. Com exceção do Viomundo e de alguns pequenos blogs, a mídia alternativa também me tratou como bandido, criminoso. A Andrea tinha controle de quase tudo.

— Andrea Neves teve participação direta na tua prisão. O que passou pela tua cabeça no dia em que a viu sendo presa?

— Lembrei do que tinha lhe dito lá atrás. Durante anos, diante das reclamações dela sobre as matérias do  Novojornal, alertei-a de que o que estavam fazendo no governo não ia acabar bem.

— No livro Diálogo com ratos, o jornalista e escritor Geraldo Elísio conta que no dia 17 de janeiro 2014 Andrea foi ao NovoJornal e disse que se não parasse com as matérias contra o Aécio, você ia ser preso e o NovoJornal fechado. Ela chegou a ir à redação propriamente dita?

Não. O motorista dela me chamou e eu fui até a porta. Andrea estava dentro do carro.

— Lendo agora os documentos sobre a sua prisão, me chamou a atenção o fato de a juíza Maria Isabel Fleck ter pedido a tua prisão preventiva no dia 17 de janeiro, justamente o dia em que a Andrea foi ao NovoJornal. Ou seja, a decisão já estava tomada. Ela tentou dissuadi-lo?

Tentou, claro. Falei que não tinha acerto, eu iria continuar denunciando o que tinha de ser denunciado. Eu não iria recuar um milímetro. Era minha obrigação como jornalista.

— No dia da prisão, os policiais te levaram à redação para a busca e apreensão?

Não, eu fui preso descendo do carro, já me colocaram no camburão. Dali, fui para o Ceresp Gameleira. Depois, para a Nelson Hungria, penitenciária de segurança máxima em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, de onde só saí, em 4 de novembro de2014.

— Ou seja, a busca e a apreensão de computadores e documentos não foram na tua frente, mas com você já preso.

Isso mesmo. Fui preso no início da manhã e, segundo me informaram, a busca e apreensão aconteceram na parte da tarde.

— Foram também à tua casa?

Sim. Segundo a minha filha entraram com metralhadora, levaram notebooks, computador e até um tablet do meu neto. Jogaram as roupas no chão, levaram todos os documentos que acharam.

— Com base em que pediram a tua prisão preventiva?

Minha prisão preventiva foi feita para manutenção da ordem pública e para não atrapalhar a instrução criminal. Essa foi a justificativa da juíza.

— E por que dois inquéritos, já que aparentemente tratam de coisas semelhantes?

Na verdade, os dois têm o mesmo objeto, mas foram divididos para na condenação aumentar a minha pena. Eles foram abertos na porta do NovoJornal, às 6h da manhã, quando me prenderam.

— Do que tratavam?

— O primeiro foi aberto para apurar a origem dos recursos que mantinham o Novojornal.  Houve perícia na nossa contabilidade e quebra dos sigilos fiscal e bancário – meu e do NovoJornal.  Não havia nada irregular.

O segundo inquérito foi para apurar se ocorreu lavagem de dinheiro.

— O promotor André Pinho e o delegado César Matoso estão nos dois inquéritos?

Sim, nos dois. O primeiro foi relatado pelo delegado Matoso e denúncia apresentada pelo promotor André Luiz.  O segundo, devido ao afastamento do delegado Matoso, foi concluído e relatado pelo delegado Rodrigo Bossi, sem oferecimento de denúncia.

O promotor e o delegado Matoso teriam que apresentar a denúncia em, no máximo, 20 dias após minha prisão. Eles só foram apresentar o primeiro inquérito no final de 2015 e a juíza rejeitou a denúncia.

O segundo inquérito foi concluído na metade de maio de 2018, com um relatório informando e denunciando que tinha sido uma farsa.

— Você ficou preso durante 9 meses e 15 dias. Mas a prisão preventiva tem um prazo, não é?

— A prisão preventiva, de acordo com a lei, não pode ultrapassar três meses.  Eu fiquei preso por 9 meses e 15 dias, como bem observou você. E como não tinha nada contra mim, o juiz Haroldo Toscano, da 2ª Vara Criminal, acabou me libertando por excesso de prazo.

— Ou seja, tudo forjado para parecer crime comum, para esconder os motivos reais e não passar atestado de censura. Assim,  impedir que você fizesse outras matérias e, ao mesmo tempo, desqualificar tudo o que já tinha feito.

Sim, com certeza.

— Eu sei que você é apaixonado pelo seu neto e ele por você. Ele já sabe  dessas decisões judiciais?

— Ainda não sabe. Na verdade, ainda não sei como tratar deste assunto com ele.

— Ele é pequenininho…mas, se tivesse 8 anos naquela época teria percebido.

— Sim, com certeza. Minha filha disse a ele que eu estava viajando.

— O que você pretende fazer agora com os responsáveis por tudo isso?

(silêncio)

— Ou prefere surpreender?

Acho melhor…

— Logo no início você disse que ficou triste com o que foi provado no segundo inquérito. Ficou triste por causa do envolvimento do teu ex-genro?

Sim, ele é pai do meu neto. É complicado.

— O que pode dizer a respeito?

— A vida traz muita surpresa.

Conceição Lemes
No Viomundo
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