18 de fev. de 2018

Intervenção no RJ: Cartada de risco

Os fatos que precedem a intervenção militar no Rio emolduram o quadro que precisamos interpretar e que com o tempo irá perdendo as cores e ficando mais claro. O planejamento midiático, desde a preparação do golpe vem destruindo a confiança na política e a esperança do povo brasileiro. A assimetria de poderes ganhou relevância e a Constituição da República tratada como um instrumento a ser usado segundo a conveniência dos poderosos de ocasião, manietados pelo capital.

A decisão destes de excluir o ex-presidente Lula do processo democrático brasileiro foi percebida pela sociedade que reage nas pesquisas e o mantem líder. Dois mil executivos aplaudem Bolsonaro em São Paulo com seu discurso vazio de projeto, mas fascistizante na ação. O povo ecoa em todo o Brasil e no Rio, em particular, a rejeição ao governo Temer e às mazelas politicas, sociais e éticas decorrentes de seus acordos com o capital financeiro e com o que há de pior nos interesses da politica brasileira e estrangeira.

E no Rio de Janeiro observa-se a indignação com a orfandade e inépcia dos governos locais, e com a realidade econômica e social pessimamente conduzida pelo Governo do Estado e agravada pela própria desgraça da política econômica nacional.

Com todos esses fatores e acuado numa pauta impopular da reforma da previdência, sem unidade no seu campo e sem candidatura viável para 2018, Temer faz do Rio de Janeiro o laboratório de uma jogada política. Mas esta jogada envolve muitas facetas e por isso muitos riscos para o país e para o povo.

As Forças Armadas brasileiras têm um papel constitucional e dele vem sendo desvirtuado por este governo, que lhes tira recursos de avanço tecnológico e de manter sua função básica e estratégica de defesa nacional contra o inimigo externo. Para esta ação são treinadas. Não são forças de segurança pública, nem forças policiais. Este confronto não é seu e este envolvimento pode lhe desgastar e gerar graves consequências.

O Comandante do Exército recentemente afirmou que a obrigação da Força deveria ser sua missão constitucional e que a democracia deve prevalecer. O protagonismo que o governo dá aos militares nesta intervenção ou em outras que possa decretar (precisamos ler entrelinhas) não tem o desejo de importantes lideranças militares, como vimos. As diversas presenças de forças militares em nosso Estado e nas favelas nunca resolveram o problema de segurança, porque este é estrutural.

Como se comportarão as facções criminosas e que proveito podem tirar deste processo? E as corporações policiais do Estado, como reagirão?Quais as consequências deste conflito para os soldados e oficiais, como agirão nas ruas? Que consequências esses conflitos trarão para a população? Ficará algum legado positivo? O que foi feito dos planos de segurança desenvolvidos até aqui? Onde está a integração anunciada pelo governo Temer? Onde estão os relatórios das ações das FFAA realizadas aqui nas comunidades, onde estão os dados? Transparência zero.

Os exemplos de ineficácia são muitos, principalmente nas favelas, onde os direitos e garantias constitucionais dos cidadãos são violados diariamente pelas forças de segurança. Há grande responsabilidade do governo federal na situação do Rio e de outros estados, onde os índices de violência são até maiores. Corte de recursos e investimentos, falta de prioridade no combate ao mercado clandestino de tráfico de armas e drogas, detecção dos mandantes na lavagem de dinheiro, aumento da desigualdade social, ausência investimento na juventude, estrangulamento financeiro do país, das políticas públicas, dos repasses aos estados e municípios, crise econômica. O pouco preparo e saneamento das corporações policiais, pouco uso da inteligência e investigação por parte dos estados são fatores de profundo agravamento do quadro.

Temer tenta angariar popularidade, ocupar espaço à direita, endurecer e ser referência para a base dos fascistas, que saírm do silêncio em tempos de ódio e golpe. Busca construir uma candidatura deste campo que seja viável, com estas características e conteúdo, mas não abandona sua agenda de reformas, desmoralizando a própria intervenção no 1º dia, subordinando a sua manutenção à possibilidade de votar a reforma da previdência, claramente demonstrando que não tem nenhuma preocupação, de fato, com a “segurança das pessoas”.

Caso seus objetivos políticos não sejam alcançados, temo pela democracia brasileira. Teremos eleições? Parte da população percebe o jogo, sabe suas consequências, não acredita e se organiza para acompanhar e exigir transparência e direitos. Mas não é surpresa que a maioria apoie a intervenção, pelo desespero e medo do dia a dia vivido nos seus bairros e favelas, agravado pelas constantes matérias da mídia aberta, mais precisamente a GLOBO, que planejadamente trabalhou as imagens de violência e incapacidade do governo Pezão, e previamente preparou sustentação da medida radical que viria.

Não podemos iludir o povo, nem deixar de observar a inconstitucionalidade do decreto e muito menos dar cheque em branco a este governo, que já provou, não ter nenhum compromisso com nossa gente.

A unidade de força populares e democráticas é decisiva neste momento. Só na democracia e na soberania do voto popular daremos saídas justas aos dramas do nosso povo. É necessário um projeto para o Brasil e para o Rio de Janeiro que assegure desenvolvimento, emprego, educação e paz. Que a violência seja combatida com investimento, com inteligência, investigação, enfrentamento do mercado de drogas e armas, repressão ao crime sem perda de vida de inocentes, balas perdidas ou violação de direitos constitucionais.

Chega de usar a vida das pessoas como peça descartável no jogo de interesses do capital!

Jandira Feghali é médica, deputada federal (PCdoB/RJ) e vice-líder da oposição.
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Eugênio Aragão comenta a intervenção militar no Rio


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Qual o real interesse por trás da equivocada intervenção no Rio?

intervenção militar2 militares no rio

Por qualquer ângulo que se examine, a intervenção no Rio de Janeiro é aquele tipo de escolha que tem enorme chance de colecionar muito fracasso e de produzir zero acerto.

É uma decisão tremendamente equivocada e ineficaz, que não resolverá os problemas da violência, insegurança e do crime organizado no Rio. Que não é, inclusive, o Estado da federação com a pior realidade, que justificasse a adoção de medida grave e perigosa.

No Atlas da Violência do IPEA, a taxa de 30,6 homicídios a cada 100 mil habitantes em 2015 coloca o Rio na 18ª posição do país. Estão em situação muito mais crítica que o Rio, portanto, outros 17 Estados que, em tese, deveriam merecer absoluta prioridade de atenção antes do próprio Rio.

Alguns deles com taxas alarmantes, como Sergipe, com 58,1 homicídios/100 mil habitantes; Alagoas, 52,3/100 mil; Ceará, 46,7/100 mil; Goiás, 45,3/100 mil; Pará, 45/100 mil; Rio Grande do Norte, 44,9/100 mil; Pernambuco, com 41,2/100 mil etc.

Por outro lado, o relatório de 2016 do Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal do México registra 19 cidades brasileiras dentre as 50 mais cidades mais violentas do mundo. A única cidade do Estado do Rio que figura na lista, entretanto, é Campos dos Goytacazes, em 19º lugar, com 56,4 homicídios por 100 mil habitantes.

A lista inclui Natal, Belém, Aracajú, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Salvador, Maceió, Recife, João Pessoa, São Luís, Fortaleza, Teresina, Cuiabá, Goiânia, Macapá, Manaus, Vitória e, em 49º lugar, a Curitiba dos fascistas da Lava Jato, com 34,9 homicídios por 100 mil habitantes.

Além destes 2 estudos – um nacional e outro estrangeiro – também tem muito valor a informação da presidente do Instituto de Segurança do Rio, Joana Monteiro, de que “não houve nenhuma explosão de violência no Rio durante o carnaval” [entrevista ao Estadão] que justificasse a intervenção.

Ela sustenta com dados que o número de ocorrências no período do carnaval de 2018 se equiparou a 2017, e é quase metade das ocorrências dos carnavais de 2015 e 2016.

Apesar disso, Temer e a Rede Globo enxergam na situação do Rio as “metástases” que não diagnosticam nos demais estados brasileiros em condição bastante mais crítica.

Ora, se pelo critério epidemiológico não haveria a menor justificativa para a medida, o que então explica a decisão da camarilha do Temer, que até já recebeu aplausos de juízes do STF, mesmo que a medida seja inconstitucional, porque carente de fundamento técnico-social e de consulta prévia ao Conselho da República?

O general designado interventor, Walter Souza Braga Netto, antítese do falastrão ministro da Defesa, respondeu magistralmente a esta pergunta com apenas 2 palavras: “muita mídia”, disse ele, comentando que a situação do Rio não é tão crítica como se tem noticiado. Ou, de outra maneira: não difere da realidade de décadas.

Mais além do agendamento histérico-midiático produzido pela Globo, que é verdadeiro e concreto, qual o real interesse por trás dessa equivocada e perigosa decisão, nunca antes adotada?

Especula-se que serviria como álibi para a camarilha não votar [e não ver derrotada] a reforma da previdência, uma vez que a Constituição proíbe mudanças constitucionais sob a vigência de decreto de intervenção federal. Isso, contudo, é mera consequência; é muito, mas muito pouco provável que tenha sido o fator determinante para a medida.

Outra hipótese é de que intervenção teria sido pensada como cartada política para turbinar candidaturas do bloco dominante explorando demagogicamente a agenda da segurança. É possível que sim, porém improvável, porque os riscos de fracasso suplantam muito a expectativa de êxito.

Em questão de dias o cenário ficará desanuviado, e então o enigma poderá ser decifrado. Não se pode menosprezar, todavia, que a intervenção no Rio abre uma janela de oportunidade para o endurecimento autoritário do regime de exceção, com a adição do componente militar à ditadura jurídico-midiática que domina o país.

A intervenção no Rio não caracteriza o fechamento do regime, mas poderá significar, se isso for necessário para interditar a vitória do Lula ou do candidato que ele ajudar a eleger na eleição de outubro próximo.

Seja por puro acaso, por sorte ou por planejamento estratégico, a verdade é que a oligarquia golpista pode ter adicionado um novo ingrediente ao cardápio de opções para perpetuar o golpe.

Jeferson Miola
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A elegante Rádio Verde-Oliva


O que espanta é que não cause espanto que algo da força de uma intervenção do governo central em um Estado da Federação se dê sem que nenhum analista entenda qual o real motivo dessa ação de força.

Porque é essa a conclusão a que chego lendo as várias análises feitas de blogues de política às páginas dos grandes jornais sobre a intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro decretada por Temer.

Ninguém parece saber para que real fim se deu a intervenção.

Dos que dizem que para disfarçar a derrota na votação da reforma da previdência aos que veem como o primeiro passo da implantação de uma nova ditadura, passando pelos que consideram apenas uma jogada de marketing para melhorar a imagem do governo, há especulações de todos os tipos.

Em relação a uma questão, no entanto, todos parecem concordar: são céticos quanto ao sucesso em atingir o principal objetivo dessa ação: a intervenção não resolverá a questão da segurança pública.

Vivemos tempos muito estranhos.

Talvez, então, devêssemos ouvir os militares. Que missão eles acreditam que estão cumprindo no Rio de Janeiro?

O general Eduardo Villas Bôas – o comandante do Exército – é um homem que cultiva a elegância no desempenho de suas funções. Tratou elegantemente do princípio de crise dada a intempestividade e incontinência verbal do general Mourão e elegantemente o enviou para a reserva. Manteve o comando, a disciplina, a discrição e a elegância.

Como se posicionou o general Villas Bôas, em relação à ação temerária?

Elegantemente deixou claro que a intervenção é de responsabilidade da presidência da República. E delimitou não se tratar de assunto afeito ao comando do Exército. Por analogia, não é assunto das Forças Armadas.

General Villas Bôas2

Mas para se percebe tal é necessário um exercício de elegância ao ler seu elegante texto em uma rede social:

“acabei de reunir-me com o General Braga Netto, nomeado interventor federal na segurança pública do RJ. Da análise, concluímos que a missão enlaça o General diretamente ao Sr. Presidente. Ele terá todo o apoio do Exército. As FA continuarão cumprindo as suas missões de garantidora da lei e da ordem no Rio de Janeiro”.

Reparemos:

1- “Concluímos que a missão enlaça o General diretamente ao Sr. Presidente”.

2 – “Ele terá todo o apoio do Exército”.

3 – “As FA continuarão cumprindo as suas missões de garantidora da lei e da ordem”.

Não me parece declarações de quem está prestes a deflagrar uma típica quartelada latino-americana.

O Exército é disciplinado e não se insubordinará a uma ordem vinda do “Comandante em Chefe”, mas se manterá dentro dos limites constitucionais de sua função.

General Villas Bôas3

Tampouco me parece que o Exército, na figura de seu comandante, nutra ilusões de que cabe às Forças Armadas assumirem para si qualquer obrigação salvacionista em relação à administração do Estado. Em outro texto elegante, o general Villas Bôas pondera:

“Os desafios enfrentados pelo estado do RJ ultrapassam o escopo de segurança pública, alcançando aspectos financeiros, psicossociais, de gestão e comportamentais. ​Verifica-se, pois, a necessidade de uma honesta e efetiva ação integrada dos poderes federais, estaduais e municipais”.

Neste momento, há que se aguardar. Não há como saber em que dará a intervenção federal no Rio de Janeiro. Se ela tinha algum objetivo inconfessado a movê-la, ou se é apenas uma aventura irresponsável.

Vivemos tempos muito estranhos.

Agora, sem dúvida, o comandante do Exército, em relação ao que se espera ser o papel das Forças Armadas nessa intervenção, deixou alguns elegantes recados às “vivandeiras alvoroçadas que aos bivaques buscam bulir com os granadeiros e causar extravagâncias ao poder militar”.

As Forças Armadas continuarão cumprindo as suas missões de garantidora da lei e da ordem”.

PS1: para “preservar” sua imagem, Temer pediu ajuda aos bicheiros cariocas que controlam a Liga das Escolas de Samba para impedir o desfile do Vampirão Neoliberalista da Paraíso do Tuiuti. Em seu túmulo, o “doutor” Castor de Andrade deve ter aberto um sorriso – até por uma questão de etiqueta, favores feitos devem ser retribuídos – o Rio de Janeiro continua lindo. E Temer – o pequeno asno – conseguiu criar um fato novo para um acontecimento cujo impacto já havia sido assimilado. Passou recibo e carimbou mais um ato de truculência no seu passaporte para o lixo da história. Censor de carro-alegórico.

PS2: não é de se esperar que alguém da elegância do general Villas Bôas fosse associar a Arma que comanda a esse tipo de gente – o presidente incluso e companhia bela.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Concertos Gerais e Poesia
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"Não tem chance de dar certo"


Não há planejamento. Não há coesão entre os militares.  Não há união política mesmo entre os porta-vozes brasilienses. Não há consenso, muito longe disso, entre especialistas ouvidos até pela mídia amiga. Luís Eduardo Magalhães, liderança liberal morta há 20 anos, traduzia assim esses momentos: "não tem chance de dar certo". Não, não há equação possível que me faça antever sucesso nessa mal ajambrada intervenção no Rio de Janeiro.

Eis os motivos, além dos acima expostos:

1. As rotas de fuga dos bandidos estão mapeadas e fechadas? Não. E não estão porque o Exército não se preparou para intervir. Vai chegar aos poucos, como se isso fosse possível.

2. O povo honesto e trabalhador que mora nos morros do Rio, espoliado e humilhado por anos e anos de humilhações e saques, suportará ações arrogantes e intempestivas contra si e os seus? Ficará calado ao ser vítima de baculejos vis e arrogantes? Ou vai reagir? E quando houver reações pontuais e pessoais a isso, como se portarão os militares despreparados para tais atos? O efeito disso será compreendido como dano colateral em meio a uma guerra? Como a mídia favorável à intervenção vai noticiar isso? A primeira vez é teste tenso. A segunda vez é causadora de irritação. Depois da terceira vez, camaradas, o morro desce.

3. O Rio é melhor ou pior que o Brasil? A situação no Rio é pior que a do Ceará ? Do Rio Grande do Norte? Do Acre? De Goiás ? Cearenses, goianos, potiguares, acreanos não merecem o mesmo olhar federal e militar para suas mazelas de segurança? O Exército tem como atendê-los?

4. Os militares, derrotados pela falta de resultados no Rio, receberão de cabeça baixa a desmoralização do mito de suas forças? Ou terão de encarar os seus, os próximos, como a face da derrota ante a decepção?

Camaradas, não tem chance de dar certo.

Luis Costa Pinto
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Gustavo Ferraz: "Dinheiro foi entregue a Geddel"


Preso ano passado durante a operação Tesouro Perdido em razão de uma digital sua ter sido encontrada em saco de dinheiro no "bunker" que escondia R$ 51 milhões, e citado pela imprensa e Polícia Federal como amigo próximo do ex-ministro Geddel Vieira Lima, Gustavo Ferraz hoje responde à Justiça em liberdade, após ser solto de recolhimento domiciliar pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), no dia 2 de fevereiro.

Após ser flagrado pela reportagem de A Tarde curtindo a sexta-feira de Carnaval, na Barra, Ferraz aceitou conceder entrevista exclusiva para dar sua versão dos fatos, a exemplo do episódio de 2012, quando foi à São Paulo, a pedido de Geddel, buscar dinheiro que, conta ele, imaginava que seria usado para campanha.

Gustavo Ferraz, advogado e ex-diretor da Codesal - Foto: Joá Souza l Ag. A TARDE l 14.02.2018
Gustavo Ferraz, advogado e ex-diretor da Codesal
Gustavo afirma que, ao contrário do que dizem, nunca foi braço direito do ex-ministro. Fala em deslealdade e vai além: aposta em provar sua inocência para ser candidato à Prefeitura de Lauro de Freitas em 2020.

Quando abordado no Carnaval, você disse que não era operador e que a figura que estão pintando na imprensa não corresponde à realidade. Mas o que todos dizem é que você era o braço direito de Geddel...

Todos quem?

A imprensa, políticos e até a Polícia Federal...

Não tem laudo da Polícia. Estamos aqui diante de vários documentos [mostra peças jurídicas e laudo da papiloscopia] que remetem a acreditar que muito do que foi dito pela imprensa nacional, infelizmente, é desproporcional à minha pessoa. Quando eu te falei lá [no Carnaval], que achava... que eu entendia que foi criado um personagem nesta história, de fato foi. A história precisava de alguém que tivesse ajudado. E o tempo passou e não sou essa pessoa. Até porque, você há de convir que é incompatível com os meus bens, é incompatível com minha história política, é incompatível com a origem da minha família por exemplo... a minha fiança foi paga pela minha mãe, estou desempregado - fiança de 100 salários mínimos, depois conseguimos reduzir pela metade. Acredito eu que a Justiça não faria essa redução se tivesse encontrado um patrimônio nababesco. Só tenho uma casa financiada pela Caixa Econômica Federal e um carro de um consórcio. Evidente que aquelas imagens chocam [das malas de dinheiro no apartamento da Graça, apelidado 'bunker'], mas eu não tive nenhum benefício, nem obtenho nenhum benefício político ou financeiro da política. Eu não faço negócio, faço política de forma correta. Quando foi feita a busca e apreensão [na casa dele, em Vilas do Atlântico] só encontraram dois celulares, um computador e um jingle de campanha. As pessoas que me conhecem, tá certo, que convivem comigo, me defendem. Sou pessoa de classe média. Eu nunca me envolvi com coisas que são erradas. Talvez o único erro que eu cometi nessa história toda foi não perguntar a origem do dinheiro [que foi buscar em São Paulo em 2012]. Mas já passou, e eu estou pagando por isso.

O senhor era funcionário do PMDB? (hoje MDB)

Eu era um funcionário do partido... era contratado como assessor de bancada da liderança do PMDB na Assembleia Legislativa da Bahia com uma remuneração de R$ 3 mil...

E também devolvia dinheiro, como o Job Ribeiro?

Não! Claro que não. Era envolvido com as campanhas, dezenas de milhares de pessoas pelo estado inteiro. É um partido, o MDB na Bahia, sabe que tem campanha em quase todos os municípios da Bahia. E a sede do partido, a sede estadual, você deve imaginar como não fica em tempo de campanha. Campanha naquela época demorava três meses, eram filas de pessoas, de candidatos a vereadores, de prefeitos, etc... todos eles pedindo ao partido ajuda para suas campanhas.

Vamos, então, do início: quem pediu para o senhor ir buscar o dinheiro, como foi?

As pessoas do partido...Geddel era o presidente...'você pode pegar uma contribuição de campanha pra mim?'. Porque não? Posso. Talvez meu erro tenha sido não perguntar: 'vem cá, da onde é esse dinheiro?'. Talvez poucas pessoas pudessem fazer essa pergunta. Talvez o meu erro, talvez, tenha sido não questionar. Mas como funcionário que era, está certo, talvez poucos na minha função perguntassem. Eu com a filha recém-nascida, tendo que pagar minhas contas, você vai se insubordinar à pessoa que está ali... que de uma certa forma te mantém, com a sua vida regular? Com suas contas pagas e etc? Meu emprego dependia disso, não é verdade?

Então foi o ex-ministro Geddel quem pediu?

Sim, o presidente do partido...

E aconteceu como foi noticiado? O senhor chegou lá [em São Paulo], se hospedou em um hotel?

Não me hospedei em hotel nenhum, não tenho nenhuma hospedagem em hotel. Eu fui encontrar uma pessoa [identificada pela PF como Altair Alves] que estava hospedada nesse hotel [Clarion], que eu também não conheço. Eu conheci aquela pessoa daquela vez. É a mesma coisa de você perguntar: qual é a cor da calça que você usava na época? É a mesma coisa você perguntar como era a pessoa que você só viu uma vez na vida, há cinco anos. Eu fui ao hotel e fiquei esperando a pessoa chegar. A pessoa chegou, me levou ao local onde eu ia pegar o recurso. Deveria ser o que: uns R$ 300 mil mais ou menos... um pouco menos, um pouco mais do que isso, não sei. Está certo? Mas nada absurdo. Daí a você saber a origem [do dinheiro]... não tem nenhuma caracterização. Foi tudo muito rápido. Eu estava aqui [no hotel], sentei um pouco, daqui a pouco vem o cara e diz 'está lá, depois o carro vai te levar no aeroporto'. Claro que você não vai circular isso pelas vias normais né, em um embarque de passageiros com dinheiro de campanha. Embarquei em Congonhas, não foi em avião de carreira, foi em avião particular. Agora, quem é o dono, eu não sei. Cheguei [em Salvador], entreguei o recurso e tal e... fiz a minha parte, está certo?. E está lá a minha digital porque eu talvez eu tenha aberto a mala para mostrar que de fato o dinheiro estava lá, não tinha tirado nada. Não tem digital nenhuma em cédulas. Estava em saco plástico. Era um recurso envolvido no saco com a etiqueta do Banco do Brasil. Nesse pegar para mostrar foi que a digital ficou. A digital do dedo anelar direito, metade do dedo.

E depois?

Voltei para Salvador e continuei a minha vida. Normal, fazendo campanha, fazendo política. Fui candidato a prefeito [de Lauro de Freitas] na eleição de 2016, não recebi nenhuma contribuição, é só olhar a minha conta de campanha. Nenhuma, zero. Minha conta foi 00. Não tive nem a presença deles [dos irmãos Vieira Lima] na minha campanha. Nem do deputado [Lúcio Vieira Lima], nem do ex-ministro [Geddel]. E como é que eu sou o braço direito? Você acha que eu não ia ter nenhum dinheiro para campanha?

Então qual é a sua relação com Geddel e Lúcio?

Eu nunca neguei a vocês [da imprensa] a relação política. Apareço em fotos, em várias fotos no meio da rua. Agora, fotos do aniversário... eles foram em minha casa, sabem onde eu moro? Foram no aniversário da minha filha, da minha mulher, meu? Ou eu fui nas festas de aniversários que não foram em lugares públicos, foram em lugares restritos, na casa...- porque político faz festa em lugar público, mas faz também em lugares restritos...essa relação, vamos dizer assim... além da política, fica difícil de você falar. O que as pessoas estão tentando atribuir, na verdade, é uma mentira. Isso [de ser braço direito] não é verdade, isso é falso.

Mas então de onde o senhor acha que partiu essa 'mentira'?

Não sei. Dos adversários políticos que eu tenho ao longo desse caminho, evidentemente, e também por pleitear a prefeitura de Lauro de Freitas. Acredito que a prefeita [Moema Gramacho, do PT], quer dizer, deputada né...porque ainda não virou prefeita, até porque não sentou na cadeira ainda, não mostrou para que veio, né, talvez ela tenha o interesse nisso, o grupo político dela. E fica ali os grupos no whatsapp, não sei o que, tal, fazendo essas matérias difamatórias, matérias fake sobre mim...porque tem uma série de documentos aqui que atestam que o que está sendo dito não é. E é tudo via Estadão [as fake news]. Acho que a Polícia Federal deveria estar atenta aos fakes que são lançados muitas vezes e que parte da imprensa ... Além dos veículos tradicionais, teve muita fake news. As pessoas fisicamente tem que ser responsáveis pelas informações que elas passam. E os veículos tradicionais replicaram. Teve um caso hoje [em 14/02, quinta-feira] dizendo lá que eu troquei e-mail com Job. Eu não troquei e-mail nenhum! Dizendo que a fonte é o Estadão. Você vai lá buscar a informação no Estadão e não tem nada. Não é verdade. Não troquei e-mail, zero e-mail.

Mas você está querendo dizer que este grupo político tem algum tipo de influência sobre tudo o que aconteceu?

Não tem influência, mas colabora. Com relações de compadrio para confundir a opinião pública. O que eu acho que está acontecendo nesse momento é uma grande confusão do que de fato aconteceu, com o que eles querem passar para a opinião pública.

Você conhece o Job Ribeiro?

Conheço Job de vista , era um funcionário lá da família, assessor, via de vista lá, entrar e sair. Eu afirmo que é mentira essa notícia, não tem e-mail, não é verdade. Isso tem que acabar. Eu não posso fazer uma fofoca sobre você e usar o veículo para te difamar. Eu recebo fake news mas eu não passo pra ninguém, porque tenho respeito pelas pessoas. Prefiro ligar, conversar, tentar entender porque a pessoa fez aquilo e, de uma forma, até perdoar, não guardo raiva de ninguém, nem mágoa. A vida que segue, a roda gira pra todo mundo. Dia você está na alta, outro está na baixa, um dia você precisa de mim, outro eu preciso de você. Se a gente se respeita, vamos ter sempre o elo. Se a gente desequilibra a relação, um dia eu em alta, você em baixa... te dou um chute na canela? Não. Vamos fazer Política com 'p' maiúsculo, não é verdade? Enquanto a prefeita teve um problema sério de saúde eu estava orando pela saúde dela. Eu acredito que ela deveria estar fazendo o mesmo por mim.

E o senhor é religioso?

Sou religioso sim. Sou católico apostólico romano. Acredito. Tenho fé no Senhor do Bonfim. Tive as medidas cautelares suspensas na Festa de Iemanjá, dia 2 de fevereiro. Fui lá agradecer, joguei a minha florzinha na praia, eu, minha esposa e minha filha, não é? Fui na Igreja do Bonfim também agradecer ao Senhor do Bonfim com uns amigos que estavam comigo. Então assim...tenho uma vida tranquila. O que eu acho é que a política nesses tempos, ela se reduz a ataques, muitas vezes covardes. E talvez a prefeita tenha que entender um pouco isso e o grupo político do qual ela faz parte. Uma cidade como a nossa [Lauro de Freitas], de 200 mil habitantes, não pode ter uma prefeita que em um ano não faz absolutamente nada pela cidade, que pinta os postos de saúde de vermelho, cor do partido dela. Se utiliza da máquina par ficar promovendo ações do partido, enquanto ela deveria estar se preocupando com a cidade. Viajando pelo país inteiro atrás da defesa do ex-presidente Lula - que eu até entendo, mas a cidade é pobre e precisa da presença física do prefeito. Até porque o salário dela é o mais generoso do Brasil. Inclusive o prefeito João Doria [de São Paulo] recebe menos do que ela.

Voltando para a mala de dinheiro. O senhor voltou a Salvador e este dinheiro foi entregue a quem?

Foi entregue a quem de direito, a quem eu devia repassar. Foi entregue a Geddel. E ele ficou de resolver, de repassar para as campanhas, enfim... do que eu imaginei que fosse ser feito. E que deve ter sido feito, não sei...

Você afirmou, no Carnaval, que não disse que se sentiu traído por Geddel, conforme está no depoimento da Polícia Federal e foi noticiado à larga...

[corta] À larga em matérias, tá. Eu fiz um depoimento, ainda na Polícia Federal em Salvador antes de ir à Brasília. Talvez pela pressa que eles tinham, de repente, de pegar uma confissão além do que eu fiz. E eu fiz isso sem advogado. Chegando à Brasília também fui atendido por um delegado federal. E também fiz um depoimento sem advogado. Eu caminho nessa história com a verdade: em nenhum momento eu fui ouvido, além desses dois depoimentos. Não tive audiência de custódia, por exemplo, para contar o que eu fiz, não tive absolutamente nada. E fiquei 40 dias em Brasília, no 19 Batalhão da Polícia Militar, onde tinha advogados, bombeiros, Polícia Militar, etc..

Mas você disse ou não disse que se sentiu traído?

Vou esclarecer. Vou te dar um exemplo. Você está tomando um depoimento meu, você é a delegada: 'você se sentiu traído pelo Geddel?'.

E o que o senhor respondeu o que?

Ele colocou lá: 'se sentiu traído pelo Geddel'. Porque... eu acho que isso é menor, você está entendendo? Poderia ter dito 'você está decepcionado?', 'vc está...'

Então eu vou perguntar: o senhor se sentiu traído pelo Geddel?

Bicho, não sou eu que tenho que responder isso, quem tem que responder isso é ele próprio [Geddel], se ele usou... Para mim isso é coisa passada e menor.

O senhor não disse então?

Ele [o delegado] me perguntou! Eu não respondi. Ele colocou: 'ele se sentiu traído por Geddel'.

Então o delegado errou?

Não sei se ele errou, também não quero entrar nessa polêmica. O delegado, eu só estive com ele uma vez na vida, está certo? Isso pra mim, do ponto de vista do que eu tenho que me defender, tecnicamente falando, é irrelevante, né.

Mas a partir do momento em que se viu que tinha um dinheiro lá no bunker, em um saco que tinha sua digital...

[corta] Eu estou sendo absolutamente sincero com você. No começo eu fiquei muito assustado, está certo? Porque é incomum as pessoas passarem pelo que eu passei. Evidente que quando você tem alguma culpa, você carrega isso dentro da sua alma, em algum momento você espera que isso pode acontecer com você. Eu não esperava que isso fosse acontecer comigo.

Como foi a abordagem?

Fui muito bem tratado, na minha casa. É que, humanamente, quando você tem alguma culpa.. se eu tivesse lá uma série de obras de arte, uma série de recurso, tivesse um cofre com somas, evidente que em algum momento você pode até esperar que isso pudesse acontecer na sua vida. Não tenho...sou um trabalhador como outro qualquer, você está entendendo? Sou um advogado, militante, tudo o que conquistei ao longo da minha vida foi também com produção artística, viajei muito com artistas, vendendo shows, cuidando deste universo que hoje é o Carnaval. Veio daí o meu apartamento que eu comprei. Esse apartamento eu vendi e dei entrada em uma casa. Sempre tive carro financiado, pago meus financiamentos... como qualquer trabalhador de classe média no Brasil.

Então porque o senhor acha que te prenderam? Houve exagero da Polícia Federal?

Eu não sei... Estou me defendendo, evidente, de tudo isso. Se hoje estou aqui é porque a Justiça entendeu de que são desnecessárias nesse momento as medidas impostas a mim, vou poder retomar a minha vida né. Inclusive posso até exercer função pública, o que não quero neste momento. Quero cuidar um pouco da minha família e buscar uma alternativa, talvez, na advocacia. Não tenho emprego, estou vivendo de ajuda do meu pai, da minha família, que está me ajudando a pagar as minhas contas. Eu tenho uma filha de cinco anos para criar e que ela precisa do leite todo dia em casa. Mas vou voltar a trabalhar, evidente, não tenho medo do trabalho. Tenho um sonho de ser prefeito em Lauro de Freitas, não vou abandonar esse sonho, mesmo com tudo o que está acontecendo. Eu acho que o tempo é o senhor da razão e tudo vai ficar muito bem esclarecido. Não acho que houve exagero... eu só acho que você, para chegar numa prisão, é um momento mais extremo, é uma medida extrema. A prisão é você retirar as prerrogativas de cidadão, de alguém e se você não tem tanta certeza - porque se você for ver, diante de tudo o que foi dito, o que é fato - você há de convir, se você analisar, que existe uma desproporção. E infelizmente isso poderia ter sido feito de uma outra forma. E que chegaríamos ao mesmo lugar. Porque me prenderam e não teve, por exemplo, condução coercitiva para prestar depoimento?

Mas tem uma digital...

Tem uma digital, um fragmento de digital que poderia ter sido explicado também. Esse mesmo fragmento está lá...

...Em um dos sacos de dinheiro. Então, um daqueles sacos que o senhor pegou em São Paulo, já que está lá o fragmento [da digital], não foi para campanha, estava lá, no bunker? Para você, fica claro isso?

Sim, fica. E assim, eu lamento que isso tenha acontecido porque a intenção era a que esse recurso fosse usado na campanha. Caixa 2 de campanha faz parte da cultura política brasileira, infelizmente.

Mas então o senhor sabia que era caixa 2?

Não, não sabia. Quando você está num processo desse é como se fosse uma gincana de escola, você tem que ganhar né. Então, você vai e dá o seu sangue ali, a sua alma para aquilo. E eu era funcionário do partido, eu recebia pra aquilo, então eu fui cumprir essa missão. Talvez tivesse errado porque devesse perguntar, tivesse o cuidado de fazer alguns questionamentos. Não fiz, estou respondendo por eles, acredito na minha inocência e tenho certeza que tudo vai passar e ficar esclarecido.

Você chegou a ter contato com o ex-ministro e Lúcio depois da prisão?

Não, nem posso. Nunca recebi nenhum contato de ninguém.. não devo fazer isso, acho, porque a minha linha de defesa é uma linha totalmente diferente, não tem nada a ver com o bunker.

O senhor foi exonerado no mesmo dia da sua prisão pelo prefeito ACM Neto... teve contato com ele depois de tudo?

Se eu fosse um gestor público eu faria a mesma coisa. Qual a saída para um momento desse? Ficar sangrando ou tomar atitude que precisa ser tomada para que as coisas parem de repercutir de forma negativa? Não, não tive contato, não tenho que ter contato com ele, minha relação com o prefeito é uma relação de subordinado, não tenho relação pessoal. Eu estava li para cumprir uma tarefa. Infelizmente não consegui chegar até o final dela.

Algum político lhe prestou solidariedade?

Não, normalmente os amigos, mas políticos não. Eu até entendo também que em um momento como esse as pessoas preferem esperar a poeira baixar para se manifestar. E eu entendo. Eu não entendo é deslealdade. Mas o recolhimento, o silêncio, a gente entende.

E houve deslealdade de alguém?

Aí fica para quem foi desleal. Não vou citar, eu não quero causar uma polêmica aqui. Mas que houve deslealdade, houve. E aí fica para os desleais.

Geddel chegou a dizer que amigos de longa data o lançaram no vale dos leprosos...

Não sei nem quem são esses amigos de longas datas, pra lhe ser sincero. Aí é uma coisa que quem tem que responder é ele né... Não posso responder por ele. Mas, enfim.. se lançaram...

O que se investiga é um esquema do Geddel com [Eduardo] Cunha, com suposto dinheiro da Caixa. O senhor sabia em algum momento de algum esquema?

Não, nunca exerci nenhuma função pública em Brasília. Não convivia com esse ambiente. Vamos lá, numa escala de zero a 10, eu estava como se fosse o sexto escalão do PMDB [da Bahia], você está entendendo? Tem pessoas que tem muito mais destaque do que eu, pessoas que já estão há muito mais tempo do que eu ... não é questão de ser presa ou estar envolvido em alguma coisa, não é isso não...é importância. Eu estou falando de importância, da proximidade, de tudo, você está entendendo? Eu não tenho como te afirmar uma coisa que eu não vivi, você está entendendo? Eu não vivi, não participo.

A revista Veja publicou certa vez que havia filmagens mostrando o senhor saindo do apartamento [da Graça] pelo menos 12 vezes. O senhor já esteve naquele apartamento, ajudou a levar o dinheiro?

Nunca estive e está comprovado que a Polícia Federal não tem fita nenhuma. Acabei de mostrar um documento para você [inquérito, soltura e laudo papiloscópico]. Então, assim, a revista Veja mentiu, infelizmente, uma revista que tem uma inserção especialmente na classe média alta e que não pode fazer um jornalismo deste naipe, né, se utilizar de informações inverídicas, atribuir responsabilidades a alguém que não teve essas responsabilidades. Ninguém pode pagar pelo que não fez. Se eu tiver que pagar por alguma coisa, que pague pelo que eu fiz. Não pelo que eu não fiz. Estou me defendendo pelo que eu não fiz. E infelizmente no Brasil você primeiro é acusado, depois você mostra sua inocência. O jornalismo, uma parte dele...pode ser até mínima parte, mas assim, primeiro eles acusam para depois você vir aqui e se defender, então, estou me defendendo. Sei que houve confusão muito grande na cabeça das pessoas pelo que aconteceu, um turbilhão de informações e que, por mais que eu me dedique a atender todos os jornalistas que me ligarem daqui pra frente pra que eu diga a verdade, não será um terço do que colocaram sobre mim de forma equivocada, errada.

Como foi lá em Brasília, como era o local da prisão?

Fiquei no 19 Batalhão da Polícia Militar. Era um alojamento, beliches. Fui super bem tratado lá. Os advogados têm prerrogativas né...você tem direito de ficar numa sala de estado maior. Então eu, como advogado, exerci minha prerrogativa de ficar em um ambiente onde tivesse uma sala de estado maior, lá em Brasília. Eram beliches com várias bicamas, super rotativo porque tem as pessoas que estão ali de passagem, na verdade. Devia ter umas 15 pessoas. Tinha advogados, pessoas que são militares, que eventualmente... exemplo: tem um coronel da polícia que teve uma briga no trânsito...e aí desacatou uma autoridade, foi pra lá e ficou 30 dias e saiu. Você fica ali no ambiente. Tem um campinho de futebol que você pode praticar o futebol, você tomava sol. Joguei futebol, com eles lá, com o pessoal que estava comigo lá. E que hoje boa parte dessas pessoas já saíram, não estão mais lá. No dia a dia você acorda, toma café, acorda às 8h. O café da manhã a gente fazia, cada um tinha o seu café da manhã. No alojamento tinha tipo uma cozinha improvisada, uma pia, um fogão elétrico, uma geladeira. Comia comida normal, arroz, feijão, bife...

Você cozinhava?

Cada dia tinha uma pessoa. Então todo mundo tem que aprender a cozinhar. E tem que lavar a cozinha também. Então, o cara que está durante o dia na cozinha lava a cozinha toda depois. Na sexta-feira as famílias iam almoçar lá também, então a gente tinha que lavar tudo, limpava tudo tal, pra receber as famílias. Eu cozinhei o tradicional: feijão, arroz, macarrão à bolonhesa... um feijão mais incrementado com umas coisas mais nordestinas né... Eu cozinhava pouco né, porque não tenho tanta variedade assim, não (risos). O pessoal gostou. Alguns deles eu ainda falo por telefone até hoje, tenho relação , enfim, são amigos que eu fiz, pessoas que eu tenho muito carinho, até porque quando você passa por uma situação tão difícil quanto essa, é difícil você esquecer as pessoas... A família levava um quilo de arroz, um quilo de feijão, para a semana. E a gente cozinhava. Minha família esteve lá, minha mãe, minha esposa. Minha filha eu preferi não participar disso, uma criança né... e que evidentemente, no tempo certo ela vai ter a condição de entender...

Você chegou a chorar, como Geddel chorou?

Quando você carrega culpa, geralmente você sofre mais. Eu não tinha culpa pra carregar, não derramei nenhuma lágrima sobre isso. A lágrima que eu derramei foi no dia que tudo se resolveu.

Você disse que seu sonho é ser prefeito de Lauro de Freitas. Mas ficaria no MDB? E você acha que a população vai digerir a sua versão da história?

Veja só, essa coisa de partido político hoje em dia no Brasil é uma sigla né, você precisa de uma sigla não é verdade? Então, bola pra frente né... Não preciso sair correndo com isso porque não vou participar de nenhuma eleição gora. Minha eleição é em 2020, ainda tem muito tempo até lá pra que eu defina qual é o caminho que eu vou seguir. Veja bem, muitas pessoas me conhecem, sou uma pessoa pública lá, sabem da forma como eu ajo, tenho muitos amigos em Lauro de Freitas, tenho um grupo político que me defendeu desde o primeiro momento. Evidente que tem outro que fica mais balançado, mas também porque talvez se eu tivesse na mesma situação também ficasse. Vou provar minha inocência.

Regina Bochicchio
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A censura à Tuiuti, a intervenção federal e o ódio de Temer ao Rio e ao Carnaval

O “Vampirão” que “emissários” de Michel tentaram tirar da festa 
Foto Mídia Ninja
É difícil dissociar a açodada decisão de intervir no Rio de Janeiro da humilhação sofrida por Michel Temer no Carnaval.

A admissão do estrago causado pela Tuiuti à imagem de um governante patético, absolutamente desprezado pela população, veio na forma da censura.

De acordo com a direção da agremiação, emissários da presidência da República pediram à Liga Independente das Escolas de Samba, Liesa, que impedisse a participação do “Vampirão Neoliberalista” no desfile das campeãs, no sábado, dia 17.

Ele acabou se apresentando, mas depois de uma concessão: tirou a faixa presidencial.

Entrevistado pela Mídia Ninja pouco antes de entrar na Sapucaí, o professor de História Léo Moraes, que interpreta o personagem, foi evasivo.

Primeiro, afirmou que estava aguardando que lhe trouxessem o adereço. Depois de algumas conversas com colegas, ao pé do ouvido, afirmou que o “perdeu”.

Chegou a negar que estivesse retratando Temer e que sua fantasia  “representa um sistema”.

No final, Moraes foi orientado a retirar a maquiagem rapidamente, ali mesmo na dispersão.

A motivação do decreto de Temer é eleitoreira. Ponto. 

Mas não se deve subestimar o ressentimento, a raiva, a malevolência de Michel com a cidade.

“As cenas do Carnaval revelaram uma agressividade muito grande e uma desorganização social e até moral muito acentuada. As pessoas lá não têm mais limites”, falou ao amigo Reinaldo Azevedo.

Referia-se à “violência”. Mas não só. Michel odeia o Rio.

No sábado, dia seguinte à assinatura do decreto, interveio na festa, naquelas pessoas que não têm mais limites.

A história é antiga. Os sambistas incomodavam Getúlio Vargas no Estado Novo.

Em 1969, o enredo “Heróis da Liberdade”, da Império Serrano, foi censurado.

Segundo a pesquisadora Raquel Valença, os compositores Silas de Oliveira, Mano Décio e Manuel Ferreira foram chamados a depor no Dops.

O regime militar queria saber se os versos “Ao longe soldados e tambores / Alunos e professores / Acompanhados de clarim” faziam referência aos protestos estudantis.

A palavra “revolução” foi substituída por “evolução”. Em 1970, as escolas passaram a ser forçadas a enviar os croquis de fantasias e alegorias para aprovação prévia.

Noves fora tudo, Temer conseguiu, com sua tentativa de se livrar do “Vampirão” no tapetão, mais uma pecha: a de vagabundo liberticida, ruim da cabeça e doente do pé.


Léo Moraes tem a maquiagem retirada na dispersão
Foto Ricardo Rangel/O Globo

Kiko Nogueira
No DCM
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Fux, que já quer condenar Lula no TSE, deu liminar que liberou candidato ficha-suja


Luiz Fux concedeu no STF uma liminar a um político enquadrado na Lei da Ficha Limpa, suspendendo os efeitos da condenação criminal e permitindo que ele concorresse em 2016, diz a Folha.

Fux é o mesmo que, ao assumir a presidência do TSE, já falou imediatamente em condenar Lula. “Ficha suja está fora do jogo democrático”, disse.

Quando o caso chegou ao TSE naquele ano, após recurso do Ministério Público Eleitoral que contestava o registro de candidatura por considerar o político ficha-suja, a corte o liberou por causa da liminar de Fux.

“Ainda que Vicente Diel tenha sido condenado criminalmente por órgão colegiado do Poder Judiciário (fato incontroverso), há decisão do STF na qual foi concedido efeito suspensivo relativamente aos efeitos da referida condenação”, escreveu à época a relatora do caso no TSE, a ex-ministra Luciana Lóssio.

“O documento refere expressamente a Justiça Eleitoral. Trata-se de decisão monocrática [individual] do ministro Luiz Fux”, observou a então ministra, ao deferir o registro de candidatura de Diel, postulante ao cargo de vice-prefeito de São Luiz Gonzaga (RS) pelo PSDB.

Fux assumiu a presidência do TSE no último dia 6 com um discurso de endurecimento da aplicação da lei. No dia 8, o ministro disse que é possível que a corte eleitoral volte a examinar a possibilidade de fichas-sujas registrarem sua candidatura neste ano.

Pela legislação, um político condenado em segunda instância pode conseguir liminar nos tribunais superiores para suspender a inelegibilidade e entrar na disputa.

“Vou avaliar com colegas do tribunal se essa praxe das liminares vai ser entendida sob esse ângulo. Isso vai ser reavaliado”, declarou Fux, sem se aprofundar no tema.

O assunto ganhou relevância devido à pré-candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O petista foi condenado em janeiro pela segunda instância da Justiça Federal por corrupção passiva e lavagem no caso do tríplex de Guarujá (SP).

Questionada na quinta (15) e na sexta (16) sobre o caso do candidato gaúcho e o entendimento de Fux acerca das liminares, a assessoria do ministro afirmou que, “em momento oportuno”, ele “apresentará seu posicionamento jurisdicional a respeito do excesso de liminares ajuizadas por candidatos afetados pela Lei da Ficha Limpa”.

Diel, o candidato a vice-prefeito de São Luiz Gonzaga, tinha sido condenado pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul por crime em licitação do transporte escolar, em processo transitado em julgado (sem chances de novos recursos). Ele já havia sido prefeito em 2007 e 2008.

Sua defesa pediu a revisão criminal ao tribunal gaúcho, e, tendo perdido novamente, recorreu ao STF com o argumento de que a verba da licitação era federal, do Fundeb.

No STF, Fux deu a liminar para suspender os efeitos da condenação em 2014, evitando o iminente cumprimento da pena.

No início de 2015, a defesa de Diel acionou Fux no STF novamente. Alegou que, apesar de a liminar ter suspendido os efeitos de sua condenação, Diel continuava com os direitos políticos cassados perante a Justiça Eleitoral.

Em atendimento à petição da defesa, Fux deu novo despacho. “Reitero a decisão anterior e determino expedição de ofício ao órgão da Justiça Eleitoral para comunicar a suspensão da condenação contra o autor até o julgamento final desta ação cautelar”, escreveu no documento.

Já em 2016, Diel, com base nesse despacho, conseguiu registrar a candidatura a vice-prefeito no TRE (Tribunal Regional Eleitoral) gaúcho. O Ministério Público Eleitoral discordou e foi ao TSE.

À corte eleitoral, a Procuradoria sustentou que a causa de inelegibilidade só poderia ser suspensa por decisão colegiada (de um grupo de juízes), “e não por meio de decisão monocrática, como ocorreu na espécie”.

Mas o Ministério Público Eleitoral foi derrotado. “Repito que há expressa determinação [na liminar de Fux] no sentido da suspensão, direcionada, inclusive, à Justiça Eleitoral”, frisou a relatora Lóssio, que foi seguida pelos colegas. Fux, que já integrava o TSE à época, não participou desse julgamento.

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O suicídio da elite brasileira

Os donos do poder no País optaram por um papel subalterno interna e internacionalmente

A Tuiuti traduziu a elite
Os primeiros grandes intérpretes do patrimonialismo brasileiro são os juristas Vitor Nunes Leal (em sua obra “Coronelismo, voto e enxada: o munícipio e o regime representativo no Brasil”) e Raymundo Faoro (“Os Donos do Poder: a formação do patronato político brasileiro”).

Ambos, ainda que a partir de pontos diferentes, conseguiram lançar as primeiras luzes sobre o funcionamento e a organização do poder no Brasil, mostrando que este sempre foi exercido por uma elite descompromissada com os interesses do desenvolvimento do País como nação, forjada na conveniência dos interesses pessoais, representada pela obra literária de Jorge Amado, como nos romances “São Jorge dos Ilhéus” e “Gabriela Gravo e Canela”.

Nunes Leal partiu da análise das relações de poder exercidas nos munícipios e grotões, microcosmos nos quais os interesses do mando constroem sua organização de poder e de onde dirigem sua influência na formação do Estado, instrumentalizada mediante o controle das instituições estatais por um grupo de correligionários.

Constitui-se assim uma grande família (expressão nossa) formada pelo laços do “filhotismo”, cujo mandamento principal é “para os amigos tudo, aos inimigos o rigor duro e cruel da lei”.

Faoro faz seu campo de observação a partir do processo de colonização portuguesa, que nos legou a forma de organização política estruturada no Brasil.

Desta forma, os atuais donos do poder são os descendentes de portugueses, que introduziram um modo de pensar e um agir político influenciados pela cultura latina, na qual as relações de proximidade pessoal serviram de base para a formação do Estado patrimonialista brasileiro, que tem como característica a condução do País por uma elite desinteressada do desenvolvimento nacional e sem nenhuma preocupação com o destino da maioria da sua gente.

Independentemente das diversas críticas às duas interpretações acima apresentadas, como fez recentemente Jessé de Souza (em “A tolice da Inteligência Brasileira ou como o país se deixa manipular pela elite”), que questionou principalmente a obra de Faoro, pode-se afirmar que o pensamento dos dois juristas continua atual no Brasil de hoje, tomado pelo ódio de uma manipulada luta de classes que joga brasileiros pobres e explorados uns contra os outros.

Não queremos, com isto, negar a existência de luta de classes no Brasil, onde a exploração do capital pelo trabalho, como em todo o mundo, aumenta cada vez mais, tendo em vista a concentração exponencial da renda nas mãos de um número cada vez menor de indivíduos, que se tornam cada vez mais ricas.

Com efeito, quando me refiro à manipulação da luta de classes no Brasil, tenho em mente que tanto os trabalhadores brasileiros (dos mais miseráveis aos da classe média) quanto os empresários (industriais, comerciantes, prestadores de serviço, agricultores e microempreendedores) sofrem um contínuo e duríssimo processo de exploração de sua força de trabalho e de seu capital, que lhes retira inteiramente a capacidade de resistência política, social e econômica, uma vez que as forças produtivas tem sido apropriadas pelo capital especulativo internacional.

Como escrevi anteriormente, não são apenas os trabalhadores condenados com a retirada de direitos fundamentais e essenciais, decorrente do corte dos investimentos em saúde, educação, direitos trabalhistas e previdenciários, mas afetados também os empresários brasileiros, muitos dos quais estão se deparando com a necessidade de vender a preços baixos suas fábricas e terras, enquanto outros são diariamente forçados a fechar lojas, empresas e estabelecimentos diversos.

A elite brasileira parece não ter a capacidade de compreender que o projeto político e econômico em curso, por ela apoiado cegamente, está retirando de si mesma a capacidade de comando político (certo ou errado, não importa neste momento a análise), construída ao longo de séculos, como observado por Nunes Leal e Faoro.

Ao ser determinada a destruição de todo o complexo industrial de engenharia nacional, como se fez por meio da estranhíssima “Operação Lava Jato”, retirou-se das empresas brasileiras o imenso mercado de obras públicas no Brasil, então entregue a empresas estrangeiras e, em consequência, passou-se a utilizar aqui a mão de obra vinda de outros países.

Além disso, os equipamentos e insumos necessários às atividades passaram a ser comprados em outros lugares, trazendo ainda maiores dificuldades às empresas conectadas de alguma forma com aquela cadeia produtiva. O mesmo acontece ao se permitir o desmonte da Petrobras. As petroleiras estrangeiras irão dominar com exclusividade a exploração do nosso petróleo, que doravante só trará benefícios para elas, que, inclusive, não precisarão pagar qualquer tributo, conforme a lei aprovada pela elite que compõe o atual governo e o Congresso Nacional.

Nossos campos tem sido dominados por estrangeiros, que compram barato as nossas terras e utilizam mão-de-obra estrangeira e máquinas, tecnologia e insumos agrícolas produzidos em seus respectivos países. O mesmo tem ocorrido no campo da educação, no qual escolas e universidades, antes de propriedade de brasileiros, estão hoje sob o controle de fundos de investimento estrangeiros, se assenhorando também dos segmentos de saúde, segurança, comunicação social, previdência privada, finanças, transportes, infraestrutura, informática, livrarias etc.

É o maior processo de desnacionalização visto em tempos recentes, a partir do qual a elite brasileira perde o controle de seus negócios e em breve perderá completamente o poder de influência política interna, quando será finalmente relegada a um papel inexpressivo, limitado à mera repressão, a ser executada por uma burocracia judicial sem qualquer capacidade de compreensão da sua função, da mesma forma que foi delegada no passado pela elite brasileira aos capitães do mato.

Assim, por culpa exclusiva de sua elite, que comete suicídio, ao Brasil e ao povo brasileiro é imposta a mais dura subserviência colonial, que poderá nos condenar por décadas a uma posição de subalternidade, a exemplo do que ocorreu com a China após a derrota nas Guerras do Ópio (1839-1842 e 1856-1860).

Jorge Rubem Folena de Oliveira, advogado constitucionalista e cientista político.
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Sobre o artigo de Luciano Huck


O artigo de Huck é um pastel de vento

Leia-se ou não o artigo de Luciano Huck, na Folha, hoje, para “explicar” porque não é (mais) candidato a Presidente da República o efeito será o mesmo: você terá jogado seu tempo fora e não saberá de nada senão do que o apresentador diz ter sido sua egotrip no sonho presidencial.

A recorrência desta hipótese em torno do meu nome fez ressurgir uma espiral positiva de tamanha força que foi humanamente impossível não me deixar tocar. Assim, a cabeça e a alma começaram a operar novamente seus ciclos de altos e baixos, trazendo de volta ao meu radar uma decisão avassaladora.

“Minha cabeça rodando, rodava mais que os casais. O teu perfume, Gardênia, e não me perguntes mais”, diria o genial Aldir Blanc.

E qual foi a decisão avassaladora? “Não sou candidato a presidente do Brasil”.

Por que? O que pesou para tomar a decisão de não ser? Por que quis ser, se é que quis? O que lhe faltou?

Nem mesmo uma palavra. Que dirá sobre seus relacionamentos com o dinheiro público, no caso do jato financiado pelo BNDES e dos R$ 20 milhões da Lei Rouanet. Transparência, Luciano?

Mas o título “Estou dentro” é falso como uma nota de três reais porque, diz ele ao final, que vai “dedicar todo o tempo e a energia que estiverem ao meu alcance para ajudar a fazer este Brasil que a gente merece definitivamente acontecer.” Com boa vontade, deduz-se que ele quer “fazer o Brasil acontecer”. Acontece, Huck, acontece todos os dias para quem não tem jatinho nem iate, viu?

Você está fora, Huck, caia na real. Vai servir é de garoto propaganda para candidatos escolhidos a dedo por empresários que burlam, indiretamente, a proibição de verbas de pessoa jurídica em campanhas eleitorais.

O texto é de um egocentrismo mal-descrito (e mal escrito) que só nos diz que o autor, modestamente, fez algo parecido com uma psicanálise de grupo:

Foram centenas de conversas, cada uma delas um aprendizado. Ideias se conectando umas às outras e fazendo enorme sentido. No total, foram mais de dez meses de escuta profunda, debates, leituras, reflexão… um tempo de tanta intensidade e qualidade, que provocou uma revolução interna, virando do avesso tudo o que eu acreditava serem meus limites e demolindo os tetos que inconscientemente limitavam o espaço acima da minha cabeça.

A vaguidão é monumental. Não se sabe uma sequer das ideias que  foram “se conectando”. Serve para religião, identidade sexual, relacionamento empresarial, física quântica, o que você quiser botar “na roda”.

Quando se quer lançar uma versão reciclada de algo bem antigo, os publicitários trocam-lhe a embalagem e tascam nela e na propaganda aquele “splash” (uma daquelas explosões gráfica das de quadrinhos) com um “novo” bem grande dentro…

Da mesma forma, quando se tinha de “marcar um texto” sem que se lhe tivesse o conteúdo, escrevia-se em sequência um “rolando lero” gráfico: “monomonomonoblablabla”. O “mono” é a “renovação da política”, o “blablabla”, desncesssário dizer.

Agora este texto figurativo foi trocado por um “Loren Ipsum”, um texto em latim que ajuda a perceber melhor a “mancha gráfica, porque não forma “caixas” de texto e que começa assim: Lorem ipsum dolor sit amet…

É algo que não precisa fazer sentido, apenas preencher o espaço, com programinhas da internet que combinam cerca de 200 palavras em latim e que aparece até na ajuda do Windows.

Mas tem uma origem, bem curiosa, neste caso. Vem de um texto de Cícero, sobre o bem e o mal, e originalmente era assim:

“Neque porro quisquam est qui dolorem ipsum quia dolor sit amet, consectetur, adipisci velit …”

O que, traduzido, fica sendo: “Não há ninguém que ame a dor, que a procure e que queira tê-la, simplesmente porque é dor.”

Huck não consegue dar nenhuma explicação sobre a espiral que, ao se dissolver, fez com que ele fosse “ali chorar um pouquinho” a sua “dolorem ipsum”.

Procurei um professor que corrigia redações no Enem, na esperança que pudesse apenas recomendar que Huck trocasse de escriba. Vã esperança. Diz ele que não há indício de terceiro redigindo: “Assessores escrevem. O nível é tão baixo que não tem como não ser dele. Se um assessor escreve aquilo, é demitido”.

Discordo. Há hoje muita gente especializada na arte de “não dizer”. Houve sempre quem justificasse a razão de ser de uma frase que ouvi de Brizola: “eu uso as palavras para mostrar o que penso, não para escondê-lo”.

Algo, certamente, Huck aprendeu com seus condutores na espiral da vaidade, a começar por FHC: a costurar com lantejoulas a pompa do vazio.

Fernando Brito



Luciano Huck publica hoje seu terceiro artigo na página 3 da Folha de S. Paulo. Quer dizer, o terceiro na condição de semi-candidato à Presidência, pois sua estreia naquele espaço, mais de dez anos atrás, foi o inesquecível elogio fúnebre a seu Rolex roubado, que inclui a frase "pensando, cansado ou peidando, hoje posso dizer que sou parte das estatísticas da violência em São Paulo".

Como esperado, Huck anuncia outra vez que não vai concorrer nas eleições de outubro. Mas o faz com discurso de candidato. É mais uma chance, portanto, de conhecer as ideias da encarnação viva e televisiva da decantada "renovação política", aquele capaz de acolher as esperanças de gente tão insigne quanto Eliane Cantanhêde e Fernando Henrique Cardoso.

Uma boa parte do texto é dedicada à construção da dobradinha "eu sou o máximo/eu sou humilde". Todos afirmam que sou a solução para o Brasil, diz Huck, mas o país não pode depender de um só indivíduo.

Tirando isso, o texto pode ser resumido a uma de sua frases: "Todos juntos pela renovação verdadeira". Parece pouco para um artigo de 793 palavras, mas é significativo. O chamamento à ampla unidade ("todos juntos") é restringido pelo qualificativo que o segue. O "todos" só engloba quem é "pela renovação verdadeira" da política. Há uma linha divisória, um "nós versus eles" implícito, e essa linha não consiste em campos opostos nas relações de dominação, em projetos de sociedade, em visões de mundo. É a "ética". "Todos juntos" = todos os "cidadãos de bem". E o sentido da "renovação verdadeira" fica claro quando Huck a exemplifica com as iniciativas empresariais de formação de lideranças alinhadas a seus interesses.

Nem é preciso discutir a falácia desta compreensão da política. O próprio autor do artigo já mostra que, por trás da exaltação do novo, permanecem os mesmos velhos truques. O texto ignora olimpicamente todos os petardos que atingiram a "não-candidatura" do marido de Angélica nas últimas semanas, a começar pelo jatinho financiado pelo BNDES. Afinal, o "cidadão de bem", por sê-lo, não precisa se explicar diante da opinião pública.

Vigora a doutrina Ricupero: o que é bom a gente fatura; o que é ruim, esconde. O problema inicial do discurso "a honestidade é o único divisor de águas" é que ele é sempre empunhado desonestamente.

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Produtor de fake news diz que eleitor de direita é estúpido, desinformado e acredita em qualquer coisa

Christian, produtor de fake news: os eleitores de Trump são mais estúpidos
Os jornalistas André Fran, Rodrigo Cebrian e Felipe UFO realizaram para a Globonews um documentário sobre fake news e entrevistaram um jovem da Macedônia que criou um site para divulgar notícias falsas que tiveram impacto no resultado da eleição dos Estados Unidos.

O jovem, identificado como Christiam, da pequena cidade de Veles, disse que criou o site para ganhar dinheiro, com publicidade virtual, que remunera na proporção dos acessos ao site. “Nos Estados Unidos, o Google paga melhor”, afirmou. As notícias falsas que interessavam ao eleitor de Donald Trump eram muito acessadas.

“Por quê?”, perguntou o repórter. “Porque o eleitor de Trump acredita em qualquer coisa, é muito desinformado”, disse ele, que tentou criar outros sites para buscar audiência nos eleitores de Hilary Clinton e Bernie Sanders, de centro e centro esquerda.

Segundo ele, não tiveram muitos acessos, e ele descartou a ideia e se concentrou no eleitorado de direita. Os eleitores de Hilary e, principalmente, de Bernie Sanders são mais preparados e críticos.

Os eleitores de Trump consumiram mentiras como a notícia de que Hilary é pedófila ou a de que a mulher de Obama, Michele, é um homem. Não é diferente no Brasil. Fake news que mais bombam são as que falam que Lulinha era dono da JBS, que Lula tem uma Ferrari de ouro ou outras sandices do gênero. Trocando em miúdos o que disse Christiam, da Macedônia, um Veles Boy, o eleitor de direita é mais burro.

* * *

No Brasil, quem se apresenta como uma versão tropical de Donald Trump é Jair Bolsonaro.

No DCM
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Temer censura vampiro e Tuiuti se acovarda

AI-5 está em vigor!

Vampiro não chupou mais o sangue do Presidente
Mídia Ninja
Bem que a TV Afiada avisou: a censura vai voltar, porque essa foi a intervenção dos desesperados.

Saiu no Globo Overseas:

'Vampiro-presidente' da Tuiuti desiste de usar faixa presidencial no desfile das campeãs

Uma das figuras mais comentadas do carnaval carioca, o vampiro-presidente da Paraíso do Tuiuti, vice-campeã do Grupo Especial, desfilou sem a faixa presidencial neste sábado. Segundo informações do barracão da escola, emissários da presidência da República pediram à Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) que impedisse a entrada do destaque. Questionado, o professor de História Léo Moraes, de 40 anos, disse que não tinha recebido essa informação, e que desfilaria com a faixa. Logo depois ele afirmou que perdeu o adereço no fim da apresentação de domingo. A reportagem do GLOBO, no entanto, viu o momento que o professor entregou a faixa para um funcionário da escola guardar dentro de um carro.

- Ele (o vampiro) representa um sistema. Isso que está acontecendo no Rio de Janeiro hoje, para qualquer um que tenha um conhecimento de história, é preocupante. A gente fica até com medo de se manifestar. Eu espero que isso não seja um grande retrocesso - disse o professor.

O carnavalesco Jack Vasconcelos disse que não teria como negar ou confirmar a informação:

- Para ser muito sincero eu passei o dia isolado. Acabei de chegar aqui. Não posso confirmar ou negar essa informação, pois seria leviano - disse.

Mais cedo, o diretor da escola Thiago Monteiro disse que Léo Moraes havia sofrido um mal-estar, mas que a participação dele no desfile estava garantida.

Muito integrantes da escola lamentaram o fato de o personagem entrar na Avenida sem o adereço:

- Uma pena não terem peito de deixar ele usar a faixa presidencial.

Ao fim da apresentação, o professor de história recebeu a orientação de se descaracterizar rapidamente. Ainda mesmo na dispersão ele retirou a maquiagem e a roupa de vampiro. De acordo com fontes da escola, até duas horas antes do desfile a informação era de que professor não desfilaria, mas depois resolveram que ele entraria na Avenida, mas sem a faixa.

A Tuiuti caiu nas graças da internet e foi destaque até na imprensa internacional ao levar para a Avenida o enredo "Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?", com uma crítica social ao racismo e a exclusão social. Na parte final do desfile, a agremiação trouxe uma sátira política e criticou a Reforma Trabalhista e da Previdência. O GLOBO tentou entrar em contato com a assessoria de imprensa da Secretaria-Geral da Presidência da República, mas não obteve resposta.

Foi Moreira quem tirou a faixa do Vampiro

O gatinho angorá governou com bicheiros e donos de empresas de ônibus

Governador angorá nos braços de Carlinhos Maracanã sob as vistas de Aniz Abraão David da Beija Flor até hoje
(Reprodução: Jornal do Brasil)
O gatinho angorá encheu o Palácio Guanabara, quando governava o Rio, de bicheiros e donos das empresas de transporte.

Como se sabe, Brizola tinha encampado as empresas de ônibus e Moreirinha desencampou, assim que substituiu Brizola.

No governo, com a ajuda de um senador ex-comunista de nome "Rogério", Moreirinha se dedicou ao que Ronaldo Cezar Coelho disse ao ansioso blogueiro, numa caminhada no calçadão do Leblon: "Ele fez a opção preferencial pelos ricos".

O que se comprovará assim que perder o privilégio do foro e se encaminhar para a Papuda.

Com a desculpa de criar um Museu do Samba, Moreirinha se deixou fotografar nos braços dos líderes do jogo do bicho - e, portanto, das escolas de samba.

Nenhum outro ladrão que ocupe, hoje, o Palácio do Planalto, teria as condições políticas para negociar com os bicheiros da LIESA, Liga das Escolas de Samba do Rio, a censura à faixa do vampiro presidente.

Mas, o gatinho angorá é um malandro meleca.

Sua carreira política é de uma mediocridade espantosa.

Como Mestre-Bajulador poderia ter sido muito mais: bajulou o sogro; bajulou Fernando Henrique quando ocupou sala ao lado do gabinete presidencial, o que levou o então presidente a dizer que ele não podia ficar perto de um cofre...; e agora se pendurou na sacola de urina do Vampiro da Tuiuti.

Ele é tão medíocre que deve ter mandado os amigos bicheiros tirar a faixa do vampiro na esperança de fazer um favor ao atual patrão - e deu um tiro no pé.

A intervenção Tabajara deveria dar ao carioca a impressão de ser "boazinha", de chegar para trazer a paz, a harmonia, a bem-aventurança.

O gatinho angorá meteu o pezão pelas mãos e mostrou o que a intervenção Tabajara é: um Golpe latino-americano.

Uma quartelada - como a que tentou fazer de Moreira Governador, e Brizola não deixou, em 1982.

(Não deixe de ler o best-seller "Plim-Plim, a peleja da Brizola contra a fraude eleitoral", onde se descreve como a Globo Overseas, o SNI do Feiticeiro Golbery e os moreiras tentaram tomar a eleição do Brizola no computador.)

("Feiticeiro" é como o historialista Elio Gaspari, de múltiplos chapéus chama o Golbery.)

Moreira é MDB até a medula.

Que se curva ao poderoso da hora.

Em tempo: Aniz manda na Beija-Flor de Nilópolis até hoje, o que explica por que tenha feito o Carnaval vencedor em 2018, com a carnavalização das manchetes do jornal nacional.


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