21 de fev. de 2018

Falando de Bolsonaro

Empresa que apoia Bolsonaro “contra a esquerda” teve prejuízo milionário em 2016 e 2017

Processo de decadência financeira da Tecnisa já dura vários anos, mas o presidente da empresa disse à revista piauí que seu único interesse no candidato é ideológico


Ladeira abaixo: a Tecnisa, cujo fundador, Meyer Nigri, foi citado em reportagem da revista piauí como um dos “empresários apoiadores de Bolsonaro”, teve um prejuízo milionário no ano passado, segundo revistas e jornais especializados em economia. De acordo com reportagem da revista Exame de maio, “a incorporadora encerrou o primeiro trimestre de 2017 com um prejuízo líquido de 63,4 milhões de reais, mostrando reversão frente ao mesmo período de 2016, quando teve lucro de 2,4 milhões”.

Em novembro, o jornal Valor Econômico mostrou que o prejuízo crescera 31,4% no trimestre, chegando a 142 milhões de reais. “As despesas financeiras cresceram com a realocação dos juros de dívidas atreladas a projetos entregues ou cujos custos foram remensurados. Já as receitas financeiras caíram com menor posição do caixa médio, com o aumento dos distratos e com menor contribuição dos indexadores para atualização monetária”, explicou o jornal.
O fundador da Tecnisa, Meyer Nigri, explicou por que apoia Bolsonaro: “Apoio quem seja contra a esquerda, Bolsonaro, Alckmin ou qualquer outro.” Será que é só por isso mesmo?
O ano de 2017 não foi o único ruim para a Tecnisa, que desde 2008 aparece na imprensa como tentando se salvar de um processo de decadência. Apesar do lucro no primeiro trimestre de 2016, no segundo já acumulava prejuízo de mais de 100 milhões de reais. “A Tecnisa reverteu o lucro de 7,8 milhões de reais do terceiro trimestre do ano passado e teve prejuízo líquido de 108 milhões de reais de julho a setembro. O prejuízo resultou de distratos, do baixo volume de lançamentos, de indenizações por atrasos e de perdas com vendas de terrenos”, dizia o jornal. Fechou o ano com um prejuízo de 400 milhões de reais, segundo a Exame.

“O público da Tecnisa foi pego pela crise, o desemprego aumentou, o preço dos apartamentos caiu e muitos acabaram devolvendo imóveis comprados na planta. Os distratos (devoluções de imóveis) começaram a aumentar: metade de tudo o que foi vendido pela Tecnisa nos últimos quatro anos foi devolvida pelos compradores. Em agosto passado, a Tecnisa precisou chamar um aporte de capital dos acionistas, de 200 milhões de reais, para reduzir o endividamento”, publicou a revista. A Tecnisa aparece, inclusive, num ranking da Exame dos “20 Maiores Prejuízos do Primeiro Trimestre de 2017”, em 18º lugar.

O presidente da empresa, Meyer Nigri, explicou à piauí por que apoia Bolsonaro: “Apoio quem seja contra a esquerda, Bolsonaro, Alckmin ou qualquer outro.” Será que a questão é só ideológica mesmo?

No Socialista Morena



Bolsonaro Digital, a empresa criada para monetizar vídeos no YouTube

A família do presidenciável Jair Bolsonaro (PSC-RJ) criou uma empresa para monetizar vídeos no YouTube. Líder nas pesquisas em que Lula não figura como candidato, o deputado aparece como sócio da Bolsonaro Digital, fundada junto com sua ex-mulher e seus filhos.

Procurado, Jair Bolsonaro disse que desconhece a empresa. “Deve ter sido meu filho que fez essa empresa. Não sei. Eu apenas emprestei minha assinatura e dei procuração. Eu acho que ele criou, não tenho certeza”, disse o deputado ao BuzzFeed News.

Ele disse ainda que uma possibilidade seria fazer vídeos na internet, mas não soube detalhar, uma vez que a empresa seria tocada por Flávio Bolsonaro, que é deputado estadual, no Rio.

“Meu filho deu essa ideia no passado e eu falei que não tinha tempo”, contou.

Segundo Flávio Bolsonaro, que exerce o mandato de deputado estadual no Rio pelo PSC, a ideia da Bolsonaro Digital é ganhar dinheiro monetizando vídeos no YouTube, mas a empresa ainda não começou a funcionar. Ele não disse quando isso vai acontecer.

“A empresa foi criada, a princípio, para monetizar vídeos do YouTube, sendo que até o momento isso ainda não foi implementado”, disse o filho do pré-candidato. Ele não detalhou que tipo de conteúdo a empresa pretende publicar na plataforma.

Monetizar é um termo técnico para ganhar dinheiro com a visualização de vídeos no YouTube. Quem posta vídeos no site aceita que o YouTube passe a publicar anúncios durante a exibição e, em troca, ganha uma fatia da verba publicitária. Ou seja, quanto mais clique, mais dinheiro.


No DCM



Bolsonaro, o liberalismo político e a democracia

A turma das finanças que ovacionou o paradoxal candidato vaiaria, certamente, Keynes

Leio na Folha de S.Paulo: Jair Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, foi aplaudido de pé em evento promovido pelo Banco BTG Pactual. Na plateia, acotovelavam-se investidores e gentes do mercado financeiro. Em sua arenga, relata o jornal, Bolsonaro fez reverências ao credo do liberalismo econômico e teria prometido metralhar a Rocinha, depois de panfletagem aérea ordenando a desocupação da favela.

O pré-candidato tem sido incessantemente interpelado por gentes dos “mercados” e jornalistas idem. Cobram a apostasia de sua alegada filiação pretérita ao pensamento e, pior, às práticas nacional-desenvolvimentistas que teriam sido cortejadas e adotadas por militares ao longo da história recente do Brasil.

Em entrevista, Jair Bolsonaro desmentiu as rajadas de metralhadora. Aconselhado por um insigne economista, Paulo Guedes, Bolsonaro deve ter sido alertado para os riscos de reincidir nas frequentes colisões entre os protestos de adesão ao liberalismo econômico e os rompantes antidemocráticos que acometem seu pensamento político.

Bolsonaro não é pioneiro em suas contradições. John Locke, pai do liberalismo, exigia uma vigorosa ação do Estado para disciplinar a chusma de vagabundos e desempregados. Essa rafameia deveria ser internada para recuperação em workhouses, verdadeiros antecessores dos campos de concentração ou enviada às galés para retificar o espírito.

Locke considerava a escravidão nas colônias um direito indisputável do “homem livre” e redigiu pessoalmente a cláusula da Constituição da Carolina, que afirmava: “Todo homem livre da Carolina deve ter poder absoluto e autoridade sobre seus escravos negros, suas opiniões e religião”. O filósofo investiu no tráfico de escravos negros, enquanto acionista da Royal African Company.

Autor da Fábula das Abelhas, famoso breviário do liberalismo econômico, Bernard Mandeville tinha horror a qualquer intervenção legislativa do Estado destinada a proteger “aquela parte mais mesquinha e pobre da sociedade”, condenada a desenvolver um “trabalho sujo e digno de escravos”.

Já o economista austríaco Friedrich Hayek, ilustre libertário, escreveu em 1973 o artigo Economic Freedom and Representative Government: “Há um conflito irreconciliável entre democracia e capitalismo – não se trata da democracia como tal, mas de determinadas formas de organização democrática... Agora, tornou-se indiscutível que os poderes da maioria são ilimitados e que governos com poderes ilimitados devem servir às maiorias e aos interesses especiais de grupos econômicos”.

O economista português Francisco Louçã lembra: Friedrich Hayek escreveu em 1962 uma carta ao ditador Salazar, explicando a motivação para o envio do seu livro The Constitution of Liberty, que o devia ajudar “na tarefa de desenhar uma Constituição que previna os abusos da democracia”.

Louçã ainda registra: tendo visitado o Chile quando a ditadura estava bem estabelecida – e os seus desmandos estavam demonstrados e eram públicos e notórios –, Hayek expressou a sua adesão à nova ordem numa entrevista ao principal jornal do regime, o El Mercurio, em 19 de abril de 1981. Nela declarava sem ambiguidades que “a democracia precisa de uma boa limpeza por um governo forte”. Uma boa limpeza. As palavras foram cuidadosamente escolhidas: “Como compreenderão, é possível a um ditador governar de modo liberal. E também é possível a uma democracia governar com total falta de liberalismo. Pessoalmente, eu prefiro um ditador liberal a um governo democrático a que falte liberalismo”.

Liberal, John Maynard Keynes lutou contra as “velhas ideias”. Ainda jovem, em 1904, antes de suas aventuras como economista, Keynes contestou o ataque de Edmund Burke à democracia: “A democracia ainda está sob julgamento, mas não caiu em desgraça; é verdade que não opera à plena força, por duas razões: uma mais ou menos permanente e a outra transitória. Em primeiro lugar, seja qual for a representação numérica da Riqueza, seu poder será sempre desproporcional; em segundo lugar, a defeituosa organização das classes menos favorecidas impede uma alteração mais abrangente do balanço preexistente do poder”.

Ao escrever As Consequências Econômicas da Paz, Keynes completou seu diagnóstico de 1904: “As classes trabalhadoras aceitaram por ignorância ou impotência, ou foram persuadidas ou tapeadas por hábitos, convenções ou autoridade da bem estabelecida ordem da sociedade, a aceitar uma situação na qual tinham uma participação muito pequena no bolo que eles, a natureza e os capitalistas, cooperaram em produzir”.

Keynes seria vaiado nos salões da finança brasileira.

Luiz Gonzaga Belluzo
No CartaCapital
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Perseguição de Moro a Lula é promessa de família

Para compreender o personagem Sergio Fernando Moro e sua sanha em prender o ex-presidente Lula é preciso, antes de tudo, mergulhar na construção de sua psiquê


Compreender o personagem Sérgio Fernando Moro, seu trabalho e sua sanha em prender o presidente Luís Inácio Lula da Silva e liquidar com seu partido é mergulhar, antes de tudo, na construção de sua psiquê. Compreender este personagem que destruiu não somente os fundamentos da própria Justiça, mas, sobretudo, as bases da Constituição de 1988, é compreender a fixação paranoica e psicopática de um homem que mergulhou a nação no caos do pós-golpe de 2016.

Moro é filho de Odete Starke Moro e Dalton Áureo Moro. Seu pai, falecido em 2005, era originário de Ponta Grossa (PR), cidade próspera do estado do Paraná, e conhecida ultimamente na mídia como “Reaçolândia”, devido aos fortíssimos componentes ultra-conservadores advindos de políticos e empresários que se enquadram na Bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia) do Congresso Nacional. A cidade, colonizada por alemães, ucranianos e polacos guarda os traços mais estereotipados de uma cultura branca avessa à miscigenação e fortemente patriarcal. Estas marcas permanecerão indeléveis em Dalton Moro e se tornarão ainda mais evidentes em seu rebento Sérgio Fernando Moro.

Dalton Moro muda-se de Ponta Grossa à Maringá, e torna-se professor de Geografia de um colégio estadual e do Departamento de Geografia da Universidade Estadual de Maringá. Sua mãe, Odete Starke, torna-se professora do Instituto Estadual de Educação, tradicional colégio público do Estado.

A vida em Maringá, é agradável, uma vez que a cidade, com grande colonização italiana e japonesa (e, em menor escala, de alemães), guarda os traços conservadores da velha Ponta Grossa. No entanto, três fatos abalarão a vida do Sr. Dalton: a greve de 1980, praticamente no estertor final do regime militar, de professores, com apoio do DCE (Diretório Central dos Estudantes), na Universidade Estadual de Maringá, a eleição de um prefeito pelo Partido dos Trabalhadores (PT) em 2000 e a eleição do presidente Lula em 2002.

Mas aqui estamos nos adiantando na história … A vida em Maringá, apesar de pacata, tem lá seus desafios: a educação dos filhos seguindo uma moral cristã monolítica, as tradições, o civismo, a Pátria… Tudo isso dentro de uma família de cunho pesadamente patriarcal. A mãe de Moro, provavelmente sufocada por essa tradição extremamente anti-feminista se consola numa especialização no Departamento de Letras escrevendo uma monografia intitulada “Clarice Lispector: As personagens femininas de Laços de Família”, em 1987. Segundo Machado,

A sujeição ao pensamento patriarcal e o comportamento condicionado é um dos reflexos sociais mais perceptíveis nos dois contos (de Clarice Lispector) analisados. Uma leitura atenta à condição feminina das personagens lispectorianas revela uma consistente crítica social, em que a sociedade ocupa um papel fundamental no desencadeamento dos conflitos psicológicos pelos quais passam as personagens retratadas. Além disso, é importante dedicar atenção ao que está no exterior do universo psicológico de cada personagem. Neste aspecto, o título de cada conto se mostra indissolúvel na hermenêutica de seus significados se relacionados ao título do livro. É o Amor que Ana nutre pelos filhos e pelo marido que a mantém ligada a eles; é a Festa de Aniversário razão única do encontro dos distintos membros da família de D. Anita. Estas duas razões, na esfera da instituição máxima que mantêm organizada a sociedade, mais que unir – tal como sugere o título Laços de Família -, tornam por agrilhoar pessoas distintas por natureza (in: http://desenredos.dominiotemporario.com/doc/13_-_artigo_-_Wellington_Machado.pdf).

Obviamente este trabalho acadêmico da mãe de Moro é uma válvula de escape ao seu papel de mãe e esposa sob o jugo patriarcal. No entanto, este pequeno candeeiro logo se apagará quando na educação dos filhos, será o papel do pai a se sobrepor na construção da psiquê do filho mais famoso do casal: Sérgio Fernando Moro. Educado e treinado sob as hostes do ideal da classe média, qual seja, fazer um filho “Doutor em Direito”, escalando as benesses da classe e dos altos salários pagos ao funcionalismo público hierarquizado do Poder Judiciário, Sérgio Moro torna-se uma máquina de estudar e galgar posições elevadas.

O verniz conservador torna-se tintas grossas após um incidente em no início da década de 80 na Universidade Estadual de Maringá. Este ano, 1980, é importante para a cidade e para o Brasil: marca os estertores finais do regime de exceção iniciado pelo golpe militar de 1964, pelo nascimento do Partido dos Trabalhadores, pela luta da Lei de Anistia e pela volta dos exilados políticos. Dalton Moro é contrário à abertura política. Na UEM está alinhado com a linha dura que administra a Universidade, cujo reitor é um administrador biônico escolhido pelo Governador de época. Eis que, no fervor da abertura da nova década, 1980, professores e alunos resolvem iniciar uma greve pela volta à Democracia no país e contra o ensino pago nas universidades públicas estaduais. Dalton Moro sente o golpe e não se sujeita à votação da maioria em favor da greve. Decide que no dia seguinte, ele e a esposa do então reitor, darão aulas independentemente da decisão democrática da Assembleia de Greve. Porém, os alunos não estão dispostos ao prosseguimento das duas disciplinas destes dois fura-greve. Diante do impasse, dois amigos meus, Professores da UEM, são chamados para conversar com os fura-greve. Os professores, em tom sereno, acabam convencendo Dalton e a esposa do reitor a dispensarem seus alunos. Após a saída de todos, as salas são trancadas, assim como as entradas do Bloco.

Terminada a greve, o descontentamento de Dalton Moro se faz sentir no pedido de inquérito administrativo contra os dois professores que haviam intercedido no imbróglio com os alunos. A sede persecutória durou cerca de dois anos, com Dalton contente com as vicissitudes que passavam seus colegas grevistas, graças à punição aprovada. Este estado de ânimo conservador não ocorreu como um rompante contingencial: era traço característico de sua formação que ele impunha desde seu entorno imediato, sua família, até seu entorno institucional (universidade e escola). Enquanto chefe de Departamento, nunca permitiu a entrada de alunos e professores para discussões políticas, especialmente em épocas de eleições para Centro Acadêmico, Diretório Central do Estudante e Sindicato de Professores.

Apesar de não ser um militante político, sua postura extremamente conservadora, simpática ao golpe militar e à administração biônica da UEM, influenciou demasiadamente seu filho que, aos cinco ou seis anos de idade, já vivia em primeira pessoa as batalhas do pai contra desafetos socialistas e comunistas…

Em 1990, Sérgio Moro passa no exame vestibular da UEM para o curso de Direito. Gradua-se nos cinco anos do curso, formando-se em 1995.

Dalton Moro e Odete Starke assistem com orgulho a ascenção meteórica do filho na magistratura, com Sérgio Moro tornando-se Juiz Federal em tempo recorde: um ano após a formatura na graduação em Direito. Mais recorde ainda, e fora de qualquer parâmetro exigido pela Academia e pela Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoas de Nível Superior-CAPES/MEC, Moro se tornará Mestre e Doutor em Direito pela UTFPR em dois anos (2001-2002). Este fato inusitado carece de explicações plausíveis porque, em geral, um Mestrado e Doutorado tomam cerca de seis anos para sua consecução efetiva (dois anos para Mestrado e quatro anos para Doutorado).

Entre 1995 e 2000, Sérgio Moro ajuda um prefeito embaraçado na subtração de dinheiro público, Jairo Gianotto do PSDB, a livrar-se da cadeia. A quantia do roubo é astronômica (500 milhões à época; atualizado, este valor supera um bilhão de reais). Segundo consta no site do Brasil247, Sergio Moro, atuando em parceria com o tributarista e advogado do prefeito, Irivaldo Joaquim de Souza, consegue um habeas corpus para evitar a prisão do prefeito. Irivaldo advoga para o então prefeito, para o clã Barros (hoje representado pelo Ministro da Saúde do governo golpista, Ricardo Barros), em negócios que envolviam o tesoureiro de Gianotto, Paolicchi (assassinado anos depois), Alberto Youssef, Álvaro Dias e Jaime Lerner. Sérgio Moro faz um depoimento favorável ao Prefeito, determinante para a soltura do mega-meliante.

A população de Maringá, irada com o roubo de seus impostos pelo ex-prefeito defendido por Moro, dá o troco nas urnas e, em 2000, elege o candidato José Claudio Pereira Neto, do Partido dos Trabalhadores, com quase 107 mil votos (uma das mais surpreendentes votações para Prefeito até os dias de hoje). Infelizmente, José Claudio não conseguirá terminar seu mandato posto que abatido por um câncer letal em 2003.

Dalton Moro deve ter ficado lancinado com esta eleição. Transtornado com a vergonhosa administração de Jairo Gianotto, do PSDB, vê ascender ao poder um político socialista cuja primeira medida, como prefeito eleito é expor em praça pública duas mega-colheitadeiras confiscadas de uma das fazendas de Gianotto, compradas com o roubo do dinheiro público.

A situação diante da família Moro torna-se ainda mais acachapante quando o então candidato Luís Inácio Lula da Silva vence as eleições presidenciais em 2002. É necessário que Moro filho honre o conservadorismo do pai, batalhando para destruir num plano muito maior as batalhas que seu genitor havia travado contra professores e alunos esquerdistas e o prefeito municipal. Corre uma lenda urbana em Maringá que Sergio Moro teria prometido ao pai, agonizante por um câncer que o mataria em 2005, que eliminaria a esquerda no Brasil.

Importante destacar na formação de Moro, a orientação de seu Doutorado realizado sob o comando do Prof. Dr. Marçal Justen Filho, da UFPR: um ultraconservador, colaborador assíduo do Jornal de Direita A GAZETA DO POVO e defensor da ideia de que “o Estado só pode oferecer algo além do mínimo se for capaz de oferecer o mínimo muito bem” e ainda: “pode ser que a Petrobras sobreviva, mas ela vai sobreviver bem menor do que era”. Graças à esta doutrinação e patifaria, Sergio Moro e também seu colega de doutorado João Pedro Gebram Neto (do TRF4 que condenou Lula a 12 anos + 1 dia de prisão), conspiraram contra não somente Lula da Silva, mas contra os fundamentos da Justiça e da Democracia brasileira. Gebram deveria se julgar impedido, por conflito de interesses devido à sua amizade com Moro na pós-graduação; mas não! Preferiu o caminho da conspiração, assim como o outro juiz, Paulsen, também do TRF4, que ministra, junto com Moro, disciplinas de especialização na PUC do Rio Grande do Sul.

O resto é História já conhecida … Moro torna-se professor (sem dedicação exclusiva) do Departamento de Direito da UFPR, em Curitiba, em 2007. O pai ainda teve o “orgulho” de ver o filho pródigo participar do “Program of Instruction for Lawyers” na Harvard Law School” em julho de 1998. Este curso de atualização (em sentido extensionista) seria o primeiro degrau para quase dez anos depois, em 2007, Moro participar do “International Visitors Program” organizado pelo Departamento de Estado norte-americano com visitas a agências e instituições dos EUA encarregadas da prevenção e do combate à lavagem de dinheiro. Este treinamento garantirá a conversão total de Moro no destruidor dos baluartes de nossa frágil Democracia. É neste momento que Moro encontrará o “mapa da mina” para destruir Lula, Dilma e o PT usando estratagemas da Lei, numa política aberta de Lawfare (perseguição política usando hermenêuticas relativistas da Justiça e da Constituição), honrando o pai Dalton e replicando toda sua educação baseada no patriarcalismo. Perdeu sua mãe, que timidamente, tentou romper o conservadorismo sufocante daquele que nasceu e havia se criado na Reaçolândia de Ponta Grossa! Os laços de família, sempre comandados pelo patriarca, parira um Juiz que destruiria não somente as bases da República e da democracia brasileira, mas, sobretudo, sua pujante indústria petrolífera, naval, nuclear e de engenharia civil, minando o futuro da Nação. Cumpre-se, pois, a promessa de Moro ao pai agonizante: destruíra as conquistas da Esquerda, mesmo que para isso tivesse jogado no lixo toda a população brasileira e seus anseios de um país soberano…

Marcos Cesar Danhoni Neves
No Pragmatismo Político
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Brasil de Temer está ficando ingovernável. E ainda faltam 300 dias

https://www.balaiodokotscho.com.br/2018/02/21/brasil-de-temer-esta-ficando-ingovernavel-e-ainda-faltam-300-dias/

Estamos caminhando celeremente para o caos institucional.

Esta é a conclusão a que cheguei depois de ler o noticiário desta quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018.

Ainda faltam 10 meses, longos 300 dias para acabar o mandato do atual presidente, e o Brasil de Temer ficou ingovernável.

Desde o final da semana passada, como um piloto enlouquecido na cabine de comando, que perdeu todos os sinais de contato com a terra, Michel Temer abriu novas frentes de confronto.

Mesmo governando praticamente sem oposição, o presidente entrou num beco sem saída por excesso de esperteza dos seus marqueteiros.

Achou que tinha dado um golpe de mestre ao trocar a reforma da Previdência pela intervenção militar no Rio, com base em pesquisas de opinião, mas acabou afrontando sua própria base de apoio em setores da sociedade, no mercado, nos quartéis e no Congresso Nacional.

Com tanques nas ruas e soldados revistando mochilas de crianças nas favelas, enquanto ministros dormem em solenidade oficial ao lado de um presidente assustado, temos o retrato de um país à deriva, como mostram alguns fatos das últimas horas que, em seu conjunto, revelam a gravidade da situação:
  • No Congresso Nacional: revoltado por não ter sido consultado sobre a intervenção militar nem sobre o pacote de 15 medidas do “Plano B” da economia para compensar o sepultamento da reforma da Previdência, o antes dócil presidente da Câmara, Rodrigo Maia, declarou guerra ao Planalto. “Não li nem vou ler estas medidas. Quem faz a pauta da Câmara é o presidente da Câmara”. O presidente do Senado, Eunício Oliveira, antes fiel aliado, foi na mesma linha. No mesmo dia, Maia, que tinha na questão da segurança a principal bandeira da sua improvável candidatura presidencial, resolveu colocar na pauta um pacote de projetos para “flexibilizar o estatuto do desarmamento”, com o objetivo de liberar o porte de armas, um projeto da poderosa “bancada da bala”.
  • Nos quartéis: a forma açodada e sem nenhum planejamento com que o presidente assinou o decreto da intervenção, também sem consulta prévia ao comando militar, está preocupando a cúpula das Forças Armadas que teme o uso político da medida de exceção, como registra Josias de Souza, em seu blog no UOL, ao ouvir um oficial sob o compromisso do anonimato: “Acionados nos termos da Constituição, estamos cumprindo nossa missão, como de hábito. As Forças Armadas se confundem com o próprio Estado. Não seria aceitável que fossem utilizadas para fins eleitorais. Com razão, costuma-se dizer que militar não deve se meter em política. Do mesmo modo, não convém politizar ações militares”.
  • Na sociedade: para quem ainda tinha alguma dúvida, a entrevista que Bernardo Mello Filho fez com o marqueteiro oficial de Temer, Elsinho Mouco, publicada no Globo, escancara o verdadeiro objetivo da intervenção: ressuscitar a imagem de Michel Temer e alavancar sua candidatura à reeleição. “Ele já é candidato. Viramos a agenda. Agora o momento é outro. Hoje a maior preocupação do brasileiro é com a segurança pública. A vela está sendo esticada. Agora está batendo um ventinho”, disse Mouco ao repórter, reconhecendo que a decisão foi tomada com base em pesquisas de opinião. Em entrevista à Rede Brasil Atual, Pedro Serrano, jurista e professor de Direito Constitucional na PUC/SP, teme uma tragédia: “Estão trazendo o caos para o Estado Brasileiro de forma irresponsável. Não tem jeito dessa farsa não terminar em tragédia. E nem de perto vai resolver o problema da segurança pública”.
  • No mercado: “A falta da reforma previdenciária pode levar ao caos a economia brasileira”, afirmou um analista da Capital Economics à rádio BBC, citado na coluna de Nelson de Sá, na Folha. Segundo o colunista, “o abandono da reforma previdenciária por Michel Temer, já com reação ameaçadora das agências de classificação de risco, repercutiu negativamente por, entre outros veículos, Financial Times, BBC e a agência chinesa Xinhua”. O Financial Times avisou aos investidores em mercados emergentes que eles devem “segurar os seus chapéus”, depois de destacar que “impopularidade e acusações de corrupção descarrilharam sua agenda, que tinha na reforma sua peça central”.
O melhor retrato do desgoverno que assola o país foi feito por Ricardo Moraes, da agência Reuters, mostrando os ministros Eliseu Padilha, da Casa Civil, e Henrique Meirelles, da Fazenda, nos braços de Morfeu, com o presidente Michel Temer olhando para outro lado, durante uma cerimonia oficial em Itaguaí, no litoral fluminense.

Eles não devem estar dormindo direito.

As consequências da intervenção militar no Rio foram retratadas por Leo Correa, da Associated Press: crianças assustadas olhando para soldados armados com pesadas metralhadores que inspecionam suas mochilas numa favela da zona norte.

São as imagens deste fim de feira trágico, na semana seguinte à grande festa do Carnaval.

E ainda não se passaram dois anos desde que Dilma Rousseff foi afastada da Presidência da República sob a alegação de que tinha perdido a governabilidade.

Vida que segue.

Ricardo Kotscho
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Procurador da Lava Jato não se conforma com depoimento de testemunha sobre sítio de Atibaia

Ele
Em depoimento por por videoconferência firmado na terça, dia 20, o MPF tenta interferir na arguição da defesa.

Mário da Silva Amaro Júnior, gerente da Kitchens, negou o uso de qualquer valor da Petrobras na compra de uma cozinha para o sítio de Atibaia.

Ele também afirmou que a compra do bem ocorreu em 2014, quando Lula não era presidente.

O procurador da República Athayde Ribeiro Costa, presente na audiência, não se conforma com as respostas da testemunha e tentou vincular indevidamente a compra a valores provenientes da Petrobras.

É este, senhoras e senhores, o circo para pegar Lula.



Kiko Nogueira
No DCM
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A família Marinho, seu apreço aos militares e à Intervenção no Rio


Um ditado popular bem conhecido por aqui é “nunca cuspa no prato que você comeu”. Digamos que ele é uma maneira bem tosca de dizer que é preciso sempre manter a gratidão para os que te ajudaram. Nos dez mandamentos da Família Marinho, este talvez seja o número 1.

As organizações Globo cresceram de mãos dadas com a ditatura militar. Ela serviu ao projeto de unificação nacional promovido pelos generais do Brasil grande. Foi a correia de transmissão e legitimação do poder autoritário e se beneficiou disso.

Representante genuína da elite política e econômica, a Família Marinho nunca vacilou em se posicionar na cena política alinhada a estes interesses, que na esmagadora maioria das vezes não é o interesse da população e nem do país. Democracia, liberdade, direitos sociais, distribuição de renda, soberania, não são objetivos que constem dos dez mandamentos da Globo e nem da elite nacional.

Então, não é de se espantar o apoio da Família à intervenção militar no Rio de Janeiro, manifesto em editorial do jornal O Globo – o porta-voz oficial dos Marinho – nesta terça-feira (20/02/2018): Intervenção é oportunidade para sanear instituições. “Sanear essas instituições [polícia militar, civil, e segurança pública] é fundamental para que as ações coordenadas entre as forças federais e as polícias do estado possam surtir efeito, o que não vinha acontecendo. Mas é preciso que elas sejam duradouras. Operações tópicas, realizadas no varejo, já se mostraram ineficazes. Podem funcionar por algum tempo, mas, quando as forças se retiram, tudo volta a ser como era antes. Portanto, não se pode cometer o mesmo erro”.

Já preparava esta coluna antes de ontem para falar de como a Rede Globo, através de seus telejornais – particularmente o Jornal Nacional – criou um clima de terror que certamente impulsionou a intervenção. O Editorial só veio confirmar o que já estava evidente – a organização que apoiou a ditadura militar, apoia a intervenção militar no Rio de Janeiro.

A história vai mostrar se este apoio foi apenas passivo ou ativo. Infelizmente, sabe-se que, sai presidente, entra presidente (me refiro aos da República mesmo), uma eminência parda tem sido presença constante no Palácio do Planalto (primeiro o pai, Roberto Marinho, agora os filhos). Por isso, não duvido que uma decisão como esta, a de decretar uma intervenção militar na segurança pública do Rio de Janeiro, sede das Organizações Globo, tenha sido tomada sem que os chefões do maior grupo de comunicação do Brasil tenham sido consultados.

Um telejornal focado na violência carioca

Para não suscitar dúvidas, é claro que há uma crise social gravíssima no Rio de Janeiro. Essa crise social, por questões históricas, geográficas e populacionais criou as condições para a consolidação de um sofisticado sistema criminoso. A falência do Estado, a inépcia dos governos, a falta de uma política de segurança pública são um alimento para a violência na capital fluminense. E, esse cenário foi piorado diante de um governo federal que congela gastos por 20 anos e impõe uma agenda de desmonte dos serviços públicos. Vale lembrar que o Rio de Janeiro é uma cidade com forte presença de equipamentos públicos federais (por ter sido até a década de 50 a sede do governo federal). A devassa contra a Petrobras também impacta fortemente a dinâmica da economia no Rio de Janeiro e tudo isso é preciso se avaliar quando se discute os problemas do Rio.

Mas, esta situação de crise social e violência não é, nem nunca foi, exclusiva do Rio de Janeiro. O Brasil possui 27 Estados, em todos eles – e em alguns até mais do que no Rio – os índices de violência são alarmantes. Segundo dados do 11º Anuário de Segurança Pública, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado no final de setembro de 2017, o estado do Rio de Janeiro ocupava o 10º lugar no ranking dos estados mais violentos do país (se considerado a taxa de assassinatos por 100 mil habitantes). Em números absolutos, o Rio de Janeiro ocupa a segunda posição, atrás da Bahia. Já, se olharmos apenas para os municípios, a capital carioca não aparece entre as 30 cidades com maior taxa de homicídios no país, segundo Atlas da Violência publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea, em 2016.


Mas quem vê o Jornal Nacional pensa exatamente o contrário disso. Para a principal vitrine jornalística do país, a violência praticamente se restringe ao Rio de Janeiro.

Assisti pacientemente a todas as reportagens sobre violência veiculadas pelo JN de 01 de janeiro até 16 de fevereiro de 2018, dia em que o desgoverno Temer decretou a intervenção militar no Rio. Em 41 edições do JN, apenas 8 não abordaram temas relativos à violência e segurança. Das outras 33, dez não trataram de questões envolvendo o Rio de Janeiro. Vale registrar que até 09 de janeiro, uma greve da polícia militar no Rio Grande do Norte mereceu a atenção do noticiário. Outro assunto foi a crise envolvendo os presídios de Goiás no início do ano.

Ou seja, de 41 edições do Jornal Nacional, vinte e três trouxeram reportagens sobre a violência do Rio de Janeiro. Na maioria delas, o tom das matérias eram dramáticos, com uma narrativa que destoa do tratamento dado aos demais casos de violência.

A Globo enquadrou este carnaval carioca como o mais violento dos últimos anos. Apesar dos casos mostrados pelo noticiário da emissora – arrastões na praia e roubos de turistas – não ser diferente do que se passou em outros estados. Nenhuma reportagem da emissora buscou mostrar a violência durante o carnaval em Salvador, Recife, Olinda, São Paulo – isso para citar apenas quatro cidades que tiveram grandes blocos de rua.

Ao escolher o Rio de Janeiro como capital da violência e ocultar da sua cobertura os casos de violência que acontecem no restante do país, a Globo criou uma narrativa de pânico e sublinhou na sua cobertura a falta de ação e comando para enfrentar o “crime organizado” no Rio de Janeiro.

O tom de cobrança de ações efetivas estava subjacente a toda a cobertura. Até desembocar no anúncio da intervenção. No dia 16 de fevereiro, mais da metade do tempo do Jornal foi dedicado ao decreto do Temer. Entre os parlamentares, especialistas e pessoas ouvidas sobre a medida, praticamente todos avalizaram a decisão do governo federal. As considerações e ponderações, quando apareciam, não eram para alertar para os perigos à democracia ou aos direitos das pessoas, mas sim para os limites da intervenção. A única posição contrária, foi a leitura no final da reportagem pela Renata Vasconcelos, em segundos, da posição da ONG Human Rights Watch.

A intervenção militar na segurança pública no Rio de Janeiro pode até não ter – diretamente – o envolvimento da Família Marinho, mas indiretamente certamente o tratamento dispensado pela Rede Globo à cobertura da violência no Rio contribuiu para essa decisão. Que, como já foi amplamente dito, tem graves consequências para a democracia e provavelmente não vai resolver a situação dramática do Rio de Janeiro, que sim, precisa de respostas na área da segurança, mas precisa em primeiro lugar de respostas políticas e econômicas para recuperar o papel do Estado como indutor da econômica, para gerar empregos e renda e reduzir a situação de penúria do povo fluminense.

A Globo demorou exatos 49 anos para fazer o seu “mea culpa” por ter apoiado a ditatura militar. Em editorial publicado no dia 31 de agosto de 2013, o jornal finaliza afirmando que “À luz da História, contudo, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais do período que decorreram desse desacerto original. A democracia é um valor absoluto. E, quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma.”

Ao que parece, precisaram menos de cinco anos para que a Família Marinho mudasse sua opinião e se esquecesse do que escreveu. Ou, talvez, aquele editorial foi apenas uma posição bastante oportuna para o momento político e não revelasse, de fato, a opinião do grupo.

Talvez daqui a 50 anos vejamos outro mea-culpa por ai, isso se as Organizações Globo ainda existirem.

Renata Mielli, Jornalista, coordenadora geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e secretária geral do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.
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As ligações perigosas de Moreira Franco, o homem que pôs o Exército nas ruas no Rio

Bandidos do Comando Vermelho frequentavam o Palácio Guanabara e ganhavam até cargos no Tribunal de Contas, quando Moreira Franco era governador do Rio

Moreira Franco, o gato angorá, tinha um personal trainner amigão, o mesmo que sequestrou o empresário Roberto Medina, numa operação espetacular do Comando Vermelho. É ele que quer combater o crime?
A intervenção militar no Rio de Janeiro foi articulada por um velho conhecido do crime organizado: Wellington Moreira Franco (PMDB-RJ), ministro da Secretaria-Geral da Presidência e amigo do peito de Michel Temer, que governou o Rio de 1987 a 1991. Hoje na “Folha”, numa entrevista pra lá de camarada, daquelas que o jornalista levanta a bola para o entrevistado cortar, Moreira Franco fez-se de intrépido e destemido:

Folha: A intervenção no Rio foi uma decisão arriscada para Temer, porque no primeiro problema, ele será culpabilizado. O governo fez esse cálculo?

Moreira Franco: Aqui não tem amador. As pessoas têm 50, 45, 40 anos de vida pública. Claro que fez.

Folha: E qual é o cálculo?

Moreira Franco: O cálculo é que na vida, tem certas horas, que você tem que assumir riscos, tem que decidir. Nessas circunstâncias, não dá para ficar empinando pipa, tem que mergulhar com coragem e convicção.

Hummmm. Corajoso!

Conhecido desde os anos 1980 pela alcunha de “gato angorá”, pela então vasta e cultivada cabeleira branca, e por causa do gosto entranhado pelo colo de qualquer um, Moreira Franco foi o primeiro governador do Rio a andar para cima e para baixo acompanhado de um bandidão do Comando Vermelho. Sim, Moreira Franco não é homem de ficar empinando pipa!

Decidiu-se pela intervenção militar no Rio de Janeiro em reunião na quinta-feira (15/2) no Palácio da Alvorada da qual participaram o governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, e ministros do governo federal, como Torquato Jardim (Justiça), Raul Jungmann (Defesa) e Sérgio Etchegoyen (Segurança Institucional), todos envolvidos na discussão sobre segurança pública, além de Moreira Franco, Dyogo Oliveira (Planejamento) e Henrique Meirelles (Fazenda).

A aventura militar entusiasmou particularmente dois participantes do convescote: o próprio Temer, que vê na intervenção a possibilidade roubar alguns pontos da popularidade e do discurso de Jair Bolsonaro; e Moreira Franco.

Peemedebista, Temer é o mestre na arte camaleônica de mudar de cor ao sabor das circunstâncias. Foi social quando interessava estar perto do PT, foi neoliberal no estilo mercurial quando veio o golpe… E agora, com a popularidade no chão, torna-se verde oliva para granjear a simpatia das galinhas verdes do fascismo bolsonariano. Tudo certo como dois e dois são cinco.

Temer está na base do tudo ou nada. O Iraque dele são os morros do Rio. Em lugar de fundamentalistas islâmicos, os inimigos são os  pobres e pretos das favelas cariocas. Nada como uma operação nos moldes da doutrina militar do “Choque e Pavor” (Shock and awe), para anestesiar a opinião pública que começava a sair do torpor. O samba enredo da Paraíso do Tuiuti foi o sintoma. E os entusiastas mais apaixonados pela aventura já dizem que ele pode até se apresentar como o candidato.

Parceiro de todas as falcatruas de Temer, Moreira Franco é o idealizador e avalista por excelência da patuscada que, já se sabe, não conseguirá acabar com o tráfico, nem com a guerra entre quadrilhas rivais. Para os ilusionistas da quadrilha de Brasília, porém, basta contar com a mídia tradicional para repetir até o cansaço a cena de soldados com trajes de camuflagem entrando em comunidades pobres do Rio, tanques e blindados fechando o trânsito de becos e vielas miseráveis.

Ah, eles não podem esquecer de seguir as ordens do interventor federal para a área de segurança pública do Rio, o general do Exército Walter Braga Netto, que já disse que a situação do Estado não é tão ruim quanto parece e que a imagem da crise é afetada pelo noticiário. “Muita mídia”, afirmou. É a senha para a Globo, Band, Record e demais veículos: podem parar de cobrir esse tipo de assunto. E assim, com o Rio ocupado, sensação de segurança nas alturas, até pelo menos as eleições de outubro, Temer e seu general interventor conquistam capital político imenso.

Nazareno Tavares, assassinado em 1997

Moreira Franco é o homem central da operação envolvendo o crime porque tem vasta experiência nisso. Quando era governador, todos sabiam do relacionamento do governador com o professor de Educação Física Nazareno Barbosa Tavares, seu personal trainner, um cara boa praça, que organizou e comandou um dos sequestros mais espetaculares da história, o do empresário Roberto Medina, dono do Rock in Rio. O crime aconteceu em junho de 1990.

OK, todo mundo pode-se enganar –ainda mais com um personal simpático… Só que Moreira Franco, ao suceder Leonel Brizola, seu arqui-inimigo, no governo do Rio, assumiu dizendo que em seis meses acabaria com a violência no Rio. Primeira providência: colocar o Comando Vermelho dentro do Palácio do Governo. AHAHAH!

Incrível como toda a imprensa resolveu esquecer disso agora, na cobertura da intervenção militar no Rio.

Mas o caso fica pior ainda.

Presos os sequestradores de Medina (Nazareno foi condenado a 10 anos, dois meses e 12 dias de detenção), depois do pagamento de um resgate de mais de 3 milhões de dólares (nunca se explicou direito aonde foi parar a quantia fabulosa, que saiu diretamente do Banco Central), revelou-se uma trama sinistra…

Além do personal trainner de Moreira Franco, também estavam implicados no sequestro Miguelão (Miguel Jorge, segurança de Moreira Franco e de Rubem Medina, irmão do sequestrado), e Carlinhos Gordo. Todos silenciados….

Azar do Nazareno. Foi só declarar que pretendia escrever um livro contando o que sabia sobre o envolvimento de políticos e empresários em negócios ilícitos, e ele foi assassinado –queima de arquivo, suspeita-se. Corria o ano de 1997.

O crime aconteceu às 7h, num posto de gasolina na zona oeste do Rio. A vítima cumpria a pena no presídio Plácido de Sá Carvalho (Bangu, zona oeste) e trabalhava durante o dia dando aulas de natação em uma academia.

Nazareno tinha acabado de abastecer o carro e esperava o frentista lavar o pára-brisas, quando dois homens em uma moto pararam ao seu lado. Dois tiros –um na nuca. Coisa de profissionais.

Nazareno e o ditador Figueiredo, em foto no JB

Nazareno gostava de palácios. Antes do sequestro, entre 1982 e 1985, era visto correndo na orla do Rio em companhia do último ditador militar do Brasil, João Baptista Figueiredo, de quem era instrutor de educação física. As praias do Recreio dos Bandeirantes e do Pepino (na zona Sul) eram as preferidas da dupla. Frequentava a casa carioca de Figueiredo, na Gávea Pequena, a mansão particular de um amigo, no Recreio, e a Granja do Torto, em Brasília.

Da infância pobre em Benfica (na zona norte do Rio), Nazareno quis se esquecer: foi morar numa cobertura no Leblon! (pausa para rirmos dos bolsominions que acreditam que na Ditadura não havia corrupção: AHAHAHAH!).

O personal bonitão aparecia em fotos de jornais, e começou amizades dentro do partido dos puxa-sacos do regime, o PDS. Na época, é claro, o gato angorá Moreira Franco era do PDS, depois de ter traído o MDB pelo qual se elegera deputado federal em 1974 e prefeito de Niterói em 1976. Filiou-se ao PDS em 1980 e só voltou ao PMDB em 1986, para disputar o governo do Rio de Janeiro contra Leonel Brizola, do PDT. Na ocasião, recebeu o apoio inestimável da Rede Globo para tentar fraudar a vontade popular, no que ficou conhecido como Escândalo Proconsult,  (mas isso é outra história!).

A Ditadura já tendo acabado, o gato angorá tinha mesmo de mudar de colo, mesmo trajeto feito pelo irmão dele, Nélson Franco. Nazareno não se apertou e foi trabalhar como assessor de Nélson Franco, que foi secretário da Habitação e Ação Social de Moreira Franco, a poucos metros do gabinete do governador. Chegou a ser nomeado para o cargo de auxiliar técnico no Tribunal de Contas do Estado. Desplante total porque, repita-se, era líder do Comando Vermelho.

Quando Nazareno foi detido, seu advogado, Wilson Siston, tentou convocar Moreira Franco, o irmão e um ladrão de carros chamado José Carlos de Carvalho, o “Carlinhos Gordo”, para depor.

A juíza Denise Rolins Faria indeferiu o pedido, alegando que se tratava de “pura especulação”. Segundo o “Jornal do Brasil, Wilson sustentava que o depoimento de Carlinhos iria explicar “as ligações com Nazareno e mostrar que ambos frequentavam o Palácio Guanabara, tendo o ladrão de carros conseguido entrar na folha de pagamento do Estado”.

Ah, só pra constar, Carlinhos Gordo não mais foi visto neste mundo.

Em setembro de 1988, Nazareno já tinha sido detido por porte ilegal de arma e suspeita de roubo de um carro Chevrolet Monza, então um carro de bacana. Mas pagou fiança e foi liberado. No mesmo ano, ele se envolveu com o traficante Bolado. À polícia, Nazareno disse que o grupo dos sequestradores de Medina foi recrutado pelo chefão do Comando Vermelho conhecido como “Japonês” (Francisco Viriato de Oliveira), que estava trancafiado na penitenciária de segurança máxima Bangu I.

Como o chefão do crime comandava o crime de dentro da cadeia? Tem de perguntar de novo pro Moreira Franco.

O “Jornal do Brasil” de 17 de junho de 1990 explica que Nazareno, contratado pela campanha de Moreira Franco, foi o responsável pela arregimentação do voto dos familiares e amigos de presidiários, além dos comandados nos morros cariocas. “A líderes da organização criminosa Falange Vermelha [a organização que deu origem ao Comando Vermelho] no Complexo Penitenciário Frei Caneca (Centro), prometeu vida boa para os presidiários, caso Moreira Franco vencesse a eleição.”

Como epílogo dessa história, segue a forma como Miguelão (Miguel Jorge) também foi assassinado: a tiros, na porta de sua casa, a poucos dias de se apresentar à Justiça para falar do sequestro de Roberto Medina. Miguelão, vamos lembrar, tinha sido segurança de Moreira Franco e do deputado federal Rubem Medina, irmão de Roberto Medina. O “Jornal do Brasil” assim registrou o enterro de Miguelão:
“Cerca de 300 pessoas compareceram ao enterro no Cemitério do Pechincha, em Jacarepaguá, marcado por tensão e revolta. (…) Parentes e amigos – que não se identificaram — acusaram o governador Moreira Franco de ter sido o mandante do assassinato”.
É este o idealizador da intervenção militar no Rio. Ele é parceiro da rede Globo. Você confia neste homem?

Laura Capriglione
No Jornalistas Livres
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Aspectos geopolíticos da intervenção no RJ


I- Desde a década de 1980, com intensificação na década de 1990, os governos dos EUA passaram a pressionar os governos da América Latina, no sentido de que as forças armadas da região passassem a atuar em segurança pública, mais especificamente no combate ao narcotráfico, tema muito sensível nas eleições daquele país.

II- Essa pressão obedecia a dois propósitos: em primeiro lugar, auxiliar as forças norte-americanas a reduzir o afluxo de entorpecentes aos EUA e, com isso, aumentar os preço das drogas vendidas naquele mercado, diminuindo, dessa forma, o consumo local.

Mas havia também outro objetivo, oculto, pelo qual se procurava enfraquecer a capacidades das forças armadas latino-americanas de cumprir sua missão precípua de defender o território e a soberania de seus países.

Com isso, os EUA procuravam (e ainda procuram) fazer com que as forças armadas da região se convertam em forças subalternas às forças militares norte-americanas.

III- Foi exatamente por isso que os EUA pressionaram o Brasil , na década de 1990, a desenvolver uma política de desarmamento e de sucateamento das forças armadas, que foi prontamente aceita e implementada pelo governo neoliberal de FHC. De fato, naquela época o Brasil firmou todos os acordos de desarmamentos possíveis, inclusive o TNP.

IV- O ex-chancelar Celso Amorim observa que: "esse pensamento de que Forças Armadas devem combater narcotráfico é lamentável. Eu convivo com essa questão há muitos anos. Eu fui ministro das Relações Exteriores na época do governo Itamar. Na ocasião, veio o secretário de defesa dos EUA, William Perry, e como na época não havia ministro da defesa, eu o recebi, embora ele tivesse contato com vários comandos. Todos estavam muito preocupados com essa ideia de transformar as Forças Armadas brasileiras em instrumento de combate à criminalidade. Essa era a agenda norte-americana. Eles [EUA] diziam algo como 'olha, segurança externa e defesa cuidamos nós'. Isso foi o que eles impuseram no México, e deu muito errado pro México.

V- De fato, a experiência do México, nesse aspecto, tem sido desastrosa. Desde 2005, quando o ex-presidente Fox envolveu as forças armadas mexicanas no combate ao narcotráfico e ao contrabando, que o Exército e a população vivem um pesadelo crescente. Conforme estimativas conservadoras, mais de 100 mil pessoas foram assassinadas nessa guerra inventada pelos EUA, a maioria civis inocentes.

VI- Com efeito, o desgaste é evidente. O uso da força militar foi acompanhado de abusos e assassinatos.

As organizações internacionais denunciam a tortura como uma prática comum.

E o terrível resultado de episódios como Tlatlaya ou Ayotzinapa (nos quais estudantes secundaristas de esquerda foram chacinados) aprofundou essa desconfiança.

É um beco sem saída. A crise da violência no México se aprofundou e não existe uma autoridade civil capaz de responder através da prevenção ou da punição. É por isso que as forças armadas são usadas.

Mas é um erro, porque eles não são policiais ou um órgão de justiça.

E tal política os expõe (os militares) a uma interação permanente com o crime organizado, que conduz à corrupção e ao desvirtuamento de sua missão.

VII- No México, o colapso das forças policiais, corroídas até a medula pelo narcotráfico, forçou os militares a ocupar espaços cada vez maiores de segurança.

"Nossos soldados não podem fazer mais. Proporcionalmente, em nosso território e população, somos o exército mais pequeno do mundo", disse o general Cienfuegos, comandante dessas forças de segurança.

"Por parte do tecido civil não há corresponsabilidade, apenas a inação, o que gera uma insatisfação notável dos militares e, claro, o desgaste. Há soldados que protegem escolas em Acapulco, ou que fazem o trabalho da polícia municipal, algo que não deveria ser função militar

A essa sobrecarga desvirtuada de trabalho, a ausência de um quadro legal de ação é adicionada.

Apesar de o exército ter se mobilizado há mais de uma década, nenhum governo quer regular esse uso que se tornou de longo prazo, sem data para acabar.

VIII- Em outras palavras, o uso das forças armadas no México em segurança pública, assim como na Colômbia, é um completo desastre: aumentou a violência e a insegurança, incrementou os atentados aos direitos humanos, aumentou a corrupção ente os militares, os desviou de sua função de defesa da pátria e da soberania, e provocou grande desgaste e insatisfação na tropa.

IX- Enfim, as forças armadas mexicanas, por pressão do governo dos EUA, são usadas politicamente como força auxiliar dos órgãos de segurança norte-americanos.

X- O ex-chanceler Celso Amorim teme por esse uso político aqui no Brasil.

Afirma ele, "a utilização política é grave e (os militares) não estão satisfeitos. Acho que isso está sendo imposto. E o aspecto que seria mais trágico para o Brasil, entre outros, é uma espécie de guerra das Forças Armadas com o narcotráfico. Seria uma desvirtuação da missão das Forças Armadas e um enfraquecimento da missão que é defender o Brasil, o pré-sal, as fronteiras, programas de tecnologia avançada... O que se espera das Forças Armadas é a defesa da nação. Mas claro que há sempre aqueles que têm saudades daquelas Forças Armadas nas ruas."

XI- Não se trata de exagero ou de teoria da conspiração. A ameaça é concreta.

Não temos dúvida de que a combinação da Lava Jato, que está destruindo o braço empresarial da Estratégia Nacional de Defesa, com a Emenda Constitucional nº 95, de 2016, que reduzirá drasticamente o investimento estatal nessa área, poderá fazer o Brasil retroceder à década de 1990, quando a tônica dada pelo neoliberalismo era a do desarmamento do país.

XII- Ademais desses fatores econômicos, é preciso lembrar que o Exército dos EUA participou, a convite do governo brasileiro, de um exercício militar conjunto que foi realizado, em novembro de 2017, na tríplice fronteira amazônica entre Brasil, Peru e Colômbia. Tal fato revela um fator político preocupante para a soberania nacional, no campo da defesa e da indústria de defesa.

XIII- Tratou-se de uma decisão inédita na história militar recente do Brasil, que causa estranheza.

O nosso país, até o presente governo ilegítimo, vinha investindo na gestão soberana da Amazônia, em parcerias com países da América do Sul, estabelecidas em mecanismos de cooperação regionais, particularmente os da Unasul e os da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA).

Assim, esse convite a uma superpotência estrangeira, que não faz parte da Bacia Hidrográfica da Amazônia, representa um "ponto fora da curva", na tradição de afirmação da soberania nacional numa região estratégica para o país.

XIV- Na realidade, esses exercícios vêm na esteira de uma série de iniciativas bilaterais que fazem parte de uma estratégia do governo ilegítimo de reaproximação subalterna aos EUA, tanto no campo da política externa, quanto no campo da política de defesa.

XV- Nesse diapasão, o Ministério da Defesa do Brasil e o Departamento de Defesa dos EUA assinaram o Convênio para Intercâmbio de Informações em Pesquisa e Desenvolvimento, ou MIEA (Master Information Exchange Agreement), na sigla em inglês.

Com tal decisão, o governo do golpe investirá na cooperação com os EUA, como forma de "desenvolver" nossa indústria de defesa. Na prática, isso significa renunciar a ter real autonomia no campo do desenvolvimento industrial e tecnológico da defesa nacional.

XVI- Ao que tudo indica, setores das Forças Armadas, hoje hegemônicos com o golpe, renunciaram ao desenvolvimento tecnológico relativamente autônomo e, agora, apostam numa relação de dependência com os EUA para o seu reaparelhamento.

XVII- A assinatura do referido Convênio, bem como outras iniciativas recentes, parecem inserir-se dentro do quadro de uma nova estratégia de inserção do Brasil, na órbita dos interesses dos EUA no subcontinente. Tal nova estratégia tende a minar a diretrizes, estabelecidas há vários anos, de o Brasil articular uma estratégia de defesa própria e conjunta do subcontinente sul-americano, mediante, entre outros mecanismos, do Conselho de Defesa da Unasul.

XVIII- Dentro desse novo quadro de dependência, a intervenção federal no Rio, com o uso ostensivo das forças armadas numa função que a desvia de sua missão principal (a defesa da soberania nacional), faz todo sentido para os interesses do Golpe e dos EUA.

Marcelo Zero
No Blog do Miro
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Intervenção militar no RJ: Renato Rovai entrevista Luiz Eduardo Soares


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Tillerson, la militarización y el petróleo


El modelo Tillerson de relaciones hemisféricas encarna la tradicional diplomacia de guerra de Washington, acentuada ahora debido a la crisis estructural y de legitimidad del sistema capitalista mundial.

En el contexto de una disputa geopolítica con competidores capitalistas extracontinentales (China, Rusia, Unión Europea) que desafían la hegemonía del imperio en su tradicional zona de influencia, la reciente gira del secretario de Estado, Rex Tillerson, por México, Argentina, Perú, Colombia y Jamaica tuvo una clara proyección expansionista con base en dos ejes principales: seguridad y energía.

Como integrante de la clase capitalista trasnacional, Tillerson, ex director ejecutivo de la corporación petrolera privada estadunidense Exxon-Mobil, esgrimió un enfoque mercantilista primitivo (Jorge Eduardo Navarrete dixit), tan anacrónico como la Doctrina Monroe en la que basó su discurso en la Universidad de Texas, en Austin, un día antes de su arribo a México.

El modelo Tillerson de relaciones hemisféricas encarna la tradicional diplomacia de guerra de Washington, acentuada ahora debido a la crisis estructural y de legitimidad del sistema capitalista mundial, caracterizada por William I. Robinson como la fusión del poder político reaccionario en el Estado, fuerzas ultraderechistas, autoritarias y neofascistas en la sociedad civil, y el capital corporativo trasnacional. Una triangulación de intereses que, en perspectiva, bajo la administración Trump, va configurando un Estado policiaco global de corte neofascista.

En ese contexto, las fracciones del gran capital más propensas a un fascismo del siglo XXI se sitúan en el sector financiero especulativo, el complejo militar-industrial-securitario-mediático y en las industrias extractivistas, entrelazadas con el capital de alta tecnología/digital.

Dada la magnitud de la crisis del capitalismo, su alcance global, el deterioro social y el grado de degradación ecológica que genera, para contener las protestas y/o rebeliones reales o potenciales, la plutocracia dominante viene impulsando diversos sistemas de control social de masas, represión y guerra (abiertas o clandestinas), que son utilizados, además, como herramientas para obtener ganancias y seguir acumulando capital frente al estancamiento. Lo que Robinson llama acumulación militarizada o por represión.

Tal categorización alude al talón de Aquiles del capitalismo: la sobreacumulación. La creciente brecha entre lo que se produce y lo que el mercado puede absorber. Si los capitalistas no pueden vender sus productos, no obtienen ganancias. Dada la enorme concentración de la riqueza, la clase capitalista trasnacional necesita encontrar salidas productivas rentables para descargar enormes cantidades de excedentes acumulados.

De allí que los complejos energéticos y extractivistas recurran a la intensificación y profundización del neoliberalismo vía la privatización de la infraestructura carretera, portuaria, aeroportuaria, ferrocarrilera, de oleoductos, gasoductos y electricidad, la superexplotación laboral y precarización del trabajo y políticas de desregulación total y mayor subsidio al capital trasnacional.

Dichas políticas de relocalización de capitales, reindustrialización y acumulación por desposesión o despojo de territorios y materias primas en economías dependientes, se ha venido dando en México, Centro y Sudamérica por conducto de golpes suaves, la imposición de facto de un estado de excepción permanente y el establecimiento de estados policiacos, cuyo soporte son la militarización de la sociedad civil y distintas modalidades de guerras tácticas sin fin, camufladas como lucha antidrogas o contra enemigos internos -los mapuches bajo el (des)gobierno de Mauricio Macri-, con armamentos avanzados impulsados por la inteligencia artificial, incluidos sofisticados sistemas de monitoreo, rastreo, seguridad y vigilancia.

En ese contexto, Tillerson colocó la energía, en particular los hidrocarburos (petróleo, gas, aceites no convencionales), como punto nodal de la renovada estrategia hemisférica de la administración Trump. Puso como modelo la fuerza energética de América del Norte; la apertura (privatización) de los mercados de energía en México, y el papel de EEUU como proveedor de gas natural para nuevas generadoras de electricidad en la región.

De hecho, México -que desde 2007 con la Iniciativa Mérida encabeza la lista de ayuda encubierta de inteligencia militar del Pentágono y la CIA, después de Afganistán- va camino a ser reconvertido en una plataforma de exportación de petróleo, gas natural y gasolinas producidas en la Cuenca de Permian y Luisiana, hacia el mercado asiático, vía los puertos de Manzanillo y el eje Coatzacoalcos/Salina Cruz, en el Istmo de Tehuantepec, que aprovechando la infraestructura instalada de Pemex, dará a las corporaciones de energía ventajas por menor tiempo y bajo costo de transporte, que si lo hicieran mediante el Canal de Panamá.

Dado que los hidrocarburos son un componente central de la estrategia neocolonial militarizada y de seguridad energética de Trump y las corporaciones del sector, Petróleos de Venezuela (Pdvsa, quinta empresa petrolera mundial) fue otro objetivo central de la gira de Tillerson. De allí que instruyera a los gobiernos colaboracionistas cipayos de Peña Nieto, Macri, Kuczynski y Santos, las nuevas modalidades que deberán desempeñar de cara a la intensificación del cerco militar, económico y financiero contra el gobierno constitucional de Nicolás Maduro, incluido un eventual embargo petrolero como nuevo precipitador de una crisis humanitaria que justifique una intervención militar multilateral.

Carlos Fazio
No República
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Intervenção Federal no Rio de Janeiro - Coisas Que Você Precisa Saber


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MPF publica nota técnica sobre intervenção militar no Rio


A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) e a Câmara Criminal do Ministério Público Federal (2CCR) divulgaram nesta terça-feira (20) nota técnica conjunta em relação ao Decreto 9.288, de 16 de fevereiro, que instituiu a intervenção federal no estado do Rio de Janeiro.

O documento externa a compreensão dessas unidades do MPF sobre a natureza civil da medida, da necessidade de respeito à legislação estadual, da delimitação quanto a amplitude e o prazo de vigência, assim como dos regramentos que se aplicam na requisição de eventuais mandados de busca, apreensão e captura.

A nota técnica esclarece que a intervenção é um mecanismo clássico do federalismo e que conta com disciplina expressa na Constituição Federal.

Para a PFDC e a 2CCR, o decreto presidencial que estabeleceu a intervenção federal no Rio de Janeiro é marcado, entretanto, por vícios que, se não sanados, podem resultar em graves violações à ordem constitucional e, sobretudo, aos direitos humanos.

“O detalhamento do decreto é uma exigência constitucional exatamente para permitir mecanismos de controle político, social e judicial”, esclarecem a Procuradoria Federal do dos Direitos do Cidadão e a Câmara Criminal do MPF.

De acordo com a nota técnica, a intervenção federal constitui uma medida extrema, porém menos grave do que o Estado de Defesa e o Estado de Sítio. Assim, não pode haver na medida de intervenção restrições a direitos fundamentais – diferentemente do que ocorre nas duas outras situações, para as quais a Constituição admite a temporária limitação de alguns direitos.

Com relação ao anúncio de que uma das medidas a serem adotadas durante a intervenção é a requisição de mandados de busca e apreensão e de prisão “genéricos”, os dois órgãos do MPF classificam como ilegal o procedimento – visto que o Código de Processo Penal determina a quem deve se dirigir a ordem judicial.

“Mandados em branco, conferindo salvo conduto para prender, apreender e ingressar em domicílios, atentam contra inúmeras garantias individuais, tais como a proibição de violação da intimidade, do domicílio, bem como do dever de fundamentação das decisões judiciais – além de constituir ato discriminatório contra moradores de determinadas áreas da cidade”, diz o documento.

O documento é assinado pela procuradora federal dos Direitos do Cidadão, Deborah Duprat; pela subprocuradora-geral da República e coordenadora da 2CCR, Luiza Frischeisen; e pelos procuradores adjuntos dos Direitos do Cidadão, Domingos Sávio Dresch da Silveira e Marlon Weichert.


No Justificando
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O que Ciro Gomes falou no Encontro da fAlha





O grave erro de Ciro Gomes

Ciro Gomes é um candidato a presidente deveras interessante.

Sua visão dos problemas brasileiros reúne um conhecimento profundo de economia ao objetivo genuíno de melhorar as condições de vida do povão.

Ciro bate constantemente no rentismo e na concentração de renda absurda do nosso país. Foi linha de frente na luta contra o golpe. É, portanto, um aliado do campo de esquerda.

Dito isto, suas posições sobre a imprensa hegemônica são decepcionantes, para dizer o mínimo.

Ciro participou ontem de um tal “2º Encontro Folha de Jornalismo”. Foi entrevistado pela colunista Mônica Bergamo.

O início é constrangedor. Ciro elogia a Folha e sua dona, a família Frias, por prestar informações plurais e fidedignas.

Apenas o episódio da ficha criminal falsa de Dilma Roussef, divulgada em 2009 pela Folha, desmente espetacularmente os elogios de Ciro. A própria Folha admitiu depois (aqui) que não poderia assegurar a autenticidade da ficha mas complementou, de forma cretina, que a autenticidade também “não pode ser descartada”.

De lá para cá a coisa só piorou. A Folha é um veículo a serviço do capital e faz um jornalismo absolutamente desonesto, muitas vezes bandido, mentindo e manipulando loucamente para atacar a esquerda, além de ter sido uma das grandes propulsoras do golpe de Estado que Ciro tanto combateu, em um conluio aberrante com o sistema de justiça.

A primeira pergunta da entrevista é sobre Lula. O próprio Ciro, após respondê-la, brinca que quer falar um pouco das suas próprias ideias ao invés de falar do ex-presidente, “se não sai na Folha amanhã ‘Ciro mete o pau no Lula'”.

Elementar, meu caro Gomes.

Ciro sacou de pronto qual a grande motivação para que fosse convidado ao evento – gerar manchetes contra Lula a partir de críticas vindas do campo da esquerda – e mesmo assim prestou-se ao lamentável papel.

Perguntado sobre a regulação da mídia, Ciro repetiu a estúpida frase de Dilma e disse que “a melhor regulação da mídia é o controle remoto. (…) Quer mudar de canal? Muda de canal. Não precisa o governo regular”.

Na resposta anterior ele mesmo havia criticado o fato de que a mídia no Brasil é controlada por cinco famílias e uma igreja e tem uma linha ideológica única. Do que serviria o controle remoto, então? Deve ser para a pessoa escolher qual veículo de direita, anti-povo e antidemocrático irá manipulá-la.

Diz que hoje há o contraponto da internet, mas esqueceu de dizer que a brutal concentração de mídia no país tem um poder de fogo incomparavelmente maior do que qualquer post de blog ou em rede social.

A Globo, Folha e demais integrantes da máfia midiática são as grandes responsáveis pelo caos golpista no qual estamos metidos.

Seu papel no golpe de 2016 e na perseguição a Lula é fulcral. Sem a pesada manipulação midiática – a qual só é possível porque não há qualquer regulamentação que faça com que a imprensa expresse a pluralidade política da sociedade – a Lava Jato simplesmente não teria como fazer o que fez.

Por suas falas, Ciro aparenta ignorar tudo isso, o que não me parece provável, dada a sua inteligência. A outra hipótese é que finja ignorar deliberadamente, para talvez tentar angariar alguma simpatia dos barões da imprensa.

Caso a segunda tese seja mesmo a correta, Ciro comete um equívoco grosseiro.

Ele está sendo poupado pela velha mídia até agora porque suas críticas a Lula servem aos interesses da direita.

Assim que Lula estiver definitivamente fora do páreo, as baterias do oligopólio de mídia se voltarão para qualquer candidato do campo progressista.

Ciro cedo ou tarde será o alvo do massacre midiático que ataca impiedosamente qualquer candidato a presidente não alinhado ao projeto político da direita.

O controle remoto não vai ajudá-lo.

Pedro Breier
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As colinas do “general” Temer


Os dias até o final  do mês serão esclarecedores sobre os problemas colocados diante dos planos, muito bem desenhados hoje por Bernardo de Mello Franco, em O Globo, de fazer da intervenção federal no Rio de Janeiro, ao dizer que o marqueteiro presidencial pretende, com ela, “deixar os escândalos de corrupção para trás e vender o presidente como um político corajoso.

Como se apontou ontem aqui, ao resolver dedicar o mandato à seu sonho de afirmação, Temer entregou os fatos mais importantes de sua eventual campanha – a economia e a forma da própria intervenção na segurança, inteiramente nas mãos do “mercado” e dos militares.

Um e outro, porém, têm suas próprias regras e conhecem seus próprios riscos.

No mercado, os players mais pesados operam com olhos sempre ligados no exterior, onde existe muitas dúvidas, exceto uma: os juros do Tesouro Americano vão (e já estão fazendo isso) subir e, desde que o mundo é mundo isso retira capitais dos “playgrounds” onde eles brincam do jogo sério de ganhar mais dinheiro.

Saem de acordo com seus cálculos nada imparciais de qual é o risco que se “paga” e ontem a Fitch e a Moody’s advertiram publicamente que devem logo seguir o que fez, antes, a Standard & Poor’s: rebaixar a “nota” brasileira. A ver qual será reação da “turma da bufunfa” aos avisos – seja o grosseiro de Rodrigo Maia ou o gentil de Eunício de Oliveira – de que nada ou quase nada das propostas econômicas governistas andará de agora até as eleições.

No lado militar, certamente não escapa a seu alto comando o que está explícito nos jornais. E a ideia de serem cabos-eleitorais de temer positivamente não lhes agrada – exceção ao general-ministro Sérgio Etchegoyen. O general interventor permanece mudo, mantendo o mínimo de atividade para que a tropa seja visível, mas fazendo vazar sinais de que reluta em espalhafatos.

Assim deve ser lida a nota em que o Tenente Brigadeiro Nivaldo Luiz  Rossato, comandante da Aeronáutica diz que é “equivocada” a ideia “de que as Forças Armadas teriam sido acionadas para intervir no Rio de Janeiro”, afirmando que não é militar, mas presidencial a intervenção. E, avançando, afirma que “não há previsão de emprego de efetivo das Forças Armadas além dos que já se encontram envolvidos na atual operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO)” já em curso há sete meses.

O texto, não por acaso, foi publicado no  boletim oficial da Arma e reproduzido ontem, como artigo, em O Globo. Não o foi, certamente, sem diálogo com o General Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, e sem o conhecimento do interventor Braga Netto.

Os militares, até por formação, não se lançarão a ataques sem: 1) as garantias de que serão, senão blindados, ao menos cobertos contra ações do Judiciário que exponham suas tropas além do que consideram natural; 2) a segurança de que suas linhas de suprimento (leia-se recursos, já escassos) serão garantidas e abastecidas e 3) que aquele que lhes deu a ordem os vulnere com a exploração política (ainda) mais desavergonhada de seus objetivos.

O que a charge do Aroeira resume é mais do que percebido pelo comando militar e está no radar quando lhe exigem pressa.

O General Braga Netto está ciente de que está muito mais para Bernard Montgomery do que para George S. Patton. Será cobrado, como aquele, por lentidão, mas ciente de que a temeridade só é virtude quando a vitória é provável e não impossível.

Da mesma forma, há muita reflexão quanto a realizar uma razzia moralizadora na Polícia Militar, além de uma ou outra intervenção pontual. O suficiente, talvez, para inibir sabotagens maiores, mas não o que cause divisões e dissenções no “front” interno.

Temer é um comandante fraco e desmoralizado. É obedecido, mas não galvaniza as forças que estão com ele, por ambição ou disciplina. Aos primeiros, não dá certeza de ser capaz de entregar o butim. Aos segundos, o temor de que cheguem lá sendo vistos como se vestissem uniforme alemão.

Fernando Brito
No Tijolaço
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