31 de mar de 2018

Jornais argentinos fechados ou abandonados pelos donos são recuperados por cooperativas de seus trabalhadores


No fim de 2001, a crise política e econômica da Argentina foi o principal tema na cobertura jornalística latino-americana. A recessão econômica que culminou em intensos protestos populares e na renúncia do então presidente Fernando de la Rúa também fomentou um fenômeno peculiar: o das empresas recuperadas por seus trabalhadores.

Desde então, a conformação de cooperativas de trabalhadores para recuperar empresas prestes a fechar as portas ou já com falência declarada se tornou algo recorrente no país, especialmente nos setores têxtil e metalúrgico. No entanto, nos últimos dois anos e pela primeira vez, os meios de comunicação foram a maior parte das empresas recuperadas na Argentina no período, segundo levantamento do Programa Facultad Abierta da Universidade de Buenos Aires.

Entre 2016 e 2017, pelo menos seis meios foram recuperados por seus trabalhadores após terem sido fechados ou abandonados por seus donos: os jornais locais La Nueva Mañana, de Córdoba; El Ciudadano, de Rosario; La Portada, de Esquel; e El Correo, de Firmat; mais o jornal Tiempo Argentino e o portal de notícias online Infonews, ambos sediados em Buenos Aires. No levantamento anterior, referente ao período entre 2010 e 2013, o Programa Facultad Abierta registrou a recuperação de apenas um meio de comunicação.

Para especialistas e jornalistas destes veículos ouvidos pelo Centro Knight, trata-se de uma reconfiguração do panorama midiático do país que se conecta à relação entre meios e governos, mas que também representa novos caminhos para o jornalismo na Argentina.

“Por mais tempo”

A cientista social Natalia Bauni, do Observatório Social sobre Empresas Recuperadas e Autogeridas (Osera), também da Universidade de Buenos Aires, disse que o ponto central da recuperação de empresas por seus trabalhadores é a conservação dos postos de trabalho.

“Longe de ter uma característica revolucionária ou de ataque ao sistema, o ponto central é que a maioria são trabalhadores assalariados mais velhos, para quem seria praticamente impossível reinserir-se no mercado de trabalho”, afirmou Bauni. “A cooperativa foi apenas um modo legal de defender o trabalho”, disse a cientista social, citando a Lei de Quebras argentina, que prevê esta modalidade de recuperação de empresas falidas.

O antropólogo social Andrés Ruggeri, diretor do Programa Facultad Abierta, lembrou que antes de 2016 havia casos de meios recuperados e administrados por cooperativas de trabalhadores, em sua maior parte no interior do país. Entre eles estão Comercio y Justicia, de Córdoba, e El Diario de la Región, no Chaco argentino, ambos refundados em 2002, auge do fenômeno das empresas recuperadas, e a Revista Cítrica, surgida após o fim do jornal Crítica, em 2010.

Tiempo Argentino team (Courtesy)
Em dezembro de 2015, o panorama midiático do país muda junto com a ruptura política efetivada com a eleição e posse de Mauricio Macri como presidente depois de 12 anos de governos Kirchner, com Néstor (2003-2007) e Cristina Fernández (2008-2015).


Em maio de 2016, representantes da Federação Argentina de Trabalhadores de Imprensa (FATPREN, na sigla em espanhol) participaram de reunião da Comissão de Liberdade de Expressão da Câmara de Deputados e afirmaram que, até o momento, a entidade havia registrado cerca de 2.500 demissões no setor. Já em novembro do ano passado, houve uma nova reunião entre deputados e representantes de trabalhadores da comunicação em que estes últimos pediram que fosse declarada “emergência trabalhista” no setor pelas demissões e fechamento de meios.


“Neste panorama, aparece como primeira empresa recuperada do período macrista justamente um meio de comunicação, o jornal Tiempo Argentino”, disse Ruggeri.


O caso de Tiempo é emblemático deste fenômeno recente no país. O jornal foi fundado em 2010 pelo empresário Sergio Szpolski e era parte do Grupo 23 de mídia, de propriedade de Szpolski e Matias Garfunkel. Composto por nove meios, entre jornais, rádios, sites de notícias e um canal de TV, o grupo foi o que mais recebeu verbas de publicidade oficial do governo entre julho de 2009 e julho de 2015, durante o governo Fernández de Kirchner, segundo reportagem da revista Perfil.


Com a troca de governo, logo em dezembro de 2015 os trabalhadores de Tiempo Argentino deixaram de receber seus salários, contou Javier Borelli, jornalista e presidente da cooperativa Por Más Tiempo. “O diário se sustentava em boa parte com o que o dono recebia do governo anterior. Quando o governo anterior se vai, o dono deixa de pagar os salários e desaparece”, disse Borelli.


Em fevereiro de 2016 o jornal deixou de ser impresso. Depois de três meses trabalhando sem receber e de tentativas de contatar o dono do jornal e entender qual seria o futuro de Tiempo Argentino, os cerca de 100 jornalistas decidiram se organizar e ocupar a redação “enquanto decidíamos de que maneira seguir adiante”, afirmou. Uma das decisões foi produzir uma edição especial impressa a ser vendida na manifestação em Buenos Aires do dia 24 de março, data anual em que a Argentina lembra os 30 mil mortos e desaparecidos pela ditadura militar entre 1976 e 1983.


Os próprios jornalistas foram para as ruas da capital argentina para vender os exemplares do especial e perguntar ao público se havia interesse em continuar apoiando Tiempo se o jornal fosse recuperado por seus trabalhadores. Os 30 mil exemplares impressos foram vendidos e a resposta do público foi positiva. “Decidimos então repartir o dinheiro arrecadado entre os que não recebíamos há três meses e guardar o resto para fazer as primeiras duas edições de um diário cooperativo”, contou Borelli. A primeira edição de Tiempo Argentino como cooperativa foi lançada um mês depois, em abril de 2016.

Attack at Tiempo Argentino (Courtesy)
Três meses depois, com a redação ainda ocupada por três jornalistas da cooperativa que guardavam o local, um grupo de cerca de 20 homens invadiu na madrugada o prédio, que também abrigava a Rádio América, também parte do Grupo 23. Eles expulsaram as pessoas que lá se encontravam e destruíram equipamentos de trabalho da redação de Tiempo. O empresário Mariano Martínez Rojas foi acusado de usurpação e danos pela destruição do prédio, reportou La Nación. De acordo com notas publicadas na ocasião, Martínez Rojas afirmava ter comprado Tiempo Argentino e Radio América. No entanto, Tiempo reportou em setembro que o empresário “nunca pôde comprovar na Justiça a propriedade do meio”. Ainda assim, outras histórias na mídia argentina e internacional se referiam a ele como o dono do jornal.


O incidente foi condenado por várias organizações argentinas e internacionais, entre elas a Relatoria Especial para a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que pediu ao Estado argentino que investigasse o caso. No entanto, as investigações não avançaram e a causa judicial relativa ao ataque até hoje não foi julgada, disse Borelli. Já Martínez Rojas foi detido por autoridades norte-americanas em janeiro de 2018 em Miami, onde se encontrava foragido de acusações da Justiça argentina de extorsão, ameaça e lavagem de dinheiro.


A redação de Tiempo se mudou então para outro prédio e lá hoje trabalham 100 pessoas, entre jornalistas, designers, fotógrafos e funcionários da administração do jornal. “Alguns jornalistas somente se dedicam ao trabalho jornalístico, outros têm uma dupla função: seguem escrevendo para o jornal e às vezes cuidam das relações comerciais, da organização do trabalho ou das tarefas administrativas”, disse Borelli.


O jornal também deixou de ser impresso diariamente e hoje sai em papel somente aos domingos, quando tem uma circulação de 30 mil exemplares. “Consideramos que temos um diário digital de segunda a sábado e uma edição em papel aos domingos”, explicou o jornalista.


Desde sua conformação como cooperativa, Tiempo Argentino buscou fortalecer sua relação com leitores, convidando-os a ajudar a sustentar o jornal. Segundo Borelli, 70% da renda de Tiempo vem de contribuição de leitores, tanto os que compram ou assinam o diário impresso aos domingos como os que se associaram ao jornal e pagam cerca de 120 pesos ao mês (cerca de R$ 20). Outros 20% são arrecadados por venda de publicidade e 10% por atividades realizadas pela cooperativa como oficinas de jornalismo e eventos culturais.


“Hoje temos quase dois mil sócios, e além deles, cerca de 2.500 assinantes do jornal”, disse Borelli, para quem nos últimos dois anos “despertou mais forte na Argentina a lógica de que os leitores também se sentem responsáveis por financiar um meio de comunicação e entender que a produção jornalística é algo caro, e que vale a pena contribuir para produzir informação necessária.”

Responsabilidade das empresas


Outro meio argentino recuperado por seus trabalhadores em cooperativa em 2016 foi Infonews, que se tornou o primeiro portal de notícias online recuperado no país. Fundado em 2008 como o portal de notícias do Grupo 23, Infonews reunia o material publicado nos outros meios do grupo - Tiempo Argentino entre eles - e também produzia seu próprio conteúdo com os cerca de 50 jornalistas e funcionários da redação.


Isso até fevereiro de 2016, quando os trabalhadores deixaram de receber seus salários, contou Daniel Jatimliansky, secretário da cooperativa dos trabalhadores de Infonews. Diferentemente do que aconteceu com os outros meios do grupo, em que não houve um fechamento oficial por parte dos donos, a empresa chegou a anunciar o encerramento do portal em maio de 2016.

Infonews team (Courtesy)

Neste momento começaram as conversas entre os trabalhadores sobre formar uma cooperativa para recuperar o portal, disse Jatimliansky. “O esvaziamento do Grupo 23 afetou 800 companheiros. A alternativa era sair a procurar emprego em um mercado laboral com muita demanda, pouca oferta e cada vez mais precarizado, ou tentar sustentar nossas fontes de trabalho”, afirmou o jornalista.


Após fracassarem as conversas com a empresa sobre as indenizações devidas, os trabalhadores avançaram na conformação da cooperativa e colocaram o portal novamente no ar em agosto de 2016, agora com aproximadamente 20 profissionais na equipe. Assim como Tiempo, Infonews também conta com um programa de sócios, cujas contribuições são a principal fonte de renda da cooperativa, somadas à venda de publicidade e serviços editoriais.


Para Jatimliansky, a escassa oferta de trabalho para profissionais da comunicação na Argentina hoje e a experiência prévia de outros trabalhadores com a recuperação de empresas faz com que essa seja uma alternativa viável para a sobrevivência de meios após a desistência de seus donos. Ele ressalta, porém, a responsabilidade das empresas e do Estado nas situações vividas não só por Infonews e Tiempo Argentino, mas também La Nueva Mañana, El Ciudadano e La Portada.


“O fim do Grupo 23 foi a ponta de lança que demonstrou que era fácil não cumprir com as obrigações patronais, salariais e fiscais sem consequências legais”, disse Jatimliansky. “Embora possa ter certo tom épico a recuperação de um meio de comunicação e a gestão em forma cooperativa, o Estado tem a obrigação de evitar que empresas quebrem e exigir que os empresários cumpram com as obrigações que têm perante os trabalhadores”, acredita.

“La grieta”


A cientista social Natalia Bauni avalia que o fenômeno recente dos meios de comunicação recuperados na Argentina está ligado a um debate que se acendeu durante o governo anterior sobre um suposto aprofundamento da divisão entre setores então governistas e antikirchneristas, que ficou conhecida como “la grieta” (“a fenda”).


Essa divisão teria se refletido também nos meios de comunicação, com alguns tidos como oficialistas - e que também foram beneficiados por​ grandes quantias de publicidade oficial, como o Grupo 23 - e outros oposicionistas, como aponta reportagem do El País. Com a ascensão de Mauricio Macri, o corte na verba de publicidade estatal sela o colapso ou enfraquecimento de meios considerados kirchneristas. Essa verba passa então a ser direcionada a meios supostamente mais alinhados com o macrismo.


Segundo análise de Chequeado, em 2015, último ano de governo Fernández de Kirchner, os cinco grupos mais beneficiados pela publicidade estatal foram o 23, América, Indalo, Albavisíon e Clarín, que juntos ficaram com 33% do total da verba distribuída pelo governo. Em 2016, primeiro ano de governo Macri, somente o Grupo Clarín recebeu 21% do total daquele ano, quase a soma direcionada aos quatro grupos seguintes: Telefónica, Indalo, América e La Nación.


“Não se pode destinar dinheiro público a construir jornalismo oficialista”, criticou Fernando Ruiz, professor de jornalismo e democracia na Universidade Austral, em Buenos Aires, em conversa com o Centro Knight. Ele defende, porém, que o Estado invista na construção de um jornalismo de qualidade e que incentive a autossuficiência dos meios de comunicação.

Tiempo Argentino Assembly (Courtesy)
“Não se trata de mais uma indústria, mas de uma instituição democrática. Portanto, esse dinheiro público que sempre fluiu em direção aos meios de forma perversa, agora há que fazer com que flua de uma forma democrática e transparente”, acredita.


Para o professor da Universidade Austral, as cooperativas de jornalistas e a autogestão dos meios por seus trabalhadores é benéfica à pluralidade no jornalismo e à democracia. “A liberdade de expressão em um país está muito relacionada com a pluralidade nas formas de propriedade de seus meios de comunicação”, disse Ruiz, que acredita que a sociedade se beneficia quando há “um mix” entre propriedade estatal, comercial e social dos meios. “Nesse esquema misto, é muito difícil que temas importantes sejam deixados de lado no debate público”, afirma.


Jatimliansky, do Infonews, acredita que a chamada “grieta” na mídia argentina indica na verdade a pluralidade de vozes e meios que se estabeleceram nos últimos anos. “Existem diferenças editoriais visíveis [entre vários meios]. Quando não se falava da ‘grieta’, na realidade havia uma ausência de vozes diversas e divergentes, ao menos em forma massiva”, afirmou o jornalista.


Um inconveniente dessa ideia de divisão é “o risco de estigmatização de alguns jornalistas e meios”, comentou Jatimliansky, acrescentando que, por isso, Infonews hoje posiciona claramente seu jornalismo: “lutamos pelos direitos humanos e pela liberdade de gênero, nos identificamos como trabalhadoras e trabalhadores e temos uma linha editorial progressista e popular”.


No caso de Tiempo Argentino, ainda mais identificado com o antigo alinhamento de seu ex-dono ao governo Fernández de Kirchner, essa estigmatização se deu com a classificação do jornal como “kirchnerista”. “Hoje nós que fazemos Tiempo Argentino somos os trabalhadores, não o dono anterior, e o nosso não é um meio kirchnerista”, disse Javier Borelli. “Não pretendemos atar nosso meio a nenhum partido político, nem kirchnerista, nem de esquerda, nem de nenhum tipo.”

Crise e oportunidade


Embora surgidas de situações dramáticas, as cooperativas de jornalistas dedicadas a recuperar meios abrem novos caminhos para os profissionais e para o jornalismo, acredita Borelli. Segundo ele, a experiência de Tiempo Argentino tem sido muito interessante e inovadora, tanto para os jornalistas como para o panorama midiático na Argentina. “De alguma maneira, Tiempo conseguiu provar que era possível fazer um meio cooperativo e sustentado pelos leitores”, afirmou.


Para Borelli, a experiência de Tiempo “abre expectativas em um momento em que se estão perdendo muitos empregos e a informação está limitada pelos interesses dos donos [dos meios]. Assim como é um momento de crise, também pode ser um momento muito interessante para explorar outras formas de fazer jornalismo.”


Central no novo Tiempo, segundo ele, é a intenção de que “os valores do jornalismo voltem a ser informar a sociedade, armar uma agenda em que sejam centrais os direitos humanos e o olhar para a população, não necessariamente os interesses dos donos dos meios”.


Nesse sentido, o objetivo dos trabalhadores de Tiempo Argentino para os próximos anos é “armar um espaço de comunicação na América Latina que privilegie o jornalismo e os valores jornalísticos sobre o negócio”, disse Borelli. A ideia é promover um congresso ainda em 2018 em Buenos Aires de jornalismo autogerido, que reúna experiências de toda a região de meios administrados por jornalistas.


“Acredito que ter uma rede que esteja vinculada a partir do jornalismo e não dos interesses de seus donos vai permitir outro olhar sobre o que está acontecendo na região”, afirmou.

Carolina de Assis
No Journalism in the Americas
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Magistocracia, a “Gran Famiglia” judicial brasileira

Autoritária, autocrática, autárquica, rentista e dinástica


O Conversa Afiada reproduz, da revista Época (que virou encarte no Globo Overseas) artigo de Conrado Hübner Mendes, professor de direito constitucional da USP:

A democracia brasileira depositou no Poder Judiciário parte das esperanças de transformação social trazidas pela Constituição de 1988. A aposta aliou um catálogo de direitos a um repertório de ferramentas processuais de efetivação. Essa espetacular missão, contudo, caiu no colo de magistocratas. A magistocracia é mais nociva do que o temido “governo de juízes”. Magistocratas não querem tanto o ônus de governar e responder por seus atos, pois preferem o gozo discreto de seus privilégios materiais e de status. Não ser incomodados em seu condomínio lhes basta: realizam-se no exercício de seus micropodeeres privados, fora dos holofotes. Ali está sua concepção de vida boa.

A promessa de 1988 fracassou e a corporação judicial tem sua fração de responsabilidade. Permaneceu refratária à incorporação de princípios de controle e de transparência a sua estrutura e sua prática institucionais e ampliou modestamente o acesso à Justiça e o grau de pluralidade demográfica dos juízes de primeira instância. Resistiu quanto pôde às mais simples formas de abertura e prestação de contas.

Magistocratas vivem num mundo à parte. O processo de assimilação à corporação passa por uma eficiente anestesia ética? poucos têm tamanho contato, desde o andar de cima, com as mazelas do andar de baixo da sociedade brasileira; poucas instituições têm tamanha capilaridade e oportunidade de proteger os mais vulneráveis contra abuso do poder político e econômico; não há quem melhor pratique seu poder corporativo para pleitear gratificações nos métodos da baixa política. Pouco importa qualquer valor republicano ou ponderação de justiça desabonadores.

“Governo de juízes” é expressão hiperbólica que aponta usurpações de poder pelo Judiciário na separação de poderes. “Ativismo judicial” é equivalente.

A magistocracia é distinta: corrói a cultura democrática (...) igualitária. Em geral, o debate público brasileiro sobre o Judiciário tende a se concentrar no que juízes fazem ou deixam de fazer no exercício da função jurisdicional. Um ângulo fundamental, mas insuficiente. Precisamos discutir quem os juízes são, de onde vêm, o que pensam, como vivem. Ao lado da dimensão política - o quantum do poder - há uma dimensão social - o quantum de privilégios. Esta é indispensável para observação a relação do Judiciário com a democracia.

A magistocracia tem cinco atributos: é autoritária, autocrática, autárquica, rentista e dinástica. Autoritária porque viola direitos (é coautora intelectual, por exemplo, do massacre prisional brasileiro); autocrática porque reprime a independência judicial (juízes insubordinados são perseguidos por vias disciplinares internas); autárquica porque repele a prestação de contas (e sequestra o orçamento público a título de “autonomia financeira”); rentista porque prioriza interesses patrimoniais (agenda corporativa prioritária); e dinástica porque incorpora, sempre que pode, os herdeiros à rede.

Nem todo juiz, obviamente, é um magistocrata, mas esse é o ethos institucional que os governa. Um Judiciário independente, competente e imparcial é indispensável à democracia. A magistocracia é adversária desse projeto. Juízes não são beneficiários passivos da desigualdade brasileira, pois ocupam lugar estratégico para sua manutenção e não desperdiçam a oportunidade.

A batalha pelo aumento salarial fantasiado de auxílio-moradia (com isenção tributária) é exemplo menor de uma patologia profunda. O líder momentâneo da causa é um magistocrata de raiz, o ministro Luiz Fux. Quatro anos - e mais de R$ 5 bilhões - depois, retirou o caso da pauta do STF e afirmou que a Câmara de Conciliação do governo federal vai buscar “saída de consenso” entre as partes. Pretexto malandro, pois não há partes a ser conciliadas diante da situação legal. A desfaçatez é a de sempre. Foi o mesmo ministro que, ao fazer lobby pela nomeação de sua filha de 35 anos de idade a desembargadora do Rio de Janeiro, dizia: “É o sonho dela. É tudo o que posso deixar pra ela” (revista Piauí, abril de 2016). Deu certo. A família agradece.
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BolsoMico reúne “multidão” de 20 pessoas em Brasília para comemorar o golpe de 64


O deputado ainda repetiu críticas aos governos Lula e Dilma e “a esta turma que hoje conduz o Brasil”

O deputado federal e presidenciável Jair Bolsonaro (PSL-RJ) reuniu cerca de vinte pessoas na Esplanada dos Ministérios, em Brasília (DF), para comemorar o golpe de 31 de março de 1964.

Perfilados em frente ao vídeo, simpatizantes do deputado e dois dos seus filhos ouvem com gestos de apoio o seu discurso:

“31 de março de 1964, data em que os militares salvaram o Brasil de uma cubanização. Militar das Forças Armadas de 1964, meus parabéns, meus cumprimentos e Brasil acima de tudo”.







No Falando Verdades
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A disputa pelo poder real se desenrola fora da arena da política


A investida policial que culminou na prisão de muitos amigos, empresários e políticos do círculo de convivência íntima do Temer foi fatal para o governo ilegítimo.

Só não foram presos ele próprio, Temer, e seus comparsas protegidos pelo foro privilegiado na esplanada dos ministérios.

É de se perguntar, a estas alturas, se a promoção do ex-subchefe de assuntos jurídicos da Casa Civil ao cargo de ministro de direitos humanos não foi, também, uma medida preventiva para assegurar a impunidade do afilhado do Eduardo Cunha.

Este desgaste brutal não significa, todavia, que Temer será cassado, como corresponderia, uma vez cumpridos os trâmites legais e constitucionais que não vigem no Estado de Exceção instalado no Brasil.

O certo, entretanto, é que o governo ilegítimo passa a viver uma condição irreversível de total irrelevância e desprezo ainda mais profunda que antes.

A ofensiva contra Temer e sua quadrilha não ocorreria sem a assinatura de Luís Barroso.

Raquel Dodge também foi importante protagonista ao solicitar as prisões, num giro que pode caracterizar sua opção de afastar-se de Temer para aproximar-se da Lava Jato.

Este grave episódio, que torna ainda mais imprevisível e imponderável o cenário político e institucional do país, aparenta, porém, ser uma reação da facção mais lavajateira e mais arbitrária do Regime de Exceção a decisões polêmicas adotadas por Dias Toffoli.

No curto intervalo de 24 horas, Toffoli concedeu prisão domiciliar a Paulo Maluf e Jorge Picciani; e liminar autorizando a candidatura de Demóstenes Torres.

A ofensiva contra Temer e sua quadrilha, neste sentido, pode ser um lance da disputa de poder que ocorre entre as diferentes facções do golpe.

Esta disputa [1] se desenrola por fora e por cima do campo de disputa esperável, que é a arena da política; e [2] é dominada por atores não-eleitos e não investidos de poder político e legislativo; ou seja, pela mídia/Globo, judiciário/Lava Jato e mercado/establishment.

Estes são os atores que dominam o cenário da disputa do poder real; os atores que disputam o poder de fato de mandar e de desmandar hoje no Brasil.

Dessa dinâmica “intra-golpe” se conhecerá a resultante política e institucional que, inclusive, poderá ser dum horizonte crítico, de cancelamento das eleições e endurecimento autoritário do regime.

Jeferson Miola
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Alckmin se iguala a Bolsonaro no fascismo

O governador Geraldo Alckmin, presidenciável do PSDB, até tenta, mas não consegue esconder a sua origem política – quando participou de cultos da seita fascista Opus Dei no interior de São Paulo e até nos salões do Palácio dos Bandeirantes. Diante do grave atentado a balas contra a Caravana de Lula no Paraná, o “picolé de chuchu” deixou de lado a farsa da mídia de que seria o “candidato do centro” e escancarou seu ódio: “Estão colhendo o que plantaram”. Quase com as mesmas palavras, seu rival na disputa eleitoral, o fascistoide Jair Bolsonaro, rosnou: “Lula quis transformar o Brasil em galinheiro e agora colhe os ovos”.

As declarações do grão-tucano geraram críticas até da mídia amiga e chapa-branca. Em editorial nessa quinta-feira (29), a Folha lamentou a inabilidade do seu queridinho. “O ataque a tiros contra dois ônibus da caravana do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Paraná, constitui até aqui o ponto culminante – e intolerável numa sociedade democrática – de uma escalada de radicalismo e intimidação... Impõe-se imediata e rigorosa investigação para encontrar e punir os responsáveis por esse ataque. Impõe-se, por parte da sociedade e do conjunto das lideranças políticas democráticas, repudiar sem meias palavras o ocorrido. Lamentavelmente, não foi esta a atitude do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) ao declarar que Lula e seus defensores simplesmente ‘estão colhendo o que plantaram’. Corrigiu-se; outros nem se deram a tal trabalho”.

De fato. Um dia após sua declaração de ódio, que gerou duras críticas nas redes sociais e mal-estar até no seu próprio partido, o tucano tentou reduzir o desgaste. Nas redes sociais, ele se travestiu de “Santo” – não daquele citado na planilha de propina da Odebrecht. Ele postou que “toda forma de violência tem que ser condenada” e que “é papel das autoridades apurar e punir os tiros contra a caravana do PT”. Em outra postagem, ele ainda posou de pacifista: “É papel de homens públicos pregar a paz e a união entre os brasileiros. O país está cansado de divisão e da convocação ao conflito”. Os servidores púbicos paulistas que enfrentam a costumeira truculência do governador devem ter dado gargalhadas com esta conclamação à paz!

Já o candidato Jair Bolsonaro (PSL), que adora estimular o ódio entre seus fanáticos seguidores, até agora não recuou nas suas declarações fascistas. Ao ser recebido por cerca de 200 apoiadores no aeroporto Afonso Pena, em São José dos Pinhais (PR), e vestir uma faixa presidencial, ele não escondeu sua alegria com os tiros disparados contra a caravana. “Lula quis transformar o Brasil num galinheiro. Agora está colhendo os ovos”. Defensor da violência, ele ainda discursou em favor de que “a Polícia Militar atire para matar... Nós faremos voltar a valer a força”. Já no dia seguinte, em um ato esvaziado, ele insinuou dar tiros em um boneco de Lula. Alckmin e Bolsonaro se igualam no ódio fascista, mas o primeiro ainda tenta disfarçar!

Em tempo: Aqui vale um registro miúdo da Folha sobre esta visita. “Ao pisar em solo paranaense, Bolsonaro foi recepcionado pelo deputado federal Fernando Francischini, que é do estado e tentará uma vaga no Senado... Francischini também discursou e chamou de bandidos os integrantes da caravana de Lula. Ele foi delegado da PF e secretário de Segurança do Paraná. O deputado, porém, também esteve na boca de condenados na operação Lava Jato. Em uma conversa entre o ex-deputado Luiz Argolo e o doleiro Alberto Yousseff, o parlamentar diz que está fechando um acordo ‘que acho que vai dar certo’ e menciona o colega paranaense... O papel de Francischini, segundo Argolo, seria o de defender os interesses da OAS. Argolo foi preso e condenado por receber propina da empreiteira. Francischini não foi indiciado pelos colegas da Polícia Federal”.

Altamiro Borges
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Malafaia vai apoiar Bolsonaro e diz que vai “arrastar 80% do voto evangélico”



Candidato do nanico PSL à Presidência da República, o deputado federal Jair Bolsonaro aposta todas as fichas nas redes sociais para propagar sua campanha pelo país. O parlamentar está prestes a acertar o reforço de um exército na estratégia para compensar o pouco tempo que terá na televisão a partir de agosto. O pastor Silas Malafaia, uma espécie de “influencer” evangélico, decidiu usar sua teia digital em prol da candidatura de Bolsonaro. Há duas semanas, um encontro na sede da Associação Vitória em Cristo começou a pavimentar o caminho para o apoio nas eleições. Participou da conversa o senador Magno Malta (PR-ES), cotado para ser vice do deputado.

— Bolsonaro é o único que defende diretamente a ideologia da direita. Ele encarna os valores mais caros ao nosso povo na questão dos costumes. Pode anotar, 80% do voto evangélico irá para Bolsonaro nestas eleições — afirma Malafaia, de olho na provável saída de Lula do jogo eleitoral. — Se ele (Lula) fosse candidato, não haveria esta proporção porque parte do voto popular evangélico iria para o petista graças ao Bolsa Família.

O pastor pretende repetir um método utilizado nas eleições municipais de 2016, quando priorizou atacar adversários em vez de pedir votos para os candidatos que apoiava. Marqueteiros consideram que este tipo de campanha negativa é muito mais útil, na medida em que Malafaia e outras lideranças evangélicas enfrentam forte rejeição em determinados segmentos da sociedade. Sua imagem sofreu arranhão ainda maior desde a condução coercitiva feita pela Polícia Federal em dezembro de 2016. Ele perdeu milhares de doações durante o ano passado por ter que explicar os motivos de receber R$ 100 mil em sua própria conta bancária de um acusado de corrupção. Malafaia afirma que não faz sentido qualquer tipo de insinuação, pois declarou os valores no Imposto de Renda.

Em mãos para impulsionar Bolsonaro, um canhão digital nas principais redes sociais (Facebook, Twitter e Instagram). O pastor mantém ainda um canal no YouTube com mais de 30 milhões de visualizações e uma base de dados de telefones para disparar os vídeos via WhatsApp. Foi por meio dessas ferramentas que Malafaia ajudou a desconstruir candidaturas de esquerda em Cuiabá, Nova Friburgo, Belém e Sorocaba (SP). No Rio de Janeiro, o pastor atacou posições de Marcelo Freixo (PSOL) em cerca de 40 vídeos no segundo turno das últimas eleições municipais para beneficiar Marcelo Crivella (PRB). As falas para seu público são sempre bélicas. Malafaia já acusou candidatos psolistas de defender a “erotização de crianças” e de “envolvimento com os black blocs”.

— Vou continuar jogando pesado nas redes sociais. O (Geraldo) Alckmin “deu mole” para a gente ao fazer sinalizações para o movimento gay. A Marina (Silva) também vai “apanhar” muito de mim. Em 2010, já tinha deixado de apoiá-la quando ela disse que faria um plebiscito sobre aborto, caso eleita — diz Malafaia, que no ano passado sinalizou que o prefeito de São Paulo, João Doria, seria o seu preferido para o Planalto. — Ele só precisava ser menos almofadinha, disse isso a ele.Não é pequena a influência de Malafaia, que admite já ter feito investidas erradas em candidaturas vitoriosas à Presidência e ao governo do Rio, onde reside. Apesar da justificativa ideológica, há sempre muito pragmatismo nas escolhas do pastor. Malafaia apoiou o PT na eleição de Lula em 2002 e manteve-se neutro quatro anos depois. Com o fim da era petista, buscou apoiar Marina, então no PV, em 2010, mas faltando duas semanas para a eleição descambou para a candidatura de José Serra (PSDB). Quatro anos depois, apoiou outro tucano, o hoje senador Aécio Neves. No Rio, deu suporte às campanhas de Sérgio Cabral, Eduardo Paes e Luiz Fernando Pezão — todos concorreram pelo PMDB. Paes, aliás, é um dos políticos que mais admira mesmo tendo desenvolvido várias políticas voltadas para o público LGBT em duas administrações. O pastor diz que se arrepende de ter apoiado Lula e Sérgio Cabral.

No encontro com Bolsonaro há duas semanas, Malafaia sugeriu que o deputado escolha uma vice mulher ao invés de Magno Malta.

— Magno não agrega. Esse apoio evangélico, Bolsonaro já terá sem um vice do segmento — afirmou o pastor, ciente da rejeição de Bolsonaro diante do público feminino.



No Falando Verdades
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Brasil se enterra na lama com guerra do Globo contra Temer e das facções contra Lula


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Fachin mente?

Fachin pede escolta para esposa, mas rejeita inquérito sobre supostas ameaças


O ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin aceitou escolta para a esposa, desembargadora Rosana Amara Girardi Fachin, do Tribunal de Justiça do Paraná, que era a "maior preocupação" quando o magistrado relatou à GloboNews supostas ameaças que vem recebendo em função da Lava Jato.

Segundo informações do Estadão, a presidente do STF Cármen Lúcia foi quem organizou o aumento de efetivo de segurança de Fachin e o deslocamente de agentes para o Paraná, onde vive a esposa, filhos e netos do ministro.

Mas o jornal reforçou que Fachin não quis que a Polícia Federal instaurasse um inquérito para apurar as ameaças que ele diz que tem recebido.

"Com a repercussão sobre as ameaças contra Fachin, o diretor-geral da Polícia Federal, Rogério Galloro, ligou para o ministro nesta terça-feira e colocou a instituição à disposição do magistrado. O Estado apurou que, na conversa com Galloro, Fachin afirmou que, no momento, não será necessária a abertura de investigação e que Cármen Lúcia já providenciou melhorias para garantir a segurança da família do ministro."

No GGN
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Os brasileiros mais pobres são a maior resistência à candidatura Bolsonaro


No dia seguinte ao primeiro turno da eleição de 2014, quando Dilma Rousseff e Aécio Neves se classificaram à finalíssima, participei ao lado do jornalista Josias de Souza de uma entrevista com Fernando Henrique Cardoso. Pedimos ao ex-presidente uma análise, com timbre mais de sociólogo do que de dirigente político, sobre a votação massiva da petista entre o eleitorado de menor renda.

FHC, pró-Aécio, respondeu: “O PT está fincado nos menos informados, que coincide de ser os mais pobres. Não é porque são pobres que apoiam o PT, é porque são menos informados”.

Fernando Henrique enfatizou que a opinião não expressava menosprezo.

Quatro anos mais tarde, os brasileiros mais pobres, ou “menos informados”, impediriam Jair Bolsonaro de se tornar presidente. Se dependesse dos mais ricos, ou “mais informados”, o deputado de extrema-direita venceria hoje a eleição.

Em três simulações de segundo turno da pesquisa mais recente do Datafolha com a presença de Bolsonaro, ele prevaleceu no segmento de eleitores com renda familiar mensal de dez salários mínimos (R$ 9.540) para cima. Superou Lula por 43% a 32%. Marina Silva, por 42% a 34%. Geraldo Alckmin, por 38% a 31%.

No entanto, malogrou entre os entrevistados com renda familiar de até dois salários mínimos (R$ 1.908): perdeu de Lula, um passeio de 60% a 25%. De Marina, por 46% a 26%. De Alckmin, por 36% a 28%.

Na amostra do instituto, os eleitores com renda familiar até dois salários corresponderam a 47%. A partir de dez salários, a 4%. O IBGE calcula que metade dos brasileiros sobrevive com renda individual mensal inferior a um salário mínimo.

Como a estrutura da renda e da riqueza é piramidal, há muito mais votos de quem ganha menos do que de quem ganha mais. Na pesquisa do finzinho de janeiro, Lula derrotou Bolsonaro na soma geral, 49% a 32%. O extremista ficou dez pontos atrás de Marina, 32% a 42%. E alcançou empate técnico com Alckmin: 35% para o governador, 33% para o deputado.

A tendência se manteve quando considerada a escolaridade. Entre os entrevistados com ensino fundamental, Lula beira o triplo da intenção de votos de Bolsonaro (61% a 23%). Contabilizando apenas os com ensino superior, o petista é sobrepujado por 40% a 34%.
Caso a Justiça confirme a proibição de Lula concorrer, Bolsonaro seria o principal ou um dos principais candidatos beneficiados.
Esse é o retrato de momento, ou de dois meses atrás. Lula é o candidato com mais chances de frustrar a empreitada fascistoide encarnada por Bolsonaro. Nos cinco cenários de primeiro turno que incluem os dois, são eles os contendores que passam ao último round.

Caso a Justiça confirme a proibição de Lula concorrer, Bolsonaro seria o principal ou um dos principais candidatos beneficiados. Tal afirmação não constitui opinião. É fato, evidencia o Datafolha. Nas quatro simulações de primeiro turno sem Lula, Bolsonaro lidera três e empata uma, no limite, com Marina (ele registra 21%; ela, 17%). Com Lula no jogo, o deputado perde o primeiro lugar.

Se não fossem os “menos informados”, o risco à democracia seria ainda maior. É curioso ouvir que os brasileiros pobres impulsionam Bolsonaro. Sucede o contrário: eles concentram a resistência civilizatória à selvageria representada pelo capitão que já sugeriu pau-de-arara para torturar gente em CPI, disse que fecharia o Congresso e pregou o extermínio de 30 mil pessoas, sem poupar o então presidente Fernando Henrique Cardoso.
Escolaridade não equivale, necessariamente, a sabedoria.
Escolaridade não equivale, necessariamente, a sabedoria. Cada um sabe onde o calo incomoda mais. A maioria dos cidadãos mais pobres não identifica hoje em Bolsonaro alguém que mitigaria sofrimentos e promoveria progressos em suas vidas.

A base social da extrema-direita no Brasil situa-se tradicionalmente na classe média (como a que tem renda familiar mensal acima de dez salários mínimos). Do vigor do integralismo nazifascista, na década de 1930, à postulação presidencial de Plínio Salgado, em 1955 (o veterano integralista amealhou 8% dos votos válidos no país; no Paraná, conquistou 24%; na cidade do Rio de Janeiro, 5%; Juscelino Kubitschek ganhou a eleição).

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Suprema rinha

Na semana que passou, Lula conduziu uma caravana pelos Estados do Sul, os menos seduzidos por sua cada vez mais improvável candidatura. Grupos de extrema-direita organizaram protestos violentos. Queimaram pneus e interditaram estradas. Arremessaram pedras, rojões e ovos. Não eram bolinhas de papel. Uma pedrada acertou o ex-deputado Paulo Frateschi. Outros foram feridos. Um manifestante agrediu com relho um partidário do ex-presidente. Relho é sinônimo de chicote e chibata. Um segurança de Lula deu um soco no repórter Sérgio Roxo, de O Globo.

A violência conheceu o paroxismo no Paraná. Três balas alvejaram dois ônibus da caravana. Desprezando eufemismos, foi um atentado político. O fascismo deu seu recado. Querem sangue.

O Tribunal Regional Federal da 4ª Região deixou o nome de Lula mais distante das urnas ao rejeitar, anteontem, os recursos da defesa. O ex-presidente foi condenado a doze anos e um mês de reclusão por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do triplex. Liminar do Supremo Tribunal Federal evitou o começo do cumprimento da pena. O juiz Sérgio Moro terá de esperar pelo menos até 4 de abril para ordenar a prisão.

Na quinta-feira, o STF adiara a decisão sobre o habeas corpus requerido por Lula. A sessão plenária iniciara pouco depois das duas da tarde. Antes das oito, encerraram-na. Entre os pretextos, uma viagem do ministro Marco Aurélio Mello ao Rio.

Outra desculpa foi o iminente cansaço de ministros caso a sessão perdurasse. Os membros do Poder Judiciário usufruem de férias anuais de dois meses. Em 2015, os ministros não reclamaram, pelo contrário, do aumento de 70 para 75 anos da idade máxima para o exercício do cargo. Vendiam saúde. Não teriam fôlego para apreciar o habeas corpus?

Sessão do Supremo Tribunal Federal realizada no dia 22 de março
Sessão do Supremo Tribunal Federal realizada no dia 22 de março.
Foto: Nelson Jr./STF

Não marcaram a sessão seguinte, ou a continuação da anterior, para a semana vindoura. Pularam-na, afinal a semana em curso é a da Páscoa, e os ministros são filhos de Deus (outros filhos, menos abençoados, estão trabalhando sem descanso). Como Lula poderia ser prejudicado pela incapacidade de o STF se pronunciar a tempo, ofereceram-lhe o salvo-conduto de no mínimo treze dias.

Nas desinteligências sobre riscos institucionais e vaivéns de jurisprudência, o que mais impressiona é, aqui, ali e acolá, a omissão ou relativização da letra constitucional. A Carta determina que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Portanto, não seria obrigatória a prisão de condenado em segunda instância – os réus, como Lula, preservam o direito de apelar a tribunais superiores. Não é preciso ser iniciado em direito penal para compreender o escrito.
O STF julga, não legisla – ou assim deveria se comportar em regime de equilíbrio entre os Poderes.
A presidente do Supremo, Cármen Lúcia, bravateia não aceitar pressões. Ignoro se a ministra se sente pressionada pela Constituição. Quem a elaborou foram legisladores, bons ou ruins, porém selecionados por sufrágio popular. O STF julga, não legisla – ou assim deveria se comportar em regime de equilíbrio entre os Poderes.

A ministra tem dado entrevistas exclusivamente – ou quase – a veículos de comunicação cujas orientações coincidem com as dela. Um dia antes da sessão sobre o habeas corpus, recebeu em seu gabinete representantes do Vem Pra Rua, movimento de direita contrário ao pedido de Lula.

Dois sábados antes, recepcionara Michel Temer em sua casa. O ministro Luís Roberto Barroso havia acabado de quebrar o sigilo bancário do presidente. Cármen Lúcia opõe-se a mudar o entendimento do Supremo de pôr em cana condenado em segundo grau. No ano passado, foi dela o voto de desempate em mudança de atitude do STF sobre afastamento de parlamentares. A decisão colegiada serenou o senador Aécio Neves.

Na véspera da sessão que não se definiu sobre o habeas corpus, o ministro Luiz Fux suspendeu o julgamento sobre o auxílio-moradia a juízes. O pagamento prossegue, a juízes e membros do Ministério Público. Já consumiu R$ 5 bilhões da União e dos Estados.

No mesmo dia, esquentaram as rinhas do plenário. Barroso espinafrou Gilmar Mendes como “mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia”. Gilmar contra-atacou insinuando: “Vou recomendar ao ministro Barroso que feche seu escritório de advocacia”.

Registro taquigráfico para os historiadores do futuro: a maioria dos ministros do STF foi indicada pelas administrações Lula e Dilma. A composição do Supremo é parte do balanço do petismo no Planalto.

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Mecanismos


A Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro sob intervenção não anunciou pista importante na investigação sobre as mortes da vereadora e do motorista. As perguntas permanecem, desesperam e doem: quem os matou?; quem mandou matá-los?

Em Maricá, na região metropolitana do Rio, a polícia suspeita que quem chacinou cinco jovens na madrugada do domingo foram milicianos. Patrick, Marco Jhonatan, Sávio e os dois Matheus tinham de 16 a 20 anos. Integravam um movimento cultural de rap e rimas. Foram mortos no conjunto residencial Carlos Marighella, depois de voltarem de um show do rapper Projota.
O Facebook retirou do ar páginas que disseminaram mentiras sobre Marielle, ligando-a a traficantes de drogas. Descobriu-se o vínculo de seu mantenedor com o Movimento Brasil Livre, grupo expoente no mercado de notícias falsas, na campanha pela deposição de Dilma e na pressão pela prisão imediata de Lula. A imprensa fustiga as fake news. Mas um prócer do MBL, Kim Kataguiri, foi colunista da Folha de S. Paulo até março do ano passado.
Na Europa, um filme atribuindo a Hitler, e não a Churchill, as palavras sangue, sofrimento, lágrimas e suor seria tratado como ofensivo ou ridículo.
A memória de Marielle Franco não foi alvejada somente pelos difusores de torpezas. Em episódio muito menos grave, Marina Silva tropeçou. A ex-ministra usou fotografia da vereadora morta para divulgar a estreia da série O Mecanismo, de José Padilha. A obra exibida pela Netflix se inspira na Operação Lava Jato, objeto de críticas acerbas de Marielle. Marina reconheceu o “sentido distorcido da arte” que propagandeava a série e a apagou das redes (antis)sociais.

O Mecanismo tem um personagem que o roteiro e a direção associam escancaradamente a Lula. No quinto episódio, o personagem imita hábito do Lula original ao cofiar a barba e diz: “Eu sei é que a gente precisa estancar essa sangria”.

“Estancar essa sangria” é expressão consagrada por Romero Jucá em conversa com Sérgio Machado. O contexto foi a conspiração de peemedebistas para escapar de punições e derrubar Dilma Rousseff. Logo, uma articulação para abater a aliada e sucessora de Lula. Colocar as palavras na boca de um Lula dramatúrgico configura fanfarronice histórica.

A condição ficcional da série não faz irrelevantes essa e outras licenças. Na Europa, um filme atribuindo a Hitler, e não a Churchill, as palavras sangue, sofrimento, lágrimas e suor seria tratado como ofensivo ou ridículo.

No Brasil, mesmo num filme de ficção, pareceria escárnio ou besteirol transferir para a lavra de Carlos Lacerda, meu próximo biografado, uma frase de despedida de Getúlio Vargas como “[…] saio da vida para entrar na história”. Ou filmar “eu prendo e arrebento” como fala de um oposicionista, e não do ditador João Baptista Figueiredo, o general que preferia o cheiro de cavalo ao de povo.

Cineasta talentoso, José Padilha dirigiu e produziu ao menos dois filmes ótimos (Tropa de Elite 1 e 2) e uma série muito boa (Narcos) – Tropa 1 e Narcos estão disponíveis na Netflix. É direito de Padilha interpretar o país como quiser, contá-lo como bem entender, veicular seus filmes e séries pelo canal que escolher e esgrimir livremente suas ideias.

Mas seria demais ele esperar silêncio e cumplicidade, diante de uma fraude histórica vulgar, no Brasil castigado por dores e inflamado por paixões.

Mário Magalhães
No The Intercept
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O nazifascismo entre nós

O fascismo não é um carimbo para ser colocado na testa de quem quer que seja mas é necessário entender suas características pois ele é atemporal, é cíclico e relacionado umbilicalmente às crises do capitalismo e ascensão das lutas populares nesses períodos de crises. Como todos sabem, o capitalismo vive uma crise prolongada, já chegando a uma década e sem soluções avançadas, progressistas, o caldo de cultura para a retomada do nazifascismo ganha muita força, especialmente na Europa. E no Brasil!

A base social do fascismo – independente do tempo e espaço - é composta por setores da classe média e segmentos das forças militares/policiais que enxergam na crise do capitalismo - e nas lutas populares - o risco de deixarem essa posição intermediária e, pior, de jamais se tornarem classe dominante. É dessa base social que brotam movimentos de extrema direita, propagadores do irracionalismo, de um patriotismo tosco, oco e chauvinista, da violência física, mentiras e difamações contra adversários políticos, da demagogia e hipocrisia, racismo e ódio contra a esquerda, em especial contra os comunistas. A depender da repercussão na sociedade, movimentos fascistas recebem apoio político de grandes grupos empresariais interessados em evitar a qualquer custo grandes transformações sociais a favor da massa trabalhadora. Aconteceu nos anos 20 e 30 na Europa, aconteceu aqui no passado e volta a ocorrer nos nossos dias.

O que vemos no Brasil dos últimos anos não é novo nem inédito por aqui. Tivemos dois grandes surtos fascistizantes: nos anos 30, a partir da criação da Ação Integralista Brasileira (AIB), dissolvida em 1938, e no início dos anos 60. O primeiro resultou na Ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-45). O segundo originou a Ditadura Militar (1964-85). Aonde vamos parar com essa nova onda fascistizante que assola o Brasil?

Nos últimos dias nossa atenção voltou-se para as manifestações violentas da extrema direita no sul do Brasil atingindo a caravana do ex-presidente Lula. Para quem fica espantado com o grau de reacionarismo de parte da população do Sul do Brasil, é bom saber que a maior seção do Partido Nazista fora da Alemanha nos anos 30 era lá, especialmente entre Santa Catarina e Paraná junto às colônias de imigrantes alemães que começaram a ocupar a região no final do século XIX O nazismo foi particularmente forte entre famílias de pequenos e médios agricultores ciosos da sacrossanta propriedade sobre a terra. Na Alemanha e aqui.

Depois da 2° Guerra houve um forte fluxo de criminosos nazistas rumo à América do Sul e para o Sul brasileiro aonde seguiram disseminando ódio e preconceitos de todo tipo. Parte razoável dos neonazistas do Sul de hoje é neta/bisneta desse tipo de gente. A ideologia nazifascista está impregnada em alguns setores da sociedade brasileira, mesmo que não se deem conta disso. Mas muitos não apenas se dão conta como se reafirmam como neonazistas.

Segundo uma pesquisa realizada em 2013 pela antropóloga Adriana Dias, pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Santa Catarina tem cerca de quarenta e cinco mil neonazistas assumidos. Junto com Paraná e Rio Grande do Sul, são cerca de cem mil adeptos das ideias hitleristas. São Paulo tem cerca de trinta mil simpatizantes. Novamente, insisto, a grande concentração desse pensamento no Sul tem suas raízes fincadas muito forte na ação aberta dos agentes de Hitler nos anos 30 e de criminosos de guerra que trafegaram livremente no Cone-Sul, muitas vezes com apoio e proteção de governos latino-americanos. Vale a pena a leitura do livro “Nazistas entre nós – a trajetória de oficiais de Hitler depois da guerra” do historiador da USP Marcos Guterman.

Às forças democráticas e progressistas é imprescindível evitar qualquer tipo de subestimação sobre o crescimento do nazifascismo e suas manifestações cada dia mais abertas e ousadas. Evitar a subestimação e combater o bom combate da luta de ideias em todos os campos e lugares. Somar forças para vencer as batalhas políticas em curso para reposicionar o Brasil no rumo do desenvolvimento nacional, é fundamental para tirar o país da crise. Derrotar o governo golpista e seus aliados, revogar as reformas nefastas de Temer e impulsionar a industrialização para gerar crescimento econômico, emprego, renda e retomar a soberania nacional aviltada. A crise é o que alimenta o ódio, o preconceito e o neonazismo. O Brasil não merece ficar a mercê dessas forças.

Altair Freitas, do site da Fundação Maurício Grabois
No Blog do Miro
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Documentário conta a história do operário negro executado pela Brigada Militar há 30 anos

Documentário recupera relatos sobre a execução de operário pelas mãos da polícia militar, lembrando números da violência contra negros hoje
Fotos: Joana Berwanger/Sul21
Júlio César de Melo Pinto chegou em casa no início de uma noite que parecia normal em 14 de maio de 1987. O operário da Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT) era casado, morava no bairro Partenon, em Porto Alegre, ainda não tinha filhos e planejava passar em um concurso público dentro da estatal. Quando viu que não tinha pão em casa, avisou a esposa Juçara que iria até o mercado mais próximo e voltava logo. Horas depois, estava morto.

Naquela noite, quando Júlio César se aproximou do mercado, na Avenida Bento Gonçalves, perto do Hospital Psiquiátrico São Pedro a 425 passos de casa, o local estava cercado de gente. Uma cena nada comum. Pouco antes dele chegar, o supermercado havia sido assaltado. A Brigada Militar já estava tentando encontrar os suspeitos. Assim como as dezenas de pessoas ali, Júlio queria entender o que havia acontecido, quando foi acometido de uma crise de epilepsia. Assim que caiu no chão, alguém gritou: “É ele!”.

Em poucos minutos, a polícia o algemou e o colocou dentro da viatura. O momento foi registrado pelo fotógrafo do jornal Zero Hora, Ronaldo Bernardi. Na imagem, Júlio César aparece sentado no banco de trás do carro, com a camisa branca e a calça jeans manchadas de gotas de sangue, os braços para trás, olhando pela janela, consciente. Quase 40 minutos depois, quando a viatura chegou enfim ao Hospital de Pronto Socorro (HPS) ele tinha dois tiros no corpo e estava sem vida. Bernardi, que fez o mesmo trajeto em 10 minutos, sabia que tinha testemunhado uma execução.

Na imprensa, o assassinato de Júlio César passou a ser tratado como “o caso do homem errado”. Mesmo título do documentário que entra agora em circuito comercial em Porto Alegre, dirigido por Camila de Moraes. Nele, Bernardi, a viúva de Júlio César, Juçara Pinto e ativistas de direitos humanos e do movimento negro no Rio Grande do Sul recontam o episódio, lembrando que, em três décadas, o índice de morte de pessoas negras no Brasil, pelas mãos da polícia, só piorou.



“Se não fossem as fotos, o fato de ele ser inocente, jamais a história teria vindo a público. Mesmo no momento em que as fotos foram divulgadas, com a primeira narrativa de que ele era um criminoso, as pessoas não se comoveram. É revoltante porque as famílias de pessoas negras que morrem, a primeira coisa que elas têm que fazer, é provar que a pessoa é inocente. Quando vai reconhecer um filho no necrotério, a pessoa leva junto a carteira de trabalho. Isso é absurdo demais”, diz a produtora executiva do filme, Mariani Ferreira.

“É uma história que acontece toda hora, todas as famílias têm [um relato]. Júlio César era irmão de criação do meu pai e padrinho do meu irmão. Numa entrevista, me perguntaram ‘isso aconteceu em 87 e agora volta à tona, a gente esquece’. Esquece por quê? Porque a sociedade branca coloca o corpo negro como estatística, como número e esquece. Pergunta pra viúva se ela esqueceu, pergunta pra mãe do Júlio César se ela esqueceu. Não tem como esquecer uma morte. Quem vai esquecer é quem não está relacionado com o caso. Vocês, pessoas brancas, não percebem que o racismo atinge todo mundo”, afirma a diretora Camila.

O caso movimentou integrantes do movimento negro no Rio Grande do Sul e jornalistas. As pessoas andavam pelas ruas perguntando quem havia visto algo que ajudasse a esclarecer o que havia acontecido dentro da meia hora que os policiais estiveram sozinhos com a vítima. As reportagens sobre o “caso do homem errado” ficaram um ano estampando os jornais gaúchos e cobrando explicações.

A produtora Mariani Ferreira e a diretora Camila de Moraes

No fim, 14 policiais militares foram identificados como tendo participado do crime. Apenas sete deles foram condenados na Justiça Militar e expulsos da corporação. Ainda assim, responderam ao processo em liberdade. Durante a pesquisa para o filme, a equipe descobriu que a pessoa responsável por dar a ordem de execução nunca chegou ao banco dos réus. Uma fonte relatou que o caso ainda é uma vergonha para a Brigada Militar não pelo assassinato, mas pelas expulsões.

“[Os policiais] tinham um histórico de violência contra a população. Uma das nossas fontes diz que se passava um fusca (modelo das viaturas na época), ficavam morrendo de medo. Um dos policiais, que não foi julgado, tinha explodido uma granada dentro de um estabelecimento comercial. Havia históricos de abusos. Não apuramos todos os crimes que eles estavam envolvidos porque havia poucos registros, já que estavam saindo da ditadura militar. O caso mais notório de violência é com o Júlio César”, lembra Mariani.

Mesmo passados 30 anos, Camila afirma que a história ainda toca em feridas que as pessoas não estão dispostas a rever. “Isso ainda está muito vivo no Rio Grande do Sul. Foi em 1987, é a Brigada Militar que matou uma pessoa e foi comprovado que foi execução. Tem as famílias desses 14 policiais envolvidos que não querem que fale sobre isso”.

A cada dia, 66 jovens negros são assassinados no Brasil

Em 2012, das 56 mil pessoas assassinadas no Brasil, 30 mil eram jovens, com idades entre 15 e 29 anos. Em 77% dos casos, as vítimas eram negras, de acordo com dados da Anistia Internacional, que lançou a campanha Jovem Negro Vivo. O Atlas da Violência do ano passado, realizado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, aponta que a cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras.

Segundo o Mapa da Violência de 2016, a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. Uma média de 66 mortes por dia. Jovens negros, entre 12 e 29 anos, são os mais vulneráveis. Cerca de 25 mil jovens dessa faixa etária foram mortos por armas de fogo no país em 2014. O número representa um aumento de 700% comparado aos números da década de 1980, quando Júlio César foi executado.

No início do ano, a Human Rights Watch voltou a chamar atenção para como a “violência policial continua sem freios” no Brasil. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que, em 2016, 4.424 pessoas foram mortas por policiais. Um aumento de 26% em relação ao anterior. Enquanto isso, 437 policiais morreram no Brasil.

“A polícia no Brasil precisa desesperadamente da cooperação da comunidade para combater os elevados índices de criminalidade que afligem o país. Mas enquanto alguns policiais agredirem e executarem pessoas impunemente, as comunidades não confiarão na polícia”, afirmou no lançamento do relatório Maria Laura Canineu, diretora da HRW no Brasil.

Na pré-estreia do filme, no ano passado, quando o caso de Júlio César completou 30 anos, a equipe do filme organizou uma marcha pelo centro de Porto Alegre com a faixa “Vidas Negras Importam”. Segundo Camila e Mariani, poucas pessoas participaram do ato. Na avaliação das duas, quando a única pauta são as questões de direitos da população negra há pouco engajamento das pessoas brancas.

Agora, com o assassinato da vereadora Marielle Franco, do PSOL do Rio de Janeiro, negra, nascida e criada no complexo de favelas da Maré, a urgência do debate cresce ainda mais.



“É muito fácil matar pessoas negras no Brasil. Mataram o Júlio César, agora mataram a Marielle. Você muitas vezes acha ‘eu estou protegida porque fiz faculdade’, ‘porque eu não moro numa comunidade’. Na verdade, nada te protege contra o racismo. Ele te alcança em qualquer lugar”, diz Mariani.

“O objetivo desse filme também é resgatar esse caso para que as pessoas comecem a refletir. O racismo é um problema também das pessoas brancas. Enquanto elas não se levantarem, as pessoas negras vão continuar morrendo”, avalia Camila.

O documentário já participou do Festival de Gramado, do 9º Festival Internacional de Cine Latino, Uruguayo y Brasileiro, em Punta del Este e em Salvador. Na semana passada, estreou no circuito comercial de Porto Alegre, no CineBancários, onde fica em cartaz por duas semanas. Mas Camila conta que a ideia é que ele seja também exibido em universidades, para abrir debates com forças de segurança, provocando as pessoas a questionarem o sistema e pensarem em soluções para ele. Uma tentativa de trazer outros agentes para o debate.

“É uma preocupação diária que a gente tem. Enquanto não houver empatia, não tem como buscar soluções práticas. A gente busca nesse audiovisual mais uma ferramenta para esse debate e para tentar achar essas soluções, para furar essa barreira estrutural”.

Fernanda Canofre
No Sul21
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O chilique da madame paneleira no Festival de Teatro de Curitiba

Cena da peça “Manual de Autodefesa Intelectual” 
Foto: Bob Sousa
Ontem no Festival de Teatro, na abertura da peça “Manual de autodefesa intelectual”, presenciei uma cena digna da República de Curitiba.

Enquanto a atriz Fernanda Azevedo fazia um discurso em prol das minorias violentadas na nossa democracia de fantoche, uma senhora curitiboca (pela arrogância devia ser moradora do Batel Soho) gritou da plateia que não tinha pago pelo ingresso para ouvir discurso político.

Aquilo parecia ter sido arranjado pela direção da peça, de tão escrota que foi a intervenção da senhora classe média-curitiboca-batedora de panela. Não podia acreditar que alguém pudesse ser tão arrogante a ponto de interromper uma artista no palco para vomitar sua indigência intelectual.

Depois de receber uma vaia da plateia, que gritava “fora” para a dileta madame arrogante, a atriz deu uma resposta à altura de quem já antecipava a hostilidade às artes e à política que viriam da cidade modelo de fascismo.

O que a madame não esperava é que a peça era toda, adivinha, política! O tema principal da peça era a manipulação das massas pela religião, pela publicidade, pela política institucional burguesa, pela imprensa e pelas redes sociais.

A coitada da madame levou uma sova de 2 horas de peça que tratava de POLÍTICA. O discurso vazio, arrogante e violento da madame (que “pagou pelo ingresso e logo teria que receber das ARTES aquilo que ela pagou”) é sintomático: a direita brasileira se transformou numa massa de gente odiosa, que apenas grita, que não reflete e que tem aversão à crítica (bom, basta ver a coluna da Gazeta do Povo que está circulando por aí chamando as universidades públicas de “hospícios de esquerdopatas”), que acha que o mundo circula entorno de seus umbigos sujos.

Tente debater qualquer tema com a direita brasileira. Fica claro seu raquitismo de argumentos, sua pobreza até mesmo de vocabulário e sua fixação por um passado idílico de ORDEM que nunca existiu.

A peça tratou justamente disto: como a direita usa de paralogismos e pensamentos circulares para estruturar um discurso de pura falácia e justificar todo tipo de violência real e simbólica contra quem eles entendem que merece desaparecer ou perecer.

Quem nunca se deparou com as seguintes pérolas da direita: “Freixo critica a violência policial, mas pediu escolta da polícia. Logo, Freixo é um hipócrita”. “Se a opinião pública não lamenta a morte de policiais, por qual razão lamentar a morte da Marielle?” “Você critica a lava jato, logo você apoia a corrupção”. “Você critica o auxílio moradia dos juízes, logo você é invejoso”.

Não precisa estudar tratados de lógica para perceber como as conclusões da direita são de uma indigência sem par.

Não à toa a “elite” curitibana irá votar no Bolsonaro, mesmo sendo mulher e LGBT. Ontem tive a exata dimensão do que a ignorância é capaz: fez uma madame do Batel Soho sair de casa para assistir a uma peça sobre manipulação de massas e atacar a atriz que justamente mostrava pela linguagem artística como a manipulação gera o ódio às minorias.

A decadência da República de Curitiba ali, ao vivo e em cores.

José Carlos Portella Jr
No DCM
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E a “pressão” dos juízes e do MP, Dra. Cármen, a senhora aceita?


Mil promotores e juízes fazem um “abaixo assinado”, piedosamente batizado de “Nota Técnica” para exigir do Supremo Tribunal Federal que autorize Sérgio Moro a  prender Lula imediatamente.

Chegam a admitir no texto, que a prova é um aspecto secundário, bem abaixo da convicção, neste trecho, onde grifo:

A interpretação do princípio da presunção de inocência deve-se operar em harmonia com os demais dispositivos constitucionais, em especial, os que se relacionam à justiça repressiva. O caráter relativo do princípio da presunção de inocência remete ao campo da prova e à sua capacidade de afastar a permanência da presunção. Há, assim, distinção entre a relativização da presunção de inocência, sem prova, que é inconstitucional, e, com prova, constitucional, baseada em dedução de fatos suportados ainda que por mínima atividade probatória.
Disso decorre que não é necessária a reunião de uma determinada quantidade de provas para mitigar os efeitos da presunção de inocência frente aos bens jurídicos superiores da sociedade, a fim de persuadir o julgador acerca de decreto de medidas cautelares, por exemplo; bastando, nesse caso, somente indícios, pois o direito à presunção de inocência não permite calibrar a maior ou menor abundância das provas.

É de causar arrepios a quem pensa na Justiça como ferramenta da aplicação do direito e no velho – e ao que parece, aposentado – conceito de prova, agora substituído por qualquer “dedução de fatos” e pelo “em dúvida” não mais pro reu, mas pelo que achem que seja “pro societas“, em seu exclusivo conceito.

Aliás, “flexibilização de princípios” é argumento que, pela sua contradição, só pode ser próprio de canalhas, porque é o mesmo que não ter princípios.

Numa descarada usurpação de funções, não apenas violam a Lei Orgânica da Magistratura – que proíbe a juízes de se manifestarem  “por qualquer meio de comunicação, opinião sobre processo pendente de julgamento, seu ou de outrem” – como atuam como advogados:

…os membros do Ministério Público e do Poder Judiciário abaixo assinados manifestam-se pela constitucionalidade de prisão após a condenação em 2ª instância.

Como cidadãos, têm todo o direito de expressar opinião. Mas quando se qualificam e se agrupam como “membros do Ministério Público e do Poder Judiciário”, não podem.

A não ser como foras da lei, algo que parece já não vir ao caso, diante de seus ódios políticos.

Sabem que essa “pressão” a Ministra Cármen Lucia aceita.  O Supremo, talvez não.

Fernando Brito
No Tijolaço
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MBL acusa Alckmin de também cometer fraude no Facebook usando aplicativo irregular

Publicação do MBL postada com o Voxer
Em seu Facebook, Pablo Ortellado, professor da USP e gerente do Monitor do debate político no meio digital, chamou atenção para uma acusação que o MBL fez a Geraldo Alckmin:

Está todo mundo curtindo o feriado, mas o jogo está sendo jogado a todo vapor. O MBL foi acusado pelo Globo de violar as políticas do Facebook, ao utilizar um aplicativo por meio do qual fazia postagens automáticas nos perfis de usuários.

Agora, com a possibilidade de ver sua página do Facebook derrubada (como já aconteceu com uma página irmã, do Ceticismo Político), o MBL dá um xeque, mostrando que Alckmin também usou do expediente irregular. O movimento quer evidenciar assim que se quiser ser coerente, o Facebook terá que cancelar não apenas a página do MBL, como também a do Alckmin. Os desdobramentos políticos dessa crise começam a ficar grandes demais.

Segundo o Globo, o grupo de Kim Kataguiri passou a publicar conteúdo em massa, por conta própria, usando o perfil de seus seguidores com um aplicativo chamado “Voxer”.

O Facebook acabou desativando o recurso, que feria suas regras.

Pilhado cometendo fraude, o MBL resolveu arrastar para a lama o governador Geraldo Alckmin.

Na página da Voxer os serviços ilícitos são anunciados abertamente

Um site da milícia chamado Boletim da Liberdade deu a seguinte “matéria”:

O jornal O Globo voltou a dedicar uma matéria depreciativa ao Movimento Brasil Livre nesta sexta-feira (30). Com o título de que o “MBL usa aplicativo irregular na rede”, a reportagem associa a organização a um modelo de aplicativo que, embora o texto não cite, também é usado por outros movimentos e políticos, entre eles apoiadores do governador Geraldo Alckmin, pré-candidato à presidência da república pelo PSDB.

Segundo a matéria, o MBL “encontrou uma forma de enfrentar a restrição recente imposta pelo Facebook” utilizando um aplicativo denominado “Voxer”. O App permitiria com que usuários, por livre e espontânea vontade, se cadastrassem e permitissem que fossem feitas publicações em seus perfis de forma automatizada compartilhando conteúdo de páginas acertadas previamente.

A matéria, no entanto, dá a entender que apenas o MBL tem utilizado esse artifício. Outras organizações e personalidades políticas também fazem uso de aplicativos similares, como no caso do “Talkative”. A empresa promete “ampliar a voz na internet” e “criar boca-a-boca para melhorar resultados”. 

Para cada usuário que aceita ceder seu perfil para fazer publicações automatizadas, a empresa cobra R$ 1,00. Dentre os usuários, estão apoiadores de Geraldo Alckmin. Em um mesmo dia, um deles fez mais de dez publicações com menção ao governador. Na identificação técnica, fica marcada que a publicação foi feita pelo aplicativo “Talkative”.


ATUALIZAÇÃO:

O DCM publica nota de Daniel Sampaio, Gerente de Projetos da Benjamim Digital, empresa responsável pela comunicação digital de Alckmin:

Gostaríamos de solicitar uma correção na sua matéria que cita o aplicativo Talckmin, que é um skin do aplicativo Talkative. Diferentemente do que está publicado, o aplicativo NÃO faz postagens automáticas no perfil de quem se cadastra.

O usuário recebe notificações de ações disponíveis e escolhe se quer ou não realizar. Abaixo, os esclarecimentos dos desenvolvedores do aplicativo. 

A proposta do Talkative é clara: criar proximidade entre os participantes da comunidade, ajudando-a a ter fácil acesso a informações importantes para ela. Todo membro recebe conteúdo em uma linha do tempo que funciona como a evolução do RSS, e lá pode consumir esse conteúdo de forma fácil e simples. Outras funcionalidades permitem que os membros recebam sugestões de atividades diversas em ambientes digitais, como responder pesquisas, assistir vídeos, ler textos, visitar sites ou até mesmo ampliar o alcance de algum conteúdo do qual tenha gostado nas redes sociais. Nenhum desses processos é automático ou acontece à revelia dos usuários; as participações são sugeridas, o conteúdo pode ser consultado antes da realização de qualquer ação, além de contar com uma descrição clara daquilo que pode ser compartilhado, comentado, lido ou assistido. Todas as interações são realizadas de acordo com as normas de cada rede social, usando as APIs oficiais, e o próprio Talkative, em seus termos de uso. Reforçamos que o mau uso da plataforma pode resultar na suspensão ou no banimento de uma comunidade.

Os participantes das comunidades realizam apenas as ações com as quais concordam, nas redes que acham que devem, quando preferirem. Caso não concordem com determinada sugestão de ação podem facilmente ignorá-la, garantindo assim o funcionamento propositivo do ambiente. O processo funciona buscando melhorar o nível do diálogo nas redes sociais, combater fake news, ampliar o share-of-voice de pautas positivas, gerar maior proximidade e colaboração entre cada um dos usuários – que conhecem a finalidade da plataforma e tem como objetivo a participação propositiva.

Um ambiente saudável, que busca justamente estabelecer um novo padrão de apoio a propostas e causas, evitando a criação de bolhas – nocivas para a democracia e geradoras de polarização – e incentivando o debate de melhor nível.

Abaixo um trecho dos termos de uso:

4. Segurança

Fazemos todo o possível para manter o Talkative seguro, mas não podemos garantir isso. Precisamos da sua ajuda para manter o Talkative seguro, o que inclui os seguintes compromissos de sua parte:

a) você não publicará comunicações comerciais não autorizadas (como spam) no Talkative.

b) você não coletará conteúdos ou informações de usuários, ou acessará o Talkative, usando meios automatizados (como bots de coleta, robôs, spiders ou scrapers) sem nossa permissão prévia.

c) você não fará parte de marketing multinível ilegal, como um esquema de pirâmide, no Talkative.

d) você não carregará vírus ou outros códigos mal-intencionados.

e) você não solicitará informações de login, nem acessará uma conta que pertença a outra pessoa.

f) você não irá intimidar, assediar ou praticar bullying contra qualquer usuário.

g) você não publicará, nem irá retransmitir conteúdos que contenham discurso de ódio, sejam ameaçadores ou pornográficos; incitem violência; ou contenham nudez ou violência gratuita ou gráfica.

h) você não irá desenvolver nem operar um aplicativo de terceiros com conteúdos relacionados a álcool, encontros ou outro conteúdo adulto (incluindo anúncios) sem as restrições apropriadas com base em idade.

i) você não usará o Talkative para praticar qualquer ato ilegal, equivocado, malicioso ou discriminatório.

j) você não fará nada que possa desabilitar, sobrecarregar ou impedir o funcionamento ou a aparência adequados do Talkative, como um ataque de negação de serviço ou interferência no processamento da página ou de outra funcionalidade do Talkative.

l) você não facilitará nem incentivará a violação desta Declaração ou de nossas políticas.

Kiko Nogueira
No DCM
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