6 de mai de 2018

Correios vão fechar 513 agências e demitir 5,3 mil


Os Correios decidiram fechar nos próximos meses 513 agências próprias e demitir os funcionários que trabalham nelas, o que deve atingir 5.300 pessoas. A medida foi aprovada em reunião da diretoria em fevereiro e é mantida em sigilo pela empresa. Quem participou dela teve de assinar um termo de confidencialidade, o que não é usual. Na lista há agências com alto faturamento. Em Minas, das 20 mais rentáveis, 14 deixarão de funcionar. Os clientes serão atendidos por agências franqueadas que funcionam nas proximidades das que serão fechadas.

Em São Paulo, serão fechadas 167 agências – 90 na capital e 77 no interior. A decisão causa polêmica dentro dos Correios. O assunto foi tratado como extrapauta na reunião da diretoria sem o anexo da relação de agências. A desconfiança é de que a medida foi tomada para beneficiar os franqueados.

O ex-presidente dos Correios Guilherme Campos justificou que serão fechadas agências próprias que ficam muito próximas de outras operadas por agentes privados. Ele diz que o número de demissões pode ser até maior. Vai depender da capacidade financeira da empresa para indenizar os trabalhadores.



MASSACRE

Uma das coisas mais cretinas e cruéis do processo de impeachment de Dilma foi uma foto de carteiros da ECT queimando uma bandeira do PT.

Gente pobre, servidores de uma estatal que foi fortalecida pelos governos do PT servindo de massa de manobra de uma elite que, agora se sabe, tinha reservado uma terrível surpresa para eles.

Ainda assim, não me sinto feliz nem vingado.

É de cortar o coração saber que, na semana que vem, mais de 5 mil pais e mães de família serão desempregados por um governo que não cansa de destruir o País.

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Empresário que vai levar Moro e convidados a evento de Doria em Nova York foi condenado

Doria com Arbaitman e a mulher Bete em jantar oferecido pelo empresário
Sergio Moro e o ministro Carlos Marun, da Secretaria de Governo e da dancinha do Benito di Paula, serão estrelas do “Lide Brazilian Investment Forum” a ser realizado no dia 16 em Nova York.

O negócio é de João Doria, candidato do PSDB ao governo de São Paulo.

É uma sopa de impropriedades.

Fosse um país sério, um juiz não participaria de um convescote organizado por um tucano que concorre a governador ao lado de um general da tropa de choque de Michel Temer.

Mas isso não é tudo.

A logística do pacote está nas mãos da Maringá Turismo, de Marcos Arbaitman (que está oferecendo tarifas especiais para os cidadãos interessados no show).

Especializada em viagens corporativas e a lazer, a Maringá é especialista, segundo o site oficial, em “aliar qualidade e redução de custos às soluções de seu portfólio”.

Não só.

Ex-secretário de Esportes e Turismo nas gestões de Mario Covas e Alckmin, Arbaitman é ficha suja. 

Foi condenador por improbidade administrativa. Mau uso do dinheiro público. Contratou pessoal sem concurso público no período de 1997 e 1998.

De acordo com a ação civil, fora alertado pelo Tribunal de Contas que a prática violava a Constituição Federal. Para os desembargadores, na sua defesa ele não deixou de admitir a prática.

“Impunha-se mesmo o recebimento da inicial, restando para o mérito da ação a aferição de eventual existência de má-fé, culpa ou dolo, pois, em princípio, a prática da contratação de pessoas, sem concurso, do então Secretário de Esportes e Turismo do Estado de São Paulo está destituída de qualquer legitimidade”, afirmou o relator Alberto Zvirblis.

Marcos Arbaitman nunca largou o osso do lobby.

Em 2016, o Ministério Público Eleitoral abriu um procedimento para apurar se Doria teria se beneficiado de jantares promovidos por empresas e feito propaganda antecipada.

Um dos encontros foi na casa do empresário e amigo da Maringá. No convite aparecia um e-mail da companhia para os convidados confirmarem a presença.

Imagine o powerpoint que Dallagnol não faria a partir dessa excursão.



Moro em evento de João Doria

Kiko Nogueira
No DCM
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No tempo da magia


A Editora Hemisfério Sul comunica o lançamento do 25º livro da escritora Urda Alice Klueger, intitulado “No tempo da magia”. Com capa de Johnny Kamigashima, usando um quadro de Jean Oriol Sinriel e uma foto de Vanilda Meister Arnold Policarpo, o livro tem orelha da historiadora Onice Sansonowicz e apresentação da psicóloga Katty Adriane de Mattos. Trata-se de um romance que envolve quatro personagens principais: um homem, uma mulher, um menino e um passarinho. Quando se tem tais personagens juntos, tudo pode acontecer – imagine, então, quando tais personagens estão juntos no Tempo da Magia!

Diz, sobre ele, a apresentadora Katty Adriane de Mattos: Em meados do inverno bipolar de 2017, recebi um e-mail com o pedido da Urda se “escreveria a orelha, quiçá a apresentação de um livro meu com aquela foto na contracapa? Haveria que ler o livro...”  Convite aceito. E-mail assim respondido: “Escrevo... o que você achar mais adequado. Faço com alegria!”

Passaram-se poucas semanas e recebo “o livro”. Abro o arquivo com um misto de curiosidade cheia de alegria... e... surpresa: coube a mim a apresentação! A esta altura de construção do livro, e considero importante assinalar, mesmo que sofra alterações, o livro está com o título provisório “No tempo da Magia”. Logo, tomada de curiosidade, dentro de um ônibus, voltando de uma rápida viagem de trabalho e curso, começo a leitura.Penso que gostaria imediatamente de saber do que trata o livro.Que temáticas de vida irei encontrar nele? Para que lugar ele irá transportar-me? Que emoção viverei ao lê-lo? 

Então começo o “mergulho” na leitura e logo nas primeiras páginas me deparo com a reflexão: ”... era bem claro que agora havia uma quarta pessoa fazendo parte da sua vida... mas não esperava que um pequeno menino que não havia nascido fosse amá-lo tanto assim...” Então penso: um livro sobre amor!!! 

Sim! A Urda escreveu um livro sobre o amor! Sobre amor inspirado, esperançoso e eterno. Assim como aborda temáticas intocadas, temidas e, por vezes, inconfessáveis para grande maioria: aborda vida, morte, desejo, sexo, prazer, fé, diferenças entre classes, crenças pessoais, aborda um et cetera de coisas... 

No livro, Urda nos leva a todos os lugares, dos reais, que temos a certeza de que já vimos, aos imaginários, como cavernas surreais, baías calmas, mares abertos e mares revoltos. Urda, neste seu livro, nos leva a fazermos travessias.Convida-nos a fazermos uma viagem para além do nosso olhar, para além do que habitamos e daquilo com o que nos alimentamos. Urda nos expõe a (re)considerarmos nossas ideias, nossas emoções e nossas crenças.

E, ao final de tudo, nos deixa livres, pois ler este livro acaba sendo... ”tão leve e tão denso’’ que você fica quase que “espelhando serenidade”. Fica com a sensação de que, durante todo o tempo do livro, este faz parte de você e que uma parte de você está no livro. Então minha percepção durante a leitura e a minha emoção ao terminá-la é, de que em nós existe uma parte conectada... ”que esteve lá desde o começo”... Para você, leitor, durante sua experiência de leitura, desejo que ela o coloque em um mergulho profundo e, paradoxalmente, ao mesmo tempo, que permita a você voos contemplativos e seguros. E, a você, Urda, agradeço pela confiança, pela convivência e pelo aprendizado.

E diz Onice Sansonowicz: Sendo simplista, poderia dizer que este livro se trata de uma história daquelas telenovelas gostosas de assistir. Mas é muito mais do que isso. É uma ode ao amor e à vida. Uma história de relações marcadas pela cumplicidade, atravessadas pelo erotismo, pelas agruras da vida cotidiana, pela luta pela sobrevivência, pela tristeza, pela saudade, pelo luto, pelas dores, pelas perdas. 

Mas quando a história começa a ficar densa demais, a autora, como num passe de mágica, faz aparecer fadas, libélulas, passarinhos... faz com que os personagens ora sejam reais,ora sejam imaginários, de forma que esses elementos combinados deem leveza à narrativa. Em outras palavras, Urda nos ensina que a dureza cotidiana pode ser mais bem suportada com um cadinho de magia.

Não espere o leitor, a leitora,um texto militante. Não o é. No entanto, o livro todo é uma defesa do amor, da solidariedade, da pureza, da sensibilidade. E pela via da ficção, Urda Alice Klueger desbanca as ausências do mundo contemporâneo. 

Um belo livro de literatura, intenso e vasto o suficiente para qualquer um se encontrar nele. Um livro necessário em tempos de tanta aridez.

* * *
O livro terá seu lançamento oficial no município de Palhoça/SC, onde reside a autora, na Cordel Livraria, situada no Shopping Center Via Catarina, no dia 12 de maio de 2018. Posteriormente, será lançado em outras cidades. No anexo, a capa do mesmo. 

Nos próximos dias o livro estará à disposição em todas as boas casas do ramo, e também junto à autora e à Editora Hemisfério Sul, e-mail editorahemisferiosul@gmail.com  ou urdaaliceklueger@gmail.com.br. 

Contatos com a autora também no facebook, com seu nome real.

No Palavras Insurgentes
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De resistentes a golpistas

Dois notáveis do esquerdismo nativo que viraram a casaca
Cada um veste a camisa que lhe convém e troca a roupa quando lhe é conveniente. Tem sido assim a trajetória adotada por parte da dita esquerda brasileira após a ditadura.

Uma massa enorme desses ex-militantes migrou para o lado oposto, a ultradireita golpista. Parece que arrependidos com o que eram. Subiram a escada pela esquerda e desceram pela direita até o inferno.

A migração da esquerda para a direita não é novidade no mundo todo, mas por aqui o fenômeno passa a ser mais curioso e assustador. Há muitos exemplos. É o caso de Fernando Gabeira, ex-integrante da luta armada que, sob a ditadura, participou do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, no Rio de Janeiro, em 1969.

Ao voltar do exílio, Gabeira iniciou o processo de transformação. Fez sucesso inicialmente com uma tanga de crochê nas areias de Ipanema. Posteriormente, elegeu-se deputado ainda com um viés de esquerda.

Hoje, Gabeira brilha aos olhos dos golpistas. E tornou-se estrela do império Globo, na televisão e no jornal, onde assina uma coluna semanal.

Recentemente, ele atacou três ministros do STF por terem tirado das mãos do juiz Sergio Moro documentos da Odebrecht, enviando-os para a Justiça de São Paulo.

Gabeira delatou: “Tudo para proteger Lula”. O mesmo não fez, no entanto, quando do STF partiu ordem semelhante com o processo do tucano Geraldo Alckmin. Ficou calado.

Fernando Gabeira puxa uma longa fila de outros esquerdistas que migraram. O pernambucano Raul Jungmann é outro exemplo. Participou do governo de FHC e agora integra o governo Temer como ministro da Segurança Pública.

Houve aí, entretanto, um atrito com o deputado Roberto Freire, ex-mandachuva do PCB no Brasil, que fundou o PPS e passou também a militar a favor do golpe.

Freire é subordinado fiel do tucano José Serra, ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) que, em 1964, foi militante da Ação Popular. Assumiu por tempo curto o Ministério das Relações Exteriores.

Outro tucano, Aloysio Nunes, militante da Aliança Libertadora Nacional, substituiu Serra. Por sua vez, Moreira Franco, ministro de Minas e Energia de Temer, era integrante da Ação Popular. Há muitos outros trânsfugas nessa história.

Monteiro Lobato, um conservador empedernido, admirador dos Estados Unidos, em uma crônica premonitória antecipou essa migração. Ele imaginou que o Partido Comunista Brasileiro tivesse assumido o poder e comunicasse a vitória a Stalin em curto telegrama.

Após as saudações de praxe, os integrantes do Politburo, o Comitê Central do PCB, assinavam a comunicação: José Maria Alckmin, Benedito Valadares e Tancredo Neves, entre outros.

Maurício Dias
No CartaCapital
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É Lula quem pode consertar o Brasil


“Esse país não pode pensar pequeno. E eu penso grande. O Brasil pode ser ainda nesse século uma grande nação.”

Vídeo: Ricardo Stuckert

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Wilde

Oscar Wilde escreveu algumas das frases mais memoráveis e citáveis da língua inglesa para seus personagens, mas hoje seu personagem mais lembrado é ele mesmo. Vários autores modernos o colocaram no palco com falas novas. O mais surpreendente desses é Terry Eagleton, mais conhecido como crítico literário e pensador marxista. Na sua peça Saint Oscar, sobre o julgamento que condenou Wilde à prisão, Eagleton põe vários solilóquios wildianos na boca do escritor. A começar por sua apresentação à plateia: “Me chamaram Oscar Fingal O’Flahertie Wills Wilde. Outros ganham nomes, eu ganhei uma sentença inteira. Nasci com uma sentença sobre a minha cabeça”.

Depois de explicar sua gordura dizendo que come para compensar a fome na Irlanda, Wilde diz: “Sempre julguem pelas aparências, que são mais confiáveis do que a realidade. Os ingleses acham que isso é hipocrisia. Vocês se surpreendem que eles desconfiem de aparências, depois do que fizeram à metade do mundo? Eles fogem disso para um lugar interior chamado ‘verdade’. Um lugar profundo – como uma cloaca. Enquanto eu sou superficial, profundamente superficial. Não há nada à flor da pele na minha superficialidade”. E sobre a sua mãe: “Uma mulher admirável. Talvez seja o que mais me desagrade nela”.

O “Wilde” de Eagleton também diz:

“Tento não ter nenhum tipo de ressentimento social, mas não consigo evitar a inveja dos privilégios dos pobres. Eles estão livres da indigestão e do pânico na escolha do que vestir e não têm tempo para especulações metafísicas inúteis. É a sua naturalidade que eu invejo. Não, isso não é verdade. Detesto a Natureza. Ela não tem o dom do improviso: está sempre tediosamente se repetindo. Enquanto eu nunca faço a mesma coisa duas vezes, e é isso que me torna tão fascinante. Toda a minha vida tem sido uma longa prática antinatural. Não sou previsível como uma couve-flor”.

E: “É curioso como as pessoas ainda desaprovam a roupa, depois de tantos milênios. Consideram a nudez mais autêntica. Não posso imaginar um pensamento mais pervertido. A nudez sempre me pareceu tão artificial. Aparecer no tribunal totalmente nu – ah, essa seria a pose extrema. Tirem a minha roupa e a minha alma vai junto”.

E: “Sou um igualitário: para mim todas as classes são vulgares”.

E: “Sou socialista porque sou individualista. Como pode alguém ser um indivíduo neste esgoto de sociedade? Na minha santa devoção ao meu próprio ego prefiguro uma Nova Jerusalém, em que todos poderão ser, puramente, eles mesmos”.

E, falando no tribunal que o condenaria: “Nunca entendi o sentido do termo moralidade, a não ser como um meio de opressão. Sou, em suma, um decadente. Mas temo que a saúde de vocês possa ser mais doentia do que a minha decadência. Melhor sensacionalista do que imperialista. Temo pela saúde moral de uma nação inteira obcecada em determinar qual é o buraco certo para penetrar. Vocês subjugam raças inteiras, condenam a massa da sua própria população à miséria e ao desespero, e só conseguem pensar em que órgão sexual deve entrar aonde”.

E: “Vocês sustentam que homem é homem e mulher é mulher. Eu sustento que nada é simplesmente o que é, e que o ponto em que isso acontece se chama morte. Portanto, exijo que meus defensores sejam metafísicos em vez de advogados e que o júri seja composto pelos meus pares – poetas, pervertidos, vagabundos e gênios”.

Luís Fernando Veríssimo
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Policial descreve como atirou em irmãos rendidos no massacre de Pau D’Arco


O policial civil Raimundo Nonato de Oliveira Lopes achou que poderia morrer se não atirasse em Antônio Pereira Milhomem, o Tonho, na manhã de 24 de maio do ano passado. Nonato não tinha medo de Tonho. O trabalhador estava desarmado e rendido. O medo vinha dos policiais militares enfileirados nas suas costas.

Nonato havia acabado de chegar a uma clareira na Fazenda Santa Lúcia, localizada na cidade de Pau D’Arco, fronteira agrícola do sudeste do Pará. Nela, policiais militares haviam matado há pouco seis trabalhadores sem-terra que ocupavam a propriedade. Outros quatro, incluindo Tonho, seguiam vivos, mas perderiam a vida logo a seguir. Nonato ainda não sabia, mas presenciaria ali o maior massacre no campo no Brasil desde Eldorado de Carajás, em 1996.

Diante dos corpos que via no chão e de Tonho agachado ao lado deles, Nonato contou que tinha duas opções: ou cooperava com os policiais militares ou seria morto por eles. Escolheu a primeira opção. “Saquei a minha pistola e efetuei entre três e cinco disparos”, contou na última terça-feira, 17, ao ser interrogado nas audiências de instrução e julgamento do caso. Ele não sabe precisar se acertou Tonho e, após os disparos, tentou sair da clareira onde aconteceram as mortes.

Ronaldo Pereira de Souza, que se encontrava agachado ao lado do irmão Tonho, levantou-se e disse que queria morrer de pé. Nonato e os policiais militares atenderam ao pedido e dispararam contra Ronaldo, conhecido como Lico.



A versão de Nonato e de outro policial civil, que também colaborou com as investigações feitas pelo Ministério Público do Pará e a Polícia Federal, contesta a defesa dos 13 policiais militares e de outros dois policiais civis acusados pela chacina, segundo a qual teria havido um confronto com os trabalhadores sem-terra.

A operação, feita em conjunto pelas polícias civil e militar, tinha o objetivo de cumprir mandados de prisão contra 14 pessoas que estariam ocupando a fazenda, de propriedade de Honorato Babinski Filho. Os trabalhadores, que reivindicavam a terra para reforma agrária, eram acusados de ter assassinado um segurança privado da fazenda no mês anterior.

Os policiais militares entraram “no mato” da fazenda antes dos civis. Na primeira incursão, mataram seis agricultores nas proximidades do acampamento onde eles dormiam. Nonato relatou que estava longe do local quando esses primeiros assassinatos ocorreram. Ele só teria chegado ali depois, chamado por um policial militar que pediu sua ajuda sem especificar o motivo.

Chegando no local, Nonato viu os camponeses mortos e outros baleados. “A primeira coisa que eu presenciei foi o corpo da Jane [de Oliveira]”, contou o policial, referindo-se a líder dos camponeses morta naquela manhã. No corpo, ele viu a marca de um tiro de espingarda.

Sua primeira reação teria sido tirar fotos do local, mas foi impedido pelos policiais militares. “Não falaram [o motivo]. Mas ali, pelo pouco da experiência que eu tenho, eu já percebi que as coisas não estavam normais”, contou o investigador. “Ali já estava tudo dominado.”

Diante dos corpos no chão e da ausência de qualquer sinal de conflito, Nonato disse que o correto seria dar voz de prisão aos policiais militares ali mesmo. Mas isso não teria sido possível devido a uma questão numérica: eram quatro civis contra 15 militares.

Foi nessa hora em que ele alegou ter sido coagido a atirar nos irmãos. Na denúncia, o Ministério Público Estadual afirmou que essas duas mortes selaram “de maneira tenebrosa, o pacto firmado entre todos ali presentes.”

Enquanto ainda carregavam os dez corpos das vítimas para uma caçamba, um coronel teria proposto um acordo: o que ocorrera ali teria sido um confronto ocorrido com a presença dos policiais civis desde a entrada na fazenda. O delegado Valdivino Miranda da Silva, o outro delator, contou que o coronel disse, ainda na cena do crime, que “tinha que ser uma história só, porque se não ia dar problema na repercussão.”

Nonato e Silva contam que foram procurados nos dias seguintes pelos policiais militares para afinar a história, mas decidiram fazer a delação.

Pistas sobre os mandantes

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Velório das vítimas. Policiais acusados dizem que houve confronto armado. Delatores contestam a versão. 
Foto: Repórter Brasil

Até agora, as investigações sobre o caso tem se focado no que ocorreu no dia do massacre. Pouco se sabe sobre a existência de mandantes ou de outros interessados na morte dos sem-terra.

Um trecho do depoimento de Nonato, porém, pode ajudar a esclarecer quem ordenou as execuções. O policial civil disse que soube de uma reunião na qual o assunto seria uma “vaquinha feita por certos pecuaristas”, que contou com a presença de um delegado da Polícia Civil e de um sargento da Polícia Militar. Ela teria acontecido em Rio Maria, cidade vizinha a Pau D’Arco.

O encontro poderia apontar a possibilidade de que pecuaristas tivessem pago alguma quantia aos policiais que participaram da ação. “A existência dessa reunião dá uma pista sobre possíveis mandantes,” diz Andréia Silvério, advogada da Comissão Pastoral da Terra (CPT), entidade que atua como assistente da acusação contra os policiais. “Na nossa avaliação, isso pode contribuir com a investigação que a PF vem fazendo.”

A Polícia Federal abriu um segundo inquérito neste ano para investigar quem ordenou a execução. O promotor Leonardo Caldas, responsável pelo caso, afirma que a informação sobre a reunião havia surgido na fase de investigação, mas ela ainda não está comprovada.

15 policiais estão presos


A investigação do massacre de Pau D’Arco resultou na denúncia de 13 policiais militares e 4 policiais civis. Quinze deles estão presos preventivamente desde setembro do ano passado. Eles chegaram a ser soltos, mas tiveram a prisão mantida devido à liminar da ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, que negou o habeas corpus da defesa. Os dois delatores estão soltos devido à contribuição feita à Justiça. Eles contam com a ajuda do Provita, o Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas do Pará.

Parte do que os dois disseram durante as audiências na última semana, realizada em Redenção, cidade vizinha à Pau D’Arco, já havia sido dito em depoimentos à Polícia Federal e ao Ministério Público. Para o promotor, a confirmação das informações diante do juiz e dos advogados de defesa ajudará na condenação dos policiais.

O processo judicial entra agora em sua etapa final. Ainda que não haja um prazo definido, a CPT espera uma decisão ainda em 2018 sobre o caso.

Piero Locatelli
No The Intercept
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Como a Varig ajudou o Partido Nazista a espionar em solo brasileiro durante a Segunda Guerra

O hangar da Varig no antigo Aeroporto de São João, nos anos 1920, próximo de onde hoje está o Salgado Filho, em Porto Alegre
Novembro de 1939, Porto Alegre. Dois meses depois da Alemanha ter invadido a Polônia e dado início à Segunda Guerra Mundial, o Dops (Departamento de Ordem Política e Social) do Rio Grande do Sul fez uma descoberta curiosa no Aeroporto São João. Um amontoado de caixas com peças para montagem de um equipamento rádio-transmissor de destino misterioso. Rastreando as peças em segredo, a polícia descobriu que foram levadas por um avião da Varig, para Rio Grande, no sul do estado. Foram apreendidas pela polícia antes de chegar ao navio a vapor alemão que estava detido no Porto desde o início da Guerra, quando o Brasil declarou neutralidade.

Um relatório escrito pelo delegado responsável pelo caso, Theobaldo Neumann, um ano depois, afirmava que o rádio ajudaria a informar os corsários e submarinos alemães sobre as movimentações de embarcações inimigas na costa sul do Atlântico. Nessa época, navios da Marinha Inglesa já estavam posicionados na região. No mês seguinte, eles seriam responsáveis por derrubar o maior navio de guerra alemão, o Admiral Graf Spee, em uma batalha em pleno Rio da Prata, em Punta Del Este, no Uruguai. A primeira da Segunda Guerra.

O episódio do rádio levou a polícia diretamente a Otto Ernest Meyer, fundador e presidente da Varig, então a maior companhia de viação aérea comercial do Brasil. Durante dois dias ele ficou detido prestando depoimentos sobre seu envolvimento na instalação de um equipamento de espionagem alemã em solo brasileiro.

Professor Alexandre Fortes, autor do livro
“Nós do 4º Distrito”, onde fala das empresas
alemãs de Porto Alegre
O episódio foi descoberto quase por acaso pelo historiador Alexandre Fortes, no final dos anos 1990. Fortes estava com dificuldades para encontrar documentos ligados à atuação das polícias políticas no Rio Grande do Sul. Mesmo depois da redemocratização e de determinações que mandavam que os arquivos fossem tornados públicos, no estado, isso nunca foi efetivado. O Arquivo Público do Rio de Janeiro, porém, possuía uma pasta de documentos relativos ao Dops gaúcho. Entre eles, Fortes encontrou o episódio esquecido da Varig.

No relatório, os policiais do Dops acusavam Meyer de ser filiado ao Partido Nazista. “Ele dá uma resposta que é uma cortina de fumaça. Ele dizia que não era filiado ao Partido Nazista, mas era filiado ao Deutsch Arbeitsfront, que é a Frente de Trabalho Alemã, o braço sindical do partido. Inclusive, [a instalação do rádio] foi uma determinação que veio da Alemanha, que envolveu a Varig como apoio operacional para uma ação de espionagem, em território brasileiro, na qual o Meyer participou pessoalmente”, conta Fortes.

O documento foi o primeiro que o historiador encontrou que revelaria ligação da Varig com o nazismo desde a sua criação. Piloto veterano da Primeira Guerra Mundial, como boa parte dos filiados ao Partido, filho de um oficial alemão que foi adido militar no Pacífico, Otto Meyer não parou no Brasil por uma coincidência. A criação de uma companhia de aviação civil também não era um mero sonho de um imigrante europeu na América do Sul, como a lenda de fundação da Varig contou durante anos.

A Missão

Nos anos 1920, as potências do mundo começaram seus projetos de aviação comercial. Os primeiros foram os franceses, com a criação da Aéropostale. Como viria a ser em todos os países, o envolvimento do Estado e das Forças Armadas vinha  junto com a participação civil. Segundo Fortes, em todos os lugares, a aviação era vista como alvo de interesse militar em potencial e como algo importante para as relações internacionais, para expandir a influência do país no exterior.

No mesmo ano que a República de Weimar funda a sua estatal de aviação, a Deutsche Luft Hansa Aktiengesellschaft (mais tarde apenas Lufthansa), Otto Meyer e um grupo de veteranos da Primeira Guerra são enviados para a América do Sul. Cada um deles, com a missão de apresentar propostas de criação de companhias aéreas nacionais, com participação de empresários locais, que teriam a possibilidade de conseguir aviões alemães para começar o negócio. Além da Varig, a Pluna, no Uruguai e uma série de outras empresas, no Equador, na Colômbia, foram surgindo com o mesmo modelo de origem e formando uma rede própria, o Condor Syndikat.

Meyer desembarcou primeiro em Recife. O nordeste brasileiro era visto como um ponto estratégico para voos que ligassem o Velho Mundo e o Novo Mundo. O primeiro contato dele com a proposta de criação de uma empresa aérea foi a família Lundgren, que fez fortuna na indústria têxtil, dona das Casas Pernambucanas. De origem sueco-alemã, os Lundgren eram conhecidos pelo envolvimento com o nacionalismo alemão. Depois da Guerra, viria à tona a participação deles na criação de células nazistas no nordeste, algumas abrigadas dentro das próprias fábricas do grupo, como em Rio Tinto, na Paraíba.

Mas além deles, Meyer não conseguiu maior apoio para sua ideia. Sua segunda tentativa foi em Santos, junto à empresa alemã Theodoro Wille, que nasceu com um imigrante de Hamburgo e desde o século XIX fazia comércio entre Brasil e Alemanha. Exportando o café brasileiro para a Europa, importando de lá bens de consumo como louça, talheres, máquinas, produtos químicos. Outra empresa alemã que, anos mais tarde, se descobriria que ajudou com a espionagem no Brasil.

Escritório da Varig em Pelotas, logo após a criação da empresa
O fracasso na segunda tentativa trouxe Meyer direto para Porto Alegre. A capital gaúcha de então tinha uma das colônias alemãs mais fortes do sul da América do Sul. Além de liderarem algumas das empresas mais importantes do Quarto Distrito, os alemães tinham sociedades culturais, participavam institucionalmente da política, tinham dois jornais diários publicados em alemão, um católico, outro luterano, e aqui a ideia deu certo.

Otto Meyer chega em Porto Alegre com a mesma proposta que outros pilotos alemães repetiam pelo continente, em busca de sócios para um sociedade anônima e isenção fiscal. Em uma assembleia reunindo boa parte dos empresários da época, a maioria deles alemães, ele consegue o apoio que faltou nos outros dois locais. O governo do Estado, nas mãos de Getúlio Vargas, o mesmo homem que quinze anos depois, como presidente, declara guerra à Alemanha de Adolf Hitler, entra com 20% das ações. Nasce a Viação Aérea Riograndense: Varig.

Dois anos depois da criação, Getúlio já colheria o trunfo de ter uma empresa aérea ao seu lado. No dia em que lançou sua candidatura à Presidência da República, pela Aliança Liberal, com um discurso histórico no Rio de Janeiro, na Esplanada do Castelo, Getúlio saiu do Rio Grande do Sul e voltou no mesmo dia, a bordo de um avião da Varig. Um ano depois, durante a Revolução de 1930, a empresa estava pronta para operar como Força Aérea do lado gaúcho. Alexandre Fortes lembra, inclusive, que o próprio Osvaldo Aranha, secretário de Interior de Getúlio, voou ao Uruguai junto com Meyer, para comprar metralhadoras que foram instaladas nos aviões. No fim das contas, eles não chegaram a entrar em combate.

“A Varig se tornou um instrumento de poder. O Rio Grande do Sul era o quarto estado mais importante economicamente, mas estava muito atrás de São Paulo, Rio e Minas. Como essa empresa vai surgir justamente aqui? A economia gaúcha, por si só, não tinha atrativos ou poder para sustentar uma empresa de aviação, que chegou a se tornar internacionalmente importante. Isso aconteceu por conta dessas articulações políticas e da colônia alemã”, analisa Fortes.

O partido

Um dos primeiros aviões da Varig, na década de 1930
O início dos anos 1930 foi de ascensão da Varig, enquanto o Partido Nazista ganhava mais e mais simpatia dentro de uma Alemanha em crise econômica. Em 1933, Adolf Hitler, piloto veterano da Primeira Guerra como Otto Meyer, se torna Chanceler e o partido ganha a maior bancada do país. No ano seguinte, em 1934, já não havia mais República de Weimar e Hitler era o Fuhrer.

Nessa época, segundo Alexandre Fortes, era difícil enxergar a linha que separava um patriota alemão de um nazista. O partido de Hitler contava ainda com a simpatia dos conservadores do mundo ocidental, como Henry Ford, que chegou a ser condecorado pelos nazistas. “O nazismo era visto, por quem estava fora da Alemanha, como o regime que reconstruiu um país arrasado pelos efeitos da Primeira Guerra Mundial, da crise aguda dos anos 1920, que restaurou o pleno emprego, o crescimento econômico, o orgulho nacional e, acima de tudo, era anticomunista. Num mundo muito polarizado pela Revolução Russa, pelo avanço da esquerda ao longo dos anos 1920, há entre os conservadores uma certa simpatia mesmo”, explica.

Na colônia alemã de Porto Alegre não era diferente. Fotos antigas da sede da Sogipa (Sociedade de Ginástica de Porto Alegre), de um desfile de 1º de maio organizado no campo esportivo de AJ Renner e mesmo do aeroclube da Varig mostram bandeiras com suásticas penduradas por toda parte. A bandeira do partido que havia substituído a bandeira nacional. O evento de Renner, aliás, realizado em 1936, contou com até com a participação do cônsul dos Estados Unidos no Rio Grande do Sul.

O quadro começa a mudar quando o Partido envia uma diretriz pedindo para intensificar a nazificação em entidades e órgãos compostos por alemães. A colônia de Porto Alegre racha. Muitos dos empresários não queriam se envolver com partido, nem romper com outros parceiros comerciais. Fortes conta, por exemplo, sobre um depoimento que encontrou de um vendedor de carros da capital que foi procurar o cônsul norte-americano para explicar porque não poderia mais vender marcas dos EUA. Segundo o homem, mesmo sabendo que seus clientes preferiam os carros americanos, a pressão do consulado alemão para que ele vendesse apenas marcas nacionais era mais forte.

Em 1934, o próprio governo brasileiro, já com Getúlio Vargas como presidente, assinou os Acordos de Compensação, concordando em exportar carne, tabaco, café, couro, algodão para a Alemanha, em troca de importar uma grande quantidade de manufaturados alemães. Um ano depois, Getúlio também assinou um acordo com os Estados Unidos, oferecendo concessões tarifárias aos produtos importados, em troca de liberação de tributos de exportações brasileiras.

A situação muda em 1942. Durante cinco dias, seis navios mercantes brasileiros foram afundados na própria costa, deixando mais de 600 mortos. Todos atacados pelo mesmo submarino alemão, o U-507. Sob pressão popular, Getúlio declara guerra à Alemanha e à Itália. No Brasil, estava proibido falar em alemão e qualquer tipo de atuação política internacional ou vinculada a países estrangeiros.

Otto Meyer, no entanto, não obedeceu. Uma lista apreendida pela polícia política na sede do Partido Nazista, em Porto Alegre, mostra que ele continuou fazendo doações regulares, mesmo depois da proibição. Além disso, aviões da Varig ajudavam a distribuir propaganda nazista pelo interior do estado, enquanto pilotos seguiam trabalhando para o partido. Um deles, Xavier Greiss, foi o responsável por ligar os nazistas gaúchos aos do Uruguai.

“O envolvimento de Otto com o nazismo não era trivial, era muito consistente mesmo. Essa lista tem alguns outros nomes conhecidos, como João Neugebauer, Adolfo Trein, Hans Wallig e João Wallig”, conta Fortes.

Como resposta, o governo brasileiro faz uma intervenção federal na Varig, afastando Otto Meyer do cargo de presidente. Em seu lugar, o mesmo Getúlio Vargas que ajudou a construir a empresa anos antes, colocou o ex-piloto Érico Assis Brasil. O novo presidente, porém, fica pouco tempo no cargo, porque acaba morrendo em um acidente aéreo na região metropolitana de Porto Alegre. A presidência fica então com um indicado do próprio Meyer, que seguiu no Conselho da empresa até sua morte em 1965, um funcionário chamado Rubem Berta.

O nazista

O período dos anos 1930 até a decisão do Brasil de entrar na guerra foram como uma montanha-russa para os alemães que viviam aqui, segundo Fortes. Eles caem de posições de prestígio na sociedade para terem suas lojas apedrejadas, as sociedades culturais fechadas, proibição total do uso da língua. “Eles são perseguidos, em alguns casos presos, têm seus bens apreendidos, várias empresas de origem alemã são fechadas, expropriadas pelo governo. É um reviravolta muito profunda, muito acentuada”, diz o pesquisador.

Em meio a tudo isso, Meyer permanece intocado, mesmo depois da apreensão da lista na sede do Partido Nazista. Relatos de vários trabalhadores da Varig, na época, contavam que, mesmo depois da declaração de guerra, a empresa continuava favorecendo quem tinha origem alemã ou falasse alemão na hierarquia. Um capítulo da tese de Fortes traz o depoimento de um funcionário que diz que “a Varig não tinha tripulante preto (…) os funcionários competentes eram respeitados, mas sem ser ‘alemão’ [ou teuto-brasileiro], não se era membro do clã”.

Alguns anos depois de encontrar o documento sobre o episódio do rádio-transmissor, Fortes encontrou mais documentos comprovando a ligação entre a Varig e o nazismo, nos Estados Unidos. Encontrou, inclusive, provas de que os americanos também espionaram a Varig. Quando o Brasil rompe com a Alemanha, Osvaldo Aranha, então ministro das relações exteriores, escreve uma carta pedindo que os EUA passem a vender peças de reposição para os aviões da Varig. A resposta é um reconhecimento oficial de que os americanos sabiam que a empresa estava ligada aos nazistas.

O vínculo, aliás, conforme lembra Fortes, não era surpresa nem para o próprio governo. Em outro documento encontrado por ele, o Brigadeiro Eduardo Gomes, pioneiro da aviação brasileira, que chegou a ser candidato à presidência, escreve indignado para Aranha questionando como a americana Panair poderia receber mais incentivos que a Varig, que era uma empresa nacional. Aranha responde: “meu caro Brigadeiro, a gente não pode ter tanta ingenuidade, não existe empresa nacional neste caso. O que existe é uma empresa alemã, a Varig, e uma empresa americana e os americanos são nossos aliados, ao contrário dos alemães que não cansam de atitudes rasteiras, inclusive fazendo espionagem em nosso território”.

Se a ligação nazista da Varig era de conhecimento público, como então ela ficou esquecida pela História? Até hoje, a história oficial da criação da empresa é de que ela teria nascido do sonho de um imigrante alemão e sua iniciativa individual. A resposta talvez esteja na “operação-abafa” que aconteceu em torno das descobertas de Alexandre Fortes. No início dos anos 2000, o maior jornal do Rio Grande do Sul vetou a publicação de uma reportagem sobre o caso. A Varig, mesmo em crise, ainda era uma das maiores empresas aéreas do país. A Folha de S. Paulo foi um dos únicos lugares que quis publicar a respeito.

Para o historiador, depois de 20 anos estudando as relações no Brasil na época da Segunda Guerra Mundial, não há dúvidas de que Otto Ernest Meyer era sim um nazista. Embora ser nazista enquanto a guerra acontecia não tivesse as definições tão claras como hoje, pela sua análise, ninguém teria se envolvido tão profundamente com a espionagem, caso não se identificasse com os ideais do partido.

“Há uma responsabilidade muito grave nesse caso. O tipo de ação da qual Meyer participou, foi feita em vários portos do Brasil e deu suporte logístico para a atividade dos submarinos alemães que afundaram navios brasileiros e mataram mais de mil pessoas, na costa brasileira, a partir de 1942. Morreram mais brasileiros na guerra aqui do que na frente de batalha na Itália, onde a Força Expecidionária Brasileira (FEB) perdeu cerca de 500 militares”, lembra o historiador. “E Meyer continuou tendo sua vida. Não foi incomodado, de maneira nenhuma, no pós-guerra, toda essa história da vinculação com o nazismo foi abafada e, nesse abafa, existe uma cumplicidade muito ampla do Estado”.

Mapa de rotas nos final dos anos 40

Fernanda Canofre
No Sul21
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É incoerente tirar foro de deputados e senadores e manter o de juízes e procuradores


A decisão do Supremo Tribunal sobre o foro de prerrogativa é inconsistente, incompleta e não deveria ter sido tomada em uma questão de ordem.

É incoerente que o Supremo retire o foro dos deputados e senadores mas mantenha o foro dos juizes, ministros do Judiciário e do Executivo, membros do Ministério Publico.

Sempre fui contra o foro de prerrogativa tal como era, mas penso que a decisão não resolve o impasse. Até porque dará margem a muitas interpretações.

O ideal, como venho defendendo há tempos, é que apenas os presidentes do Executivo, do Judiciário, da Câmara e do Senado continuassem com o foro no Pleno do Supremo.

Todas as demais autoridades responderiam perante um Juiz Federal de primeira instância. Isto impede, por exemplo, que um juiz isoladamente determine a prisão de um Ministro da Fazenda com sérias repercussões na economia.

É importante, também, que seja numa vara federal para diminuir uma possível força dos executivos locais. Porém, e isto é fundamental, toda e qualquer medida cautelar, seja prisão, afastamento de cargo, busca e apreensão, etc, só poderia ser aplicada por um colegiado de, no mínimo, 3 desembargadores federais.

A instrução e o julgamento serão de responsabilidade do juiz de primeira instância. Este modelo, entendo, atende melhor o sentimento republicano.

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay
No DCM
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Karl Marx, o espectro de uma ideia que mudou o mundo

A leitura que Karl Marx fez do capitalismo e o programa de acção que propôs para o demolir mudaram o curso da História. Para o bem? Para o mal? Dos regimes brutais que se serviram das suas ideias à apologia da sua mensagem libertadora, que sentido faz Marx hoje? A crise de 2007, a desigualdade crescente ou o gigantismo de empresas como a Google podem ressuscitar a sua crítica do capitalismo? Karl Marx nasceu há 200 anos.


Os últimos dias de Fevereiro de 1848 Paris entrou em estado de sítio. Soldados em parada ousaram vaiar o rei Luís Filipe, milhares de operários e estudantes tomaram as ruas de assalto, montaram barricadas, afrontaram as classes médias, determinaram a demissão do primeiro-ministro (Guizot), ousaram reclamar o poder e logo a seguir ditaram a abdicação do monarca e a criação da Segunda República. Não foi coincidência, mas por esses dias tumultuosos, a 24 de Fevereiro, Karl Marx publicava o Manifesto Comunista que parecia adivinhar e explicar a insurreição de Paris. “Um espectro assombra a Europa... o espectro do comunismo”, lia-se na primeira linha do Manifesto. A França habituada aos tumultos revolucionários acabaria por derrotar os sublevados e na verdade Marx já não era vivo quando, em Outubro de 1917, a sua deixou de ser sombra para se tornar realidade nas ruas de Petrogrado (São Petersburgo). Pela primeira vez, um projecto de comunismo estava em execução.  

Entre o espectro da revolução e a revolução que tomou de assalto os palácios do czar e aplicou pela primeira vez a ditadura do proletariado para chegar a uma sociedade comunista, sem Estado, sem classes, sem oprimidos e opressores, passaram 70 anos. O programa a que Marx dedicou toda a vida cumpria-se. E a promessa que o seu grande e fiel amigo (e colaborador) Friedrich Engels fez na oração fúnebre que lhe dedicou no momento do seu discreto funeral (assistiram 11 pessoas), a 17 de Março de 1883, também. Marx, disse Engels, fora “o mais odiado e caluniado homem do seu tempo”, mas “o seu nome resistirá ao longo dos tempos e o seu trabalho também”. No dia em que se assinalam 200 anos do seu nascimento é impossível não lhe dar razão. Peter Singer, autor de uma “pequena introdução” ao universo do filósofo defende que “a influência de Marx pode ser comparada à das grandes figuras religiosas como Jesus ou Maomé” — porque “durante uma grande parte do século XX cerca de quatro em cada dez pessoas na Terra viveram sob governos que se consideravam marxistas e reclamavam seguir as suas ideias”.

Poucos pensadores foram capazes de deixar uma marca tão indelével na história como a desse homem razoavelmente corpulento, barbudo e de cabeleira farta. A Primeira e a Segunda Internacional, a criação dos primeiros partidos sociais-democratas, socialistas e comunistas, o bolchevismo e a Rússia soviética, o radicalismo violento, Rosa Luxemburgo e Che Guevara, Álvaro Cunhal, a China de Mao ou a Cuba de Fidel, a luta contra o nazismo, contra o colonialismo, ou contra o salazarismo, tudo teve a inspiração nas páginas que Marx produziu ao longo da sua vida. Para muitos, o seu desprezo pelas tradições, pela religião ou pela moral convencional tornaram-no num monstro odioso; para outros, a sua luta pela libertação dos trabalhadores e dos oprimidos foi um raio de luz que iluminou, e ilumina, as perspectivas da humanidade.

Registar os 200 anos de Marx é, por isso, motivo de celebração ou de lamento profundo. Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, estará hoje em Trier, a cidade onde o filósofo nasceu num quarto andar, e essa deslocação gerou um azedo coro de críticas um pouco por toda a Europa. A China ofereceu à cidade uma estátua de Marx com cinco metros e logo chegaram protestos contra a falta de respeito pela memória das vítimas do comunismo. Mais do que a rejeição da sua teoria da História ou até do seu programa de acção para derrubar o Estado burguês e instituir uma sociedade comunista, o que os opositores de Marx denunciam foi o uso posterior das suas ideias. Ora, seja o estalinismo ou o maoísmo, são “uma subversão das ideias de Marx”, nota o historiador Manuel Loff. Da mesma forma que não se pode associar os crimes da Inquisição à palavra de Cristo, é conveniente ter cuidado quando se cola a brutalidade dos regimes comunistas às teses de Marx, comenta Loff.

Marx não apregoava a supremacia racial e a conquista imperial como Hitler, mas há leituras que encontram nos seus escritos o gérmen da violência maníaca, arbitrária e persecutória de Estaline ou de Pol Pot. “Quando se passa da sua teoria da História para o seu programa de acção, podemos dar conta que aí há ideias perigosas e negativas, como a luta de classes ou a ditadura do proletariado, mas não faz sentido acreditar que Marx aprovaria um regime como o de Pol Pot”, diz Paulo Rangel, eurodeputado do PSD. Olhando a China de Mao ou os regimes comunistas na URSS, Vietname ou na Jugoslávia, “podemos notar alguma influência marxista ao nível das relações económicas e sociais, mas não ao nível político. A natureza do Estado ou a estrutura do sistema político tinham muito pouco que ver com o marxismo”, nota Loff, professor de História Contemporânea na Universidade do Porto.    

Marx propunha a abolição do Estado, enquanto mecanismo pensado e desenvolvido para exercer o domínio de uma classe social. Quando o desígnio final de uma sociedade igualitária, sem classes, sem exploradores e explorados fosse atingido, o Estado deixava de fazer sentido. Entre os preceitos da “herança tricolor” da Revolução Francesa (liberdade, fraternidade e igualdade) Marx preferia a igualdade a todos os outros. “Ao pegar na igualdade, ele acabou por criar um equipamento mental que desprezava a liberdade”, observa Rangel. Por isso, a ideia comunista foi sempre mais acolhida em sociedades mais apegadas aos valores da livre iniciativa e do livre pensamento. Como o Reino Unido ou os EUA.

Durante a sua vida, não faltaram exemplos da sua propensão para trocar o pluralismo pelo autoritarismo. Bakunine, o fleumático filho de um conde russo que se tornou famoso na Europa a apregoar o anarquismo, dizia que Marx era “autoritário da cabeça aos pés”. Carl Schurz, um estudante, viu-o numa reunião de democratas em Colónia, em 1848, e escreveu: “Todos aqueles que o contradiziam eram tratados com desprezo abjecto e respondia a todos os argumentos de que não gostava com mordaz desdém.” As suas ideias, que apontavam para a abolição do regime capitalista, a supressão da burguesia, ou o fim da propriedade privada jamais nasceriam de geração espontânea. Só seriam aplicadas na sequência de uma revolução. Marx jamais apregoou o Terror jacobino da Revolução Francesa, mas a tomada do poder por métodos violentos não lhe desagradou. 

O jovem Marx

Marx, como todos os revolucionários do século XIX, é um produto desses tempos turbulentos em que a Europa se industrializava rapidamente. Depois da Revolução Francesa e da independência dos Estados Unidos, a liberdade de pensamento, o sufrágio universal, a igualdade perante a lei ou o limite dos poderes tornaram-se aspirações entre as classes médias, ou nas universidades. No país de Marx, porém, essa realidade é distante. Marx nasce numa região assente sobre “uma falha histórica”, escreve David Priestland, no seu monumental A Bandeira Vermelha, onde a aristocracia ditava as regras e a tradição ainda sustentava a servidão.

Marx nasceu numa família de judeus habituada a fornecer rabinos para a comunidade, mas o seu pai, um advogado que se tinha convertido ao luteranismo, estava a par das ideias contagiosas que vinham de Paris ou de Londres. Karl estava talhado a seguir os seus passos e vai para Bona estudar Direito, mas depois de vários episódios de mau comportamento a família decide enviá-lo para Berlim, onde passa a frequentar o curso de Filosofia. Aí, a sedução das ideias políticas começa a tornar-se irresistível. Gravita em torno dos Jovens Hegelianos, deslumbrados com uma filosofia da História que, com base na razão, destinava a humanidade a um estado terminal de liberdade — “O que é racional é real”, logo, as autocracias sendo irracionais não poderiam subsistir. O jovem Marx acaba por se doutorar em 1841 com uma tese sobre As filosofias da Natureza em Demócrito e Epicuro. Mas não era a filosofia da natureza que o cativava. O vírus da política tinha-o contaminado.

Marx começa a escrever no Rheinische Zeitung, um jornal progressista de Colónia, e pouco depois chega ao cargo de director. O seu brilhantismo, a sua acutilância e a profundidade das suas análises distinguem-no nos círculos contestatários ao poder do Kaiser. Moses Hess, um socialista que o conheceu na altura, descreveu-o, quando ele tinha 24 anos, numa carta a um amigo com um desafio: “Imagina Rousseau, Voltaire, Holbach, Lessing, Heine e Hegel fundidos numa só pessoa. Digo ‘fundidos’, não justapostos — e tens o dr. Marx.”

Entre o jornalismo e o activismo político, Marx dá um passo decisivo na sua vida pessoal: em Junho de 1843 casa-se com Jenny von Westphalen, oriunda da aristocracia prussiana — o irmão Ferdinand foi ministro do Interior. Seria a sua grande companheira toda a vida. E penalizar-se-ia sempre por não lhe ter dado uma vida mais tranquila e confortável. Numa carta de Novembro de 1882 ao socialista francês Paul Lafarge, que pretendia formalizar o namoro com a sua filha Laura, Marx escreveria: “Sabe que sacrifiquei toda a minha vida à causa revolucionária. Não estou arrependido. Muito pelo contrário. Se tivesse de viver de novo a minha vida, faria exactamente o mesmo. Mas não me casaria. Desejo quanto possível poupar a minha filha aos escolhos em que a mãe dela arruinou a vida.”

O “sacrifício” começa logo em Novembro de 1843, cinco meses após o casamento. As autoridades prussianas encerram Rheinische Zeitung e Marx parte para o exílio, em Paris, onde a mulher se lhe reunirá pouco depois. Paris era na época a cidade luz de todos os revolucionários da Europa. Nos dois anos que se seguem, o jovem filósofo desdobra-se em contactos e conhece radicais famosos como Mikhail Bakunine e Joseph-Pierre Proudhon. Não serão, todavia, eles quem ficaria ao seu lado de uma forma leal, dedicada e permanente ao longo da vida. Em 28 de Agosto encontra-se no café Régence com Friedrich Engels e a partir daí os dois homens estabelecem uma amizade à prova de bala. Sem a disciplina de Engels, sem os seus incentivos e sem a sua permanente ajuda financeira ao amigo sempre falido, dificilmente Marx poderia ter escrito e publicado uma obra com 50 volumes.

Na sua estadia em Paris, Marx começa a consolidar a sua teoria da História e a cimentar as bases da economia política. Lê os economistas ingleses (Adam Smith, David Ricardo, James Mill) e dedica-se a definir as bases da sua ideologia. O capitalismo, notaria, impõe ao trabalhador “o excesso de trabalho e morte prematura”, reduzindo-o “a uma máquina” sujeita ao “capital”. A burguesia, que se alimentava dos despojos do capitalismo, criara uma teia de mentiras (o comércio livre, o parlamento, a lei..) para alienar os trabalhadores. Nada mudara do modo de produção feudal para o capitalista. A burguesia “substituiu a exploração brutal, directa, desavergonhada e nua pela exploração velada por ilusões políticas e religiosas”.

No coração do capital

Tornara-se demasiado perigoso para uma Paris que fervilhava de ideias “subversivas”. Em 1845 o Governo francês expulsa-o. Viaja para Bruxelas com a família e continua a sua vida entre a escrita e a agitação dos movimentos de trabalhadores, com destaque para a Liga Comunista. Havia necessidade de um programa e Marx foi encarregado de o redigir. Em 24 de Fevereiro de 1848, o Manifesto Comunista é publicado em alemão. A insurreição popular que toma conta de Paris em Junho parecia tornar real o “espectro” que brandia. A Primavera dos Povos alastra rapidamente da França à Áustria, à Hungria, à Alemanha e promete varrer o continente. Mas as forças da ordem, as dinastias europeias, eram ainda demasiado fortes. A revolução sucumbiu, mas causou mudanças. “A revolução assinalava o fim, pelo menos na Europa ocidental, da política da tradição, das monarquias que acreditavam que os seus povos (...) aceitavam e amavam o governo de dinastias de designação divina”, escreveu Eric Hobsbawm, historiador marxista.

Após a revolução, a França volta a acolher Marx, entretanto expulso da Bélgica. Quando a insurreição de 1848 fica dominada, Marx tem de novo de partir. Restava-lhe como destino a capital do capitalismo burguês, Londres, que após o colapso da Primavera dos Povos se torna o destino dos revolucionários derrotados. Em Londres, Marx fica à espera de uma nova crise para abrir portas a uma nova revolução. Com o tempo percebe que a burguesia não ruiria tão depressa como chegou a prever.

Os primeiros anos do novo exílio são talvez os mais vazios, duros e deprimentes da sua vida. Um espião alemão descreveu-o por essa altura, cerca de 1850, dizendo que “leva a vida de um intelectual boémio”. “Lavar-se, pentear-se e mudar de roupa são coisas que mal faz. E gosta de embebedar-se. Embora passe dias seguidos sem fazer nada, trabalha infatigavelmente dia e noite quando tem trabalho. Não tem horas de dormir e de acordar.” Nesses anos, Marx conheceu sucessivas privações e infortúnios. A 27 Fevereiro de 1852, numa carta para Engels, escreveu: “Há uma semana cheguei ao agradável ponto de não poder sair à rua por os meus casacos se encontrarem no prego e já não posso comer carne por falta de crédito (...) Nos últimos oito a dez dias toda a família se alimenta unicamente de pão e batatas.” Em tom de brincadeira, dizia não crer “que ninguém tão teso tenha alguma vez escrito sobre dinheiro”.

As heranças de Jenny ou suas e, principalmente, a ajuda permanente de Engels, que trabalhava numa importadora de algodão em Manchester que era do pai, apenas mitigaram os problemas financeiros crónicos da família. Por vezes Marx tinha de fugir para se furtar à pressão dos credores. Pior ainda do que as dívidas e a penúria financeira foram os dramas familiares. O episódio que mais o marcou terá sido a morte do filho Edgar, com oito anos, em Abril de 1855, vítima de tuberculose. Uma carta a Ferdinand Lassalle (um dos precursores do SPD alemão) exprimia essa dor: “A morte do meu filho feriu-me mortalmente e sinto a sua perda como no primeiro dia.” De resto, quatro dos seus seis filhos morreram antes dele e as duas filhas que lhe sobreviveram suicidaram-se. Neste particular, os Marx não tiveram uma vida fácil. O único filho que teve uma vida “normal” resultou de uma relação extraconjugal com a fiel empregada doméstica, Lenchen — a paternidade, revelada apenas nos anos de 1960, não é consensual entre os seus biógrafos.

Nos intervalos da falta de dinheiro ou dos dramas familiares, Marx portava-se como um cavalheiro da sua classe. Na sua essência, o seu comportamento era tipicamente burguês — consumia vinho do Porto, dava bailes para as filhas, inscreveu-as em colégios para meninas finas, mandou imprimir cartões para a mulher onde se lia “Madame Jenny Marx, née baronesa de Westphalen”. Numa carta para Engels, em 1865, expôs numa tese a sua maneira de viver: “Acho que tu mesmo hás-de concordar que, de um ponto de vista puramente comercial, levar uma vida proletária não seria recomendável nas presentes circunstâncias, muito embora, se eu e a minha mulher estivéssemos sós, ou se as raparigas fossem rapazes, não teria mal nenhum.” Quando bebia ou se correspondia com amigos, mudava de agulha e recuperava o feitio dos tempos de estudante, boémio e aventureiro. Gostava de piadas porcas, ou de escândalos sexuais e divertia-se a descrever a suposta flatulência da imperatriz Eugénia, mulher de Napoleão III.

Não deixou nunca, no entanto, de cumprir o grande desígnio da filosofia que havia traçado nas Teses sobre Feuerbach, de 1845: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de várias maneiras; mas a finalidade é mudá-lo.” Continuou a desenvolver os conceitos do materialismo histórico, pelo qual as transformações operadas pela luta de classes faziam mudar o modo de produção e, por consequência, as relações humanas. Era a evolução dos modos de produção que determinava as diferentes expressões de consciência: “Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência.” “A ideia de que são os factos económicos que explicam os comportamentos humanos em geral e o próprio sistema político foi o seu principal legado”, diz Paulo Rangel.

A obra decisiva

Faltava ainda a sua grande obra de crítica do capitalismo para consolidar a sua já vasta produção ideológica. Antes, em 1864, Marx empenha-se na criação da Associação Internacional dos Trabalhadores, nascida a 28 Setembro 1864 — a Primeira Internacional. Marx será membro do conselho geral e, na prática, o seu principal mentor e dirigente. Em 1867, o primeiro tomo da sua grande obra de fôlego, O Capital, é finalmente publicado. Ao lado da crítica ao capitalismo burguês, nasce um programa de acção capaz de o superar até à criação de uma sociedade comunista. Depois da revolução, haveria uma ditadura do proletariado, transitória, que não seria exercida por um partido, mas através de um governo proletário baseado em assembleias populares. O uso da violência para extinguir o Estado burguês era admitido. Nas etapas de evolução da ditadura haveria um estágio “baixo” do comunismo, em que os trabalhadores seriam pagos de acordo com a sua produtividade. Só depois chegaria o estágio “elevado”, em que se trabalharia colectivamente, sem disciplina coerciva nem “subornos monetários”, escreveu David Priestland.

No comunismo, a alienação da humanidade condenada a vender a sua força de trabalho para gerar as mais-valias que são a base da acumulação capitalista, da exploração e da desigualdade, desapareceria. Em O Capital, Marx admitia com realismo que seria necessária uma “autoridade directora” na economia para ajustar a potencialidade da produção às necessidades da sociedade — o esboço da planificação tinha nascido. Mas, com o tempo, a sua visão deixava transparecer uma sociedade igualitária e harmoniosa. “De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades”, escreveria mais tarde. Seria então que o Estado se dissiparia. Marx nunca explicou quem desempenharia nessa sociedade os trabalhos mais duros ou menos criativos. Um crítico perguntou-lhe um dia quem engraxaria os sapatos e a resposta foi lapidar: “Você.”

Nos anos finais da sua vida, Marx ainda teve a esperança de assistir ao triunfo do proletariado, quando uma nova sublevação em Paris cria a Comuna, em 1871, “que causou o pânico nas elites, obrigou a pactos entre imperadores e escandalizou a classe média”, na descrição de Eric Hobsbawm. Os dedos acusadores voltam-se para Marx, o profeta vermelho que andava havia 40 anos a profetizar a revolução. “Tenho a honra de, neste momento, ser o homem mais caluniado e ameaçado de Londres”, escrevia ao amigo alemão Ludwig Kugelmann, por essa altura.

Daí para a frente, a esperança estava no Partido Social-Democrata na Alemanha, um partido marxista, “que lutava pelos interesses dos trabalhadores no seio do sistema vigente sem colaborar com a burguesia”, de acordo com David Priestland, que em breve se tornaria uma força essencial da política germânica. Marx exultou com os seus resultados, mas nessa fase da sua vida, no final da década de 1870, o essencial da sua luta estava travado. Depois da morte de Jenny, que carinhosamente lhe chamava “selvagem javali preto” e “tratante manhoso”, em 1881, a vida parece ter perdido parte do sentido para ele. Dois anos depois, morreria vitimado por uma pleurisia.

O poder de uma ideia

Após a sua morte, Marx continuou a ser um símbolo da esquerda radical e mentor de um projecto de transformação social que continuou a mobilizar a esperança de milhões de trabalhadores. Até 1895, Engels encarregou-se de organizar e publicar uma vastidão de papéis escritos com gatafunhos e borrados com tinta e cinza de charuto. Depois, essa tarefa foi continuada pela sua filha Eleanor e pelo seu amante Edward Aveling. Os seus ensinamentos proliferaram por esses anos em dezenas de partidos e movimentos que nasceram pela Europa. A Segunda Internacional reuniu em Paris, em Julho de 1889, 391 delegados de partidos ou movimentos marxistas provenientes de 20 países. A bandeira vermelha e a esfinge de Marx e de Engels tornaram-se os símbolos políticos dessa força emergente.

Em breve, porém, essa frente unida contra a burguesia e o capitalismo se cindiria. Os comunistas puros e duros encontrariam em Lenine o exemplo e a prática revolucionária capaz de fazer triunfar o marxismo. Na Alemanha e na França, entretanto, Jean Jaurés ou Eduard Bernstein, líder do SPD, defendem um ajustamento à democracia burguesa e trocam a revolução pelo reformismo. Nem tudo o que Marx predissera, alegavam, estava correcto: “Os camponeses não se afundam; a classe média não desaparece; as crises não são cada vez maiores, a miséria e a servidão não se agravam.” Alarmadas pela vaga revolucionária, as democracias liberais dedicaram-se a aplicar políticas sociais para esvaziar o descontentamento dos trabalhadores. Os primeiros passos do Estado-providência foram dados por Bismark na Alemanha no final do século XIX e, depois dos anos de 1920 até ao final da II Guerra Mundial, a República de Weimar na Alemanha, a Frente Popular em França ou o Relatório Beveridge na Inglaterra trataram de trazer os direitos e a protecção dos trabalhadores para o centro das políticas públicas. “Não há dúvida alguma que a criação do Welfare State foi uma resposta às pressões dos comunistas”, reconhece Paulo Rangel.

 Duzentos anos depois, o que sobra de Karl Marx? “É inaceitável desprezarmos o marxismo”, diz Paulo Rangel, até porque a sua mensagem “está hoje muito mais actual do que há 20 anos.” Porquê? Por causa da desigualdade galopante nas sociedades avançadas, diz o eurodeputado (e Manuel Loff subscreve). No ano passado, a organização não governamental britânica Oxfam calculava que 87% da riqueza mundial estava concentrada nas mãos de 1% dos mais ricos, um indicador que parece garantir as teses de Marx sobre a acumulação capitalista. Se durante décadas as democracias foram capazes de instituir mecanismos de redistribuição eficazes, a desigualdade de hoje torna mais presciente a crítica de Marx ao capitalismo, diz Rangel. Não admira por isso que “o marxismo tenha recuperado uma parte da actualidade perdida depois do Maio de 1968 com a crise financeira de 2007/2008”, diz Manuel Loff. A dinâmica de movimentos sociais recrudesceu, o debate científico sobre as suas teses redobrou e, nota o historiador, “há uma transformação na esquerda após a crise que recupera a influência marxista”. Fenómenos como Jeremy Corbyn ou Bernie Sanders, que se reclamam como socialistas, é uma manifestação real dessa mudança.

Mas há outros sinais que tornam a teoria de Marx pertinente. Para Manuel Loff, os casos suspeitos de corrupção alegadamente protagonizados por Ricardo Salgado, José Sócrates e Manuel Pinho são uma manifestação clara de que o Estado, neste caso o Estado português, esteve ao serviço de uma oligarquia (uma classe dominante, na designação marxista). O gigantismo de empresas como a Google foi previsto por ele como consequência da natureza voraz do capitalismo. As crises cíclicas que adivinhou concretizaram-se em 2007 com o colapso do subprime.

E até ao nível da política há legados de Marx que perduram fora do seu campo. “O neoliberalismo serve-se do mesmo primado da economia que Marx utilizou como base da sua ideologia”, nota Paulo Rangel. Não admira por isso que haja revistas americanas como a The Atlantic ou a The New Yorker a falar na “vingança de Marx” ou no seu “regresso”. Ou uma nova geração de intelectuais que se revê no programa de renovação marxista proposto pelo filósofo Slavoj Zizek. Será que da recuperação da sua filosofia da História ou da sua crítica à economia política capitalista voltará à cena o seu programa de acção? A resposta para muitos pode ser dada pelo passado: depende da resposta que as democracias liberais derem às contradições do capitalismo que Marx retratou na sua extensa obra.

Manuel Carvalho
No Público
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A caricatura evangélica

Bolsonaro batizado nas águas do rio Jordão
Caricaturas são desenhos em que se exageram determinadas peculiaridades de alguém. Basta retratar orelhas enormes e redondas em um Obama, ou óculos redondos e um John Lennon e temos uma caricatura. Os detalhes, mesmo se já percebíamos, ficam mais evidentes.

Com o avanço da direita religiosa dos Estados Unidos, a era Trump expõe os exageros do movimento evangélico. Hipocrisia, venalidade e vassalagem tornam, a cada dia, a caricatura mais evidente. Teólogos, sociólogos e filósofos de todas as tendências se perguntam: o quê os crentes conservadores viram em Donald Trump? Como embarcaram com malas e cuias no Titanic de um maluco bilionário, dono de cassino? A pergunta feita lá tem implicações diretas aqui, em terras tupiniquins. Bolsonaro, mesmo mais parecido com um Bateau Mouche que um Titanic, pode produzir um naufrágio épico para o Brasil.

Tomo conhecimento de uma forte mobilização de igrejas evangélicas históricas para comporem a tripulação da nau fascista capitaneada por Bolsonaro – com comitês eleitorais e tudo. Eles querem um crente na presidência a qualquer custo. Insisto: por aqui, a tragédia de um Trump meia boca seria tenebrosa; e o custo de vidas, incalculável, – mais que do Titanic e do Bateau Mouche somados.

Para entender o porquê da mobilização, é preciso entrar em algumas lógicas da teologia dos evangélicos.

O conceito de mundo – Os crentes acreditam que o mundo está em guerra contra o reino de Deus. Existem sim inúmeras passagens bíblicas, principalmente nos textos atribuídos a Paulo, que descrevem uma guerra entre forças divinas e mundanas. Algumas epístolas se valem, inclusive, da linguagem militar. Os crentes partem daí e interpretam a palavra “mundo” como a realidade toda. Mundo para eles é a vida. (Nem entro nas minúcias linguísticas que distinguem mundo como pessoas, mundo como planeta e mundo como sistema injusto). Na teologia do movimento, mundo é a erudição, o saber acadêmico, as artes, o lazer, a ciência, a medicina, o prazer sexual. Tudo que não é “espiritual“. Nesse contexto, tratam como herói quem se coloca como soldado no combate ao “mundo”. A pessoa declara guerra ao mundo e passa a ser amiga de Deus. A teologia evangélica ainda faz “cruzada“. O propósito dessa guerra santa é reconquistar os “valores judaico-cristãos”; tirar das mãos de pessoas mundanas e devolver à igreja. E isso é tão absolutamente importante para a mentalidade evangélica que alguns se dispõe a fazer aliança com o diabo para salvar o mundo do mundo.

A mágica da salvação. Os evangélicos acreditam que todas as pessoas que ainda “não aceitaram Jesus como único e suficiente salvador” já estão condenadas ao inferno. O lago de fogo e de enxofre, em processo de aquecimento, receberá todos os que ainda não declararam: “Eu aceito Jesus”. Basta falar. A salvação fica garantida, automaticamente, a quem confessar com os lábios: “Jesus é o Senhor”. Essa teologia preconiza que o pecado de Adão condenou toda a humanidade. Todas as pessoas, antes de nascerem, são alvos da ira de Deus. O sacrifício de Jesus, todavia, as salvou. Só quem aceitar o sacrifício vai para o céu. Há inclusive a discussão, com versículos e tudo, se essa salvação é eterna. Alguns insistem: “uma vez salvo, para sempre salvo”. Exemplo: Trump pode ser um crápula, malvado, mulherengo, vil, frio. Contudo, se em alguma ocasião, ou em reunião com pastores, (ele nem frequenta igreja) balbuciou com os lábios a frase, está salvo para sempre. Nem que tente conseguiria revogar a salvação que recebeu pelos méritos de Jesus. Sendo assim, o mundo se divide entre salvos e perdidos.  É por isso que Bolsonaro fez questão de mostrar ao mundo evangélico que está salvo, já que se batizou no rio Jordão – o que não é pouca coisa. Mesmo que não mostre nenhum fruto de arrependimento, está salvo. Deus usa esses “vasos de barro”. Trump e Bolsonaro, “vasos” (mesmo trincados), salvarão mais pessoas.

Deus no controle da história. A teologia evangélica, mesmo arminiana, mesmo progressista, mesmo de esquerda, crê que Deus preestabeleceu a história. Ele tem tudo sob seu mais rigoroso controle. Portanto, Javé gerencia o desenrolar do tempo nos mínimos detalhes. Deus conduzirá a história a um fim glorioso. Assim como usou Ciro da Pérsia lá atrás para fazer bem a Israel, Deus usa quem escolhe. Trump, Bolsonaro, Pinochet, Stalin, Hitler, são guiados, mesmo que não saibam, por uma vontade soberana. Deus põe cabresto em quem desejar, e usa quem assim decidir. Ele defende os interesses do seu reino e não tem satisfações a dar a ninguém. Secularização, ameaça de comunistas, gays, anarquistas, roqueiros, baladeiros, serão enfrentadas pelo Senhor e por pessoas que ele instrumentalizar. Ouvi diversas vezes: “Deus usou um jumento, por que não pode levantar um Bolsonaro para cumprir a sua vontade”? O argumento é esdrúxulo. Ora, também as caricaturas. Porém, no exagero da tolice se evidencia o que a gente não queria, ou não conseguia, perceber.

Insisto, mesmo correndo o risco de dar murro em ponta de prego: sem coragem de expor as pedras de sustentação da teologia evangélica, a caricatura fica cada dia mais bizarra. Com uma única vantagem, ver um movimento sem a cera da hipocrisia. O custo será um futuro pavoroso. Ou não é ameaçador ver cristão aplaudindo político de quinta categoria?

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim
No DCM
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Suicídios no Brasil, o país onde o passado não passa

Ticunas do Alto Solimões (AM), velório do índio Juvenal Albino, que se suicidou, na aldeia Nova Itália.
Foto: Patrícia Santos/Folhapress
Suicídio não tem glamour.

No fim de fevereiro, uma fotografia comoveu quem ainda tem coração para se comover: mostrava um pai de 56 anos, Waritaxi Iwyraru Karajá, velando os túmulos dos três filhos que se mataram entre 2012 e 2016. O caçula tinha 21 anos. A filha, de 24, suicidou-se grávida de quatro meses. “Até hoje eu não descobri o que acontecia na cabeça dos meus meninos”, disse o pai aos repórteres Rodrigo Vargas e Danilo Verpa, o autor da foto.
De 2011 a 2015, ocorreram anualmente no Brasil 15,2 suicídios em cada 100 mil indígenas.
Waritaxi vive numa aldeia carajá na ilha do Bananal, fincada entre Mato Grosso, Tocantins e Goiás. No mesmo período em que seus filhos morreram, mais 32 carajás tiraram a própria vida. A maioria tinha de 11 a 25 anos e era do sexo masculino. Quem fica fala de abuso de álcool e drogas, desemprego e feitiçaria. De estranheza, incompatibilidade e frustração com a cultura urbana que seduz, mas sufoca. “O jovem não aguenta”, disse Juanahu Karajá, cacique de uma das 68 aldeias da etnia. “Os anciões sabem se virar.”

De 2011 a 2015, ocorreram anualmente no Brasil 15,2 suicídios em cada 100 mil indígenas. Nas contas do Ministério da Saúde, o índice representa quase o triplo da média da população não indígena. Em 2016, 106 índios se mataram, contabilizou o Conselho Indigenista Missionário. Salto de 18% em comparação com o ano anterior.

No princípio de março, estreou nos cinemas Torquato: Todas horas do fim. O protagonista do documentário dos diretores Eduardo Ades e Marcus Fernando é o poeta e letrista Torquato Neto, autor dos versos “Só quero saber do que pode dar certo/ Não tenho tempo a perder”. O artista se suicidou em 1972, aos 28 anos. Despediu-se com um bilhete que termina assim: “Pra mim chega! Vocês aí, peço o favor de não sacudirem demais o Thiago. Ele pode acordar”. O “pra mim chega!” era presente e fim. Thiago, o rebento de dois anos, o futuro.

Em abril, num intervalo de 12 dias, dois alunos do ensino médio do Colégio Bandeirantes se suicidaram em casa. Entre uma e outra morte, um estudante do Colégio Agostiniano São José fez a mesma coisa. As duas escolas, privadas, ficam na cidade de São Paulo. No Bandeirantes, crianças, adolescentes e adultos se abraçaram e choraram, depois de conversas sobre as mortes.

No Brasil, ao menos 11 mil pessoas se matam por ano. Supõe-se que exista subnotificação. O país não se inclui entre os de maior taxa relativa de suicídios (5,7/100 mil), mas é o oitavo em números absolutos. De 2011 para 2015, os óbitos pularam de 10.490 para 11.736 (mais 12%). Foram 32 por dia. Na faixa etária de 15 a 29 anos, o suicídio é a quarta maior causa de mortes (crescimento perto de 10% de 2002 para 2014). No planeta, 800 mil pessoas de todas as idades se suicidam a cada doze meses — uma morte de 40 em 40 segundos.

Nesta primeira semana de maio, circula reportagem de Monica Weinberg, Luisa Bustamante e Fernando Molica. O trio da revista Veja revolveu o inquérito da Polícia Federal que fundamentou em setembro a prisão do professor de direito Luiz Carlos Cancellier de Olivo, 59. Ele era o reitor da Universidade Federal de Santa Catarina. Os repórteres contam: “Cancellier foi algemado, acorrentado pelos pés e submetido a revista íntima. De uniforme cor de laranja, permaneceu trinta horas detido, parte delas em um presídio de segurança máxima. Ao sair, ficou proibido de pisar no campus da universidade, até ser liberado por ordem judicial”.

Humilhado ao ser vinculado a um alegado esquema de roubalheira na universidade e ser preso com crueldade sádica, o reitor se matou dias depois de deixar a cadeia. A revista concluiu: “É uma leitura perturbadora [a do inquérito] pelo excesso de insinuações e escassez de provas”. Noutras palavras: de comprometedor, nada para Cancellier de Olivo. Só para a PF e a Justiça.

Efeito Werther

Em quinze anos (2000-2015), os suicídios cresceram 65% na faixa de 10 a 14 anos e 45% na de 15 a 19. Acima dos 40% da média geral, embora ainda com índice menor, constatou o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz. Quanto mais jovem o grupo, maior o ritmo de elevação da taxa. Um dos fatores ligados às mortes juvenis é o bullying escolar.

No ano passado, tentativas de suicídios e mortes consumadas de jovens foram associadas ao jogo virtual Baleia Azul. É um game de desafios cujo desenlace é a morte autoprovocada. No mesmo 2017, a série televisiva 13 Reasons Why narrou a história de uma estudante de ensino médio que se mata. Nos 18 dias seguintes ao lançamento, a procura na internet por palavras conectadas a suicídio se expandiu 19% nos Estados Unidos, ou 1,5 milhão de buscas a mais. Entre os temas consultados estavam métodos para se matar. Há, contudo, quem interprete a série como um alerta.

O suicídio é estigma e tabu sociais. O silêncio ou discrição sobre ele decorre também do chamado Efeito Werther, o receio de que o barulho sobre uma morte estimule outras. A origem do nome é um romance do século 18, Os sofrimentos do jovem Werther. O protagonista, criação da pena de Goethe, mata-se em virtude de um infortúnio no amor. A ficção teria impulsionado uma onda de suicídios reais.
Ocultar um problema de saúde pública seria um desserviço jornalístico. Sem conhecê-lo, como combatê-lo? 
O Efeito Werther não é ilusório. Em fevereiro se soube que os suicídios aumentaram 10% nos Estados Unidos após Robin Williams se matar, em 2014. O ator de 63 anos lutava contra a depressão. De agosto a dezembro daquele ano, eram esperados, com base no histórico recente, 16.849 suicídios, relataram pesquisadores da Universidade Columbia. Houve 18.690.

Seria um despropósito o jornalismo omitir a causa da morte de Williams. Ou as da escritora Virginia Woolf e do presidente Getúlio Vargas. Embora faça sentido silenciar, em boa parte das vezes, sobre os métodos empregados (estas linhas não os descrevem). Suicídio constrange. Em março, o escritor Victor Heringer se matou em Copacabana, aos 29 anos. A maioria das reportagens escondeu que houve morte voluntária

Ocultar um problema de saúde pública seria um desserviço jornalístico. Sem conhecê-lo, como combatê-lo? A questão é como noticiar, enfatizou em entrevista o jornalista e professor universitário Arthur Dapieve: “Se noticiamos tantos homicídios sem medo de eles estimularem alguém a matar, por que tememos que, ao noticiar suicídios, estaremos estimulando alguém a matar a si próprio?”. Dapieve é autor do livro Morreu na contramão: O suicídio como notícia, fruto de uma dissertação de mestrado.

Suicídios de policiais militares costumam ser ignorados. De 1995 a 2009, 58 PMs do Estado do Rio de Janeiro se mataram. Notificaram-se 36 tentativas. O risco de um PM fluminense se suicidar é quatro vezes maior do que o do conjunto da população.

A prevenção pode evitar muitos suicídios. Ela existe, tocada por gente qualificada e generosa, mas precisa se ampliar. O telefone do Centro de Valorização da Vida, serviço gratuito de apoio emocional e prevenção ao suicídio, é 188. Uma das muitas cartilhas úteis se intitula Suicídio: Informando para prevenir. Pedro Bial conduziu na quinta-feira uma elucidativa conversa sobre o assunto. Vale a pena ver e aprender.

Outros muitíssimos suicídios foram e serão inevitáveis, sem pedido prévio de socorro. Ainda assim, quem sobrevive eventualmente se consome em culpas ou elege culpados. O ensaio A mulher calada, de Janet Malcolm, rejeita a condição de vilão atribuída ao poeta Ted Hughes devido ao suicídio, aos 30 anos de idade, da poeta Sylvia Plath. A ensaísta norte-americana mergulha na vida do casal e ensina sobre suicídio, o antes e o depois do luto.

“Toda palavra guarda uma cilada”, escreveu Torquato Neto. Algumas palavras relacionadas ao suicídio: depressão, dor, desencanto, desespero, desânimo, desesperança, dependência, desamparo, desistência, doença, cansaço, transtorno, tristeza, sofrimento, abuso (sexual, de drogas, álcool), bullying, angústia, solidão, autodestruição, automutilação.
Torquato poetou, na música Marginália II:

Minha terra tem palmeiras
Onde sopra o vento forte
Da fome, do medo e muito
Principalmente da morte.

‘País do futuro’

Alguns suicídios, como o do reitor Cancellier de Olivo, compõem o mosaico de uma época. Poucos retratam o tempo com tanta nitidez como o do escritor austríaco Stefan Zweig. Deprimido com a voracidade nazista que devastava a Europa, ele se mudou para cá. Em 1942, matou-se em Petrópolis, aos 60 anos. Zweig escreveu o livro Brasil, país do futuro.

Se o futuro chegou, não é o presumido por Zweig. O noticiário testemunha que o passado não passa.

Amanhã faz 50 dias que Marielle Franco e Anderson Gomes foram assassinados. Até agora, nenhum executor ou mandante foi punido.

“Na Grande SP, a pobreza extrema avançou 35% em um ano.” O ano foi 2016. A estimativa é da LCA Consultores. Mais 180 mil seres humanos decaíram ao limite da subsistência, no Estado brasileiro mais rico.


“Desemprego subiu para 13,1% em março e atingiu 13,7 milhões de pessoas.” A elevação acontece pelo terceiro trimestre consecutivo. Em comparação com o encerrado em dezembro, surgiram mais 1,379 milhão de desempregados.

Nunca o índice de trabalhadores com carteira assinada foi tão baixo. Pelo menos desde a implantação desse monitoramento.

A repórter Joanna de Assis revelou no Fantástico o resultado de uma investigação de quatro meses: um sem-número de depoimentos denuncia abusos sexuais cometidos por um antigo técnico da seleção brasileira masculina de ginástica, Fernando de Carvalho Lopes. Ele nega.

A avenida da Legalidade e da Democracia, em Porto Alegre, voltou a ser denominada Castello Branco. A decisão é do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. A via deixa de honrar o movimento democrático que barrou um golpe de Estado em 1961. E volta a exaltar um ditador, Humberto de Alencar Castello Branco, imposto pelo regime liberticida nascido com o golpe de 1964.

“Seguranças do Planalto proibiram representante de índios de entrar em reunião porque usava cocar.” Se o visitante trajasse cueca forrada com dinheiro e puxasse mala de rodinhas recheada de notas, certamente lhe permitiriam entrar.

Na madrugada do sábado, em Curitiba, um homem atirou no mínimo seis vezes contra o acampamento de apoiadores de Lula. Feriu uma advogada e um sindicalista. Um ônibus da caravana liderada pelo ex-presidente havia sido alvejado em março. A autoria dos atentados permanece ignorada.


Cresceu em 11% a quantidade de domicílios que, em reação à disparada do preço do gás, passaram a usar lenha e carvão na cozinha. Já são 12,3 milhões as residências nessa situação.


Como diz o narrador no desfecho de O grande Gatsby, romance de F. Scott Fitzgerald: “E assim avançamos, botes contra a corrente, impelidos incessantemente de volta ao passado”.

Crédito: a tradução supimpa da frase de O grande Gatsby é de Vanessa Barbara, na edição Penguin/Companhia das Letras.

Mário Magalhães
No The Intercept
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