11 de abr de 2018

O que o futuro reserva para Sérgio Moro

https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2018/04/11/o-que-o-futuro-reserva-para-sergio-moro/


Quando milhões de brasileiros cantavam o hino nacional e desfilavam com seus patos pelas ruas do país, Sérgio Moro era um herói.

Era aplaudido por onde passasse, ganhava prêmios, gravava vídeos defendendo projetos de lei, sambava na cara dos investigados.

Era o Super Moro.

Ontem, o juiz das camisas pretas, como costuma defini-lo meu amigo Rodrigo Vianna, começou a ver como a mão da história é pesada.


O mais curioso de tudo isso é que quando viu o grupo, achando que seria aplaudido, esboçou um sorriso. Que teve de ser engolido para que as pernas acelerassem o passo e o tirassem dali o quanto antes.

Moro sentiu apenas o aperitivo do que virá. Não há como ser diferente. A popularidade de Lula, preso, só irá aumentar. Ele será “a ideia” de justiça social, de emprego, de melhor qualidade de vida. E Moro a perseguição, a vingança, o ódio.

Moro parece não ter percebido o quanto isso é perigoso, porque continua a tratar os processos contra Lula como se não bastasse a condenação. Nos seus despachos faz chacota, por exemplo, ao chamar de Estado Maior, uma sala de 3×5 metros na qual Lula está isolado. Na qual não pode se relacionar com ninguém, como numa solitária.

Ao mesmo tempo, tenta vender isso como se fosse um privilégio que lhe deu, em função do cargo que teve.

Moro não tem chance de se livrar disso no futuro.

Os intelectuais, a classe artística, os professores, quase todos os jornalistas que não estão no topo das pirâmides das organizações de mídia, os bons advogados e mesmo referências internacionais já se deram conta do que se passa.

São esses que vão escrever os livros de história, as grandes reportagens que serão guardadas, que vão analisar os autos, que vão fazer os bons filmes (não, Moro, o Mecanismo e o A Lei é para Todos não são bons e nem ficarão para a história).

E Moro será apresentado como é. Como o juiz vingador, vingativo, sem moral e ética pública recomendadas pelo cargo. Uma pessoa que buscava destruir um campo político e que tirava fotos com os que eram denunciados do outro lado político.

Sim, a foto de Moro com Aécio, Alckmin e Temer aos cochichos já é um ícone, uma marca que lhe traduz.

O inescapável julgamento da história, mesmo que ainda sem o trem ter andado muito, já coloca Lula como alguém mais popular que Moro. O condenado, nas palavras do juiz, é mesmo da cadeia mais popular e respeitado que o seu juízo.

A história não perdoa. E Moro ainda terá tempo para assisti-la de um quarto, de um canto, de um lugar sem brilho. Porque foi assim com outros tantos. E não será diferente com ele.

Dizem os que movem por vingança que ela é um prato frio. Que deve ser comida depois de algum tempo. Moro talvez se mova assim, a partir dessa máxima. E está se esbaldando ao aprisionar Lula, buscando humilhá-lo de todas as formas.

Mas a vingança não é nada perto do julgamento da história. Ela vive gerações. E Moro já desenhou seu destino
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A deselegância do Cardeal Scherer

Dom Angélico com Lula, Dom Odilo com João Dória.
Conheci dom Angélico Bernardino Sândalo quando eu era repórter no Estadão e escrevia sobre religião. Ele me chamava de ‘irmão’. Não era uma exclusividade. Todo mundo é ‘irmão’ de d. Angélico. Até pessoas das quais não gosta. Nunca perguntei o motivo desse tratamento. Imagino que seja para lembrar que somos todos filhos de um mesmo pai. Também imagino que foi essa ideia de fraternidade que o levou, desde a ordenação sacerdotal, a se voltar mais para as pessoas carentes, os que perderam tudo, os migrantes, os sem-teto, os sem-terra, os excluídos.

Na década de 1970, esse interesse do padre Angélico pelos pobres chamou a atenção do então arcebispo de São Paulo, o franciscano Paulo Evaristo Arns. E quando o papa Paulo VI disse a ele que devia dividir seu trabalho e nomear um bispo auxiliar para cada milhão de fiéis da arquidiocese, o primeiro nome que veio à cabeça de d. Paulo foi o daquele padre. Logo depois de sagrá-lo bispo, despachou-o para a periferia, o extremo da Zona Leste, bandas de Itaquera, na época uma das regiões mais carentes da cidade. Lá, o bispo se entrosou tão bem com o povo que até trocou de time: deixou o Palestra Itália pelo Corinthians.

D. Angélico foi um dos principais conselheiros de dom Paulo nos anos da ditadura. Acompanhou-o, lado a lado, no episódio do assassinato do jornalista Vladmir Herzog, numa dependência do Exército. Editou o jornal católico O São Paulo. Enfrentou a censura à imprensa. Por onde passou estimulou movimentos populares por habitação, creches, transportes.

Hoje, com 85 anos, aposentado, vive numa casa modestíssima na Zona Norte. Às vezes é chamado para alguma celebração especial. No ano passado ministrou o sacramento da extrema-unção à esposa do ex-presidente Lula, Marisa Letícia, de quem era amigo há quase quarenta anos.

Agora o chamaram para o ato ecumênico que lembraria a passagem de um ano da morte de Marisa. Era para um ser ato no interior do sindicato. Mas, com a decretação da prisão de Lula e a multidão que se aglomerava do lado de fora, acabou transferido para a rua. E foi assim que o País viu o bispo ao lado do ex-presidente.

Como era de se esperar, nesses tempos de polarização política e de ódios, a imagem dos dois em rede nacional provocou reações furiosas, quase fratricidas, entre católicos. D. Angélico foi xingado das piores coisas. Como nos velhos tempos da guerra fria, o chamaram de bispo da batina vermelha. Um colunista político disse que rezou uma missa negra, confundindo, como vários outros jornalistas, ato ecumênico com missa.

D. Angélico desceu do caminhão assim que encerrou o ato e Lula começou a discursar. Ninguém prestou atenção nele quando seguiu por uma rua estreita e íngreme, à procura da condução que o levaria para casa. Trajava calça cinza, de cós muito alto, e camisa branca com mangas longas. Os passos eram lentos e amparados pelas mãos da irmã Carmem Julieta, que o acompanha sempre.

No dia seguinte, a assessoria do arcebispo de São Paulo, cardeal Odilo Scherer, divulgou uma nota sobre o assunto. É um texto curto e objetivo. Começa preocupado em isentar o cardeal: diz que ele não tem nada a ver com o ato ocorrido em São Bernardo e explica que “aconteceu fora da jurisdição e responsabilidade do arcebispo e da arquidiocese de São Paulo”. Depois desse ato de lavar as mãos, o texto faz a afirmação que logo em seguida se transforma em manchetes de sites, jornais, rádios e TVs: “O arcebispo lamenta a instrumentalização política do ato religioso”.

Li e reli a nota. Parece feita às pressas, com o objetivo de dar satisfações aos católicos mais direitistas, e suscita uma pergunta óbvia: se o arcebispo metropolitano não tem nada a ver com aquilo, a quem cabe a responsabilidade? É assim que o cardeal joga a bomba no colo do bispo de Santo André, d. Pedro Cipolini.

Para entender melhor é preciso explicar que a Igreja Católica tem uma divisão própria de territórios. De acordo com essa divisão eclesiástica, São Bernardo faz parte da diocese de Santo André. Indiretamente, portanto, o cardeal está perguntando o seguinte ao irmão e bispo vizinho: como é que você permite que um ato desses ocorra em sua jurisdição?

O alvo mais óbvio da nota, no entanto, é d. Angélico. O cardeal divulgou a nota sem dar um telefonema para o bispo emérito que mora na mesma cidade e a poucos quilômetros de distância. Nem sequer para avisá-lo. Tratou-o, de acordo com os tempos de guerra, como inimigo.

Faltou elegância, no mínimo, ao cardeal. Como arcebispo metropolitano, poderia ter conversado com o bispo de Santo André ou se dirigido à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Por outro lado, em vez engrossar e estimular o conflito, poderia ter exercido o papel de pastor, acalmando os ânimos e pedindo orações para o Brasil.

Como entender essa reação do cardeal? Existem algumas pistas. D. Scherer é um expoente do conservadorismo católico. Em 2013, no conclave que elegeu o sucessor do papa Bento XVI, o nome dele figurou na lista dos preferidos da ala conservadora. Mas não prosperou. Se é mesmo o Espírito Santo que orienta o conclave, ele deve ter soprado no ouvido dos cardeais, que, após dois papados conservadores, seria melhor optar por uma cabeça mais arejada e reformadora. E eles elegeram o jesuíta Bergoglio, hoje papa Francisco.

Em 2014, o papa afastou o cardeal Scherer e outros três cardeais da cúpula do Banco do Vaticano, instituição financeira envolvida numa série de escândalos, inclusive com suspeitas de lavagem do dinheiro do crime organizado. Foi uma demonstração de que ele veio mesmo para mudar.

No Brasil, o cardeal é um dos poucos integrantes da CNBB que defendem abertamente as propostas do governo Temer para a reforma da Previdência. Antes disso, ele já havia apoiado a proposta que congelou gastos públicos.

Em São Paulo, Scherer procurou demonstrar proximidade com João Doria – tucano que lastreou sua campanha eleitoral para a prefeitura em ataques ao PT e a Lula. Chegou a falar de maneira positiva, em duas ocasiões e publicamente, a respeito da ‘farinata’ que Doria pretendia distribuir nas escolas públicas.

O cardeal até posou ao lado do prefeito tucano quando ele divulgava o tal composto alimentar. No final da história, porém, ficou falando sozinho. O valor nutritivo do composto era tão duvidoso e polêmico que foi posto de lado. Pelo próprio Doria, que já se afastou da prefeitura para se candidatar ao governo do Estado, após ter prometido aos seus eleitores que jamais deixaria o cargo antes de terminar o mandato.

Roldão Arruda
No Jornalistas Livres
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Até tu, Ciro?

Faltar à resistência em São Bernardo é injustificável!


O Conversa Afiada reproduz artigo de seu colUnista exclusivo - favor não confundir com colonista - Joaquim Xavier:

A história é repleta de momentos que, no calor da luta, podem ser superestimados ou diminuídos apesar da sua real importância. Vistos ao longo do tempo, escoimadas as paixões e emoções das circunstâncias imediatas, tais momentos assumem sua relevância ou então são relegados a notas de rodapé.

Ciro Gоmes vive esta encruzilhada. É uma pena que tenha escolhido a segunda opção. A de ser coadjuvante de uma das maiores maquinações já produzidas pela elite carcomida local e internacional contra qualquer tentativa de tirar o país do atraso secular.

É inadmissível, sob qualquer aspecto, que um pré-candidato autoconsiderado de esquerda adote a dubiedade, para dizer o mínimo, como princípio diante do massacre contra o ex-presidente Lula. Por trás de declarações enfadonhas reivindicando sua “lealdade” histórica ao ex-presidente, escancara-se agora uma atitude indigna de alguém que se diz defensor da democracia e do combate ao golpe do impeachment de Dilma Rousseff.

Pode-se até entender a recusa de Ciro a aderir ao movimento “Eleição sem Lula é fraude”. Afinal, ele é candidato assumido. Mais do que isso. A ausência de Lula nas eleições alavanca as chances de Ciro. Este sempre poderá argumentar que é melhor ter alguém como ele disputando o pleito para manter vivo o legado de quem ele diz ter dito sempre um “aliado histórico”. Vamos combinar, trata-se de cálculo é eleitoral. Ninguém é trouxa. Mas embala uma dignidade retórica, especialidade do ex-ministro.

Pode-se entender menos, mas ainda assim tapar o nariz, uma situação em que o partido pelo qual Ciro é pré-candidato vote em peso pela intervenção militar oportunista no Rio, enquanto ele próprio diga, a voz pequena, que pessoalmente é contra.

Mas decididamente não se pode aceitar as últimas declarações do hoje pedetista –sabe-se lá até quando, tantos foram os partidos pelos quais o personagem circulou—em relação aos episódios envolvendo a prisão do ex-presidente.

O mundo jurídico nacional e internacional considera líquido e certo que o processo contra o ex-presidente Lula é uma fraude monumental, com um objetivo indiscutível: banir da vida política brasileira qualquer opção que não corresponda aos interesses mais primitivos do rentismo e da alienação da soberania nacional.

Diga-se o que se diga, salta aos olhos que o ex-presidente Lula é um preso político, e não um punguista de esquina, um criminoso comum, um corrupto de carteirinha ou coisa parecida. Isso é um fato, só não reconhecido pela mídia golpista e seus escribas de aluguel que Ciro diz combater –mas que na prática o hoje pedetista só faz endossar. “Lula não é preso político”, diz. Um espanto!

Mas o pior sempre pode ficar pior. E essa é outra especialidade do pré-candidato Ciro. É absolutamente injustificável sua ausência ao ato de resistência realizado em São Bernardo contra a prisão de Lula. Num ato em que o fator substantivo era a defesa da democracia, acima de Lula ou qualquer outro nome, Ciro simplesmente deu as costas. Foi mais longe: agora critica a tentativa de governadores de visitar o ex-presidente na cadeia, embora isto seja um direito previsto em lei. Espanto ainda maior!

É uma incógnita quais são os interesses por trás dessa atitude. Há quem fale que Ciro, com isso, quer se credenciar junto a uma fatia anti-Lula — classe média, banqueiros e empresários graúdos incluídos —, mas adotando um discurso popular e palatável a lulistas. Acender uma vela a Deus e outra ao Diabo. Chegar a um hipotético segundo turno e então se impor à esquerda como alternativa inescapável.

Tudo indica que, mais uma vez, Ciro escolhe o caminho errado. Não conquistará Deus, nem será recebido pelo Diabo. Candidata-se, isto sim, a virar um Dória da esquerda. Um triste fim para quem podia ser muito mais do que é, caso entendesse que a política a favor do povo é a que deixa interesses personalistas de lado quando a unidade é mais importante que a vaidade irrelevante. Será uma nota de rodapé. Se é que já não é.
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Gilmar: Bretas é “um dos juízes mais ricos do Rio” e ainda recebe auxílio-moradia

Ministro do Supremo ataca juiz da Lava-Jato no Rio e manda abrir investigação sobre uso de correntes nos pés de Sérgio Cabral

O juiz Bretas posa com policiais
O ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes usou o julgamento na Segunda Turma do pedido de transferência do ex-governador Sergio Cabral para criticar o juiz Marcelo Bretas, da Lava-Jato. Segundo Gilmar, Bretas é um dos “juízes mais ricos do Rio de Janeiro” e que “recebe auxílio-moradia junto de sua esposa. Espero que o CNJ tome as providências necessárias”.

Em janeiro, foi revelado que o juiz recorreu para receber mais de 4 mil reais de auxílio-moradia, contrariando resolução do Conselho Nacional de Justiça, já que a mulher dele, também juíza, é beneficiária do privilégio. “É um que posou com uma metralhadora? É juiz ou justiceiro?”, concordou seu colega José Antonio Dias Toffoli, em referência a uma foto postada pelo juiz Bretas no twitter segurando um fuzil, ao lado de policiais.

Tem um lado animalesco que está se manifestando em cada um de nós. É um tipo de perversão. Fico com vergonha. Pessoas alfabetizadas, que tiveram três ou quatro refeições por dia, se comportam dessa forma animalesca

Gilmar Mendes disse ver uma reação “animalesca” em parte da sociedade brasileira que se reflete no excessivo punitivismo dos juízes da Lava-Jato. “Tem um lado animalesco que está se manifestando em cada um de nós. É um tipo de perversão. Fico com vergonha. Pessoas alfabetizadas, que tiveram três ou quatro refeições por dia, se comportam dessa forma animalesca. São pervertidas. Talvez tenham outros problemas e aproveitam agora para fazer esse tipo de coisa”, criticou.

O ministro também comentou as críticas à “sala especial”, na verdade uma cela como outra qualquer, onde o ex-presidente Lula está detido na carceragem da PF em Curitiba, por possuir um banheiro privativo. “O ex-presidente Lula vai ter uma suíte, um banheiro. Ter uma privada… Onde estamos com a cabeça? Do que estamos falando? Onde foi a nossa sensibilidade?”, questionou. “Combater o crime sim, punir sim, mas com respeito à dignidade da pessoa humana.”
Gilmar disse estranhar que até mesmo um filtro de água na cela de Cabral tenha sido considerado regalia, razão da transferência do ex-governador a Curitiba, e mandou abrir investigação sobre o uso de correntes nos pés dele
Dentro dessa concepção, Gilmar disse estranhar que até mesmo um filtro de água na cela do ex-governador tenha sido considerado “regalia”, razão da ida de Cabral a Curitiba, e mandou abrir uma investigação sobre o uso de correntes nos pés na transferência. Para ele, o fato pode caracterizar até mesmo crime de abuso de autoridade por afronta à Sumula Vinculante 11, que proíbe o uso de algemas. Gilmar votou no sentido de conceder o habeas corpus para determinar o imediato retorno de Sérgio Cabral ao presídio de Benfica.

No Socialista Morena



Auxílio-moradia: Gilmar vai pra cima de Bretas

Pagamento duplo "depõe contra toda a Justiça"


Do Painel da "Fel-lha":

Expliquem O ministro Gilmar Mendes avisou que vai enviar ofício ao CNJ cobrando apuração sobre o que levou a AGU a não recorrer da decisão que autorizou o acúmulo do pagamento de auxílio-moradia ao juiz federal Marcelo Bretas e sua mulher, também magistrada.

Expliquem 2 Mendes entende que, se o caso não for esclarecido, deporá “contra toda a Justiça”. A duplicidade do pagamento é vedada, mas Bretas e vários outros magistrados do Rio conseguiram o benefício via ação judicial.

No CAf
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Papel de Cármen Lúcia com Lula é o mesmo de Cunha no impeachment, diz professor

Como presidenta do STF, ministra tem o poder de definir a pauta da Corte, escolhendo a ordem e os processos que vão ou não a julgamento, interferindo na tramitação para alcançar o resultado desejado

Tanto Cármen Lúcia como Cunha manobraram com poderes quase ilimitados para atingir seus interesses
Para o cientista político Vitor Marchetti, da Universidade Federal do ABC (UFABC), o comportamento da ministra Cármen Lúcia à frente do Supremo Tribunal Federal (STF) se assemelha ao papel cumprido por Eduardo Cunha como presidente da Câmara dos Deputados no processo do golpe do impeachment contra Dilma Rousseff em 2016. Como presidente da Câmara, Cunha tinha o poder de admitir ou não o ingresso do pedido de impeachment, mesmo sem crime de responsabilidade, que levou à derrubada da presidenta eleita.

Segundo ele, a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é resultado de manobra da presidenta do Supremo. "Cármen Lúcia tem a capacidade praticamente ilimitada de interferir na pauta e definir os caminhos da Corte. E tem manobrado de forma a garantir a prisão do ex-presidente Lula", afirma Marchetti em entrevista à jornalista Marilu Cabañas, na Rádio Brasil Atual nesta terça-feira (10).

Ele ressalta que o poder de manobra fica bastante óbvio na opção de Cármen Lúcia por ter colocado para votar o habeas corpus de Lula, em vez de ter optado por apreciar as duas ações de declaração de constitucionalidade (ADCs) que contestam a possibilidade de prisão em segunda instância. 

"Se a gente olhar em perspectiva histórica, hoje Cármen Lúcia cumpre, para essa continuidade do processo que tomou o país – de rompimento do funcionamento normal das instituições democráticas e avanço da Lava Jato sob o sistema político – um papel muito próximo do que foi o de Eduardo Cunha lá trás, no avanço do impeachment da presidenta Dilma", comparou. 

Ele diz que, durante o impeachment de Dilma, até mesmo os analistas políticos ficaram estarrecidos com a falta de limites e irresponsabilidade das manobras realizadas por Cunha para atender aos interesses dos grupos que almejavam depor a ex-presidenta. "Ele foi um artifício importantíssimo do golpe, revelando o poder que um presidente da Câmara tem, ignorado por todos até então. Agora, a gente está lidando com a mesma situação."

Na mesma entrevista, Marchetti também comenta a prisão do operador de propinas do PSDB Paulo Preto, na última sexta-feira (6), enquanto todas as atenções se voltavam para Lula. Segundo ele, tratou-se de uma tentativa da Lava Jato de demonstrar que pode atingir a todos, tentando assim afastar as acusações de atacar um dos campos da política, enquanto protege outros. 

O professor é cético em relação ao processo contra Preto, que pode atingir figuras de proa do PSDB, como o candidato à Presidência Geraldo Alckmin e o senador paulista Aloysio Nunes.

"A minha desconfiança é simplesmente pelos fatos históricos. É só a gente olhar para todos os escândalos que envolveram o governador Geraldo Alckmin para deduzir que, por enquanto, podemos imaginar que a prisão de Paulo Preto não vá gerar grandes efeitos sobre essas lideranças políticas. A gente por enquanto não tem nenhum indício que essas ações vão ser tratadas com a mesma celeridade e dedicação, seja dos juízes de primeiro grau ou dos ministros do STF."



No RBA



É sagaz, mas impreciso comparar Cunha a Cármen Lúcia

STF continua fugindo de suas responsabilidades

http://www.blogdokennedy.com.br/e-sagaz-mas-impreciso-comparar-cunha-a-carmen-lucia/
O STF continua agindo com irresponsabilidade institucional. Não resolveu um conflito, a divisão interna sobre autorizar a pena de prisão após condenação em segunda instância, mas já está pronto para deflagrar outra guerra nesta quarta-feira, decidir se um ministro pode derrubar, por meio de habeas corpus, a decisão monocrática de um colega do tribunal.

A maior responsável pela crise do Supremo é a presidente da corte, Cármen Lúcia, que tem controle absolutista da pauta. O tribunal possui onze integrantes. A presidência tem de ser exercida levando em conta o que pensam os outros dez ministros, numa verdadeira coordenação do colegiado.

É um erro Cármen Lúcia agir como dona da pauta. Isso só acirra os ânimos no tribunal, aumenta as divisões entre ministros e alimenta o clima de guerra no debate político eleitoral.

Em dezembro de 2015, ela conduziu a pauta para beneficiar Renan. Em outubro do ano passado, foi a vez de Aécio, com o voto dela, inclusive. Recentemente, prejudicou Lula, com a estratégia de votar o habeas corpus antes das ADCs (Ações Declaratórias de Constitucionalidade) que questionam a prisão determinada pela segunda instância.

Se aqueles que desejam manter o entendimento de outubro de 2016 sobre a aplicação da pena de prisão em segunda instância têm tanta segurança sobre o acerto dessa decisão, e creem que Rosa Weber fará malabarismo para manter a atual jurisprudência, não há razão para adiar um novo julgamento do colegiado sobre o tema.

O STF precisa encerrar esse assunto. Cada ministro deve assumir as suas responsabilidades, apresentar seu voto e arcar com as consequências de sua escolha. Seria uma forma de virar a página de um tema que reclama uma decisão de mérito, porque desde dezembro o ministro Marco Aurélio Mello liberou seu relatório para votação. Mas a presidente da corte fez questão de engavetar o tema. O Supremo continua fugindo da suas responsabilidades.

Detalhe: é sagaz, mas imprecisa a comparação entre Cármen Lúcia e Eduardo Cunha, feita pelo cientista político Vitor Marchetti, da Universidade Federal do ABC, de São Paulo. Segundo Marchetti, Cunha manobrou para derrubar Dilma e Cármen Lúcia para levar Lula à prisão.

Mas o STF, presidido à época por Ricardo Lewandowsk e com Teori Zavascki na relatoria da Lava Jato, poderia ter dado um outro desfecho ao impeachment de Dilma se tivesse agido antes de o então presidente da Câmara aceitar o pedido que resultaria na queda da petista. Na época, já eram volumosas as acusações contra o peemedebista.

Cármen Lúcia não pode pagar essa conta. Isso cabe ao Supremo como um todo.

No quesito dano às instituições, é impreciso comparar as ações de Cunha às de Cármen Lúcia. Ele era um político agindo num teatro político. Já a presidência do Supremo é lugar para atuação jurídica e não para fazer política, o que tem potencial de estrago institucional muito maior.
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O Grande Vencedor



A cada vez que alguém divulgar uma notícia fake na internet sabendo que no fundo, intimamente, está mentindo miseravelmente e não passa de um canalha vil e desprezível... .

A cada vez que cidadãos que dizem se preocupar com a Liberdade, a Nação, o Estado de Direito e a Democracia, assistirem passivamente à publicação de comentários econômicos, jurídicos e políticos mentirosos, e a outras calúnias e absurdos na internet, mansa e passivamente, sem resistir nem responder a eles...

A cada vez que alguém disser que o Brasil está quebrado por incompetência de governos anteriores quando somos o quarto maior credor individual externo dos Estados Unidos, temos 380 bilhões de dólares - mais de 1 trilhão e 200 bilhões de reais - em reservas internacionais, o BNDES está pagando antecipadamente 230 bilhões de reais ao Tesouro e a divida bruta e líquida públicas são menores do que eram em 2002 com relação ao PIB...

A cada vez que alguém gritar que temos que entregar o pré-sal, a PETROBRAS, a EMBRAER, a ELETROBRAS e a Amazônia para os EUA porque somos ladrões e incompetentes para cuidar do que é nosso, como se o governo e as empresas norte-americanas fossem um impoluto poço de honestidade e moralismo e até o genro do Rei da Espanha não tivesse sido apanhado em cabide de emprego da Vivo depois que esta veio para o Brasil aproveitando a nefasta privatização da Telebras, feita por gente que depois ocupou aqui a Presidência dessa empresa espanhola...

A cada vez que alguém defender raivosamente o livre comércio quando o EXIMBANK e a OPIC norte-americanos emprestam mais dinheiro público que o BNDES no apoio a exportações e Trump adota sobretaxas contra a importação de aço e aluminio brasileiros e para vender aviões ao governo dos EUA a EMBRAER é obrigada a instalar primeiro com participação minoritária uma fábrica nos Estados Unidos...

A cada vez que alguém vangloriar o estado mínimo, quando os EUA - que está mais endividado que o Brasil - está programando investir mais de um trilhão de dólares de dinheiro público em obras de infraestrutura para reativar a economia, tem apenas no Departamento de Defesa mais funcionários federais que todo o governo brasileiro e todo mundo - principalmente a China - sabe que não existem naçõoes fortes sem estados fortes, ou sem empresas nacionais privadas ou estatais poderosas que é preciso preservar e defender...

A cada vez que alguém defender a volta de militares golpistas ao poder - porque milhares de militares legalistas foram contra o golpe de 1964 e foram perseguidos depois por defender a Constituição e a Democracia - abrindo mão de votar e suspirar e sentir o cabelo da nuca arrepiar quando vir um reco passar por perto...

A cada vez que alguém afirmar que em 1964 não houve um golpe contra um Presidente eleito, consagrado pelo apoio popular, poucas semanas antes, em um plebiscito amplamente vitorioso...

A cada vez que alguém defender a tortura e a volta dos assassinatos da ditadura, sabendo que em um regime de exceção ninguém está a salvo do guarda da esquina, como aprenderam golpistas que desfilaram pedindo o golpe de 1964 e depois tiveram filhos e parentes assassinados ou torturados pela repressão...

A cada vez que alguém achar normal - desde que não seja seu parente - que, sem flagrante, uma pessoa possa ser levada para depor pela polícia sem ter sido antes previamente intimada a depor pela justiça...

A cada vez que informações sigilosas de inquéritos em andamento forem vazadas propositalmente por quem deveria preservar o sigilo de justiça, para determinadas e particulares emissoras de televisão...

A cada vez que alguém aceitar que um cidadão pode ser acusado, condenado e encarcerado sem provas e apenas pela palavra de um investigado preso que teve muitas vezes sua prisão sucessiva imoralmente prorrogada, disposto a tudo para sair da cadeia a qualquer preço...

A cada vez que alguém achar que algum cidadão pode ser acusado de ser dono de alguma propriedade sem nunca ter tomado posse dela ou sequer possuir uma escritura que prove que é sua...

A cada vez que alguém acreditar que um apartamento fuleiro que vale menos de um milhão de reais pode ter servido de propina para comprar a dignidade de alguém que comandou durante oito anos uma das maiores economias do mundo...

A cada vez que alguém soltar foguetes por motivos políticos, celebrando sua própria ignorância e imbecilidade...

A cada vez que alguém aceitar promulgar leis inconstitucionais para ceder à pressão dos adversários adotando um republicanismo pueril e imaturo...

A cada vez que a lei aceitar tratar de forma diferente - ou igualmente injusta e ilegal - aqueles que são iguais...

A cada vez que um juiz ou procurador emitir - sem estar a isso constitucionalmente autorizado - uma opinião política...

A cada vez que juízes ou procuradores falarem em fazer greve para defender benesses como auxílio-moradia quando já ganham muitas vezes - também de forma imoral - perto ou mais de 100.000,00 reais, muito acima, portanto, do limite constitucional vigente, que é o salário de ministros do STF...

A cada vez que alguém defender que "bandido bom é bandido morto" até algum parente se envolver em um incidente de trânsito ou em uma discussão de condomínio com algum agente prisional, guarda municipal ou agente de polícia...

A cada vez que alguém comemorar a morte de alguém por ele ser supostamente "comunista", ou negro, viciado, gay ou da periferia...

A cada vez que alguém ache normal - e com isso vibre - que candidatos defendam o excludente automático de ilicitude para agentes de segurança pública que matem "em serviço", em um país em que a polícia já é a que mais mata no mundo...

A cada vez que alguém achar que só ele tem o direito ou, pior, a exclusividade de usar os símbolos nacionais e o verde e amarelo - que pertencem a todos os brasileiros...

A cada vez que um ministro da Suprema Corte se calar quando for insultado publicamente por juízes e procuradores ou por um energúmeno qualquer nas redes sociais...

A cada vez que alguém acreditar que água de torneira - abençoada por um sujeito na tela da televisão - cura o câncer, que a terra é plana, ou que Hitler - obrigado a suicidar-se durante a Batalha de Berlim pelo cerco das tropas soviéticas - era socialista...

A cada vez que alguém achar que é normal que institutos de certos ex-presidentes tenham ganho milhões com a realização de palestras de um certo ex-presidente e outros institutos de outros ex-presidentes tenham de ser multados em todo o dinheiro ganho por palestras de outro ex-presidente...

A cada vez que alguém ache normal que alguém vá para a cadeia por não ter comprado um apartamento e outros sequer sejam investigados por ter comprado várias outras propriedades imobiliárias por preços abaixo do mercado...

A cada vez que uma emissora de televisão, pratique, nas barbas do TSE, impune e disfarçadamente, política, “filtrando” e exibindo depoimentos “espontâneos” de cidadãos de todo o país, para defender subjetivamente suas próprias teses - ou aquelas que mais lhe agradem - em pleno ano eleitoral...

A cada vez que alguém adotar descaradamente a chicana e o casuísmo, impedindo que se cumpra a Constituição, porque está apostando na crise institucional e foi picado pela mosca azul quando estava sentado na principal cadeira do Palácio do Planalto…

A cada vez que ministros do Supremo inventarem dialetos javaneses ou hermenêuticos lero-leros para justificar votos incompreensíveis e confusos que vão contra a Constituição e que a História não esquecerá nem absolverá...

O Fascismo estará mais perto da vitória.

E não perdoará, em sua orgia de ódio, violência e hipocrisia, nem mesmo aqueles que agora estão empenhados, por burrice, oportunismo ou covardia, em chocar o ovo da serpente e abrir-lhe o caminho para o triunfo.
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Lula preso, "Justissa" precisa dos três tucanos


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O bispo e a puta




Quando Tom Jobim, com seu senso de humor inesquecível, diagnosticou que o Brasil não era um país para principiantes, ou foi condescendente demais com as possibilidades de o país ser compreendido, ou as coisas pioraram muito por aqui desde a sua morte ou as duas coisas juntas. A verdade, mesmo, é que o Brasil e seu povo são um fenômeno impossível de ser entendido, mesmo que estudado à exaustão.

O desfecho da Lava Jato, com a prisão do ex-presidente Lula, foi mais uma comprovação da tese: se um ET chegasse hoje ao país e tivesse uma vaga ideia do que é coerência, embaralharia tudo o que aprendeu antes. Vejamos um dos episódios mais freaks entre os ocorridos no fluxo da prisão do ex-presidente: um cafetão famoso nas altas rodas da principal cidade brasileira, dono do puteiro mais famoso do país, faz uma promessa de que, se Lula fosse preso, faria uma festa de comemoração no meio da rua, em frente à sua casa de saliências, localizada no bairro de Moema, um reduto de classe média alta em São Paulo, e distribuiria gratuitamente nove mil latas de cervejas geladíssimas a quem aparecesse por lá. E cumpriu a promessa.
Jacutinga

Nas redes sociais, ativistas da extrema-direita conservadora e que militaram pelo impeachment de Dilma, postaram convites chamando para o beer livre, usando a hashtag sextou, já que a sexta era o dia determinado para Lula entregar-se à Policia Federal. O MBL, Movimento Brasil Livre, foi um dos que convidaram explicitamente para a comemoração no puteiro. A festa em si foi inominável: em tempos de empoderamento feminino, o cafetão de luxo Oscar Maroni, o anfitrião, expôs a bunda de mulatas vestidas a rigor, exibiu prostitutas com genitais à mostra e apertava e fazia outras coisas com os peitos das moças, diante do delírio do público que compareceu. Ninguém via nada demais na exposição e humilhação da puta amordaçada nua.

Vestido de irmão metralha, o cafetão foi aplaudido, festejado e endeusado. O roteiro era coisa que deixaria Nero e seus bacanais com inveja. E o mais inacreditável: Na fachada do puteiro, foram expostos dois banners, desses produzidos em bom papel e alta definição. Um era um retrato do juiz Sérgio Moro e o outro um retrato da presidente do Supremo, ministra Cármen Lúcia, como os heróis homenageados. Em tempos de redes sociais e de imagens viralizadas, as tentações das metáforas, dos memes e das associações são infindáveis. Há quem não tenha resistido a associar a imagem da ministra a uma Jacutinga com colar de pérolas, numa referência à ave sombria e à impagável personagem de Fernanda Montenegro, na novela Renascer.

Putaria

Agora, digam: onde, no mundo, senão no Brasil, a extrema-direita, que sempre fala em nome de uma suposta família cristã e dos tais bons costumes, a ponto de censurar e fechar exposições culturais em museus, convida para uma festa no puteiro, exibe as genitálias das putas no meio da rua e tem como patronos homenageados juristas do primeiro escalão brasileiro? E, ao mesmo tempo, onde mais a esquerda, sempre definida como um grupo de ateus comunistas que comem criancinhas, fica de olhos vidrados em um bispo católico que, em cima de um caminhão, celebra uma missa em São Bernardo do Campo?

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E o surrealismo não para aí: depois da festa, o empresário do sexo não para de receber elogios de artistas, dirigentes políticos e profissionais liberais, que o elogiam por ser um homem de palavra e pedem nas redes sua candidatura a presidente ou a, pelo menos, deputado federal.

E quem duvida do seu potencial eleitoral, inclusive com o voto dos arautos da preservação dos valores familiares, em nome dos quais cancelam exposições de arte e retiram peças de cartaz?

Viva a hipocrisia, a contradição e a putaria. Da soma disso é feito o Brasil.

Malu Fontes
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Triste país onde Gilmar Mendes vira humanista


Reportagem de Reynaldo Turollo Jr, na Folha, a mais lida neste momento em seu portal, dá ideia da monstruosidade que se formou nas elites deste país. Quando se chega ao ponto de que uma figura sombria e autoritária acaba em porta-voz da dignidade humana, é sinal de que as instituições tornaram-se mais que tolerantes, verdadeiras cúmplices da barbárie.

O ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), disse nesta terça-feira (10) que pessoas que ficam indignadas com o fato de a cela do ex-presidente Lula ter um vaso sanitário, por considerarem isso um privilégio, sofrem de algum tipo de perversão.

“Onde estamos com a cabeça? Aonde foi a nossa sensibilidade? É um tipo de perversão que pessoas que foram alfabetizadas, tiveram três ou quatro alimentações durante toda a vida, se comportem dessa maneira, animalesca”, afirmou.

É assustador que um homem de direita, conservador e elitista seja um dos poucos que tem espaço para dizer esta verdade evidente, porque os demais “donos da voz” neste país revezam-se, quase todos, nos jornais e televisões para chamar de “privilégios” os direitos que deveriam se de qualquer ser humano.

Aliás, chega-se ao ponto de um candidato (e não só um) dizer que alguém preso já não é um ser humano.

Óbvio que remendam essa monstruosidade dizendo que os outros não têm. Neste caso, como há pessoas com fome, deveríamos abolir seus “privilégios” de comer três vezes por dias?

Isso não brotou do nada. Embora a semente do mal, dizem alguns, esteja disseminada em muitos, ela só viceja se lhe dão alimento e temperatura para romper a casca de civilização que, há milênios, a humanidade vem formando.

A classe dominante brasileira – e nesta não está só o capital, o rentismo, mas também os estamentos que a ele se agarram como cracas, inclusive na minha profissão – volta a assumir os seus jamais esquecidos ares de senhores de engenho, onde a senzala e o eito bastavam para os escravos e, num gesto de liberalidade, algo melhor só se alcançaria pela docilidade que os fizessem mucamas e feitores.

Esta deformação se reproduz em parte da classe média – até com mais desfaçatez. Outro dia um cidadão foi mostrado, nas redes sociais, lamentando não se poder mais “pegar uma menina de 13, 14 anos” no interior, pô-la a trabalhar como doméstica, pagar-lhe com comida e trapos e, pasmem, ainda correr o risco de ser um violador por fazer sexo com ela.

O século 19 é no 21.

O chicote desta nova servidão é, ninguém duvide, a mídia.

E quem o brande são os senhores promotores e juízes, transformados em bestas-feras, que sequer disfarçam mais o ódio, com seu discurso hipócrita.

Tão hipócrita que faz de Gilmar Mendes, o tosco ministro, alguém melhor, do ponto de vista humano, do que os Fachins e Barrosos.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Procuradores protestam contra declarações do presidente da ANPR


A vergonhosa gestão de José Robalinho Cavalcanti, à frente da Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), finalmente, provocou uma reação externa inédita dentro do Ministério Público Federal (MPF): uma carta de protesto assinada por vários procuradores, dentre os quais três ex-presidentes da ANPR - Álvaro Augusto Ribeiro da Costa, figura-chave do MPF na Constituinte, Ela Wiecko Castilho e Antônio Carlos Bigonha -, e por mp,es referenciais da corporação.

A manifestação é um protesto contra as declarações de Robalinho, proferidas momentos antes da prisão de Lula.

Diz a nota:

“O compromisso maior do Ministério Público Federal é com a Justiça.  Não podemos nos deixar instrumentalizar na disputa política, vedação que se estende à ANPR nos termos do art. 4º de nosso Estatuto.  Causa espanto ver a ANPR alimentar a divisão da sociedade brasileira, em momento tão delicado da vida nacional, ao repudiar a compreensível manifestação do cidadão submetido ao cárcere, sob enorme comoção popular”.

Questiona também a competência de Robalinho, de falar monocraticamente em nome da ANPR. “Requeremos, ao final, que futuras manifestações dessa qualidade sejam precedidas de consulta ao Colégio de Delegados, mesmo que por via eletrônica, em respeito ao regime democrático e à pluralidade de opiniões”.

A manifestação traz a público a profunda divisão do MPF e o mal-estar provocado há tempos pelas intervenções políticas de Robalinho

O comunicado

A Sua Excelência

O Senhor José Robalinho Cavalcanti
Presidente da ANPR
Nesta

Senhor Presidente:

vimos por meio deste requerimento manifestar nossa discordância quanto aos termos da nota pública da ANPR, na qual essa diretoria rechaça as declarações do ex-presidente Lula proferidas momentos antes de seu recolhimento ao cárcere.

Não há entre nós um único procurador ou procuradora da República que discorde da inadiável relevância de dedicar esforços a reprimir a corrupção. Não obstante, quanto mais enveredamos pelo campo da persecução penal em face de autoridades eleitas por voto popular, maior a nossa responsabilidade pela manutenção e reforço do regime democrático, obrigação fundamental dos membros do Ministério Público – art. 127, caput, da Constituição da República c/c art. 5º, inciso I, da Lei Complementar 75/93.  É relevante a Associação defender o livre exercício das atribuições funcionais dos membros do MPF, mas é também indispensável reconhecer o direito de crítica dos movimentos sociais e dos cidadãos em geral, o que tem baliza na Constituição. Esta é, de igual modo, uma garantia fundamental de acusados e condenados, com ou sem trânsito em julgado de sua sentença penal condenatória.

O compromisso maior do Ministério Público Federal é com a Justiça.  Não podemos nos deixar instrumentalizar na disputa política, vedação que se estende à ANPR nos termos do art. 4º de nosso Estatuto.  Causa espanto ver a ANPR alimentar a divisão da sociedade brasileira, em momento tão delicado da vida nacional, ao repudiar a compreensível manifestação do cidadão submetido ao cárcere, sob enorme comoção popular. É da natureza humana manifestar indignação diante da limitação de sua liberdade. Nós profissionais da Justiça devemos receber com serenidade essas críticas e não como motivo para acirrar os ânimos, dentro e fora da Instituição.

Por tudo isto acreditamos que a nota publicada pelo Associação está longe de traduzir a unanimidade do pensamento de seus filiados, tampouco encontra fundamento no art. 3º, inciso IV do Estatuto da ANPR, razão por que indagamos a Vossa Excelência se esse documento, de tão alta envergadura, foi previamente debatido na diretoria dessa entidade, dando ciência à classe do inteiro teor da ata de reunião.

Requeremos, ao final, que futuras manifestações dessa qualidade sejam precedidas de consulta ao Colégio de Delegados, mesmo que por via eletrônica, em respeito ao regime democrático e à pluralidade de opiniões.

Certos de contar com a atenção de Vossa Excelência,

Álvaro Augusto Ribeiro Costa
Presidente da ANPR no biênio 1987/1989

Ela Wiecko V. de Castilho
Presidente da ANPR no biênio 1997/1999

Antonio Carlos Alpino Bigonha
Presidente da ANPR nos biênios 2007/2009 e 2009/2011

Subscrevem:
Alexandre Amaral Gavronski
Alexandre Ribeiro Chaves
Aline Mancino da Luz Caixeta
Álvaro Ricardo de Souza Cruz
Ana Carolina Alves Araújo Roman
Analúcia Hartmann
Ana Padilha Luciano de Oliveira
Ana Paula Carvalho de Medeiros
Antonélia Carneiro Souza
Aurélio Virgílio Veiga Rios
Carolina da Hora Mesquita Hohn
Daniel de Alcântara Prazeres
Deborah Duprat
Domingos Sávio Dresch da Silveira
Edmundo Antonio Dias Netto Júnior
Enrico Rodrigues de Freitas
Fabiano de Moraes
Fábio Seghese
Felício Pontes – Diretor da ANPR biênio 2007/2009
Felipe Augusto de Barros Carvalho Pinto
Flávia Rigo Nóbrega
Francisco de Assis Floriano e Calderano
Gabriel Pimenta Alves
Gabriela Rodrigues Figueiredo Pereira
Helder Magno
Indira Bolsoni Pinheiro
João Akira Omoto
Jorge Luiz Ribeiro de Medeiros
Jorge Maurício Klanovicz
Jorge Sodré
José Godoy Bezerra de Souza
Julio José Araujo Junior
Leandro Mitidieri Figueiredo
Leonardo Cardoso de Freitas
Luiz de Camões Lima Boaventura
Márcia Brandão Zollinger
Maria Rezende Capucci
Mário Gisi
Marlon Weichert
Maurício Pessuto
Mona Lisa Ismail
Natália Lourenço Soares
Paula Bajer – Diretora da ANPR no biênio 2009/2011
Paulo Gilberto Cogo Leivas
Paulo Sérgio Ferreira Lima
Paulo Thadeu Gomes
Raphael Luís Pereira Bevilacqua

Luís Nassif
No GGN
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Dilma: O campo popular vai vencer

Presidenta eleita defende Lula na Espanha e diz que a democracia vencerá: "estive três anos presa na ditadura e um dia passei as tropas em revista"


“EL ENCARCELAMIENTO DE LULA ES UNA NUEVA FASE DEL GOLPE”

La exmandataria afirma que una victoria electoral del expresidente devolvería la estabilidad a Brasil

A Dilma Rousseff (Belo Horizonte, 1947) no le gusta tomar el camino fácil. O, como ella misma lo explica a su paso por Madrid, donde ofreció este martes una conferencia sobre la crisis política brasileña en Casa de América, le gustan “las salidas poco cómodas”. Con esas palabras explica por qué no renunció a la presidencia de Brasil cuando, en 2016, se inició el juicio político (impeachment) que la apartó del poder. Y es la misma expresión que utiliza para explicar por qué el Partido de los Trabajadores (PT) mantiene a Luiz Inácio Lula da Silva como su candidato para las presidenciales de octubre (donde parte como favorito en las encuestas), pese a su entrada en prisión el pasado domingo tras haber sido condenado a 12 años por corrupción. Para la exmandataria, la sentencia contra Lula es “la tercera fase del golpe parlamentario y mediático” que, según Rousseff, tuvo su “acto inaugural” con su destitución, continuó con la implantación de un Gobierno “que no tenía respaldo en las urnas” y hoy “corroe la democracia” brasileña.

¿Cuál es el plan del PT para las elecciones?

Para nosotros Lula sigue siendo el candidato. Creemos que tenemos razón y en el Supremo Tribunal Federal [donde se votó si el líder debía ingresar en prisión tras haber sido condenado en segunda instancia] hubo un empate, cinco a cinco… La Constitución de Brasil dice lo siguiente: “Todos son iguales ante la ley”, en su artículo quinto. En ese artículo hay un inciso, el 57, que dice: “Nadie puede ser considerado culpable si su sentencia no transitó en el juzgado”. Es decir, sin haber agotado todos los instrumentos para defenderse. Este ítem es la presunción de inocencia. Porque yo te puedo detener y después el tribunal te libera. Entonces, te detuve irregularmente y tú cumpliste una sentencia sin culpa. Pero cuando comenzó el proceso de impeachment, ya en 2016, [la oposición] cambió la interpretación, que no la Constitución, y dijo que se podía arrestar provisionalmente. Cuando se juzgó el habeas corpus de Lula hubo un empate en el Supremo, que la presidenta del tribunal [Cármen Lúcia] resolvió contra él. En esta discusión, la mayoría se inclina por volver a la interpretación de que no se puede detener a nadie antes de “transitar en el juzgado”.

Pero si en septiembre el Tribunal Electoral anula la candidatura de Lula, el PT quedaría fuera de los comicios.

¿Cómo cree que se siente Brasil sabiendo que el presidente [Michel Temer] dirige una cuadrilla [de criminales], o que hay grabaciones, pruebas materiales, contra el candidato que derroté en 2014 [Aécio Neves]? ¿Ellos pueden presentarse y Lula no? ¿Qué justicia es posible en un país donde pasa esto? Necesitamos que el país vuelva a encontrarse, el país no puede continuar dividido. No es posible que lo que nunca sucedió antes, el asesinato de [la concejal de Río] Marielle Franco, los tiros contra la caravana de Lula, sea la forma de hacer política. Para que esto sea superado, no hay camino que no sea el de las elecciones. Por eso creemos que tenemos todo el derecho de participar. ¿Por qué esa insistencia en que quitemos a Lula? Porque tiene el apoyo incontestable de los votos y del pueblo. ¿Quién es el candidato de los golpistas? ¿[El exgobernador de São Paulo Geraldo] Alckmin con el 5%?

Aparte de Lula son varios los dirigentes del PT involucrados en tramas de corrupción.

Tengo la tranquilidad de decir que me han investigado y, hasta hoy, no me condenaron ni me procesaron por nada.

¿Durante su Gobierno no sospechó nunca?

En Brasil hubo un proceso en 2006, el llamado Mensalão[por la compra ilegal de votos en el Congreso durante el primer gobierno de Lula], el primer proceso contra el PT. Hubo tres tesis. La primera se llamaba dominio del hecho, que fue una distorsión de un teórico jurídico alemán. Es la predominancia del hecho, es decir, que el hecho [delito] no necesita de pruebas específicas. Cuando el fiscal [Deltan] Dallagnol acusa a Lula no trae apuntes, es el único caso en la historia de la Fiscalía en el que se ha usado un Power Point para acusar a una persona. Dice: “No tengo pruebas, yo tengo convicciones”. La segunda cuestión [tesis] era: cuanto más alto en la jerarquía, mayor culpabilidad, y usted no necesita de caracterizaciones específicas porque el rango de la persona define la culpa, o sea, criminaliza la presidencia de la República en nuestro periodo, los presidentes son culpables. Tercero…

¿Pero no hay autocrítica en el PT?

No!, no es cuestión de autocrítica. Es cuestión de institucionalidad legal. Acá no hacen eso, no se puede, no se hace eso con [Mariano] Rajoy. Si usted tiene un problema con Rajoy, usted tiene que decir por qué es culpable y no [simplemente] que él es el presidente del Gobierno. El hecho de ocupar ese cargo no le acarrea ninguna culpa.

¿Está diciendo que no hubo corrupción en su partido?

No, estoy diciendo que hubo esas tres características. Esto es justicia, no lo que yo crea o deje de creer. En Brasil hay una distorsión del poder judicial, tenían que derrotarnos [al PT] e hicieron la justicia del enemigo. La ironía es que los que proporcionaron las armas fuimos nosotros. Lula fortaleció la Fiscalía, aumentamos los salarios de la Policía Federal y yo hice la Ley de las organizaciones criminales, que instituye la delación premiaday [cambió] el hecho de que en Brasil el que corrompe no era criminal, solo el corrompido, y por tanto las empresas que corrompían no eran criminalizadas.

¿Cree que su Gobierno hizo todo lo posible para combatir la corrupción?

Mi Gobierno hizo lo que pudo y yo destituí a varios de ellos. Lo veo como Montesquieu: “No piense que las personas son virtuosas, cree instituciones virtuosas”. Yo estuve en el G-20 cuando se trataban las cuestiones relativas a lo que ocurrió en la crisis [de Europa y EE UU]. ¿Cree que la corrupción existiría sin los paraísos fiscales? ¿Y que los paraísos fiscales antes del 11-S eran combatidos? ¿Por qué se dice que Suiza lava más blanco? La corrupción es algo que se tiene que combatir con estructuras nacionales e internacionales. El G-20 no estaba combatiendo la corrupción, sino el terrorismo. Pero los canales para luchar contra el terrorismo son los que combaten el narcotráfico, la evasión fiscal y la corrupción. Están imbricados.

¿Qué más hubiera podido hacer durante su mandato?

Podría haber hecho muchas más cosas. Cuanto más me alejo de aquel periodo, más consigo pensar en lo que debería haber hecho. No debería haber convivido con un vicepresidente corrupto — entonces yo no lo sabía — y traidor. Para evitar la crisis dimos exenciones fiscales a muchas empresas. No debería haberlo aplicado a tantas porque ellos se embolsaron el dinero y no ampliaron los empleos ni su capacidad. Muchas personas que yo pensaba que eran una cosa son otra… Hay muchas medidas. Por ejemplo, Brasil necesita que haya distribución de la riqueza y no la habrá sin una reforma tributaria.

¿Qué escenario pronostica para las elecciones?

Si dejan que tengamos elecciones. Lucharemos para que haya. Incluso la dictadura militar tuvo que celebrar elecciones para crear una imagen de tranquilidad. Creo que si [el vencedor] fuera Lula volvería la estabilidad a Brasil. Es lo que espero. Pero considero que va a hacer de todo para que Lula no vuelva.

¿Y sin Lula en la ecuación?

Yo creo que el campo popular gana. No es solamente Lula la cuestión. Él dijo lo siguiente, y tiene razón: “Estaré en la elección vivo o muerto, preso o libre, condenado o absuelto, porque represento una idea y una propuesta. Ellos descubrirán que aunque esté preso millones de brasileños serán Lulas”. Es lo que ha pasado. Cuando le condenaron en primera instancia, él aumentó [su respaldo en las encuestas]; en segunda instancia, volvió a aumentar, a diferencia de lo que pasa con los otros políticos. Después de que salimos del juicio de los medios de comunicación — Lula tiene 70 horas de televisión nacional en su contra —, no se movió ni un minuto para abajo, solo para arriba [en los sondeos], y esto es desesperante para la prensa brasileña. La próxima generación de políticos ya surgió. Entonces, yo no creo que se vaya a lograr un retroceso total en Brasil. En la última dictadura, nosotros resistimos 21 años. Es el segundo golpe que vivo. Estuve tres años en la cárcel, y un día pasé revista a las tropas.

Alba Casas | Felipe Sánchez
Do El País
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Rosa Weber muda de consciência como muda de estilo dos óculos?


Rosa Weber surpreendeu ao votar contra a concessão de habeas corpus ao Lula em 4 de abril porque ela contrariou a própria consciência jurídica.

A decisão dela equivale a um atentado contra os próprios princípios – uma espécie de haraquiri ético.

Havia a expectativa, bastante fundamentada – em razão das posições que Rosa Weber sustentava até aquela sessão do stf –, que no plenário da suprema corte ela sustentaria sua posição original, ou seja, a favor da Constituição e contra a inconstitucionalidade da prisão sem o trânsito em julgado de sentença penal condenatória, como determina o inciso 57 do artigo 5º da CF.

Não foi, entretanto, o que aconteceu.

Rendida à pressão de quem foi seu juiz auxiliar [Moro], da Lava Jato e da Globo, Rosa Weber mudou a própria consciência – com a mesma facilidade com que muda de estilo de óculos – e concedeu o voto que consagrou o arbítrio para a prisão do Lula.

Nos próximos dias, o plenário do stf poderá protagonizar nova batalha jurídica em torno da matéria, e então Rosa Weber estará diante da oportunidade histórica de se apaziguar com a própria consciência ou, então, de confirmar a mudança de consciência – se é que isso seja humana e existencialmente possível.

Marco Aurélio Mello decidiu enfrentar as trapaças da presidente Carmem Lúcia e prometeu levar ao plenário do stf a discussão sobre a Ação Declaratória de Constitucionalidade da OAB que impede a prisão de réus enquanto subsistirem recursos da defesa.

Ante o anúncio do seu colega de plenário, Rosa Weber rapidamente aferrou-se então a uma nova e estapafúrdia explicação para justificar a mudança de consciência: na visão dela, o erro da jurisprudência criada pelo stf em 2016, mesmo sendo uma jurisprudência errada e que vem em prejuízo de seres humanos, não pode ser alterada porque, na visão dela, a jurisprudência errada e injusta está vigente há pouco tempo!

É de se concluir, assim, que Rosa Weber defende que um erro jurídico, mesmo que ocasione lesões graves a seres humanos [como a privação de liberdade], não pode ser alterado antes de permanecer em vigência por “certo tempo”, como um castigo pré-datado.

Traduzindo: na visão de Rosa Weber, um mal deve persistir enquanto houver o desejo de que o mal persista para atingir os inimigos.

Rosa Weber está diante de uma escolha: ou fica com sua consciência amparada na Constituição e no Estado de Direito, ou sucumbe ao Moro e à ditadura Globo-Lava Jato e muda de consciência – como muda de estilo de óculos.

A escolha é simples. E essencialmente ética. E está na consciência de Rosa Weber.

Jeferson Miola
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Candidato ruralista à Câmara, Oscar Maroni arrenda fazenda polêmica, de R$ 55 milhões, para a Cosan


Dono do Bahamas também cria cavalos em propriedade já ocupada por sem-terra e leiloada por dívida trabalhista; ele aponta MST como motivação para comemorar prisão de Lula

Toca o telefone no Bahamas Hotel Club. O psicólogo e fazendeiro Oscar Maroni Filho – dono do bordel em São Paulo – atende e pergunta qual o perfil do De Olho nos Ruralistas, de que lado está o observatório. “Porque pode ser dos sem-terra fazendo essas palhaçadas”, explica. Conta que já foi comunista, acreditou em reforma agrária. “Até ficar rico”. Ele responde objetivamente às perguntas, a começar da primeira: o que foi feito da Fazenda Santa Cecília, em Araçatuba (SP), ocupada cinco vezes por sem-terra, leiloada pela justiça trabalhista e depois colocada à venda, por R$ 55 milhões?

“Você está pegando a época que Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil”, diz ele. Maroni faz questão de pronunciar frases de efeito ao longo da entrevista. Pré-candidato a deputado federal pelo PROS (o número de urna terá o final 69), ele conta que a Fazenda Santa Cecília da OMF – iniciais de Oscar Maroni Filho –, no oeste paulista, foi arrendada para a Cosan. A rigor, 600 dos 700 alqueires. “Está lá, plantado com cana. A Cosan vai desenvolver um centro de pesquisa com a Shell”.

A brasileira Cosan e a anglo-holandesa Shell compõem a multinacional Raízen, a maior exportadora brasileira de açúcar. Os 100 alqueires restantes (240 hectares do total de 1.685 hectares) continuam com Maroni: a sede, o gado, o haras. “Vou voltar a confinar gado, agora com seleção de carnes especiais”, conta. “Estou estruturando com técnico da Luiz de Queiroz para desenvolver carnes especiais”. Ele se refere à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, o polo de agronomia da Universidade de São Paulo (USP).

A propriedade que já pertenceu ao grupo Liquifarm, do Vaticano, chegou a ir a leilão, há dois anos, por dívidas trabalhistas. Segundo o fazendeiro, de R$ 42 mil. O lance mínimo estabelecido pela 1ª Vara do Trabalho de Araçatuba, na ação movida pela União, era de R$ 31,2 milhões. Mas o leilão acabou sendo sustado. “De modo inteligente fui até o último dia, fiz o pagamento e não foi a leilão”, orgulha-se Maroni.

MST OCUPOU FAZENDA CINCO VEZES

A propriedade estava avaliada pelo Tribunal Regional do Trabalho em R$ 55 milhões. Exatamente o preço pelo qual o fazendeiro tentou vendê-la, posteriormente. “Passei um período muito delicado da minha vida onde tive durante seis anos tive cinco invasões de sem-terra”, relata. “Falei: Vou vender a fazenda”. Diante de novo período de estabilidade, ele desistiu.

– Coloquei à venda porque estava se tornando impraticável ser um homem da atividade rural no Brasil. Lei não funciona, propriedade privada não tem o respeito que tem de ter. Constituição é uma merda, feita pelo senhor Ulysses [Guimarães], que foi político a vida inteira, para beneficiar os políticos. E cada um a interpreta como quer. Ela incentiva pessoas que não têm vocação nenhuma para a terra, com funções politiqueiras, de movimentos de pessoas que nunca trabalharam.

Uma das cinco ocupações feitas por movimentos de sem-terra – três delas internas, duas vezes na frente da propriedade – ocorreu em 2009. Na época o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) estava à frente da ocupação. “Cheguei a falar com o José Rainha [ex-líder do MST], uma pessoa muito simpática”, relata Maroni. “Ele me disse: sua fazenda dá mais ibope que a do Fernando Henrique Cardoso. Ganhei todos os processos na Justiça. PM arrancou todos lá de dentro”.

O MST defendia a desapropriação para fins de reforma agrária. O movimento alegou na época que queria chamar a atenção para os baixos índices de produtividade de 20 fazendas da região. “Os fazendeiros estão mascarando as propriedades para aparentes altos índices de produtividade”, disse uma das lideranças, Jonas da Silva. O fazendeiro, que arrendava a propriedade para cana e gado, a definia como “um modelo de pecuária”.

Maroni sobe o tom ao falar do MST, em específico, movimento que ele já chamou de “terrorista”, e dos camponeses sem-terra, de um modo geral. “A propriedade privada é tão sagrada quanto a sala de sua casa”, filosofa. “Todo fazendeiro deveria ter autorização especial para possuir armas para não ser invadido. Ficamos no meio do mato, sujeitos a invasão de irresponsáveis, inconsequentes”.

‘CERVEJA GRÁTIS PARA QUEM MATAR LULA NA CADEIA’

Maroni distribuiu 9 mil cervejas, na sexta-feira, em frente do Bahamas, em evento divulgado pelo Movimento Brasil Livre, o MBL, como comemoração da prisão do ex-presidente Lula. Foram projetadas em um telão imagens do juiz Sergio Moro e da presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Carmen Lúcia. No dia em que prometeu as bebidas ele também acenou com cerveja de graça o mês inteiro. Mas só para alguém muito específico. “Cerveja de graça o mês todo, se matarem ele lá na cadeia”. Alguém pergunta: “E se for sofrida a morte?” Ele responde: “Aí eu dou o rabo”.

Dias depois, uma manhã tranquila de segunda-feira em São Paulo, pergunto ao empresário, apresentado em livro como “o colecionador de emoções”: a visão que ele tem do MST e o fato de ter tido fazenda ocupada pelo movimento fizeram diferença no momento de comemorar a prisão do Lula?

Ele responde: sim. Nesse momento ele passa a diferenciar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva do que chama de “marginal” Lula, segundo ele corrompido pela Odebrecht. “O ex-presidente é um homem de esquerda, de grupos de esquerda, que acreditam que a terra é um bem social que tem de ser dividido para todos”, afirma. “Que nunca viram um cabo de enxada, que não sabem se bois têm chifres”.

Maroni pergunta o que João Pedro Stédile, um dos coordenadores nacionais do MST, fez na área rural: “Ele organiza grupos com interesses políticos”. E diferencia os sem-terra dos jovens que consumiram cerveja em Moema no dia 6 de março. “Os grandes movimentos de apoio ao PT são MST e CUT, que vão lá ganhar sanduíche de mortadela, não é o cidadão que veio à porta do Bahamas, feliz”.

Por causa do Bahamas, o psicólogo nascido em Jundiaí (SP) já foi condenado, esteve foragido e preso, acusado de formação de quadrilha e tráfico de mulheres. “É prostituição de luxo, sim”, costumava admitir. “Não vamos ser hipócritas”.

Em abril de 2017, porém, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve a absolvição do empresário por exploração de prostituição. Seria culpado, na visão do colegiado, se o estabelecimento tivesse somente essa atividade. No entanto, alegou o ministro Rogério Schietti, o próprio Ministério Público do Estado de São Paulo definiu o Bahamas como sauna, bar e restaurante, com mesa de bilhar, piscina e pista de dança.

Hoje Maroni define o Bahamas como atividade “completamente lícita, mesmo sendo putaria, com garotas de programa”.

ELE ASSOCIA BRASÍLIA COM ‘PUTARIA’

O empresário já foi candidato a vereador em São Paulo, em 2008, pelo PTdoB, com números finais 111 (o mesmo dos presidiários mortos no Carandiru), numa coligação chamada Tostão Contra Milhão. Obteve 5.804 votos. Na época ele declarou possuir R$ 73 milhões em bens. A maior parte (R$ 58 milhões) referente à construção do hotel Oscar, de 11 andares, excessivamente próximo do Aeroporto de Congonhas, e por isso interditado pela prefeitura – o que o leva a ter especial desprezo pelo ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD, à época no DEM).

Faziam parte de seu patrimônio, há dez anos, as cotas de R$ 150 mil na OMF Bahamas Hotelaria Restaurante American Bar e Balnearia Ltda, em Moema, e a Fazenda Santa Cecília da OMF, em Araçatuba, declarada por R$ 3,8 milhões – mais de dez vezes menos que o atual preço de venda. Mais um Jaguar, um Mercedes-Benz e um jet-ski, entre outros veículos. Ele também declarou uma distribuidora de bebidas – no papel a OMF Cobranças e Eventos Ltda, atualmente no nome do filho Aratã.

Aos 67 anos, quatro filhos (a primogênita Aritana participou dos reality shows MasterChef e, assim como o pai, A Fazenda), ele quer a Câmara dos Deputados. Slogan: “Quero ser a granada sem pino na casa dos deputados federais”. Ele diz que quer fazer “revolução interna” na Casa. Apresentará uma cartilha registrada em cartório, com propostas como pena de morte, redução da maioridade penal para 15 anos e reforma jurídica: “Não aceito que no STF ministros sejam indicados por pessoas: cabrita para tomar conta da horta”.

Essa cartilha terá 69 itens. “Que de putaria e zona eu entendo. Pode colocar, Brasília tá uma putaria mesmo”. O primeiro discurso também será registrado em cartório: “Vou dizer que não vou chamá-los de digníssimos colegas”. Desabrido, Maroni fala sem constrangimento de sua atividade principal e do que gostaria de fazer com esta ou aquela mulher. “Estou feliz graças ao Moro e à Carmen Lúcia. Corinthians campeão, só falta a Gisele Bündchen dar para mim”.

‘GRANADA’ CONTRA POLÍTICOS RURALISTAS

O candidato Oscar Maroni Filho diz que quer representar os pequenos e médios fazendeiros. “Uma das mágoas minhas é a área rural”, afirma. “Não somos representados”. Diz acreditar numa reforma agrária séria, como na Austrália. “O Estado tem áreas férteis. Seriam desenvolvidos núcleos, com cooperativas, onde pessoas que queiram trabalhar com terra seriam arrendatárias. O Estado forneceria maquinário e conhecimento técnico”. Ele completa: “Não para quem não tem conhecimento”.

Ele não se vê representado pelos principais políticos ruralistas do país. O ministro da Agricultura, Blairo Maggi? “Gostaria de debater com esse homem o custo para engordar um boi. Eu quero saber se esse ministro entende um pouco disso. Se ele sabe o que é um palanque de aroeira, se sabe o que é ter marginal na propriedade sem ter uma arma. Ministro da Agricultura só mexe com a soja?”

Ex-ministra da Agricultura, senadora Kátia Abreu (PDT-TO)? “O que Katia Abreu fez pela área rural? Não diria que ela desconhece, ela não conhece nada. Eu posso ser um médico que não conhece a medicina? Ela recebeu as terras de herança do marido. O que a CNA [Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil] faz para o agricultor? É um sindicato que nos rouba como os outros. Sempre me neguei a pagar, paguei na Justiça. Quero que me mandem o que fizeram nos últimos dez anos”.

Senador Ronaldo Caiado (DEM-GO), fundador da União Democrática Ruralista, nos anos 80? “Caiado, vamos acordar mais, arregaçar um pouco mais a manga. Quando dou um tiro é direto. [Ele explica que está falando em tiro no sentido figurado]. Será que ele fez um bom trabalho na área rural? Área rural é uma situação caótica e confusa. O que Caiado fez? Vê o caos, a insegurança que é viver nas nossas terras”.

Alceu Luís Castilho
No De Olho nos Ruralistas
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