10 de fev de 2018

Carta a Luana Piovani


Olá, Luana.

Que legal! Fiquei a saber que você decidiu vir morar em Portugal e então tomei a liberdade de escrever para dar uns bitaites. Não agradeça, é a cortesia lusitana. As pessoas de bem são sempre bem-vindas, Luana. Os portugueses são um povo que sabe receber, mas também tem o lado prático: há cálculos a dizer que, para manter o crescimento, o país precisa de 900 mil imigrantes para trabalhar e a gerar riqueza. É gente, né?

Eu explico, Luana. Em Portugal a gente tem um sistema de welfare (muito já se perdeu com os ataques neoliberais) e o dinheiro dos impostos é essencial para investir em saúde, segurança ou educação. Para todos. Então você vai entender a preocupação. Todos são bem-vindos, menos aqueles brasileiros que defendem a ideia de que “sonegar é legítima defesa”. Esses a gente não quer. Podem ficar no Brasil.

Aliás, soube que você estava indecisa entre Portugal e EUA. Não resisto a dar um palpite: a Califórnia deve ser melhor opção. Imagine que Portugal é governado pelo Partido Socialista, um pessoal de centro-esquerda muito parecido com o Partido dos Trabalhadores, no Brasil. E surge a questão. Será que você vai curtir a ideia de ser governada por “socialistas”? O poder está tomado pelos “esquerdistas”, Luana.

O atual governo é minoritário e só consegue governar com o apoio do Partido Comunista (coligado com os não menos esquerdistas Os Verdes) e do Bloco de Esquerda. É o tipo de gente que, mesmo em Portugal, um país de brandos costumes, muitos chamam “extrema esquerda”. Ou seja, para os padrões coxinhas brasileiros eles são ainda mais “esquerdopatas” que os petistas. É dureza.

E mais uma inside information. O Bloco de Esquerda é coordenado pela Catarina Martins. Então fico a imaginar como você vai reagir a isso, uma vez que parece não gostar muito de mulheres no comando. Dilma que o diga, né? E o Partido Comunista é liderado pelo Jerónimo de Sousa, um antigo operário metalúrgico. Metalúrgico? Onde é que já ouvimos essa história? Ah, sim, Lula. Então fica a pergunta: será que você quer mesmo viver num país como Portugal?

Olha, Luana, a gente até já esqueceu aquele episódio do Instagram. Lembra como foi? “O Brasil foi explorado tantos anos por Portugal e agora continuará a ser pela PT! Não é à toa que a sigla de Portugal é PT! Eu votei Aécio!”, você escreveu. Confesso que não entendi a declaração, porque parece uma maluquice pegada (expressão cá da terra) e não faz o menor sentido. Era uma tentativa de ofender? Passou.

Despeço-me, Luana, na expectativa de que tenham sido informações úteis e que a ajudem a decidir. Se vier para Portugal vai ser bem recebida. Como foi a Madonna, que já vive aqui faz um tempinho. Aliás, vai ser uma honra para os portugueses ter, ao mesmo tempo, duas estrelas de expressão mundial.

É a dança da chuva.

José A. Baço
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“Nem um centímetro a mais para terras indígenas”, diz Bolsonaro


Deputado diz que, caso assuma a Presidência, não haverá mais demarcações; ele citou a ascensão política do boliviano Evo Morales para perguntar “por que aqui os índios precisam de terra”

Em Dourados, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), pré-candidato à Presidência da República, afirmou em entrevista que se vencer a eleição não demarcará mais nenhuma terra indígena. “Se eu assumir como presidente da República, não haverá um centímetro a mais para demarcação”, disse aos repórteres sul-mato-grossenses ao chegar no Parque de Exposições João Humberto de Carvalho, em Dourados (MS).

“Índio é nosso irmão, quer ser reintegrado a sociedade”, raciocinou o deputado. “Índio já tem terra demais, vamos tratá-los como seres humanos, tem índio tenente do Exército, presidente da Bolívia [Evo Morales], não quer viver em um zoológico?”

Para o deputado, ONG’s e o governo estimulam o conflito. A solução para frear essa guerra estaria em armar o povo. “Tenho projeto para armar o cidadão de bem”, calculou Bolsonaro. Segundo ele, os governos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Lula e Dilma Rousseff (PT) armaram as pessoas erradas: “O que fizeram os governos desde Fernando Henrique Cardoso foi armar bandidos”.

Após a entrevista Bolsonaro se reuniu com fazendeiros da região.

Em abril de 2017, conforme registrou o De Olho nos Ruralistas, Bolsonaro disse no clube Hebraica, na zona sul do Rio, que acabaria com todas as reservas indígenas e comunidades quilombolas se fosse eleito em 2018. Um mês antes, o deputado sugeriu dar um fuzil para cada fazendeiro utilizar como cartão de visita contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST).

No De Olho Nos Ruralistas
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Jandira Feghalli não foi a única vítima do ódio do jornalista Luiz Carlos Prates, do SBT de SC




Jandira Feghalli, do PC do B, ganhou uma ação do jornalista Luiz Carlos Prates, que trabalha em uma afiliada do SBT em SC. Prates a xingou de  “deputada de merda”, “feia” e “burra” e foi condenado a indenizá-la.

Não é a primeira vez que Prates causa polêmica. Em 2015, ele perpetrou um dos comentários mais criminosos jamais efetuados sobre as vítimas de depressão. Já havia feito um libelo a favor da ditadura.

É um primata da informação e o fato de continuar berrar suas ofensas e calúnias à vontade num canal de TV diz muito sobre o Brasil. Eis o que escrevi sobre Prates há três anos.

Silvio Santos é o bufão que ocupa os domingos na televisão desde 1930, fazendo a alegria de suas colegas de trabalho ou algo que o valha. Com sua peruca, o jeito de tiozão milionário do pavê, uma certa incontinência verbal, é fácil esquecer que ele contratou, enquanto você ria, um time de comentaristas que Mussolini não teria montado.

É de uma ingenuidade abissal achar que ele não sabe de nada, que não gosta de jornalismo, que suas preocupações não passam por aí. Silvio tem uma agenda política clara e deixou isso explícito, por exemplo, quando se candidatou pelo nanico PMB, depois de tentar o PFL.

Mas o indicativo mais forte é outro: se não fizesse diferença, se fosse apenas acaso, teria havido pelo menos um sujeito ideias com ideias mais arejadas ali.

Rachel Sheherazade, por exemplo, foi trazida por SS da TV Tambaú, afiliada do SBT na Paraíba, depois de uma diatribe maluca sobre o Carnaval. Parou de dar opiniões após o governo ameaçar tirar dinheiro de publicidade com a reação àquela sua antológica defesa de justiceiros.

No Paraná trabalhou por muito tempo um certo Paulo Martins, que falava em golpe bolivariano e denunciava a “ditadura de Dilma Roussef” de sua bancada, babando. Danilo Gentili é uma evolução no grau de cafajestagem e paranoia miolo mole.

Portanto, ninguém tem o direito de se surpreender com Luiz Carlos Prates, o jornalista de Santa Catarina autor de um dos textos mais criminosos sobre a depressão jamais perpetrados.

Ao falar do acidente da Germanwings, causado pelo copiloto Andreas Lubitz, que já havia sido tratado por tendências suicidas, Prates vomitou absurdos como o de que depressivos são “covardes existenciais” e que deviam ser “execrados” e “desprezados”.

Prates, que se diz psicólogo de formação, foi criticado em nota pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), mas é evidente que isso não dará em nada.

Com o Youtube, gente como ele deixa de se limitar a sua aldeia e invade o Brasil. Ele tem longa folha corrida de serviços prestados à burrice e ao preconceito. Quando na RBS, culpou “os miseráveis” pelo aumento de acidentes de carros.

A ditadura foi responsável por um período em que o país “nunca cresceu tanto”, disse. “Estradas rasgaram o Brasil, universidades foram multiplicadas.

Ciência e tecnologia começaram para valer no país sob a tutela dos militares.” Liberdade ele tinha como jovem. “Não era molestado por quem quer que seja. Eu tinha segurança de cidadão brasileiro. Hoje, saia à noite. Não tem mais segurança”.

Prates acha que precisamos de aulas de moral e cívica e tem receitas para as famílias.

Uma criança “gazeteira” de 8 anos está perdida. Ela não vai mais “se emendar”. “Ela já passou de formação do caráter, que vai até aos seis anos, se tanto. Daqui em diante, será sempre um cara perigoso, para não dizer pior”, afirma.

Etc etc.

A mais recente peroração desumana é mais uma palhaçada de um empregado fiel de Silvio Santos, especializado em dizer o que o patrão quer.

Apesar da semelhança com Moe, dos Três Patetas, é possível ouvir, baixinho, um “ra-raeee” depois de cada demonstração de ódio.



Kiko Nogueira
No DCM
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Empresa de Huck pegou R$ 17,7 mi no BNDES para comprar seu jatinho


O empresário e apresentador de TV Luciano Huck recebeu, do BNDES, um empréstimo de R$ 17, 71 milhões para comprar o jatinho Phenom 505, , prefixo PP-HUC,  que usa em seus deslocamentos. O crédito, tomado pela Brisair Servicos Técnicos Aeronáuticos Ltda, empresa pertencente a ele e à mulher, Angélica, foi obtido pela linha do Finame (financiamentos a máquinas e equipamentos), a juros de 3% ao ano, 5 meses de carência e outros 114 meses para pagamento, funcionando o Itaú como operador do financiamento.



Seus sócios, como também está nos dados da Receita, são Luciano Huck e Angélica Kysivikis Huck.

A imagem do avião, aí de cima, foi tomada pelo fotógrafo e entusiasta de aviação Bruno Ramm, logo após pousar, em 15 de junho de 2016, no Aeroporto de Canela (RS), vindo do Rio de Janeiro. O documento que lhe atesta a propriedade está no Registro Aeronáutico Brasileiro.

Espero que Luciano não reaja como fez em 2005, quando mandou uma carta agressiva para a Revista Contigo, de fofocas de “celebridades” desmentindo o que ela publicara: que ele havia comprado um helicóptero de R$ 1 milhão de reais, na época, e escolhido prefixo PR-KIM para homenagear o filho.

Queixou-se em termos duros da revista, a quem acusou de publicar “informação infundada, sem critérios jornalísticos de apuração e publicada de forma não responsável e que pode, de alguma forma, prejudicar a paz e tranqüilidade que eu e minha esposa esperamos poder construir e proporcionar para nosso filho. Nós esperamos que ele tenha uma infância normal e feliz.

Ele mesmo admitia, porém,  que o helicóptero era da Brisair e que era um dos sócios da empresa. A informação, portanto, não tinha nada de infundado.

E tanto era assim que, partindo dela, resolvi procurar aeronaves com prefixo HUC e… bingo!

Pega pela vaidade pueril, a compra com financiamento subsidiado, desmonta o discurso do “é meu porque comprei com o meu dinheiro”. Não, foi com o nosso, a juros subsidiados. Se eu quiser comprar um carro popular, vou pagar 25% ao ano. Huck, nos mesmos 12 meses, paga 3% com sua empresa que nem mesmo tem a atividade de táxi aéreo no registro. Se ele a aluga, deve ter as notas fiscais, pois não? Duvido.

Alguém que “estuda” ser Presidente da República tem de dizer o que acha disso. Não vale, como os juízes fizeram com o  auxílio-moradia, apenas dizer que ‘é legal” e se “estão dando, eu pego”. Não se está chamando de ilegal, mas de imoral.

E, por favor: nada de alegar “informações infundadas’, ok? Os documentos estão linkados, são públicos e oficiais.

Luciano Huck
No Tijolaço
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Kakay defende a presunção de inocência: para Lula, para o negro e para o pobre!

Nada além da Constituição!

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O Conversa Afiada publica comentário do respeitado advogado criminalista Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay:

A Defesa que propôs a ADC 43 vem registrar uma sincera e profunda preocupação quanto ao anunciado julgamento da definição sobre a prisão em segundo grau no HC em que o presidente Lula é o paciente.

Reconhece, obviamente, o absoluto direito da Defesa do presidente Lula em querer a definição do tema. É a liberdade que está em pauta. Qual o dilema? Na instrução da ADC 43 tivemos a ventura de ter vários amicus curie muito representativos. Defensorias públicas, entidades de defesa dos direitos humanos, associação de advogados dentre outros.

Todas estas instituições, com competência e técnica desmistificaram a manipuladora tentativa do uso da estatística como meio de não enfrentamento da questão constitucional. Uma lástima. Penso que a definição isolada, em um caso concreto,de uma questão tão grave perde a força institucional que o tema requer. Ainda mais sendo este caso o do presidente Lula. Um prato cheio para a imprensa que dizia que estávamos a serviço dos poderosos.

Desde o início desta guerra, ressaltei que a defesa da presunção de inocência é uma questão que transcende em muito qualquer caso concreto. É uma decisão que afetará a milhares e milhares de cidadãos brasileiros sem voz, sem rosto, sem assistência qualificada. Atingirá o “público” tradicional do processo penal no Brasil, o negro, o pobre , o sem voz.

Tentaram nos colocar como defensores não da tese da presunção de inocência, mas de interesses privados. Quis a trama do destino que o tema deverá ser decidido no caso concreto do presidente Lula. Sendo certo que a defesa desta tese fundamental nenhuma relação tem com nenhum caso concreto. Penso ser importante e fundamental a manifestação das defensorias públicas, das associações de advogados, enfim, de todas as entidades que estariam perfilhadas conosco quando fosse ser julgada a ADC 43.

O direito à presunção de inocência e da não prisão sem culpa formada do presidente Lula é exatamente o mesmo direito de qualquer brasileiro pelo simples motivo de que todos somos regidos pela mesma Constituição da República.

O que ouso pedir é uma manifestação técnica e contundente de todos os institutos que estão irmanados na ADC 43. A politização não nos interessa. O que nos move é a defesa de um princípio constitucional. A defesa da Constituição. Simples assim.

Kakay
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Se Lula vier a ser preso, o ministro Fachin será um dos responsáveis

https://f.i.uol.com.br/fotografia/2017/03/21/676526-970x600-1.jpeg

Sabendo que o ex-presidente Lula teria o seu Habeas Corpus acolhido pela segunda turma do S.T.F., órgão ordinariamente competente para o caso, o ministro Edson Fachin encaminhou o processo para o plenário, onde está dividido o entendimento sobre a execução provisória da pena de prisão em face do princípio constitucional da presunção de inocência.

A decisão do ministro Edson Fachin tem respaldo no Regimento Interno do S.T.F., mas não nos parece muito ética e demonstra uma certa dose de falta de imparcialidade.

Ele tinha dois caminhos legais para seguir: escolheu o que pode prejudicar o ex-presidente Lula. Ou seja, de caso pensado, impediu que o órgão jurisdicional, normalmente competente, decidisse pela manutenção da liberdade deste grande líder popular.

O entendimento dos ministros da segunda turma é público e notório, tendo em vista julgamentos anteriores.

Em resumo: se não se pode afirmar que o Ministro Fachin escolheu um órgão para permitir a prisão do Lula, mas pode-se afirmar que ele escolheu afastar a competência do colegiado que asseguraria a liberdade do ex-presidente!!!

Com outras palavras: ao não permitir que o Lula fosse beneficiado por julgamento da segunda turma do S.T.F., o ministro Fachin prejudicou-o de forma absolutamente consciente.

Afranio Silva Jardim, professor associado de Direito Processual Penal da Uerj. Mestre e Livre-Docente em Direito Processual Penal pela Uerj.

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Marcos Coimbra ironiza FHC: quer que o Brasil troque de eleitor

Divulgação

O sociólogo Marcos Coimbra, presidente do instituto Vox Populi, reagiu com ironia a artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em que o tucano relembra sua primeira eleição, em 1994. 

"Distanciando-se cada vez mais do sociólogo progressista que foi e aproximando-se celeremente do que de pior há no pensamento autoritário nacional, FHC sugere que o melhor seria demitir o eleitorado brasileiro e substituí-lo por outro", escreve Coimbra, em sua coluna na revista Carta Capital.

Nas palavras do ex-presidente tucano: "A Pátria precisa tanto de líderes quanto de instituições. E principalmente de um eleitorado que leve ao poder quem tenha visão de país e do mundo, e, sustentando os valores da decência e da democracia, possa oferecer maior bem-estar ao povo".

"Sua Excelência não sabe, mas é exatamente assim que os eleitores procuram agir, do mais humilde ao mais rico, do Oiapoque ao Chuí. Salvo uma minoria de bagunceiros (mais inventada que existente), a imensa maioria procura alguém como ele descreve. A questão é que não existe uma resposta única, uma só candidatura que satisfaça o universo da população e é exatamente por isso que, na democracia, se fazem eleições. A 'Pátria', como escreve FHC, precisa somente que todos respeitem as escolhas da maioria e não se metam a tutelar o povo", diz Coimbra.

"Lula, para a maioria da população brasileira , é aquele que tem visão de país e do mundo, e que, sustentando os valores da decência e da democracia, pode oferecer maior bem-estar a ela. Que Fernando Henrique durma sossegado: não vai ser necessário trocar o povo brasileiro por outro que ele consideraria 'mais qualificado'. O nosso está perfeitamente apto a fazer boas escolhas", diz ele.

No 247
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PF acha offshore de Rocha Loures, o homem da mala do ladrão MT

ABR | Reprodução

No momento em que o diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segóvia, fala em arquivar o caso das propinas no Porto de Santos, beneficiando diretamente Michel Temer, uma outra investigação da corporação implica ainda mais o seu homem da mala, o ex-deputado Rodrigo Rocha Loures. 

A PF entregou ao Supremo Tribunal Federal (STF) contratos de abertura de uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas em nome do pai, da mãe e da irmã de Rocha Loures.

Os papéis foram apreendidos no dia 6 de junho, na sede da empresa Nutrimental, que foi foi alvo de buscas e apreensões no âmbito da Operação Patmos, que prendeu preventivamente o ex-assessor de Temer. Ele foi flagrado em ação controlada correndo com uma mala de R$ 500 mil entregue pelo diretor de Relações Institucionais da J&F, Ricardo Saud.

No local, foram encontrados documentos de constituição da empresa Belix Ventures Limited, aberta no dia 21 de julho de 2015, nas Ilhas Virgens Britânicas. A sociedade está em nome de Rodrigo Costa, pai do peemedebista, da mãe Vera Lilia, e da filha, Izabela Santos.

A representante da Belix nas Ilhas Virgens é outra offshore: a Global Corporation Consultant, situada na capital do país, Road Town, que fica na ilha de Tortola. O agente responsável pela Global é o advogado panamenho Gilberto Arosemena, especialista em fundação de offshores.

Nos documentos de constituição da Belix, a família Rocha Loures preencheu um campo que se refere ao 'detalhamento da natureza da empresa' com uma palavra: 'investimentos'

As Ilhas Virgens Britânicas são consideradas um 'paraíso fiscal' porque sua legislação permite que fiquem em segredo os nomes dos reais donos das empresas lá constituídas, além de oferecer alíquotas de tributação baixíssimas. Segundo a Transparência Internacional, empresa offshore é uma 'sociedade limitada que não tem presença física na jurisdição, não tem funcionários e não tem atividade comercial'.

No 247
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A abjeção que confessa o abjeto

escosteguy

Recomendo, vivamente, que os leitores,seja com uma colherada de Leite de Magnésia, seja com um comprimido de Omeprazol, leiam a “análise” de Diego Escosteguy, ex-Época e agora O Globo, mas sempre coxinha sobre as decisões do Ministro Luiz Edson Fachin sobre o pedido de habeas corpus de Lula.

Na essência, está correta e chega à mesma conclusão que aqui se apontou:  Fachin “escolheu” onde Lula será julgado – ou não será, porque seu pedido de habeas corpus tem chances de ser engavetado, até que Moro, apoiando-se na sentença do TRF-4, atinja seu supremo orgasmo mandando a polícia executar a prisão de Lula.

Fachin impediu, na mesma decisão, uma derrota na Segunda Turma do tribunal. Também em virtude do comportamento dos ministros da Segunda Turma nos últimos meses, é altamente provável que Lula conseguisse derrubar a decisão de Fachin. O ministro trocou uma derrota quase certa por uma possibilidade de vitória no plenário — uma vitória que confirmaria, em definitivo, a prisão do ex-presidente.

O coleguinha, portanto, aplaude uma decisão jurídica que é tomada por “estratégia”. Estratégia é algo que, se permitido à acusação e à defesa, é inadmissível num julgador.

O texto é de linguajar de boteco: “Fachin quebra a defesa de Lula no Supremo”.

“Aí, quebrei ele”…

Mas ainda piora: a chamada da matéria é “Ao negar habeas corpus ao ex-presidente e remeter caso ao plenário, ministro compra tempo para que os desembargadores de Porto Alegre decidam sobre a prisão do petista’. O grifo é meu, claro.

Decidir, meu caro, eles já decidiram e você, eu, e as torcidas do Flamengo, do Corínthians, do Galo e do Colorado já sabemos que só o que se fará uma homologação formal.

E como é que o menino bem-sucedido na vida descreve e louva a “estratégia” de Fachin: evitar uma derrota que poderia ter sido de 4 a 1 na Turma do STF a que pertence e que tem jurisdição sobre o caso. “O ministro trocou uma derrota quase certa por uma possibilidade de vitória no plenário — uma vitória que confirmaria, em definitivo, a prisão do ex-presidente.”

Não sei se o culto Escosteguy conhece o princípio do juiz natural, base do Estado de Direito, que diz que a escolha de juiz ou tribunal específico é própria dos regimes de exceção. O Antonio, o Zé e o Manoel não teriam sido mandados para o plenário.

Ele, porém, vai ao desdobramento desta “estratégia”:

Fachin tem uma aliada fundamental: a presidente do Supremo, ministra Cármen Lúcia. Ela não só concorda com a manutenção do atual entendimento do tribunal, pelo qual condenados em segunda instância podem ser presos, como luta para separar qualquer reexame da corte sobre esse assunto do caso específico de Lula. Como presidente do tribunal, Cármen Lúcia é responsável pela pauta do plenário. 

Ou seja, nem mesmo Fachin pretende impor sua decisão pelo “tapetão”, mas pelo “gavetão”.

Não põe pra julgar e pronto, Justiça será feita.

Juro que fico triste em ver isso, a juventude assim perdida por uma carreira de “sucesso”.

O elogio da manipulação judicial em razão das simpatias políticas é a morte da decência.

Ao malandro que, no pé do Morro do Juramento, diz “aí, eu quebrei ele” eu posso atenuar o que pensar diante da brutalidade e da ignorância. Mas a quem se gaba de ter mestrado pela ” Columbia University”, pera lá…

Esse é o retrato deprimente de uma camada de jornalistas que esqueceu dos valores, das causas, da decência.

“Aí, Fachin você quebrou ele, vai nessa malandro”.

Fernando Brito
No Tijolaço
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A democracia seletiva de FHC

Agora ele passa da conta: aprova a condenação de Lula pela Inquisição de Curitiba e Porto Alegre e apoia a candidatura de Luciano Huck à Presidência


Com muito papel à disposição, oferecido pela mídia aliada desde outros carnavais, Fernando Henrique Cardoso costumeiramente tem bombardeado Luiz Inácio Lula da Silva com palavras e acusações vãs.

A intenção do príncipe dos sociólogos é a de desqualificar o metalúrgico como deixa antever, pela undécima vez, na coluna dominical assinada por ele em dois jornais: O Globo e Folha de S.Paulo.

Sem muita certeza, FHC julgou que a pátria amada precisa muito “de líderes como de instituições”.

A democracia de FHC, no entanto, é seletiva. Não admite que Lula, um dos líderes políticos, o maior deles, participe livremente da disputa eleitoral. O ex-presidente tucano, pelo que parece, apenas tolera a democracia. E já não esconde o sentimento.

Em declaração à Rádio Jovem Pan, de São Paulo, rasgou a fantasia e, após confessar que não leu o processo contra Lula, mesmo assim afirmou: “Antes podiam dizer que era um juiz, agora é um e mais três desembargadores. Não dá pra tapar o sol com a peneira”.

Registre-se que Lula nunca tocou nas encrencas de Paulo Henrique Cardoso com a Justiça. FHC, pai de Paulo Henrique, está muito velhinho, 86 anos, para acreditar em julgamentos imparciais. Veterano nesse ambiente, ele sabe avaliar a integridade dos juízes. De uns e de outros.

O ex-presidente tucano partiu dessa obviedade para outra, ao anunciar, na coluna impressa, que torce para que o eleitor leve ao poder “quem tenha visão de país e mundo”. Se for considerada a indicação inicial de FHC para o PSDB, esse candidato seria o apresentador Luciano Huck, para tristeza de Geraldo Alckmin. Dá para acreditar?

Nessa embaralhada situação projetada pelo ex-presidente talvez seja possível acreditar no que escreveu sobre o perfil de um candidato, inspirado no “fenômeno Emmanuel Macron” na França. “Sim, pode-se despertar esperanças e juntar segmentos de uma sociedade fragmentada e desiludida com os políticos”, assegura FHC. Nesse perfil se enquadraria Luciano Huck.

Implacável com as evidências, Millôr Fernandes repetiria: “Pior cego é aquele que quer ver”. Aproximar, para comparação, os dois ex-presidentes – Lula e FHC – expõe brutalmente a diferença. A história guarda uma distância abissal.

Talvez FHC, mesmo se a idade permitisse, esbarraria no calor dos eleitores. Há uma forte rejeição ao tucano. Ele deixou o governo com 57% de desaprovação. Lula, ao contrário, saiu com aprovação de 87%, segundo números do Ibope.

De qualquer forma, quem sabe o que pensa FHC nas noites de insônia?

Maurício Dias
No CartaCapital
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Com apoio de autoridades, velha imprensa trata Lula como troféu de caça

Eles comemoraram a condenação de Lula
Depois da selfie, jornalista vai à prisão para mostrar onde Lula, segundo ele, vai ficar: “se beber muita água, a direção corta”
O governo do Estado do Paraná, chefiado pelo réu em ação de improbidade Beto Richa, abriu as portas do Complexo Médico-Penal de Pinhais, para mostrar ao repórter Germano de Oliveira a cela onde Lula, segundo a revista, vai ficar.

É um local encardido, com aparência de mal cheiroso, pequeno.

A abertura da penitenciária revela a indigência das autoridades que ocupam postos de comando no Brasil. O objetivo é escrachar uma liderança política que tem quase 40% das intenções de voto no primeiro turno das eleições deste ano e venceria qualquer candidato em um segundo turno.

O repórter que fez a reportagem para a IstoÉ, Germano de Oliveira, faz de Lula a única pauta da sua vida. Em 2014, quando trabalhava em O Globo, Germano escreveu que Lula e Marisa poderiam passar o Reveillon no triplex do Guarujá.

O casal não só não passou o Reveillon lá como não pernoitou uma única noite no imóvel. Motivo óbvio: não era deles.

Quando fez a reportagem, Germano usou a imagem de Lula e Marisa no Reveillon do triplex do Guarujá não para falar de corrupção ou lavagem de dinheiro, mas para mostrar que o casal estaria sendo beneficiado no cronograma de construção da OAS/Bancoop, responsável pelo imóvel.

A informação era para mostrar que outros donos de cota nos condomínios bancados pelo consórcio estariam sendo passados para trás. A reportagem registra que o casal Lula da Silva era dono de cota no condomínio — o que é correto, mas não do triplex.

Na interpretação da Lava Jato, a imagem usada pelo jornalista se tornou fato verídico,  e que Lula e Marisa planejavam o Reveillon no Guarujá.

A farsa ganhou corpo em janeiro de 2017, quando saiu da boca de Leo Pinheiro, ex-presidente da OAS, que Lula havia solicitado em janeiro de 2014 que o apartamento ficasse pronto até o Reveillon daquele ano.

A reportagem de Germano e a declaração de Leo Pinheiro foram para os autos do processo conduzido por Moro e o resultado é o que todos conhecem: Lula condenado a 9 anos e seis meses de prisão, com a pena elevada pelo TRF-4 a 12 anos e 1 mês. Moro cita a reportagem como um evidência de que o apartamento era mesmo de Lula.

Com a condenação de Lula confirmada pelo TRF-4, Germano fez uma self com outros quatro jornalistas, para se vangloriar:

— Os cinco jornalistas que fizeram a diferença na cobertura da Lava Jato, que acabará levando Lula para trás das grades. Da esquerda para a direita: Vladimir Neto, da TV Globo; Ricardo Brandt, do Estadão; André Guilherme, do Valor; este que vos fala Germano Oliveira, da ISTOE; e Flávio Ferreira, da Folha de S.Paulo. Faltaram outros grandes repórteres como Fausto Macedo, do Estadão, Cleide Carvalho, do Globo. Essa turma eh da pesada e se reuniu hoje na sede do TRF4, em Porto Alegre, quando os desembargadores condenaram Lula por 3 a 0 a 12 anos e 1 mês de cadeia. Ainda da psra (sic) confiar na Justiça — escreveu ele.

Nesta semana, Germano  conta, pelas páginas da IstoÉ, como é atrás das grades, “local em que o petista irá dormir — uma cela de 12 metros quadrados (…) “:

A cela, com uma janela e porta em aço, conta com um vaso sanitário no chão (o chamado boi), com pouca privacidade, e um tanque com torneira. Os agentes penitenciários asseguram que é possível bebê-la sem sobressaltos – a água, fornecida pela Sanepar, esclarecem, é potável. Mas se Lula exagerar no consumo, não tem conversa: a água será cortada.

Jornalistas sérios trabalham com fatos de interesse público. Qual o interesse público nesta descrição?

Isto é parte do linchamento, parte de um roteiro cujo desfecho jornalistas como Germano já escreveram. Lula é um troféu de caça.

Que o jornalismo brasileiro, moldado pelo padrão ético da Globo, aja assim, nenhuma surpresa. Mas é estarrecedor que, ao lado de linchadores, se coloque ministros como Édson Fachin, indicado por Dilma Rousseff ao Supremo Tribunal Federal.

Ele negou habeas corpus pedido pela defesa de Lula, o que já era esperando, tendo em vista sua posição a favor da prisão após a condenação em segunda instância.

Mas, ao decidir que o mérito da decisão caberá ao plenário do Supremo, ele deu a oportunidade para uma decisão que permita aos veículos de comunicação a imagem que querem exibir como troféu: Lula sendo preso.

É que Fachin poderia submeter sua decisão à segunda turma do STF, da qual faz parte, onde o HC, pela posição dos ministros Ricardo Lewandowski, Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Celso de Mello, certamente seria concedido.

No plenário do Supremo, a concessão do HC também é provável, já que, dos onze ministros do STF, seis já manifestaram posição contrária a prisão a partir da decisão em segunda instância: Celso de Mello, Marco Aurélio Mello, Ricardo Lewandowski, Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Rosa Weber.

Porém a artilharia está centrada em Rosa Weber. “Ela pode mudar de posição”, repete diariamente Merval Pereira, o principal comentarista de política da Globonews e da CBN, além de colunista de O Globo.

O jogo da mídia comercial é pesado e, a prevalecer sua pressão, o Judiciário como instituição se reduzirá ao tamanho de uma editoria do jornal O Globo.

Juízes ganham muito acima da média (nem precisaria do artifício do auxílio-moradia) e não podem ser demitidos. A sociedade, através da Constituição e das leis, aceita conceder-lhe vantagens para que não precisem se curvar ao poder. E, neste caso, não é o poder político, mas de quem se comporta como dono desse e de todos os outros poderes.

Fachin, ao submeter sua decisão ao plenário do STF e não à segunda turma do Supremo, agradou a esse poder e colocou Rosa Weber na linha de tiro.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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“Fake news” já influenciavam eleições brasileiras em 1945

Reprodução do material de campanha da UDN em 1945
Ao contrário do que sugere um engano em que muita gente tropeça, a história do Brasil não começou ontem. Nem as notícias falsas são praga recente, embora o rótulo “fake news” bafeje a novo.

Semear mentira para colher vantagem é trapaça manjada. Em 1996, ainda não havia redes sociais e robôs digitais para plantar cascatas. Nada que impedisse artimanhas eleitorais para confundir. O prefeito Cesar Maia lançara Luiz Paulo Conde para concorrer à sua sucessão no Rio. O antagonista mais robusto era Sérgio Cabral Filho – ele mesmo.
Cesar contratou mais de uma centena de pessoas para espalhar, no centro da cidade, que Cabral desistira da eleição.
Cesar contratou mais de uma centena de pessoas para espalhar, no centro da cidade, que Cabral desistira da eleição. De boteco em boteco, aglomeração em aglomeração, os boateiros a serviço do prefeito comentavam a “novidade”. Os incautos ouviam e compartilhavam a informação com os amigos. Com o rumor sobre o abandono chegando ao noticiário, Cabral teve de, em sinal de anemia política, esclarecer que persistiria. Persistiu e perdeu.

O trambique, hoje um case do marketing político nacional, não foi confidência de um desafeto de Cesar Maia. E sim dele, em livro.

Anos antes, em 1989, a campanha de Fernando Collor de Mello à Presidência disseminara o boato de que, se vencesse, Luiz Inácio Lula da Silva obrigaria todas as famílias a cederem um quarto de suas residências para grupos de sem-terra morarem. E que garfaria a sagrada poupança dos brasileiros.

Collor ganhou, e sua primeira medida foi bloquear os depósitos bancários.

Mais atrás, em 1960, os adversários de Carlos Lacerda na disputa para o governo da Guanabara, o equivalente geográfico do atual Município do Rio de Janeiro, soaram o alarme: o deputado e jornalista exterminaria as escolas públicas da cidade-Estado.
O ministro Gilmar Mendes teria sido grampeado em seu gabinete no Supremo.
Lacerda triunfou e, nos cinco anos vindouros, construiu centenas de colégios.

Completa uma década este ano a patacoada que certa imprensa embalou como fato consumado: o ministro Gilmar Mendes teria sido grampeado em seu gabinete no Supremo. Uma investigação metódica e obsessiva não encontrou indício de escuta ilegal.

A notícia falsa sobre o grampo custou a cabeça do delegado Paulo Lacerda, que dirigia a Agência Brasileira de Inteligência. Não era esse o objetivo?

O episódio dos marmiteiros

Costuma-se interpretar o confronto entre Hillary Clinton e Donald Trump, em 2016, como uma arena em que a engrenagem das “fake news” revelou-se potente, azeitada e daninha à democracia.

Mas uma campanha presidencial no Brasil antecipou em quase três quartos de século o cenário em que uma mentira pode influenciar decisivamente as escolhas dos cidadãos.

Os idos de 1945 ensinam como uma invencionice, mesmo resumida a uma só palavra, pode pesar nas urnas.

No caso, a palavra foi “marmiteiros”.

Depois do término da Segunda Guerra Mundial, um golpe de Estado depôs o chefe da ditadura do Estado Novo. Os militares, que oito anos antes haviam se associado ao presidente constitucional Getúlio Vargas no golpe, derrubavam agora, em 29 de outubro de 1945, o ditador Getúlio Vargas.

A eleição direta para presidente foi marcada para 2 de dezembro. Seria a primeira desde a de 1930, cujo primeiro colocado foi impedido de assumir – a Revolução de 30, também um golpe, entregou o poder a Getúlio. Do quarteto de candidatos, dois duelavam com chances de vitória: o brigadeiro Eduardo Gomes, da União Democrática Nacional; e o general Eurico Gaspar Dutra, do Partido Social Democrático.

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Santinho usado na campanha presidencial de 1945.
reprodução

Dutra prosperara na ditadura como ministro da Guerra, o comandante do Exército. Com dicção deficiente, trocava letras – “você” virava “voxê”. O jornalista e historiador Hélio Silva testemunhou:

“Dutra não era um candidato popular. […] Não era bom orador. […] A impressão dominante era da vitória, de antemão assegurada, do brigadeiro em torno de quem se agrupavam as forças de oposição”.

Dutra era apoiado também pelo Partido de Representação Popular, que abrigava os veteranos da Ação Integralista Brasileira. Nos anos 1930, os galinhas-verdes da AIB haviam adotado aqui ideias que o fascismo e o nazismo cultivavam na Itália e na Alemanha.

A UDN de 1945 era uma frente ampla que reunia de oligarcas decaídos em 1930 a políticos de frescor liberal e frações de esquerda partidárias da socialização dos meios de produção. Não se definira ainda como o partido conservador e reacionário que, na futura síntese crítica do udenista Carlos Lacerda, se constrangia até em chamar pobre de pobre. Em documentos, preferia “os menos favorecidos”.

Mas o brigadeiro estava longe de ser uma figura com apelo entre os… menos favorecidos. Falava em tom monótono, carente de emoção, com carisma de filatelista. A massa trabalhadora não se entusiasmava com ele e sua pregação. O porvir confirmaria que era ruim de voto. A campanha, porém, parecia destinada ao sucesso. Embalava o candidato a legenda de herói da rebelião tenentista de 1922, um dos sobreviventes dos mal contabilizados “Dezoito do Forte” de Copacabana. “Vote no brigadeiro, que é bonito e é solteiro”, recitavam suas fãs.

Até que, em 20 de novembro, emissoras de rádio controladas pelo empresário Hugo Borghi, vinculado à candidatura Dutra, detonaram uma bomba. Em discurso, alardearam, o brigadeiro se jactara: “Não preciso do voto dos marmiteiros”. Ele teria empregado a palavra com sentido de trabalhadores humildes, que carregam comida na marmita (marmiteiro era igualmente o funcionário de bares e restaurantes entregador de marmitas).

Era tudo mentira, ou “fake news”.

Calúnia

Páginas de jornal pró-Dutra foram coladas nas paredes e grades da Galeria Cruzeiro, na avenida Rio Branco. Populares paravam, liam, batiam boca e vituperavam a insolência do brigadeiro.

Em suas rádios, algumas delas adquiridas com financiamentos do Banco do Brasil durante a ditadura, Borghi reverenciou Getúlio Vargas e mandou brasa na propaganda: “Não vencerá aquele que disse não necessitar dos votos dos marmiteiros e da patuleia, quando os trabalhadores se reuniam em praça pública para manifestar suas aspirações”. Getúlio mantinha-se discreto sobre o pleito, sem anunciar adesão a nenhum postulante.
“O povo não vai acreditar nisso. Imagina…”
Borghi acumulara fortuna no Estado Novo, sobretudo em negócios obscuros com algodão. Animara a campanha “Queremos Getúlio”, empenhada na preservação do ditador. O empresário afirmou ao “Globo”:
“Dizem que sou um banqueiro feito à sombra da ditadura e financiador do movimento queremista, à custa de desvio de verbas oficiais, destinadas ao amparo da lavoura de algodão”.
O amigo de Getúlio jurava inocência, mas poucos se fiavam nele.

O brigadeiro não percebeu o estrago que a estória ameaçava provocar. No dia 21, ele passava pela cidade paulista de Bauru quando o “Correio da Manhã” alcançou-o com uma ligação telefônica. O repórter perguntou “se estava a par do caso dos marmiteiros”.

“Marmiteiros?”, indagou. Não entendera.

O jornalista empostou a voz e repetiu sílaba por sílaba:

“Mar-mi-tei-ros!”

“Que é isso?” insistiu Eduardo Gomes, que ao fim deu de ombros: “Quem pode crer em semelhante tolice?”

Carlos Lacerda rememoraria lhe ter dito: “Brigadeiro, o senhor tem que fazer um discurso hoje, desmentindo isso, mas hoje”.

O oficial da Aeronáutica encaminhou-o a outro correligionário, o ex-deputado Prado Kelly, que teria minimizado: “Mas isso, Carlos, não tem tanta importância! O povo não vai acreditar nisso. Imagina…”.

Os grandes jornais cariocas, na então capital da República, alinhavam-se com o brigadeiro, e contra-atacaram. “Mentira”, acusou o “Correio da Manhã”, identificando no “grande capitalista” Hugo Borghi a origem da lorota. “Calúnia”, estampou o “Diário de Notícias”.

Já era tarde. Nos comícios da UDN, os palanques aclamavam Eduardo Gomes como um amigão dos trabalhadores. “Mas não houve mais pobre no Brasil que se convencesse disso”, reconheceu Lacerda.

“Fake news” decisiva

A historiadora e socióloga Alzira Alves de Abreu assinalou, no “Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro”:
“Borghi passou a declarar através das estações de rádio e de jornais como ‘O Radical’ que o candidato udenista não precisava dos votos dos marmiteiros, dos que trabalham, dos que lutam pela vida, pois contava com o apoio dos ricos, dos grã-finos, dos privilegiados. […] Segundo alguns analistas políticos, essa campanha teria sido finalmente responsável pela derrota de Eduardo Gomes”.
Ao divulgar, no finzinho de novembro, uma declaração pedindo votos para Dutra, Getúlio selou o revés do brigadeiro. O manifesto se celebrizou com o slogan, de autoria de Borghi, “Ele disse”.

É possível que a bênção de Getúlio Vargas, cuja política social e trabalhista lhe granjeara vasta simpatia popular, tenha sido mais importante do que a calúnia dos marmiteiros. Mas a “fake news” foi também decisiva.

Eduardo Gomes conquistou a maioria nas urnas do Rio, mas malogrou no país – um chocolate de 3,3 milhões de sufrágios para Dutra, contra 2,0 milhões para o udenista.
“Ele disse”
Antes de 1945 se despedir, Hugo Borghi vangloriou-se numa entrevista em Porto Alegre por ter inventado a frase sobre marmiteiros:
“Explicou que, após o discurso do brigadeiro Eduardo Gomes no Teatro Municipal, onde há um trecho fazendo referência ao ‘voto dessa malta de desocupados que anda por aí’, procurou no dicionário de Cândido de Figueiredo a significação da palavra ‘malta’, tendo encontrado ‘gente de baixa condição, súcia, reunião de trabalhadores que se transportam juntamente de um lugar para outro à procura de trabalhos agrícolas’. ‘Não poderia haver dúvida’, disse Borghi: ‘O brigadeiro queria dizer que não precisava do voto dos marmiteiros, ou seja, dos trabalhadores’”.
A versão é falsa, evidenciam documentos e periódicos de outrora.

No cair da tarde de 19 de outubro de 1945, o brigadeiro foi homenageado no Teatro Municipal do Rio. Diante de uma mesa coberta de flores, leu para milhares de presentes o discurso em que mencionou a manifestação queremista no Palácio Guanabara, residência oficial do ditador, poucas semanas antes da deposição.

Relacionou o episódio a um evento de 1830 na França, às vésperas da queda do rei Carlos X:
“A cena, que então se desdobrou nos jardins do Guanabara, bem se parecia com uma tela histórica — a invasão do Palais-Royal por uma festiva multidão de desocupados, quando o duque de Orléans homenageava Carlos X e o rei de Nápoles, em visita a Paris”.
Eduardo Gomes não falou em “malta”, mas em “festiva multidão de desocupados”. Nem em precisar dos votos destes ou daqueles.

Os “marmiteiros”, balela inspirada pela palavra “desocupados”, foram obra da criatividade de um fabricante de “fake news”.

Quantos Hugo Borghi estarão à espreita no Brasil de 2018?

Mário Magalhães
No The Intercept
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Escutas sobre o Jornalismo


As entrevistas que  compõem compõem o livro  ESCUTAS sobre o JORNALISMO foram concedidas por e pesquisadores e pensadores contemporâneos que colocam em evidência o debate sobre temas recorrentes na prática e na teoria do jornalismo – como questões de ética, de tecnologia, do fazer jornalístico, de especificidade do campo, entre outras dimensões. Cada entrevista e, principalmente, o seu conjunto, oferece ao leitor oportunidade de diálogo com pesquisadores com ampla produção acadêmica e contribuições relevantes para o pensamento contemporâneo sobre o jornalismo. Portanto, temos em mãos um livro cujo público-alvo é amplo, envolvendo alunos, professores e pesquisadores da graduação, da pós-graduação e de jornalistas nas redações, além de outros públicos que pretendam refletir sobre o jornalismo do passado, do agora e do futuro. É, pois, um grande testemunho dialogal que traz para o centro dos debates o jornalismo como ele é: frágil, em crise, mas, ao mesmo tempo, desafiador e pleno de potência, nessa chamada era tecnológica. É a escuta de um jornalismo filho de uma democracia que, em nosso país, é frágil, imperfeita, necessitando de uma esfera pública de opinião competente e equilibrada.

O livro ESCUTAS sobre o JORNALISMO é, então, fruto de uma  conjunção interpretativa de olhares marcadamente subjetivos de pesquisadores-entrevistados que trabalham no campo do jornalismo em diferentes universidades do Brasil e do Exterior. A obra em si está revestida de um exercício de escuta apurada, com o direcionamento de questões voltadas para o campo de saber de cada pesquisador-entrevistado, na condição de fonte de informação especializada, domínio crítico sobre a práxis jornalística e atuação profissional em Programas de pós-graduação em Comunicação ou Jornalismo. Há, então, uma dimensão METAjornalística exercitada intencionalmente pelos pesquisadores-organizadores do livro, no sentido de que o conjunto das entrevistas aqui disponibilizadas pudessem evidenciar elementos que se referissem ao próprio campo de atuação, destacando fatos e notícias relevantes, aprofundando sua compreensão sobre as rotinas, processos de produção, manipulação e disponibilização de conteúdos jornalísticas produzidos por empresas jornalísticas, ou por uma pluralidade de jornalistas.

Desse modo, o JORNALISMO é o objeto principal de reflexão presente nesse conjunto de entrevistas realizadas com protagonistas que lidam diretamente com as complexidades, contradições, interesses, parcialidades, disputas e paradoxos que envolvem o jornalismo enquanto memória pública. A dimensão METAjornalística do livro também se manifesta ao adotarmos o procedimento da entrevista não exclusivamente com a finalidade de coletarmos informações interpretativas, mas, sim, de complexificarmos as várias questões transdisciplinares imanentes ao jornalismo, ou que o atravessam. 

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