3 de mar de 2018

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Duas figuras que nunca devemos esquecer, sobretudo em tempos de indigência

Darcy Ribeiro e Florestan Fernandes: Nesse momento de indigência moral e de decadência institucional do país, lembrar de homens públicos e intelectuais de grandeza ética talvez ajude a arejar.

Darcy Ribeiro e Florestan Fernandes.
Foto Pragmatismo Político
Certa vez presenciei uma divertida conversa entre o senador Darcy Ribeiro, recém-chegado ao Senado, e o então deputado constituinte Florestan Fernandes.

Darcy dizia em tom de brincadeira a Florestan que na eleição seguinte ele devia deixar a câmara baixa (Câmara dos Deputados) e se candidatar à câmara alta (Senado Federal).

Venha pra cá, Florestan! Isso aqui é um pedaço da corte! No Brasil, o lugar mais próximo do céu é o Senado da República. Aqui a gente tem tudo que quer. Basta desejar alguma coisa que aparece um funcionário para lhe servir. Os dois estavam impressionados com os ares monárquicos da Praça dos Três Poderes”.

O professor Florestan dizia que, apesar de tudo, um dos pontos mais interessantes para se observar o Brasil era o Congresso Nacional e que no Plenário chegavam fragmentos políticos, sociais e culturais do país trazidos por cada parlamentar.

Disciplinado, cumpria rigorosamente os horários das sessões. Sentava-se na mesma cadeira e prestava atenção nos discursos de cada um com o devido respeito, apesar da grande maioria das intervenções serem de baixíssimo nível. Às vezes pedia aparte e debatia os assuntos com a erudição do cientista social que era, cumprindo sua função parlamentar. O burburinho do Plenário abrandava para ouvir o mestre.

Ao mesmo tempo era um homem despojado, almoçava todos os dias no restaurante dos funcionários. Não costumava ir ao mais frequentado pelos parlamentares.

Ele era tão cuidadoso com a própria conduta que certo dia, em São Paulo, passou mal em casa à noite, chamou um táxi e foi para o hospital do servidor. Dona Myriam, mulher dele, preocupada, ligou para Florestan Fernandes Júnior, que estava na TV e pediu para que ele fosse ao hospital acompanhar o pai.

Quando o filho chegou, o professor Florestan estava numa fila enorme para ser atendido. Ele sofria de hepatite C, doença que havia se agravado e lhe causava crises muito fortes.

Florestan Júnior perguntou por que ele, como deputado, não procurou o hospital Albert Einstein, o Sírio Libanês, ou outro que pudesse atendê-lo com rapidez e em melhores condições. Ele respondeu que era servidor público e que aquele era o hospital que teria que cuidar dele.

Perguntou também por que ele estava na fila, em vez de procurar diretamente o atendimento de emergência. Ele disse que estava na fila porque tinha fila e que todas as pessoas estavam ali em situação semelhante à dele, com algum problema de saúde, e que ele não tinha direito de ser atendido na frente de ninguém.

Percebendo a gravidade da situação, o filho foi ao plantonista. O professor Florestan só saiu da fila depois que o médico insistiu para que ele entrasse, deitasse numa maca e fosse medicado.

Na parede onde a maca estava encostada havia um quadro de avisos. Enquanto tomava soro na veia, olhando ao redor, viu afixado no canto do quadro um recorte de jornal amarelado pelo tempo. Apontou o dedo e disse ao filho:

– Olha, é um artigo meu, publicado no jornal Folha de S. Paulo. Nesse eu defendo a saúde pública.

Como nos meses seguintes as crises tornaram-se cada vez mais fortes e frequentes, os médicos que cuidavam dele decidiram fazer transplante do fígado.

Na época, Fernando Henrique Cardoso, seu ex-aluno na USP e amigo pessoal de muitos anos, era presidente da República e ficou sabendo que o professor Florestan faria a cirurgia.

Imediatamente ligou para ele, ofereceu traslado e a realização do transplante no melhor hospital de Cleveland, nos Estados Unidos. Florestan tinha alta comenda do país, a Ordem de Rio Branco, que lhe facultava certas prerrogativas.

Florestan agradeceu a gentileza de Fernando Henrique e disse que não poderia aceitar o privilégio. Que aceitaria se ele fizesse o mesmo com todos os brasileiros em situação mais grave do que a dele.

Em seguida ele fez o transplante em São Paulo e morreu no hospital por complicações pós-operatórias provocadas por erro humano.

Nesse momento de indigência moral e de decadência institucional do país, em que autoridades como magistrados, procuradores, parlamentares, ministros, o presidente da República, posam com exuberantes imposturas, usam e abusam dos cargos e funções públicas que ocupam para tirar proveitos próprios, lembrar de homens públicos e intelectuais de grandeza ética como o professor Florestan Fernandes e o professor Darcy Ribeiro talvez ajude a arejar o ambiente degradado da sociedade brasileira pelo golpe de Estado.

Laurez Cerqueira
No Desacato
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Como os Estados Unidos seduzem autoridades brasileiras para conseguir o que querem

Fernando Henrique, num de seus muitos encontros com Bill Clinton
Em 1920, o então presidente dos Estados Unidos, Warren G. Harding, disse: “Esta é uma nação essencialmente de negócios”. Seu sucessor, Calvin Coolidge, complementou: “O negócio da América são os negócios”.

Os Estados Unidos não têm amigos, têm interesses e, em nome deles, até mantêm uma política de amizades aparentes.

Digo isso a propósito da decisão do governo de Donald Trump de sobretaxar a importação de aço, que atinge em cheio as siderúrgicas brasileiras.

Ainda trabalhava na Globo quando ouvi de uma autoridade brasileira, quadro do governo de Fernando Henrique Cardoso, como se deu o relacionamento dele com o Departamento de Estado americano.

No início dos anos 2000, ele recebeu o telefonema da Embaixada dos Estados Unidos e foi convidado para participar de um programa mantido pelo Departamento de Estado.

Poderia conhecer qualquer lugar nos Estados Unidos, com todas as despesas pagas, inclusive de tradutor. A única exigência é que fizesse algumas visitas, uma delas ao Departamento de Estado.

Ele fala inglês, mas contratou o tradutor, que fez as vezes de motorista. Dinheiro não era problema.

Ele passou um mês nos Estados Unidos.

Quando retornou, passou a receber convites para eventos no Consulado dos EUA em São Paulo, cidade onde mora.

Ele e a mulher também fizeram amizade com um casal de funcionários do Consulado. Jantavam na casa um do outro. Iam a restaurantes, peças de teatro, espetáculos de balé.

Um dia, durante um jantar, já desconfiado, resolveu perguntar:

— Vocês são da CIA?

— Sim, somos — respondeu um deles.

A resposta o desconcertou, e ele perguntou se a natureza do trabalho na CIA não era o sigilo.

— Não somos espiões, somos analistas e fazemos parte de um programa para fazer amigos dos Estados Unidos em outros países.

A conversa prosseguiu e eles disseram que os Estados Unidos tinham sido surpreendidos por alguns eventos no mundo, como a revolução em Cuba, em que descobriu que não tinha fontes confiáveis fora de seu território.

Não sabia nada a respeito de Cuba.

Muito tempo depois, segundo eles, descobriu-se que, em vez de manter espiões em território estrangeiro, era mais fácil fazer amizades.

— Eu cheguei a dar informações para eles, nada que eles não viessem a saber depois, pela imprensa, mas há uma diferença entre tomar conhecimento pela imprensa e ouvir da boca da própria autoridade — diz ele, que, naturalmente, me contou a história com a condição de que não revelasse seu nome.

Assim são os Estados Unidos, na defesa do seu interesse.

Quem passa informação pode também fazer outros favores. Natural numa relação de amizade.

Em seu diário sobre a presidência, no volume I, Fernando Henrique Cardoso conta, cinco meses depois de assumir a presidência, em 1995, foi convidado para visitar os Estados Unidos.

Esteve com Bill Clinton e depois almoçou com o vice-presidente, Al Gore.

— Sentou-se à mesa um presidente ou dono, sei lá o quê, da Raytheon, que é a empresa do Sivam-Sipam. Eu não tinha nem sido avisado disso. A esposa dele estava ao meu lado, não tocou no assunto, no que foram gentis. Ao mesmo tempo, deram um sinal do interesse que têm por esse projeto — registrou o então presidente.

A Raytheon, como se sabe, viria a ser escolhida para tocar o projeto bilionário de monitoramento da Amazônia,

E o Brasil? Como defende seus interesses?

Desde que começou o movimento que resultaria no golpe, o Brasil cedeu bastante: mudou as regras de partilha dos poços do pré-sal, exatamente como José Serra disse à americana Chevron que faria, segundo telegrama que veio à tona pelo Wikileaks, abriu negociações para o aluguel da Base de Alcântara, fez treinamento militar conjunto com tropas americanas na Amazônia, negocia a venda do controle acionário da Embraer, mudou as regras para contratação de prestadores de serviço da Petrobras, acabando com a exigência do conteúdo nacional, além de iniciar a venda intensa de ativos públicos, como a Eletrobrás, e fazer um acordo para a Petrobras indenizar investidores americanos, entre outras medidas (a lista é grande).

— O Brasil está sendo vendido, pedaço por pedaço — alertou Dilma Rousseff, no Twitter, com a experiência de quem ficou mais de cinco anos no Planalto.

E, por essas entregas, o que o país recebeu em troca?

A sobretaxa do aço, um bem importante para a economia brasileira.

O Brasil está sob ataque e, hoje, não há uma instituição brasileira que defenda o país.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Maior caverna inundada do mundo é encontrada no México


Recentemente no México foi descoberta a caverna inundada mais extensa do mundo, que se estende por 347 quilômetros abaixo da terra.

A caverna conecta os sistemas de Sac Actun e Dos Ojos (Dois Olhos) no noroeste da cidade de Talum, no estado mexicano de Quintana Roo, revela o comunicado da equipe subaquática do Gran Acuífero Maya (GAM), que trabalha em conjunto com os pesquisadores do Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH).

Essa descoberta transforma o Sistema Dois Ojos, que é o menor dos dois, em parte do Sistema Sac Actun, de acordo com normas mundiais da espeleologia.

A nova caverna foi descoberta graças a vários meses de trabalho realizado pelos pesquisadores: "A equipe conseguiu — depois de uma intensa temporada de trabalho de 10 meses — encontrar a conexão de dois dos maiores sistemas de cavernas inundadas do mundo", explica o comunicado.

No México foi descoberta a caverna inundada maior do mundo

O diretor do projeto GAM e pesquisador do INAH, Guillermo de Anda, qualificou a descoberta como "espantosa" e expressou a esperança que isso ajudará a compreender melhor o desenvolvimento da vida na península de Iucatã. Essa área é arqueologicamente rica em relíquias monumentais da civilização maia, cujas cidades se baseavam na extensa rede de poços vinculados a águas subterrâneas chamadas cenotes.



"Dá-nos uma enorme e maravilhosa perspectiva para entender os padrões do antigo assentamento, e como eles poderiam ser desenvolvidos", explica de Anda.

No Sputnik
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Debandada geral: Deputados do MDB estão de malas prontas para outros partidos, diz jornal


O partido do presidente Michel Temer, MDB, pode sofrer severas baixas a semanas do fim da janela para transferência entre partidos antes das eleições. De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, até 15 parlamentares podem deixar a sigla até abril.

As informações estão na coluna Painel do jornal neste sábado. Confirmadas estão as saídas do ex-candidato à prefeitura de Belo Horizonte em 2016, Rodrigo Pacheco, do ex-ministro da Justiça de Temer, Osmar Serraglio, além de outros seis congressistas do Rio de Janeiro e dois da Paraíba.

Também está no radar do partido o ex-prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes, que também pode abandonar o MDB, dificultando uma possível aliança com o pré-candidato do PSDB, Geraldo Alckmin.

Nomes novos

A sigla, porém, deve receber novos nomes para compensar as perdas. Entre os nomes cotados estão o do deputado matogrossense Valtenir Pereira (PSB), investigado por supostamente utilizar sua rede de postos de combustível para lavagem de dinheiro em esquemas de corrupção e Beto Mansur (PRB), denunciado pela Procuradoria Geral da República por sonegar ao menos R$797 mil ao Imposto de Renda de 2003. Entre possíveis nomes estão também o pastor evangélico Roberto de Lucena (PV) e Maria Helena (PSB).

No Sputnik
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Os “Pequenos” Princípios do Pequeno Príncipe


Os “Pequenos” Princípios do Pequeno Príncipe
A leitura (ou mesmo releitura) de “O Pequeno Príncipe”, um clássico de Antoine de Saint-Exupéry, nos remete a muitos conceitos que estão deveras esquecidos atualmente, tais como amor ágape e zelo com os semelhantes. Neste artigo dedicar-me-ei a dissertar sobre essa temática tentando obedecer à forma sutil que são abordados nessa obra esplêndida.

No começo do livro ocorre uma descrição do lar do principezinho, chamado de asteroide B-612, e do que é munida a sua riqueza: 3 (três) vulcões que lhe batem pelos joelhos, um dos quais extinto; alguns baobás  os quais ele se preocupa em remover, antes que cresçam) e a rosa (essencial em sua trajetória pois lhe era preocupação corriqueira em seu cotidiano).

Todavia, o príncipe resolve explorar o universo e contempla uma série de pessoas e preocupações diferentes das suas, justo o foco dessa explanação. Esse choque cultural o leva a refletir sobre seus princípios e o que move a rotina daquelas pessoas.

A priori ele depara-se com um “Rei” que tinha um local para governar, mas sem súditos… Pessoas essas que poderiam ser aqueles que foram cativados e poderiam seguir tal rei e seus propósitos, mas graças ao egoísmo e excesso de controle do tal não se animavam a se manter sob essa custódia.

Encontrou-se ainda com o “Vaidoso”… Persona essa que possuía o narcisismo como maior característica, característica essa tão presente no mundo de hoje graças ao exacerbado uso de redes sociais e a incessante busca por atenção tem tornado as pessoas cada vez mais imediatistas e ansiosas.

Num outro momento encontrou-se com o “Homem de Negócios”, sendo que este vivia demasiadamente ocupado todo o tempo com seus intermináveis cálculos sobre “suas” estrelas e não gozava de tempo para aproveitar a vida e contemplar os singelos momentos dos quais o menino de cabelos loiros gostava de usufruir.

Encontra ainda com o bêbado que segue um processo cíclico onde bebe para esquecer dos problemas e beber é um problema também. Essa imersão do bêbado o mantém inerte e sem tentar contornar esse círculo vicioso e tomar outros rumos para sua vida.

Quando veio nos visitar na Terra, se deparou com várias rosas idênticas à que ele possuía e profundo pesar e tristeza recaíram sobre ele. Encontrar tamanha abundância de algo que ele considerava ser único detentor o fez desabar em lágrimas. Frente a algo que tinha como de sua exclusiva posse e que poderia ser digno de muito prestígio já não era mais tão destacado quanto se pensava.

Em quantas situações você já se deparou com algo que julgava ser somente seu? Quantas vezes já se colocou em descrédito ou tentação graças ao fato de encontrar cópia ou algo que julga ser mais interessante do que possui e cai na eterna insatisfação humana de sempre buscar satisfação no que não se tem posse contra ao que já se possui?

Após reflexão, o principezinho nota quão una é a rosa que ele tem graças a todo histórico vivenciado com a mesma, todos momentos em que ele cuidou e viveu com ela… Feitos esses que a diferenciam de todas as outras que ele encontrou aqui na Terra… Feitos esses que a tornam exclusiva para ele.

Durante a passagem dele pelo Planeta Azul, encontra ainda uma raposa, que não tinha afinidade com nenhum outro ser e receava-se dos humanos. Agia de tal modo pois caçava as galinhas e, devido a este, os humanos a caçavam. Necessitava de alguém que a cativasse de fato para que ela partilhasse em troca toda sua lealdade e amizade fidedigna.

Após instruir os passos a serem dados para o nosso protagonista e ele seguir de forma direta todas as instruções fornecidas, um vínculo foi criado entre eles que é exibido pelo contexto “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

Eis que nosso Príncipe encontra-se com um aviador que teve pouso forçado no meio do deserto (e que havia tido experiências fracassadas de desenhista em sua infância). Ele agia da forma como “os adultos agem” e interpela nosso pequeno com as respostas cruas e frias que a sociedade nos molda a copiar e repassar. O Princepezinho solicita a ele um carneiro que come baobás, porém após inúmeras tentativas de desenhar o animal, o desenho de uma caixa (com o carneiro “dentro”) sacia os quereres do nosso protagonista.

Tal modus operandi se torna habitual e cotidiano quanto mais se vivencia atualmente e com a automaticidade que nos é exigida frente a incessante cobrança por produção e resposta rápida. Estímulos diversos e quantidade grandiosa de informação nos são fornecidas atualmente,; todavia, tamanha estimulação “nos deixa sem tempo” para um dos hobbys preferidos de nosso menino loiro: vislumbrar um pôr-do-sol, por exemplo.

Durante sua (aparente?) morte após ser picado por uma serpente,  o Príncipe retoma o ponto da água que ele e o aviador partilharam no poço e que tal momento lhe tinha sido único, pois estreitou os laços de amizade que possuíam, assim como o fizera com a raposa outrora.

Momentos simplórios assim colocam em xeque todo pensamento automático que nos acostumamos a ter pois justo esses momentos que ficaram na memória tanto do príncipe, quanto do aviador e da raposa. (Memórias marcantes essas que são demonstradas de forma cômica inclusive no filme “Click” de Adam Sandler onde ele ganha um controle que lhe possibilita controle sobre o tempo).

Teria o aviador, após a breve convivência de uma semana com o Pequeno Príncipe, mudado a ótica que possuía do mundo e notado que sua visão “adulta” de tudo que tinha se nublado para o que de fato se mostrava belo e empolgante para uma vivência plena e nos parâmetros ditos “infantis”?

Será que necessariamente “só se enxerga bem com os olhos do coração” como foi afirmado nessa obra?

Durante as visitas do protagonista, por diversos cotidianos e planetas, ele interage com diferenciados propósitos e cotidianos onde se depara com vistas rígidas e pouco empáticas com seu modo de enxergar o mundo. Porém, uma vez que jamais desiste daquilo que pergunta, mantém-se fiel aos seus propósitos e maneira de enxergar o simples na vida.

Como última reflexão, proponho: e quanto a ti, tens observado a vida por qual ótica?

Tarique Layon
No Desacato
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Amores

Se você anda se martirizando por não ter podido ver os filmes que concorrem ao Oscar, sossegue. Vi três dos oscaráveis de 2018 e posso resumi-los para que você participe de conversas sobre o assunto e minta com inteligência. Os três filmes que vi são sobre as diferentes manifestações de amor. O primeiro, A Forma da Água, é uma variação do velho tema do caipira na cidade grande. Um brasileiro, da Amazônia, é levado para os Estados Unidos, onde desperta o interesse de uma faxineira e - por razões que nunca ficam bem claras - dos russos. O que os russos querem com o amazonense permanece um mistério (teria algo a ver com uma resposta americana ao cachorro que os soviéticos colocaram em órbita da Terra treinado para dar gargalhadas sarcásticas cada vez que passava por cima dos Estados Unidos), mas o que a faxineira quer fica evidente quando ela, que é muda, usa linguagem de sinais, como puxá-lo para dentro da sua banheira junto com ela. Não vou contar como o filme termina, só dizer que as chances de o brasileiro conseguir um “Green Card” para poder trabalhar nos Estados Unidos são remotas, ainda mais com aquelas escamas e o presumível mau cheiro. Tudo parece se encaminhar para um final feliz à beira do Amazonas.

The Post também é uma história de amor, no caso o amor de jornalistas pelo jornalismo. Eu me comovi, não com o relato dos segredos do Pentágono revelados por jornais corajosos ou com a decisão da Suprema Corte americana - apesar de ser uma corte conservadora, na época - a favor dos jornais que o governo queria calar. Me comovi com os linotipos. A mudança da impressão quente para a impressão fria foi tão radical que fica difícil acreditar que se deu em tão pouco tempo. A era do chumbo acabou de um dia para o outro. E quem teve alguma vivência em gráfica de jornal não perde a lembrança daquelas velhas máquinas com algo de dinossauros, que literalmente soltavam fumaça. O amor pelo nosso passado também é um modo de nos autoelogiarmos. Nunca trabalhamos no Washington Post ou no New York Times, o que não impede que nos achemos formidáveis.

E, depois do amor pelo diferente no A Forma da Água e o amor pela cálida lembrança de uma máquina, o que não deixa de ser uma forma de tara, é bom poder falar de um filme que trata do amor convencional, normal, sem complicações: Me Chame pelo Seu Nome. Rapaz conhece rapaz, rapaz e rapaz se apaixonam, rapaz e rapaz se separam, sobe música romântica e fim. Ainda fazem filmes de amor como antigamente.

Luís Fernando Veríssimo
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O general dita a lei

No Rio, milhares de moradores são fichados, o direito de ir e vir, controlado, e cancelados direitos inscritos na Constituição

O vexame, naturalmente, é reservado aos mais pobres
É preciso combater com intensidade os traficantes. Disso, obviamente, ninguém duvida. Ousados, violentos e cruéis, impõem terror nas comunidades pobres. As facções disputam espaços a céu aberto, trocam tiros à noite e alastram o medo por toda parte.

A tarefa em questão é difícil de ser executada. Talvez impossível, enquanto houver quem venda e quem compre. É daí que brota o sentimento do vale-tudo, estimulado pela mídia e, também, a contumaz tentação de, no país do futebol, driblar a legalidade. Assim se fez.

Sob intensa pressão, o governador Luiz Fernando Pezão quase perdeu o lugar. Temer, no papel de bonzinho, veio a público dizer que evitou a demissão desejada pelos auxiliares do governo federal. Houve uma troca. Deram-lhe a chance de permanecer no poder, desde que cedesse ao interesse político.

No plano pessoal, tocando um estado em frangalho, foi melhor entregar um naco do controle estadual às ações das Forças Armadas. Desta vez, porém, apoiadas numa discutível intervenção. Os militares, assim, passaram a agir por conta própria. Ditam leis.

Moradores de comunidades da Zona Oeste da cidade sofrem o constrangimento de ser “fichados”. O direito de “ir e vir” é submetido às ordens do interventor, o general Braga Netto. Ficaram para trás direitos inscritos na Constituição. Uma quantidade elevada de cidadãos, da classe mais pobre, é claro, está sendo cadastrada e fotografada em nome da Lei e da Ordem.

O inciso 2º do artigo 5º da Constituição determina: “Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei”. Não há dispositivo na legislação brasileira que exija ao cidadão portar qualquer documento para, por exemplo, passear nos parques da cidade. Não é possível, portanto, ceder ao general-interventor a liberdade de criar e impor um dever.

Como acontece com frequência na história republicana brasileira, os militares nem sempre pedem à lei licença para agir. Esse quadro tem se repetido, assim como se repetem as vítimas de sempre. Os mais pobres, diga-se. Essa gente apreensiva se vê forçada a mostrar a carteira de identidade. E assim se faz.

A intervenção está prevista para acabar no dia 31 de dezembro. Uma data não muito distante da eleição presidencial, quando o País já terá se inteirado dos resultados previstos pelo cálculo político do governo federal para a economia e a segurança.

O desemprego, no entanto, persiste e a reforma da Previdência foi soterrada pela reação social. Temer perdeu neste caso o pilar sem o qual, ameaçava ele, o País não ficaria de pé. Lorota.

Restam os militares, neste momento os senhores da segurança pública. Temer, sem constrangimento, socorreu-se deles para testar suas oportunidades políticas. Ele anunciou isso quando a vaidade o engoliu: “Foi uma jogada de mestre”. É o que se vai ver. O Exército, agora em missão policial, não vai conter a violência.

Maurício Dias
No CartaCapital
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Estado brasileiro injetou R$ 3 bilhões nas empresas do grupo Riachuelo em 10 anos


O discurso liberal do empresário Flávio Rocha não encontra eco no balanço financeiro do grupo Riachuelo. Contabilizando isenções fiscais concedidas pelos governos federal e estaduais nos últimos 10 anos, sobretudo no Rio Grande do Norte e Ceará, além de 23 empréstimos aprovados junto ao BNDES entre 2009 e 2016, o Estado brasileiro injetou nas empresas do grupo Riachuelo o montante de R$ 3 bilhões no período. Parte desse dinheiro, relativo ao crédito adquirido junto ao Banco, já foi devolvido com juros subsidiados. O que chama a atenção no discurso do empresário é a defesa de um Estado mínimo e opressor para o segmento empresarial em contraposição ao papel da máquina estatal no fomento da economia de grandes empresas como a Riachuelo, seja via isenção fiscal ou empréstimos a juros bem abaixo do mercado.

Levantamento realizado pelo economista Aldemir Freire e divulgado nas redes sociais revela que de 2007 a 2017 as empresas do grupo receberam R$ 1,6 bilhão em incentivos fiscais dos governos federal e estaduais, onde a indústria Guararapes, braço têxtil da corporação, tem sede. A maior fatia desse montante é relativa a ICMS (R$ 1,02 bilhão) e o restante originário de Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ), cuja soma chega a R$ 590 milhões. O Rio Grande do Norte é responsável por mais de 40% da política de isenção fiscal que beneficiou a Riachuelo na última década. As fontes das informações pesquisadas pelo economista foram as próprias demonstrações financeiras da empresa divulgadas no site da Riachuelo, através do link Relações com Investidores. Já os valores dos empréstimos estão disponíveis para consulta pública do portal do BNDES.

Os incentivos concedidos ao grupo corresponderam a 33% do lucro líquido acumulado no últimos dez anos. A título de comparação, as isenções fiscais cedidas pelo Estado seriam suficiente para cobrir 119 anos de repasses do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) para a cidade de Caraúbas, berço do patriarca da Riachuelo Nevaldo Rocha, onde moram hoje 22,7 mil habitantes.

A Guararapes Confecções S/A se estabeleceu em Natal em 1959 e, desde então, recebe incentivos fiscais do Governo do Estado. As isenções de ICMS levantadas por Ademir Freire são referentes aos benefícios concedidos pelo Programa de Apoio ao Desenvolvimento Industrial do RN (PROADI) e pelo Programa de Incentivo ao Desenvolvimento Industrial do Ceará (PROVIN), programas semelhantes de concessão de incentivos. Já os benefícios relativos ao Imposto de Renda foram concedidos pela Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE).

Juros

No levantamento realizado pelo economista Aldemir Freire, também são comparados os juros que a Riachuelo paga pelos empréstimos adquiridos junto ao BNDES e os juros cobrados dos clientes pela empresa. A diferença impressiona. As taxas médias cobradas pelo BNDES são de 4,02% ao ano. Em contrapartida, os juros dos cartões Riachuelo variam ao ano de 149,03%, a até 875,25% ao ano.

Flávio Rocha defende isenções fiscais, mas é contra o BNDES

Empresário Flávio Rocha concedeu entrevista coletiva a jornalistas do Rio Grande do Norte antes do lançamento do Brasil 200

O empresário Flávio Rocha lançou dia 21 de fevereiro em Natal o projeto Brasil 200, movimento político que envolve os principais empresários do país em torno do conceito “liberal na economia e conservador nos costumes”. O nome do movimento é uma alusão às comemorações dos 200 anos da Independência do Brasil da colônia Portuguesa celebrados em 2022. O grupo deve apoiar um dos candidatos à presidência da República que mais se aproxime das ideias defendidas pelo movimento. Embora venha tendo o nome cogitado para concorrer ao pleito em outubro, Flávio Rocha nega que vá participar das eleições como candidato.

Durante coletiva de imprensa que antecedeu ao lançamento do Brasil 200 em Natal, a agência Saiba Mais questionou o empresário sobre os empréstimos adquiridos pelo grupo Riachuelo em detrimento da defesa do Estado mínimo feita por ele. Na ocasião, Flávio Rocha afirmou que a Riachuelo já pagou 90% do valor do empréstimo e declarou que, para ele, o BNDES não deveria existir.

– Pelo que você está falando parece que um aluno liberal, por exemplo, não pode estudar na UFRN, da mesma forma que eu que sou um liberal não posso usar uma estrada daqui até o aeroporto. Estou dizendo é que não devem existir esses mecanismos de deformação. Não tem que ter o BNDES. Agora seria uma penalização se toda empresa têxtil tivesse acesso ao crédito do BNDES e o Rio Grande do Norte não tivesse o mesmo acesso. Mas eu quero lhe dizer que eu preferia que não existisse BNDES porque o BNDES é uma máquina de quem sabe fazer para dar para quem sabe conversar. O  meu BNDES é o BNDES de Roberto Campos, que vendo a discrepância no Nordeste e como uma taxinha um pouquinho mais favorecida poderia ajudar, como ajudou. A diferença entre o veneno e o remédio está na dose. O BNDES do Foro São Paulo, dando bilhões à ditaduras bolivarianas, dinheiro que nunca veremos de volta, o BNDES para escolher os amigos do Rei como campeões nacionais… esse não é o BNDES de Roberto Campos. Então eu acho que a melhor coisa que precisa acontecer para uma empresa competente que sabe fazer no mercado é que não exista nada. Não queremos nada. Mas você falou que tivemos R$ 1,4 bilhão ? Pois esse dinheiro gerou 15 mil empregos em lojas e mais 65 mil empregos nos fornecedores. E já pagamos 90% disso.

Já em relação aos incentivos fiscais, o discurso foi outro. Flávio Rocha defendeu a política de isenções e afirmou que fazer uso desse mecanismo não altera sua convicção liberal.

– O incentivo fiscal não é uma invenção brasileira, é o instrumento mais eficiente que existe para discutir discrepâncias regionais. Eu sou velho o suficiente para lembrar o que tinha antes do incentivo fiscal: uma Sudene com um burocrata, muitas vezes não tão republicano, que olhava e dizia que ia te dar tanto de dinheiro, lhe dava o cheque, você vai, faz o seu galpão, pegava outro cheque para ir a Europa comprar os equipamentos, era subsídio direto. O incentivo fiscal é um grande avanço porque é automático: você deu emprego, você produziu, construiu a fabrica ? Então você tem o benefício automático. Se o seu concorrente paga 17% de ICMS, você paga só 7% se fizer uma fábrica no Nordeste, é inteligentíssimo, é uma prática universal. E isso não altera minhas convicções liberais.

Rafael Duarte
No Saiba Mais



Dono da Riachuelo “vende” sua candidatura para banqueiro preso na Lava Jato e para o filho de Crivella

Flávio entre os rapazes do MBL, Huguinho e Zezinho
Saiu na coluna de Lauro Jardim no Globo:

Flavio Rocha jantou ontem, na churrascaria Fogo de Chão, no Rio de Janeiro, com André Esteves e Marcelo Hodge Crivella, filho do prefeito carioca.

Segundo o dono da Riachuelo, conversaram sobre política. E André Esteves teria ficado “empolgadíssimo” com as ideias do “Brasil 200”, movimento que serve de vitrine para uma possível candidatura de Rocha.

Hoje, aliás, em um evento sobre segurança no Rio, Rocha não descartou uma possível candidatura à Presidência.

Após o evento, entrou em uma van acompanhado de Roberto Justus, membros do MBL e assessores. No caminho até o Santos Dumont, Justus ponderou que o movimento não devia aderir demais ao conservadorismo:

— Se não fica uma coisa TFP, pode acabar entrando no terreno da homofobia — disse Justus.

Flavio Rocha respondeu:

— Você tem razão e não é disso que se trata. Nós temos vários homossexuais do nosso lado. O ponto é que o Brasil está precisando de alguém que seja liberal na economia e conservador nos costumes. Precisamos atacar o gramscismo que está espalhado pelo país.

Esteves, fundador do Grupo BTG Pactual, passou três semanas em uma prisão do Rio de Janeiro, em 2015, como parte da Operação Lava-Jato. Na época, o Ministério Público alegou que ele tentou adulterar o testemunho de um ex-executivo da Petrobras.

O filho de Crivella foi impedido pelo STF de assumir a Casa Civil do governo do pai. A rede de ensino de computação gráfica e games que ele presidia entrou com pedido de falência depois de receber aportes milionário de investidores estrangeiros nos últimos anos.

Mas o problema é o “gramscismo”.

No DCM
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O show de cinismo de Moro em Nova York


Foi necessário que Sergio Moro viajasse a Nova York para ser interpelado sobre por que a Lava Jato vaza tanto para a mídia.

Em sua palestra na AS/COA, Moro foi questionado por uma jornalista da CNBC sobre as reclamações de advogados sobre as ilegalidades e a “metodologia” lavajatista.

Ela menciona os depoimentos passados para a imprensa “em questão horas”. “Seu departamento faz isso?”, pergunta. “É proposital?”

[no vídeo abaixo, a partir do minuto 38. Em inglês, sem legendas]

A resposta de Moro é um show de cinismo.

“Algumas vezes se faz uma confusão entre vazamentos e julgamentos públicos”, começa ele.

“Pode haver, durante a investigação, um ou dois vazamentos, mas posso garantir que não sou responsável por nenhum. E é muito difícil fazer uma investigação sobre vazamentos.”

Visivelmente desconfortável, ele olha para o mediador Brian Winter, da revista Americas Quarterly, editada pelos donos do evento, lembrando o caso Watergate. “Quanto tempo para descobrir o responsável?”

(Pobre Deep Throat, cuja conduta não tem absolutamente nada a ver com o modus operandi brasileiro).

Na defensiva, desafinando, ele alega que acha “errado ter essa atenção sobre os vazamentos” diante da “corrupção generalizada”.

“Uau. O problema são eles ou o comportamento criminoso dessas pessoas? Mas, de novo, sou contra os vazamentos. Como juiz, eu tenho que obedecer a lei estritamente, mas não vejo os vazamentos como o maior problema nesse caso”.

Trocando em miúdos, os fins justificam os meios.

Uau.

A propagação de informações sigilosas, que por lei deveriam ser mantidas em segredo, ocorre desde o início da Lava Jato. É sistemático.

A divulgação da delação de Delcídio do Amaral na Istoé foi instrumental para a deterioração da situação política do governo Dilma. A de Leo Pinheiro, da OAS, envolvendo o ministro Dias Toffoli, do STF, saiu na Veja.

Apesar do que declarou nos EUA, Moro lui même liberou para o Jornal Nacional o grampo da conversa entre Lula e Dilma em 2016, quando o e ex-presidente acabava de ser nomeado para o cargo de ministro da Casa Civil.

“Não me arrependo de forma nenhuma, embora tenha ficado consternado com a celeuma que a divulgação causou”, disse num convescote da Veja.

“As pessoas têm ilusões sobre alguns ídolos, mas é hora de verem a verdade”, afirmou SM à plateia americana.

A verdade está lá fora, diz o pessoal do Arquivo X.



Kiko Nogueira
No DCM
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A economia e o Manual da Redação da fAlha

As impropriedades econômicas do "principal jornal do país"


O Manual da Redação da Folha presta um enorme desserviço para a disseminação do conhecimento básico de economia. São duas as principais impropriedades cometidas: o reforço do pensamento único e naturalização das elevadíssimas taxas de juros brasileiras.

O pensamento econômico único

O tema economia é desenvolvido no Manual de modo a reforçar o pensamento único, isto é, o texto dá ênfase à ideia de que, em economia, existe somente uma solução correta para os problemas de uma sociedade ou de um país.

Veja como o Manual define o verbete Heterodoxia/Ortodoxia:

“No contexto brasileiro, o termo ortodoxia refere-se à teoria econômica mais alinhada aos cânones internacionais. Associa-se a temas como austeridade fiscal, controle da inflação e maior abertura comercial. Ideias como essas em geral são combatidas pelos chamados heterodoxos, que costumam refletir uma mescla de marxismo e keynesianismo tradicional […]”

Em outros termos, o Manual está afirmando que os ortodoxos são aqueles que seguem os padrões, os modelos, as normas e as regras internacionais. Os heterodoxos são uma mistura de marxistas com keynesianos favoráveis ao descontrole da inflação, ao descontrole nos gastos públicos e ao fechamento do comércio com outro países.

Em resumo, os ortodoxos constituem a ala que prega a teoria econômica correta. E, portanto, não há necessidade de ouvir o outro lado, verbete muito caro ao Manual.

O consultor sobre o tema economia foi Alexandre Schwartsman, economista bastante alinhado com as finanças nacionais e estrangeiras e ferrenho defensor das políticas neoliberais adotadas pelo atual governo: diminuição do tamanho do Estado, privatização, ampla abertura comercial, reforma da previdência, reforma trabalhista, entre outras.

O Manual oculta o fato que raríssimos economistas desprezam, hoje, o controle da inflação ou o controle dos gastos públicos. A forma e o grau como esses controles são implantados são os pontos em desacordo. A austeridade, por exemplo, adotada de modo brutal e cego, como esse congelamento de gastos por 20 anos, produz um custo insustentável para os mais pobres, um custo muito superior a outras possibilidades de política econômica, que diluam no tempo a recuperação da sustentabilidade fiscal. Estudos de organismos internacionais de cunho conservador, como o FMI, já admitiram que os arrochos que impingiam às nações em dificuldades geravam custos altíssimos à sociedade e retardavam a recuperação.

Entre os princípios editoriais elencado no Manual, destaca-se o da pluralidade:

“Cultivar a pluralidade, seja ao divulgar um amplo espectro de opiniões, seja ao focalizar mais de um ângulo da notícia, sobretudo quando houver antagonismo entre as partes nela envolvidas; registrar com visibilidade compatível pontos de vista diversos implicados em toda questão controvertida ou inconclusa[.]” (p. 13/14)

Ora, seria a teoria econômica um tema incontroverso e pacificado, sobre o qual não se precisaria “cultivar a pluralidade”? A Folha está certa em pedir orientação a um único economista para orientar seus jornalistas e editores? Bem, “o principal jornal do país”, como se autodenomina a Folha no subtítulo de seu Manual, continuará mostrando que há uma só solução para nossas questões econômicas, e, certamente, não será a solução de menor custo para os trabalhadores.

A naturalização das taxas de juros elevadas

As discussões sobre os gastos do governo nunca trazem à tona os gastos com juros. A impressão que se tem é que a taxa de juros é obra da natureza, como uma goiaba ou uma jabuticaba. Elas são altas no Brasil por conta de um pecado original sem similar nos outros países e nada há a se fazer.

Imagine a diferença nos gastos públicos se a taxa Selic, amanhã, fosse reduzida de 6,65 % ao ano para 3,5 % ao ano. Essa redução incidiria, dentro de algum tempo, sobre R$ 3,4 trilhões. A economia com a reforma da previdência pareceria dinheiro de cachaça perto da economia com os juros.

Veja como o Manual define o verbete Juro/Juros

“A taxa de juros de curto prazo varia de acordo com a oferta de moeda no mercado […] Na prática, os Bancos Centrais determinam um meta para os juros de curto prazo e ajustam a oferta de moeda para manter a taxa próxima à meta.”

Imaginar que existe um mercado que determina a taxa de juros de curto prazo conforme a oferta e demanda de recursos é uma impropriedade descomunal. O próprio texto do Manual se contradiz no verbete Copom:

“Comitê de Política Monetária, formado pelo presidente e por diretores do Banco Central. Reúne-se a cada seis semanas para determinar a taxa Selic.”

A verdade é que o Banco Central determina a taxa Selic, que é a base para a formação de todas as outras taxas praticadas na economia. É verdade também que a taxa Selic atinge diretamente os gastos do governo com juros, pois a taxa determinada pelo Copom incidirá sobre os trilhões de reais de dívida que o governo tem. Em outras palavras, o Banco Central tem um poder imensurável sobre os gastos do governo. Nos 12 meses terminados em janeiro de 2018, o governo gastou com juros o valor de R$ 393 bilhões, ou 6 % do PIB.

Ao tornar natural que o Brasil tem a maior taxa de juros do mundo continuaremos direcionando, sem qualquer discussão, essa dinheirama para os bolsos daqueles que emprestam dinheiro para o governo. É assim que a Folha de São Paulo, como afirma em seus princípios editoriais, mantém “atitude apartidária, desatrelada de governos, oposições, doutrinas, conglomerados econômicos e grupos de pressão”?

Notas

1 As citações fazem parte do Manual da Redação: Folha de São Paulo, 21. edição, São Paulo, Publifolha, 2018. 486 p.

2 Para ver os gastos com juros e o montante da dívida mobiliária: http://www.bcb.gov.br/htms/notecon3-p.asp

Cesar Locatelli
No Jornalistas Livres
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