17 de mar de 2018

Depois de titubear, Globo abraça Marielle. Por quê? Amadeu, Fernando Morais e Leandro Fortes explicam


A infame disputa de narrativas


A Globo e a revista Veja começaram a disputar a narrativa sobre a execução da militante negra e vereadora do PSOL, Marielle Rocha.

As direções desses órgãos promovem a descontextualização dos fatos, desvirtuam a história e agridem a memória e a luta de Marielle.

Tentam retirar o conteúdo político, anti-racista, feminista, em defesa dos direitos humanos, querem anular sua militância de esquerda.

Ela era do PSOL.

Foi assessora do Freixo que anda com seguranças para evitar um ataque das forças paramilitares.

A Veja vai mais longe e destaca a frase de Temer na capa.

Temer falando de atentado à democracia (sic).

Já a Globo faz de tudo para mostrar que a execução foi para desmoralizar a ação militar no Rio.

Cinismo sem fim. Um insulto de quem é capaz de tudo.



A cobertura destinada pelo Jornal Nacional ao assassinato da vereadora Marielle Franco é uma escancarada tentativa de compra de indulgências pela moribunda Rede Globo.

Agora é tarde.

A família Marinho e as Organizações Globo são inimigas do Brasil e dos brasileiros e assim serão tratadas.


2013 DE NOVO


A Globo e seus acólitos iniciaram um movimento explícito — e escandaloso — para capturar a morte de Marielle Franco, de forma a controlar a narrativa do fato, da mesma forma que fez, com total sucesso, com as chamadas “jornadas” de 2013.

A capa de O Globo com “Marielle presente” não é uma homenagem, é um escárnio.

O Grupo Globo jamais se preocupou com as bandeiras de Marielle, nem muito menos com os grupos sociais que ela defendeu até morrer.

Marielle nunca teve voz nem presença nessa mídia simbolizada pela Globo, muito pelo contrário: a Globo e seus mervais, kamels e jabores sempre estiveram do lado oposto do discurso e da vida de Marielle.

O que se pretende é capitalizar a comoção popular, com repercussões internacionais, de modo a controlar as reações políticas internas e evitar a construção de um argumento sólido contra a intervenção federal, no Rio, e, por extensão, o golpe.

A edição do Jornal Nacional (que não vejo, por determinação médica), festejada por muita gente boa nas redes, é a revelação em si desse movimento.

Ou alguém acredita mesmo que o JN está em lágrimas por conta de uma militante negra, favelada e socialista, em plena ditadura fardada nas comunidades cariocas?

O povo não é bobo.

E a Globo, menos ainda.

PS do ViomundoAlém de tudo, a Globo trata de rachar a esquerda. Ela quer prender Lula de qualquer maneira, como objetivo central do golpe que ajudou a promover: impedir que alguém de esquerda ganhe as eleições em 2018, com uma proposta que coloque em xeque a receita neoliberal. Mas, ao se mostrar simpática — agora — a Marielle, ainda que como ícone despolitizado, ela tenta ganhar créditos na esquerda não petista para prender Lula. Diferentemente do bordão, a Globo acha mesmo que o povo é bobo.
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Lava Jato, do combate à corrupção para a farsa e a perseguição contra o PT e Lula

A Operação Lava Jato iniciou-se no dia 17 de março de 2014. De lá pra cá, já são quatro anos em que Dallagnol, Moro e companhia vasculham a vida do ex-presidente Lula sem obter qualquer prova contra ele.

Em suas fases iniciais, a Lava Jato prendeu, em março daquele ano, o doleiro Alberto Youseff (delator de estimação do juiz Sérgio Moro) e Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras. Em setembro de 2014, Paulo Roberto Costa entrega à Justiça o nome de vários políticos ligados ao PMDB que recebiam propina, entre eles Romero Jucá e Henrique Eduardo Alves.

Ao bater em figurões do partido de Michel Temer e apurar que os diretores investigados na Lava Jato haviam assumido postos de relevância na Petrobras durante o governo Fernando Henrique (1995-2002) e que tais investigações poderiam atingir integrantes do PSDB, a Lava Jato, da noite para o dia, tomou outro rumo.

O que poderia ter sido um efetivo avanço no combate à corrupção no país se tornou em um instrumento de perseguição política ao Partido dos Trabalhadores, à presidenta Dilma Rousseff e ao ex-presidente Lula. Cooptada pela Rede Globo, a Operação Lava Jato passou a ser conduzida cinematograficamente por roteiristas saídos de dentro do Projac.

Inicialmente, foi feito um corte: só poderiam ser investigados os atos na Petrobras durante os governos Lula e Dilma; as irregularidades do governo tucano e FHC tinham que ser esquecidas. A senha para que ex-diretores e empreiteiros, que roubaram durante décadas na Petrobras, saíssem da prisão, agora, era “Lula”. Bastava mencionar Lula para deixar a prisão para trás e ir para casa desfrutar dos milhões roubados ao longo dos anos.

Moro e Dallagnol, com uma estranhíssima ligação com os Estados Unidos e obcecados pelos holofotes da TV Globo, abandonaram (se é que algum dia tiveram) qualquer imparcialidade, qualquer conduta ética do servidor público, para atuarem de forma seletiva, parcial e à margem das leis e da Constituição.

A partir daí, todos conhecem o script: muitas convicções e nenhuma prova; perseguições; powerpoint; jogo midiático e delações dirigidas para prejudicar o ex-presidente Lula, como recentemente denunciou um ex-executivo da Odebtechet ao afirmar que foi chamado pelos procuradores para “rechear história” contra Lula.

No livro “O processo Penal do Espetáculo“,o juiz de direito do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro Rubens R. R. Casara fala do papel do Poder Judiciário dentro de uma nova configuração de Estado, na contenção dos “indesejáveis”, a partir de uma lógica de um projeto neoliberal.

“O enredo do “julgamento penal” é uma falsificação da realidade, uma representação social distante da complexidade do fato posto à apreciação do Poder Judiciário. Em apertada síntese, o fato é descontextualizado, redefinido, adquire tons sensacionalistas e passa a ser apresentado, em uma perspectiva maniqueísta, como uma luta entre o bem e o mal, entre os mocinhos e os bandidos. O caso penal passa a ser tratado como uma mercadoria que deve ser atrativa para ser consumida. A consequência mais gritante desse fenômeno passa a ser a vulnerabilidade a que fica sujeito o vilão escolhido para o espetáculo. Para seguir o programa e atender ao enredo, construído e dirigido a partir do “desejo de audiência”, a lei pode ser afastada. O espetáculo aposta na exceção. O enredo que pauta o processo e é consumido pela sociedade, com o auxílio dos meios de comunicação de massa”.

Lula foi condenado por uma mentira publicada no jornal “O Globo”, referente ao tríplex do Guarujá.

Uma tese à margem da lei foi criada para que esse processo saísse do Ministério Público de São Paulo e fosse parar na Lava Jato.

Moro desconsiderou 73 testemunhas que inocentaram Lula.

Todos os envolvidos no processo do tríplex foram absolvidos; menos Lula, cujo processo foi arrastado a Curitiba por Moro.

Aos questionamentos da defesa de Lula, Moro alegava repetidamente que não eram necessárias provas.

Agora, depois de toda perseguição e ilegalidades, depois de um prejuízo de R$ 160 bilhões à Petrobras e ao país desde o início da Lava Jato, Moro anuncia que está de malas prontas para os Estados Unidos, como se tentasse apagar suas digitais na “cena do crime”.

O fim desse roteiro seria perfeito, mas todos os envolvidos nessa trama farsesca contra o ex-presidente Lula não contavam apenas com uma coisa: que depois de todo esse massacre, Lula continuaria na preferência do eleitor brasileiro.

O ex-presidente vence em todas as pesquisas realizadas no Brasil contra qualquer candidato. Aliás, na última pesquisa, Lula lidera com mais de o dobro em relação ao segundo lugar e os votos brancos e nulos.

Lula continua imbatível por tudo que fez e por tudo que representa para o povo brasileiro. A farsa da Lava Jato contra Lula não foi engolida pelo povo brasileiro.

Paulo Pimenta, Deputado federal (PT-RS) e líder do partido na Câmara dos Deputados
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Delegado que investiga corrupção do PSDB é alvo de campanha difamatória em Minas

Jornal ataca delegado
Ao mesmo tempo em que, no Rio de Janeiro, as forças conservadoras se movimentam para difamar a vereadora Marielle Franco, executada com quatro tiros, juntamente com seu motorista, em Minas Gerais uma onda difamatória atinge o delegado de polícia Rodrigo Bossi de Pinho, que investiga o esquema de corrupção e de fraude processual que beneficiou o grupo político do senador Aécio Neves.

Hoje, a campanha de difamação chegou às páginas do principal jornal de Minas, o Estado, chamado lá também de Estadão, publicação dos Diários Associados. O jornal destacou em manchete “Delegado na mira de associações” e, sem lhe dar direito de resposta, publicou uma fotografia em que aparece ao lado de Nílton Monteiro, delator do Mensalão de Minas e da Lista de Furnas.

A esposa do delegado divulgou nota em defesa do marido:

Hoje o assunto é sério! Não gosto de expor minha vida pessoal, nem de me misturar com o trabalho do meu marido, mas diante do artigo publicado hoje no Estado de Minas, não posso me calar. Depois da morte chocante em que tentaram calar a Marielle Franco, hoje a bala foi disparada para calar meu marido, Rodrigo Bossi de Pinho, delegado chefe do Departamento de Fraudes da Polícia Civil de MG. Investigando fraudes cometidas nos processos que invalidaram a famosa “Lista de Furnas”, Rodrigo vem sendo perseguido por muitos, inclusive por membros e representantes da própria Polícia Civil, que direta ou indiretamente poderão ser afetados pelas suas investigações. Em casa, já estamos acostumados com boatos e informações inverídicas que correm nos bastidores da Polícia. Entretanto, o que me choca ainda mais, é ver o jornal Estado de Minas, se prestar a este tipo de perseguição baixa, sem fundamento, ouvindo um delegado que presidiu o inquérito no passado e que, provavelmente, está se sentindo ameaçado. E a reportagem vem bem no momento em que Marcos Valério assina a sua delação com o Dep. de Fraudes, garantindo ter provas que comprovam fatos da investigação. É chocante como parte da nossa imprensa ainda se presta ao papel infame de garantir o poder dos poderosos a qualquer custo e de desprezar a sua função primordial de informar a população. A foto foi tirada por um policial da Fraudes, que ao ser flagrado pelo próprio Rodrigo foi questionado, em tom de brincadeira, se ele iria vender a foto ao Márcio Nabak. E provavelmente foi o que aconteceu …. mas Rodrigo não se importou em requisitar a foto, pois não tem relação pessoal nenhuma com o delatante da foto e nada tem a esconder. Mas a grande ironia da reportagem ficou para a sua última linha … em que menciona que o delegado Rodrigo não se pronunciou …  A VERDADE É que ele nunca foi procurado pelo Estado de Minas para se defender. Se o Estado de Minas fosse um jornal sério, teria trocado esta última informação por INFORME PUBLICITÁRIO.

Amigos, não nos calemos por medo e se querem um país melhor, COMPARTILHEM!!!

O delegado Rodrigo e a esposa

Rodrigo Bossi é chefe do Departamento de Investigação sobre Fraudes e abriu inquérito depois que começou a apurar a denúncia da prisão do dono do site Novo Jornal, Marco Aurélio Carone, em 2014, que ele considera ter sido um preso político.

“Conseguiram calá-lo durante a campanha de 2014, colocando-o na cadeia por 9 meses, pela atuação fraudulenta de um delegado de polícia corrupto, a mando de Aécio, Andrea Neves e Danilo de Castro”, disse Rodrigo a amigos na manhã deste sábado, conforme registro num grupo privado de rede social a que eu tive acesso.

O jornal de Carone era o único de Minas Gerais que divulgava notícias sobre corrupção e desmandos no governo de Aécio Neves/Antônio Anastasia.

Segundo o delegado Rodrigo Bossi, a investigação é que levou a Nílton Monteiro e Marcos Valério, quando foram revelados esquemas dos quais os dois tinham conhecimento.

Na época da prisão de Carone e de Monteiro, reportagens publicadas por veículos locais, e também outros de alcance nacional, como a revista Veja, desqualificaram as denúncias contra Aécio e o PSDB.

O Estado de Minas foi um dos jornais que publicavam essas versões  — a maior parte tinha como fonte o delegado Márcio Nabak, policial de confiança do grupo de Aécio Neves.

As reportagens davam conta de que as listas com os nomes de autoridades que receberam propina eram falsas.

Essas versões ruíram depois que a perícia da Polícia Federal considerou autêntica pelo menos uma dessas listas, a de Furnas.

Mas, quando a perícia veio à tona, a campanha difamatória já tinha ganhado espaço e Nílton se encontrava preso, acusado de ser o maior estelionatário do Brasil.

Carone também foi para a cadeia, sob a acusação de que noticiava as supostas fraudes com o objetivo de extorquir dinheiro das autoridades.

Nunca houve prova de tentativa de extorsão, mas, com Aécio candidato a presidente e com chances de vencer, a prisão de ambos foi mantida.

Os dois só saíram da cadeia depois da campanha eleitoral.

“Eu não investigo delegado de Polícia. Eu investigo o maior esquema de fraude processual do Brasil, que envolve políticos, empresários, membros do Judiciário e do MP, peritos, servidores e delegados”, relatou o delegado, no grupo de WhatsApp.

“As provas contra esse determinado delegado foram entregues na Corregedoria já faz algum tempo. Trata-se do original de um inquérito policial desaparecido (como tantos outros inquéritos e processos) há quatro anos, encontrado no escritório de um pseudo-advogado (sim, entrou pra faculdade com diploma falso) conluiado com esse delegado. Não sei se a nossa Egrégia Casa Corregedora fará alguma coisa a respeito”, afirmou.

Por fim, ele desabafou: “Eu dou um conselho a quem tiver ouvidos: NÃO CUTUQUEM A ONÇA!”

A investigação que nasceu com a apuração da prisão de Carone já está bastante avançada, com 14 horas de depoimento de Marcos Valério e a investigação de outras listas, todas ligadas ao grupo político do PSDB, que mandou no Estado entre 1995 e 1999 e depois, entre 2003 e 2015.

Ainda há tentáculos desse poder em instituições do Estado e em sindicatos de policiais. No mês passado, as entidades sindicais ameaçaram entrar na Justiça contra um aumento de salário da categoria — seria o primeiro caso da história do sindicalismo em que uma entidade atuaria contra o interesse de seus representados.

Tudo porque se tentava vincular o reajuste e as promoções ao trabalho do delegado — o argumento é que a investigação que detona o PSDB teria agradado ao governo de Fernando Pimentel, que é do PT.

Rodrigo foi ao sindicato, fez a defesa das promoções, e a entidade recuou.

Agora os delegados mais antigos, citados na investigação, voltaram a atacar, desta vez pelas páginas de O Estado de Minas.

Márcio Nabak, delegado investigado, e Rodrigo Bossi, delegado investigador

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Líderes da direita respondem ao assassinato de Marielle Franco com abusos, politicagem e silêncio


O Rio de Janeiro está em luto oficial. Manifestações estão sendo organizadas em cada canto do Brasil. Mas a blogosfera da direita está sambando.

Eu não ia ler. Podia imaginar quão cruel e insensível os pitbulls da direita poderiam ser sobre o assassinato brutal da vereadora Marielle Franco, mas queria acreditar que poderia ser um momento em que todo mundo esquece dos seus lados e lamenta juntos um ato de barbárie. Houve exceções, mas, em geral, não foi o caso.

Segue abaixo uma catarata dos piores exemplos de humanidade hoje, selecionados só entre pessoas e páginas com uma voz poderosa e com muitos seguidores. Não recomendo para quem tem hipertensão. (Obs.: Não vou linkar nenhum deles aqui porque não sou obrigado. Se tiver curiosidade, pode procurar nas redes.)

O Alexandre Borges usou o momento para chamar a resposta efusiva em apoio a Marielle de “Orwellian”:

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Foto: Reprodução/Facebook

O Antagonista afirmou que a morte dela precisa ser apurada “para dissipar qualquer dúvida em relação à missão militar” de intervenção no Rio:

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Foto: Captura de tela

Também aproveitou a oportunidade para comentar o impacto negativo que o assassinato poderia ter na possível candidatura de uma figura conservadora, Bernardo Rocha de Rezende, o Bernardinho:

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Foto: Captura de tela

A página “Eu Sou Direita” escreveu um textão descolado atacando as políticas de segurança pública do PSOL. Conseguiu usar as palavras “estupradas”, “pedófilo” e “Batman”. Apesar de ter muita especulação que o assassinato pode ter sido ordenado por PMs ou milicianos, a página declarou que o assassinato foi “mais uma morte ridícula na conta da esquerda que vive passando a mão na cabeça de vagabundo!!!”. Ou seja: culpou Marielle pela própria morte:

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Foto: Reprodução/Facebook

O MBL, que nunca perde uma oportunidade como essa, acrescentou sua contribuição ao debate:

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Foto: Reprodução/Facebook

A página “Caneta Desesquerdizadora”, com mais de 588 mil seguidores, atacou Lula para mandar seus sentimentos, chamando ele de “safado” e “pilantra” e relembrando sua esposa falecida e supostas crimes do PT (e postou um pedido de doações no pé):

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Foto: Reprodução/Facebook

A página e site “Ceticismo Político” publicou um post com o título “PT e PSOL desrespeitam o cadáver de Marielle ao utilizá-la para fins políticos e torpes”. O cerne da crítica é que aliados estão especulando sobre os possíveis motivos que poderiam ter provocado o atentado:

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Foto: Captura de tela

O vereador Fernando Holiday quase conseguiu ser um ser humano minimamente decente ao postar uma “nota de pesar”, mas no pé ele não decepcionou e atacou o PSOL pelo “uso político dessa tragédia”:

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Foto: Reprodução/Facebook

Porém, duas horas antes, ele tinha atacado o PSOL por ser contra a intervenção militar no Rio de Janeiro, afirmando que o partido “apoia a ditadura socialista militar na Venezuela”:

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Foto: Reprodução/Facebook

O Ceticismo Político concordou:

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Foto: Reprodução/Facebook

E tem isso da Alerta Leblon também:

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Foto: Reprodução/Facebook

Enquanto isso, o prefeito do Rio de Janeiro começou seu dia como se fosse qualquer outro, e visitou a Pedra de Guaratiba para falar sobre reformas nas escolas (postou uma nota de pesar ontem à noite):

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Foto: Reprodução/Facebook

As páginas de Facebook e Twitter de Jair, Flavio, Carlos e Eduardo Bolsonaro não têm nenhuma menção da morte de Marielle.

Eu não acredito que você não possa falar mal de figuras públicas falecidas. Não precisa e não deve ignorar os crimes de assassinos em massa e pessoas que diretamente provocaram muito sofrimento. Mas deve ser baseado em fatos e com um mínimo de decência humana. Os posts acima me impressionaram como particularmente grosseiros e, muitas vezes, incoerentes.

Nunca imaginei que diria isso, mas todos eles poderiam aprender uma coisa com o PSDB:

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Foto: Reprodução/Facebook

Andrew Fishman
No The Intercept



Marielle e o ódio fascista na internet

Ilustração: Titi Carnelós
O assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) causou uma comoção nacional. Milhares de manifestantes saíram às ruas em várias cidades nesta quinta-feira (15) para exigir justiça e o fim da onda de ódio e preconceito que cresceu no país desde a cruzada golpista contra a nossa democracia. Até a TV Globo, que sempre inviabilizou a luta das forças democráticas por direitos humanos, foi forçada a recuar, tentando capturar o sentimento de revolta da sociedade. Mas nas redes sociais, os fascistas voltaram a sair do esgoto para destilar seu veneno. Alimentados por alguns “calunistas” da mídia tradicional e por grupelhos da extrema-direita, eles culparam a própria vítima pela barbaridade cometida.

Os comentários no site Antagonista, editado por “celebridades” da velha imprensa – como Diogo Mainardi, da TV Globo, e Mário Sabino, ex-chefão da Veja –, mostram que tipo de gente foi chocada nesta cloaca. Um internauta doente rosnou: “Ela não queria uma polícia e a guarda metropolitana desarmados? Colheu o que plantou”. Outro mais psicopata atirou: “Parece que a vereadora nutria uma simpatia pelos manos, já que nunca se viu ela lamentar pelos policiais mortos covardemente pelos traficantes... Quem semeia ventos, colhe tempestade”. Já outro maluco afirmou que a culpa pelo assassinato é do “bando de vagabundos comunistas que destruíram o país e provocaram o genocídio de 1 milhão de brasileiros”. Um quarto babou: “Menos uma petralha no mundo”.

Como estas excrecências – bastam estas para não causar vômito –, são várias as mensagens festejando a morte de Marielle Franco, atacando os que lutam por direitos humanos e demonizando as forças de esquerda. O site Antagonista, assim como outras páginas de extrema-direita, preferiram adotar a cautela nas suas postagens. Mesmo assim, não esconderam seu ódio visceral às esquerdas e seu apoio – sabe-se lá a que preço – à intervenção decretada pelo covil golpista no Rio de Janeiro. “Ninguém sabe quem executou a vereadora. É essencial, porém, que seus assassinos sejam encontrados e punidos para dissipar qualquer dúvida em relação à missão militar”, opinaram os militaristas e golpistas da página.

Já o site do sinistro Movimento Brasil Livre (MBL) tentou minimizar o assassinato da vereadora. “Sim, todos os homicídios no Brasil são políticos. Todos os mais de 60 mil”. Para o grupelho fascista, estes assassinatos decorrem da “desvalorização das polícias, da glamourização de bandidos, da lei penal branda, da justiça que manda soltar, do desarmamento do povo”. O vereador do MBL na capital paulista, Fernando Holiday, até postou uma “nota de pesar”, mas logo desferiu seus ataques doentios ao PSOL “pelo uso político dessa tragédia”. Os caras são doentes! Ou para ser mais preciso: são cúmplices dos assassinos de Marielle Franco!

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Xadrez e o fator detonador com Marielle

Peça 1 – como semear ódio e colher assassinato

Seja quem forem os responsáveis diretos pelo assassinato de Marielle, entra-se em novo patamar da dissolução do Estado brasileiro.

Etapa 1 – plantando o ódio

Os anos sucessivos, começando antes do “mensalão”, das matérias diuturnas plantando e irrigando o ódio irracional contra o governo Lula, com factoides sobre venezuelização, cubanização, tapiocas e outros recursos conhecidos, o que passou a ser chamado, agora, de fakenews.

Alimentamos o antipetismo, Lula perde as eleições e tudo volta ao normal.

Etapa 2 – o “mensalão”

A entrada no jogo da Procuradoria Geral da República (PGR) e do Supremo Tribunal Federal (STF) como agentes políticos, montando a tese da “organização criminosa” em cima de uma fraude: o suposto desvio de recursos da Visanet, que jamais ocorreu.

Como alertamos na época, tinha-se, descoberto, ali, a fórmula da desestabilização política do PT. Dilma e o PT descobriram essa novidade, alguns meses após o impeachment. O pacto democrático da Constituição de 1988 começa a ruir. O desfecho é adiado pelo desempenho imprevisto de Lula na crise econômica global de 2008.

Etapa 3 – a Lava Jato

O aparato repressivo retoma o protagonismo, alimentado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, e todos os pecados são perdoados, desde que contra o inimigo correto. Nessa etapa, todos os princípios civilizatórios, de direitos individuais, de respeito aos ritos processuais, tudo vai por água abaixo, mas ainda contra alvos definidos. Sem problema. Como declarou o Ministro Luís Roberto Barroso, há a necessidade de medidas de exceção para situações de exceção.

Mas depois que Lula e o PT forem anulados, tudo volta ao normal.

Etapa 4 – o impeachment e o pós

O clima de ódio é potencializado e há um liberou geral no Judiciário, Ministério Público Federal e Polícia Federal. Inaugura-se um vale-tudo em que todos os abusos são permitidos e todos os oposicionistas se sentem ameaçados. Qualquer promotor, delegado ou juiz de 1ª instância se vê com autoridade para ordenar conduções coercitivas, prisões temporárias.

Os piores sentimentos vêm à tona, as demonstrações mais estapafúrdias de ignorância boiam que nem dejetos no esgoto. E ainda não se está falando em Bolsonaro e companhia, mas na promotora de Campinas que se declarou “indignada” com um seminário sobre maconha e denunciou o cientista consagrado. Simples assim: sentiu-se indignada e do alto da sua ignorância, fez valer sua autoridade. Ou a juíza e a delegada que levaram o reitor ao suicídio. Ou os bravos desembargadores do TRF4, aparentados com os sobrinhos do Pato Donald, aqueles que tinham tanta afinidade que um completava a fala do outro. A mídia não poderia condenar os abusos, até escondeu o episódio chocante do suicídio do reitor, porque poderia enfraquecer a maratona pela condenação de Lua.

Mas depois que Lula for condenado, tudo volta ao normal.

Etapa 5 – o assassinato de Marielle

E aqui se ingressa em um fator detonador, independentemente de quem seja os responsáveis diretos, se as milícias da PM ou milícias de ultra-direita. Por fator detonador se considere os tiros com que Gravilo Princip executou o arquiduque Francisco Fernando, levando à Primeira Guerra;  a morte de Walther Rathenau, que desmontou a Republica de Weimar; a morte de João Pessoa que detonou a Revolução de 30 e a do Major Rubem Vaz, que levou ao suicídio de Vargas. Ou, ainda, a morte do estudante Edson Luis que expôs a violência que já vinha sendo praticada pela ditadura e inaugurou a nova etapa da repressão..

Peça 2 – o processo de desmanche

Quando se disseminou a repressão, no período do impeachment, gênios jornalísticos minimizavam: é muito diferente da ditadura, que matava e torturava pessoas. Era óbvio que aquele momento representava, como num filme, o período 1964-1968, que precedeu o AI-5. Não se preocuparam com os alertas que mostravam a lógica que sucedia períodos de tolerância com o arbítrio e o ódio. A Noite de São Bartolomeu passou a ser praticada em etapas.

Em 1963 nasceu o Comando de Caça aos Comunistas (CCC), no bojo da campanha de ódio alimentada pela mídia. Depois de 1968, eles se limitavam a quebrar teatros e espancar artistas e estudantes. Nos porões, torturavam-se e matavam-se pessoas. E militares planejavam atentados de grandes extensões. Todos esses processos nasceram da mesma árvore do ódio plantado.

Tempos atrás fui a uma pacata cidade do interior. Lá, em conversas familiares, um jovem casal, de família temente a Deus, sem histórico de violência,  falava da sua vontade de ver Lula morto. A campanha sistemática de ódio, a irracionalidade plantada em suas cabeças, faziam-nos, pessoas incapazes de fazer mal a um bicho, entender como natural – e necessária – a morte de uma pessoa! A mídia conseguiu naturalizar o ódio no Brasil.

Hoje em dia, é um sentimento generalizado, que se espalha por todas as regiões do país e que, até agora, tinha em Bolsonaro e sua tropa sua mais grotesca expressão. Com a execução de Marielle entra-se em uma nova etapa na qual a doença social plantada pela mídia poderá resultar em loucuras maiores do que discursos de ódio nas redes sociais, tempos de terremotos e furacões, que podem preceder a entrega do poder a Bolsonaro e sua “bancada da metralhadora”. Ele, aliás, evitou comentar a tragédia de Marielle, para não expor o que pensa.

E quem vai segurar essa onda? A indignação retardatária da velha mídia? Certamente não a PGR Raquel Dodge, uma burocrata "apparatchik", subproduto da corporação, sem qualquer brilho ou luz própria, só frases obvias, ultra burocráticas "mandei instalar um procedimento em meu gabinete”.

Personalidades opacas e sem qualquer brilho no STF, na PGR, no Senado, uma organização barra-pesada no Executivo. E completa-se o mapa com os últimos dados econômicos, a queda geral do nível de atividade do setor de serviços em relação a qualquer período do ano passado, desmontando definitivamente a fábula da recuperação irresponsavelmente vendida por Henrique Meirelles e endossada pela Globo.

Tudo isso com as eleições a caminho. Mas não tem problema.

O Lula vai preso, o PT perde e tudo volta ao normal.

Por um tempo acreditei que a perspectiva do desastre promovia a volta à racionalidade. De 2005 – quando a mídia iniciou essa loucura – para cá, todas as esperanças de uma saída racional foram jogadas fora.

Luís Nassif
No GGN
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Ex-vereador miliciano indiciado por CPI na qual Marielle Franco trabalhou esteve na Câmara do Rio


Os computadores que registram a chegada de visitantes na Câmara de Vereadores do Rio marcavam 12h09 na quarta-feira, 7 de março, quando Cristiano Girão Matias entrou por uma porta lateral. No passado, entre janeiro e dezembro de 2009, a Casa chegou a fazer parte da sua rotina. Até ele ser preso, sob a acusação de chefiar uma milícia em Jacarepaguá, na Zona Oeste da cidade. Em outubro de 2010, após quase um ano atrás das grades, a mesa diretora cassou o seu mandato – não pelos crimes dos quais é acusado, mas por excesso de faltas. E não houve mais notícia de que ele tivesse aparecido de novo na sede do Legislativo carioca.

The Intercept Brasil teve acesso à imagem que mostra o rosto de Girão no momento em que ele entrou no prédio na última semana. Na recepção, o destino informado pelo visitante – condenado por formação de quadrilha – foi o gabinete da Presidência da Câmara. O ex-vereador, porém, ainda esteve no sétimo andar, onde ficam as salas do pessolista David Miranda e de Zico Bacana (PHS) e Chiquinho Brazão (MDB) – este último irmão do ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, Domingos Brazão, preso pela Operação Quinto do Ouro, em março do ano passado.

Registro mostra gabinete da Presidência da Câmara como destino de Girão
Registro mostra gabinete da Presidência da Câmara como destino de Girão.
Foto: Reprodução

A presença de Girão na Câmara é especialmente emblemática diante do assassinato de Marielle Franco. Em 2008, a combativa vereadora morta brutalmente nesta quarta-feira trabalhou ativamente na CPI das Milícias, como assessora do deputado Marcelo Freixo. A Comissão indiciou 226 pessoas – entre elas Cristiano Girão. Freixo ainda se desloca com seguranças por causa daquele período. Enquanto a Casa perdia uma guerreira contra os paramilitares, o miliciano ressurgia das cinzas e voltava a circular nos corredores e gabinetes.

Outro desafeto do miliciano morto na mesma noite

Na mesma noite em que Marielle foi morta, outro personagem ligado a Girão foi assassinado. A ex-mulher do miliciano – a funkeira Samantha Miranda – e seu marido, Marcelo Diotti da Mata, foram alvejados por tiros de fuzil no estacionamento de um restaurante na Barra da Tijuca. Há nove meses, o casal já havia sofrido uma tentativa de homicídio na mesma região. Samantha, então, acusou o ex-vereador de ter contratado um homem para matá-los.

Marcelo da Mata desta vez não escapou. O empresário levou dois tiros e morreu no local. A mulher conseguiu fugir. Pela segunda vez em depoimento à Divisão de Homicídios, ela voltou a acusar o ex-marido miliciano. Sob intervenção federal, as investigações na DH seguem em sigilo.

Contactado por WhatsApp, o deputado Marcelo Freixo disse saber que o miliciano estava em liberdade, mas demonstrou surpresa com sua volta ao Rio. Da primeira vez em que foi solto, Girão foi impedido de retornar ao Estado por causa das ameaças que fazia a seus desafetos locais. O advogado Leandro de Andrade Meuser, que representa Girão, não foi localizado para falar sobre o benefício concedido a seu cliente e para dizer o que fazia o ex-vereador na noite de quarta-feira enquanto Marielle e Marcelo da Mata eram executados.

Ei, Al Capone

Além de ter sido condenado por formação de quadrilha armada e lavagem de dinheiro, o ex-vereador ainda responde, na Justiça Federal, a um processo de execução fiscal por sonegação de impostos desde 2015. A Receita tenta recuperar cerca de R$ 1,1 milhão.

Cumprindo pena em liberdade, o réu é obrigado a fornecer endereço à Justiça. Mas um documento de 8 de novembro do ano passado mostra que Girão não foi encontrado para ser citado no processo. O andamento foi suspenso por um ano. Se ele não for localizado, segundo a decisão, o caso será arquivado.

Documento da Justiça Federal mostra que ex-vereador não foi localizado em processo por sonegação de impostos
Documento da Justiça Federal mostra que ex-vereador não foi localizado 
em processo por sonegação de impostos.
Foto: Reprodução

Será que a Justiça vai procurá-lo na Câmara?

Sérgio Ramalho, Ruben Berta
No The Intercept
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Hoje eu não paro

Sou juíza não pararia por privilégios ma sim por Marielle Franco
Hoje, eu pararia, 

Pararia para revelar o odioso caráter nocivo da “reforma” trabalhista.

Eu pararia para denunciar o corte orçamentário que asfixiou a Justiça do Trabalho em 2016.

Eu pararia contra declarações que acusam (sem qualquer fundamento) a Justiça do Trabalho de parecer um “tribunal da união soviética” ou contra todos aqueles que propugnam sua extinção.

Eu pararia para denunciar os projetos de lei que pretendem cura gay, escola sem partido, redução da maioridade penal.

Eu pararia em defesa do direito de greve, forma legítima de manifestação democrática, e, portanto, contra a lei “antivandalismo” do prefeito Marchezanque prevê punição para quem ousar exercer o direito de manifestação em Porto Alegre.

Eu pararia em defesa da independência da magistratura, como condição essencial para a formação de um Estado Democrático, denunciando a gravidade de quaisquer práticas que direta ou indiretamente pretendam ou sirvam para pressionar juízes a votar desse ou daquele modo.

Eu pararia para protestar contra  a corrupção, como a que também ocorre quando se atribui natureza indenizatória a verbas nitidamente salariais pagassem acordos judiciais, apenas para que não verse contribuição previdenciária e imposto de renda, denunciando os desvios antidemocráticos de uma suposta luta (seletiva) contra a corrupção, que chega a promover atos que negam garantias constitucionais fundamentais.
Eu pararia para denunciar a forma como a polícia vem tratando grevistas, como o que ocorreu ainda anteontem com os professores de São Paulo.
Eu pararia.

Hoje, eu pararia, sobretudo, para denunciar a exceção vivida no Rio de Janeiro, que resultou a morte de Marielle Franco, mulher, negra, militante, executada a sangue frio, poucos dias após haver denunciado truculência policial.

Eu pararia como integrante de uma greve, construída por uma consciência coletiva formada em assembleia da categoria com amplo debate, para que se definissem de forma clara, inclusive, os reais motivos e as reivindicações precisas do movimento.

Como não há greve deflagrada e a “mobilização” (votada virtualmente em consulta binária) nada disso denuncia, hoje, eu não vou parar.

Valdete Souto Severo é Doutora em Direito do Trabalho pela USP/SP e Juíza do trabalho no Tribunal Regional do Trabalho da Quarta Região.
No Justificando
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Respostas ao coronel


Prezado coronel Lee Abe, pelo acaso dessas folhas que vagam pelo ciberespaço, acabei tomando contato com sua carta contendo as indagações que lhe assaltaram a alma advindas com o assassinato brutal da vereadora Marielle Franco.

Coronel, estou muito longe de ter as respostas para algo de tal grau de violência, duvido mesmo que alguém as tenha. Mas como sei o quanto é penoso um homem viver em dúvidas, tomo a inciativa de, com a tentativa de algumas respostas, buscar auxiliar a reduzir-lhe a angústia. Creio que o senhor faria o mesmo por mim.

Pois bem, o senhor começa sua carta aberta com a seguinte indagação: "por que o mundo inteiro respeita a polícia?".

Coronel, independente da autoimagem que o senhor nutra de si próprio e da corporação a que pertence, julgo que involuntariamente o senhor fez uso de uma hipérbole. Uma figura de linguagem válida, mas que carrega dentro de si um exagero. O mundo está muito longe de na sua inteireza respeitar a polícia. Não que ela não o seja, mas acredito que em boa parte a polícia seja mais temida que respeitada, quando não odiada. E odiada porque temida e respeitada onde não é temida. Quanto os policiais têm de responsabilidade nisso, não sei. Mas, sem dúvida, a têm mais do que os que respeitam, temem ou odeiam a polícia.

A seguir, ainda no mesmo tema, o senhor questiona: ”por que o mundo inteiro precisa da polícia?”. 

Polícia para quem precisa de polícia.

Coronel, a existência da polícia é função direta do nosso processo civilizatório ainda deficiente e incompleto. Quando finalmente civilizarmo-nos por inteiro, a polícia deixará de ter razão de existir. Muitos já sonharam com essa sociedade e buscaram construí-la. Cristo foi um deles. Nada é fácil. Mesmo o Cristo teve problemas com a polícia de Roma e acabou sentenciado à morte.

A seguir, em determinado momento da sua carta, o senhor indaga em relação à morte de Marielle Franco: “por que tanta tentativa de transformar essa vereadora em mártir?”.

Coronel, isso já é bem mais fácil de responder: porque ela foi martirizada em razão da causa que defendia. E quem dá a vida pela causa é mártir dessa causa. O senhor como militar reverencia Tiradentes, pois não? Um mártir da nação executado em praça pública pela polícia portuguesa do Brasil colônia. Hoje, somos um país independente e o saudamos como herói da pátria.

Quanto às outras indagações:

Ela representa o povo? Sim, vereadora democraticamente eleita; legítima representante do povo. O senhor preza a democracia e respeita seus resultados, por certo.

Que povo? O povo da cidade do Rio de Janeiro que a elegeu.

Qual segmento do povo? Parte da intelectualidade carioca, mas principalmente o povo das favelas, os negros e homossexuais – por quem Marielle fez sua opção preferencial.

Do cidadão de bem? Sem dúvida. Pobres, trabalhadores honestos e pagadores dos seus impostos. Aos pobres não é dada opção de ser diferente disso. O senhor, se acompanha o noticiário, já deve saber do banditismo que assola nossas classes mais abastadas. Não busque corruptos entre os eleitores de Marielle; os corruptos não votam em pessoas como ela.

Então o senhor se sai com: “a Polícia Militar, responsável pela morte de negros e pobres na ordem de 30% no país (segundo a vereadora) é morta por quem?”.

Não sei quem mata a polícia, coronel. Isso é função da própria polícia investigar e nos dizer.

E vai além: “nós, PM, saímos pelas ruas escolhendo 30% de negros e pobres para matar (hahaha). Quando atingimos a nossa quota diária, vamos completar nossa meta matando brancos, asiáticos e tudo o mais que aparecer na nossa frente. É assim que funciona?”.

Coronel, se o senhor quis ser irônico, acabou parecendo ser grosseiro. Sinto em dizê-lo.

Mas, existem estatísticas; e segundo o Atlas da Violência do IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - homens, jovens, negros e de baixa escolaridade são as principais vítimas de mortes violentas no país. Os negros possuem chances 23,5% maiores de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças; já descontado o efeito da idade, escolaridade, do sexo, estado civil e bairro de residência.

Quantas dessas mortes violentas se dão em confrontos com a polícia e em que circunstâncias? Não sei. Mas o senhor está do lado dos que também apertam gatilhos – eu não. Deve saber como a coisa funciona.

E o senhor prossegue: “e quando morrermos em combate, tentando salvar uma vida inocente que clama pela nossa presença, vamos aguardar pacientemente os políticos, a imprensa, autoridades que estão fazendo todo esse alarde pela morte dessa “pessoa” intitulada vereadora, promotora dos direitos humanos, mãe, homossexual (como ela mesma se apresenta) fazerem também o mesmo alarde exigindo respostas rápidas e firmes das autoridades?”. 

Que parágrafo longo, coronel. Quantos assuntos tratados no mesmo texto. Técnicas de redação não são seu forte, vê-se. Mas vamos lá.

Coronel, vou considerar que o senhor é ignorante quanto aos significados que possam ter o uso de aspas na linguagem escrita. Porque considerar que o senhor os conheça e mesmo assim referia-se à uma pessoa como sendo “pessoa” poderia leva-lo a responder por injúria. Não muito distante da injúria racial, por razões óbvias.

Coronel, Marielle não era “intitulada” vereadora; era vereadora diplomada pela Justiça Eleitoral.

Era mãe. Foi mãe muito jovem – aos 19 anos – pobre, solteira, favelada e soube como buscar no trabalho a forma de sustentar e educar a si mesma – socióloga com mestrado em administração pública – e sustentar e educar a filha que este ano busca a universidade. Mãe tanto quanto a sua mãe que, creio eu, não fez menos pelo senhor.

Quanto à homossexualidade – coronel, eu e senhor somos heterossexuais e jamais fizemos qualquer coisa para sê-lo. Não vamos, na idade que temos, considerar isso qualquer virtude. Somos o que somos. E ela também era o que era.

Tratemos, pois, dos policiais que morrem em ação. Ainda que, pelo menos aqui em São Paulo, a polícia muito mais mate em ação do que morra. Todos lamentamos tais mortesUma vez me ensinaram que o certo é quando, no final do dia, o bandido vai para a cadeia e a vítima e o policial voltam para suas casas. Quando qualquer um dos três morre, algo de muito errado aconteceu. Quem me ensinou isso era policial. Imagino que o senhor concorde com o colega.

Já quanto à sua declaração: “o mais incrível é declararem em coro que os matadores “sabiam atirar”, insinuando serem policiais”, ou o senhor é muito ruim em analisar indícios – o que deporia contra a sua competência como policial - ou parece estar querendo que acreditemos que o senhor é bem mais ingênuo do que realmente seja.

Por fim, o senhor fecha sua carta com: nós, policiais, temos uma missão muito maior do que essa mesquinharia. Somos muito mais do que “isso”. Somos a polícia!”.

Desculpe-me a franqueza, coronel, mas, na minha opinião, mesquinharia é só o que transpira desta sua carta e, fosse eu o seu comandante, o senhor seria punido pelo desserviço que com ela presta à corporação.

Sérgio Saraiva
No GGN
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Piadas

Teve um cômico americano que, quando via que seu número não estava agradando à plateia, declarava: “Pessoal, as piadas são estas. Vamos rir delas porque não há outras”. A frase “As piadas são estas” serve para toda forma de resignação às coisas como elas são e não como gostaríamos que fossem, e vale tanto para piadas ruins quanto para o nosso destino pessoal e a natureza do Universo. Vale especificamente para o Brasil, onde as piadas ficam cada vez mais sem graça, sem perspectiva de melhorarem. Ou você as aceita, que remédio, ou está condenado à seriedade eterna, pensando em emigrar. 

O Universo é o que é, não existe outro. Ou existem outros, paralelos, mas tão inexplicáveis quanto este. O Brasil é o que é, essa sequência de piadas tristes sem alternativas. Temos um histórico de piadas lamentáveis que se sucedem. Algumas chegaram a presidente da República. E as piadas pioram com o tempo: em algum período da nossa vida político-institucional, o país esteve tão perto de ser uma grotesca comédia pastelão como agora?

A lista dos possíveis candidatos à Presidência nas próximas eleições, com raras exceções, faz chorar. Bolsonaro entre os mais lembrados nas pesquisas de intenção de voto é humor negro, mais assustador do que engraçado. O prende/solta dos indiciados por corrupção e as punições seletivas, que atingem uns mesmo sem provas e poupam outros, desmoralizam a cruzada moralista. Um presidente delatado faz assédio explícito, inimaginável em qualquer país civilizado do mundo, sobre o tribunal federal que eventualmente o julgará, para barganhar sua absolvição. 

Enfim, as piadas são estas. Mas ninguém está rindo.

Luís Fernando Veríssimo
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'Marielle, presente': a causa radical e sua apropriação pela mídia


Estudiosos de linguística e comunicação teriam aqui um prato cheio para discorrer sobre essa manobra discursiva muito óbvia: um vídeo que circula “na internet” finalmente é apresentado a um país - e pela Globo

É um vídeo forte, poderoso, cortante: sobre a imagem noturna e estática do temporal na cidade, as vozes se sobrepõem para falar que o Rio de Janeiro CHORAVA com a notícia de “mais uma mulher ASSASSINADA”; porém, “não apenas uma MULHER”, “mas uma mulher NEGRA”, “uma MILITANTE”, que movia estruturas e foi “EXECUTADA a sangue frio”, e apela: “GENTE, PAREM DE MATAR GENTE, esse assunto é URGENTE. MARIELLE, PRESENTE”.

O vídeo original termina assim. Mas, ao final do Jornal Nacional do dia seguinte à execução da vereadora Marielle Franco, do PSOL, numa ação que vitimou também seu motorista, Anderson Pedro Gomes, esse vídeo foi exibido com o acréscimo deste texto: “Esta homenagem a Marielle Franco foi feita por Ana de Cesaro e circulou na internet. Agora está sendo mostrada para todo o Brasil. Para que seja uma homenagem e também um alerta. Tudo começa pelo respeito. À vida”.

Estudiosos de linguística e comunicação teriam aqui um prato cheio para discorrer sobre essa manobra discursiva muito óbvia: um vídeo que circula “na internet” – ou seja, potencialmente, no mundo inteiro – finalmente é apresentado a um país. Pela Globo, que é – com trocadilho – a voz do Brasil.

Mas isso é o de menos. O principal é o que essa manobra revela como apropriação do discurso de protesto contra a execução de uma vereadora jovem, negra, “cria da favela” (da Maré), que estreava na Câmara um mandato promissor, com votação surpreendente – foi a quinta mais votada em 2016, com mais de 46 mil votos – e se dedicava à denúncia da violência contra os marginalizados de modo geral, com uma atuação que expressava múltiplas causas identitárias associadas à questão fundamental do pertencimento de classe.


Certamente tudo começa pelo respeito à vida, mas estas serão apenas belas palavras se desprovidas de seu conteúdo concreto. O que significa, exatamente, respeitar a vida, quando se negam as condições objetivas de existência?

“Reforma trabalhista, PEC dos Gastos, reforma da Previdência”, essas medidas que jogam “um contingente de cidadãos e cidadãs para uma espiral de pobreza”, estão na base do tal “respeito à vida” por onde tudo começa, e por onde começou o artigo que Marielle enviou ao Jornal do Brasil – esse jornal recentemente ressuscitado em papel, numa iniciativa cheia de críticas, incertezas e suspeitas que não cabe aqui discutir, mas que se diferenciou dos demais no dia seguinte às manifestações de protesto que se espalharam pelo país. A edição, para quem tem memória, lembrou a do dia 12 de setembro de 1973, quando a censura da ditadura impediu manchetes ou fotos sobre o golpe no Chile de Allende, e o JB driblou brilhantemente a proibição com uma primeira página sem título, apenas com um texto em corpo maior, relatando o ocorrido, e com isso se destacou de todos os outros jornais.

JB de 1973 e o de 2018

JB valoriza – e valoriza-se com – as “últimas palavras” de Marielle, destacando a sua condenação à intervenção militar na segurança do Rio, que é, na prática, uma intervenção no estado. Entretanto, publica no rodapé uma ressalva que conduz ao editorial, onde defende a intervenção até mesmo como “forma de honrar a memória da vereadora”, que estaria equivocada: os beneficiários da medida seriam justamente “os que ela supunha vítimas”.

Os demais jornais cariocas incorporaram o discurso de protesto: O Globo manchetou “MARIELLE PRESENTE” em maiúsculas, os outros repetiram a indignação da vereadora ao denunciar mais uma morte atribuída à polícia: “Quantos mais terão de morrer para que essa guerra acabe?”

Em tese, a imprensa abraça uma causa que é de “todos”. No entanto, nos editoriais e nos espaços de colunistas, usa esse episódio para inverter a lógica do argumento da vereadora/militante executada e esvaziar sua causa, reforçando a atuação do governo federal: a morte de Marielle e seu motorista seria, para O Globo, “um símbolo contundente do descontrole a que chegou a segurança do Rio, situação de anomia que levou à intervenção federal”. Considerando que o Rio é um “laboratório” – como declarou recentemente o general responsável pela intervenção –, não custa imaginar o que pode acontecer às cobaias. Diante da “insana escalada de violência”, por que não a decretação do estado de sítio?

É a mesma operação discursiva que, em 2013, transformou uma reivindicação contra o reajuste das passagens de ônibus – uma pauta claramente de esquerda, que tinha o alcance mais amplo da luta pela melhoria do transporte público e, no fim das contas, pelo direito à cidade – num protesto contra a corrupção na política, rapidamente identificada ao governo federal, e resultou nas primeiras manifestações de massa de direita desde o golpe de 64, que explodiriam em 2015 e dariam sustentação popular à derrubada de Dilma Rousseff.

A história se repete

Protestos genéricos contra a “violência” têm esse poder alienante. Em 2001, na esteira do episódio do ônibus 174 – um cerco policial a uma suposta tentativa de assalto que resultou no sequestro dos passageiros, transmitido ao vivo por mais de quatro horas, e que acabou com a morte de uma refém e do próprio pretenso assaltante –, criou-se o movimento “Basta! Eu quero paz!”, que convocava para um ato público encampado por toda a mídia. Rara voz dissonante acolhida nos jornais, o historiador Joel Rufino dos Santos escreveu no Jornal do Brasil de 11/7/2001 um artigo no qual rejeitava participar daquela manifestação porque a considerava uma forma de preparar o espírito da população para “indultar os produtores da violência” e dizia que não participaria daquele ato justamente porque os violentos dissimulados, porém mais importantes, também estariam lá.

“Há os que sofrem a violência e os que a produzem. Estes têm interesse em esvaziar a violência do seu conteúdo concreto. Num golpe inconsciente, mas de mestre, mobilizam as vítimas para ato cívico, altamente emotivo, contra a violência. Gritam e fazem a população gritar “Basta!”. Com isso, dão à violência, de que são os produtores, um caráter abstrato. Eximem-se de qualquer responsabilidade. Os violentos são os outros. Na verdade, não são ninguém. Podem, portanto, ser demonizados – livrando a cara deles, os reais produtores de violência. Põem, no lugar sua cara, a cara do pobre-coitado do ônibus 174”.

Hoje, a história se repete. No Jornal Nacional – que abriu sua edição de 15 de março com um editorial que reverberava a indignação dos “cidadãos de bem” –, o senador Jorge Vianna, do PT, aparecia para dizer que “nós não podemos estar nos dividindo, [discutindo] se a intervenção é boa ou não na área de segurança no Rio de Janeiro, eu queria uma intervenção no Brasil inteiro”. E o presidente Temer, como tantos outros políticos aliados, como tantos editorialistas e colunistas, diluía o assassinato de Marielle no caldeirão genérico da insegurança pública: “É inaceitável, inadmissível, como todos demais assassinatos que ocorreram no Rio de Janeiro, é um verdadeiro atentado ao Estado de direito e um atentado à democracia, por isso aliás nós decretamos a intervenção, para acabar com esse banditismo desenfreado que se instalou naquela cidade por força das organizações criminosas”.

A “afronta à democracia”, não por acaso, foi o título do editorial do Globo no dia seguinte.

Por isso é tão importante definir bem as coisas, nesse momento em que as emoções afloram e podem ser tão facilmente manipuladas. Ricardo Queiroz, mestre em Ciência da Informação que trabalha na Biblioteca Monteiro Lobato, em São Bernardo do Campo, resumiu exemplarmente a questão num post no Facebook:

“Marielle Franco acreditou na via política. Morreu porque se posicionou claramente na luta de classes, demarcou sua posição e sabia quais eram seus inimigos. Impossível despolitizar a sua morte.

Portanto, não é com niilismo, desqualificação da política e discurso difuso, que vamos fazer o combate àqueles que mataram Marielle.

Se até Temer se diz indignado pela morte da jovem, é fundamental o discernimento dessas indignações todas. Para que os responsáveis não se passem por indignados”.

Sylvia Moretzsohn | Objethos
No Opera Mundi
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Quem matou Eduardo, Matheus e Reginaldo?

Essa é a história dos três crimes que Marielle Franco denunciou antes de morrer


Os responsáveis por matar Marielle Franco não queriam se livrar de uma vereadora de 38 anos que dedicava seus dias ao expediente político. O desejo dos assassinos era o de silenciar uma ideia. Marielle foi morta à noite, em uma emboscada, sem poder de reação, o modo covarde como se mata nas favelas do Rio de Janeiro e do Brasil, lugares onde as cartas não chegam, a luz falha, a água é suja, as escolas fecham ao som de tiros e o Estado é um tanque de guerra com licença para matar o qual chamam de Caveirão.

Dias antes de ser executada, Marielle Franco denunciou o assassinato de três homens – jovens e de periferia –, parte grande do estereótipo dos corpos que enchem os cemitérios do país. “Foi um recado”, era uma das frases que mais se ouvia entre as pessoas que, ainda estarrecidas, lotaram o Centro do Rio, na quinta-feira, em vigília e protesto. Mas que recado? O que queriam dizer os assassinos de Marielle? A quem eles se dirigiam? “Não ousem mexer nas estruturas”, eles sussurravam.

Não se sabe ainda se a execução de Marielle foi motivada pelos crimes que ela denunciou – dois deles na área do 41º Batalhão de Polícia Militar e seu histórico de terror.

The Intercept Brasil formou um time de quatro jovens jornalistas – Bruna, Carolina, Juliana e Yuri – para contar as histórias de Eduardo, Matheus e Reginaldo. É irrelevante o que a conclusão policial dirá sobre a relação da morte de Marielle com sua pressão pela investigação desses casos. Porque esses assassinatos, tendo policiais como suspeitos, continuam sem solução.

Marielle se foi, mas a pressão para que esses – e todos os outros jovens de periferia – tenham respostas não pode parar. A ideia de que é impossível enfrentar o crime organizado sem usar armas é errada. A ideia de que é impossível ter liberdade nos subúrbios do Brasil é velha e errada. Uma mulher, sozinha, talvez não possa peitar os senhores da guerra. Mas uma multidão pode.

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Ilustração: Pedro Franz

Matheus Melo Castro, 23 anos – morto dia 12 de março

Era um trajeto curto e de rotina. Terminada a reunião da última segunda-feira na Igreja Evangélica Missão da Fé, em Manguinhos, Matheus, auxiliar do pastor, subiu em sua moto – comprada com o salário que ganhava como agente de coleta seletiva – e levou a namorada para casa, no Jacarezinho. As duas comunidades são separadas apenas por uma avenida. Eram cerca de 22h quando, ao voltar para casa, ele cruzou com uma patrulha da Polícia Militar. Vizinhos disseram que os policiais “revistavam menores de idade”. Segundo a família de Matheus, a patrulha não deu ordem de parada. Ele passou pela blitz, mas poucos metros à frente foi atingido por dois tiros, um no braço esquerdo, outro no tórax.

Matheus caiu. Os policiais o observaram à distância como se fosse uma caça abatida. Não prestaram socorro. Ferido mas ainda vivo, ele foi amparado por usuários de crack que frequentam ruas próximas. Confusos, eles decidiram colocar o estranho em um carrinho de mão e sair em disparada pela movimentada Avenida Dom Hélder Câmara até chegar à Unidade de Pronto Atendimento de Manguinhos.

A cena foi vista por motoristas que passavam pela via naquela noite. A notícia se espalhou e, entre amigos e familiares, mais de cem pessoas se amontoaram em frente à UPA para uma vigília. Muitos deles eram do grupo de moças e rapazes que havia se reunido na igreja minutos antes para cantar e rezar. O “refúgio jovem”, como são chamados esses encontros, foi liderado por ele naquela noite. Matheus Melo Castro chegou a ser atendido, mas não resistiu.

“Foi cruel. Ele passou e eles metralharam”, disse uma de suas tias. “O pior é que não socorreram. Quem socorreu foram os ‘crackeiros’ que estavam ali perto e o carregaram para a UPA. Se ele fosse bandido os PMs teriam capturado e feito a segurança no hospital. Mas como era qualquer um, atiraram e foram embora como se fosse ninguém”, desabafou uma prima. Todos têm medo de falar.

Uma desculpa oficial e corriqueira da Polícia em casos como esse, emitida sempre em notas curtas à imprensa e que por regra não dizem nada, é que são mortes colaterais, vítimas azaradas da troca eterna de tiros entre mocinhos e bandidos. Moradores de Manguinhos disseram que no momento da execução de Matheus não havia confronto na comunidade. Horas depois, entretanto, foi possível ouvir disparos.

Familiares garantem que o tiroteio tardio foi uma tentativa de justificar a morte de Matheus como mais uma vítima de bala perdida. Uma cortina de fumaça. A polícia disse que a base da Unidade de Polícia Pacificadora do bairro foi “atacada por criminosos”, por isso o revide. De madrugada, um ônibus foi incendiado na Avenida dos Democráticos, via que dá acesso à comunidade. Tudo ocorreu a poucos metros da Cidade da Polícia, localizada exatamente na Avenida Dom Hélder Câmara, entre Manguinhos e Jacarezinho. O incêndio, assim como as circunstâncias da morte de Matheus, permanecem em uma das tantas “investigações sob sigilo” que adormecem nas delegacias do Rio.

A família se sente ameaçada e, aconselhada por vizinhos, cogita sumir do bairro. Matheus era conhecido da comunidade e não tinha nenhuma ligação com o crime. Uma vítima incômoda com uma família determinada nos calcanhares de seus assassinos: apesar do medo, eles pretendem processar o Governo do Estado e já começaram uma investigação paralela para descobrir quem deu os tiros.

Junto com advogados, querem buscar as câmeras de trânsito do Centro de Operações da Prefeitura para tentar encontrar os últimos minutos de Matheus com vida e seu assassino. O sistema de segurança da Sociedade União Internacional Protetora dos Animais, localizada na rua, também pode ajudar.

Questionada sobre o estado das investigações, a assessoria da Polícia Civil afirmou às 10h21 da manhã de quinta, via e-mail, que “estão em andamento e, no momento, não há novidades para divulgar sobre o caso.”

A Coordenadoria de Polícia Pacificadora disse que abriu “uma averiguação sumária” para descobrir se os assassinos são policiais de alguma UPP. Por telefone, nos disse que a sindicância interna, sigilosa, teve início no dia seguinte ao crime. Não confirmou se havia, de fato, uma viatura no local em que Matheus foi morto. “Ainda que tivesse, não necessariamente era de UPP. Poderia ser de um batalhão da PM ou da Polícia Civil”, disse, no jogo de empurra-empurra. O procedimento é apenas uma averiguação, não um inquérito. Portanto, não resulta em acusações.

“Mais um homicídio de um jovem pode estar entrando para a conta da PM. Matheus Melo estava saindo da igreja. Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”, twittou a vereadora Marielle Franco, na terça-feira. No dia seguinte, sob hinos de louvor e gritos por justiça, ele foi enterrado no Memorial do Carmo, no Caju, Zona Portuária. Horas depois, Marielle foi assassinada.

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Ilustração: Pedro Franz

Eduardo Ferreira, 39 anos, e Reginaldo Santos Batista, idade desconhecida – mortos dia 5 de março

Moradores ouviram disparos pouco depois do nascer do sol. Naquela primeira segunda-feira de março, assim cedo, todos estranharam. Não parecia haver troca de tiros com traficantes, as bocas de fumo sequer estavam abertas. Depois que os fuzis silenciaram, um pequeno grupo de vizinhos decidiu investigar. Encontraram dois corpos em uma zona de mata rala próxima ao Rio Acari.

O primeiro estava de bruços, bermuda e camisa, os olhos fechados. Os moradores decidiram puxá-lo pelas pernas e resgatá-lo de um leve declive até posicioná-lo de modo que pudesse ser reconhecido. Nessas horas ninguém espera pela perícia, que pode levar horas, para ver se o morto é um conhecido ou um parente. Mais tarde se soube que era Eduardo Ferreira, de 39 anos.

O outro estava alguns metros adiante, em uma descida um pouco mais íngreme. Reginaldo Santos Batista, que não teve a idade descoberta, precisou ser içado pelo grupo. “Aqui desde criança a gente aprende a içar um corpo. Vocês sabem o que é isso? Acho que não, né?”, disse uma das pessoas. A Delegacia de Homicídios só o recolheu por volta das 19h, já noite, com a ficha de identificação: homem negro, forte, de feições marcadas e cabelo raspado.

As circunstâncias das duas mortes ainda são misteriosas. Testemunhas oculares contaram que um grupo de policiais estava escondido na mata da favela e que teria abandonado os corpos antes de desaparecer. No Facebook do 41º, o mais letal da cidade, nada. O batalhão posta diariamente sobre suas ações, mas não há postagens sobre ocorrências no dia 5. Somente nos dias 4 e 6. No twitter da PMERJ também não há registros sobre a Favela do Acari.

Eduardo tinha uma companheira e era morador de Acari desde pequeno. Deixou dois filhos. Sua família – mãe, irmãos e primos – são todos evangélicos e todo mundo é de Acari. Era um trabalhador autônomo, que, dizem os amigos, “estava sempre trocando ideia” com os moradores da região. “Ele era muito na dele. Meio tímido. Lembro que ele falava para eu tomar cuidado pela região. Se preocupava com os moradores”,  disse uma moradora.

Sobre Reginaldo, pouco se sabe. Ninguém reclamou publicamente o corpo.

Questionada, a Polícia alegou que não estava sabendo de operação no momento. Algumas horas depois, mandou uma nota por e-mail na qual dizia que os policiais do 41º BPM estavam em patrulhamento para “coibir o comércio de drogas, roubo de veículos e prender criminosos”. Disse também que tinha prendido um bandido, apelidado de Timbau, que estaria com um rádio transmissor.

Depois daquele dia, durante toda a semana, houve tiroteio todos os dias.

No sábado seguinte, uma moradora estava indo buscar doações perto da região de Piracambu, onde fica a associação de moradores da favela Acari, quando ouviu disparos. Olhou para os lados para ver se tinha algum traficante em confronto ou alguma boca de fumo aberta, mas era cedo e estavam todas fechadas. Os policiais, segundo ela, estavam “atirando a esmo, fora da viatura”. ”Me escondi junto com outra moradora. Olhava para os lados e não entendia porque eles estavam atirando. Não tinha nada. Só morador na rua”, falou. Eram 8h da manhã.

”Quando deu umas 13h, voltei lá no mesmo local e a quantidade de policiais tinha aumentado e eles continuavam atirando. Foi quando dois caveirões da Polícia entraram na favela”, contou. Outros moradores mandaram mensagens de áudios para alertar quem estava pela favela. ”Meu deus, muito tiro aqui. muito tiro”, disse um. Outra, quase chorando, disse: “Gente, eu tô com muito medo. Medo mesmo. Eles estão na frente da minha casa”. “Os caras estão esculachando morador. É muito tiro na casa dos outros. Isso não está certo. Em pleno sábado?”, respondeu outro.

Marielle denunciou a ação da Polícia naquele mesmo sábado. Escreveu no Facebook: “Precisamos gritar para que todos saibam o está acontecendo em Acari nesse momento. O 41° Batalhão da Polícia Militar do Rio de Janeiro está aterrorizando e violentando moradores de Acari. Nessa semana dois jovens foram mortos e jogados em um valão. Hoje a polícia andou pelas ruas ameaçando os moradores. Acontece desde sempre e com a intervenção ficou ainda pior. Compartilhem essa imagem nas suas linhas do tempo e na capa do perfil!”

Leandro Demori, Bruna de Lara, Carolina Moura, Juliana Gonçalves, Yuri Eiras
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