20 de mai. de 2018

Diplomata Samuel Pinheiro Guimarães comenta possível intervenção dos E.U.A. na Venezuela


O ex-ministro chefe da secretaria de assuntos estratégicos do governo Lula fala também sobre os desdobramentos das eleições presidenciais deste domingo, 20.

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Aparece o "doleiro dos doleiros" da indústria da delação


A Procuradoria do Rio de Janeiro começa a se aproximar do esquema da indústria da delação premiada, com os novos depoimentos de doleiros que narram a compra de "proteção" junto ao Ministério Público e à Polícia Federal. O GGN desvendou parte do caso na série "A Indústria da Delação Premiada". E o advogado que intermediou o esquema é também figura carimbada no êxito das colaborações.

A reportagem "Exclusivo: Banqueiros da Odebrecht omitiram informações em delação da Lava Jato e tiveram multa irrisória", do Jornal GGN com o Diário do Centro do Mundo, publicada em novembro último ano, adiantou parte do esquema agora conhecido pelos procuradores do Rio. O nome de Messer, o doleiro dos doleiros, desapareceu da Operação Lava Jato, assim como do caso Banestado.

Nos detalhes que remontam a como banqueiros pagaram uma multa de apenas R$ 3,4 milhões por desvios que chegariam a R$ 326 milhões, Dario Messer seria o doleiro por trás das operações do grupo. Juca Bala, anunciado como quem fazia as operações, trabalha para Messer. Mas o que foi tornado público superficialmente é outra história. A reportagem recuperou o histórico do doleiro:

"Messer nasceu no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, e seu pai é paraguaio — por isso, ele tem cidadania paraguaia. No país vizinho, tem grande influência política. Seu pai foi amigo do atual presidente,  Horácio Cartes. O combativo e influente jornal ABC Color, de Assunção, publicou reportagem sobre essa proximidade.

A relação entre os 2 viria dos anos 1980. O pai de Darío Messer, Mordko Messer, teria acolhido Cartes “afetiva e economicamente” quando o político tentava se livrar de acusações de evasão de divisas naquela década. Hoje, segundo o jornal, Darío Messer é como um irmão para Cartes, conhecido também HC. Messer, por sinal, depois que estourou a Lava Jato, teria transferido residência para o Paraguai.

O nome de Messer não aparece na Lava Jato, da mesma forma como sumiu do caso Banestado, que morreu na jurisdição de Moro. Estas são linhas de investigação que devem ser perseguidas para conhecer efetivamente o submundo do caixa 2 no Brasil. O que está na superfície é glamouroso."

Em apanhado de diversas suspeitas sobre a indústria da delação premiada, também em publicação no GGN, Nilo Filho relembra que "é bastante estranho que Messer apontado como o maior doleiro do Brasil e que esteve por trás das maiores operações realizadas pelo grupo - de França, Bilinski e Borin [os banqueiros] - foi omitido da delação acordada e homologada."

"Estranho, ainda, pois Messer é antigo conhecido do juiz Sergio Moro, apareceu no escândalo do Banestado como grande operador e, também, dali se safou. Sergio Moro foi o juiz do caso Banestado. E Messer de lá se saiu livre, sem arranhões."

Mas o nome do "doleiro dos doleiros" vai, aos poucos, sendo revelado. A reportagem do Estadão, deste sábado (19), traz a denúncia de um dos participantes do esquema montado por Messer para as operações ilícitas entre os anos de 2006 e 2013.

Ele é quem cobrava, segundo os relatos, por meio de Enrico Vieira Machado, uma "taxa de proteção" de US$ 50 mil por mês, hoje equivalente a R$ 186 mil, entre 2005 e 2006, que seriam direcionados ao advogado Antonio Figueiredo Basto e um colega de escritório, para supostamente garantir futuras delações no caso Banestado. 

"Enrico passou a dizer que o escritório deveria pagar US$ 50 mil por mês para fornecer uma proteção a Dario e às pessoas ligadas ao câmbio. Que essa proteção seria dada pelo advogado Figueiredo Basto e outro advogado que trabalhava com ele", disse o delator Cláudio de Souza, doleiro que integrava o esquema de Dario, à Procuradoria do Rio de Janeiro.

Com a mensalidade, Enrico, em nome de Messer, prometeria aos demais doleiros segurança em relação ao Ministério Público e à Polícia Federal, ainda segundo a reportagem. 

O advogado é figura carimbada também nas negociações com os procuradores de Curitiba. Figueiredo Basto foi o primeiro advogado a atuar em acordos de delação premiada no modelo que se estabeleceu e que marcaram todas as investigações da Operação Lava Jato. 

Ele atuou no acordo do doleiro Alberto Yousseff com o juiz Sérgio Moro no caso do Banestado, em 2004, e até hoje atuou para grandes "colaborações" da Lava Jato, entre eles, os dos réus Lúcio Funaro, Renato Duque, Ricardo Pessoa.

E Figueiredo Basto atua em parceria com o escritório dos sócios Adriano Bretas e Tracy Reinaldet. Bretas, que se tornou "o homem da delação", após aparecer na capa da revista Veja com um charuto, teria aprendido com Figueiredo Basto, sendo uma espécie de auxiliar do advogado no início de sua carreira.

Em reportagem à Piauí, o próprio Antonio Figueiredo Basto afirmou o que pensa sobre o polêmico acordo de delação premiada, em maio do último ano: "Ninguém está impedido de tentar impugnar as colaborações nos tribunais, mas quem não gosta delas são os advogados que preferem ficar com seus clientes presos por 20 anos, sustentando teses do tempo da onça que não resolvem mais nada hoje em dia".

No GGN
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Porque é Pentecostes!

O efeito mais nefasto do golpe político, econômico e social que se perpetrou contra a sociedade no Brasil é a disseminação do ódio e a quebra da fração de consenso que oferecia estabilidade minimamente sustentável às instituições. Viramos uma grande Babel. Ninguém se entende e nem quer se entender.

No meio dessa confusão adredemente instalada entre nós, a esperteza política alimenta o fascismo nas mentes de poucas luzes. Trata-se da manipulação das fobias coletivas, do medo em cada um pela perda do emprego, pelo colapso de seu status social, pelo fim da barbada do consumo, pela volta dos dias de carestia na vida cotidiana.

Com impulso fascista, esses pavores são estimulados e direcionados para criar efeito manada contra os que forem eleitos pelos espertos para serem inimigos públicos. Podem ser judeus, podem ser Tutsis, podem ser islâmicos… e podem ser petistas!

Fascistas pensam com o fígado. Esquecem o bestunto em casa. Mas há quem procure ter seus cérebros nas mãos e orientá-los a seus objetivos estratégicos, de regra contrários aos interesses nacionais, às mais comezinhas necessidades da massa de brasileiras e brasileiros. Por isso, seguindo seus impulsos de bronca e preconceitos, fascistas manipulados atiram no próprio pé.

É só perguntar a alemães que passaram pela experiência do nazi-fascismo o que acharam do resultado. A maioria gritava “Sieg, Heil!” E, depois, só lhes sobrou morte e a tapera daquilo que foram suas imponentes cidades. A duras penas e com muito sofrimento, tiveram que reconstruir o consenso social para se reerguerem como nação.

A bronca contra o PT e contra qualquer projeto de esquerda tem essa mesma natureza autodestrutiva. Não é preciso de muita inteligência para constatar o que fomos e o que hoje somos. Vivemos nos escombros daquilo que foi um promissor processo de evolução social. Retrocedemos décadas em nossa cultura política e democrática.

Como zumbis de cidadãos e cidadãs, muitos e muitas de nós acham bonito debochar de conquistas civilizatórias como a tolerância, o convívio pacífico entre diferentes, o respeito pelo que de nós diverge, o cultivo da diversidade e a solidariedade para com os mais vulneráveis. Desdenham desses valores como se fossem “coisa de perdedor”, “coisa de fraco”. Expressam seu ódio pela “ideologia de gênero”, pelos direitos humanos, pela educação da consciência histórica de nossos filhos, por tudo aqui que desqualificam de “politicamente correto”.

É a volta à lei da selva, à lei do mais forte, que esquálidos periféricos querem impor entre si, como se poderosos imperialistas fossem.

Que ilusão! Quem ri nos seus punhozinhos são os verdadeiros imperialistas que os fazem de bobos. Disseminaram a discórdia sob o falso fundamento do combate à corrupção que secularmente incutiram nas nossas elites e esticaram seus dedos duros para os atores de uma política nacional de autoafirmação.

Nesse domingo de Pentecostes, precisamos urgentemente que as flâmulas do Espírito Santo iluminem nossa manada fascistizada em seus trevosos intelectos, para que compreendam como estão sendo manipulados contra sua felicidade e contra seu próprio futuro. Que passam a saber quem é seu verdadeiro inimigo, quem se aproveita de sua incapacidade de discernir entre o que é para seu bem e o que é para seu mal.

Eis que os espertos que manipulam fascistas tupiniquins não pensam com o fígado que nem eles. Não têm ódio. São pragmáticos e usam sua inteligência tenebrosa para nos destruírem. Apropriaram-se de nossas instituições, reforçando-lhes a praga corporativista.

Disseminaram entre seus atores empoderados o consumismo desenfreado, para fazer com que almejassem se juntar aos endinheirados. Incutiram a mania de grandeza cosmopolita em burocratas das carreiras de estado, para que se achassem parte de uma elite globalizada. E, para barrarem os que pudessem fazer a diferença, inocularam o medo da perda de status nesses tiranetes da persecução penal.

Assim construíram, com estímulo à ganância, à soberba, à ambição desmedida, uma esquadra contra a democracia e seus valores. Tornaram todos nós reféns eventuais dessas forças da desagregação.

Carecemos de muita luz para voltarmos a crescer, para adquirirmos disposição de colocar os burocratas soberbos de volta em seu leito institucional democrático. Consciência histórica, porém, não cai do céu. Vem da experiência de luta, de resistência política contra o atraso. É preciso despejar preconceitos e reforçar a clareza sobre nosso destino.

Só assim reconstruiremos o consenso necessário para defesa do que é nosso. E isso começa com a exigência de eleições livres, sem permitir a quem quer que seja que faça opções por nós, excluindo este ou aquele candidato que a letra fria da lei permite seja registrado e escolhido. É preciso dizer não às trevosas forças do esgarçamento do consenso democrático.

Que o domingo de Pentecostes nos inspire!

Eugênio Aragão
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Mistério da Lava Jato: quem acobertou a fuga do doleiro Dario Messer?


O “doleiro dos doleiros” do Brasil, como Alberto Youssef – o doleiro-delator íntimo do Moro, dos procuradores e dos policiais da Lava Jato – se refere a Dario Messer, foi o alvo principal da operação “Câmbio, Desligo!”, executada pela Polícia Federal em 3 de maio, depois das delações dos doleiros Vinícius Claret e Cláudio Barbosa.

Dario Messer, provavelmente avisado que seria alvo de mandado de prisão preventiva, conseguiu fugir e não foi encontrado nos endereços conhecidos no Brasil naquele dia da operação Câmbio, Desligo!.

A prisão do doleiro era tida como líquida e certa, tanto que o jornalista tarimbado e dono de fontes privilegiadíssimas d´O Globo, Lauro Jardim, no dia da operação anunciou que “Dario Messer, alvo principal da operação da Lava-Jato de hoje, e finalmente preso, é um personagem ligado aos escândalos nacionais desde o caso Banestado”.

Na coluna d´O Globo de 6 de maio de 2018, o taribado Lauro Jardim publicou a nota “Tudo errado”, com a notícia errada de que Dario Messer tinha sidopreso na quinta-feira passada”. É difícil imaginar tamanha “barrigada” jornalística de profissional bem abastecido de informações e depois de 3 dias do fato consumado! Houve alguma falha na linha direta de comunicação Globo-Lava Jato – só não se conhece o motivo para tal falha.

Aventou-se a hipótese de que Dario Messer pudesse estar escondido na sua mansão no Paraguai, porém lá também não foi encontrado.

Joaquim Carvalho, em minuciosa reportagem no Diário do Centro do Mundo, cita que “Antigos aliados acreditam que ele esteja em Israel, onde também tem cidadania, por ser judeu. Messer não foi o único a escapar. O doleiro René Maurício Loeb fugiu do Rio de Janeiro para a Europa a bordo de um navio de luxo, semanas antes da operação ser deflagrada”.

A fuga e o desaparecimento de Dario Messer adquire ainda maior relevância e valor investigativo depois da denúncia feita por doleiros acerca da existência de esquema mafioso mediante o qual o advogado Antônio Figueiredo Basto recebia US$ 50 mil dólares mensais como “taxa de proteção” para garantir que “eles [doleiros] seriam poupados nas delações decorrentes do caso Banestado, que correu na jurisdição de Sergio Moro” [DCM].

Esse mesmo advogado é considerado o especialista em delação premiada no Brasil – ou da indústria da delação, como o GGN e o DCM vêm investigando – cuja experiência inaugural foi a delação premiada de Alberto Youssef no rumoroso caso Banestado, conduzido pelo procurador Carlos Fernando dos Santos Lima e pelo juiz Sérgio Moro.

O ministério público reconhece que a denúncia dos doleiros tem efeito devastador nos meios jurídicos, políticos e empresariais e, pode-se inferir, também sobre a força-tarefa da Lava Jato.

Não é a primeira vez que denúncias dessa índole são feitas em relação ao universo que se revela cada vez mais obscuro da chamada “república de Curitiba”, tão incensada pela Rede Globo.

Em novembro de 2017, o ex-advogado da Odebrecht, Rodrigo Tacla Duran, denunciou que Carlos Zucolotto Júnior, amigo íntimo e padrinho de casamento de Sérgio Moro, intermediou acordo de delação premiada com redução de multas e sanções judiciais por US$ 5 milhões. Na ocasião, Zucolotto mencionou que um interlocutor com a sigla DD [na Lava Jato só se conhece Deltan Dallagnol com estas iniciais] seria o avalizador final do acordo.

Na sessão de 11 de abril de 2018 do STF, Gilmar Mendes denunciou que “a corrupção já entrou na Lava Jato, na Procuradoria”. Arrolando casos como o de irmão de procurador [Doutor Castor] que promove acordos de delação com a Lava Jato, Gilmar denunciou que “Estamos escolhendo advogados para delação. Ou aqueles que não poderiam sê-lo. Veja como este sistema vai engendrando armadilhas”.

É incrível que até hoje nem o STF, nem a PGR, nem a OAB e nem a Lava Jato instauraram investigações sobre denúncias tão comprometedoras e feitas por um juiz da suprema corte.

A fuga de Dario Messer, salvo a ocorrência de incríveis coincidências, foi facilitada por aqueles que fogem do “doleiro dos doleiros” como o diabo foge da cruz. É preciso, por isso, esclarecer urgentemente 3 aspectos nebulosos:
  1. quem acobertou a fuga de Dario Messer?;
  2. quem se beneficia com a “fuga” de Dario Messer?; e
  3. por que é preciso esconder Dario Messer e evitar seus depoimentos?

Jeferson Miola
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Depois de bagunçar o direito no Brasil, Lava Jato ameaça a estabilidade das instituições em Portugal

Moro pateta
O advogado do empresário Raul Schimidt, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, está em Portugal para tentar reverter a decisão de um desembargador do Tribunal de Relação (português), que determinou na sexta-feira a prisão de seu cliente e a consequente extradição para o Brasil.

O advogado chegou lá depois que a procuradora da república Cristina Romanó, secretária de Cooperação Internacional do Ministério Público Federal, esteve em Lisboa para tentar reverter outra decisão judicial, do Supremo Tribunal de Justiça, a última instância de Portugal, que colocou Raul em liberdade.

Tanto o advogado quanto a procuradora estão de acordo em um ponto: o caso Raul Schimidt pode afetar as relações diplomáticas entre o Brasil e Portugal.

“Qualquer tentativa para tirar o Raul de Portugal e levar para o Brasil seria um ato de sequestro internacional, um ato gravíssimo, que atenta para a estabilidade de dois países soberanos”, afirma Kakay.

Para Cristina, segundo registra o site do Ministério Público Federal, não há divergência entre as autoridades brasileiras e portuguesas quanto à extradição. “Apenas a atuação da defesa para impedir o cumprimento de uma decisão judicial válida”, afirma.

Raul teve a prisão decretada pelo juiz Sergio Moro, numa das fases da Lava Jato, em julho de 2015, acusado de facilitar os desvios de recursos de contratos da Petrobras para três ex-diretores da empresa, Renato Duque, Jorge Zelada e Nestor Cerveró.

Na época, segundo o MPF, Raul vivia em Londres e, para evitar o cumprimento do decreto de prisão, se mudou para Portugal, onde tem cidadania. Um direito dele.

Mesmo assim, em 2016, a Justiça de Portugal o prendeu, em atendimento a um pedido de extradição feito pelo Brasil, e desde então lutava nos tribunais para demonstrar que, sendo português nato, não poderia ser extraditado, já que, pela lei brasileira, brasileiros natos também não podem ser extraditados.

Se a Constituição brasileira proíbe a extradição de brasileiro nato, o do Brasil não pode oferecer essa reciprocidade, como teria feito, numa flagrante tentativa de enganar as autoridades portuguesas.

No início de maio, o Supremo Tribunal de Justiça decidiu que Raul não poderia, mesmo, ser enviado ao Brasil, mas por outro motivo: o governo brasileiro perdeu o prazo para pedir o cumprimento da extradição. Com isso, em princípio, o pedido de extradição caducou.

O que não conseguiu pelos meios oficiais, o Ministério Público Federal tentou pelo jeitinho.

Em Portugal, como admite o texto do MPF, a procuradora fez contatos com várias autoridades e, como resultado, sexta-feira um desembargador do Tribunal de Relação, instância inferior ao Supremo Tribunal de Justiça, emitiu nova ordem de prisão e autorizou a extradição.

Com isso, segundo Kakay, há o risco de uma crise institucional.

Raul não estava em casa quando os policiais estiveram lá para prendê-lo. E agora seus advogados, o do Brasil e os de Portugal, vão recorrer ao Supremo Tribunal de Justiça. Entre outras coisas, devem alegar a ilegalidade da nova ordem de prisão.

“Há um habeas corpus deferido pelo Supremo Tribuna de Justiça que não está sendo cumprido”, diz Kakay.

Para ele, enviar a procuradora brasileira a Portugal depois que o Brasil perdeu o prazo para requerer a extradição pode se caracterizar ato de improbidade administrativa.

“Eu estou aqui pago pelo meu cliente, dinheiro privado. Eu não posso admitir que o Brasil, tendo perdido o prazo, determine a vinda de uma procuradora, para fazer os contatos aqui junto ao Poder Judiciário e à Procuradoria do Estado português. Acho que isso é uma pressão indevida ao Estado português. São Estados soberanos”, declarou.

Com a ofensiva sobre Portugal, a Lava Jato exporta para o outro lado do Atlântico um jeito de atuação que viola regras constitucionais.

No texto publicado pelo site do Ministério Público Federal, há uma frase que pode ser entendida até como ofensa às instituições portuguesas.

Diz que a procuradora Cristina Romanó, em seus contatos com autoridades locais, “salientou a importância de que Lisboa não se torne um refúgio para investigados da Lava Jato brasileira sem vínculos efetivos prévios com Portugal”.

Nos últimos anos, Portugal se transformou numa referência mundial de civilidade e qualidade de vida. A Lava Jato, no entanto, vê esse país na iminência de se transformar em refúgio de investigados.

O risco é outro. Se aceita esse discurso e atropela as leis para satisfazer a Procuradoria da República no Brasil, Portugal emite um péssimo sinal sobre a estabilidade de suas instituições.

O melhor a fazer é não dar ouvidos a quem age como justiceiro e não agente da justiça.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Advogados acusam juiz português de violar Constituição para entregar réu a Moro

Moro pateta
Defesa de Raul Schmidt diz que o Tribunal de Relação autorizou sua extradição desrespeitando decisão do Supremo Tribunal de Justiça.

A defesa de Raul Schmidt anunciou hoje que um juiz da Relação de Lisboa ordenou a detenção do empresário luso-brasileiro e a sua entrega ao Brasil, desrespeitando o acórdão de ‘habeas corpus’ do Supremo Tribunal de Justiça.
A defesa afirma dispor de “informações seguras” de que um juiz da Relação de Lisboa terá “violado o acórdão de habeas corpus” proferido pelo Supremo Tribunal de Justiça (STJ), ordenando a detenção do Raul Schmidt (suspeito no caso Lava Jato) para entrega ao Brasil, numa “decisão absolutamente insólita e patentemente ilegal”.

Na prática, entendem os advogados de Raul Schmidt, que tal decisão significaria que “um juiz de um Tribunal inferior ousa desrespeitar, de forma flagrante, uma decisão de habeas corpus do STJ”. De certa forma isto ocorreu no Brasil quando o juiz Sergio Moro quis desrespeitar a decisão do TRF da primeira região e foi severamente repreendido pelo desembargador Ney Belo presidente da terceira turma do TRF 1.

A defesa de Raul Schmidt recorda que em 03 de maio passado, o STJ português proferiu acórdão pelo qual deferiu petição de habeas corpus (pedido de libertação imediata) e em consequência declarou ilegal a detenção de Raul Schmidt e determinou a imediata libertação daquele “cidadão português de origem”. Esta decisão “já transitou em julgado”, invoca ainda a defesa do empresário luso-brasileiro.

Os advogados de Raul Schmidt lembram também que o fundamento da decisão do STJ é “absolutamente claro e inequívoco”: o esgotamento do prazo legal para a entrega de Raul Schmidt ao Estado requerente (Brasil), nos termos expressamente previstos nas normas legais aplicáveis.

A defesa observa que, conforme decidido no acórdão do STJ, findo este prazo Raul Felipe Schmidt não pode ser entregue ao Estado requerente (Brasil), que solicitou a sua extradição.

“Foi por isso que o STJ determinou a sua libertação imediata, uma vez que a privação de liberdade com vista à entrega deixou de ter qualquer fundamento”, diz a defesa, argumentando que a detenção de Raul Schmidt, com vista à sua extradição para o Brasil, seja em que circunstâncias for, traduz “um flagrante incumprimento da decisão de habeas corpus do STJ e é manifestamente ilegal”.

No entender da defesa, tal entrega poderia mesmo configurar a prática dos crimes de denegação de justiça, prevaricação e sequestro.

No comunicado, os advogados alegam que a violação flagrante de uma decisão de habeas corpus da mais alta instância judicial portuguesa (STJ) para entrega de um português de origem ao Brasil (país que proíbe a extradição de nacionais de origem) desrespeitaria totalmente a Constituição e representaria um “atentado inédito ao Estado de Direito em Portugal”.

No DCM
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Por que Moro e os demais da Lava Jato silenciaram quanto a denúncia dos doleiros

Carlos Fernando, Figueiredo Basto e Moro
Sempre tão falante através do Facebook — agora ele entrou em guerra aberta com o ministro do STF Gilmar Mendes —, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima não deu um pio a respeito da delação de dois doleiros no Rio de Janeiro sobre a cobrança de propina para garantir proteção no Ministério Público Federal e na Polícia Federal de Curitiba.

Como revelou O Estado de S. Paulo, em manchete da edição de 19 de maio, os doleiros Vinícius Claret, conhecido como “Juca Bala”, e Cláudio de Souza, subordinados ao “doleiro dos doleiros” Dario Messer, disseram que, entre 2006 e 2013, pagaram mensalmente uma “taxa de proteção” de US$ 50 mil (cerca de R$ 186 mil ao câmbio atual).

O dinheiro, conforme os relatos, era entregue ao advogado curitibano Antonio Figueiredo Basto e um colega dele cujo nome não foi informado. Em troca, eles seriam poupados nas delações decorrentes do caso Banestado, que correu na jurisdição de Sergio Moro.

Alguém pode argumentar que é tudo mentira e não se deve dar crédito à palavra de criminoso. Se fosse assim, a Lava Jato não existiria, já que quase tudo usado ali para condenações ou prisões peventiva tem como fundamento a palavra de criminoso.

Mas o ponto principal é outro: Dario Messer e seus operadores nunca foram, de fato, incomodados por Moro, o Ministério Público Federal ou a Polícia Federal de Curitiba, contrário de seus concorrentes. Toninho da Barcelona, por exemplo, pegou uma condenação superior a dez anos e foi exposto à execração publica e acabou até depondo em CPI.

Recentemente, Toninho da Barcelona foi solto, mora em São Paulo, mas se recusa a falar sobre Moro, embora tenha o juiz atravessado na garganta. Conhecidos dizem que ele evita até voos de avião sobre Curitiba, para não se lembrar do que passou nas mãos de Moro, procuradores e policiais federais — também foi procurado por advogados ligados ao grupo.

Já Messer seguiu sua vida, com concorrentes fora do mercado. A tranquilidade só acabou quando a Lava Jato se estendeu para o Rio, e foi lá que a investigação o alcançou, no caminho da lavagem do dinheiro do esquema de Sérgio Cabral. Ainda assim, ele tem contatos importantes.

Fugiu para o Paraguai, onde tem cidadania, quando soube que poderia ter sua prisão preventiva decretada. Quando o decreto saiu, foi procurado no território paraguaio, graças a acordo de cooperação do país vizinho com o Brasil, mas não foi encontrado, o que indica que foi avisado mais uma vez.

Antigos aliados acreditam que ele esteja em Israel, onde também tem cidadania, por ser judeu. Messer não foi o único a escapar. O doleiro René Maurício Loeb fugiu do Rio de Janeiro para a Europa a bordo de um navio de luxo, semanas antes da operação ser deflagrada.

A Procuradoria admite que houve vazamento, mas o credita a doleiros presos, que saíram da cadeia muitas vezes para depor e teriam se comunicado com o grupo. Mas, se isso é verdade, como esses doleiros sabiam da data da operação? Como saberia que haveria investigação?  Difícil acreditar. Faz mais sentido que alguém de dentro da Lava Jato alertou o doleiro.

Mas a velha imprensa divulgou essa versão da Procuradoria sem questionamento e é por isso que, num primeiro momento, surpreende que o Estadão tenha publicado a revelação da delação dos doleiros, num furo de Ricardo Galhardo.
Mas quem lê os jornais de hoje vê que o assunto desapareceu. Não está na primeira página nem da Folha de S. Paulo nem do jornal O Estado de S. Paulo. O Jornal Nacional da Rede Globo publicou a reportagem, mas pode-se apostar que também desaparecerá dali, porque é assim que  funcionam as redações.

A notícia é publicada, mas logo esquecida quando o assunto é sensível aos interesses da empresa jornalística.

É só comparar dois casos notórios: reportagens negativas sobre Lula e o PT já consumem horas do noticiário, com inserções diárias, e quilômetros de páginas de jornais e revistas, enquanto o PSDB, quando citado, vira notícia, mas logo depois o tema desaparece da pauta.

É na pauta que os patrões exercem o poder. Quando o repórter insiste que talvez o caso merecesse aprofundamento, desdobramento, repercussão — suíte, na linguagem da profissão —, o editor, orientado pela chefia, argumenta que a empresa já cumpriu seu papel e que agora deve-se partir para outro assunto.

Mas, se a notícia é contra alguém que seja considerado inimigo da casa, a paulada é incessante. É o que se chama de jornalismo de guerra, aquele que tem inimigos.

Talvez seja por apostar nos panos quentes da velha imprensa que Carlos Fernando dos Santos Lima silenciou quanto à reportagem de O Estado de S. Paulo. 

Carlos Fernando, o mais antigo na equipe da lava Jato, linha de frente no caso Banestado, poderia dizer que o esquema denunciado pelos doleiros ligados a Messer lembra o funcionamento da máfia: pagar por proteção.

Poderia falar da necessidade de investigar.

Poderia até dar seu próprio testemunho e contar por que só uma pequena parte dos envolvidos no Banestado acertou contas com a Justiça. A maioria foi poupada.

Mas Carlos Fernando, em vez de falar, desta vez preferiu o silêncio. E vai continuar tentando espinafrar Gilmar Mendes, porque os procuradores sabem que o ministro já não conta com a proteção das redações como antes.

No fundo, eles se conhecem muito bem.

* * *

PS: o depoimento dos doleiros tem ares de ameaça: eles contam um pouco, deixam a porta aberta para recuo, mas demonstram que sabem muito. Querem passar recado. Como na máfia, estão avisando: se me ferrarem, eu quebro vocês.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Blindagem de Alckmin rompe no pior momento e afunda a campanha

https://www.balaiodokotscho.com.br/2018/05/20/blindagem-de-alckmin-rompe-no-pior-momento-e-afunda-a-campanha/

O probo, o santo, o confiável, o incorruptível, o previsível, o mal menor.

Estes atributos que os marqueteiros tucanos pretendiam explorar na campanha presidencial de Geraldo Alckmin estão indo para o ralo com o rompimento da blindagem judicial de que o PSDB desfrutou durante as últimas décadas em São Paulo.

O desastre ético do ex-governador paulista, sua principal bandeira, acontece no pior momento, com a candidatura afundada entre 4% e 6% nas pesquisas, embolado com os nanicos, o que afugenta possíveis aliados e recursos.

Neste domingo, ainda não refeito das delações da Odebrecht e das contas suiças de Paulo Preto, o “suposto operador” tucano, nova bomba estourou no mal assombrado arraial tucano.

“Promotoria apura suposto caixa 2 de concessionária para campanha de Alckmin”, revela reportagem da Folha.

Segundo o jornal, a concessionária CCR, maior arrecadadora de pedágios em São Paulo, entregou R$ 5 milhões ao cunhado de Alckmin, Adhemar Ribeiro, na campanha de 2010, como consta do acordo de colaboração premiada feito pela empresa.

Na mesma campanha, a Odebrecht relatou em delações que destinou R$ 10,7 milhões ao mesmo portador.

A cada semana chegam novas más notícias ao QG de Alckmin, agora atacado por todos os lados, inclusive internamente pelo grupo do ex-afilhado João Doria, que revindica mais recursos para sua campanha de governador.

Alckmin, como presidente do partido, tem a chave do cofre, mas não é só a questão financeira que ameaça sua segunda candidatura presidencial.

Descontentes com os rumos da campanha, deputados das bancadas estadual e federal do PSDB já estão articulando abertamente para trocar Alckmin por Doria, que não ficaria chateado com a manobra.

Pesquisas foram encomendadas por dirigentes do partido com os nomes dos dois tucanos na lista presidencial para medir intenções de voto e rejeição.

Doria se lançou como presidenciável no ano passado empunhando a bandeira do anti-petismo, como já tinha feito na campanha municipal, em que se elegeu no primeiro turno.

Apanhado na Lava Jato e com novas denúncias pipocando, Alckmin ficou sem bandeira nenhuma, atrás de Jair Bolsonaro até nas pesquisas em São Paulo.

Se, na disputa de 2006 contra Lula, Geraldo Alckmin conseguiu ter menos votos no segundo turno do que no primeiro, um fato inédito em eleições presidenciais, desta vez corre o sério risco de morrer na praia antes do embate final, mesmo sem o PT na parada.

A única boa notícia da semana para o eterno governador do Tucanistão veio da Justiça, quando Gilmar Mendes, sempre ele, mandou soltar o “suposto operador” tucano Paulo Vieira de Souza, mais conhecido por Paulo Preto, acusado de manter R$ 121 milhões em quatro contas na Suíça.

Em troca da liberdade, Paulo Preto já avisou que não fará delação premiada e trocou de advogado. Tirou Daniel Biaski, um especialista em “colaborações”, e ficou com José Roberto Santoro, por coincidência também defensor de José Serra e Aloysio Nunes, outros tucanões enrolados na Lava Jato.

É muito improvável que o conjunto de delações e denúncias contra Alckmin levem a Justiça a impedir a sua candidatura em 2018, mas o estrago político já está feito.

Como a campanha deste ano será mais curta, o presidenciável tucano terá pouco tempo depois da Copa para reverter este jogo que lhe é até o momento cada vez mais desfavorável.

Sem aliados de peso, nem articulação política nacional, Alckmin não consegue sair de São Paulo, onde ainda enfrenta a guerra entre seus dois candidatos a governador, João Doria e Marcio França.

Suas esperanças se resumem a ser o único candidato ainda minimamente competitivo do establishment, mas isso não lhe assegura a passagem para o segundo turno, nem mesmo que consiga sobreviver até o final do primeiro.

E vida que segue.

Ricardo Kotscho
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Porque Lula tem quase 50% das intenções de votos?


A resposta é simples, embora longa.

A primeira resposta é porque o golpe deu errado. O óbvio não fica tão óbvio se você pensa que o poder se exerce pelas instituições e só. Se você acha que o golpe "deu certo" porque Temer está no poder, Carminha zigue-zague no STF e Lula preso, desculpe lhe dizer, mas você não entendeu o que é "poder".

O grande benefício que uma democracia entrega é o exercício legítimo do poder. Uma democracia diz que o vencedor governa, até o próximo mandato. E as pessoas aceitam isto. Democracia vive de legitimidade. Se o poder precisa se justificar física e violentamente por todos os lados, ele passa a ser um poder "caro".

Desde a queda de Dilma havia quatro promessas feitas pelos golpistas a quatro grupos essenciais na sociedade brasileira:

(1) os golpistas prometeram que a economia voltaria a crescer, e fizeram isto não ao dono da Ambev ou aos bancos (que ganham em quase qualquer cenário), mas fizeram isto aos empresários de varejo, aos médios empresários que vivem do poder de consumo da população. Como o nível de conhecimento deles sobre economia é muito baixo, eles acreditaram que Temer faria tudo "voltar ao normal" e que a "crise" de 2014 e 2015 era culpa do "pêtê".

Agora dá um Google aí e descobre os prejuízos da Natura, da Magazine Luíza e de outras empresas e te assusta.


(2) os golpistas prometeram que iam parar a caça aos políticos no Brasil. O golpe foi para "estancar a sangria" como vocês e a História lembram. Ocorre que não apenas o PMDB continua sendo alvo inconteste das investigações sobre corrupção como vem se tornando o PRINCIPAL alvo. A Lava a Jato usou a justiça de forma política, mas agora, vários outros "agentes" empoderados resolveram que vão continuar a cruzada moralista. PMDB, PP e até mesmo o PSDB começam a ser alvos. E tem pouco Gilmar Mendes para tanto caso de corrupção. Os políticos sentiram que TODOS serão colocados no rolo compressor, sem distinção se são culpados ou não. Isto porque os juízes tomaram o poder. E acreditam que a "verdade" é o que eles dizem. Assim, não interessa se um político é ou não inocente, é ou não corrupto. Interessa se um juiz embestar que ele tem que ser punido. Um juiz ou um membro do MP. São os micro-fascismos soltos. Ou como se dizia na ditadura, "o problema é o guarda da esquina".

(3) os golpistas prometeram à classe média manutenção dos seus privilégios e o crescimento condizente com o que esta classe média julga ser seu espaço de importância. A classe média brasileira é egoísta, ignorante e megalomaníaca. E dá muito pouco, no final das contas ao país. Mas para dar o golpe, os golpistas prometeram à classe média tudo o que ela achava que deveria receber. Ocorre que um dos efeitos da economia é destruir a classe média. Juros altos, dólar alto, empregos urbanos qualificados em queda (engenheiros, médicos, advogados sendo todos destruídos) representam o pesadelo da classe média. Além disto, o fim dos investimentos em educação toca num ponto essencial para a classe média: poder colocar seus filhos para estudarem de graça em boas universidades públicas para manterem o seu padrão de vida. Tudo isto está destruído.

(4) os golpistas prometeram ao capital internacional um país dócil, pacificado e propenso aos investimentos estrangeiros. Claro que o pré-sal conta, mas mais do que o pré-sal é preciso um país dócil. Os golpistas prometeram o retorno da "normalidade" e isto simplesmente não acontece. Não apenas a violência explode tanto por parte dos bandidos quanto das polícias, como agora caminhoneiros, petroleiros e outras categorias (sentindo o peso do golpe) começam a se rebelar. A destruição das leis trabalhistas ofereceu um menor custo apenas ilusório para a mão de obra. Isto porque os empresários brasileiros vão descobrir que o que importa é a "produtividade" do trabalhador. E ela se dá em função da necessidade de sobrevivência apenas até um limite. Após, o que define se um trabalhador é melhor que o outro é seu nível educacional e o dinheiro que recebe. A destruição da CLT, no longo prazo vai afastar investimentos estrangeiros e acabar com empregos que necessitem de conhecimento. Os trabalhadores que trabalham para comer (para sobreviver) já não podem ser mais explorados do que este nível. Mas esta condição desumana não pode ser replicada além da linha da sobrevivência.

Afora isto, o golpe destruiu com a Marinha e a Aeronáutica brasileiras. Se o Exército é tão visão curta que acha que o objetivo é tirar o PT, a Marinha e a Aeronáutica pensavam em emancipação das forças. Os projetos de troca de tecnologia dos caças e da produção nacional do submarino nuclear eram projetos que os fascistas do Exército simplesmente não entendem. Temer destruiu a aeronáutica brasileira, impugnou o acordo com os suecos e vendeu a Embraer. Prenderam o almirante Othon, acabaram com o projeto do submarino nuclear e estão para vender a Odebrecht Defesa para os israelenses. Marinha e Aeronáutica, que não tem o pequeno objetivo de "acabar com o PT" viram que se tornaram forças de segunda linha pelos próximos 30 anos.

Engenheiros que foram em maioria apoiadores do golpe sentiram que seus empregos acabaram. Estão procurando subempregos ou passando necessidade mesmo. E isto contrasta com o período Lula onde importávamos engenheiros latino americanos e até europeus com todos os postos nacionais preenchidos.

Os professores universitários que apoiaram o golpe (e foram muitos) viram que o mundinho da academia virou moeda de troca do governo com os fascistas. Temer não apenas cortou todas as verbas como está passando leis para acabar com o status de segurança destas profissões. Professor universitário vai poder ser demitido, bastando que um membro do MP e um juiz digam que sim ou que um "jestor" defina que ele tem "baixo desempenho". Não há critério algum. Os que acreditavam no "livre mercado", vão ser empurrados para ele. O problema é que eles sempre defenderam o livre mercado para os outros e nunca para si. A UnB, por exemplo, foco inconteste do golpismo (apesar de gloriosas exceções), já avisou que fecha as portas no segundo semestre.

Deste triste, mas avisado, cenário as opções de recuperação são Bolsonaro (com vice sendo Magno Malta na chapa "quinto dos infernos" ou Janaína Paschoal na chapa "anti-darwin") e Alckmin Opus Dei, neoliberalismo e corrupção endêmica. Nenhum dos dois consegue oferecer qualquer solução aos quatro grupos mencionados.

A disputa fica entre Ciro Gomes, que passa a ser um candidato da direita para se opor ao retorno de Lula e o próprio Lula. Ciro seria um coringa com um misto de discurso tecnocrático nacionalista com herança coronelística e apenas bravatas contra o capital. Perfeitamente palatável aos bancos, grandes empresários e às oligarquias locais. Ainda, de quebra, ajudaria a manter a esquerda fragmentada, engrossando o discurso "Lula Ladrão". Ciro é o sonho de parte da direita que já está no modo dar os anéis para salvar os dedos. Ciro seria mudar para deixar tudo como está, uma conhecida fórmula na História brasileira. Mas isto seria feito com fogos de artificio e muito discurso "macho alfa". Algo semelhante à construção que fizeram de Collor. O preço é Lula nas masmorras para sempre.

Ao contrário do que muitos pensam, Lula é visto como uma verdadeira possibilidade de colocar o Brasil nos trilhos. Sua rejeição é a menor de todos os candidatos. Conta com a história de ter sido o melhor presidente do país e com legitimidade de dois mandatos. De quebra (como pensam nossas elites), Lula pacificaria a força de trabalho com o apelo que tem aos mais pobres e teria que lutar apenas contra a banda fascista empoderada no exército, legislativo e judiciário. Do ponto de vista prático, é muito menor o esforço atacar estas maçãs podres do que enfrentar um país dividido, empobrecendo e violento nos próximos 12 anos. Lula é sim uma solução, e isto vai ficando cada vez mais claro.

Fernando Horta
No Esquerda Caviar
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Relatório secreto do Exército comprova uso de napalm contra a guerrilha no Araguaia

Helicóptero da Força Aérea sobrevoa o Araguaia
Um anexo de relatório do Exército sobre a guerrilha do Araguaia revela que foi utilizado napalm no ataque.

O documento “Manobra Araguaia/72 – Apoio Aéreo – Anexo D” é assinado pelo tenente-coronel Flarys Guedes Henriques de Araújo, então chefe da 3ª Seção do BEM/11, em novembro de 1972.

O bombardeio com napalm, uma bomba incendiária composta por uma resina, agente espessante, que misturado a gasolina gelificada se transforma num gel pegajoso e incendiário, foi muito utilizado pelo exército dos Estados Unidos na guerra do Vietnã, no mesmo ano em que a Força Aérea Brasileira o utilizou no Araguaia: 1972.

Para tentar descobrir esconderijos e para atacar os guerrilheiros dentro da floresta amazônica, a Força Aérea jogou napalm em três áreas no sul do Pará, região do Araguaia.

“As missões pretendidas pelo CMP (Comando Militar do Planalto), aqui mencionadas no item 1, foram executadas no decorrer das operações; há a acrescentar àquele repertório o bombardeio de três áreas com bombas ‘napalm’ e de emprego geral”, registrou o tenente-coronel no documento classificado como “secreto” pelas forças militares.

O item 1 do relatório, a que se refere Araújo descrevia o apoio aéreo pretendido e solicitado à Força Aérea, durante a Manobra Araguaia/72. A ação visava essencialmente permitir ao comando do CMP a realização de atividades como transporte de tropas, de suprimentos, evacuação aeromédica, reconhecimento aéreos e missões aerofotográficas, apoio aéreo aproximado, atividades de busca e salvamento e controle de tráfego aéreo civil na região do Araguaia.

Mas não especificava o bombardeio com o agente napalm. O comando do CMP estava a cargo do general Orlando Geisel, ministro do Exército.


O uso de napalm em guerras produziu uma foto clássica. Uma garotinha correndo nua, chorando, com o corpo queimado por napalm após um ataque com a bomba incendiária.

Kim Phuc, hoje com 58 anos, tinha 9 anos quando foi atingida por napalm. Ela realizou tratamento a laser no ano de 2010 para suavizar as dores do corpo e no tecido cicatrizado em todo seu braço esquerdo, pescoço e costas queimados no bombardeio.

O napalm gruda na pele. As vítimas não conseguem escapar do calor intenso. Kim Phuc teve a pele destruída até a camada de colágeno. Foram criadas cicatrizes profundas, com até quatro vezes a espessura da pele.

“Jogaram napalm lá na floresta, perto de onde estavam os guerrilheiros. Jogaram junto com bombas”, lembra Pedro Matos do Nascimento, o Pedro Marivete, camponês na região de São Domingos do Araguaia, que foi preso e torturado num centro de tortura em Marabá na década de 1970, a chamada Casa Azul. Marivete hoje é anistiado político.

A utilização da bomba incendiária napalm no Araguaia foi realizada de forma não oficial. Sequer constou dos relatórios oficiais assinados pelos generais Olavo Vianna Moog e Antônio Bandeira, segundo os jornalistas Taís Morais e Eumano Silva no livro “Operação Araguaia”.

Esses relatórios estão contidos em uma pasta azul com o título “Manobra Araguaia 72” com mapas, fotografias e documentos timbrados do Ministério do Exército e Comando Militar do Planalto. A Manobra Araguaia contou com forças do Exército, Marinha e Aeronáutica e registram as ações contra os militantes do PC do B na guerrilha do Araguaia.

O Anexo D não revela quanto foi utilizado de napalm. Nem as localidades onde o desfolhante foi jogado. Mas mostra que foram realizadas 551 horas de voo, com o consumo de 184.500 litros de combustível.

Detalha ainda que foram transportados 675 homens por quatro helicópteros e 13 aviões utilizados nessas missões pela FAB.

Em 1998, a Folha de S.Paulo havia publicado matéria que dizia que um artigo, escrito pelo coronel do Exército Álvaro de Souza Pinheiro, apontava que a Força Aérea Brasileira havia bombardeado a Serra das Andorinhas, na região do Araguaia, no sul do Pará, durante os combates à guerrilha.

O texto está contido na revista Airpower Journal, da Força Aérea do Estados Unidos.

Agora, os documentos secretos do próprio Exército comprovam o uso dessa arma cruel, condenada por organismos internacionais.

As Forças Armadas não se pronunciam sobre este episódio.

Abaixo, trecho do documentário “Camponeses do Araguaia – A Guerrilha Vista por Dentro”, de Vandré Fernandes, com imagens de um bombardeio aéreo.



Eduardo Reina
No DCM



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Entenda como funciona o Sistema de Garantias Eleitorais da Venezuela

Buscamos algumas informações junto ao Conselho Nacional Eleitoral venezuelano que colocam em xeque a narrativa criada e fomentada pelo consórcio midiático-imperialista


A cobertura que os grandes meios de comunicação fazem sobre as eleições na Venezuela apresenta uma visão segundo a qual se busca construir no imaginário coletivo das pessoas a ideia de que nunca se oferecem garantias nos processos eleitorais realizados no país. Não por acaso, dissipa-se de forma rápida e massiva na imprensa internacional uma narrativa bastante semelhante às ideias centrais contidas nos pronunciamentos de Mike Pence, vice-presidente dos EUA, no sentido de se criar um clima de desconfiança com relação ao processo eleitoral venezuelano.

Numa incansável tentativa de desfigurar e desgastar a imagem do governo de Nicolás Maduro, os mandatários norte-americanos, com apoio da grande mídia internacional, buscam associar o chavismo ao “terrorismo internacional e o crime organizado” afim de que consigam respaldo internacional suficiente para realizarem o que eles mesmos chamam de “intervenção humanitária”.

Em pronunciamento realizado durante a reunião especial do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA), o vice-presidente Mike Pence disse que “não haverá uma verdadeira eleição na Venezuela no dia 20 de maio e o mundo já sabe. Será uma eleição falsa.”

Por outro lado, em 2012, o Centro Carter de Estudos divulgou um relatório afirmando que “o sistema de votação da Venezuela é um dos mais conceituados sistemas automatizados do mundo”. O Centro Carter de Estudos é coordenado pelo ex-presidente norte-americano Jimmy Carter e é responsável por monitorar as eleições ao redor do mundo.

Para você leitor, diante de posições tão antagônicas, é possível acreditar que a afirmação do vice-presidente norte-americano faz algum sentido? Buscamos algumas informações junto ao Conselho Nacional Eleitoral venezuelano que colocam em xeque a narrativa criada e fomentada pelo consórcio midiático-imperialista.

Vejamos como funciona o Sistema de Garantias Eleitorais da Venezuela:

Desde de 2004 o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) vem construindo o Sistema de Garantias Eleitorais (SGE) que busca efetivar os direitos dos eleitores e da segurança dos candidatos e dos partidos postulantes. O SGE inclui todos os aspectos do evento eleitoral, desde o momento em que se convoca a eleição até depois de anunciados os resultados. Por tanto, esse sistema é responsável por revisar, validar e assegurar o bom funcionamento do Sistema Eleitoral Venezuelano. O sistema tem dois aspectos fundamentais que são inerentes a organização, administração e execução do evento eleitoral:

--> As garantias sobre a segurança do sistema automatizado de votação: Um conjunto de 16 auditorias são realizadas onde se revisam todos os componentes, software, dados eleitorais e a programação das máquinas de votação e dos meios de transmissão. Todos os fatores e etapas do processo são revisados, auditados e certificados pelos partidos políticos que participam dos processos de votação.

--> As garantias sobre a transparência e a confiança do processo eleitoral: Um conjunto de medidas que toma o CNE para gerar confiança no eleitorado em geral. Contem aspectos automatizados como a auditoria do programa de seleção dos integrantes de mesas de votação, juntas estaduais e municipais, e elementos não automatizados como a auditoria que checa os dados dos cadernos impressos de votação com o registro eleitoral.

Quem participa das auditorias

Em cada auditoria realizada participaram representantes do corpo técnico do Conselho Nacional Eleitoral, técnicos representantes de cada partido político e auditores externos. Os técnicos que participaram são qualificados e foram responsáveis por certificar através de sua própria revisão, que o sistema funciona e se maneja assim como está estabelecido na lei.

Já os partidos políticos contribuem na construção de uma cadeia de confiança pois certificam que, por exemplo, o software da máquina de votação mantem sua integridade e é exatamente o mesmo que tem sido auditado; que tem o mesmo dado depois do processo eleitoral e que nenhum desses componentes foi modificado ou sofreu algum tipo de intervenção.

Desde o ano de 2013 o CNE adotou a decisão de transmitir e difundir ao vivo pela internet o desenvolvimento das auditorias, agregando maior transparência e confiabilidade nos processos de revisão técnica. Além disso, o CNE incorporou os observadores nacionais nos processos de auditoria, tais observadores são representantes de organizações da sociedade civil e recebem o convite a participar das auditorias por parte do Conselho Nacional Eleitoral. Para cada processo eleitoral o CNE amplia e fortalece as garantias de acordo com as solicitações feitas pelos partidos políticos e pelos candidatos participantes das eleições. Todas as solicitações são recebidas, discutidas e avaliadas tecnicamente pelo CNE e são acolhidas todas aquelas que fortalecem, enriquecem e aportam uma maior confiança no processo eleitoral.

Há também os acompanhantes internacionais com qualificação técnica que também podem ser convidados a presenciar os processos. Nesse sentido, o apoio técnico oferecido pelo Conselho de Especialistas Eleitorais da América Latina (CEELA) tem cumprido um importante papel, pois seu corpo técnico é conformado por especialistas que já administraram processos eleitorais em cada um de seus países, fortalecendo o Sistema de Garantias Eleitorais venezuelano. Nessas eleições estarão presentes 150 acompanhantes internacionais, desde parlamentares, acadêmicos, políticos, intelectuais, jornalistas e especialistas eleitorais da América Latina, Europa, Ásia, África e América do Norte.

Entre as contribuições mais relevantes do SGE está a auditoria de verificação cidadã que foi implementada em 2004. Essa auditoria consiste na revisão física dos comprovantes de voto para verificar o correto funcionamento da máquina de votação e a consistência dos resultados escrutinados na máquina. Nessa auditoria participam os membros das mesas eleitorais, representantes dos partidos, eleitores e eleitoras, observadores nacionais e acompanhantes internacionais.

Uma das atividades mais importantes durante as auditorias ao sistema eleitoral é a criação da assinatura eletrônica. Esse procedimento de segurança se aplica nas auditorias de software da máquina de votação, do software de totalização dos votos, na base de dados dos eleitores e na dos meios de transmissão. Uma vez revisado o componente e certificado o seu correto funcionamento, os auditores criam uma chave segmentada, esta chave informática se compõe da soma dos segmentos de cada um dos participantes da auditoria. Desta forma, a única maneira de se fazer alguma modificação é que as diferentes partes envolvidas introduzam o segmento que possui a chave informática, o que possibilita, por sua vez, a blindagem do sistema eleitoral venezuelano contra possíveis tentativas de fraude.

Alguns números do evento eleitoral do dia 20 de maio:

- 14.638 centros eleitorais estarão em funcionamento

- 34.143 maquinas de votação estarão disponíveis

- 127 centros eleitorais estarão instalados nas sedes diplomáticas de outros países

- 20.531.039 milhões de eleitores poderão exercer seu voto

- 14.580 coordenadores de centros de votação

- 33.867 operadores do sistema integral

- 3.927 suplentes de operadores do sistema integral

- 4.641 técnicos de suporte preparados para atender eventualidades

Caio Clímaco é cientista do Estado e mestrando pela Universidad Bolivariana de Venezuela (UBV).
No Ópera Mundi
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Lorotas sem fim

Michel Temer esmera-se na apresentação puramente ficcional de um Brasil que não existe

O slogan foi criado assim: “O Brasil voltou, 20 anos em 2”. Serviu à ironia dos internautas, transformado assim: “Temer fez o Brasil voltar 20 anos em 2”
Ninguém vem ao mundo para ser vaiado, dizia o economista Roberto Campos, ministro na ditadura, ao falar das vaias que recebeu durante a vida. Michel Temer não levou isso em conta e arriscou-se a “visitar” os escombros do edifício desabado em São Paulo. Ficou poucos minutos e saiu vaiado, protegido por guarda-costas. Cena patética.

Ao completar dois anos de um governo ilegítimo, implantado no dia 12 de maio de 2016, o ex-vice-presidente comemorou quase sozinho o suposto resgate de um país imaginário, criado após o golpe contra a presidenta legítima Dilma Rousseff.

Temer sempre faz um percurso seguro após sair de casa, o Jaburu, e seguir para o Planalto. Dois palácios onde ele fica mais à vontade cercado por seguranças. Na cerimônia comemorativa, fez um balanço a seu feitio para a plateia de dirigentes de estatais, assessores das autarquias federais, além de parlamentares da base todos dispostos a aplaudir.

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Não há avaliação positiva no âmbito da administração

O ex-vice-presidente leu, sob palmas febris, uma cartilha “com ações e resultados” em publicação, para sabor dos crentes, intitulada “Avançamos:  2 anos de vitória na vida de cada brasileiro”.

O anúncio da queda no PIB já era conhecido pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Central. Temer ignorou. A má notícia foi divulgada dois dias depois do seu discurso otimista.

Antes, porém, o Planalto tropeçou na língua pátria. O slogan foi criado assim: “O Brasil voltou, 20 anos em 2”. Serviu à ironia dos internautas, transformado assim: “Temer fez o Brasil voltar 20 anos em 2”.

Sem desfaçatez, apresentou-se assim como “o responsável” pelas escolhas que fez, “sempre pensando em um Brasil maior”. Eis os exemplos contrários: redução na inflação provocada, porém, pelo desemprego; 20 mil postos de trabalho fechados em 2017; corte de beneficiados pelo programa Bolsa Família, entre outros.

Embora tenha desistido de contar certas balelas aos eleitores, como aquela de disputar a reeleição a partir de um golpe, a trajetória de Michel Temer no poder tem sido um desastre, como comprovam as pesquisas e, mais recentemente, a pesquisa CNT/MDA.

É arrasador o resultado para Temer, pessoalmente, e também para o governo. Não há avaliação positiva no âmbito da administração: saúde, educação, desempenho pessoal de Temer, avaliação do governo, desemprego, renda mensal e segurança.

Maurício Dias
No CartaCapital
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O crítico

O depoimento de um crítico de gastronomia na delegacia, depois de passar no hospital para tratar a queimadura na nuca:

“O anonimato, que para tantos é um martírio, delegado, para mim é uma obrigação profissional. Sou crítico de restaurantes. Em mim o paladar e os escrúpulos se mesclam, como a carne e os legumes num bolito misto, e faço questão de não ser reconhecido nos lugares que frequento e depois recomendo ou destruo. Uso disfarces tanto para que o dono do restaurante, descobrindo minha identidade, não tente comprar uma boa cotação com favores e porções maiores quanto para que não tente revidar alguma crítica mais rigorosa derramando sopa fervendo sobre minha cabeça ou me expulsando do lugar. Minha integridade repele o suborno e meu amor-próprio refuta substâncias muito quentes na nuca. Os disfarces podem trazer inconvenientes, como a vez em que meu bigode postiço caiu numa blanquette de veau e tive que ingeri-lo, pois a alternativa seria chamar o garçom e perguntar se o chef não tinha dado falta do SEU bigode. Ou a vez em que usei um nariz feito de material inferior que começou a derreter com as emanações de uma casserole e a pingar na minha gravata, obrigando-me a simular uma crise hemorrágica e fugir do restaurante. Mas são os disfarces que me mantêm honesto e ileso. Ou me mantinham, até hoje. 

Sou criterioso e justo, e costumo voltar a restaurantes que critiquei para lhes dar uma chance de se redimirem. Foi o que fiz com certo estabelecimento que, depois de uma primeira visita, descrevera como sendo algo pretensioso, pois insistia em chamar o que servia de comida, o que de certa forma desculpava a lentidão dos garçons em trazer os pratos, já que eram obviamente movidos pela misericórdia. Deixei passar alguns meses depois da publicação da minha crítica e fui de novo ao mesmo restaurante, tendo o cuidado de moldar um queixo falso, feito de material resistente ao calor, que com os óculos escuros e as costeletas compridas certamente impediriam meu reconhecimento e atos de retribuição violenta. O restaurante estava vazio. Minhas críticas são muito lidas e têm grande influência no público, que anseia por alguém que lhes diga o que é bom e o que não é, neste mundo em que as velhas certezas agonizam, o relativismo moral invadiu a gastronomia e tem até pizza de fruta. Além da minha, à qual fui levado pelo solícito dono do restaurante em pessoa, havia apenas outra mesa ocupada. Por um homem que lia um jornal. E que, quando levantou a cabeça e me viu, exclamou:

– Meu Deus, é ele!

Tenho vários discursos prontos para o caso de ser reconhecido apesar dos meus disfarces. Eles envolvem desde uma ficção sobre irmãos gêmeos – “O crítico de restaurantes é o outro, eu não sei nem a diferença entre rocambole e ratatouille!” – até uma dissertação sobre a necessidade de parâmetros alimentares numa sociedade carente de valores claros e a importância da crítica, mesmo um pouco impiedosa, nesse sentido, enquanto me encaminho, lentamente e andando de lado, para a porta da rua e a fuga. Já tinha escolhido a história dos gêmeos quando o homem da outra mesa começou a espetar o jornal com o dedo e mostrar:

– Olha o retrato falado do bandido que estão procurando. É ele! É ele!

Dei uma risada. Eu, bandido? O retrato falado podia ser de qualquer um. Podia ser do meu irmão gêmeo. Mas eu?!

O homem da outra mesa já estava de pé. Ia chamar a polícia. Disse:

– Com essa cara, com esse queixo, você ainda nega que é bandido?

Descolei o queixo e arranquei os óculos escuros e as costeletas.

– É tudo falso. É disfarce! Está vendo? Sou um crítico de restaurantes. A minha cara verdadeira é esta! 

O homem da outra mesa piscou, abriu e fechou a boca, e se sentou. Me sentei também. Olhei em volta. O dono do restaurante tinha desaparecido. Dali a pouco reapareceu. Vinha na minha direção carregando uma panela de sopa quente. Eu não tive tempo de fugir, delegado! 

Luís Fernando Veríssimo
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Alckmin e o cunhado vão para a cadeia?

E o Serra e o Aloysio 500 mil? Escapam dessa?


O Conversa Afiada reproduz reportagem de Mario Cesar Carvalho, na "Fel-lha", que indicia o Santo do Alckmin, o cunhado que é uma fera, o Serra, o maior dos ladrões, o Aloysio 500 mil, promovido de 300 mil pela Odebrecht. o Paulo Afrodescedente e Marcio Fortes, um notório propineiro do Serra, fabricante de dossiês contra adversários do Serra, Márcio Fortes:

A CCR, maior concessionária de estradas do país e quinta do mundo, deu cerca de R$ 5 milhões para o caixa dois da campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) em 2010, segundo relatos feitos por representantes da empresa ao Ministério Público de São Paulo.

O dinheiro teria sido entregue ao cunhado de Alckmin, o empresário Adhemar Ribeiro, segundo a narrativa feita à Promotoria, e não consta da prestação de contas.

É a segunda vez que o cunhado é associado a arrecadações ilegais de campanha. A Odebrecht relatou em acordo de delação ter entregue R$ 10,7 milhões a ele, também na campanha de 2010.

A CCR não pode fazer doações eleitorais por ser concessionária de serviços públicos, como estradas, metrô e barcas. Já era esse o entendimento do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) à época da doação, em 2010. Três anos depois esse veto virou lei na minirreforma política.

A empresa tem a concessão de algumas das principais rodovias paulistas, como o complexo Anhanguera-Bandeirantes e trechos da rodovia Castello Branco e da Raposo Tavares.

A concessionária resultou da associação de empresas que já confessaram práticas de corrupção e formação de cartel: a Andrade Gutierrez e a Camargo Corrêa, cada uma com 14,86% das ações.

Nos relatos reunidos pelo promotor José Carlos Blat, a CCR aparece como doadora de R$ 23 milhões para três políticos tucanos de SP entre 2009 e 2012: além de Alckmin, são citados o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes, e o senador José Serra. Os valores que teriam sido entregues a Serra e Aloysio ainda não foram apurados.

Alckmin e Aloysio negam ter recebido esses valores; Serra não se manifestou.

A cifra de R$ 23 milhões é uma estimativa inicial. O valor exato está sendo investigado por um comitê independente constituído pela CCR.

O ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza, apontado pela força-tarefa da Lava Jato em São Paulo como operador do PSDB, é citado como o responsável pela arrecadação para Aloysio. Já o empresário Márcio Fortes é acusado de ter feito a operação para Serra.

(...)
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Na Venezuela, o voto à beira do abismo

A comunidade internacional alinhada aos Estados Unidos continuará a denunciar a eleição como farsa em caso de vitória de Maduro

Pressionada, a Venezuela vive um impasse
Só uma vitória do candidato opositor Henri Falcón impedirá que as autoridades dos Estados Unidos, os políticos antichavistas, a mídia internacional e os governos alinhados com Washington na Europa e nas Américas denunciem as eleições deste domingo 20 de maio na Venezuela como uma trapaça.

Nunca, em qualquer eleição venezuelana nacional ou estadual nos últimos 20 anos, verificou-se algum caso de fraude, mas os inimigos da Revolução Bolivariana antecipavam, antes mesmo da abertura das urnas, que o resultado da consulta eleitoral seria falso.

Para justificar a campanha de desestabilização do governo de Nicolás Maduro e contestar qualquer iniciativa desse presidente, qualquer acusação é considerada válida, até mesmo os maiores absurdos, como fez em 2015 o então presidente estadunidense Barack Obama ao classificar aquele país sul-americano como uma “ameaça extraordinária” aos EUA.

Quantas bombas atômicas têm a Venezuela, quantos mísseis intercontinentais, quantos porta-aviões, quantas toneladas (ou litros) de armas químicas? Quantos ataques terroristas ocorreram em território estadunidense com envolvimento das autoridades de Caracas?

Nenhum, mas com base nessa definição, o governo estadunidense iniciou uma escalada de sanções e outras restrições comerciais e financeiras que têm agravado enormemente o sofrimento do povo venezuelano. A expectativa de Washington – até o momento, vã – é a de que a escassez de produtos essenciais, como remédios e alimentos, empurre a população a se sublevar contra os governantes.

A verdade é que se alguém ameaça alguém nessa história, isso ocorre no sentido contrário ao adotado pelos EUA. Ou pode ser entendida de outra forma a afirmação do presidente Donald Trump, que, em agosto do ano passado, cogitou em voz alta a “opção militar” para depor Maduro?

Depois da desastrosa invasão do Iraque, em 2003, é improvável que os EUA despachem tropas para enfrentar diretamente os bolivarianos. A Venezuela conta com um exército profissional, equipado com modernos aparatos russos, e se mostra fortemente motivado a defender seu país e o projeto chavista. Por isso Washington prefere a opção perversa de intensificar o assédio financeiro contra a Venezuela até que, exaustos, os venezuelanos substituam seu governo por meio de um golpe civil ou militar, ou uma combinação das duas vias.

Para o caso de que esse objetivo demore muito a se realizar, existe um Plano B. O Comando Sul das Forças Armadas dos EUA planeja a intervenção externa na Venezuela por uma “força multilateral” a ser formada por contingentes militares da Colômbia, Brasil, Panamá e Guiana, com apoio da Argentina e sob o controle do Pentágono.

Essa intervenção (“humanitária”, é claro) seria antecedida por uma degradação geral das condições de vida na Venezuela e por uma intensificação do conflito político ao ponto confronto armado e, possivelmente, a ocupação de territórios por forças insurgentes.

O que não está claro nessa estratégia é o grau de disposição dos países envolvidos. A Colômbia, por exemplo. Uma vitória do candidato ultradireitista Iván Duque nas eleições (bem próximas) facilitaria as coisas, mas certamente haverá forte resistência na sociedade colombiana a um novo conflito militar, justo agora que o país, aos trancos e sobressaltos, vem tentando pôr fim a uma conflagração interna amarga e prolongada.

Para o Brasil, o Plano B dos falcões de Trump também traz complicações. Estariam os militares brasileiros, em pleno período eleitoral ou na transição para um novo governo, dispostos a embarcar numa aventura desse tipo? Na nossa história militar, um dos traços mais marcantes é baixa propensão a se envolver em conflitos externos. As Forças Armadas brasileiras – sempre muito aguerridas na hora de reprimir, torturar e massacrar opositores políticos – recusaram convites dos EUA para enviar tropas às guerras da Coreia e do Vietnã.

Uma guerra civil na Venezuela é tudo o que o Brasil não precisa. Um conflito desse tipo traria para o lado de cá das nossas fronteiras um fluxo de refugiados mil vezes superior ao dos imigrantes cujo ingresso tem causado sérios problemas. Tráfico de armas e presença de forças beligerantes em território brasileiro são outras consequências indesejáveis fáceis de prever – sem falar dos efeitos tóxicos de um conflito sangrento, polarizado no eixo esquerda/direita, nas beiradas de um Brasil em crescente processo de radicalização política.

Quanto às eleições em si, sua própria realização é uma vitória para o governo de Maduro, diante dos ataques externos e das imensas dificuldades de um país que teve uma redução de quase 50% no seu PIB em apenas três anos.

Maduro, se reeleito, relegitimará o bastão de comando que recebeu das mãos de Hugo Chávez, ganhando fôlego para medidas econômicas de alto impacto. Sem a necessidade de agradar o eleitorado para evitar o naufrágio nas urnas, ele tentará um redesenho da economia doméstica para enfrentar a hiperinflação e o descontrole cambial.

Mas o assédio estadunidense é feroz e a margem de manobra financeira, cada vez mais estreita, sobretudo se Trump cumprir a ameaça de suspender as importações de petróleo venezuelano.

Mesmo sem despertar entusiasmo como seu ilustre antecessor, Maduro ainda é visto por uma parcela significativa dos venezuelanos como uma alternativa preferível a endossar os opositores teleguiados de Washington, que no ano passado levaram o país ao caos com sua irresponsável intentona insurrecional.

O atual presidente, com todos os seus erros (o maior de todos, a hesitação perante o colapso econômico), consegue se apresentar ao eleitorado como um líder seriamente empenhado em resolver a crise e em proteger as conquistas sociais do chavismo.

Ruim com Maduro, pior sem ele – é um cálculo racional para a população beneficiada por um pacote de políticas sociais sem paralelo em qualquer lugar do planeta nestes tempos de retrocesso neoliberal.

Para se ter uma ideia, há apenas duas semanas a Misión Vivienda – uma versão local do Minha Casa, Minha Vida, só que bem melhor – entregou sua moradia número 2 milhões, num país de pouco mais de 30 milhões de habitantes. Apesar da crise.

O chavismo marcha unido para as urnas, enquanto a oposição se encontra dividida e desmoralizada após o fiasco das “guarimbas” (protestos violentos com bloqueio de avenidas e depredação de edifícios e equipamentos públicos) e o sucesso de Maduro em formar uma Assembleia Constituinte com respaldo eleitoral.

A campanha de Falcón apresenta um dilema para o eleitor “esquálido” (tradução livre de “coxinha” em venezuelanês). A abstenção – atendendo aos apelos dos principais partidos opositores e dos EUA – garante um novo mandato para Maduro. Por outro lado, o voto em Falcón, caso ele seja derrotado, só servirá para ajudar o governo a se legitimar nas urnas, com a ampliação do índice de comparecimento eleitoral.

Ainda assim, nota-se nas últimas semanas uma expressiva migração de eleitores anti-chavistas que pretendiam se abter em favor de Falcón, com sua candidatura movida a pragmatismo. Mesmo que no período recente a escassez no país tenha se amainado, os produtos chegam às prateleiras com preços inacessíveis à maioria da população. A dor dos venezuelanos é intensa, e a descrença na capacidade de Maduro em tirar o país do atoleiro se destaca como o maior trunfo da oposição.

É impossível exagerar o que está em jogo nestas eleições. O processo político na Venezuela é o que existe no mundo de mais semelhante ao que se possa chamar de revolução. Essa é a terceira vez que um país latino-americano se aventura pela busca apaixonada da superação do capitalismo e da dependência externa pela via pacífica.

A primeira vez foi no Chile sob o governo socialista do presidente Salvador Allende, tragicamente derrubado por uma aliança entre a burguesia local e o imperialismo estadunidense no golpe militar de 1973.

A segunda tentativa foi o regime sandinista na Nicarágua, iniciado com o levante vitorioso contra a ditadura de Anastasio Somoza em 1979 e encerrado, dez anos depois, com a derrota eleitoral dos sandinistas para a candidata da oposição empresarial, Violeta Chamorro, fortemente apoiada por Washington.

Nesse intervalo, o presidente Ronald Reagan e seus guerreiros frios infernizaram a vida dos nicaraguenses com as incursões dos guerrilheiros direitistas “contras”, financiados e treinados pelos EUA. A guerra civil matou mais de 40 mil habitantes e levou o governo sandinista a dedicar 75% do orçamento público à defesa do país.

Nas eleições de 1989, a opção era explícita. O voto por Daniel Ortega – o líder sandinista que, por suprema ironia, regressou à presidência nicaraguense, pelo voto, e agora sofre nova tentativa de desestabilização a partir de Washington – significaria a continuidade da guerra, da miséria e do derramamento de sangue.Já a vitória da candidata da direita, ao saciar o apetite voraz dos agressores, abriria o caminho para a paz.

Os venezuelanos atualmente são vítimas de uma chantagem similar. Resta saber qual será a sua opção.

Igor Fuser, Doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo, professor de relações internacionais na Universidade Federal do ABC e integrante do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.
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