2 de jun de 2018

GloboNews “desaparece” com vídeo e professor da UFRJ que criticou a política de preços da Petrobras sob Parent


O professor de Finanças Carlos Heitor Campani, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, estava sendo entrevistado ao vivo na GloboNews a respeito da Petrobras.

Falou o que a emissora não queria.

“A quem interessa a flutuação da política de preços? À sociedade brasileira?”, questiona ele.

Em meio à sua explanação, a apresentadora Raquel Novaes, desconcertada, chamou um “breve intervalo”, avisando que “a gente já segue conversando sobre isso com o professor”.

No retorno do intervalo de 2 minutos, ele já não estava no estúdio.

Mister M?



No DCM
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Sem Parente, Petrobras continua uma empresa rica e forte

Jean-Paulo, na entrevista que deu à Globonews, quando sua fala ia ao ar
Como antecipei há alguns dias, inclusive em depoimento ao Jornal Nacional (que evidentemente não foi ao ar) e em diversas entrevistas a órgãos de imprensa nacionais e internacionais (que foram publicadas), o presidente da Petrobras, Pedro Parente, caiu.

Ao contrário do escarcéu que farão nas primeiras horas (para especular com isso, inclusive), não há NADA demais nisso. A Petrobras continua uma empresa de economia mista, rica e forte.

Pedro Parente pede demissão, mas ao Congresso caberá ainda investigar o processo insistente de importar diesel enquanto as refinarias ficavam ociosas, e as operações de compra. A CPI já contava com assinaturas suficientes ontem.

Ao mercado deve ser explicado que ações da Petrobras são de empresa com participação majoritária do Governo Brasileiro – se por um lado pode parecer uma limitação, por outro é uma vantagem. É uma empresa com vantagens que as demais, no mesmo mercado, não possuem – a saber: ser sócio da Petrobras significa ter, no Brasil, hegemonia na logística, maior market share, produção de cru próxima às suas próprias refinarias, dutos e terminais próprios, conhecimento e dados, reservas asseguradas no PreSal, preferência na escolha de áreas, mercado igualmente próximo e o fato de não falir!

Portanto, investidores que querem bombar em uma semana, invistem em startups, rising stars, empresas de gestão e mercados múltiplos ou em petroleiras globais. A ação da Petrobras é para investidores conservadores que procuram segurança e retorno regular bem definidas.

Alguém tem que voltar a colocar as coisas no seu devido lugar: o delírio de que a ação da Petrobras é como a da Shell ou da OGX tem que ser esclarecido! É uma empresa de economia MISTA, que o governo irá, sim, utilizar como instrumento de política setorial sempre que necessário. Do contrário, que se passe a preconizar diretamente a sua privatização – e que se arque com as consequências disso.

As vantagens de ser acionista da Petrobras estão vinculadas à performance do PIB e do Governo brasileiro. Esta ação sempre foi (e continuará sendo) “blue chip” mesmo sem preços oscilando na bomba em tempo real. O governo brasileiro é sócio majoritário e quem quiser ser sócio dele, seja. Quem não quiser, venda pois que sempre haverá quem queira, senão hoje, amanhã.

Jean-Paul Prates é consultor na área de energia.
No DCM



Nota sobre demissão e carta de despedida do Sr. Pedro Parente

PEDRO PARENTE saiu sem explicar porque a PETROBRÁS, sob seu comando, vinha praticando preços internacionais para os combustíveis, não obstante produzir e refinar petróleo no Brasil.

PEDRO PARENTE não explica porque tentou privatizar a PETROBRÁS DISTRIBUIDORA segunda maior empresa do BRASIL. Também não esclareceu a operação de venda da LIQUIGÁS, do setor GLP, vetada pelo CADE e a venda de mais de 2.000 km de gasodutos, com comprovados prejuízos para a companhia.

Construiu a ignorância sobre a PETROBRÁS e a deixa sem responder:

Por que manter preços no mercado interno acima dos internacionais, viabilizando a importação por concorrentes, enquanto a estatal perde participação no mercado e suas refinarias ficam ociosas?

Por que vender ativos valiosos, sem concorrência, em negociatas diretas, ao arrepio da lei, ao mesmo tempo em que a empresa mantém em caixa somas astronômicas, sempre superiores a US$ 20 bilhões?

Por que atender pleitos de fundos abutres americanos adiantando R$ 10 bilhões antes da conclusão do processo, ao mesmo tempo em que nega responsabilidade no déficit da Petros?

Por que atuou sempre no sentido de dar apoio aos que denegriam o nome da companhia divulgando falácias de que ela teria passado por problemas financeiros e nunca realçando a importância do pré-sal para a PETROBRÁS e o Brasil?

O demissionário mostra desprezo pela verdade ao afirmar na carta ao PRESIDENTE TEMER que “A empresa passava por graves dificuldades sem aporte de capital do tesouro, que na ocasião se mencionava ser indispensável e da ordem de dezenas de bilhões de reais”. Ao receber o comando como presidente encontrou caixa de R$ 100 bilhões, cerca de US$ 28 bilhões na época. O índice de liquidez corrente - acima de 1,50 - e a geração operacional de caixa superior aos US$ 25 bilhões por ano demonstram que a companhia tinha plenas condições de cumprir com seus compromissos.

O Sr. PARENTE derrete-se em elogios ao Conselho de Administração esquecendo-se que a contribuição mais expressiva e definitiva é a dos milhares de empregados.

“A PETROBRÁS é hoje uma empresa com reputação recuperada”, afirmação carregada de vaidade, jactância. A reputação da PETROBRÁS jamais foi abalada por práticas. CONDENAVEIS, REPULSIVAS DE POLÍTICOS CORRUPTOS, EMPRESÁRIOS DESONESTOS E BANDIDOS QUE NÃO SOUBERAM HONRAR A CAMISA DA PETROBRÁS.

PEDRO PARENTE finge desconhecer os graves equívocos no plano de negócios e gestão/planejamento estratégico, elaborado por sua orientação, vendendo gasodutos e termelétricas, ativos que monetizam e agregam valor ao gás natural, sabidamente combustível de transição para uma economia mais limpa. Retirando a companhia da Petroquímica, renunciando à produção de Biocombustíveis, etanol e biodiesel, abandonando empreendimentos do Refino e da produção de Fertilizantes. Decisões que já resultam em prejuízo na geração operacional de caixa e comprometem a segurança energética e alimentar do País.

Quanto à afirmação de que “me parece assim, que as bases de uma trajetória virtuosa para a PETROBRÁS estão lançadas”, nada mais falso. Em apenas dois anos PEDRO PARENTE vendeu, em processo tortuoso, marcado por muitos questionamentos na justiça, dezenas de bilhões, em ativos rentáveis, estratégicos, desintegrando a companhia.

Ao afirmar que “a política de preços da PETROBRÁS, sob intenso questionamento”, mais uma vez sofisma, tergiversa. A PETROBRÁS jamais praticou esta política. PARENTE deveria classificá-la como política da gestão PARENTE. Perversa, desastrada, entreguista. Ela só beneficia aos refinadores estrangeiros, “traders” multinacionais e importadores concorrentes da PETROBRÁS. Acarreta gastos desnecessários, de bilhões de dólares, impactando o balanço de pagamentos. Mantém ociosas nossas refinarias. Traz de volta o carvão e a lenha, formas rudimentares de energia, devido aos escorchantes preços do GLP. Arranha a imagem da PETROBRÁS. Política de PARENTE e não da PETROBRÁS.

O missivista é um arrivista na indústria do petróleo. Parte. Não deixa saudades para os PETROLEIROS. Talvez para os grupos estrangeiros, especuladores e oportunistas, ávidos pelo controle dos ativos da PETROBRÁS, vendidos a preços de fim de feira.

A mensagem de PARENTE, alinhada com a histeria de certos segmentos do “MERCADO” é uma condenação absurda e maliciosa da política. A PETROBRÁS é uma ESTATAL, sociedade de economia mista, pertence ao povo brasileiro. Tem uma missão que não se esgota no pagamento de dividendos. O MERCADO DE AÇÕES pode ser importante para os especuladores. Muito mais importante para a nossa PETROBRÁS é a SOBERANIA NACIONAL. São as contribuições da PETROBRÁS para o desenvolvimento econômico, social e tecnológico do BRASIL. Sua segurança energética. É preciso adotar a boa Política. Ela ainda é praticada por alguns. Estes podem ajudar a PETROBRÁS a cumprir sua nobre missão. Dos politiqueiros, dos que alugam os mandatos, dos que conquistam o poder por usurpação, e ou fraudes, os PETROLEIROS com os BRASILEIROS querem distância.

Queremos livrar a PETROBRÁS da herança deixada por PEDRO PARENTE, sua POLÍTICA DE PREÇOS antinacional e seu PLANO DE NEGÓCIOSentreguista e privatista.

Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET), 01/06/2018
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Pibinho e desemprego desmentem propaganda do governo Temer

Os índices econômicos não permitem a conclusão de que o país retomou seu desenvolvimento nos últimos dois anos


“Dois anos: no fundo, você sabe que melhorou”. Este é o mote da última campanha publicitária do Palácio do Planalto, fazendo referência ao período de tempo em que Michel Temer (MDB) está na Presidência da República. Nas peças de propaganda, o governo se ampara em dados que demonstrariam a retomada do crescimento.

Para Paulo Kliass, doutor em Economia e especialista em políticas públicas e gestão governamental, os índices econômicos não permitem a conclusão de que o país retomou seu desenvolvimento.

“O país está completamente à deriva. É um desgoverno. Existe um desespero dos grandes meios de comunicação em tentar dourar a pílula de um fracasso que se anunciava a cada semana. 'O Brasil deixou de piorar'. A gente passou em 2016 e 2017 pela pior recessão já registrada. Obviamente, nenhum país fica indefinidamente em recessão. Cresceu um pouco, mas continua se tendo um modelo basicamente pautado no agronegócio. A indústria ainda não retomou sua capacidade de investimento. Basta ver a questão do emprego. É um cifra alarmante: 14 milhões”, diz o economista.

Segundo os mais recentes dados divulgados pelo IBGE, no primeiro trimestre de 2018, o país atingiu o menor número de trabalhadores registrados desde 2012, ano em que a série foi iniciada: 32,913 milhões. O auge do número de pessoas com carteira assinada foi 2014, com 36,88 milhões de vagas. Até setembro de 2017, a cada 10 empregos gerados, 7 eram informais. Naquele mesmo ano, viu-se uma inversão histórica e os sem carteira superaram os formais. 2017 se encerrou com 34,31 milhões de pessoas trabalhando sem carteira, contra 33,321 empregados em vagas formais. Além disso, somando os trabalhadores subutilizados e desempregados, chega-se a 28 milhões de pessoas.

"O povo não cabe no orçamento"

De outro lado, o crescimento do PIB em 2017 (0,98%) só foi maior do que nos dois anos anteriores, durante a recessão, e do resultado de 2009, no qual houve uma leve queda de 0,13%. De qualquer forma, um número abaixo da média dos anos com o PT no governo (2,9% ao ano) e ainda mais distante da variação máxima, ocorrida em 2010, quando houve crescimento de 7,53% do PIB. No primeiro trimestre de 2018, segundo a consultoria Austing Ratings, o Brasil ficou na 40ª colocação de crescimento do PIB em uma lista de 43 países. 


Kliass ressalta que os caminhos traçados pela gestão Temer, ao diminuir a capacidade de investimento do Estado, comprometem o desenvolvimento econômico do país nos próximos anos e talvez até na próxima década. Neste aspecto, foi fundamental a aprovação da Emenda Constitucional 95, que congela gastos primários em áreas como saúde e educação.

Nesta última área, por exemplo, os efeitos da política ultra-liberal de Temer já são sentidos. Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, lembra que o discurso governamental criou a ideia de que a “Constituição não cabe no orçamento público. Ou seja, de que o povo não cabe”.

“Na área de educação, é possível afirmar que o governo Temer retrocedeu 30 anos em dois. O Brasil vinha cumprindo, desde a Constituição de 88, com a tarefa de expansão de matrículas, que foi praticamente paralisada no governo dele”, afirma. 

Cara faz referência a outro mote do governo, abandonado por sua ambiguidade: “O Brasil voltou, 20 anos em 2”. Na educação, o orçamento brasileiro não é aumentado desde 2014 o que significa, devido à inflação, que vem diminuindo anualmente, o que explica a não expansão de vagas em nível federal mencionada.

Rafael Tatemoto
No Brasil de Fato
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Escárnio! Gilmar solta patrocinador do IDP!

Ufa! "Ataulpho Merval" está mais aliviado...


Do G1:

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a soltura de Orlando Diniz, ex-presidente da Fecomércio do Rio de Janeiro, preso em 23 de fevereiro último por ordem do juiz federal Marcelo Bretas na Operação Jabuti, um desdobramento da Operação Lava Jato.

Desde 15 de maio, Diniz é o 15º preso por Marcelo Bretas, responsável pela Lava Jato no Rio, a ser beneficiado por Gilmar Mendes com decisão de soltura.

Ele é suspeito de desviar recursos públicos em esquema criminoso envolvendo o ex-governador Sérgio Cabral.

O ministro considerou que não há razões para a prisão preventiva.

(...)

Em tempo: a Fecomércio-RJ, como o Conversa Afiada mostrou em reportagem reproduzida da Revista Crusoé, é uma das patrocinadoras do IDP do empresário-ministro Gilmar. A Federação deu R$ 50 mil reais ao Instituto.

Em tempo²: sobre as milionárias palestras do Ataulpho Merval na Fecomércio, contratadas por R$ 375 mil e sem licitação (segundo o Intercept), não deixe de ler o post "Maracutaia! Flagraram a verdadeira profissão dos globais!".

No CAf
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O fascismo não necessita de muito mais além de ignroância política e força bruta


Tenho para mim que muito da dramática realidade social que estamos vivenciando decorre de um sórdido “trabalho”, sistemático e permanente, da grande imprensa no sentido de despolitizar o cidadão brasileiro. A mídia empresarial criou, na opinião pública, a falsa crença de que a política é “coisa” perversa e que todos os políticos são corruptos ou incompetentes.

Parte do Poder Judiciário e parte do Ministério Público parece que também restaram “seduzidos” por esta falácia ...

A má-fé é patente, pois estas empresas de comunicação sabem muito bem que não há país no mundo sem governo e não há governo sem política. Não há como liderar sequer um grupo social sem negociar com apoiadores e adversários. Tudo em sociedade é regido pela política !!!

O resultado desta desinformação é gritante. As pessoas se mostram contraditórias, pois não têm condições de compreender corretamente os acontecimentos econômicos, políticos, jurídicos e sociais.

Por isso, assistimos a alguns líderes da paralisação dos caminhoneiros criticando a intervenção do Estado na economia e postulando que o governo federal interfira nos preços dos combustíveis praticados pela Petrobrás !!! Querem a redução dos impostos, mas desejam melhores serviços de saúde, segurança pública, educação gratuita, etc.

Estes líderes e as empresas de transporte que os incentivaram e os auxiliaram, pediam intervenção militar (ditadura) e são a favor da livre iniciativa (sic). Falam de patriotismo, mas são a favor da privatização das empresas públicas que atuam em áreas estratégicas para o nosso desenvolvimento.

O ápice de toda esta ignorância foi alcançado quando chegaram a acusar grandes empresas de comunicação e seus jornalistas de serem comunistas, sendo elas sabidamente comprometidas com os interesses econômicos privados. Tais supostos líderes nada sabem sobre a doutrina de Marx e Engels... Não têm formação ou educação política.

Todas estas contradições se reproduzem pelas redes sociais, alternando tais postagens com fotos de pratos de comida ou fotos de corpos “sarados” ...

Por outro lado, todos sabemos que a falta de argumentação lógica e competente, quase sempre, desencadeia uma reação violenta. Fanatismo, ignorância e violência, tudo é igual ou leva ao fascismo.

Fascismo é a negação do humanismo, da solidariedade e de uma sociedade justa.

Desta forma, serão precisas algumas décadas para que a nossa sociedade retome os melhores valores do processo civilizatório, privilegiando-se a educação e uma reforma democrática nos meios de comunicação.

A curto prazo, fiquemos atentos aos ardis e estratégias da direita fascista. Democracia neles !!!

Afranio Silva Jardim, professor de Direito da Uerj.

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Caminhoneiros e seus patrões fornecem combustível ao golpismo. Temer é o principal artífice do caos


O combustível sonegado aos postos atiça há dez dias a brasa do golpismo. Caminhoneiros autônomos ou a serviço de empresas de transporte rodoviário de cargas apelam pela ruptura institucional. Em frente à Refinaria Duque de Caxias, uma faixa pregou “Intervenção militar é solução; buzina, Brasil!”. Ali, taxistas e motociclistas se uniram aos caminhoneiros em gritos pela dita intervenção, cuja tradução sincera é golpe militar ou golpe de Estado.

Num bloqueio na rodovia Régis Bittencourt, picharam no asfalto “Queremos intervenção militar já”. Na cidade potiguar de Mossoró, esbanjaram pontos de exclamação: “Queremos intervenção militar no Brasil urgente!!!”. No país inteiro, aflito e atônito, foi assim.

Difundiu-se num grupo de rede social restrito a caminhoneiros a mensagem, anotada pelo repórter Ricardo Senra: “As reações à greve dos caminhoneiros, amplamente apoiada pela população, demonstram que o brasileiro está sem paciência alguma com as ‘autoridades’. As condições são ideais para uma verdadeira revolução que refunde o Brasil. Mas onde está a liderança desse processo? Escrevam no para-brisa dos caminhões e carros. Intervenção militar!”.

A repórter Josette Goulart capturou esta incitação em vídeo, no grupo catarinense de WhatsApp “Carreteiros na luta”, que reúne 257 participantes: “Vamos parar o Brasil. Vamos parar tudo. Você que quer uma intervenção civil e militar saia às ruas e dê apoio aos caminhoneiros”. Na manhã da quinta-feira, as consultas sobre “intervenção militar” alcançaram o segundo lugar no ranking brasileiro do Google. Parentes de caminhoneiros e aliados deles promoveram no fim de semana atos diante de quartéis no Rio Grande do Sul e em Minas. As vivandeiras, essa espécie imortal, imploravam por “intervenção militar”.

O cineasta Jorge Furtado contou: “Um amigo passou por uma fila de caminhoneiros em greve e gritou: ‘Força aí, companheiros!’. Os caminhoneiros responderam: ‘Sai fora, vermelho! Comunista!’”.

Acossado pela ditadura nas décadas de 1960 e 1970, o ator Francisco Milani teve de trocar de ofício. Passou a exercer a digna e dura profissão de caminhoneiro. De regresso à carreira artística, elegeu-se vereador no Rio. Militava no Partido Comunista Brasileiro.

Um pouco de história

A história oferece pistas para elucidar o caráter de certos movimentos sociais e caldos de cultura. Em novembro de 2015, caminhoneiros interditaram estradas de ao menos 14 Estados. Um dos líderes bravateou como reivindicação prioritária a queda de Dilma Rousseff. A presidente reagiu à obstrução com o aumento dos valores de multas e sanções aos motoristas. Derrotou o protesto.

Os empresários do transporte rodoviário do Chile tramaram em 1972 uma paralisação de quase um mês que provocou vasto desabastecimento de mercadorias. A CIA integrou a conspiração oposicionista que estacionou os caminhões. Às vésperas da deposição do presidente Salvador Allende, em 1973, reeditaram a operação e devastaram ainda mais a economia.

O golpista Michel Temer nada tem a ver com Dilma e muito menos com Allende, governantes consagrados pelo voto popular. Mas os três locautes e greves prestaram-se a idêntico propósito: extremistas de direita alvejarem a democracia.

É claro como roupa lavada em propaganda de sabão em pó que nem todos os caminhoneiros comungam da fé intervencionista. Mas foram raras as invocações por “Lula livre” e raríssimos, e olhe lá, os incentivos às candidaturas presidenciais de Marina Silva, Ciro Gomes, Geraldo Alckmin, Manuela D’Ávila ou Guilherme Boulos.  “Não tem uma bandeira vermelha, estão de parabéns”, festejou o deputado Jair Bolsonaro.

“Sabe que todo caminhoneiro vota no Bolsonaro, né?”, esclareceu, com uma pergunta, o empresário e caminhoneiro Claudinei Habacuque, dono de quatro caminhões. Parcela expressiva dos caminhoneiros e sobretudo dos seus patrões tem lado, e a este tem sido útil. Desfralda a bandeira para se livrar do problema, “Fora, Temer!”, mas acrescenta o estandarte liberticida “Intervenção militar!”.

Bolsonaro hesitou mexer as peças, mas no auge da mobilização fez o seu lance. Manifestou-se por Twitter e WhatsApp: “Qualquer multa, confisco ou prisão imposta aos caminhoneiros por Temer/Jungmann será revogada por um futuro presidente honesto/patriota”. Logo recuou o cavalo: “A paralisação precisa acabar, não interessa a mim, ao Brasil, o caos”. Carcomido açulador de golpes, condenou a “intervenção militar”.

O jornalista Janio de Freitas alertou: “Na gravidade e nos modos, a situação provocada pelos caminhoneiros empresariais e autônomos se ajusta, com precisão, ao que Jair Bolsonaro diz e representa para o eleitorado. O governo fraco e frouxo, a falta de ordem e de quem a ponha sob controle, o Congresso dos negocistas, o alto Judiciário confuso e confundindo, e a população indignada, a esperar das ‘autoridades’ a solução que não vem”.

Conspirações fardadas e paisanas

Janio revelou que têm havido “reuniões de militares fora dos quartéis, para ‘discutir a situação’”. Jabeou: “Só poderiam ser vistas como prática de civismo se o passado brasileiro, a partir do golpe da República, não as intrigasse com o espírito da democracia”.

Que o diga o general-de-exército Antonio Hamilton Mourão, fanzoca do torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra e partidário da candidatura presidencial de Bolsonaro. Em entrevista à jornalista Joice Hasselmann, o oficial da reserva vociferou: “Terá que haver uma intervenção forte num primeiro momento, colocando ordem nessa casa”. Atemorizou: “Se o país irá flertar com o caos, só existe uma instituição capaz de impedir que isso aconteça, e essa instituição são as Forças Armadas”.

O general Mourão rechaçou, entrevistado pelo repórter Rubens Valente, a “intervenção militar” nos moldes do estímulo dos caminhoneiros. Porém, desafiou: “Se o governo não tem condições de governar, vai embora, renuncia. Antecipa as eleições […]”. Um dia antes, o deputado e pastor Silas Malafaia rumara pela mesma prosa: “Antecipe as eleições. Dê posse antecipada ao presidente novo”.

Quando Mourão e Malafaia, sócios do consórcio anti-Dilma, especulam sobre antecipação das eleições, a pulga cambalhota na orelha. Com menos de 1% de intenção de voto para o Planalto, Temer é tão abominado que, se um jiló gritar “Fora, Temer!”, os brasileiros elogiarão seu gosto adocicado. Só o ministro Carlos Marun, celebrizado como leão-de-chácara de Eduardo Cunha, encena devoção pelo chefe.

Temer fora é uma coisa – ele já iria tarde. Antecipar o pleito de 7 de outubro, outra. Efetivá-lo hoje favoreceria quem agora mostra vigor nas pesquisas, mas pode sofrer com os segundos parcos no horário eleitoral – Bolsonaro. Noutras trincheiras, diminuiria o tempo para Lula transferir votos ao candidato que apadrinhar e encurtaria campanhas promissoras. A essa altura, conversa sobre mudança do calendário eleitoral planta antecipação para colher adiamento ou cancelamento. Faltam quatro meses e sete dias para o primeiro turno.

Outra conversa ladina é a do “semipresidencialismo” preconizado pelo protagonista do golpe de dois anos atrás. Michel Temer edulcora tal regime como “extremamente útil para o Brasil”. A despeito da retórica ardilosa, seria desprestigiado o instituto do sufrágio popular, ou o presidente escolhido pelos cidadãos. Esvaziariam seus poderes. O ministro Gilmar Mendes é um dos articuladores da proposta, que, alegam, passaria a vigorar em 2023. Não surpreenderia, a depender das restrições ao eleito em outubro de 2018, implementarem a manobra quatro anos antes.
A crise é política. Só adivinhões prognosticam seu desfecho. Ele será influenciado pelo silêncio ou pelo rugido das ruas.
O céu está nublado. Deputados, senadores e ministros do STF percebem que cresce a possibilidade de Temer não completar o mandato. Um senador da base governista sugeriu a derrubada do vice de Dilma. José da Fonseca Lopes, presidente da Associação Brasileira dos Caminhoneiros, disse que há “um grupo muito forte intervencionista” que “quer derrubar o governo”. Não seriam, afirmou, caminhoneiros. Há “infiltrados” denunciou o governo. Inexiste liderança única dos manifestantes ou interlocutores plenamente autorizados.

A crise é política. Só adivinhões prognosticam seu desfecho. Ele será influenciado pelo silêncio ou pelo rugido das ruas – neste caso, do recado que se ouvirá.

Como escreveu o Barão de Itararé, há qualquer coisa no ar, além dos aviões de carreira – menos os que permaneceram em solo, imobilizados nos doze aeroportos sem querosene.

20 anos em 2

É justa a bronca dos 2 milhões de caminhoneiros do Brasil. A tresloucada política de preços de combustíveis da Petrobras no governo Temer tornou imprevisível o custo dos fretes. Os reajustes oscilam conforme a cotação internacional do petróleo e a flutuação do câmbio. Em um ano, o barril pulou de 45 para 80 dólares. Só em maio o óleo diesel subiu 11,85% nas refinarias.

Os contratantes, contudo, não pagam um centavo a mais pelo transporte. O caminhoneiro combina um valor que, ao final, pode nem cobrir as despesas com a viagem, porque o combustível ficou mais caro. Inexiste margem para negociação: há frota demais para carga de menos. Se um caminhoneiro não quer, outro topa. O litro do diesel só foi mais caro em 2008. Mas naquele ano o barril saía a US$ 140.

A paralisação foi locaute e greve, mais aquele do que esta. Trinta por cento dos caminhoneiros são autônomos. Os demais trabalham para grandes, médias e pequenas transportadoras. Os patrões apoiaram, se é que não organizaram, o movimento dos trabalhadores. Seria uma greve peculiar. Ao pedirem redução de impostos federais e estaduais e serem atendidos, os caminhoneiros serviram de estridentes porta-vozes dos empresários.

Na noite do domingo, Temer rendeu-se, em pronunciamento recepcionado por panelaços (com muito menos decibéis do que os que atazanavam a antecessora). Abateu tributos, reduziu o preço do diesel, congelou-o por 60 dias, comprometeu-se com reajuste só uma vez por mês, criou tabela mínima para frete, barateou pedágios. Destinou a caminhoneiros autônomos 30% dos fretes da Companhia Nacional de Abastecimento. Manteve a desoneração tributária na folha de pagamento das transportadoras, para júbilo patronal. O acordo sugará R$ 10 bilhões ao Tesouro.

Os contribuintes bancarão com subsídios o lucro dos acionistas privados da Petrobras. Uma sociedade de economia mista sob controle da União não deveria se guiar exclusivamente por vantagens mercantis, à revelia de políticas públicas. É uma aberração brasileiros miseráveis patrocinarem, com novos cortes nos magros recursos sociais, a política de preços da companhia presidida por Pedro Parente.

Os caminhoneiros pareceram poupá-lo de sua artilharia. Melhor para quem conjura a privatização da Petrobras. Os petroleiros iniciam hoje uma greve de três dias para “baixar os preços do gás de cozinha e dos combustíveis, contra a privatização da empresa e pela saída imediata do presidente Pedro Parente”.

O poder dos donos e motoristas de caminhões é imenso no país em que dois terços das cargas são transportadas em rodovias. Excluindo petróleo e minério, 90% delas seguem por estradas. Anteontem persistiam 556 pontos de bloqueios, em rodovias federais. Mesmo com a rendição do governo, numerosos caminhoneiros temem ser passados para trás.
É uma aberração brasileiros miseráveis patrocinarem, com novos cortes nos magros recursos sociais, a política de preços da companhia presidida por Pedro Parente.
Temer e seus aspones os subestimaram. Os caminhões começaram a se enfileirar nas pistas e nos acostamentos na segunda-feira retrasada, 21 de maio. Seis dias antes, a Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos protocolou na Presidência da República o aviso de que a manifestação começaria dali a menos de uma semana. Pediu audiência “em caráter emergencial”, e o governo ignorou a advertência.

Teria sido mais uma bobeada? Interessaria a alguém, no Planalto, conflagrar o país? Na sexta-feira, encurralado, Temer convocou as Forças Armadas para escoltar caminhões-tanque abastecidos em refinarias e outras missões –não pediram uma “intervenção militar”? O de costume: governo pusilânime, tropa na rua. Em São Paulo, a polícia reprimiu com bombas de gás um protesto de motoboys por combustível mais barato.

Anúncio do governo federal com o mote “Avançamos com o Brasil”.
Anúncio do Governo Federal com o mote “Avançamos com o Brasil”.
Foto: reprodução/Governo Federal

Em meados do mês, o governo distribuíra um convite para a cerimônia comemorativa dos dois anos da administração Temer com o slogan “O Brasil voltou, 20 anos em 2”. Todos leram, curvando-se aos fatos, sem a vírgula. Já com os 40 mil postos quase sem uma gota de gasolina, Temer entregou 369 automóveis em evento no Estado do Rio.

Na segunda-feira, oitavo dia da mobilização, jornais publicaram um anúncio do governo federal com o mote “Avançamos com o Brasil”. Na foto, as gôndolas estão abarrotadas de legumes e frutas. Nos supermercados reais, estavam vazias. Não basta empurrar o Brasil para o abismo; Temer tripudia sobre carências e desesperos alheios. Com seu furor ultraliberal na Petrobras, ele é o principal artífice do caos.

À beira do abismo

Nos dias em que o Brasil sem caminhões se equilibrou à beira do abismo, rarearam nas farmácias insulina, hormônios e remédios. Hospitais adiaram cirurgias agendadas e só asseguraram as urgentes. Estoques de oxigênio estiveram na iminência de esgotar. Suspenderam campanhas de vacinação. Não recolheram o lixo em São Paulo e em muitas cidades. Ambulâncias não circularam devido à ameaça de pane seca. Famílias sofreram sem gás de cozinha. Com incômodos ou dramas, os brasileiros padeceram.

Escolas e universidades fecharam – só no Rio, 1.500 estabelecimentos da prefeitura, mais de 650 mil alunos, dos quais metade não costuma levar lanche; perderam a refeição diária garantida. Sem fornecimento de alimentação e com funcionários sem transporte, creches não receberam as crianças país afora.

Hortifrútis desapareceram. Escassearam carne de frango e de boi, muitíssimos produtos. Supermercados limitaram compras. Em pânico, houve gente que estocou comida como um francês aguardando a invasão alemã ou, um tcheco, a soviética. A saca de 50 quilos de batata de um dia para o outro saltou de 70 para 350 reais no atacado.

A Cedae pediu para os cariocas pouparem água, por carecer de insumos de tratamento. Uma unidade do McDonald’s de Copacabana ficou sem Big Mac, porque os pães vindos do Espírito Santo e os hambúrgueres fabricados em São Paulo não chegaram. Num restaurante, a rabada com agrião se metamorfoseou em rabada com brócolis. Com carros na garagem, os engarrafamentos sumiram. A frequência aos cinemas caiu a menos da metade. O faturamento do comércio despencou.

Devido à greve dos caminhoneiros, produtos estão faltando nas prateleiras dos supermercados.
Devido ao locaute/greve de transportadoras e caminhoneiros, produtos estão faltando nas prateleiras dos supermercados.
Foto: Marcelo Fonseca/Folhapress

No domingo, os ônibus descansaram em Belo Horizonte e Porto Alegre. O transporte coletivo minguou, com a maior parte das frotas inativa. Trens superlotaram. Quanto mais longe do trabalho se mora, pior – os mais pobres foram os mais afetados. Municípios decretaram situação de emergência e estado de calamidade pública. As polícias fizeram menos rondas motorizadas. Nos postos com estoque de combustível, formaram-se filas, ao pé da letra, quilométricas. Em alguns, os clientes tentaram resolver a tapa quem encheria o tanque primeiro.

Por falta de ração, sacrificaram 64 milhões de aves. Em granjas, frangos famélicos comeram as penas de outros, causando ferimentos que matam. Nos próximos dias, podem morrer 1 bilhão de aves e 20 mil porcos. Interromperam as atividades 167 fábricas de carne de ave e carne suína. Nelas trabalham 234 mil funcionários.

Sem transporte, os produtores jogaram fora leite estragado. Idem os caminhoneiros, nas rodovias. Com o colapso no abastecimento, todas as montadoras de automóveis suspenderam a produção – o setor representa 4% do PIB brasileiro e 20% do industrial. Usinas de açúcar e álcool pararam. Ontem, o movimento dos caminhoneiros arrefecia.

Outro dia o ministro Marun, da Secretaria de Governo, adulou Temer como “o melhor presidente do Brasil por hora de mandato”.

Uns se afligem, outros debocham.

Mário Magalhães
No The Intercept
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Petrobras: um financeiro competente no lugar errado


O novo presidente da Petrobras, Ivan Monteiro, é um financeiro reputado, sério, competentíssimo na sua área, com papel central para acalmar mercado depois do terremoto Lava Jato e da saída de Graça Foster. E, provavelmente, será um desastre.

Desde os anos 90, o mundo corporativo aprendeu a distinguir o grande CFO (o financeiro) do CEO (o presidente).

É conhecido o caso Sharp, no qual um grande financeiro assumiu a presidência, colocou a empresa no azul em três meses, e a liquidou. Para alcançar o objetivo trimestral, desmontou a área de desenvolvimento, de marketing e outras peças centrais.

Mais recentemente, se tem o caso Britaldo Soares, diretor financeiro da Eletropaulo. Foi elevado a CEO, cortou custos de manutenção, estourou as redes obrigado a AES a vender a empresa, tais os investimentos necessários para manter a concessão.

O único parâmetro do financeiro é o balanço trimestral. No caso do petróleo as qualidades de um bom financeiro são os defeitos de um bom CEO. O financeiro é por natureza conservador. Sem a ousadia calculada, a Petrobras jamais teria avançado no pré-sal ou nas incursões fora do país, até se transformar na segunda petroleira do mundo, antes do desmonte de Pedro Parente.

Além disso, a maneira de mitigar riscos – ou oscilações desnecessárias de preço – é a integração. A lógica da produção e do refino interno é justamente a de descolar dos preços internacionais. Quando as cotações internacionais explodem, seguram-se as internas e ganha-se nas exportações de derivados.

A lógica de Parente é a do desmonte total da cadeia do petróleo.

Espera-se que, como funcionário de carreira do Banco do Brasil, Ivan tenha a sensibilidade de perceber a relevância da empresa para o país.

Luís Nassif
No GGN
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Por que Bolsonaro arregou?


A essa altura dos acontecimentos, todos vocês já sabem: Bolsonaro arregou. No começo da greve dos caminhoneiros, ele disse que parar estradas era “extrapolar”. Logo depois, inesperadamente ele tuitou em solidariedade a quem parasse estradas: “Qualquer multa, confisco ou prisão imposta aos caminhoneiros por Temer/Jungmann, será revogada por um futuro presidente honesto/patriota.”

Um ato bastante sindicalista de quem tem um projeto de lei que prevê quatro anos de cadeia a que… parar estradas. (Por sorte, como quase nenhum de seus projetos de lei, este também não foi aprovado.)

A novela teve ainda outra virada, com o candidato à Presidência se dizendo solidário aos grevistas mas pedindo que a greve acabasse.

Então ficamos assim em um espaço de tempo de poucos dias: condenou trancamento de estradas; prometeu revogar multas por trancamento de estradas; pediu que a greve acabasse.

É claro que Bolsie inicialmente apoiaria uma greve repleta de faixas em apoio à intervenção militar. Assim como também é claro que Bolsie cairia fora dessa mesma ideia quando ela se tornasse mais real do que apenas uma caricatura – as faixas e pedidos por intervenção se avolumaram mais do que o desejado pela propaganda.

O susto foi tão grande que Bolsie chegou a dizer que nunca apoiou intervenção, o que é mentira, mas também é verdade. Ele não desejaria uma ditadura agora, neste momento. Afinal, Bolsie é líder nas pesquisas e tem a chance única – pelo ajuntamento caótico dos astros – de ter um poder que jamais teria caso alguns generais trapalhões decidissem dar um golpe de fato. Bolsonaro, em um distópico governo militar sem eleições, seria quando muito o mordomo do Palácio.

No Facebook, alguém me disse que aquilo tudo estava cheirando mal, como se Bolsie tivesse tomado um puxão de orelha de alguém acima na hierarquia. Se afastar dos intervencionistas que são, por natureza, seus eleitores? Pedir o fim da greve que lhe pareceu a onda perfeita pra culpar o atual governo e o PT ao mesmo tempo? A Piauí chegou a falar em infiltração militar nas manifestações, o que naturalmente preocuparia o establishment do Exército. Isso se formos confiar em arapongas brasileiros.

O que vocês acham que aconteceu? Podem responder a este e-mail com suas teorias da conspiração favoritas. Talvez elas façam mais sentido do que a própria realidade.

Leandro Demori
No The Intercept
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Como o WhatsApp mobilizou caminhoneiros, driblou governo e pode impactar eleições

Algumas das imagens que mais circularam em grupos de WhatsApp sobre a greve de caminhoneiros 
Imagem: Reprodução Projeto Eleições Sem Fake e grupos de WhatsApp
Depois de uma insurreição popular convocada por SMS em Moçambique, em 2010, da Primavera Árabe difundida pelo Twitter no Oriente Médio, em 2011, e das manifestações brasileiras de junho de 2013 impulsionadas pelo Facebook, chegou a vez do WhatsApp ocupar o protagonismo na organização de uma mobilização.

A greve dos caminhoneiros, que interditou milhares de trechos de rodovias em todo o país ao longo de dez dias, é a maior mobilização mundial já feita pelo WhatsApp, dizem Yasodara Córdova, pesquisadora da Escola de Governo de Harvard, nos Estados Unidos, que estuda como os governos lidam com a Internet, e Fabrício Benevenuto, professor de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pioneiro na pesquisa de conteúdos compartilhados em grupos de WhatsApp. "A mobilização ocorre por motivos sociais. As redes dão uma vazão a esses sentimentos", diz Yasodara.

"Na quarta-feira antes da greve, o (preço do) diesel aumentou. Desci para Santos para levar carga. Quando voltei, o diesel já tinha aumentado. Na sexta, aumentou de novo. A galera se comunicou no WhatsApp e falou: não está dando mais", lembra o caminhoneiro Moisés de Oliveira, que ficou parado na Rodovia Régis Bittencourt, em São Paulo, onde ajudou a organizar um grupo de grevistas, sempre com o celular à mão.

A essência do trabalho do caminhoneiro é circular. Isso facilitou que as mensagens se espalhassem rapidamente por diferentes pontos do Brasil. "A gente viaja o Brasil inteiro e vai conhecendo outros caminhoneiros. Quando chega no posto para dormir, a gente conversa, troca o (número de) WhatsApp. Aí, quando chegou a greve, já havia vários grupos montados e a gente distribuiu a informação", diz Oliveira, de 40 anos, 22 anos deles passados atrás do volante do caminhão.

"O Whatsapp facilitou demais a nossa comunicação. Antes, a gente era desconhecido (um do outro). Agora, o pessoal faz um vídeo e, em dois minutos, já espalhou pelo Brasil", completa. "A gente não é envolvido com partido político nenhum. Mas a gente tem a nossa logística".

Na última quinta-feira, apesar de já não haver mais pontos de interdição nas estradas, segundo a Polícia Rodoviária Federal, os apelos pela continuidade da greve não haviam parado de circular pelo WhatsApp. Eram desde pedidos para caminhoneiros irem até Brasília, para que ficassem parados em casa, até convocações de protestos nas cidades.

Conversas fechadas, criptografadas, sem rastro e em pirâmide

A comunicação por WhatsApp tem características diferentes das feitas por Twitter e Facebook. Os dois últimos "são como uma via pública, uma praça, onde você abre uma banquinha e as pessoas podem te ver e interagir com você. Já o grupo de WhatsApp é como a sala de jantar da sua casa, não entra todo mundo", exemplifica a pesquisadora brasileira Yasodara Córdova.

Na prática, enquanto postagens públicas no Twitter ou Facebook podem ser vistas por qualquer um e chegar de uma vez só a milhares de usuários, as mensagens de WhatsApp atingem apenas um indivíduo ou os participantes do grupo, limitados a um número máximo de 256 pessoas. Dali, podem ser levadas para outras pessoas ou outros grupos, em uma distribuição em pirâmide.

Além disso, todo diálogo é criptografado - é como se a sala de jantar estivesse bem trancada e só pudesse entrar quem fosse convidado ou tivesse a chave.

Isso faz com que a conversa fique fechada - para acessá-la, só infiltrado. "A comunicação no Whatsapp acontece de maneira mais velada, mais escondida. São grupos relativamente pequenos. E não há registro público, um rastro, porque há essa encriptação", diz Benevenuto.

Além disso, a comunicação é mais difusa. A conversa vai se propagando pelos celulares, sem registro de quem foi a fonte original da informação - seja mensagem em texto, imagem, áudio ou vídeo. Assim, fica mais difícil identificar quem são as vozes mais difundidas e que estão se transformando em lideranças.

Essas características fazem com que a mobilização pelo WhatsApp represente um novo desafio para governos, acostumados a negociar com lideranças de organizações definidas, com logotipo e CNPJ.

"O sindicato é um modelo que está em declínio no mundo todo. Não só em termos de representatividade, mas também em metodologia. No caso da greve dos caminhoneiros, há um pioneirismo da organização do trabalho baseado na internet. É uma espécie de sindicato digital. É possível que no futuro a gente tenha novas formas de mobilização da força de trabalho como essa", fala Yasodara.

Governo foi driblado pela organização dos caminhoneiros

No quarto dia de greve, uma quinta-feira, o governo do presidente Michel Temer fechou um acordo com parte dos representantes de associações e sindicatos de caminhoneiros, se comprometendo a baixar o preço do combustível em 10% por 30 dias. Com isso, anunciou que a greve iria ter uma trégua. Naquele momento, os postos já começavam a ficar sem combustível.

Mas os caminhoneiros organizados pelo WhatsApp não concordaram com a negociação. No aplicativo, seguiram-se mensagens de repúdio às lideranças que negociaram com o governo Temer, além de aúdios e vídeos notificando sobre pontos de paralização que se mantinham ativos. Nada de acordo, a greve continuava.

"Se não tivesse o WhatsApp, eu creio que o governo já tinha enganado a gente há dias. O governo ia na televisão dizer que a greve acabou. Até um caminhoneiro conseguir se comunicar com outro, já tinha tudo mundo ido embora, tinha acabado a greve. Agora, a gente assistiu a nota do presidente e já passou informação para os grupos de WhatsApp: não acabou não", explica o caminhoneiro Moisés Oliveira.

São Paulo usou o WhatsApp nas negociações

No Estado de São Paulo, foi traçada uma estratégia diferente para negociar com os grevistas. O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São Paulo, Marcos da Costa, irmão de um caminhoneiro hoje afastado da profissão, resolveu entrar nas negociações.

"Não era um movimento institucionalizado, respondendo a sindicatos e associações. Eram caminhoneiros que se esgotaram com o aumento do preço dos combustíveis e começaram a parar (de rodar). A comunicação deles por WhatsApp permitiu que se formasse uma onda muito rápida no Brasil inteiro", diz Costa.

Depois da negociação fracassada do governo federal na quinta-feira, Costa pediu que colegas advogados do setor de transportes procurassem identificar quem eram as lideranças dos caminhoneiros parados em São Paulo. Em seguida, no sábado de manhã, mais de 10 delas se reuniram na sede da OAB.

"No começo da reunião, os caminhoneiros pediram para tirar foto e fazer vídeo para compartilhar nos grupos de WhatsApp. Isso viralizou. E serviu para que a gente pudesse ter segurança da capacidade de mobilização daquelas pessoas", fala o presidente da OAB.

Em seguida, foi montado um novo grupo de WhatsApp entre esses caminhoneiros e a OAB. "Esse grupo serviu de preparação das pautas de negociação. Ele canalizava as demandas dos caminhoneiros, porque cada pessoa dessas tinha interlocução com outros grupos de WhatsApp. Era uma rede gigantesca", fala Costa. "Eu não tenho dúvida de que isso fez a diferença. Foi fundamental para abrir a possibilidade de diálogo com aqueles que estavam realmente à frente do movimento".

No sábado à tarde, o grupo de WhatsApp criado pela OAB se reuniu com o governo de São Paulo para negociar a desobstrução das estradas do Estado.

"Ainda durante a reunião, eles (os representantes dos caminhoneiros) mandaram mensagens de WhatsApp para a base pedindo para liberar (as estradas). Cerca de uma hora depois, vimos pela cobertura da mídia que a liberação estava começando. Foi o diálogo por WhatsApp que permitiu a primeira liberação de rodovia", comenta o advogado. O movimento dos caminhoneiros em São Paulo não acabou ali, mas de fato começou a diminuir.

Ainda no sábado, o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Carlos Marun, esteve em São Paulo para participar das conversas com o grupo paulista, tomar conhecimento das pautas e tentar tirar as negociações de Brasília do limbo.

"A greve mostrou que vamos ter que criar mecanismos para dar conta de demandas apresentadas de forma completamente diferentes. Tradicionalmente, eram instituições que iam ao governo apresentar suas pautas. Hoje, vemos movimentos líquidos, absolutamente horizontalizados. A partir de agora, os governos vão ter que aprender a lidar com essa nova realidade e aprender a identificar canais que possam servir para diálogo", conclui Costa.

WhatsApp foi a principal forma de contato com a mobilização

A primeira medição da importância do WhatsApp na greve dos caminhoneiros foi feita pelo Ipsos. Na última terça-feira, o instituto de pesquisa entrevistou cerca de 1,2 mil caminhoneiros que usam um aplicativo de cargas. Dentre os entrevistados, quase metade (46%) soube da paralisação via WhatsApp.

É mais que o dobro de importância da própria estrada - 18% souberam do movimento sendo parados por colegas enquanto rodavam com o caminhão. O Facebook veio em seguida, informando 8,5% dos entrevistados. Um número ínfimo de 1% foi convocado por sindicato ou associação. Entre os entrevistados, estão tanto caminhoneiros que estavam protestando, como quem ficou em casa ou estava rodando normalmente.

Por outro lado, nem tudo é digital. Entre o grupo mais ativo de caminhoneiros, que continuava parado nas estradas na última terça-feira, o corpo a corpo foi tão importante quanto a mobilização nas redes - 39% tomaram conhecimento da greve na estrada, enquanto outros 39% souberam por WhatsApp e Facebook.

A importância do WhatsApp na greve também fica evidente em um boato que circulou no próprio app, alertando usuários para não atualizarem o aplicativo. Segundo a mensagem, a atualização do WhatsApp teria sido determinada pelo governo federal para inviabilizar a comunicação de participantes da greve. O WhatsApp informou que essa informação não procede.

O dia a dia dos grupos de WhatsApp

Uma vez que a mobilização tinha começado, o WhatsApp foi fundamental para propagar informações, passar mensagens de motivação, angariar apoio e bater de frente com o governo do presidente Michel Temer.

É possível ter um retrato de como isso aconteceu pelo monitor do WhatsApp desenvolvido pelo projeto "Eleições Sem Fake", coordenado por Benevenuto, da UFMG. O sistema acompanha 182 grupos públicos com temática política e seleciona quais são as imagens mais compartilhadas diariamente. É a única ferramenta brasileira que acompanha o que ocorre dentro do WhatsApp - seu uso é restrito a pesquisadores.

Segundo o monitor, um dia antes da greve começar, uma imagem de caminhões parados em uma estrada já estava entre as dez mais compartilhadas do dia: "greve geral pela baixa dos combustíveis, você apoia?". Era o movimento se organizando.

Já na segunda-feira, quando os caminhoneiros começaram a parar as rodovias, a greve foi a temática das cinco imagens mais compartilhadas do dia. Na terça-feira, idem - sendo que uma das imagens fazia um chamado: "caminhoneiros convocam população, sozinho (sic) não conseguiremos".

Na quinta-feira, quando o governo de Michel Temer buscou negociar com lideranças de organizações de caminhoneiros, o topo de compartilhamentos foi uma imagem com a hashtag "SomosTodosCaminhoneiros" e outra com a frase "A greve continua". Também circularam memes culpando o PT pela crise e, no sentido oposto, dizendo que a crise começou porque o PT saiu do governo.

Em seguida, pedidos de intervenção militar passaram a despontar. Já na última terça-feira, quando o protesto dos caminhoneiros já estava perdendo força, os grupos de WhatsApp foram tomados por críticas à baixa adesão da população ao protesto: "Povo tem o governo que merece: reclama ficar 3h na fila do hospital, mas fica 8h na fila do posto de combustível".

Informações reais duelam com fake news

Nesse meio tempo, foram surgindo grupos de WhastsApp de apoiadores dos caminhoneiros, para troca de informações sobre a greve. A BBC Brasil acompanhou seis deles. Em meio a mensagens verdadeiras, circulavam muitas notícias falsas e desatualizadas. Entre elas, vídeos dizendo que manifestantes tinham ocupado Brasília e imagens informando que militares estariam prestes a tomar o poder.

No começo desta semana, foi feito um apelo nos grupos: que os caminhoneiros passassem a informar data, hora e local da mensagem de áudio ou vídeo, já que tudo estava mudando muito rapidamente e era preciso identificar se se tratava de algo novo ou não. Em um dos grupos, criado no dia seguinte à greve, o administrador deletou mais de 200 participantes acusados de promover "fake news".

"A ideia do WhatsApp é a comunicação ponta a ponta. Não tem impulsionamento de mensagens, como no Facebook. Então, a empresa não tem influência no diálogo. São grupos se auto-organizando e repassando essas mensagens", afirma Benevenuto.

É uma via aberta, por onde trafegam os diferentes ideiais de uma sociedade. "Eu me lembro de ver a primavera árabe, em 2011, e pensar: 'as redes sociais vão virar movimento político, vão alavancar a democracia, vão abrir a cabeça das pessoas, não tem como governos autoritários controlarem uma coisa dessas'. E hoje vemos que pode ser usada para qualquer dos lados. Tem pedido de intervenção militar, notícia falsa...", completa o pesquisador da UFMG.

WhatsApp vai ser importante nas eleições de 2018

O WhatsApp, usado por 60% da população do Brasil, já é uma das principais fontes de informação no país. Segundo o Digital News Report de 2017, um estudo sobre o consumo de notícias produzido em conjunto pela Reuters Institute e pela Universidade de Oxford em 36 países, 46% dos brasileiros usam WhatsApp para encontrar notícias.

O número é muito maior do que a média mundial, de 15%, e chamou a atenção dos pesquisadores. No estudo, eles destacaram que o WhatsApp cresceu tanto no Brasil que já está rivalizando com o Facebook - usado por 57% dos brasileiros para encontrar notícias.

"A greve de caminhoneiros aponta totalmente como pode ser o uso do WhatsApp nas eleições de 2018", diz Maurício Moura, pesquisador da George Washington University, nos Estados Unidos, que analisou o uso do aplicativo nas eleições de 2014. Segundo o pesquisador, a tendência é que o debate eleitoral deste ano ocorra muito dentro do app de conversas.

"A rede social das eleições de 2018 vai ser o WhatsApp. Hoje, muito mais pessoas têm smarthphones no Brasil do que em 2014", avalia Moura, que também já trabalhou com campanhas políticas e é fundador da Ideia Big Data, que realiza pesquisas de opinião. "Agora, não tem como fazer campanha no WhatsApp sem números de telefone. Por isso, a primeira estratégia dos candidatos e partidos é coletar números de celular, em eventos, fan pages...".

Mesmo antes da campanha, já há diversos grupos de apoiadores de candidatos, como Jair Bolsonaro. "A tendência é as pessoas se organizarem nos grupos de WhatsApp em torno de candidatos e pautas. Por outro lado, pessoas que querem desestabilizar as campanhas umas das outras também estarão operando nos grupos de WhatsApp com bastante intensidade", acrescenta Yasodara.

O combate às notícias falsas, que se tornou uma grande preocupação desde a eleição de Donald Trump, em 2016, promete ser muito mais difícil no WhatsApp. O Facebook, por exemplo, se comprometeu a não impulsionar páginas que promovam notícias falsas. A rede social pode fazer isso porque funciona como uma mediadora das publicações. Já no WhatsApp, onde não há nenhuma forma de controle externo, isso é impossível.

"Enquanto Facebook e Twitter estiveram sob forte escrutínio nos últimos tempos, o WhatsApp passou um pouco batido. Porém, o app é extremamente utilizado dentro do Brasil. Com toda essa atenção que se deu às outras redes, muito do esforço de campanha política migra para o WhatsApp, onde não há quase nenhum monitoramento", diz Benevenuto, da UFMG.

No WhatsApp, combater notícias falsas e discursos de ódio "é um desafio tão complexo quanto regular o discurso dentro das casas das pessoas", compara Yasodara. "Como a sociedade faz para que os pais não ensinem aos filhos que o nazismo é uma coisa legal? Primeiro, criminaliza o que é ilegal. Segundo, traz cada vez mais informações verdadeiras para o debate público ", opina a pesquisadora de Harvard.

olaboraram Juliana Gragnani, André Shalders e Felipe Souza
No BBC
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Dodge manda Serra para cadeia da 1ª instância

O que dirá o ministro-empresário Gilmar?



A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu ao ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), que envie inquérito que investiga o senador José Serra (PSDB-SP) para a primeira instância da Justiça Federal de São Paulo.

A investigação foi aberta no Supremo através de declarações de ex-executivos da Odebrecht, que narraram pagamentos indevidos da empreiteira para campanhas de Serra, quando o tucano era governador de São Paulo.

Paulo Vieira de Souza, ex-diretor da Dersa que foi liberado da prisão preventiva por Gilmar Mendes duas vezes no mês de maio, também é investigado neste inquérito.

Na manifestação, Raquel destaca que o suposto crime foi cometido fora do mandato de Serra como parlamentar, o que faria o processo sair do STF, pelas novas regras do foro definidas no início de maio. Mais de 150 processos já foram baixados para outras instâncias da Justiça desde então. A Corte restringiu sua competência para julgar somente crimes cometidos por parlamentares federais durante o mandato e em função do cargo.

(...)

No CAf
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O putsch dos caminhoneiros

No futuro, pesquisadores irão contar como, de fato, se deu o desarme da bomba autoritária que rondou o Brasil na boleia de um caminhão desgovernado entre a manhã da sexta (25/5) e a da terça (28). Na noite anterior às quatro jornadas semicaóticas, a Presidência da República, enfraquecida e acuada, havia feito concessões e firmado um acordo com os revoltosos. No entanto, durante 96 horas nada se mexeu, criando o mais perigoso vazio desde a redemocratização de 1985.

Parada, a nação assistiu grupos condicionarem a liberação das estradas a uma “intervenção militar”. Enquanto a sublevação ganhava o comando do espetáculo, um silêncio sepulcral emanava das instituições. Apenas quando o pior tinha passado, forças políticas saíram da letargia para defender o regime democrático.

No meio da paralisia, o desconcerto era tamanho que cheguei a pensar tratar-se de mera encenação temática para comemorar os 80 anos do putsch integralista contra Getúlio Vargas. Mas diferentemente de 1938, quando tentaram tomar o palácio presidencial à força, os manifestantes de 2018 não gritavam anauê nem usavam o sigma na camisa uniformizada. Contavam, porém, com um candidato a presidente que, em alguns cenários, beirava os 20% das intenções de voto, enquanto Plínio Salgado, líder das tropas de assalto verdes, só chegou a 8,3%, em 1955.

Convém notar, igualmente, que os atuais defensores da ditadura não se encontram (ainda) estruturados em milícias com treinamento militar, como ocorria com os integrantes da Ação Integralista Brasileira (AIB). O uso da violência, contudo, vem-se tornando recorrente. Tiros sobre a caravana de Lula no sul, disparos contra membros do acampamento de Curitiba e a pedra que matou um motorista em Rondônia na quarta (30) constituem indícios suficientes.

Também a proximidade entre civis e militares chamava a atenção. Assim como o capitão Olympio Mourão Filho — futuro detonador do golpe de 1964 — era o chefe do estado-maior da milícia integralista, há generais da reserva que apoiam Jair Bolsonaro.

Mas de repente, sem que fosse necessário prender as lideranças do levante, a normalidade começou, lentamente, a se restabelecer. Será que o anúncio, pela presidente do STF, de que em três semanas seria julgada a ação relativa ao parlamentarismo teve algum papel indireto na desmobilização das rodovias? Ou, apenas, como escreveu o jornalista Bruno Boghossian, “os políticos alinhados à farda querem assumir o poder pela porta da frente” (eleições)?

Por ora, ignorantes, fiquemos com a impagável frase de Michel Temer: “Graças a Deus estamos encerrando essa greve”. Só a Deus.

André Singer, Cientista político e professor da USP, foi porta-voz e secretário de Imprensa da Presidência no governo Lula.
No fAlha
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O fim da aventura pós-soviética de Pedro Parente


Encontrei pela ultima vez Pedro Parente meses atrás, em uma padaria dos Jardins. Aparentava ar cansado e estava a caminho do hospital. Nos cumprimentamos formalmente.

Conheci-o, e bem, no governo Fernando Henrique Cardoso, substituindo Clóvis Carvalho na Casa Civil. Era, de longe, o técnico mais preparado. É injusto taxá-lo de “pai do apagão”. Na verdade, coube a ele coordenar a Câmara que tentou resolver o imbróglio infernal criado por FHC, com a desregulamentação do setor elétrico, que promoveu um choque tarifário similar ao que Parente tentou reeditar com o petróleo agora.

Historicamente, grandes funcionários públicos se tornaram executivos de grandes grupos econômicos. Nenhum mal nisso. Durante muito tempo, Banco do Brasil e Itamarati tiveram os melhores quadros técnicos da República. Muitos deles passaram a servir o setor privado sem perder a perspectiva de país.

Não foi o caso de Parente.

Sua atuação na Petrobras teve um mérito inegável: serviu para expor as vísceras de um modelo de corrupção público-privado que, nos tempos modernos, só encontra paralelo no que aconteceu na ex-União Soviética – e, antes disso, com o setor elétrico brasileiro.

Por aqui, a descontratação da energia das hidrelétricas significou uma explosão nas tarifas, tirando completamente a competitividade de setores relevantes da economia. Depois, a privatização para um bando de aventureiros internacionais, que abriam empresas em paraísos fiscais e tomavam financiamentos amplos do BNDES, dando como única garantia as ações das empresas privatizadas. Aliás, esse saque consumou-se no caso Celmar, adquirido pela Equatorial - do grupo Lehman – já no governo Lula. O resultado foi a crise de 1999, obrigando o país, como um todo, a pagar pela corrupção instalada no governo FHC.

Na Petrobras, a ação de Parente foi mais escandalosa. Elevou os preços dos derivados para viabilizar a importação e criar uma capacidade ociosa nas refinarias, de maneira a comprometer seus resultados e facilitar a venda.

Para uma empresa sem problemas de crédito no mercado, passou a queimar ativos usando o falso argumento de que a Petrobras estaria quebrada. Teve participação ativa na mudança da legislação do petróleo, ajudando a enterrar todos os investimentos feitos na indústria naval.

A estratégia de desmonte da Petrobras, no entanto, mostrou suas limitações. Era o gerentão, capaz e fazer andar um projeto desde que o CEO lhe desse as referências. Quando coube a ele montar a estratégia, o resultado foi o desastre, que não apenas desmascarou a corrupção soviética instalada no país, como acabou de vez com a farsa de Michel Temer.

E ainda deixou rastros que, em algum momento, deflagrarão investigações do Ministério Público. E sem poder recorrer à vara de Curitiba, de seu amigo Sérgio Moro.

Luís Nassif
No GGN
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Ditadura abafou apuração de corrupção dos anos 70, revelam documentos britânicos

Papéis detalham como Brasil chegou a abrir mão de indenização por compra superfaturada de navios

Em 1º plano, fragata União deixa base em Niterói para atuar no Líbano
Pedro Carrilho
Documentos confidenciais históricos do governo do Reino Unido revelam que a ditadura brasileira atuou para abafar uma investigação de corrupção na compra de fragatas (navios de escolta) construídas pelos britânicos nos anos 1970. Os fatos narrados nos papéis ocorreram durante os governos dos generais Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) e Ernesto Geisel (1974-1979).

Segundo os registros, em 1978 o Reino Unido estava disposto a investigar denúncia de superfaturamento na compra de equipamentos para a construção dos navios vendidos ao Brasil e se ofereceu para pagar indenização de pelo menos 500 mil libras ao Brasil (o equivalente a quase 3 milhões de libras hoje — ou R$ 15 milhões).

Em vez de permitir e ajudar no inquérito que seria do interesse do Brasil, o regime militar abriu mão de receber o valor e rejeitou os pedidos britânicos para ajudar na investigação — que foi recebido com estranheza em Londres.

“Os brasileiros claramente desejaram manter o assunto de forma discreta”, diz um dos documentos. “É evidente que eles não gostariam que mandássemos um time de investigadores e não iriam colaborar com um, se ele fosse. O embaixador concluiu que o risco de sérias dificuldades com as autoridades brasileiras, o que poderia ser levantado por uma investigação, não deve ser assumido”, diz outro trecho dos despachos diplomáticos a que a Folha teve acesso.

“Há um mistério até hoje não resolvido, e só agora revelado. Por que, diante de uma investigação detalhada ao Brasil, o governo brasileiro resolveu não apenas impedir a vinda de autoridades britânicas, como não quis o dinheiro que tinha líquido e certo para receber?”, questiona o pesquisador brasileiro João Roberto Martins Filho, responsável pela descoberta dos documentos.

Martins Filho é professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e desenvolveu pesquisa nos arquivos da diplomacia britânica durante a ditadura brasileira durante período no King’s College de Londres.

Ele é autor do livro “Segredos de Estado: O Governo Britânico e a Tortura no Brasil (1969-1976)” (Ed. Prismas), em que revela a conivência do governo em Londres com a tortura no Brasil.

O caso dos navios está registrado em uma pasta de documentos diplomáticos intitulada “Alleged fraud and corruption by Vosper Thornycraft (UK) with government of Brazil”, que contém contém 139 páginas de registros históricos sobre o caso. A pasta foi fechada em 1978, e inclui documentos a partir de 1977.

Em entrevista à Folha, Martins Filho disse que teve primeiro contato com a pasta de documentos há dois anos, durante pesquisa em Londres, mas que só agora conseguiu finalizar a análise detalhada dos documentos. “Tem muito historiador que tem documentos que podem ser bombas, mas ninguém teve capacidade de analisar tudo até agora”, disse.

A denúncia revelada por ele diz respeito ao acordo firmado entre Brasil e Reino Unido em 1970 para a compra de seis fragatas, das quais quatro seriam construídas nos estaleiros da firma Vosper, no Sul da Inglaterra, e duas no Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ).

O primeiro desses navios, a fragata Niterói, foi lançada ao mar em 8 de fevereiro de 1974 e incorporada a 20 de novembro de 1976. Ela foi seguida pelas fragatas Defensora, Constituição e Liberal. No Brasil, seriam construídas as fragatas Independência e a União.

Cada uma dessas fragatas tinha pouco mais de 129 metros de comprimento e capacidade para uma tripulação de 209 pessoas, com raio de ação de até 4.200 milhas náuticas. Elas continuam em uso pela Marinha brasileira.

Força-tarefa no Líbano

Segundo o site da Marinha, no fim do ano passado, a Fragata União, por exemplo, regressou ao Brasil após capitanear a Força-Tarefa Marítima da Força Interina das Nações Unidas no Líbano. No início deste ano, a fragata Independência assumiu o lugar dela no país. Já a fragata Liberal foi recentemente aberta à visitação do público em Santa Catarina.

Segundo a investigação realizada em Londres nos anos 1970, o estaleiro britânico contratado para construir os navios pedia desconto aos fornecedores, que entregavam os equipamentos para a construção das fragatas, mas as notas fiscais saíam com o preço sem o desconto. “O equipamento era fornecido, mas não por aquele preço”, disse o professor.

Os documentos mostram que o governo inglês ficou preocupado porque depois do contrato se tornou o dono do estaleiro e recebeu a denúncia de fraude. Londres havia sido avalista de todas as notas do negócio, explicou Martins Filho, então o governo quis evitar ser acusado de ter responsabilidade.

“A coisa foi tão séria que chegou ao Ministro de Relações Exteriores e até mesmo ao primeiro-ministro James Callaghan”, disse Martins Filho.

Segundo ele, após uma reunião com o representante do governo brasileiro em Londres, entretanto, os britânicos se mostravam surpresos porque o Brasil não fez nenhuma menção de cobrar reparação pelo que foi desviado. Em determinado trecho, um documento da pasta indica que os brasileiros preferiam que o assunto seja “deixado de lado” o mais rapidamente possível.

“O governo inglês fica sem entender por que o governo brasileiro não queria receber de volta o valor numa ordem de 500 mil libras”, diz Martins Filho.

Daniel Buarque
No fAlha
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Como afunda fácil o discurso da ditadura sem corrpupção…


Se adiantasse alguma coisa para quem parece disposto a urrar, não a pensar, seria boa a leitura da Folha de hoje aos defensores de uma intervenção militar como forma de “restaurar a moralidade” em nosso país.

Afinal, podem não acreditar nos que viveram aqueles tempos mas, canino que é seu comportamento, hão de dar crédito a documentos estrangeiros.

Não abriram o bico com os papéis do Departamento de Estado norte-americano que revelavam os assessinatos políticos e não vão abrir com a descoberta de papéis  mantidos até agora em segredo pelo Reino Unido falando em corrupção justamente numa atividade militar: a contratação da construção de fragatas para a Marinha brasileira.

Coisa tão “cabeluda” que o governo militar brasileiro não quis receber 500 mil libras ( R$ 15 milhões, em dinheiro de hoje) oferecidos espontaneamente pelo governo de Londres como ressarcimento ao sobrepreço verificado na aquisição dos navios.

Não importa que todo mundo saiba que fortunas – e mais civis, até, que militares – se fizeram sob a ditadura, nem que tenha sido sob ela que se deteroraram as condições de segurança pública. É preciso “lembrar de um passado que não existe” para tornar atraente o caminho da insensatez.

Fernando Brito
No Tijolaço
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