26 de abr de 2018

Evanjegues criminosos: Bíblia Sim, Constituição Não


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A jornada de Anta Amélia até a Al Qaeda


Ente televisivo nas suas décadas de RBS, a senadora Ana Amélia retornou com fúria às telas. Verdade que, em 2014, desfrutara de alguns momentos de notoriedade antes de sua campanha para o governo do estado derreter-se como gelo ao sol. Dois anos mais tarde, naquela sessão notável em que Dilma sovou seus oponentes e, mesmo assim, o Senado convalidou o golpe, a senadora atraiu novamente os holofotes. Não pela retórica mas por seu figurino de ave do paraíso, onde se ressaltava o amarelo dos palmípedes da Fiesp. Agora, quando os arquitetos políticos do impeachment murcham nas pesquisas de opinião e os patos da avenida Paulista expõem tão somente uma, digamos, patologia, Ana Amélia regressa à ribalta.

Vem à bordo de uma pós-verdade, que é o nome novo de uma palavra antiga, a mentira. Tão logo a senadora Gleisi Hoffmann, presidente do PT, denunciou à Al Jazeera, a poderosa rede de televisão do Catar, a perseguição política e a prisão de Lula, pedindo ao mundo árabe que se una aos esforços por sua libertação, Ana Amélia considerou que passava ali um barco em que poderia pular dentro, o da confusão.

Distorcendo o sentido do apelo de Gleisi – ademais, também feito à emissoras de TV de vários recantos do planeta – encilhou seus adjetivos, acolherou os verbos e cavalgou peça de oratória na qual atribuiu à adversária um possível apelo “ao Exército Islâmico” (sic), dissidência da Al Qaeda, para resgatar o ex-presidente. Dada a senha, a matilha de odiadores farejou a presa e passou a ladrar nas redes sociais amplificando o disparate.

Não faltaram figuras patuscas para morder uma perna do assunto na Câmara e no Senado. Uma delas, certo major Olímpio, deputado pelo PSL de Bolsonaro, pediu ao TSE que extinga o PT…Outro pândego, o senador José Medeiros, do Podemos/PR, representou contra Gleisi no conselho de ética da casa. No furdunço das redes, houve tanto aqueles que se regozijaram com a fala de Ana Amélia quanto os que aproveitaram a ocasião para turbinar o escárnio, argumentando que a senadora confundiu Al Qaeda com “Al Fafa” ou com “Al Zheimer”…

Embora nomeando o “Estado Islâmico” (ISIS) como “Exército Islâmico”, erro crasso para uma jornalista, Ana Amélia entrou nessa de caso pensado. Não foi uma trapalhada conectar a Al Jazeera ao Estado Islâmico. A Al Jazeera nada tem a ver com terrorismo, pertence ao governo do Catar, atinge todo o mundo árabe e transmite em vários idiomas, inclusive inglês.

Entendeu que precisava atirar ao seu público um naco gordo da velha e boa ignorância. Seu eleitor carece de ilustração e não de trevas. Mas a jornalista (!) achou – talvez com motivo – que sua clientela mais apreciaria roer algo a que está acostumada desde sempre. Aquilo que, salivando, espera receber. E tome preconceito, tome desinformação, tome xenofobia.

Seu eleitor padrão talvez seja o poltrão pilchado que usa o relho contra um manifestante desarmado durante a passagem da caravana de Lula por Santa Maria. Cena que rendeu foto histórica flagrando o teor das nossas relações sociais no Brasil-Colônia. E no interior do Rio Grande do Sul no século 21. Algo que mereceu aplausos da senadora da RBS. E depois, no Paraná, vieram os tiros…

De Ana Amélia ignora-se qualquer denúncia do autoritarismo. Nem ela nem seus patrões da RBS se queixaram ao longo de 21 longos anos. Tanto que, ao optar por uma legenda, escolheu o PP, herdeiro da Arena, partido responsável pela coreografia civil do regime militar. Tudo com discrição protocolar. Seu palavrório recente, contudo, destoa disso. De ameno, tornou-se virulento e agressivo. Qual a razão de tomar caminho tão insólito? É provável que a resposta resida na sua incerta recondução ao Senado nas próximas eleições.

São duas vagas e uma legião de oponentes. Entre os quais, o também senador Paulo Paim, o ex-governador Germano Rigotto, o ex-prefeito de Porto Alegre José Fortunatti, o ex-candidato a vice presidente em 2014, Beto Albuquerque, e sabe-se lá quantos mais — em 2010, com duas cadeiras em jogo, foram dez.

É plausível supor que o bolsonarismo em ascensão tenha motivado os cálculos da senadora. Afinal, a escolha do PP para o Palácio Piratini segue o mesmo rumo. A pregação do deputado Luis Carlos Heinze não se distingue da verborragia bolsonarista. Com a adesão de Ana Amélia à truculência de viés oportunista, fixa-se o eixo que passa por Heinze e culmina em Bolsonaro.

Na última pesquisa Datafolha, o capitão da reserva do exército obteve 18% das intenções de voto na região Sul. É um percentual que deve ultrapassar em terras gaúchas. No Rio Grande, ao contrário do Paraná com Álvaro Dias, inexiste candidato presidencial com raízes locais — Dias atinge 11% no Datafolha, tragando não somente votos de Alckmin mas também de Bolsonaro.

Na disputa rio-grandense, em virtude da pulverização da concorrência, quem somar aos seus eleitores mais fiéis os 20% do candidato presidencial do PSL possivelmente garantirá um dos dois lugares do Senado. Em outros termos, quem encantar o bolsonarismo — “Veja, eu sou tão horrível quanto ele!” – poderá vencer.

Ana Amélia, então, estaria apenas buscando sintonia com o apostolado tóxico de Heinze e Bolsonaro. As referências ao ISIS não vinham da geopolítica. Era só matemática. Sim, com um plus de comédia, mas matemática.

Ayrton Centeno, Jornalista
No Sul21
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Jornalista brasileiro é acusado de terrorismo após fazer reportagens sobre Estado Islâmico

O jornalista Felipe Oliveira em reportagem que realizou para o Fantástico, na TV Globo, em 2016.
O jornalista brasileiro Felipe Oliveira está sendo acusado pelo crime de promoção do terrorismo após ter se infiltrado em grupos simpatizantes do Estado Islâmico (EI) como parte de uma investigação jornalística realizada em 2016.

Segundo a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) reportou em 19 de abril, o juiz Marcos Josegrei da Silva, da 14ª Vara Federal de Curitiba, aceitou em fevereiro de 2018 denúncia do Ministério Público Federal (MPF) no Paraná. Segundo a denúncia, Oliveira “ultrapassou o limite do tolerável e promoveu a organização terrorista Estado Islâmico” em mensagens ao grupo.

No começo de 2016, Oliveira entrou em um fórum virtual usando um codinome para apurar os métodos de recrutamento de jovens pelo EI na Europa, afirmou a Abraji. O jornalista então passou a se comunicar com integrantes de grupos brasileiros simpatizantes do EI, como um interessado em se juntar a eles. A apuração rendeu reportagens para o jornal Folha de S.Paulo, publicada em março de 2016, e para o programa Fantástico, da TV Globo, veiculado em julho de 2016.

Oito participantes destes grupos foram presos na Operação Hashtag, realizada pela Polícia Federal brasileira na mesma época, conforme reportou o jornal Nexo. A operação tinha o objetivo de desbaratar supostas células terroristas que pudessem perpetrar atentados contra os Jogos Olímpicos que seriam realizados em agosto do mesmo ano no Rio de Janeiro.

A acusação assinada pelo procurador da República Rafael Brum Miron afirma que “o objetivo dele [Oliveira] talvez não fosse promover o terrorismo, mas por diversos momentos ele incentivou o ilícito”, diz o texto reportado pela Abraji. “O limite em uma investigação desse tipo é não incidir no crime que se está apurando”, escreveu o procurador.

A denúncia do MPF também afirma que Oliveira “deveria levar os fatos em apreço ao conhecimento da Polícia Federal assim que soubesse do cometimento de crimes”, segundo a Abraji.

O jornalista, no entanto, sustenta que desde o início da apuração esteve em contato com a Polícia Federal, repassando as informações que recebia nos grupos. Segundo ele afirmou ao portal R7, o primeiro contato com o grupo se deu em uma quinta-feira, e no sábado seguinte levou o material que havia recolhido à Polícia Federal.

Cumpri meu dever de repórter investigativo. Não houve nenhuma outra intenção que não fosse a de divulgar às autoridades e ao público a existência dessas organizações”, declarou Oliveira à Abraji.

O inquérito da Polícia Federal menciona que o jornalista “se apresentou na Superintendência Regional da Polícia Federal no Estado do Rio de Janeiro (SR/PF/RJ) e, espontaneamente, prestou declarações e apresentou seu smartphone à Polícia Judiciária”. No entanto, o delegado Guilherme Torres, na conclusão do inquérito, afirma que Oliveira “não teve a postura esperada de um jornalista, a qual deveria ser somente a apuração dos fatos e, em havendo crime, informar à autoridade competente”, reportou a Abraji.

Oliveira disse ao R7 que “confia na Justiça”. “Estávamos fazendo um trabalho puramente jornalístico, confiamos que a Justiça vai verificar e absolver, porque em momento nenhum quisemos promover terrorismo. Pelo contrário, tudo que sabíamos informávamos para as autoridades”, disse o jornalista.

Beno Brandão, advogado de defesa de Oliveira, disse ao R7 que a acusação contra Oliveira é “um ataque à liberdade de imprensa”. “É um caso claro para absolvição sumária. A procuradoria acha que ele deveria ter parado os contatos depois da matéria ter ido ao ar, mas ele só estava fazendo seu trabalho.”

Segundo o Nexo, a denúncia apresentada contra Oliveira tem como base a Lei Antiterrorismo (13.260/2016), aprovada às pressas pelo Congresso brasileiro e sancionada pela então presidente Dilma Rousseff antes dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. O trecho em questão está no artigo 3º da lei, que proíbe “promover, constituir, integrar ou prestar auxílio, pessoalmente ou por interposta pessoa, a organização terrorista”.

“A Abraji considera que a atividade jornalística de Oliveira não deve ser confundida com crime”, escreveu a diretoria da associação em nota. “Apelamos ao juiz federal Marcos Josegrei da Silva para que use a compreensão e o respeito que certamente tem pelo trabalho da imprensa para declarar Felipe de Oliveira inocente.”

Carolina de Assis
No Jornalismo nas Américas
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A fúria canina da Lava Jato e o jornalismo de guerra da Globo


A decisão do stf abre caminho para a nulidade não só do processo do sítio de Atibaia, como também para a anulação da farsa do tríplex armada por Moro, Dallagnol e Globo para perseguir, condenar e prender Lula.

As razões para isso são robustas: [1] se houvesse crime, a jurisdição para julgamento seria a justiça federal de São Paulo, nunca a de Curitiba; e, [2] em caso de processo penal, deveria ser observado o juiz natural do caso, princípio constitucional que excluiria Sérgio Moro da condução dos casos.

O abalo no principal pilar do regime de exceção debilita a ditadura. Daí que se pode entender a fúria canina da Lava Jato e o jornalismo de guerra da Globo no combate à decisão do stf.

O jornal nacional da quarta-feira, 25/4, ao invés de repercutir a opinião do mundo jurídico nacional e estrangeiro sobre o fato de relevante interesse jornalístico, a decisão do stf, fez outra reportagem de caráter acusatório e persecutório, unicamente preocupada em criminalizar Lula.

Numa reportagem bem armada, requentou vídeos de delatores que receberam impunidade e preservação do patrimônio multimilionário roubado em troca de testemunhos forjados para levar Lula à prisão.

Nesta mesma edição, todavia, o jornalismo de guerra da Globo não noticiou a atitude despótica e criminosa [a fúria canina] da juíza da Lava Jato que impediu Lula de receber visita do seu médico, deixando ameaçadas a saúde e a vida de um ex-presidente do Brasil.

Os procuradores, por outro lado, desafiaram a decisão do stf, considerando-a “ininteligível e superficial”.

Em clara afronta à suprema corte do país, eles declararam: “Por não haver qualquer mudança fática ou revisional, deve a presente ação penal prosseguir em seus regulares termos”.

Como num regime fascista, eles atribuem a si mesmos um poder total e soberano que a Constituição brasileira não lhes confere.

A brutalidade contra Lula não tem sido – e tampouco será – suficiente para o extermínio deste que é o maior líder popular do Brasil e um dos maiores do mundo.

É real, por isso, o risco de aumento do delírio e da violência fascista contra Lula; violência essa que ricocheteia na sociedade aumentando o racismo e o ódio ao povo pobre e negro.

A luta pela libertação do Lula, por isso, é o fator decisivo para a contenção do fascismo e para a restauração da democracia, do Estado de Direito e da paz no país.

E esta luta democrática exige o combate resoluto ao fascismo jurídico-policial da Lava Jato e ao terrorismo midiático da Globo.

Jeferson Miola
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Moro “finge que não viu” decisão do STF


Moro não “decidiu ficar” com os processos contra Lula relativos ao sítio de Atibaia e ao terreno para um prédio do Instituto Lula que não tem prédio do Instituto Lula.

E não decidiu porque, simplesmente, não cabe a ele decidir se é competente para julgar a causa.

Competência, neste caso, quer dizer jurisdição e, para ter jurisdição, é preciso que conecte as duas ações com algo que as situe no âmbito de atos de corrupção envolvendo empreiteiras e diretores da Petrobras.

O que, decidiu assim a 2ª Turma do Supremo, não há.

O resto é chorumela.

Aliás, alegar que “é preciso esperar a publicação” é algo que tange a obviedade e, como se sabe, alegar o óbvio é argumento de quem não os tem.

Moro, não se esqueçam disso, é um juiz midiático e vai fazer o máximo para tentar convencer os tolos de que a ação contra Lula está “sendo tomada de suas mãos” quando, na verdade, foram os procuradores do Paraná e ele próprio que usurparam a competência destes processos.

Está, portanto, ganhando “tempo de televisão”.

Não pode usar as delações da Odebrecht nos dois casos e, sem elas, o que já não tinha provas passa a ter menos indícios que lhe permitam, tal como no caso do triplex, condenar por convicção.

Se insistir em levar adiante o caso até uma decisão terá uma sentença ainda mais fraca que a primeira que deu sobre o apartamento do Guarujá e terá tornado Lula imune a outro processo sobre isso, porque impedirá que a Justiça Federal de SP, a quem as delações foram encaminhadas, exemine esta questão pelo princípio do “bis in idem”, que impede que uma pessoa seja julgada duas vezes pelo mesmo suposto delito.

Moro está fazendo marola e trabalhando para atirar a “opinião pública da mídia” contra o Supremo e, sobretudo, cuidando de criar uma situação que bloqueie o reconhecimento, no caso do triplex, daquilo que foi reconhecido nos outros: que ele, Moro, não é o juiz natural da causa.

E que, portanto, há uma contradição no processo do Guarujá que poderia (ou deveria, se estivéssemos num processo de normalidade juridica) levar á anulação de sua sentença, por vício original da ação.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Aécio fez Joe$ley pagar compra de jornal

Boleto de IPTU comprova que prédio do jornal “Hoje em Dia” é do dono da JBS


Não há como negar, boleto para pagamento do IPTU obtido pelos Jornalistas Livres comprova que realmente a J&F, a holding de Joesley Batista, pagou a compra do jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte, por R$ 17 milhões, a pedido do senador Aécio Neves. Isso é mais uma prova de que o senador tucano Romero Jucá sabia mesmo muito bem do que dizia quando se referiu ao colega mineiro como o “primeiro a ser comido”, durante diálogo telefônico com o ex-presidente do PSDB e ex-senador Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro.

Falou-se muito dos R$ 2 milhões pedidos por Aécio ao dono da JBS “para pagar advogado”, conforme delatou o empresário, mas só agora fala-se com mais vigor sobre os R$ 17 milhões usados na compra do “predinho” do jornal, como chegou a ser dito pelo próprio Joesley. Se faltava algo para comprovar a destinação dos R$ 17 milhões aos negócios do senador mineiro, aí está a guia de pagamento do IPTU do tal prédio da Rua Padre Rolim, 652, um filé mignon imobiliário bem na região hospitalar da capital mineira. Curiosamente, este é o único bem de Joesley em Minas, onde não possui qualquer negócio.

O imóvel, usado como sede do Hoje em Dia durante décadas, está em nome de nada menos do que a J&F Investimentos S/A, a holding da empresa JBS que, por sinal, teve o ministro Henrique Meirelles no comando de seu conselho de administração entre 2012 até pouco antes de assumir o atual cargo. Ali ele recebia R$ 40 milhões por ano e uma de suas raras funções seria irrigar as campanhas eleitorais dos apaniguados de Joesley. E quando se pesquisa na Prefeitura de Belo Horizonte para saber quem são os titulares da J&F, eis que aparece o nome de Joesley Mendonça Batista abaixo de Antônio da Silva Barreto Júnior como ‘contatos’.

EPTU JOESLEY
HOJE EM DIA - JOESLEY

Um prédio polêmico

Após a confissão de Joesley sobre suas relações com Aécio, há um ano, o prédio de cinco andares começou a dar o que falar. Desocupado desde que o jornal mudou de endereço nas mãos de novo dono no início de 2016 e sem alguém que se apresentasse como seu proprietário, chegou a ser ocupado, na marra, em 1º junho de 2017 por jornalistas, gráficos, pessoal da administração e movimentos sociais. Demitidos pelo atual dono sem receber seus direitos e até mesmo salários, os jornalistas viram na ocupação do prédio um bom motivo para chamar atenção sobre o drama que viviam. Conseguiram.

Em junho do ano passado o “predinho” foi ocupado por ex-funcionários do jornal Hoje em Dia e Joesley Batista acabou reconhecendo a sua posse 
Foto de Isis Medeiros

A ocupação colocou os holofotes sobre o prédio. Logo a J&F se apresentou como dona do pedaço e colocou o imóvel à venda por R$ 17,5 milhões. Só que surgiu nova pedra no caminho da holding de Joesley: a Justiça do Trabalho bloqueou a venda do imóvel até que se resolva o pagamento de todos aqueles que buscam seus direitos. E assim continua, e, enquanto aguarda uma solução, um terreno ao lado, também de Joesley, foi arrendado para estacionamento de veículos.

Pelo boleto do IPTU nota-se que a J&F vem pagando religiosamente as 11 parcelas de R$ 5.686,06, que vão totalizar R$ 34.116,36. Reza a lenda que o prédio é um pau que nasceu torto desde que foi construído pelo jornal Diário do Comércio, o primeiro dono, e não teria habite-se, principalmente depois que um bispo da igreja Universal resolveu construir mais um andar para instalar a nova redação sem a contratação de um arquiteto ou engenheiro.

Trajetória sinistra

Também o jornal tem uma trajetória sinistra desde que foi criado pelo então governador Newton Cardoso, há 30 anos, para ser o “maior de Minas”. Mas pouco depois acabou vendido para a TV Record/Igreja Universal, num pacote em que incluía a emissora mineira de TV da rede Record. Nas mãos dos bispos de Edir Macedo chegou a ter 64 mil exemplares impressos. Depois, decadente e acumulando um prejuízo de R$ 38 milhões em 2012, a TV Record/Igreja Universal trataram de se livrar do abacaxi em 2013. Logo apareceram apressados interessados.

Há cinco anos o empresário mineiro Rogério de Aguiar Ferreira, então dono da Axial Medicina Diagnóstica, irrompeu pela redação anunciando a compra do jornal. Saiu carregando o apelido de “Boneco de Olinda”, devido à sua estatura avantajada. Na semana seguinte correu para São Paulo a fim de acabar de fechar o negócio com os bispos da Universal. Deu com os burros n’água naquela terça-feira. À boca pequena correu a versão de que não teria levado a mala recheada com dinheiro vivo, uma exigência do bispado.

Era tudo o que a dupla Aécio/Andrea Neves queriam. Imediatamente entraram em ação rumo a algum pomar onde encontrassem laranjas. Semanas depois era a vez de Marco Aurélio Jarjour Carneiro, do Grupo Bel, irromper pela redação do jornal para anunciar a sua compra no dia 18 de setembro de 2013. Parte do dinheiro da aquisição teria vindo da desapropriação de parte de um terreno da antena de rádio dos Carneiros no alto do bairro Novo São Lucas, porta de entrada da favela do Cafezal, com valor superfaturado. R$ 10 milhões, o que motivou uma ação do governo de Minas em tramitação na 5ª Vara da Fazenda, processo 1700189-54.2013.8.13.0024 do Tribunal de Justiça de MG contra a Rádio Del Rery Ltda., de Jarjour Carneiro. Outro dinheiro que entrou no negócio foram R$ 2 milhões da construtora Andrade Gutierrez, a título de publicidade que nunca foi vista.

Dono também da Rádio 98, concorrente da Jovem Pan em BH, entre outros negócios, Carneiro colocou o filho Flávio Jaques Carneiro, um amigão de Aécio, na presidência do jornal, e trouxe para comandar a redação o jornalista Ricardo Galuppo, um mineiro radicado em São Paulo.

A função de Galuppo era, principalmente, azeitar o jornal para ser usado na campanha de Aécio Neves à presidência. E azeitou. Principalmente na acirrada disputa do segundo turno, quando o jornal se esmerou em publicar, com exclusividade, sensacionais manchetes a favor da candidatura do tucano, baseadas em estranhas pesquisas eleitorais do desconhecido instituto de pesquisas Veritá, de Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Manchetes e números que eram largamente expostos nos horários de propaganda eleitoral gratuita de rádio e TV. Cuidou o jornal também de deturpar e mentir sobre Igor Rousseff, um pacato irmão da então presidente Dilma Rousseff, morador na também pacata Passa Tempo, no interior de Minas, informações que foram exploradas por Aécio nos debates de TV entre os dois candidatos.

O episódio rendeu, inclusive, uma denúncia de ‘crime eleitoral’ contra Aécio Neves no Ministério Público Federal, onde recebeu o número de expediante 1.22000.002391/2016-50. Atualmente a denúncia está sob sigilo, após ser absorvida por Rodrigo Janot, que ordenou investigação a respeito e mandou o caso até mesmo para a Lava Jato.

Na época, Jarjour Carneiro dizia aos mais chegados: “Estamos com um dinheiro aí, vamos ver até onde poderemos ir”. E, realmente, foi até onde pôde. Se Aécio tivesse sido eleito à Presidência da República estaria nadando de braçadas no paraíso, mas, com a derrota do senador, deu com as portas abertas do inferno. Acabou vendendo o jornal por apenas R$ 1 mil, isso mesmo, sem o prédio, logicamente, para o então prefeito de Montes Claros, Ruy Muniz, marido da deputada Raquel Muniz (PSC), que ficou conhecida negativamente pelo seu “Sim, sim, sim” após elogiar a honestidade do maridão e votar pelo impeachment da presidente Dilma. Na manhã seguinte, Ruy Muniz era preso pela Polícia Federal por corrupção.

Muniz ficou com o jornal e seus credores, enquanto o prédio, o patinho feio que ninguém queria assumir, voltou para os braços daquele que patrocinou a sua compra a pedido de Aécio Neves: Joesley Mendonça Batista.


Aloisio Morais
No Jornalistas Livres
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Boechat: Dilma vai fazer visita íntima ao Lula!

Menicucci: ​Bandista ​é "misógino, machista e Golpista!"


No Jornal da Bandnews FM de ontem, 24/IV, o jornalista Ricardo Boechat menosprezou as críticas às proibições de visitas ao presidente Lula no cárcere da PF de Curitiba.

(Obra da juíza Carolina Lebbos, que não liberou nem a visita do médico do presidente)

Segundo Boechat:

"Por que? Que que houve? Torturaram o Lula? Penduraram num pau de arara? Negaram comida? Banho de sol? O que que foi? A cela dele tem mais oitenta? Tem mais noventa? Estupraram o Lula?

Não, porque a Dilma não visitou o Lula... E por que a Dilma tem...? A Dilma é a esposa do Lula? São os tais encontros íntimos a que os presos têm direito?

(...) Daqui a pouco vão querer mandar caviar, salmão defumado pra cela do Lula e a Dilma de biquini!"



Eleonora Menicucci, ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres do governo Dilma, não deixou por menos em seu Facebook:

"Ricardo Boechat da Band: Jornalista misógino, machista e golpista ataca violentamente a Presidenta eleita Dilma.

Ele insinua que agora só falta a Presidenta pedir visita intima com o Presidente Lula.

Repúdio veemente todas essas insinuações sexistas, que não atingem só a Presidenta Dilma, mas todas as mulheres brasileiras

Nós mulheres exigimos que este jornalista faça uma retratação pública. Sua fala é uma violência de gênero contra a Presidenta Dilma.

Este é o cenário da impunidade que o golpe permite a toda a grande mídia.

A Presidenta, como amiga e companheira do Presidente, tem todo o direito de solicitar uma visita humanitária ao Presidente que se encontra injustamente preso, numa sala isolada, portanto, em uma solitária.

Exigimos o cumprimento constitucional: visitas de amigos foram permitidas até para nós que fomos presas e torturadas na ditadura de 64.

Abaixo o jornalismo podre dos golpistas.

Mexeu com uma mexeu com todas."
No CAf
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Paulo Sérgio Pinheiro no Tutaméia

 Imperdível 



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Pesquisa mostra que prisão melhorou imagem de Lula e fez Moro ser mais rejeitado


A pesquisa Ipsos/Estadão, divulgada ontem, mostra que a condição de preso político de Lula não afetou a sua popularidade. Ao contrário, segundo Ipsos, sua aprovação cresceu um ponto, atingindo o ápice do histórico da Ipsos, 42%, e sua rejeição caiu 3 pontos, para 54%, atingindo o seu ponto mais baixo.

Os dados de Sergio Moro seguiram na direção contrária: sua aprovação caiu dois pontos, para 41% (atrás de Lula), e sua rejeição subiu dois pontos, para 49%.

Lula, com 42% de aprovação, é, de longe, o político mais aprovado no país.

Para se ter uma ideia, Temer tem uma aprovação de 3%.

Alckmin, de 18% (e em queda).

Bolsonaro, de 23%.

FHC, de 12%.

Abaixo, a fotografia de alguns gráficos.


No Cafezinho
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Posteridades

O túmulo do Herbert Spencer fica em frente ao do Karl Marx no cemitério Highgate, em Londres. Spencer morreu em 1903, o que significa que os dois são vizinhos há 115 anos.

Pode-se especular que, vez por outra, cheguem na sacada dos seus respectivos monumentos para uma conversa de fim de tarde.

- Que tempo, hein Herbert?

- Horrível, Karl. Eu sempre digo que a única vantagem de estar morto na Inglaterra é que nos livramos do clima.

- Não me refiro ao clima, Herbert. Me refiro a esse tempo que estamos vivendo. Ou que os vivos estão vivendo. Essa crise...

- Imaginei que você estaria contente com ela, Karl. Você sempre disse que o capitalismo ia acabar...

- Mas não assim, não num desastre sem qualquer significado histórico. Causado pela pura ganância, pela intolerância, pelo fascismo redivivo, pela simples cupidez humana. Há algo menos científico do que a cupidez humana, Herbert?

- Bem...

- O que eu tinha previsto era o fim de um processo, a síntese final de uma inevitável progressão dialética que terminaria com o proletariado livre para sempre dos seus grilhões numa sociedade sem classes. Não com a classe média fazendo as contas para comprar um novo micro-ondas. Que consciência revolucionária pode nascer de uma insatisfação com a falta de crédito?

- Pois eu baseei toda uma filosofia na defesa da cupidez humana, como você deve se lembrar, Karl. Nada é mais natural do que a cupidez humana, e a ciência deve reconhecer que as leis da Natureza também regem o comportamento humano. E a primeira lei da Natureza é cada um por si e por suas ambições. É o desejo do micro-ondas que move, metaforicamente, a humanidade.

- Você e o seu darwinismo social. Como é mesmo a sua frase famosa? A sobrevivência dos mais capazes...

- Que hoje todo mundo pensa que é do Darwin, e é minha. Infelizmente, não podemos controlar nossa posteridade do túmulo.

- Mas a sua posteridade está ganhando da minha, Herbert. O capitalismo em crise não comprova a minha teoria, comprova a sua. A fome do mundo não é de igualdade e justiça, é de eletrodomésticos e férias no verão. Quem manda no dinheiro e, portanto, no mundo são três ou quatro gerentes financeiros que sonham com um novo Porsche. Não foi a reação que derrotou o comunismo, foi o consumismo. Nunca uma troca tão pequena de letras significou tanto.

- Não se deprecie, homem. Que importa se o capitalismo acabará com uma revolução ou um gemido, se se autodestruirá ou se regenerará? Aconteça o que acontecer, ainda virá mais gente visitar o seu túmulo do que o meu. Aliás, nenhum dos neoliberais que vinham prestar suas homenagens ao seu filósofo favorito tem aparecido, ultimamente. Como você vê, as flores que deixaram da última vez no meu túmulo estão mais murchas do que os prognósticos econômicos para 2018. Você ainda é o cara.

- Obrigado, Herbert. Mas você não está querendo ver o paradoxo. Se o capitalismo cair por acaso, por nenhum determinismo científico, eu caio junto com ele. Terei sido o pior tipo de profeta, o que acerta por engano.

- O acaso, o acaso... Neste ponto nós sempre concordamos, discordando do Darwin. Ele atribuía a evolução ao acaso. Nós sempre achamos que havia um fim previsível para as nossas respectivas explicações do mundo, que nossas evoluções tinham um objetivo que as redimiria.

- Mas num ponto Darwin teria razão em defender o acaso, Herbert.

- Qual?

- Foi por puro acaso que enterraram você aí, na minha frente, e podemos ter essas nossas conversas de fim de tarde.

- É verdade, Karl.

Luís Fernando Veríssimo
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Delação de Palocci: Globo e Lava Jato agem rápido para manter Lula com Moro

https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2018/04/26/delacao-de-palocci-globo-e-lava-jato-agem-rapido-para-manter-lula-com-moro/


A manchete de O Globo de hoje é mais uma demonstração de como a Operação Lava Jato é uma ação política articulada entre o grupo de comunicação dos Marinhos e setores da PF e do judiciário.

O anúncio de que o ex-ministro da Fazenda teria realizado acordo com a Polícia Federal é descarado. O lead é o que segue:

“Preso desde setembro de 2016, o ex-ministro Antonio Palocci assinou acordo de delação premiada com a Polícia Federal. Fontes vinculadas ao caso confirmaram ao GLOBO que a colaboração avançou com rapidez nos últimos dias.”

Se mais explícito poderia ser algo como:

“Após a segunda turma do Supremo ter tirado o inquérito do sítio de Atibaia da jurisdição do juiz Sérgio Moro, a PF acelerou o acordo de delação premiada com o ex-ministro Antônio Palloci para que isso permita novas investigações que possam manter o ex-presidente sob o controle de Moro e da Lava Jato.”

A reportagem não tem muito mais a dizer do que confirmar o que vem sendo dito por este blogueiro desde que o processo de impeachment teve início: “um golpe não é, um golpe vai sendo”.


Palocci certamente está oferecendo à Lava Jato uma série de indícios e declarações que implicarão Lula em novas histórias de corrupção. E que darão novas convicções a Dallagnol e a Moro.

O próximo capítulo desta história será uma imensa operação com dezenas de alvos desta delação. Quase todos próximos de Lula. Quase todos relacionados à Petrobras. Para que Moro tenha material suficiente para ir condenando Lula por dezenas e dezenas de anos. E para que ao mesmo tempo possa levar para a cadeia todos aqueles que estão na linha de frente da resistência à sua prisão.

Certamente neste acordo que teria sido assinado às pressas não estará incluso o tão anunciado capítulo no qual Palocci delatava a Rede Globo .
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Prisão do piloto do Helicoca confirma que tráfico é indústria em que chefões não são incomodados

Rogério, o piloto, e a máquina: só vestígios
O flagrante do piloto de helicóptero Rogério Almeida Antunes terminou nesta madrugada, em São Bernardo do Campo. Ele foi preso ontem, juntamente com o irmão, Leonardo Almeida Antunes, motorista de Uber, e Luís Paulo Mattar Pereira, no hangar onde estava um helicóptero que pertenceria à organização criminosa PCC.

A exemplo do que aconteceu quando foi preso em flagrante com 445 quilos de cocaína no helicóptero da família do senador Zezé Perrella, em novembro de 2013, Rogério disse que foi envolvido na história.

“Ele disse que está tentando reconstruir vida, estava ao lado da namorada quando recebeu uma proposta de trabalho como piloto, coisa comum. Tratava-se de pilotar um helicóptero, do tipo em que é habilitado, do ponto A para o ponto B”, afirma uma das pessoas que ouviram sua versão.

Rogério não aceitou, no primeiro momento. “Ele se recusou, pois o serviço se daria por tempo que o atrapalharia de ir à escola”, afirmou.

No dia seguinte, segundo sua versão, Rogério recebeu nova ligação e aceitou. Quando recebeu o telefonema, estava ao lado da namorada. Ontem, era o dia de fazer a viagem e pediu ao irmão, motorista, que o levasse até o hangar, em Arujá.

Quando ele chegou a Arujá, os policiais já estavam lá. Contou a mesma história, mas não teve jeito. Foi autuado em flagrante.

O mecânico do hangar, William Costa de Laia, conseguiu convencer os policiais de que estava ali apenas para prestar serviço, sem nenhuma relação com a quadrilha que transportaria a droga, que seria ligada ao PCC.

Segundo a Polícia Civil, as investigações se iniciaram antes da execução de Gegê do Mangue, em fevereiro. Os policiais realizaram buscas em hangares de São Paulo e região metropolitana atrás de aeronaves utilizadas pela facção. Após a morte de Gegê, o helicóptero, que seria utilizado na sua execução, sumiu e só foi localizado ontem.

Ainda de acordo com a Polícia, a aeronave era usada para transportar as drogas do Paraguai e levada a outros estados do Brasil. Resquícios de cocaína foram encontrados embaixo dos bancos do veículo.

Rogério foi funcionário da Assembleia Legislativa de Minas Gerais até novembro de 2013, indicado pelo então deputado Gustavo Perrella. Na época, foi preso em flagrante, em uma fazenda de Afonso Cláudio, no Espírito Santo.

Na companhia de outro piloto, trazia 445 quilos de pasta-base de cocaína desde o Paraguai. A drogada estava sendo descarregada por ele, o segundo piloto e mais duas pessoas, quando policiais prenderam todos.

Rogério ficou seis meses na cadeia. No dia em que prestaria depoimento, em maio de 2014, o juiz o liberou, sob fundamento de que as investigações tinham sido tumultuadas por uma suspeita de flagrante preparado.

O processo seguiu, e Rogério acabou condenado, no ano passado. Mas pôde recorrer em liberdade.

Solicitei entrevista a Rogério algumas vezes, mas ele sempre se recusou. Seu advogado, Paulo Henrique da Rocha, criminalista experiente de Vitória, assumiu o caso depois que outro advogado havia insinuado que a família Perrella era responsável pela mercadoria transportada no helicóptero.

A Polícia Federal isentou os Perrella de participação no transporte de cocaína desde o Paraguai. Segundo relatório dos policiais, Rogério teria usado o helicóptero num frete a terceiros, autorizado por Gustavo Perrella, porém sem que este soubesse que seria transportada droga. 

No curso da investigação, se descobriu que a apreensão do helicóptero dos Perrella foi o resultado de uma operação que fugiu  ao controle de outro setor da Polícia Federal, que já vinha investigado uma quadrilha de traficantes a partir de um núcleo no Mato Grosso do Sul.

Os pilotos estavam sendo monitorados, sem que soubessem, por uma equipe da PF de São Paulo. A prisão acabou desencadeada a partir de investigação da Polícia Federal em Vitória, com a participação da Polícia Militar do Estado do Espírito Santo.

O caso Helicoca teve cinco condenações, a partir das pessoas flagradas com a drogas, mas, ainda hoje, não se sabe a quem pertencia a cocaína.

Da mesma forma, ontem, com o helicóptero em que havia apenas vestígio de droga, permanece a dúvida sobre como a Polícia Civil de São Paulo chegou até lá.

O tráfico internacional é como uma empresa. Tem organização e hierarquia. O piloto Rogério é apenas a ponta visível de uma máquina que se move sem cessar. No andar de baixo, sai um, entra  outro. Já no comando, não visível, a situação é mais estável, e em geral seus integrantes permanecem ocultos.

Quando investiguei o Helicoca, entrevistei o juiz do caso, Marcus Vinícius Figueiredo de Oliveira Costa, titular da 1ª Vara Federal Criminal de Vitória. Foi uma conversa não gravada.

Em um momento, me surpreendi com a sinceridade do magistrado, diante da pergunta sobre quais seriam os desdobramentos do inquérito — ainda não era processo –, que tinha recebido o número de 666, por coincidência o número da besta. O texto termina assim:

No caso do inquérito em Vitória, 666 serviu para expor os demônios do sistema judiciário, em que procurador briga com procurador, delegado inocenta previamente suspeitos, e o juiz, um profissional preparado, com pós-graduação na Sorbonne, dá uma resposta sincera diante da pergunta sobre a impunidade nesse rumoroso caso.

— Eu continuarei juiz, você, jornalista e eles, traficantes.

O juiz estava certo.

E ele sabe que, nessa cadeia criminosa, nem todos são punidos.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Xadrez do desastre da nova legislação trabalhista


A economia é uma engrenagem complexa, similar a um jogo do xadrez, no qual a mudança de uma peça mexe com o equilíbrio das demais.

Aprovada no governo Castello Branco, a legislação trabalhista em vigor garantia não apenas os direitos do trabalhador, mas um complexo e eficiente sistema de arrecadação de tributos – através do desconto na folha -, e de financiamento da infraestrutura – especialmente saneamento e habitação popular.

O pensamento monofásico-ideológico da equipe econômica, somado ao atraso visceral do governo Temer, montou uma legislação para atender aos reclamos imediatos dos empresários com os custos trabalhistas. Não cuidou de nenhuma análise das consequências. Como resultado, coloca em xeque todo um complexo sistema de arrecadação e financiamento, sem colocar nada no lugar.

Entenda os desdobramentos da legislação trabalhista.

Consequência 1 – aumento da instabilidade social

Marcelo Nery, especialista em políticas públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), estimou que a ampliação do emprego com carteira de trabalho foi mais importante que o Bolsa Família na ascensão social da classe D.

De fato, a carteira de trabalho traz estabilidade ao trabalhador, abre espaço para o crédito, insere-o nas redes de proteção social. E, na outra ponta, aumenta a arrecadação pública.

A partir de agora, haverá enorme retrocesso promovido pela crise econômica somada ao fim das restrições ao trabalho precário, visível na redução do salário médio da economia e, à médio prazo, da massa salarial.

Consequência 2 – inviabilização da Previdência Social

A grande fonte de financiamento da Previdência são as contribuições descontadas em folha, das empresas e dos empregadores.

Havia enormes distorções a serem corrigidas. Por exemplo, o sistema financeiro tem menos encargos que, por exemplo, a indústria têxtil, intensiva em mão de obra. Para reduzir os encargos sobre a folha, a alternativa pensada sempre foi a substituição por contribuições sobre o faturamento.

A reforma na legislação trabalhista compromete radicalmente o financiamento da Previdência pelo desconto em folha, só possível no emprego formal, sem ter colocado nada no lugar.

Agora, se terá de um lado a redução gradativa do emprego formal reduzindo drasticamente a arrecadação; de outro, o aumento de dificuldades para a obtenção dos benefícios previdenciários, induzindo os mais jovens a buscarem outras formas de garantia do futuro.

Alertamos na época que significaria a inviabilização final da Previdência pública, com consequências drásticas. Os efeitos estão aparecendo muito mais rapidamente do que o previsto.

Consequência 3 – inviabilização do orçamento público

Na definição das fontes de receita do orçamento público, bastava o gestor olhar o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) para ter estimativas precisas sobre o Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF). Com a pejotização e a precarização do emprego, perderá a maior ferramenta de arrecadação existente. A queda na arrecadação do INSS já está se manifestando, mesmo com a economia saindo do buraco profundo em que se meteu.

Os impostos recolhidos na fonte – sobre folha salarial + Previdência – correspondem a 45% da arrecadação fiscal brasileira, sem contar o FGTS, e tinham na legislação trabalhista sua grande garantia de estabilidade. Está se jogando fora uma peça fundamental do sistema de arrecadação.

A diminuição da arrecadação previdenciária, por outro lado, inviabiliza completamente a maluquice do teto de gastos aprovado no ano passado. O próximo presidente assumirá com um orçamento totalmente inviabilizado.

Consequência 4 – o comprometimento do financiamento do saneamento

Havia uma previsão de destinação de R$ 330 bilhões dos recursos do FGTS nos próximos quatro anos, para programas de saneamento e habitação popular. Água tratada é serviço autossuficiente, bancado pelas tarifas. Saneamento, tratamento de esgoto, depende fundamentalmente de fontes públicas de financiamento. Com a nova legislação trabalhista, o FGTS, esvazia-se a principal fonte de financiamento do setor.

Luís Nassif
No GGN
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Lula Livre e Sou Lula de novo

Foto: Ricardo Stuckert



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No lugar certo

A transferência, de Curitiba para a Justiça Federal em São Paulo, de parte dos processos contra Lula disseminou uma reação exaltada, e pouco factual, como se houvesse um só juiz honesto, e, claro, fosse Sergio Moro. Tirar dele uma fatia do poder de condenar Lula é trapaça.

“O benefício” dado a Lula pode ser visto no Código de Processo Penal, que determina o transcurso do processo na região judiciária onde se deu a suposta ou real ilegalidade. No caso, São Paulo, onde estão o Instituto Lula e o sítio de Atibaia, objetos da parte processual transferida.

Sem o propósito de sobrecarregar o Supremo, é no entanto necessário reconhecer que o quiproquó se deve, a par da baixa quota de lucidez e da alta dose de má intenção vigentes, a mais um caso em que o tribunal se faz contraditório e incompreensível para os cidadãos.

Muitos juristas, professores de direito, advogados e mesmo juízes apontaram a impropriedade legal no envio daqueles assuntos para Curitiba. Em vão.

Sergio Moro e sua 13ª Vara Criminal têm como atribuição, há quatro anos, os procedimentos referentes à corrupção na Petrobras, suscitados por investigação sobre doleiros.

Ano e meio depois, em setembro de 2015, reunião plenária do Supremo decidiu que os assuntos sem envolvimento da Petrobras seriam distribuídos em conformidade com a norma. O Rio tem a sua eficiente Lava Jato, São Paulo tem a sua Lava Louça.

Apesar disso, o voluntarismo de Rodrigo Janot produziu uma embaralhada argumentação, em 2017, para pedir ao Supremo a permanência, com a Lava Jato curitibana e com Moro, do que envolvesse Lula.

Mas não pôde desconhecer a ausência de relação com a Petrobras, como exigido. Invocou uma tal “conexão subjetiva”. Subjetividade perceptível, nos seus argumentos, só a dele próprio.

Como resposta, o ministro Edson Fachin, em atitude que se repete no Supremo atual, passou por cima da resolução de 2015 do plenário e deixou os processos em Curitiba. Fora de sua jurisdição, sem qualquer indício de ligação entre Lula, Odebrecht e Petrobras. Por quê?

Foi a esse salto em altura de Fachin, e contra o seu voto acompanhado por Celso de Mello, que a resolução de 2015 do tribunal e o Código de Processo Penal voltaram a prevalecer pelos votos de Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes.

Afirmar que a transferência é um “benefício” dado a Lula é mais do que exagero. Se ele fosse do PSDB, que os Ministérios Públicos Federal e Estadual de São Paulo tratam com carinho, talvez sua sorte mudasse. Mas, para Lula, o resultado da transferência não contém promessa processual.

A promessa, frágil embora, decorrente da decisão do Supremo é a de mais correções que restabeleçam o melhor conceito do hoje perturbador sistema judiciário. O Supremo deve ser supremo.

Janio de Freitas
No fAlha
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