27 de mai de 2018

De @adolfoberlejr para @eliogaspari, sobre a greve dos caminhoneiros


“Prezado Gaspari,

“Em 1937, a Standard Oil fez pressão sobre o governo do MEU país para que atuasse para reverter a decisão do SEU país, de construir refinarias para não depender mais do poder de pressão das petriolíferas do MEU país. Depois de ter registrado lucros gigantescos no Brasil, a Standard OIl manifestava seu "receio" de que, refinando petróleo com capital nacional, o Brasil acabasse pagando um preço muito alto pelo produto.

Como disse na época para o presidente Roosevelt, a preocupação  da Standard Oil me pareceu simplesmente engraçada.

“Em meados de 1945, sugeri ao Departamento do Estado a criação de uma comissão bilateral, Brasil-EUA, incumbida de vigiar as atividades de companhias estrangeiras, a fim de assegurar que o povo brasileiro recebesse os benefícios dos recursos. E não pense que são palavras de autocrítica depois que desencarnei. Sugiro consultar os livros de Stanley Hilton onde está registrada minha posição.

Espero que em seu próximo livro, corrija a imagem de golpista que me acompanhou, depois que me tornei embaixador no Brasil. E pense nos interesses do seu país com o mesmo carinho que eu, um ianque, pensava”

O emburrecimento nacional

De fato,  polarização ideológica conseguiu produzir um nível de emburrecimento inédito na história moderna do país.

A greve dos caminhoneiros é exemplo acabado, uma discussão sem pé nem cabeça que chegou ao ápice com os analistas da velha mídia tentando atribuir a responsabilidade ao governo Dilma, e o contra discurso tentando provar que Dilma estava certa achatando os preços de combustíveis, em um momento em que a Petrobras era submetida ao maior desafio da sua história.

A rigor, a única manifestação de bom senso foi de Eduardo Gianetti da Fonseca: “Transmitir para o consumidor a volatilidade do mercado de petróleo mundial e da variação da taxa de câmbio no Brasil todos os dias é uma maluquice”. Ponto.

Samuel Pessoa, que se tornou uma espécie de Marco Antônio Villa da economia, com foco exclusivo em militância ideológica, atribuiu a responsabilidade ao governo Dilma, é claro. Confiram o que a ideologia faz com até com pessoas preparadas:

Primeiro  Pessoa diz que a responsabilidade é do governo Dilma que aumentou muito a frota de caminhões, com isso barateando os fretes. Ou seja, a saída seria uma explosão nos fretes para repassar a explosão dos derivados.

Poucos parágrafos adiante, ele completa:

 “Em meio a uma recuperação frustrada da economia, os fretes, pressionados pelos custos do diesel, nas rotas agrícolas, subiram de janeiro até abril algo como 40% em termos reais. Em geral, nessa época do ano, os fretes agrícolas sobem uns 20%. Caminhões perdem espaço para ferrovias, o que não é ruim. Mas com tanto caminhão...””.

Entenderam? Primeiro acusa o excesso de caminhões pela redução dos fretes. Em seguida, acusa o excesso de caminhões pelo... aumento dos fretes. Villa não se sairia melhor.


“Se o preço do diesel salgou a operação do setor de transporte de cargas o problema é dele, não de uma população que foi afetada pelo desabastecimento e agora pagará a conta”.

Em um país essencialmente rodoviário, o frete é um dos preços básicos da economia. Se aumenta o frete, toda a população é afetada pelo repasse dos custos aos alimentos, remédios e abastecimento em geral. A greve faz a população pagar a conta por 15 dias. Explosão dos preços de combustíveis, repassados para fretes, faz pagar a conta dali por diante.

E completa com a saída mágica, eco do coro de uma voz só da Globonews: “Deveria ter provisionado um colchão financeiro para subsidiar a Petrobras, mas essa ideia era repelida pelos sábios da ekipekonômica. Diante do caos, descobriram que o colchão era necessário”.

Um país imerso em uma crise fiscal gigantesca, amarrado pela PEC do Teto, com estados exangues, sem conseguir cobrir a folha, com cortes na saúde, na educação, e o doutor com seus conselhos salvadores.

O que Parente tem feito com a Petrobras há muito extrapolou as hipóteses de mera incompetência;
  1. Toda empresa monopolista usa os preços como maneira de impedir a competição. No refino, Parente aumentou os preços da Petrobras para viabilizar a competição dos importados. Aumentou a vulnerabilidade externa e criou uma capacidade ociosa de 25% nas refinarias da empresa.
  2. Toda empresa privilegia os produtos acabados, em detrimento da matéria prima. Na gestão Parente, a Petrobras aumentou as exportações de petróleo cru e aumentou as importações de derivados.
  3. Toda empresa com problemas de endividamento reduz os dividendos temporariamente, para preservar os ativos e a capacidade de produção. Na gestão Parente, venderam-se ativos a preço de banana, para reduzir o endividamento e permitir o aumento na distribuição de dividendos no curto prazo.
Ou seja, usou o poder de mercado, todas as vezes, para penalizar os consumidores e para beneficiar os concorrentes.

Mas, como diz o doutor Gaspari: “Pedro Parente não provocou o caos. Desde sua posse na presidência da Petrobras ele descontaminou-a do caos que recebeu. Na base dessa façanha esteve uma nova política de preços acoplada ao valor do barril no mercado internacional”.

Como diria um filósofo do senso comum: “Assim, até eu!”. Mas, como o Gaspari diz, o povo brasileiro só paga a conta quando há blackout.

Luís Nassif
No GGN
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O ABC da ladroagem dos que assaltaram e Petrobras e da "intervenção militar"


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Uma crise local ou global


Ao analisar a greve dos caminhoneiros a imprensa está colocando o foco ora nas consequencias econômicas de curto prazo (desabastecimento, especulação, horas de trabalho perdidas, produção e distribuição de mercadorias comprometidas, colapso da produção de frangos, etc…) ou nos efeitos políticos da repressão militar ao movimento. Parente deve ou não ser demitido? Michel Temer irá ou não cair? A Petrobras deve ser pública ou privada? O monopólio do petróleo deve ou não ser restaurado?

O Brasil não é um país isolado. Gostemos ou não nosso país não deixará de fazer parte de um contexto maior. O século XIX foi da Inglaterra. O século XX foi disputado pelas duas superpotências nucleares: EUA e a URSS. Tudo indica que o século XXI será da China. Os chineses certamente trabalham com essa perspectiva: https://www.youtube.com/watch?v=5qmX4ccIfR0&feature=youtu.be e https://www.youtube.com/watch?v=DosxS4Iofek&feature=youtu.be.

Nosso país exporta uma quantidade imensa de alimentos para a China. A estabilidade do regime comunocapitalista chinês depende de 1,4 bilhão de pessoas serem abastecidas regularmente de gêneros alimentícios. Se ocorrer uma interrupção no fluxo de alimentos brasileiros (o que já deve estar ocorrendo), a China terá que encontrar fontes alternativas em outros países. Isso acarretará duas coisas: um encarecimento dos alimentos em escala planetária e uma queda abrupta dos preços dos alimentos no Brasil.

A capacidade de estoque do país é limitada. Portanto, a manutenção dos preços poderá acarretar a destruição de milhares de toneladas de alimentos que seriam exportadas com lucro. A greve dos caminhoneiros causará não só desabastecimento (e inflação), mas uma abundância de produtos alimentícios incapaz de gerar divisas e arrecadação fiscal. Os produtores e exportadores de produtos rurais apoiaram o golpe de 2016. e sofrerão consequencias devastadoras em razão da crise que eles mesmos ajudaram a criar.

Michel Temer e Pedro Parente largaram os caminhoneiros na estrada para atender os interesses norte-americanos. A esquerda insiste em criminalizar ambos por exportarem petróleo cru e importarem diesel a preços elevados. Todavia, a mim parece que a estratégia de longo prazo dos EUA não é apenas lucrar com a exportação de derivados de petróleo para o Brasil. Ao desorganizar a economia rural exportadora brasileira provocando a crise em curso, os norte-americanos conseguirão provocar um dano de grande monta à estratégia de longo prazo da China.

Os ruralistas serão sacrificados no altar do Tio Sam não porque são ineficientes, mas porque a eficiência deles poderia consolidar a nova Rota da Seda e comprometer a estratégia de preservação da hegemonia norte-americana. Os concorrentes deles nos EUA irão lucrar exportando mais a um preço maior para a China. E os chineses inevitavelmente se tornarão mais dependentes dos EUA do que gostariam.

A estratégia da Rússia é se aproximar da China e da Europa. A da China é se aproximar da Europa e da Rússia. Os norte-americanos lutam para consolidar sua posição no planeta para não ficarem isolados. Portanto, para entender o que está ocorrendo precisamos ficar com um olho no Brasil e os dois outros na China, na Rússia e EUA. Os ruralistas acreditaram que poderiam lucrar derrubando o PT com ajuda da Embaixada dos EUA. Mas os planos dos EUA para o Brasil não incluem necessariamente a preservação do agronegócio brasileiro.

Fábio de Oliveira Ribeiro
No GGN
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A esquerda ainda não percebeu a gravidade do momento atual

A ESQUERDA AINDA NÃO PERCEBEU A GRAVIDADE DO MOMENTO QUE ESTAMOS VIVENDO.

O GOVERNO FEDERAL NÃO ACABA COM A PARALISAÇÃO DOS CAMINHONEIROS (LOCAUTE) PORQUE NÃO DESEJA, PORQUE NÃO QUER!!!

O governo do Senhor Temer está fazendo "corpo mole" e dando tempo para a criação do caos em nossa sociedade.

A democracia vai ser vítima da maior farsa da história recente do nosso país!!!

Vamos ser vítimas de um sórdido golpe em nossas vidas!!!

A quem interessa este caos que está se configurando?

A quem interessa cancelar as próximas eleições?

Alguém acha que o senhor Temer vai esperar tranquilamente o mês de janeiro para ser preso?

Todos os segmentos de direita estão apoiando este Locaute. Só não vê quem não quer... Trata-se de um novo golpe da classe empresarial, em parceria com o que há de pior em nossa política.

Hoje à noite, a Rede Globo, através do programa "Fantástico", vai fomentar o clima de caos e o pânico em nossa sociedade.

Sempre foi assim. Vamos aprender com a história. Sequer se pode afastar alguma contribuição de organismos internacionais.

Por que não estão multando os caminhões? Por que não dissolvem as obstruções da estradas?

Estão fingindo que estão negociando (não se sabe com quem) para simular que não estão indiferentes ao movimento. Entretanto, na verdade, estão coniventes com tudo isso.

Trata-se de uma grande trama da classe empresarial, dos segmentos fascistas da sociedade e deste governo golpista para evitar que a esquerda retorne ao poder através das eleições de outubro.

A esquerda ainda não percebeu a gravidade do momento atual.

Vamos ter uma nova intervenção militar no Brasil!!! Meus netos vão batalhar para a instauração de uma NOVA COMISSÃO DA VERDADE.

Acorda, esquerda!!! Acorda, esquerda!!!

Afranio Silva Jardim, professor de Direito da Uerj.
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Temer deveria renunciar


Se houvesse um pouco de dignidade ou espírito publico na alma de Michel Temer ele deveria renunciar à cadeira em que sentou depois da deposição ilegítima de Dilma Roussef.

Temer desuniu e desagregou o país. Lançou ao inferno os deputados da própria base, que entornaram cálices de cicuta ao absolvê-lo de dois pedidos de afastamento do cargo formulados pela Procuradoria Geral da República sob o argumento de que o faziam "porque o Brasil precisa seguir avançando depois do impeachment". O fato é que o país andou para trás e esses parlamentares serão cobrados em praça pública por eleitores que exibirão suas imagens e seus discursos no microfone do plenário.

Se houvesse algo digno na alma de Temer, em que pese o risco de ser preso e de ver também em cana seu primeiro-ministro Moreira Franco, ele deveria renunciar ao cargo que ocupa sem legitimidade, sem competência, sem hombridade.

Só esse gesto, parece-me, seria capaz agora de reunificar a Nação que está aos cacos e assegurar alguma estabilidade para a travessia até outubro, até 1o de janeiro de 2019.

Temer perdeu qualquer condição de se imaginar governo, porque ocupou o poder não com um projeto de país - mas sim com a intenção de lotear os espaços públicos.

O problema de apelar para algo que reste de dignidade ou espírito público na alma de Temer reside numa impossibilidade metafísica: Temer não tem alma.

Luís Costa Pinto
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Quem é o homem que, sob tortura, foi obrigado a pedir perdão aos caminhoneiros


Marcos Bono, vítima da tribunal dos caminhoneiros: político progressista, foi punido por expressar sua opinião
É errado tomar a parte pelo todo, mas não se deve ignorar as vozes que emergem desse movimento dos caminhoneiros: a mensagem é retrógrada e muito perigosa, daí porque as centrais sindicais deveriam ter ponderado melhor antes de manifestar apoio a essa paralisação.

Um exemplo foi a agressão covarde a um homem na região de Araçatuba, interior de São Paulo, conforme mostram as imagens registradas por eles mesmos e colocadas na rede.

A vítima é Marcos Bono Machado. Ele foi professor, é comerciante, foi vereador em Avanhandava entre 2009 e 2012.

Na última eleição, Marcos Bono se apresentou como candidato a prefeito pelo PR, numa aliança com o PT, PC do B e outros partidos de esquerda ou centro-esquerda.

A página dele no Facebook mostra que é um crítico do golpe e costuma compartilhar mensagens de políticos progressistas, como o senador Humberto Costa e o deputado Carlos Zarattini, ambos do PT.

No dia 18 de maio, escreveu:

Tenho dó dos coxinhas , A LEI É BEM CLARA ,O POVO NÃO É BOBO , VAI DAR A RESPOSTA NAS URNAS, HJ A GASOLINA ALMENTOU MAIS UMA VEZ, SEUS FILHOS DA PUTAS , PEGA AS PANELAS QUE VOCEIS BATERAM PARA TIRAR A DILMA SOCA NO C?????????.

Não sei se é essa postagem que despertou a ira dos caminhoneiros que o submeteram a uma sessão de humilhação e violência física — levou um tapa e foi obrigado a pedir perdão de joelhos—, atitude que poderia ser interpretada como tortura.

Os agressores mencionam algo como manifestação do professor pela rede social. Está tudo registrado (vídeo abaixo), e se autoridades quisessem poderiam enquadrá-los. Mas, pelo que se vê, não existe disposição de fazer valer a Constituição brasileira.

O empresário Vittorio Medioli, que fez fortuna com o transporte de automóveis e é dono de uma das maiores transportadoras do Brasil, se sentiu à vontade para desafiar autoridades com um vídeo em que estimula a paralisação. “Estamos juntos”, diz.

Um comerciante de Sorocaba, dono de um loja de médio porte, colocou seus funcionários — cerca de 20 — para gravar um vídeo em que propõe que as lojas de todo o Brasil fechem em apoio aos caminhoneiros, para provocar um apagão fiscal no governo, e force mudanças.

O objetivo deles, portanto, é político.

Tanto o milionário Medioli, que é prefeito de Betim e até pouco tempo atrás era do PSDB, quanto o pequeno empresário de Sorocaba — que deve se julgar rico — cometem crime: paralisação, por iniciativa de donos do capital, é locaute, sabotagem.

A eles é que se somaram os caminhoneiros mais exaltados. E é preciso descobrir quem os sustenta.

Um equipe de TV mostrou uma camionete distribuindo víveres para os motoristas parados no acostamento.

Alguns caminhoneiros se declaram eleitores de Bolsonaro, outros defendem abertamente intervenção militar. Querem o MBL ao lado deles.

A cena do caminhoneiros agredindo o professor de Avanhandava lembra as manifestações no Sul do País, quando Lula esteve lá, em sua última caravana.

Não são tão numerosos, mas são muito barulhentos. No Sul, fecharam rodovias com caminhões e equipamentos agrícolas, alguns estavam armados. Bateram em mulheres em uma cidade, um deles usou chicote em outra.

Conseguiram impedir a entrada de Lula em Passo Fundo.

Causaram lesões graves em manifestantes em Chapecó, usando pedras. Protagonizaram agressões racistas contra apoiadores de Lula que são negros.

Deram tiros em ônibus da caravana — um dos disparos acertou veículo em que eu estava, dois metros distante da minha poltrona.

Com Lula preso, a violência continuou. No Paraná, um homem atirou contra o acampamento, feriu duas pessoas, uma com gravidade.

Ninguém foi punido por essas agressões, e, diante da fraqueza (ou cumplicidade) das autoridades, a violência tem aumentado.

No que diz respeito aos caminhoneiros, é preciso reconhecer: a reivindicação deles é justa. Mas há sinais de que não é uma manifestação por conquistas econômicas. Parecem querer derrubar o governo.

Infelizmente, no campo progressista, tem gente que se empolga com disposição dos caminhoneiros.

É um equívoco grave. A menos de cinco meses para a eleição, a queda de Temer agora é um passo na escuridão.

A direita não tem candidato viável, enquanto a esquerda dá sinais de vitalidade, com a força demonstrada por Lula.  Mesmo preso.

Todas as pesquisas mostram que Lula (ou o candidato que indicar) lidera as pesquisas de intenção de voto.

O tumulto institucional, nesse momento, só interessa a quem tem medo das eleições.

Os progressistas não precisam dos caminhoneiros para varrer Temer do Planalto. É pela força do povo, não pela truculência desse movimento.



Joaquim de Carvalho
No DCM
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Empresário que gravou apoio à greve dos caminhoneiros foi condenado à prisão no caso Banestado




Viralizou o vídeo do prefeito de Betim (MG), Vittorio Medioli, do Podemos, apoiando a greve que está inviabilizando o país.

“Quero dar a minha solidariedade aos caminhoneiros que pararam o Brasil. É a medida mais acertada dos últimos dez anos. O governo tem que entender”, diz.

Para Medioli, “substituíram os corruptos pelos incompetentes” na Petrobras.

Movido por vaidade, oportunismo e sabe Deus o que mais, Medioli deu um tiro no pé.

Ele é dono de uma transportadora, o grupo SADA, chamada de empresa de “companhia de logística”. Reforça que o que ocorreu foi um locaute.

Essa é apenas uma de suas empresas. Eu falei dele recentemente.

De acordo com a declaração feita para a Justiça Eleitoral, sua fortuna é de pouco mais de 350 milhões de reais, quase o dobro dos 180 milhões declarados por João Doria, segundo a Exame.

Nascido em Parma, na Itália, numa família dona de moinhos de farinha, veio para o Brasil em 1976, aos 24 anos, a convite da Fiat, que montava sua primeira fábrica no Brasil. 

Prosperaram.

Medioli naturalizou-se em 1981. Em 1996, comprou o jornal O Tempo como presente para a mulher. Tem uma coluna ali.

No último dia 6, perpetrou um besteirol antissemita estúpido cujo mote eram os 200 anos do nascimento de Karl Marx.

Conseguiu misturar os “iluminatti” com o infame “Protocolo dos Sábios de Sião”, falsificação criada na Rússia czarista que pintava os judeus como protagonistas de uma conspiração mundial que visava a “destruição do mundo ocidental”.

Medioli inventa que o nome “original” de Marx era “Moses Mordechai Marx Levi”, invenção da extrema direita lelé obcecada com a “nova ordem mundial” e o super poder dos “Rothschilds”.

Em 2015, a Justiça Federal em Minas o condenou a 5 anos e 5 meses de prisão pelos crimes de evasão de divisas e manutenção clandestina de depósitos no exterior.

A Operação Farol da Colina desmontou uma rede formada por mais de 60 doleiros que, segundo a acusação, remetiam dinheiro sujo para os Estados Unidos.

A investigação foi um desdobramento, veja só, do caso Banestado. Na época, ele era deputado federal pelo PSDB.

Na denúncia, Medioli aparece como autor de uma operação de câmbio não autorizada com o fim de promover evasão de divisas do país, além de ter mantido depósito no exterior sem informá-lo às autoridades competentes.

Ele recorre da sentença.

Como gostam os conterrâneos de Medioli: tutti buona gente.

Kiko Nogueira
No DCM
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Ao contrário

Os ingleses fizeram a primeira revolução republicana da História, mas, sabiamente, voltaram atrás e mantiveram a monarquia, intuindo que um poder não pode governar e dar espetáculo ao mesmo tempo. Na Inglaterra, o parlamento governa e a monarquia dá o espetáculo. A sabedoria da decisão se confirmou na era dos tabloides, para a qual o parlamento tem dado sua cota de escândalos e assunto, mas nada parecidos com os fornecidos pela família real. Pois o que são os rituais cotidianos e pecados venais de plebeus comparados com a pompa e as indiscrições de príncipes e princesas? A realeza é paga para ser o teatro do poder, uma representação do Estado como drama familiar, como sitcom, para inspirar, divertir ou indignar os súditos. Ou enternecê-los com cada novo bebê da Kate. Enquanto isso, os parlamentares governam.

No Brasil, ao contrário, somos anti-ingleses. Aqui o rei e sua família dão a sua cota de escândalo e assunto, mas o parlamento e o judiciário é que têm dado o espetáculo. Nos revelam a sua intimidade, os seus conflitos de lealdades e escrúpulos, os seus podres, as suas culpas e expiações - e seus pseudopríncipes, pseudoprincesas e maus atores - e concentram o interesse da imprensa e do público. O rei reteve alguns privilégios da monarquia absoluta, anteriores a todas as revoluções, mas os escândalos do palácio não se comparam aos escândalos do parlamento e das cortes. Com todos os seus problemas, caminhando rapidamente para a irrelevância, Temer não chega nem a ser uma figura trágica. O espetáculo que ele dá é de uma vítima patética das circunstâncias que ele mesmo ajudou a criar, com o golpe na Dilma.

Já se disse que o Brasil está várias revoluções atrasado. Se nem o fim do feudalismo foi providenciado ainda, não se pode pensar em implantar o sistema inglês aqui - como naquele anúncio que oferecia mudas de árvores milenares - nem tentar acertar o funcionamento dessa nossa monarquia parlamentar ao avesso para poupar nossos parlamentares da desmoralização total. Na própria Inglaterra, já tem muita gente achando que a monarquia é um anacronismo condenado, cujo custo não compensa o teatro. Vão acabar dizendo o mesmo do Congresso brasileiro. 

Luís Fernando Veríssimo
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Nota do Programa da Revolução Brasileira sobre a greve dos caminhoneiros


A greve dos caminhoneiros que já avança pelo quinto dia, sem previsão de término, ameaça colocar o país em um impasse econômico e político. É preciso uma interpretação política para este evento de largas proporções, pois o senso comum e a aparência das coisas nunca são bons conselheiros. Neste sentido, contextualizar a greve como um momento da atual guerra de classes e da crise terminal do sistema petucano é fundamental, colocando-a onde realmente deve estar: mais uma contradição insolúvel do projeto liberal que está no poder desde a construção do Plano Real e da implementação da lógica da austeridade sobre o Estado e o povo.

Origem da greve

A origem da greve de caminhoneiros é anterior à adoção da nova política de preços da Petrobrás e à elevação recente do preço do óleo diesel. Tudo começou com a política liberal em defesa dos monopólios adotada ainda no primeiro mandato do governo Dilma. Uma das medidas da chamada “nova matriz econômica” foi a forte queda do IPI e a oferta de juros subsidiados através do BNDES para a compra de caminhões. Desta maneira, houve expressivo aumento da oferta destes veículos nas estradas brasileiras, em clara estratégia de prorrogar a deflagração da crise econômica por meio de subsídios aos monopólios da indústria automobilística.

Neste contexto, ampliou-se sobremaneira o assalto ao Estado brasileiro por parte dos capitalistas, o que viria a estourar logo em seguida, no momento de queda do preço dos produtos de exportação e na crise brutal de desemprego do setor automotor. Como resultado, os subsídios bilionários aos monopólios se somaram ao gasto financeiro do Estado. Quando Dilma eleva firmemente os juros em 2013, seguindo a deliberação dos banqueiros, estava deflagrada a profunda crise financeira da república rentista brasileira.

Dilma reage promovendo o pacote de austeridade trazido por Joaquim Levy, a primeira etapa do ajuste fiscal contra o povo brasileiro. Realiza o estelionato eleitoral ao cortar em 40% o investimento público e dificultar o acesso à alguns direitos trabalhistas. Por consequência, explode o desemprego e o país caminha para uma profunda recessão. Ainda em 2015, os caminhoneiros, que recentemente haviam comprado um ou mais veículos e estavam endividados por conta disso, sofrem com a queda da oferta de fretes e o aumento do preço do óleo diesel.

Na esteira do ajuste fiscal, Dilma inicia a mudança na política de preços da Petrobras, muito antes de Pedro Parente assumir a presidência. Reajusta o preço dos combustíveis na linha de sanar a crise financeira do Estado e agradar a sanha dos acionistas. Resultado: explode a primeira grande greve de caminhoneiros que viria a ferir de morte o governo petista.

Obviamente que, naquela greve, os donos das empresas de transporte passaram a conduzir o processo, transformando o movimento dos caminhoneiros em uma luta de empresários para tirar seu quinhão do Estado. Enquanto isso, os demais sindicatos de trabalhadores, majoritariamente sob hegemonia lulista, fizeram o mesmo que haviam feito em junho de 2013: trataram de acusar os manifestantes de meros golpistas, recusando-se a disputar os rumos do movimento.

A atual greve é deflagrada por motivos semelhantes a anterior. Se na anterior a queda dos fretes era mais profunda, agora a política de preços do combustível é mais danosa para os caminhoneiros. A política para a Petrobrás implementada por Temer, que prioriza a importação de óleo diesel justamente em momento de desvalorização do Real, explodiu o preço dos combustíveis. O desdobramento é o mesmo: greve ainda mais forte dos caminhoneiros, que inclusive aprenderam com o movimento de 2015.

A similaridade de ambos os momentos está em que, por um lado, a crise financeira do Estado permanece e se agrava e, por outro, a degeneração das condições de vida da classe trabalhadora se amplifica. Se todas as medidas adotadas por Dilma e Temer trataram de recuperar a lucratividade dos monopólios, não foram capazes de gerar crescimento econômico e redução do desemprego. A massa de lucros que não vai para a ampliação produtiva passa a pressionar as formas rentistas de valorização, redobrando a crise financeira do Estado.

Resumo da ópera: não há capacidade do projeto liberal de Michel Temer colher aquilo que prometeu, o país entra em recessão, com elevado desemprego e queda drástica da inflação. Assim, o aumento do óleo diesel, fundamental para a política de priorização dos acionistas da Petrobras, não pode ser repassado para o frete, fazendo explodir nova e mais radical greve de caminhoneiros.

Quem participa da greve?

Três perfis de caminhoneiros estão em greve. Trabalhadores contratados por grandes empresas, caminhoneiros autônomos (donos do seu próprio caminhão) e autônomos donos de pequenas frotas de caminhões. Se o primeiro perfil é tipicamente proletário (aquele que não dispõe dos meios de produção), o segundo e o terceiro supostamente são proprietários. Dizemos “supostamente” por um motivo altamente relevante: a crise capitalista que se aprofunda coloca em xeque sua posição. As dívidas dos caminhões estão aí, os custos de rodagem também, e não há perspectiva de crescimento econômico que possa assegurar suas propriedades no futuro.

Pesquisa da CNT divulgada em 2017 demonstra claramente este cenário assustador para os caminhoneiros. O número de empresas de transporte rodoviário de carga caiu de 156.765 para 111.743 entre 2015 e 2016, redução de 29%. Já nos caminhoneiros autônomos, a queda foi ainda maior. Eram 723.807 em 2015 e passaram a 553.643 em 2016. Isso representa um encolhimento de 23% da categoria. Nada nos leva a crer que o cenário não se aprofundou em 2017 e 2018, já que todas as condições para a liquidação dos caminhoneiros foram mantidas e, até mesmo, ampliadas.

Por isso mesmo, a greve se radicalizou justamente na ameaça de proletarização destes setores. É daí que emerge o desespero destes sujeitos que saem à greve, com a intransigência típica daqueles que estão dispostos a levar suas convicções até as últimas consequências. Já os motoristas contratados, sejam celetistas ou informais, aderem em sua maioria por pressão das empresas, já que o aumento ou redução do preço do combustível altera muito pouco os seus salários.

Obviamente que, em função destes setores de pequenos proprietários não se contraporem ao poder direto do capital, sua reivindicação acaba se resumindo à redução do preço dos combustíveis. Imediatamente não são revolucionários, não atuam contra a propriedade privada. Entretanto, indiretamente, paralisam toda a produção capitalista nacional, gerando prejuízos intoleráveis para os monopólios capitalistas.

O limite de sua reivindicação

A natureza de pequenos proprietários limita a reivindicação dos caminhoneiros. Resumem-se a reclamar seu quinhão no assalto ao Estado. Se os monopólios saqueiam por meio da dívida pública e das desonerações, por que os caminhoneiros, com todo este poder de parar o país, não podem pedir a sua parte?

Sem consciência de classe, as empresas de transporte passam a ser aliadas, já que autônomos e empresas reivindicam ambos a redução de seus custos. Não entendem, no entanto, que a dinâmica econômica da guerra de classes não reserva futuro para eles. Podem vencer e rebaixar seus custos, mas isso não impedirá que em um futuro breve percam seus caminhões e passem a trabalhar para monopólios em um contexto de superexploração da força de trabalho.

Os caminhoneiros somente poderiam vencer se estivessem ao lado da classe operária.

Onde está a classe operária?

Aqui mora o drama do atual momento político brasileiro, que já se arrasta há alguns anos. Os partidos liberais de esquerda e o sindicalismo oficial, comandados pelo lulismo, demonstram sua incapacidade completa de travar a guerra de classes. Ao invés de disputar o movimento de caminhoneiros, preferem repetir junho de 2013 e inventar fantasmas de que as mobilizações são expressões “claríssimas” da ascensão do fascismo. Mais uma vez, preferem ficar enclausurados em sua crença republicana e democrática vulgar. Não é por acaso que frases como “Lula livre”, “caminhoneiros ajudaram no golpe”, “estão pagando por terem derrubado a Dilma”, “caminhoneiros querem a intervenção militar”, etc., abundam dentro de suas hostes.

Nenhuma força do liberalismo de esquerda foi capaz de diagnosticar a profundidade da crise capitalista atual. Não conseguem perceber que estamos vivendo a crise terminal do sistema petucano, sem possibilidade de sua reedição. Como não tem isso em mente, continuam atuando na tentativa de defender um passado que criou a atual guerra de classe. Os trabalhadores não aceitam mais o cretinismo parlamentar segundo o qual seus problemas poderiam ser resolvidos no confortável ambiente da casa legislativa. Ao defenderem o sistema petucano e não o responsabilizá-lo pelos dramas atuais, as lideranças do liberalismo de esquerda reforçam um divórcio profundo com a classe em luta.

Por isso mesmo não mudam sua conduta política. Nenhum trabalho organizativo e de agitação e propaganda foi feito desde junho de 2013 ou desde a última greve de caminhoneiros em 2015. Continuam aferrados ao seu liberalismo, bloqueando a luta dos trabalhadores e jogando no colo das forças reacionárias a organização destes movimentos.

A crise e as greves permanecerão

As medidas acordadas entre Temer e representantes dos caminhoneiros, inexoravelmente reforçam a crise financeira do Estado, a guerra de classes e as profundas contradições do programa econômico em curso. A desoneração da Cide sobre os combustíveis, por exemplo, gera um custo expressivo em renúncia fiscal para o Estado até o final do ano. Também existem tratativas entre Temer e os governadores para reduzir a tributação de ICMS sobre os combustíveis.

A revisão da política de preços da Petrobras, tocada a ferro e fogo por Pedro Parente, será a última alternativa do governo e a menos desejável pelo capital. Colocaria um sério problema na estratégia de liberalizar o mercado de petróleo brasileiro e atrair dólares para compensar o déficit do balanço de pagamentos. Diante desta possibilidade, os fundos de investimento imediatamente pressionam as ações da Petrobras.

A única saída para o Estado liberal é reforçar a austeridade para cima do povo brasileiro. Prepara-se o clima para a terceira etapa do ajuste fiscal iniciado por Dilma e radicalizado por Temer. Certamente teremos uma nova tentativa de destruição da previdência, a intensificação das privatizações das empresas estatais, a ampliação do sucateamento do serviço público e uma nova rodada de arrocho sobre estados e municípios.

O anúncio do uso das forças nacionais de segurança por Temer não muda o cenário. Inclusive, há sérias dúvidas de que seja possível desmobilizar os caminhoneiros através desse recurso.

De outro lado, o aumento da exploração em conjunto com a recessão econômica permanece. O Brasil patina no contexto da economia mundial e não encontra um encaixe que lhe permita participar novamente das “cadeias globais de valor”.

Certamente as greves permanecerão em alta, não apenas dentre os caminhoneiros, mas também em outras importantes categorias. Não esqueçamos, por exemplo, das recentes greves dos trabalhadores da construção civil de São Paulo, do serviço público de Florianópolis e da Mercedes-Benz em São Bernardo. A poderosa ascensão grevista, que, segundo dados do Dieese, já ocorre desde 2012, terá a partir de agora um novo impulso.

Nestas circunstâncias, nosso objetivo estratégico é a superação das direções sindicais e partidárias dominadas pelo liberalismo de esquerda. Não se pode vacilar diante da radicalização da guerra de classes. São tempos de novo radicalismo político, tempos da Revolução Brasileira.

PROGRAMA DA REVOLUÇÃO BRASILEIRA

Nildo Ouriques - economista e professor da UFSC, foi pré-candidato à Presidência pelo PSOL.
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Falta combinar no WhatsApp

Por 24 horas, nossa repórter acompanhou quatro grupos de caminhoneiros no aplicativo; viu minuto a minuto eles se insurgirem contra as forças federais, desprezarem o acordo de Temer e se negarem a encerrar a paralisação

Paula Cardoso
Um grupo de líderes do movimento de caminhoneiros, vestidos de terno e gravata, se reuniu com os ministros do governo Temer em frente às câmeras de tevê para endossar um acordo que prometia acabar com a paralisação que tomou conta do país. A reação imediata, longe de ser tranquilizadora, espalhou-se em grupos de WhatsApp de caminhoneiros: vídeos e áudios indignados, sindicatos desmentidos, governo execrado. A conclamação para uma manifestação ainda maior e mais duradoura foi feita. “Desde quando autônomo tem sindicato?”, dizia um caminhoneiro no grupo “Lutar pelo Melhor”. “Acabou coisa nenhuma. Esse sindicato não vale nada”, dizia outro, com telefone de São Paulo. “Isso é mentira. Não acabou, não. Não atingiu nosso objetivo”, escreveu um terceiro, também paulista.

Quando o governo anunciou, depois, que acionaria forças nacionais para liberar as estradas ocupadas, a reação também foi de resistência nos quatro grupos de caminhoneiros no WhatsApp dos quais a piauí participou, desde a tarde de quinta-feira. “A orientação dos advogados é a seguinte: se o Exército chegar é pra sentar no chão e botar a mão na cabeça, em sinal de rendição”, disse um caminhoneiro no grupo “Brasileiros/Caminhoneiros”, com 252 integrantes de São Paulo, Minas Gerais e Pernambuco. “Tira a chave do caminhão e sai fora, deixa rolar”, postou outro. As mensagens demonstravam uma intenção de evitar enfrentamentos, mas de não sair das estradas nos próximos dias.

Nos grupos, os próprios participantes da negociação com o governo eram desqualificados pelos caminhoneiros. Logo após o anúncio do acordo em Brasília, os integrantes do grupo “Ajudando Caminhoneiros” enviaram mensagens em que diziam que um piloto de Fórmula Truck não é representante da classe. O comentário era seguido de uma foto de um dos negociadores, o presidente da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos, Diumar Bueno, vestindo uniforme de corrida. Em outro grupo, “Caminhoneiros pelo Brasil” – com cerca de 200 participantes, de Santos, Minas e do Nordeste – uma foto de um jornal regional que falava do “fim da greve” era tratado como “fake news”. O anúncio do acordo deixou os caminhoneiros desses grupos ainda mais inflamados. Muitos perfis começaram a usar como foto de apresentação uma tarja com “Greve Continua” ou a hashtag #somostodoscaminhoneiros.

Uma das conclusões do acompanhamento minuto a minuto das mensagens nesses grupos é que a liderança dos mais de dois milhões de caminhoneiros do país está longe de se encerrar nos oito representantes que se reuniram com os ministros. São centenas de líderes, não necessariamente ligados a sindicatos. “Cada bloqueio tem o seu líder”, disse à piauí o caminhoneiro conhecido como “Ferro Velho”, um dos organizadores dos bloqueios em Jacareí, em São Paulo, na Rodovia Presidente Dutra, que liga São Paulo e Rio de Janeiro. A declaração dá a medida do desafio que será desmontar a paralisação. Em Chorozinho, perto de Fortaleza, o líder Jaime enviou um vídeo, no grupo “Lutar pelo Melhor”, mostrando que nada mudou em função do anúncio do acordo de Temer com os representantes. “O que eles vão fazer agora é usar esse acordo contra nós, ameaçando com multas”, disse Jaime.

Em Barueri, na Grande São Paulo, o caminhoneiro e empresário Claudinei Habacuque, dono de quatro caminhões de carga refrigerada, colocava-se à frente de um piquete que fechou a entrada do terminal de distribuição de combustíveis da Petrobras. Ele lidera o bloqueio que impede a saída de caminhões que abastecem a cidade de São Paulo, e tenta despontar como liderança nacional. Habacuque participa de mais de dez grupos de WhatsApp e, na terça-feira, fez uma transmissão ao vivo em seu Facebook que chegou a mais de 2 milhões de visualizações. O caminhoneiro relembra que, também convocada pelas redes, uma paralisação já estava marcada para 10 de maio. Mas não houve adesão. A virada veio na segunda-feira, 21 de maio, após o terceiro aumento consecutivo no preço do diesel em menos de uma semana, que coincidiu com o período do mês em que a carga a ser transportada diminui. Cinquenta caminhões pararam na Rodovia Castelo Branco, em São Paulo, e dali em diante a paralisação ganhou força.

Um dos grupos de WhatsApp dos quais Habacuque participa, segundo disse, é composto apenas por líderes de bloqueios. São mais de 200 inscritos. As mensagens vão se acumulando à medida em que mais caminhoneiros aderem ao movimento. Habacuque se diz surpreso com a proporção que tomou a paralisação – ele acreditava que o governo tomaria medidas efetivas rapidamente. Agora, com a força que ganhou o movimento, ele afirma que os protestos só acabam quando o diesel chegar na bomba a 3 reais, durante pelo menos seis meses. Os preços hoje estão entre 3,90 reais e 4,10 reais em São Paulo. Para encher o tanque de um caminhão, que na média tem capacidade de mil litros, gasta-se mais de 3 mil reais. Por isso, Habacuque insiste em dizer que o preço do diesel a 3 reais é o único tema relevante da pauta, e não os descontos de 10% por 30 dias, como o governo ofereceu.

Ser reconhecido como representante do movimento não tem sido uma tarefa fácil. Assim como não são reconhecidos os negociadores que se reuniram em Brasília – representantes de confederações e sindicatos de transportadores de São Paulo, Distrito Federal, Minas Gerais, Espírito Santo e do Nordeste –, os próprios líderes locais não têm essa prerrogativa clara. Habacuque lidera um piquete em local importante, mas seu poder se restringe à região de Barueri. “O que qualquer um disser aqui, alguém pode dizer diferente em outro lugar, ou mais pra frente”, disse um outro caminhoneiro no bloqueio de Barueri, que pediu para não ter seu nome divulgado.

Sete líderes foram ouvidos pela piauí sobre quem personificaria melhor uma representação nacional, mas não há consenso. Para Habacuque, por exemplo, é possível ter um líder por estado, mas não um nacional. O caminhoneiro André Almeida, que lidera todo ano uma romaria com dezenas de caminhoneiros a Aparecida do Norte, e atua nos piquetes em Guarulhos, explicou como vê a negociação. “O governo diz na televisão o que vai fazer e ficará sabendo se os caminhoneiros concordaram ou não quando os caminhões começarem a rodar pelo país”, disse.

Nos grupos de WhatsApp a percepção é de que o fôlego do movimento está longe de acabar. Nos grupos “Lutar pelo Melhor”, que reúne diversos líderes de bloqueios, e “Ajudando Caminhoneiros”, os integrantes lembram de como, às vezes, chegam a ficar parados por vinte dias quando o caminhão quebra. Não são cinco dias sem faturar que vão abalar seus orçamentos, dizem. “Caminhão quando quebra câmbio, quebra motor, a gente fica 30 dias na oficina, quem já passou por isso sabe. E o cara sobrevive malandro”, escreveu um caminhoneiro, com celular de São Paulo. Também apareceram nos grupos avisos de que ninguém atualize o WhatsApp para evitar alguma estratégia do governo para “bloquear a comunicação”.

À medida que os dias passam, outros temas surgem nas discussões. Não é só o diesel. Em frente à unidade da Petrobras em Barueri, a conversa nesta quinta-feira girava em torno até do abuso de poder dos bancos, de privatização ou da impunidade na Justiça. Nos grupos de WhatsApp, os manifestantes também se gabam que o apoio ao movimento está ganhando força entre a população por não haver bandeiras da CUT, camisas do PT, gritos de Lula Livre, MST, apoio de artistas. E, após o anúncio do acordo pelos ministros de Temer, a pauta que circulou incluía a renúncia do presidente da República e eleições antecipadas.

Se por um lado não há sinal de movimentos sociais, por outro são fortes os indícios de apoio ao pré-candidato à Presidência Jair Bolsonaro e palavras de ordem de “Intervenção Já”. Citando a reivindicações econômicas da classe, Habacuque afirmou que a força do movimento está em “não ser político”. Ele mesmo, porém, já foi candidato a deputado federal em 2014, pelo PSL, o mesmo partido de Bolsonaro, e não esconde o apreço pelo pré-candidato. “Sabe que todo caminhoneiro vota no Bolsonaro, né?”, disse. “É porque o plano dele para nossa classe é claro. Ele vai nos valorizar e cuidar da segurança.” E onde está esse plano? Segundo o líder do bloqueio em Barueri, o responsável por essa parte do programa de governo de Bolsonaro é o empresário Emílio Dalçóquio, dono de uma transportadora em Santa Catarina com frota de 600 caminhões, e que apoia publicamente o movimento e a candidatura do militar reformado. Procurado, o empresário não atendeu ao pedido de entrevistas até a publicação desta reportagem.

Nos quatro grupos de WhatsApp dos caminhoneiros, o apoio político ao pré-candidato do PSL é evidente. “Galera quem aí apoia o Bolsonaro? Quem quiser dá uma passadinha no meu Insta e segue lá”, afirmou um integrante dos “Carreteiros na Luta”, um grupo com 257 participantes, quase todos de Santa Catarina. O slogan de “Intervenção Já” também tem sido usado com frequência pelos integrantes desse grupo, compartilhado junto com vídeos de militares incentivando os caminhoneiros a não desistirem. No grupo catarinense de WhatsApp, integrantes chegaram a dizer que uma intervenção está sendo organizada para a semana que vem. “Vamos parar o Brasil. Vamos parar tudo. Você que quer uma intervenção civil e militar saia às ruas e dê apoio aos caminhoneiros”, diz um dos vídeos. Fotos de faixas com pedidos de intervenção, penduradas nos caminhões, também circularam nos grupos, especialmente após o anúncio de Temer de usar as forças nacionais.

Foto que circulou em um dos grupos de caminhoneiros
Em alguns bloqueios, como em Barueri, o comentário era de que muitos patrões apoiam a paralisação. A participação e o apoio de empresários do setor pode configurar um locaute, o que é ilegal. Na noite de quinta-feira, em uma entrevista à Folha de S.Paulo, o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, levantou essa suspeita. O ministro citou casos de empresários que se recusaram a fazer transporte de caminhões-pipa mesmo com escolta da Polícia Rodoviária Federal, o que configuraria um locaute. Nos grupos, menções a Jungmann só apareceram nesta sexta-feira, depois do pronunciamento de Temer. É chamado de “comunista”.

Josette Goulart, Repórter investigativa e documentarista. Trabalhou no Valor Econômico, O Estado de S.Paulo, entre outros
No Piauí
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Uma padaria para chamar de Petrobrás


Para justificar sua política de preços, o atual presidente da Petrobrás, Pedro Parente, compara a Companhia a uma padaria.

Afirma que, da mesma forma que o padeiro não determina o preço do pãozinho, dependente do preço do trigo no mercado internacional, a Petrobrás também não determinaria o preço dos combustíveis que seria resultado do preço internacional do petróleo.

Trigo e petróleo, pãozinho e combustível, padaria e Petrobrás. Didático?

Estamos diante de uma metáfora, de uma falácia ou de uma metáfora falaciosa?

Proponho o seguinte exercício: vamos imaginar como seria a “Padaria Petrobrás”.

No país da “Padaria Petrobrás”, até a década de 1950, o abastecimento de pães dependia das padarias multinacionais estrangeiras, organizadas sob um cartel conhecido como o Cartel das Sete Irmãs do Trigo.

Com a campanha “O trigo é nosso” os cidadãos defenderam que o país era capaz de produzir trigo no seu próprio território.

Também que a produção de trigo e de pãezinhos desenvolveria o país.

Diante da maior mobilização popular do período contemporâneo foi criada a “Padaria Petrobrás” para exercer o monopólio integral da produção de trigo e pãezinhos, em nome do Estado Nacional.

A “Padaria Petrobrás” enfrentou muita resistência, era condenada pelas maiores empresas de comunicação do país, financiadas e a serviço dos interesses das padarias multinacionais que, até a criação da padaria nacional, dominavam todo o mercado de pães que eram importados.

Mas a população confia na padaria monopolista nacional e ela foi alcançando bons resultados, primeiro na produção de pães e depois na descoberta de trigo no país.

A padaria nacional passou a ser associada a capacidade de realização de toda a população e desmentia os céticos construindo um grande parque de panificação, responsável pelo abastecimento de todo o mercado de pães do país.

Encontrar o trigo foi seu próximo desafio, a “Padaria Petrobrás” precisou procurar em locais remotos nos quais nenhuma outra padaria havia conseguido encontrar e produzir trigo.

Finalmente, depois de ser alvo de muitas críticas daqueles que serviam às padarias estrangeiras, a “Padaria Petrobrás” encontrou trigo no fundo do mar.

Desenvolveu conhecimento único no mundo e produziu trigo onde nenhuma outra padaria havia conseguido.

Desde a descoberta do trigo abaixo do sal, a “Padaria Petrobrás” tem sido alvo de muita cobiça, suas padarias, dutos de transporte e reservas de trigo têm sido privatizados, em favor das padarias multinacionais e dos agentes do sistema financeiro internacional.

O país vive dias conturbados porque uma greve de caminhoneiros movidos a pãezinhos interrompeu o abastecimento nacional.

Eles alegam que o pão está muito caro, além de contestar a variação diária dos preços.

O abastecimento do país depende dos caminhoneiros e da frota de caminhões movidos a pão-diesel.

O preço do trigo no mercado internacional tem subido diante das guerras e instabilidades geopolíticas no Oriente Médio, região rica em reservas e exportadora de trigo, alvo da ambição dos países importadores de trigo e de suas padarias multinacionais.

A atual direção da “Padaria Petrobrás” insiste que os preços dos pães devem seguir a variação dos preços internacionais, apesar da produção do trigo e do pãozinho ser majoritariamente nacional e controlada pela própria padaria nacional.

O trigo é um patrimônio do país e a “Padaria Petrobrás” é estratégica para o desenvolvimento nacional.

Acredito que o país da “Padaria Petrobrás” vai superar mais essa.

A maioria dos cidadãos admira e defende a padaria nacional.

Eles podem eleger aqueles que pensam da mesma maneira nas Eleições Gerais de 2018 e virar mais esta página da saga da padaria que representa a capacidade de realização das pessoas deste país.

Felipe Coutinho é Presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET)
No Viomundo
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A gasolina vai voltar, mas a crise não vai terminar


Ainda secos, é possível que segunda ou terça-feira já comece a se normalizar a situação dos postos de combustíveis.

O que não quer dizer que, em alguma outra coisa que não sejam as bombas de gasolina algo possa ser descrito como “normal”.

Os remanescentes do PSDB, aquartelados nos órgãos de imprensa, levantarão barricadas pela permanência de Pedro Parente na direção da Petrobras, defendendo os valores absolutos da “liberdade de mercado” contra o “dragão dos impostos” dos quais, afinal, apesar de todos os desvios e encanamentos do rentismo, ainda pingam algumas gotas para os serviços à população.

A Globo, paradoxalmente, vai atacar os empresários de transporte, preocupada com a agressividade crescente da extrema-direita liderada na política por Jair Bolsonaro, numa tentativa de criar uma “mini Lava Jato” do bloqueio das estradas, com poucas chances de êxito. E atacando a anunciada greve dos petroleiros, prevista para quarta feira e que tem como pauta a redução do preço do gás, gasolina e diesel e a demissão de Pedro Parente.

No Congresso, Rodrigo Maia e Eunício Oliveira vão pegar carona na insatisfação da classe média com o agonizante Michel Temer e com os preços dos combustíveis. Alckmin mantem um silêncio compatível com sua situação nas pesquisas: sepulcral. Até seu principal porta-voz na mídia, Merval Pereira, admite hoje que a situação do partido é de “falência“. Claro que ele atribui a mesma situação ao PT, embora não haja nenhuma palavra sobre como um partido falido pode ter seu líder, preso e difamado, disparado à frente das enquetes eleitorais.

Teresa Cruvinel, no JB, observa, com razão, que “o governo zerou a credibilidade e ficou completamente refém do Congresso. A conta alta vem ai, apontando para o fundo do poço”.

Com todos os desvios que a especulação pode sinalizar, é certo que haverá uma deterioração da já precária situação da economia. Virão aí rebaixamentos seguidos das previsões de crescimento do PIB, elevação – ainda que moderada pela recessão – dos índices de inflação e uma tendência de elevação de juros que pode, adiante, ser grave.

A crise política só vai arrefecer se o país retomar ao menos o rumo do aquecimento da economia.

Do contrário, viveremos o que é bem expresso num velho ditado popular: casa onde falta o pão e ninguém tem razão.

Fernando Brito
No Tijolaço
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A situação provocada pelos caminhoneiros se ajusta ao que Bolsonaro diz e representa

Reuniões de militares fora dos quartéis, para "discutir a situação", só poderiam ser vistas como prática de civismo se o passado brasileiro, a partir do golpe da República, não as intrigasse com o espírito da democracia.

A gravidade da situação não esperou, para pretextar reuniões, o tumulto provocado por empresários e autônomos de carga rodoviária. Pode mesmo haver quem ligue uma coisa à outra, ao menos como conhecimento prévio.

Há poucos dias, Michel Temer pediu ao comandante do Exército uma conversa privada. O general Villas Bôas deu ao ministro da Defesa conhecimento do convite, é provável que depois relatasse a conversa, mas nada extravasou a respeito (ainda). O que confirma um lado nebuloso na realidade que logo ferveria, na segunda-feira 14, com a eclosão das reações ao terceiro aumento do diesel em uma semana.

Os efeitos rápidos e brutos da retenção de cargas e de combustível configuraram o aspecto socioeconômico e, em escala bem menor, a parte óbvia dos reflexos políticos da greve. Nestes reflexos há, no entanto, um aparente subproduto que pode ser ou tornar-se o principal, e não o sub.

É a implicação eleitoral da ação grevista. Henrique Meirelles é prejudicado, Alckmin perde algo por sua complacência com Temer e com o governo. Os demais ganham alguma coisa, exceto um, que ganha muito.

Na gravidade e nos modos, a situação provocada pelos caminhoneiros empresariais e autônomos se ajusta, com precisão, ao que Jair Bolsonaro diz e representa para o eleitorado. O governo fraco e frouxo, a falta de ordem e de quem a ponha sob controle, o Congresso dos negocistas, o alto Judiciário confuso e confundindo, e a população indignada, a esperar das "autoridades" a solução que não vem. O candidato e os caminhoneiros sabem o que fazer.

"Sabe que todo caminhoneiro vota no Bolsonaro, né?". É a informação do chefe de um dos núcleos do movimento, em conversa transcrita no melhor jornalismo de cobertura desses dias: a colheita da repórter Josette Goulart, do site e da revista Piauí, na sua original participação em quatro grupos de WhatsApp de lideranças da obstrução. A informação não surpreende, mas talvez ilumine algumas sombras da situação.

Nesses grupos "se espalham", como Josette constatou, "vídeos de militares apoiando o movimento e incentivando os caminhoneiros a não desistirem". Não desistiram. E enriqueceram suas exigências: além de preço rebaixado do diesel, "renúncia de Temer e antecipação das eleições". Em certa contradição com "o slogan frequente": "Intervenção já".

De quem? Não seria preciso dizer.

Mas os taxistas e donos de carros particulares que de repente se juntaram, quinta-feira, para destroçar o pedágio da Linha Amarela, próxima da Barra da Tijuca, preferiram não deixar dúvida. Do nada, surgiu entre eles uma faixa: "Intervenção militar". A dúvida sobreveio, porém, trazida pelas outras informações: a faixa e a "intervenção militar" eram uma exigência ou a identificação de autoria do ataque agitador?

Por mais que os efeitos da greve sejam vistos e sentidos, há mais obscuridade do que clareza por aí.

Janio de Freitas
No fAlha
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