5 de mar. de 2018

Barroso quebra sigilo de Temer e de coronel suspeito de ser laranja, diz revista

Brasília – Temer durante cerimônia de assinatura de decreto de intervenção federal na segurança do Rio
(Marcelo Camargo/Agência Brasil
A quebra do sigilo bancário de Michel Temer, no período de janeiro de 2013 a junho de 2017, pode contribuir para livrá-lo das suspeitas de favorecimento na elaboração da MP 595, a MP dos Portos.

Embora a decisão seja inédita e tenha sido tomada pelo ministro Luís Roberto Barroso, do STF, possivelmente com o objetivo de demonstrar que a Lava Jato não perdoa ninguém, é improvável que Temer tenha recebido qualquer valor em sua conta bancária como contrapartida.

Barroso, segundo a revista Veja, também determinou a quebra do sigilo do ex-coronel da PM João Baptista Lima Filho, suspeito de ser “laranja” de Temer na posse da Fazenda Esmeralda, que fica nos municípios de Lucianópolis e Duartina, no interior de São Paulo.

No entanto, também é pouco provável que o coronel tenha feito movimentações bancárias em seu próprio nome envolvendo dinheiro ilícito.

De acordo com o delator Ricardo Saud, da JBS, o coronel recebeu na sede de sua empresa, a Argeplan, em São Paulo, R$ 1 milhão em dinheiro vivo, valor que teria sido desviado por Temer da campanha de 2014.

Rocha Loures, outro que teve o sigilo bancário quebrado, é tido como o “homem da mala” de Temer, o que evidencia que o trânsito de dinheiro do grupo não era feito formalmente, pelo sistema financeiro.

Quanto aos dirigentes da Rodrimar, a empresa é suspeita de ter financiado campanhas de Temer a deputado federal, mas muito antes do atual inquérito.


O dano para Michel Temer será, acima de tudo, político, num momento em que ele considera a possibilidade de disputar as eleições de 2018 — o inquérito sobre a MP dos Portos foi prorrogado por 60 dias.

Foi a revista Veja quem noticiou a decisão de Barroso:

Barroso determina quebra de sigilo bancário de Temer

Decisão do ministro do STF abre ainda os dados financeiros de João Baptista Lima Filho, José Yunes e Rodrigo da Rocha Loures, todos ligados ao presidente


O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso determinou o afastamento do sigilo bancário do presidente Michel Temer (MDB) no âmbito do inquérito que investiga irregularidades na elaboração da Medida Provisória 595, conhecida como a MP dos Portos.

A quebra abrange o período de 1º de janeiro de 2013 a 30 de junho de 2017. É a primeira vez que um presidente no exercício do mandato tem os seus dados financeiros abertos por ordem judicial.

A decisão data do dia 27 de fevereiro. O Banco Central já distribuiu ofício em que comunica a decisão às instituições financeiras e pede providências.

O ministro autorizou ainda o levantamento do sigilo bancário de João Baptista Lima Filho, o coronel Lima, José Yunes, Rodrigo da Rocha Loures — todos ex-assessores do presidente — Antonio Celso Grecco e Ricardo Mesquita, estes últimos, respectivamente, dono e executivo da Rodrimar.

Temer é investigado pela suspeita de ter agido para favorecer a empresa no Porto de Santos por meio do texto da MP 595.

O presidente nega que tenha cometido qualquer irregularidade.

No mês passado, o então diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segovia, indicou em entrevista que o inquérito dos portos poderia ser arquivado. A declaração resultou em um pedido de explicações por parte de Barroso, relator do caso no STF, e provocou uma crise dentro da corporação, que culminou com a demissão de Segovia na semana passada.

No Viomundo
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Condução coercitiva na Carne Fraca: “jeitinho” para burlar o STF?

Nota da Polícia Federal, no site da instituição.

Ao deflagrar nesta segunda-feira (05/03) a Operação Trapaça, terceira fase da Operação Carne Fraca, a Polícia Federal cumpriu 27 mandados de condução coercitiva, determinados pelo juízo da 1ª Vara Federal de Ponta Grossa, Paraná.  Além dos mandados de condução coercitiva, foram expedidos 11 mandados de prisão temporária e 53 de busca e apreensão, realizados no Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Goiás e São Paulo.

A ordem judicial, teoricamente passou por cima da decisão do ministro Gilmar Mendes que, em 19 de dezembro passado, deu uma decisão suspendendo em todo o território nacional a condução coercitiva de suspeitos.

Nas explicações do juiz responsável pelos mandados, Andre Wasilewski Duszczak, da 1.ª Vara Federal de Ponta Grossa, segundo publicou o site do Estadão – Condução coercitiva de testemunhas é legítima, afirma juiz da Operação Trapaça -, a condução coercitiva “em nada afronta’ determinação do ministro Gilmar Mendes, do STF, que proibiu medida em dezembro do ano passado (…) a condução coercitiva de testemunhas é ‘plenamente legítima’”.

Mas, ainda na reportagem, o próprio juiz faz uma ressalva, bastante significativa: “Ressalto, contudo, que as investigações ainda estão em curso, e que, portanto, existe a possibilidade de, em decorrência de diligências complementares, se verificar que alguma testemunha cometeu algum ilícito e possa, desse modo, passar à condição de investigado”, afirma o magistrado.

Algo, porém, ressaltou aos olhos dos próprios policiais federais encarregados de cumprir os mandados, muitos deles surpresos e ressabiados. As chamadas testemunhas conduzidas coercitivamente – que, segundo o juiz, ainda não são alvo de investigação – também foram alvo de buscas e apreensões em suas residências. Vale aqui o comentário de um policial federal que participou da Operação:
testemunha ser objeto de busca e apreensão, não é testemunha, é investigado“.
Isto, para não falar de outro detalhe não menos importante: como testemunhas, estas pessoas só poderiam ser conduzidas coercitivamente depois de recusarem o atendimento de duas intimações previamente encaminhadas, como prevê o Código de Processo Penal. Na terceira, é que poderiam, por ordem judicial, ser levadas à força.

Mais curioso ainda é que os processos da Operação Carne Fraca tramitam na 14ª Vara Federal de Curitiba. Todas as fases anteriores foram feitas com mandados judiciais assinados pelo titular daquela Vara, Marcos Josegrei. Na Operação de hoje os mandados são da Justiça Federal de Ponta Grossa.

Surgem então dúvidas: O que motivou a distribuição destes pedidos de medidas cautelares – prisões, busca e apreensão e conduções coercitivas – ao juízo de outra comarca? A Operação Carne Fraca não é a mesma? O juiz natural do caso estaria a par desta fase da Operação?

Na entrevista coletiva que ocorreu agora pela manhã, na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, a explicação dada foi  de que os conduzidos foram testemunhas. Mas não explicaram o motivo de testemunhas também sofrerem busca e apreensão em suas  residências.

Resta saber se a explicação convencerá o ministro Gilmar Mendes.

Questionamos o ministro, mas a assessoria esclareceu que ele não pode se manifestar a respeito de caso que possa vir a julgar. Continua a dúvida: como ele reagirá?

Marcelo Auler
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A conexão Angola, a condenação de Mariano Ferraz e a Trafigura


Na série sobre a delação premiada, do GGN e do DCM, foi detalhada a participação da Trafigura na corrupção da Petrobras. Uma das 50 maiores empresas do planeta, retalhista de petróleo, a Trafigura atuava na Petrobras na compra e venda diária de combustíveis - setor, segundo todos os especialistas, onde se concentrava a maior parte da corrupção da Petrobras.

A Trafigura aparece em vários depoimentos. Ganha destaque quando é preso seu representante no Brasil, Mariano Marcondes Ferraz, membro do board da empresa. Antes de entrar na Trafigura, Mariano era lobista da Decal, empresa italiana bem menor que a Trafigura. No início, os inquéritos o apontavam como homem. da Trafigura. De repente, a Trafigura sai de cena completamente. Fica apenas a Decal.

Hoje saiu a condenação de Mariano, Não pegará nem prisão. O valor monetário é irrisório. Na sentença de Sérgio Moro, mais uma vez aparece exclusivamente a Decal.

Mariano foi o homem que conseguiu introjetar a Trafigura em Angola, corrompendo o governo a partir de 2010, a ponto de conquistar para a Trafigura o monopólio não apenas da extração do petróleo angolano, mas também da importação. Guarde bem esses dados, porque aparecerão mais informações sobre a conexão Angola no Brasil.

Abaixo, a reportagem que publicamos na época sobre o caso Trafigura.

Na quinta matéria da série sobre a indústria da delação premiada da Lava Jato, feita em conjunto pelo Jornal GGN e o DCM, um mistério ainda não revelado: as ligações com Mariano Marcondes Ferraz, o lobista da Trafigura, concorrente da Petrobras. As outras matérias da série podem ser vistas aqui.


Um dos mistérios da “delação premiada” é o que ocorreu com Mariano Marcondes Ferraz.

Graças aos seus conhecimentos na Petrobras, Mariano passou a representar duas empresas: a italiana Decal e a holandesa Trafigura.

A Decal é uma empresa italiana que trabalha com gestão para terceiros de terminais de petróleo e produtos químicos. Fatura 190 milhões de euros, ou o equivalente a R$ 703 milhões por ano. Mesmo para os padrões brasileiros, seria uma empresa média. E seu faturamento é quase 450 vezes menor que o da Trafigura.

A Trafigura é uma empresa suíço-holandesa, uma das maiores comercializadoras de petróleo do planeta. Fatura mais de U$$ 120 bilhões, ou R$ 384 bilhões ano. É a 54º maior empresa na lista da Fortune.

Ambas tinham três pontos em comum: os negócios com a Petrobras; o mesmo lobista, Mariano Marcondes Ferraz; e a mesma área de negócios, a Diretoria Internacional da Petrobras, sob supervisão do notório Paulo Roberto Costa. Donde se conclui que o grande trunfo do lobista comum, era o mesmo diretor Paulo Roberto Costa.

Eram diferentes as relações de Mariano com as duas empresas.

Na Decal, foi apenas um freelance que conseguiu um contrato com a Petrobras para a instalação de um terminal de tancagem e movimento de navios em Suape. Por conta do contrato, ganhou 5% de participação na empresa.

Já na Trafigura, Mariano fazia parte do Conselho mundial da empresa, ajudando a consolidar as relações com a Petrobras e com o mercado africano.

Sâo gritantes as diferenças de valores entre os contratos da Petrobras com a Decal e a Trafigura.

Entre 2004 e 2015, a Trafigura firmou contratos de afretamento de navios para a Petrobras no valor de US$ 169 milhões; entre 2003 e 2015, contratos de compra e venda de derivados no valor de US$ 8,7 bilhões, ou de US$ 580 milhões/ano. O último contrato da Decal com a Petrobras envolveu valores de R$ 56 milhões, ou US$ 18,7 milhões/ano, 31 vezes menor que os da Trafigura.

Não apenas isso.

Números
Trafigura
Decal
Trafigura/Decal
Faturamento Global (US$)
703.000.000
546 vezes
Negócios com Petrobras (US$/ano)
580.000.000
18.700.000
31 vezes

A Decal atua em um mercado controlado. A Petrobras paga pelo uso dos terminais. O máximo que se consegue é o reajuste das tarifas.

Já a Trafigura opera no mercado de compra e venda de combustíveis, que chega a 300 mil barris dia de petróleo cru, a grande mina de ouro da corrupção.

A prisão de Mariano Marcondes Ferraz poderia abrir o leque de investigações da Lava Jato para uma macrocorrupção de dimensão global, dezenas de vezes maior que o da construção pesada, o da comercialização de combustíveis, conforme atestaram duas delações de pessoas chaves, Nestor Cerveró e Delcídio do Amaral.

Em sua delação, Nestor Cerveró revelou que os negócios de comercialização de combustíveis eram muito maiores do que o de afretamento de navios (clique aqui). Ambas as operações não precisavam ser aprovadas previamente pela diretoria e cada centavo, nas compras, equivalia a milhões de dólares, dizia Cerveró, “razão de sempre ter havido ingerência política no setor”.  Apontava como as maiores tradings do setor a Glencor e a Trafigura. E indicava Mariano Marcondes Ferraz como o grande operador de trading, “acreditando que estivesse vinculado à Glencor ou à Trafigura”.

Na página 80 da delação de Delcídio do Amaral, se lê:

DELCIDIO DO AMARAL tem conhecimento que uma das áreas mais cobiçadas da PETROBRAS e a de Abastecimento, principalmente, em razão da comercialização de petróleo no exterior, na medida em que são comercializados 300.000 barris diários de petróleo leve, em números atuais, isso representaria em media quase US$ 10 milhões por dia.

DELCIDIO sabe que as operações financeiras são todas feitas em Londres através de "brokers", tal modo de comercialização permite que pequenas variações no preço do petróleo representem altos ganhos aos seus principais operadores, dando azo a um terreno fértil para várias ilicitudes, vez que os preços podem ser alterados artificialmente,

No entanto, Mariano foi indiciado pelas operações relacionadas com a Decal. Dez dias depois de detido foi liberado, mediante o pagamento de irrisórios R$ 3 milhões, e o nome da Trafigura sumiu das investigações e do noticiário.

O que aconteceu com a chamada maior operação anticorrupção do planeta?

Vamos entender esse jogo em cinco movimentos

Movimento 1 – de playboy a lobista

O primeiro passo é saber um pouco mais de Mariano Marcondes Ferraz.

Uma consulta nos sites especializados indica que, até 2.001, sua atividade empresarial não sugeria o super-lobista global dos anos recentes. A única empresa da qual participava era a Blue Moon Produções Ltda., uma produtora de vídeos aberta em 16/10/1997 (clique aqui).

Era mais conhecido por suas festas, sua vida social e pelo fato de ser filho da mitológica Silvia Amélia de Waldner, neé Silva Amélia Melo Franco Chagas, como diria o colunismo dos anos 70, neta do cientista Carlos Chagas, casada em primeiras núpcias com Paulo Marcondes Ferraz e, no já longínquo 1973, com Gerard de Waldnere, um autêntico barão francês.

Dos tempos de solteira, tornou-se musa de Roberto Carlos e Tarso de Castro e deixou a imagem de uma jovem alegre e cativante, estrela de um único filme, “Roleta Russa”, de 1972. Do casamento com Paulo Marcondes Ferraz, restou o rebento Mariano que, até 2001 era mais conhecido pelas festas de arromba e pelas colunas sociais.

Um artigo no JB, no início dos 90, descrevia o playboy e dizia que ele arrumou emprego em uma multinacional só para fazer número. O artigo mereceu uma carta queixosa do rapaz ao jornal.

Mariano fazia parte de um grupo de playboys, os meninos maus de famílias boas, frequentadores do Baixo Leblon, como Júlio Lopes e Antenor Mayrink Veiga, com quem disputava campeonatos de conquista. Durante todos os anos 90, das 39 menções ao seu nome, no Jornal do Brasil, apenas duas não se referiam a conquistas ou a eventos sociais.

Uma de 1995, quando furou o pneu de um carro na calçada do Country Club que atrapalhava a passagem do carrinho de sua filha recém-nascida. E outra, do início da década de 90, anunciando a criação de uma corretora, com mais um amigo e o apoio do Banco Icatu, que acabou desaparecendo com a crise da Bolsa do Rio.

Frequentador assíduo da prestigiosa Coluna do Zózimo, aparecia ora dançando lambada com Elba Ramalho, destroçando corações com seu amigo Antenor Mayrink Veiga, ou sendo derrotado, em uma vibrante semifinal de tênis no Country Club, enfrentando o campeão amador Jorge Paulo Lehman.

Foi nesse ambiente, na divina decadência nos estertores do Rio internacionalizado, que naufragou com o crack da Bolsa de Valores, que Mariano montou sua rede de relações.

Aliás, o fim do Rio, como centro financeiro, mudou o destino de dezenas de filhos de famílias tradicionais, que historicamente mantinham contatos com o exterior, especialmente na fase áurea da internacionalização do Rio, do período da guerra até os anos 1970. Foram aproveitados nos novos bancos de investimentos, como quadros da AMBEV, e em outros setores abertos pela internacionalização da economia e onde contam as redes de relacionamentos internacionais.

Internamente, Mariano se valeu das ligações da família Marcondes Ferraz e, no plano internacional, certamente das ligações da mãe, baronesa de Waldner, com o alto mundo europeu.

Suas aventuras petrolíferas começaram em 2001.

Em 12/09/2001 montou a Up Offshore Apoio Maritimo Ltda, com capital respeitável de R$ 50 milhões. Em 10/07/2002 a Firma Consultoria e Participações Ltda, para atividades não especificadas e com a qual se tornou sócio da Decal Brasil.

Quando as cotações do petróleo explodiram e a Petrobras se projetou no mundo, a rede de relações de Mariano, no Rio e na Europa, passaram a valer ouro negro.

Especialmente porque, no mundo do petróleo, surgia um candidato a gigante que via na explosão das commodities, com o advento da China, e nas riquezas minerais da África e da América Latina - e na sua capacidade de suborno -, o seu grande salto.

Movimento 2 - A gigante Trafigura

E, aqui, faz-se uma pausa para conhecer melhor esse gigante, a multinacional Trafigura.

Nos grandes números, sabe-se que tem escritórios em 36 países. Hoje em dia é o segundo maior comercializador de metais e o terceiro maior comercializador independente de petróleo do mundo, comercializando mais de 4 milhões de barris de petróleo por dia (clique aqui).

A Trafigura nasceu em 1993 com um pecado original. Foi fundada por ex-colaboradores do empresário norte-americano Marc Rich, condenado por evasão fiscal em grande escala e depois indultado pelo presidente Bill Clinton. O grande líder do grupo era Claude Dauphin, um dos mais atrevidos gestores dos últimos 50 anos, falecido em 2015. Irônico, sagaz, parecido com Mr. Bean, incutiu na equipe princípios que aprendeu no mercado de commodities, como controle compartilhado, participação nos lucros, foco total na rentabilidade, vida regrada em público, evitando ostentações com a riqueza, regra seguida por quase todos os grandes bilionários que surgiram nas últimas décadas.


Em uma época de grandes terremotos na geopolítica mundial, Dauphin apostou fortemente na corrupção como componente intrínseco da sua estratégia, porque focada na busca de reservas minerais – petróleo, ferro e outros –, e em investimentos complementares em infraestrutura em países de baixo controle institucional e democracia não consolidada.

No obituário do fundador  Dauphin, falecido em 2015, explica-se sua estratégia:

 A decisão de seguir adiante foi devidamente justificada após a virada do milênio, com o crescimento dos mercados emergentes e a decolagem na demanda de minerais industriais. A existência de duas divisões de negociação possibilitou um negócio mais estável e diversificado, e permanece um pilar da estratégia da Trafigura.

(...)  Investimentos dirigidos em infraestrutura poderiam ajudar a empresa a obter acesso a volumes de negociação, especialmente em um momento de mudanças estruturais significativas nos fluxos comerciais internacionais.

A nova geografia mundial foi exemplarmente aproveitada pela empresa:

O crescimento de economias emergentes desde a China até a África e a América Latina gerou novos desequilíbrios no mercado e novas oportunidades globais de negociação para aqueles com os sistemas e infraestrutura necessários.

Em segundo lugar, houve uma aceleração na demanda de energia e matérias-primas industriais conforme as economias emergentes embarcavam em uma nova rota de crescimento, lideradas pela China.

Em um setor tradicionalmente corrupto, conseguiu algumas proezas. Como ser acusado pelo Greenpace de ter comprado os depoimentos de nove testemunhas da Costa do Marfim, para se safar de uma acusação de ter despejado lixo tóxico no mar. O que não impediu que Dauphin passasse seis meses na cadeia. Foi acusado também de ter desviado recursos de fundos humanitários da ONU, do programa de petróleo por comida montado na guerra do Iraque.

Nos últimos anos associou-se a fundos russos para investir pesadamente na Índia, em refinarias, tanques de armazenamento e infraestrutura de importação e exportação estrategicamente relevantes para Vladimir Putin.

O auge da corrupção foi a conquista da Angola. E aqui se juntam os destinos da Trafigura e do ex-playboy Mariano Marcondes Ferraz, que se tornou um dos meninos de ouro de Claude Dauphin.

Movimento 3 – Mariano e a conquista de Angola

Mariano entrou na Trafigura em 2009. E foi alocado para comandar a Puma Energy, o mais promissor braço de negócios da empresa.

A Trafigura adquiriu a Puma em 2000, com a intenção de construir uma rede de intermediários na cadeia da comercialização de petróleo.

Em 2010 surgiu a operação Angola, e a Puma ganhou uma posição estratégica. Criou uma subsidiária, a Pumangol, associação da DTS (a empresa que controlava a Puma) com a Cochan S.A., empresa criada em 6/04/2009, de propriedade dos principais políticos do país. A DTS ficou com 51% e a Cochan com 49%. E esse feito foi de responsabilidade de Jean-Pierre Valentini e Mariano.

Em 13/02/2014, o Foreign Policy  publicou reportagem detalhada da jornalista Michael Weiss sobre a corrupção angolana. Consultor chefe do Ministro de Estado e Chefe do Gabinete de Segurança e testa-de-ferro do presidente José Eduardo dos Santos, o General Leopoldina Fragoso de Nascimento tinha 15% da Puma Energy, em valor estimado de US$ 750 milhões, o que o fazia o segundo homem mais rico do país.

De acordo com a reportagem, além do general Dino, participam do regabofe o vice-presidente da República Manuel Vicente, e o general Manuel Hélder Vieira Dias “Kopelipa”.

Além da Trafigura, a Cochan tornou-se parceira da norte-americana Cobalt International, que opera os blocos 9 e 21 do pré-sal angolano. A Cobalt está sendo investigada nos EUA por suspeitas de violação das leis anticorrupção.

Os ganhos da Trafigura foram monumentais.

Em agosto de 2010, o presidente José Eduardo dos Santos assinou cinco contratos de investimento com o grupo avaliados em US$ 931 milhões.

O contrato garantia à Trafigura monopólio virtual sobre as importações de derivados e venda da produção própria em Angola através de seus escritórios em Singapura.

Dessa sociedade nasceram a Angofret (de cargas e logística), a AEMR, explorando a indústria siderúrgica, ferro e manganês, a DT Agro, para projetos agropecuários, a DTS Commercial & DTS Refining, comercializando petróleo e derivados, e a DT Shipping, operando transporte marítimo, a DTS Serviços, de serviços financeiros, e a DTS Imobiliária.

Apenas as importações de produtos petrolíferos em Angola renderam 3,25 milhões de toneladas métricas de derivados de petróleo, contrato avaliado em US$ 3,3 bilhões.

Tratava-se de um megaescândalo internacional, motivado pelas descobertas do pré-sal angolano.

No site Africaintelligence, edição de 16/11/2016, Mariano era apresentado como protegido de Claude Dauphin.


Entre os administradores do referido grupo encontram-se também Claude Dauphin, um dos fundadores da Trafigura, e o brasileiro Mariano Marcondes Ferraz, considerado como o ponta-de-lança da Trafigura em Angola. Foi este último quem assinou os acordos com o executivo angolano, no valor de quase um bilião de dólares.

Por todos esses sucessos, em setembro de 2014 Mariano foi elevado à condição de um dos nove membros do Conselho da Trafigura. Seria o mesmo que pertencer ao grupo de sócios controladores de uma Inbev.

Afinal, a estratégia da Puma Energy, agora, se voltara para a América Latina, preferencialmente atrás dos ativos da Petrobras na Colômbia e no Chile.

Uma mera consulta ao DHS, o departamento do governo dos Estados Unidos incumbido da cooperação internacional, bastaria para se saber da dimensão do fator Trafigura. Mas o MPF brasileiro não se interessou.

Movimento 4 – a Lava Jato e a delação de Mariano

Desde 09/10/2014 a delação de Paulo Roberto Costa já vazara para a imprensa, através da revista Época, alertando Mariano e a própria Trafigura sobre o que vinha pela frente.

Dizia a matéria que Paulo  Roberto Costa

Entregou, também, multinacionais poderosas da indústria do petróleo, como Trafigura e Glencore, as grandes vendedoras de derivados de combustível no mercado internacional.

Quando a notícia vazou, advogados paulistas envolvidos com a Lava Jato perceberam que, ali, abria-se o leque para uma nova etapa, em que a corrupção se contava na casa dos bilhões. Batia-se no centro da mais deletéria das corrupções globais, a das empresas petrolíferas na África.

Após o vazamento, nenhuma medida preventiva foi tomada, visando resguardar provas, não se sabe de nenhuma investigação adicional. No fundo, o vazamento serviu para conceder dois anos de prazo para que Mariano e a Trafigura montassem suas estratégias de defesa.

Alertado pelo vazamento do MPF, nos meses seguintes Mariano tomou duas providências: em outubro de 2015 formalizou união com a atriz Luiza Valdetaro e a despachou para Londres com a filha, com a intenção óbvia de se mudar do Brasil; e tratou de montar seu álibi, junto com a Trafigura.

Quando se consumou sua prisão, não passou de jogo de cena, uma obrigação legal, já que seu nome foram mencionado em quatro delações.

No dia 26/10/2016, dois anos após o vazamento, a pedido do Ministério Público Federal o juiz Sérgio Moro autorizou busca e a prisão preventiva de Marcondes Ferraz.

Como a prisão se baseara nas delações, na fase inicial não havia modos de tirar a Trafigura do noticiáriol.


“Com a prisão preventiva do empresário Mariano Ferraz, detido no aeroporto de Guarulhos nesta quarta-feira, 26, quando estava prestes a embarcar para Londres, a força-tarefa da Lava Jato avança sobre uma área ainda não investigada na Petrobrás: o setor de compra e venda internacional de combustíveis e derivados”.

No pedido de busca e apreensão solicitado pelo Ministério Público Federal, e autorizado pelo juiz Sérgio Moro, (clique aqui) o nome da Trafigura aparecia claramente no mandado:

“Envolve o pagamento de propinas pelo Grupo Trafigura ou pela DECAL do Brasil, por intermédio de Mariano Marcondes Ferraz, ao então Diretor de Abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, em decorrência de contratos com a estatal brasileira. Mariano Marcondes Ferraz, de nacionalidade brasileira, é um dos diretores executivos do Grupo Trafigura (http://www.trafigura.com/aboutus/leadership/board­member? Member=Mariano+Marcondes+Ferraz&Board=Board+Of+Directors).”

Mais. Mencionam delação de Paulo Roberto Costa atribuindo as propinas à Trafigura, representada por Mariano:

“Paulo Roberto Costa, ex­Diretor de Abastecimento da Petrobrás, revelou, após ter celebrado acordo de colaboração premiada, que a empresa Trafigura, representada por Mariano Marcondes Ferraz, ofereceu e pagou vantagem indevida em contratos da Petrobrás (termo de colaboração n.º 38, evento 1, anexo3).

No despacho em que autorizou a prisão preventiva de Mariano, eram elencados diversos motivos: o fato de ter dupla cidadania, de possuir recursos vultosos no exterior, de ter residência em Londres.

Apenas oito dias após sua prisão, Mariano Marcondes Ferraz foi liberado pelo juiz Sérgio Moro mediante a módica fiança de R$ 3 milhões, aceitando as explicações dos advogados do réu.

Os advogados explicaram que Mariano passou a morar em Londres devido à gravidez de sua esposa, com receio da epidemia de zika, por isso veio pouco ao Brasil; que todas as vezes que veio ao Brasil, foi publicamente, sem se esconder; e que a esposa pretende voltar ao Brasil etc.

Foi o que bastou, para conseguir a liberdade imediata, ampla total e quase irrestrita. A única proibição mantida foi a de viajar para fora do país.

Movimento 5 – a Trafigura desaparece da Lava Jato

Quando o escândalo explodiu, com a prisão de Mariano em 26/10/2016, a Trafigura já tinha pronta uma nota oficial, atribuindo as propinas para Paulo Roberto Costa exclusivamente às operações de Mariano com a Decal.

Essa versão foi imediatamente divulgada através de nota oficial e aceita pelo Financial Times e pela Reuters. Afinal, do lado das autoridades investigadoras, não havia nenhuma informação em contrário.

Nos meses seguintes Mariano contratou o advogado Figueiredo Bastos, o mais antigo e mais influente dos advogados das delações premiadas da Lava Jato. E a Trafigura magicamente sumiu do noticiário.

Quando saiu a denúncia da Lava Jato contra Mariano, a Trafigura não mais constava dela.


Síntese: Em 2006, a Petrobras contratou a Decal do Brasil para a prestação de serviços de armazenagem e acostagem de navios no Porto de Suape (PE), com prazo de duração de cinco anos. Ao final do contrato, havia resistência da estatal em realizar nova contratação da empresa, que insistia em renovar o contrato com preços majorados. Para resolver a situação a favor da Decal do Brasil, Mariano Marcondes Ferraz ajustou o pagamento de propina com Paulo Roberto Costa, então diretor de Abastecimento da estatal petrolífera.

Na íntegra da denúncia apresentada, datada de 11/01/2017, o MPF encampa totalmente a versão de que Mariano operara apenas para a Decal. A Trafigura aparece em uma nota de rodapé, em uma citação do depoimento de Paulo Roberto Costa, com um sic – termo que serve para apontar inconsistências do autor original dos trechos citados. Isso, apesar da informação colhida pela Lava Jato de que Mariano estivera em 13 oportunidades na sede da Petrobras, todas em nome da Trafigura.

Em despacho no dia 02/03/2017 o juiz Sérgio Moro aceitou a denúncia. É uma sentença curta de 6 páginas. As duas primeiras são as referências de praxe ao esquema de corrupção na Petrobras.

Depois, sintetiza a denúncia contra Mariano, mencionando que a corrupção se destinava a beneficiar o grupo Trafigura e/ou Decal.

Igualmente, instruída com o teor do depoimento do colaborador Fernando Antonio Falcão Soares, no qual ele afirma haver participado de um jantar na residência de Paulo Roberto Costa, no qual estava também presente Mariano Marcondes Ferraz, e no qual teria sido discutida a renovação de contrato de aluguel de tanques que a empresa Trafigura mantida com a Petrobrás na Refinaria do Nordeste Abreu e Lima ­ RNEST, embora não tenha sido tratado especificamente do pagamento de propinas (anexo 15).

No despacho em que ordenou a prisão de Mariano, Moro deixava claro as dúvidas sobre as propinas, se provenientes da Trafigura ou da Decal.

Na página 6:

Não está totalmente claro se agiu, na ocasião, representando os interesses da Trafigura ou da Decal.

O despacho do juiz Sérgio Moro assegurava uma inédita tranquilidade a Mariano.

Tendo à sua frente um dos grandes lobistas internacionais, homem capaz de desvendar os segredos da corrupção da Trafigura no mundo, e tendo à sua mão a arma da delação premiada, Sérgio Moro e os procuradores nada fizeram.

No dia 17/10/2017 Mariano foi ouvido pelo próprio Moro e por procuradores.

Foi um interrogatório amável, de apenas 30 minutos, sem pegadinhas, sem agressividade. E sem nenhuma pergunta sobre a Trafigura.



No final, Moro indaga se alguém tem mais questão. Manifesta-se o procurador que considera o depoimento “bem completo” e se limita a indagar se houve algum contrato celebrado para disfarçar as propinas, entre outras perguntas igualmente irrelevantes. Quando saiu do Brasil? Passou a residir na Suíça? Todas as contas têm sua identificação? Quando saiu do Brasil deixou de pagar Imposto de Renda aqui?

Aos 27:52 minutos a audiência termina com uma formidável levantada de bola do procurador:

- Esse contrato da Decal com a Petrobras O senhor tem ideia de quanto representa de economia para a Petrobras em relação ao modelo anterior?

Modestamente, Mariano estimou em um ganho de R$ 30 milhões anuais para a Petrobras.

Seguiu-se uma breve sessão arrependimento de Mariano e a terminou com todos se dando por satisfeitos.

Movimento 6 – as razões inexplicadas

Como entender essa blindagem da Trafigura por parte da Lava Jato? Deslumbramento com um lobista internacional, frequentador do alto mundo, da mesma maneira que se deslumbraram com madames cariocas? Desinteresse pelo fato de não ter nada a declarar contra Lula? Displicência? Confirmação de que o único objetivo da Lava Jato era destruir as empresas brasileiras mais competitivas internacionalmente, especialmente as que atuavam na África? Suborno, através da indústria da delação premiada?

Hoje em dia, o portal da Lava Jato esmera-se em apresentar estatísticas sobre a maior operação anticorrupção do planeta. Não há explicações para o fato de ter estendido a rede, nela caído o principal tubarão da corrupção planetária, e a Lava Jato ter facilitado a sua fuga.

Não há explicações para a dupla vitória da Trafigura com a Lava Jato. De um lado, destruindo a influência brasileira em Angola, as principais concorrentes tanto no setor petrolífero quanto da infraestrutura, criminalizando financiamentos e até ação diplomática. De outro, por tê-la deixado escapar sem uma mancha sequer.

Manifestação do MPF

Em resposta às indagações do DCM e Jornal GGN, a Assessoria de Comunicação do Ministério Público do Paraná, respondeu o seguinte.

Boa tarde

Prezado,

A denúncia e ação penal em andamento referem-se ao pagamento de propina relacionada ao contrato da Petrobras com a Decal. Os demais fatos seguem sob apuração.
Sobre colaboração, a força-tarefa do MPF/PR não faz comentários sobre supostas negociações de acordos ou a existência ou não dos mesmos.
Att.
Rubens Chueire Jr.

Assessoria de Comunicação - Ascom
Ministério Público Federal no Paraná

Luís Nassif
No GGN
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Globo vai para o tudo ou nada e culpa o PT pela crise que ela ajudou a provocar


A jovem que perdeu tudo com a crise
A Globo publicou no Fantástico deste domingo uma reportagem de 14 minutos para mostrar os brasileiros que mais sofreram com a crise econômica que se abateu sobre o país desde 2104.



Até aí, nenhuma novidade.


Mas, à medida que a reportagem avança, percebe-se que não é exatamente um trabalho jornalístico. É propaganda. Propaganda contra Lula e o PT.


A reportagem é estranha do começo ao fim.


Para começar, é uma reportagem sem repórter, isto é, não é mostrado um jornalista em campo para apresentar os entrevistados e conduzir as informações. Ela foi feita por dois produtores, e a narração é dos apresentadores do Fantástico, Tadeu Schimidt e Poliana Abritta.


Este é o modelo clássico que revela o dedo do padrão e preserva a imagem dos repórteres.


Com um minuto, diz a que veio. Aparece Sérgio Firpo, professor de Economia do Insper (a escola do investidor Jorge Paulo Lemann), que dá a primeira cacetada:


— Depois de uma série de políticas desastrosas de 2010 a 2104, o Brasil passou a viver uma recessão muito forte. Foi uma das piores crise, senão a pior crise que o País já experimentou.


A apresentadora Poliana Abritta toma a boca do professor emprestada para dizer o que a Globo quer:


— As políticas que, segundo o economista levaram o País à recessão foram no último ano do governo Lula e no primeiro governo Dilma Rousseff, ambos do PT, que culminaram no forte abalo econômico de 2014 a 2016.


Fantástico!


Mas tem mais:


A reportagem mostra uma jovem que, em setembro de 2014, vivia seu melhor:


—Eu tinha tudo. Estava numa vida boa e do nada eu me vi no meio… de noite, debaixo do sereno e numa praça…


Ela era vendedora de uma loja em shopping, onde começou a namorar o segurança. Juntos, ganhavam 3 mil reais.


A reportagem mostra os dois tomando cerveja com amigos, em shows e ela, em aula de dança.


— Durou pouco — diz Poliana. Da vida de classe média à pobreza, foram apenas dois anos.


A jovem informa:


— Aí eu fui mandada embora e ele foi mandado embora também.


Os dois hoje vivem de revirar lixo — e a reportagem mostra — para procurar latinha.


Tadeu Schimidt narra, com base na língua da professora da UFRJ:


— A professora Lena Lavinas diz que quem mais se prejudicou foi quem mais se beneficiou com o crescimento rápido da economia, ocorrido entre 2004 e 2013.


Isso é fato. Mas o texto lido pelo apresentador trata de reforçar o que pensam os donos. Foi “nos mesmos governos do PT que depois provocariam a crise que o País atravessa”.


Fantástico outra vez!


Diz a professora:


— As pessoas que primeiro perderam o emprego foram aquelas que, primeiramente, mais se beneficiaram durante o período de crescimento recente que tivemos. Foi um crescimento de empregos de má qualidade.




Os apresentadores do Fantástico colocados para revirar o lixo para encontrar algo contra o PT


Aos 11 minutos, Poliana continua:


— A professora da Federal do Rio adverte que o crescimento não gerou uma classe média maior e sólida.


A professora, Lena Lavinas, complementa:


— Nós não tínhamos uma classe média como quiseram fazer crer.


A reportagem mostra duas mulheres chorando: a ex-vendedora do shopping e outra, que conta:


— Foi aí que comecei a pedir esmola.


Embora com forte apelo sensacionalista, a reportagem apresenta fatos indiscutíveis, mas transforma a reportagem em propaganda quando não apresenta outros aspectos da crise:


Quem perdeu a eleição em 2014 inviabilizou o governo Dilma Rousseff, com a discussão no Congresso de uma pauta que paralisou investimentos.


Depois, emparedou a presidente reeleita com a ameaça do impeachment.


Quem não se lembra da pauta-bomba que Eduardo Cunha colocou sobre a mesa da Câmara dos Deputados?


Nessa crise, não se pode descartar também o ambiente criado pela Lava Jato, que transformou o Brasil numa plataforma defeituosa da Petrobras.


Nada disso prosperaria se a Globo não abrisse sua programação para divulgar, com estardalhaço, um lado da história, a dos que queriam tirar o PT do poder.


Fez um jornalismo de guerra, uma campanha para derrotar adversários.


Por fim, o governo Temer, com sua política recessiva e sem credibilidade para liderar uma mudança de expectativa — em 2008, a declaração de Lula de que a crise era uma “marolinha” foi uma injeção de ânimo


O governo Dilma Rousseff tem, com certeza, sua parcela de responsabilidade na crise, ao capitular diante dos algozes e aceitar o argumento de que a corrupção era o grande mal a ser combatido.


No Brasil, a desigualdade social é a praga. O mais decorre disso.


Joaquim Levy no Ministério da Fazenda não foi a escolha mais feliz, pelo que representou: o reconhecimento da fraqueza do governo de Dilma.


A manutenção de José Eduardo Martins Cardoso no Ministério da Justiça pode ter sido outro erro político, num momento em que era preciso fazer o enfrentamento.


São eventos que a história jugará.


Mas daí a responsabilizar o PT pela crise econômica que jogou os brasileiros mais fracos no abismo vai uma distância gigantesca.


O brasileiro tem na memória os anos de prosperidade nos governos de Lula e também no de Dilma, e é essa memória que explica, em grande parte, a liderança do ex-presidente nas pesquisas.


No Fantástico, a Globo não fez jornalismo. Fez propaganda. E vem mais por aí. Neste ano de eleição, está difícil para os golpistas tentar viabilizar um projeto e, principalmente, um candidato que tenha a preferência do eleitor.


A Globo vai tentar jogar toda a culpa da crise no PT. E apoiar qualquer um que tenha chance de derrotar o PT.


Só que a emissora está subestimando o brasileiro. Em geral, ele sabe com quem pode contar, e não é com a Globo.


Os interesses da Globo são vários, e não é o do Brasil.


A baixaria só está começando.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Má notícia para a Lava Jato: Moro cai enquanto Lula resiste, mostra pesquisa Ipsos


A pesquisa Ipsos, encomendada pelo Estadão e divulgada no último domingo (4), revela que a rejeição ao juiz federal Sergio Moro vem crescendo e já ultrapassou a sua aprovação. Enquanto isso, o ex-presidente Lula, condenado na Lava Jato, mateve a rejeição estável desde 2015 e vem sendo aprovado por um contingente maior de entrevistados desde então.

Moro está hoje com 51% de rejeição - um dos patamares mais altos desde o início da série, em setembro de 2015 - enquanto sua aprovação vem caindo: atualmente, é de 39%.

Ainda há 10% que não sabem avaliar a maneira que a estrela da Lava Jato vem atuando no País, mas de acordo com o gráfico abaixo, o ponto de inversão para Moro (quando a rejeição passou a ser maior do que aprovação) nasceu em meados do segundo semestre de 2017. Lula foi condenado pelo magistrado, no caso triplex, em 12 de junho.

Fonte: Estadão

Lula, por sua vez, ainda é numericamente mais rejeitado que o juiz: hoje é desaprovado por 56%. Mas esse índice se mantém estável desde agosto de 2015, a despeito de todas as investidas da Lava Jato e de outras operações.

Contrariando a lógica imposta pelo massacre midiático, a aprovação do ex-presidente cresceu desde o início da série. Em agosto de 2015, a taxa era de 35%. Anos depois, em janeiro de 2017, estava na casa dos 30%. Em fevereiro desde ano, após a condenação em segunda instância, a aprovação subiu para 42% e somente 2% dos entrevistados não sabem se posicionar sobre a situação de Lula.

O Barômetro Político Estadão-Ipsos não é uma pesquisa de intenção de votos, mas de opinião pública. Ao entrevistado é apresentada uma lista com os nomes a serem avaliados, e ele diz se aprova ou não.

Na mesma pesquisa, Michel Temer apareceu com apenas 4% de aprovação, ante 93% de desaprovação.

O ministro da Fazenda Henrique Meirelles (PSD) é aprovado por outros 5%.

Rodrigo Maia (DEM) é aprovado por 4% e rejeitado por 69%.

Geraldo Alckmin (PSDB), o provável candidato do PSDB, é aprovado por 20% dos eleitores, e desaprovado por 68%.

Jair Bolsonaro (PSC) tem a consideração de 24%, mas é rejeitado por 58%.

Os dois possíveis substitutos de Lula na disputa presidencial, Fernando Haddad e Jaques Wagner (PT), são aprovados por 6% e 4%, respetivamente, mas rejeitados por 63% e 57%. Por outro lado, Haddad é "desconhecido" de 31% e Wagner, de 39%.

No GGN
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Os detalhes da crise interna da BRF, maior companhia de SC

Gigante do setor de carnes tem 21 mil funcionários em Santa Catarina
Como uma empresa saudável vai do lucro bilionário ao prejuízo milionário de um ano para o outro? A resposta pode estar no cenário atual da BRF, que passou de um lucro líquido de R$ 2,9 bilhões em 2015 para seu primeiro prejuízo desde que foi criada, de R$ 375 milhões, em 2016. No ano passado, o rombo alcançou R$ 1,1 bilhão.

Com esse cenário, não foi surpresa o novo capítulo que se abriu em 24 de fevereiro para a maior companhia catarinense, que surgiu da fusão da Sadia e da Perdigão em 2009. Os fundos de pensão da Petrobras e do Banco do Brasil (Petros e Previ, respectivamente), maiores acionistas da empresa, pediram que o conselho de administração convocasse uma assembleia geral extraordinária para deliberar sobre a destituição de todos os seus membros, inclusive do presidente, Abilio Diniz.

A queda do executivo ocorre porque a maioria dos acionistas está insatisfeita com os resultados. A raiz do problema, avaliam ex-executivos da empresa, foi levar a lógica e a agressividade do mercado financeiro para um setor cheio de peculiaridades. Para quem vive de dividendos, ter ações da BRF passou a ser um mau negócio. A promessa do empresário, assim que entrou na companhia, em 2013, foi de que os papéis, que então estavam na casa dos R$ 40, chegassem aos R$ 100 em 2017. No final do ano passado, alcançavam R$ 36. Nesta semana, bateram os R$ 30.

Em seu comunicado ao mercado, a Petros afirma que é necessário “buscar a reformulação da estratégia de gestão” e que “a estratégia implementada até o momento não surtiu os resultados desejados”. A gestora britânica Aberdeen, quarta maior acionista, declarou apoio aos fundos de pensão. Entre os que não apoiam mais a permanência de Diniz também estão os integrantes do conselho da companhia e herdeiros da Sadia Walter Fontana e Luiz Fernando Furlan, que, com Eduardo D’Ávilla, outro herdeiro da marca, somam quase 9% do capital.

Outro herdeiro da Sadia, mas hoje com poucas ações da BRF, seu ex-diretor Institucional e ex-secretário da Fazenda de SC, Felipe Luz, prefere romper o silêncio. Enteado de Attílio Fontana, diz que os resultados da empresa estão preocupando muito os acionistas, principalmente os fundos de pensão, que precisam de dividendos para pagar as aposentadorias.

– Em todos os lugares em que passou, o Abilio Diniz criou atrito. Ele é muito prepotente – diz Luz.

Décio da Silva, presidente da WPA Participações e Serviços, a holding das três famílias fundadoras da WEG, que detém cerca de 3,5% da BRF, prefere o silêncio. A WEG ficou à frente da gestão da Perdigão e da BRF por 20 anos, e Décio estava no conselho quando Abilio assumiu. Foi o único a votar contra a entrada do ex-Pão de Açúcar no comando. No ano seguinte, Silva deixou o colegiado.

O próximo capítulo da dona das marcas Sadia e Perdigão será conhecido nesta segunda-feira, data da assembleia extraordinária. Diniz chegou a divulgar na semana que passou uma carta em resposta aos fundos, na qual admite que a situação da BRF não é boa, mas fez questão de escrever que todas as decisões foram tomadas em conjunto, pelo conselho, em sua maioria de forma unânime. Também reclama da falta de diálogo e afirma não ter tido tempo de implementar um plano de ação, que seria apresentado na próxima semana.

Só que o plano veio tarde. Não é de hoje que há insatisfação com sua gestão e com a da Tarpon, principal aliada do empresário. O caminho que levou à situação atual começou em 2013, quando Diniz comprou ações da companhia, um ano após perder o controle do Pão de Açúcar. Em seguida, tomou o lugar de Nildemar Secches na presidência do conselho, profissional experiente na agroindústria.

– Eles (Diniz e Tarpon) usaram o discurso de que a empresa era lenta, de que iam reestruturar e dar agilidade. Só que o Abilio fala muito e faz pouco. E foi muito ruim a forma como ele começou – afirma, sob anonimato, um ex-executivo da BRF.

Conflitos e erros de estratégia

A divisão entre Sadia e Perdigão fica evidente nos primeiros minutos de conversa com profissionais que passaram pela BRF. Até hoje, é uma questão mal resolvida, que provoca conflitos internos e tem participação na crise pela qual a empresa passa. Há quem afirme, inclusive, que os cortes que se seguiram à saída de Nildemar tiveram como alvo, majoritariamente, executivos com origem na Perdigão.

Esses cortes são considerados, aliás, o primeiro grande erro da gestão Diniz. A operação para demitir diretores e gerentes, batizada de “Tempestade na Fábrica” – uma alusão à “Tempestade no Deserto”, que iniciou a Guerra do Golfo em 1990 –, limou dezenas de executivos, muitos com décadas de história na Sadia ou na Perdigão. A BRF não só perdeu esses talentos, como fez com que a concorrência os ganhasse, já que muitos migraram para a JBS.

– O primeiro erro foi abrir mão de todos os talentos que conheciam a cadeia. É uma cadeia muito extensa, que começa na genética das avós (das aves), estamos falando de três a cinco anos de ciclo. É um setor no qual cabelo branco faz diferença. A BRF abriu mão desse conhecimento, entendendo que gestores de outras áreas iriam oxigenar a empresa. Mas isso não aconteceu porque produzir frangos e suínos é diferente de administrar banco, de administrar uma startup. É complexo – diz outro ex-executivo da BRF, também em off.



Em 2015, Abilio fez do jovem Pedro Faria, sócio da gestora Tarpon, presidente da BRF. Ele entrou no lugar de Claudio Galeazzi – também trazido por Abilio – que teve como missão promover a Tempestade na Fábrica.

Naquele ano veio o segundo erro estratégico. A BRF consumiu boa parte de seu estoque de ração, apostando na queda dos preços dos grãos. Na verdade, houve uma virada nos valores do insumo, jogando os custos para o alto. Quem conhecia a cadeia já esperava por isso, mas a BRF acabou pega de surpresa e levou um prejuízo.

Somaram-se a essa outras falhas, como a de estratégia de marketing em relação às marcas Sadia e Perdigão. Mesmo conhecidas há décadas pelo consumidor e já consolidadas, a BRF tentou mudar a orientação de ambas, transformando a Sadia em uma marca premium, mais cara, e a Perdigão em uma mais popular. No fim das contas, o consumidor não topou pagar a mais pela Sadia, e os resultados com o reposicionamento da Perdigão também não foram bons. As duas perderam espaço no mercado para concorrentes.

Para sair do buraco em que se meteu, estimam profissionais do segmento, a BRF levará anos. E agora, na avaliação do mercado, um novo presidente do conselho, por melhor que seja, precisará enfrentar um fogo cruzado, a não ser que todo o grupo seja renovado. Há quem aposte na volta de pessoas próximas a Secches, mas que acham menos provável o retorno do próprio Nildemar:

Ventila-se até a possibilidade de compra da empresa, com uma oferta hostil da Tyson – quando não há negociação com a diretoria ou os controladores da empresa, apenas uma oferta feita ao mercado acionário –, que deixou o Brasil em 2015. Procurada, a norte-americana diz que não comenta “rumores” de mercado.

Pedro Faria, Abilio e BRF foram procurados pela reportagem, mas não se pronunciaram a respeito.

Casamento conturbado

Desde maio de 2009, a BRF reúne duas marcas icônicas do agronegócio brasileiro e mundial, a Sadia e a Perdigão, uma união de duas antigas rivais que não aconteceu sem uma dose de drama.

Pioneira agroindústria catarinense, fundada em 1934 pela família Brandalise, a Perdigão também tem sua história triste para contar: faliu em 1993. Para salvar o negócio, um dos acionistas na época, o então presidente do conselho da WEG, Eggon João da Silva, articulou com fundos de pensão e com o Bradesco para obter recursos e salvar a empresa. Deu certo. Eggon assumiu a presidência da Perdigão até 1994, quando passou o bastão para Nildemar Secches, ex-BNDES, ficando no conselho.

A Perdigão passou a ter gestão austera, investimentos elevados, crescimento consistente e praticamente se igualou à Sadia. Mas a Sadia achou que tinha fôlego para comprar a rival e fez uma oferta hostil em abril de 2006, que foi logo rejeitada pelos acionistas da Perdigão.

Em 2008, quem faliu foi a Sadia, após cavar um rombo bilionário ao investir fora de seu setor, apostando em derivativos cambiais. Afundou quando a falência do banco norte-americano Lehman Brothers elevou o dólar e deu início à crise global. Nessa situação, acabou sendo fundida com a Perdigão em 2009.

Com a criação da BRF, o grupo da Perdigão, liderado por Secches, então presidente do conselho, seguiu ditando o modelo de gestão da companhia, aquele alinhado com a gestão WEG. No entanto, a Tarpon e outros fundos consideravam os resultados insuficientes e apoiaram a entrada de Abilio Diniz, que chegava com promessas vistosas.

A situação atual mostra que a gestão anterior, exercida por quem entendia a realidade do agronegócio de carnes, teria acabado melhor.

Larissa Linder | Estela Benetti
No DC
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O estranho caso do advogado internacional que virou blogueiro


De repente, como surgido do nada, um perfil de Facebook, de nome Romulus Maia, tornou-se ativista das redes sociais e uma figura controvertida, com manifestações confusas, agressivas, culminando com ataques pesados contra duas das principais lideranças da oposição.

Afinal, quem é a pessoa? Apresenta-se como Romulus Maia. Diz que Maia é nome da sua cachorrinha. Diz que mora na Suíça e é advogado internacionalista. Desafiado, mostrou sua carteirinha da OAB-RJ com tarjas em todos os campos em que pudesse ser identificado.

Em princípio julguei ser apenas uma dessas pirações de Internet, fruto da falta de discernimento de lideranças de esquerda, dispostas a encher a bola de qualquer pessoa que lhes traga visibilidade, sem perguntar quem é e o que quer.

Atribuí os factoides criados, os falsos escândalos, a algum temperamento borderline, que tende a se potencializar nas libações da Internet.

Mas havia método na loucura, que se tornou mais claro quando passou a investir pesadamente contra os deputados Paulo Pimenta e Wadih Damous e contra blogs de oposição.

Aí levantou-se uma lebre que levou o caso a outro patamar, acima das quizílias de blogs e redes sociais.

As pesquisas revelaram um perfil surpreendente.

O advogado que preparou Angola para a Trafigura.

No artigo “Como a Lava Jato beneficiou a principal concorrente do Brasil na África”, mostramos como foi a entrada da Trafigura em Angola e o oceano de corrupção instalado no governo local. Apenas um dos laranjas do presidente acumulou fortuna estimada em US$ 1 bilhão.

A entrada da Trafigura foi precedida pelo trabalho dos chamados “formadores”, consultores que foram ao país preparar a opinião pública para os novos tempos. Esse trabalho prévio dos “formadores” foi essencial para as etapas seguintes, que transformaram Angola na mais corrupta república da África.

Um desses “formadores” era justamente o jovem advogado Rômulo Brillo.  Em 21 de julho de 2011 foi vender as maravilhas do capital internacional para Angola no seminário “Investimento direto confere estabilidade ao país”.

Seu nome real é Rômulo Soares Brillo de Carvalho.  Formou-se em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em 2006. Fez pós-graduação lato sensu em Direito do Comércio Internacional em 2008. Tornou-se, desde então, um estudioso das relações entre capital internacional e países, procurando formas de blindar o capital internacional dos humores dos governos nacionais.

Em Angola, o “formador” Rômulo Brillo explicou o seguinte:

“sublinhou o momento atual do país ser importante para a economia angolana, pois, depois de conquistada a estabilidade, o Governo está a negociar e a celebrar tratados internacionais com parceiros econômicos e está a reformar e promulgar leis internas que versam sobre regulação do investimento estrangeiro”.

Referiu que o investimento estrangeiro é importante para a estratégia de desenvolvimento de qualquer país e fundamental para Angola no seu objetivo de diversificar a economia.

Por isso, disse, " tivemos oportunidade de estudar a importância desses investimentos e também a complexidade e os problemas que podem gerar, desenvolvemos técnicas de melhor governação e de prevenção de controvérsias para que o país possa desfrutar dos benefícios desses regimes internacionais e ao mesmo tempo poupar os seus recursos", sublinhou”.

O advogado do capital multinacional

Antes disso, no campo acadêmico, seus estudos se concentraram especificamente em discutir as melhores maneiras de evitar abusos dos estados nacionais contra o investimento externo.

Ainda na Faculdade de Direito, mereceu agradecimento especial de Marilda Rosaldo de Sá Ribeiro, por sua contribuição ao livro “Direito dos Investimentos e Petróleo”, cuja preocupação maior era sobre a insegurança jurídica para investimentos de longo prazo em petróleo e gás.

“Pretendemos neste artigo focalizar a renovação do interesse na regulação internacional dos investimentos no Direito Internacional Contemporâneo e a relevância do tema para os estudos sobre o petróleo e o gás. Os investimentos na indústria do petróleo, pela duração e risco envolvidos, são um paradigma das intempéries a que se sujeitam os investimentos diretos, de longo prazo, mais vulneráveis às oscilações e mudanças introduzidas pelos países hospedeiros em suas políticas”.

Com um ano de formado, participou de audiência pública da ANP (Agência Nacional de Petróleo), como advogado da Leite, Tosto e Barros Associados, com preocupações sobre medidas judiciais na 9º rodada do pré-sal.

Em 2011 terminou seu mestrado sobre “O segundo tempo do regime internacional de investimento: a nova geração de tratados e a prevenção de controvérsias investidor-Estado”.

O livro defende o direito internacional, sobrepondo-se aos nacionais, e discute maneiras de evitar conflitos com os tribunais internacionais focados em direitos humanos e meio ambiente.

A ida para o WTI

Depois da UERJ, passou por universidades em Barcelona e foi parar na World Trade Institute (WTI).

Segundo seu site, trata-se de “uma instituição acadêmica líder dedicada ao ensino e pesquisa focada no comércio internacional e regulação de investimentos e globalização econômica e sustentabilidade. Como centro de excelência na Universidade de Berna com foco internacional e interdisciplinar, exploramos as interconexões entre os campos do direito, da economia e da ciência política”.


François criou laços diretos entre o WTI e o Yale Center for the Study of Globalization, cuja missão maior é “de entender a globalização e as instituições e políticas necessárias para aprimorá-la como uma força para o bem”. O centro participou do Comitê Zedillo, em homenagem ao presidente mexicano Ernesto Zedillo, que assinou o tratado da ALCA com os Estados Unidos.


Rômulo Brillo tem sete papers no WTI. Junto com Katja Gehne  em março passado lançou o pequeno livro “Cláusulas de Estabilização Internacional. Lei do Investimento: além do equilíbrio”.

Em 2010, concorrendo pela Universidade de Barcelona foi o 4º colocado no concurso Foreign Direct Investment International Arbitration Moot, no King's College. FOI considerado resultado excepcional, pois era a primeira vez que a Universidade concorria.

Esse sucesso deve tê-lo ajudado a se tornar um “formador” em Angola, atuando como batedor da Trafigura, e a passar a integrar os quadros do WTI.

A missão da WTI é clara, de ser da linha de frente da globalização:

Nós recrutamos estudantes, pesquisadores, professores e funcionários de todo o mundo, criando uma cultura diversificada e ambiente estimulante. 
(...). A WTI coopera estreitamente e compartilha suas instalações com o Instituto de Direito Econômico Europeu e Internacional.

Pretendemos moldar a política pública para que a governança econômica internacional gere benefícios tangíveis para a sociedade

Nós nos esforçamos para ser a principal instituição acadêmica mundial de estudos, ensino e pesquisa no comércio internacional e regulação de investimentos e globalização econômica e sustentabilidade.

A preocupação maior é a segurança dos investimentos e, para tanto, a consagração de tribunais internacionais de conciliação, em lugar das justiças nacionais:

“Os capítulos de investimento começaram a ser incluídos em certos acordos de comércio preferencial (PTAs) seguindo o exemplo de NAFTA incorporando proteção de investimento em Cadeias de Valor Global (GVCs). É notável que a maioria dos AIIs permite que investidores estrangeiros desafiem ações governamentais fora dos tribunais locais, usando provisões de solução de conflito entre investidores e estados (ISDS) para desencadear arbitragens vinculativas do Estado investidor.

Uma de suas grandes preocupações é, justamente, com o avanço dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e seus impactos sobre os países europeus.

Em 2013, Rômulo Brillo voltou a participar de um Seminário, na Segunda Conferência da Rede Africana de Direito Econômico Internacional.

Participou também do livro “International Economic Law and African Development”.

A grande interrogação

E aí se volta à questão inicial.

A WTI tem especial interesse em estudar os mercados globais de commodities, já que a Suíça se transformou em um grande centro. A maior multinacional suíça de commodities é justamente a Trafigura, que é parceira da WTI em inúmeros projetos, como o The Commodity Sector and Related Governance Challenges from a Sustainable Development Perspective: The Example of Switzerland - Current Research Gaps.

Conforme denunciamos na série sobre a “delação premiada”, até agora a Lava Jato poupou de maneira suspeita a Trafigura, maior multinacional suíça e envolvida até o pescoço no escândalo da Petrobras. Mas o inquérito permanece no ar, como um ectoplasma assombrando uma das maiores máquinas de corrupção do planeta, a empresa que conquistou Angola, passando a controlar não apenas a exploração, como a importação e a venda de combustíveis.

Enquanto o inquérito não for arquivado, ou a Lava Jato for desmontada, há um perigo latente para a Trafigura, já que a exposição de sua corrupção com a Petrobras afetaria seus negócios globalmente.

Por que um jovem e promissor advogado, um estudioso das questões internacionais, um membro da WTI, um “formador” que ajudou a desbravar países como Angola para a Trafigura, perderia tempo tentando se transformar em agitador político pelas redes sociais e investindo contra blogs e lideranças políticas que estão na linha de frente da resistência?

Todo seu tempo é dedicado ao blog e aos ataques, criando factoides, às vezes alguns fatos reais, mas sempre com uma ansiedade incompreensível para implodir a Lava Jato, a ponto de atacar parlamentares e blogs que não compactuem com sua pressa e com suas teorias.

 É possível que a agressividade e ansiedade do blogueiro tenha um fundo emocional. É possível que não.

Mas certamente ele não deixará seu público sem respostas satisfatórias para essas indagações.

Luís Nassif
No GGN
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