21 de jan de 2018

Populismo sujo dos golpistas tenta igualar ideia Lula a Bolsonaro e Collor


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A lavajatolatria, o Carnaval e os Habeas Corpus de Gilmar Mendes

O professor Rogerio Dultra escreveu texto respondendo a uma indagação minha (ver aqui) e cunhou uma expressão interessante: o jurista lava-jato, que nasceu com as características que simbolizam esse imaginário punitivista, em que a moral substitui o Direito e em que os fins justificam os meios. Enfim, o jurista lava-jato assume um lado: o de que os argumentos morais e políticos (que, ao fim e ao cabo, são moralismos) valem mais do que a própria Constituição.

Não é por nada que parcela da comunidade jurídica apoia atos de exceção. Já existe até a “jurisprudência da crise”. Existe também a “jurisprudência de exceção”. Resumindo: é o populismo que rima com punitivismo. Dedo longo, o jurista lava-jato funciona como o novo tipo-ideal do Direito: aponta o culpado e depois sai buscando narrativas (pós-verdades) para cobrir o gap entre o fato e a versão construída finalisticamente. Em suma: forjou-se uma lavajatolatria. E isso pega. E vira violência simbólica.

Delegados já indiciam políticos por intuição (sic) (ver aqui). Juízes negam o direito ao silêncio (aqui). Membros do Ministério Público negando o direito ao silêncio (vejam o vídeo a partir do minuto 22, em que o destemido advogado Alberto Zacharias Toron enfrenta de frente mais um ato dessa imensa peça do autoritarismo brasileiro). Prende-se com base em enunciados feitos em workshop (a ministra Laurita Vaz, do Superior Tribunal de Justiça, teve que detonar um deles, por liminar) (ver aqui). Eis o “espírito desta época”, o Zeitgeist da “wäscht schnell” (lava rápido ou “a jato”). Para quem não entendeu: a lavajatolatria se transformou em uma ideologia (ou em uma “teoria” política de poder); e, assim, quem mais sofrerá são aqueles que menos condições tem de se defender. Eis o paradoxo dessa postura.

Também dia desses ouvi um jurista com esse perfil dizer em palestra, vestido a rigor: “não há verdades; tudo é relativo; a verdade é a verdade da justiça” — e todos aplaudiram. Para começar, o autor é um mentiroso confesso, porque se não há verdades, o que ele acabou de dizer também não é verdadeiro. O que está por trás desse tipo de afirmação? Simples: é que, por não existirem verdades, tudo pode ser dito. Tudo é narrativa. Logo, a prova judicial será uma narrativa. Crença. Ou probabilismo. E será verdadeiro aquilo que a vontade de poder dirá. Um neohumptydumptysmo (Alice Através do Espelho), em que o intérprete dá às palavras o sentido que quer.

É o que está por trás também das narrativas que se vendem sobre a concessão de Habeas Corpus pelo Supremo Tribunal Federal. Neste momento, a bola da vez é o ministro Gilmar Mendes. Criam-se pós-verdades tipo “HC é ruim; HC é para abastados; HC é igual à impunidade”. Resultado: as narrativas se transformam em enunciados auto evidentes-indiscutíveis.

As pós-verdades, repetidas ad nauseam, viram verdades “apodíticas”. Viram até marchinhas de Carnaval, como uma que está fazendo sucesso. Nela, a pretexto de fazer blague, o pandeguismo do autor da marchinha rompe o cabo da boa fé (ou boa esperança do direito e do direito de personalidade) e faz acusação de corrupção. Alguém dirá: é engraçado. Também achei. Mas, no Brasil, o protesto vira impostura. Nada de Bakhtin; aqui é linear. O que não está dito na marchinha? Simples: um país de torcedores obnubila o cerne da discussão.

Explico: o que se esconde (e o autor da marchinha pode nem se dar conta) é o relevante fato de saber o que é um HC e se é verdadeiro dizer que os Habeas Corpus do STF (no caso da marchinha, especialmente os deferidos por Gilmar) são “tão assim para os ricos” (sic) e como se eles tivessem sido deferidos indevidamente. Repito o que venho dizendo: quem vibra com gol de mão não pode se queixar se seu time perder com gol de mão. Concedeu HC para político ou para alguém abastado? Culpado de antemão. É pena que a comunidade jurídica apenas torce... E para torcer, distorce.

Então, para mostrar alguns números e dizer para os galhofeiros de momo que HC é coisa séria e é melhor um HC concedido de forma indevida do que negar, por moral ou política, um HC devido, informo que entre 2009 e 2017 o Supremo Tribunal Federal concedeu 4.018 HCs. A 2ª turma, em que está o ministro “muso” do Carnaval, foi a que mais concedeu: 1.477.

Será que o carvalesco autor da pândega marchinha sabia que a maioria dos Habeas Corpus de mães com filhos menores de 12 anos foram concedidos pelo ministro Gilmar Mendes? Muitos de forma monocrática. Os exemplos são muitos. O que dizer do HC 141.201 (furto de uma correntinha avaliada em R$ 15)? E da tentativa de furto de uma barra de chocolate (HC 141.410)? Furto de 18 tijolos (HC 139.248), no valor de meia dúzia de mirreis? Isso daria marchinha, não? “Iscondoô lelê, furtou uns tijolinhos para construir seu puxadinho e foi emparedado...”. E do furto de roupas em varal (HC 127.266)? Céus. Como isso chegou ao STF? Isso tudo daria uma boa marchinha de Carnaval. Alô, alô, justiça, por que tem 726 mil presos no Brasil, dos quais 280 mil ainda não foram julgados?

Caros leitores: se destes “cautelares” 20% tiverem problemas de prazo, fundamentação e quejandos, estamos devendo, nada mais, nada menos, do que 56 mil HCs. Isso não dá marchinha. Dá um enredo: “A tragédia dos presídios no reino do punitivismo”. Bingo.

Já sem argumentos, alguém dirá, desviando o assunto: “mas conceder HC com base em insignificância incentiva o crime”. É? Então o puritanismo e o moralismo parecem não ter limites. Ninguém estaciona em lugar proibido, compra mercadorias no exterior e não declara na alfândega (é crime!), não declara no Imposto de Renda alguns dinheiros (baita crime) e por aí afora? Hein? Mas o furto insignificante é muito mais grave do que sonegar, certo? Sorry pelo sarcasmo.

No imaginário forjado nestes tempos difíceis, essa pergunta deixa de ser respondida, ficando escondida no meio das notas musicais e dos risos tortos dos torcedores de um pais que trocou o direito pela moral. E por aí afora. Putz: ia esquecendo do furto de sucata (HC 126.866), avaliada em incríveis R$ 4... Pois é. Isso — também — chegou ao STF. “Salve a Defensoria aí gente — chora cavaco”! “Isquindô”. E chegou no STF porque alguém negou. Muitos negaram antes. Que hit para o Carnaval, não? Furtou uma sucata e parou no xilindró...Eeeoô...

Mais um pouquinho de luz sobre o problema da liberdade (sim, senhores, HC diz respeito à... liberdade!!!!) no Brasil: vejam os casos de gestantes e lactantes presas, com HC deferido pelo “ministro muso” (HC 134.104; HC 134.069; HC 133.177; HC 131.760; HC 130.152; HC 128.381; HC 142.593; HC 142.279). Isso nem marchinha dá. Dá novela das oito, com muito choro. Imaginem a cena de uma mãe afastada do filho com grades no meio... e uma música de fundo. Quem aguentaria? Aliás, até acho que deveríamos ter fundo musical no cotidiano. Choramos em filmes e não nos importamos com as injustiças do cotidiano. Imaginem uma audiência de custódia com a sonoplastia da Globo...

Para se ter uma ideia da dramaticidade do problema do punitivismo no país, chegou a haver divergência na discussão sobre se o STF deveria ou não conceder HC em um caso de furto de chocolate avaliado em R$ 16 (bom, justiça seja feita, era chocolate ao leite). Não é fácil fazer Direito no Brasil.

Não devemos esquecer, aqui, o trabalho da Defensoria Pública. Esses habeas dos pobres são todos levado ao STF pela valente Defensoria. Nem estou falando dos HCs de outros crimes (vejam a importância dos números da Defensoria de São Paulo, citados na discussão da presunção da inocência – ADCs 43 e 44).

O que quero deixar claro é que eu poderia escrever sobre o mesmo assunto e invocar outros ministros da Suprema Corte, que votaram concedendo esses mais de 4 mil HCs nesses anos (poderia falar de votos exemplares dos ministros Marco Aurélio, Lewandowski, Toffoli, etc).

No caso, pesquisei os números e os exemplos dos HCs deferidos pelo ministro Gilmar Mendes, justamente porque é ele o g(l)osado pela já — agora famosa — marchinha momesca. Ouvi-a e fiquei intrigado. Fui atrás dos números para que eles falassem um pouco sobre essa intrincada temática. Querem fazer galhofas com a liberdade? OK. Façam com os HCs negados. Entrevistem os reclusos. Como disse, estamos devendo no mínimo 56 mil habeas corpus. Tem cada história... Com certeza, não dá nenhum iscondô.

O interessante é que, hoje, o juiz ou tribunal, para conceder HC, sente vergonha e tem medo da opinião pública (quem é ela, afinal?). Teme-se também o primeiro comentário (eles sempre sabem antes de todos) disparado pela Globo News (que só se interessa, é claro, se o réu for rico). Na escala “Richter-Raiva” de terremotos discursivos, dos jus filósofos Merval e Camarotti, uma concessão de HC alcança facilmente os 8 pontos dessa escala.

O que os críticos-torcedores esquecem é que, para um HC chegar ao STF, corre muita água. Ah, se os carnavalescos e os demais torcedores (juristas ou leigos) soubessem a tragédia que é direito criminal no Brasil... (sim, sei da violência que atinge principalmente os pobres; mas não é por causa de HCs; e não é por causa das garantias constitucionais). As causas são outras. E isso não dá marchinha.

Se os críticos-torcedores conhecessem os números sobre os HCs julgados (e sistematicamente negados) em determinados tribunais (lembram de uma desembargadora que disse nunca ter concedido liminar em HC? Disse com orgulho!)? Ah, se soubessem que o impetrante tem de ultrapassar muitos obstáculos, como a malsinada Súmula 691? E mesmo assim o STF concede milhares de HCs. Os obstáculos para o conhecimento de HC no STF são tão grandes que, por vezes, o STF não conhece... mas concede de ofício, a ponto de alguns réus torcerem pelo não conhecimento e que uma boa alma lhe conceda o remédio heroico... de ofício. Bingo.

Volto à lavajatolatria. Depois de um certo momento, espalhou-se, no país, a onda de que garantias processuais geram impunidade. Mais: Defender acusados se confunde com “bandidolatria” (sic). Sugiro o filme A Ponte dos Espiões (ver meu texto sobre o filme aqui – o fator Stoic Mujic), em que o filho pergunta ao pai que defende um acusado de ser espião comunista nos EUA na guerra fria: “— Pai, você é comunista?” E o pai responde: “— Estou apenas fazendo o meu trabalho”. Depois, o espião pergunta ao advogado: “— Você nunca me perguntou se eu era inocente”. E ele responde: “— Não me importa. Faço o meu trabalho”.

No neoimaginário que se instaurou, algumas autoridades acham que o Direito é um caminho longo demais e que as garantias só atrapalham. Pela ideologia da "lava jato", é proibido conceder HC. E todos são culpados até prova em contrário. Quer dizer, por vezes, nem isso adianta. Tempos de pós-verdades. Pós-verdade é como fake news. Ora, crime é coisa ruim. Todos somos contra a corrupção, tráfico de drogas, assaltos... Quem seria a favor, a não ser os criminosos? Só que, em qualquer democracia, crime se combate a partir da lei. Inclusive com concessão de HC.

Se as garantias são indevidas, não é o judiciário que vai dizer. E nem o MP. Aliás, nem o legislador pode reduzir as garantias constitucionais. Sabem por que? Porque a Constituição, que é um remédio contra maiorias, não permite. Ah, então a culpa é da Constituição. Maldita Constituição. Rasguemo-la. Pois é. Quem odeia a Constituição Federal facilmente se submete ao látego da ditadura. Bom, deve ter gente com saudade. Espero que isso não dê marchinha.

Post scriptum: desculpem, está um pouco longa a coluna. Assumo o risco de fracassar, porque textos longos não são lidos em tempos de pós-modernidade e pós-verdades. Só quero dizer, ainda, que, em 1964, a tentação do arbítrio venceu o Direito. Na época, até a OAB não resistiu. Deu no que deu. Fazer atalhos encurta o caminho, mas pode dar no abismo. Por que é tão difícil aprender com a história?

Lenio Luiz Streck
No Conjur
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E se Lula for absolvido?

Dez entre dez brasileiros estão convencidos de que Lula será implacavelmente condenado, no próximo dia 24, pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), aqui em Porto Alegre. Não só a mídia golpista como as redes sociais têm contribuído para isso.

Uma lufada de otimismo, contudo, tem assoprado na direção de alguns setores petistas que passaram a admitir a hipótese de que o ex-presidente perderá por razoável placar de 2 a 1.

A fragilidade da sentença de Moro que condenou Lula a nove anos e seis meses somada a uma série de trapalhadas cometidas pela direção do TRF-4 e à decisão da juíza Luciana Torre de Oliveira, da Segunda Vara de Execuções de Títulos do Distrito Federal (a que penhorou o tal do triplex do Guarujá para pagar dívidas da empreiteira OAS) começaram a corroer a certeza de que a pena de Moro seria automaticamente confirmada no julgamento do recurso.

A magistrada de Brasília – querendo ou não – mostrou ao país, de uma vez por todas, que o apartamento que Moro diz ser fruto de propina, simplesmente, não pertence a Lula ou a qualquer um dos seus familiares. A titularidade do bendito imóvel foi e continua sendo da construtora, exatamente, como vem provando a defesa do ex-presidente.

É bom lembrar ainda que a mobilização de alguns movimentos sociais – em especial o MST – em direção a Porto Alegre e a indignação mundial com a condenação sem provas foram elementos importantes para essa mudanças dos ventos. A presidente da Suprema Corte! Carmem Lúcia, na conversa que manteve, na semana passada, com o presidente do TRF-4, Thompson Flores, teria demonstrado preocupação com a substância da argumentação com que os desembargadores federais julgarão o recurso de Lula.

Se forem tão pífios quanto é a sentença de Moro, poderão comprometer ainda mais o já esfarrapado prestígio da Justiça brasileira dentro e fora do País. No mundo moderno, estabilidade institucional e o pleno estado de direito são fundamentais para que a economia funcione com normalidade.
Os três desembargadores do TRF-4 (João Pedro Gebran Neto, Leandro Paulsen, Victor Luiz Laus) que irão julgar o recurso, na próxima quarta-feira, diante de toda a tensão gerada em torno deste processo, perceberão que a História do Brasil passará pelas mãos e mentes deles?

Que não poderão cometer erros grosseiros com fez o colega deles de Curitiba?
Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do Brasil, e outros, como FHC,
se preocupam com a possibilidade de Lula sair inocentado do julgamento.
Na semana passada, Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do Brasil, dono de grandes e importantes empresas no Brasil e no mundo, em um encontro com seus executivos, indagou: “E, se o Lula for absolvido, o que vai acontecer?”.

Lemann juntamente com as Organizações Globo e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso são os principais incentivadores da candidatura à presidência da República do global animador de auditório, Luciano Hulk. Esse pessoal está com a pulga atrás da orelha.

A direita, que até agora não consegui arranjar um candidato à altura de uma disputa com Lula, está desesperada com a possibilidade de o petista sair vitorioso de Porto Alegre. No caso de um 2 a 1 a favor dele, inocentando-o de vez, o primeiro turno da sucessão presidencial estaria decidido já na quarta feira vindoura.

As eleições em outubro serviriam apenas para cumprir tabela. Hoje, com 36% das intenções de votos, de acordo com o DataFolha, Lula terá grandes chances de ganhar o pleito de outubro com mais de 60%.

E, o que deixa as elites e o famigerado “mercado” em pânico: o rolo compressor de Lula nas urnas deverá lhe dar a tão sonhada maioria na Câmara Federal e no Senado, garantindo-lhe uma governabilidade mais consistente.

Os líderes dos movimentos sindicais e políticos que começam a chegar a Porto Alegre para a o julgamento, não levam em consideração a possibilidade de Lula vencer essa batalha. Defendem com rigor a ideia de que ele com vitória no TRF-4 ou sem vitória terá que ser candidato a presidente de qualquer jeito.

Mas, se para o desespero da direita e do establishment pátrio Lula for absolvido, o Carnaval será antecipado em duas semanas. Começando pelas ruas de Porto Alegre.

Arnaldo César Ricci é jornalista, colaborador do Blog Marcelo Auler e encontra-se em Porto Alegre.
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Sadia e Perdigão lançam linha de alimentos feitos de sobras para os pobres


A marca BRF, que é dona da Sadia e Perdigão, anunciou que pretende criar uma linha destinada à “população de baixa renda e comerciantes de alimentos de todo país” feita a partir de sobras da Sadia e Perdigão. A linha recebeu o nome de Kindelli e deve começar a ser vendida ainda no início desse ano.

A comida feita de restos foi descrita cinicamente pelo vice-presidente de operações no Brasil da BRF como uma oportunidade para “aproveitar melhor o excedente de matéria-prima”, ou seja, transformar subprodutos da indústria de alimentos em comida para populações pobres. Dessa maneira, com a Kidelli o que esse gigante da indústria alimentícia fará é vender presunto, empanados, mortadelas, linguiças e hambúrgueres feitos a partir de sobras que deveriam ser destinadas ao lixo, e não ao consumo humano.

Tudo em nome de aumentar os seus já imensos lucros. Essa é mais uma faceta da barbárie capitalista. Depois do escândalo da JBS em que se soube que carnes podres eram vendidas normalmente, agora é a vez da BRF comercializar alimentos feitos de matéria-prima mais que duvidosa. A empresa sabe que o país está descarregando a crise econômica criada pelos ricos nas costas dos trabalhadores, que veem seu poder de compra decair. Querem lucrar ainda mais com essa situação, oferecendo produtos feitos daquilo que deveria ir para o lixo.

Enquanto isso de acordo com dados da ONU 1/3 de todos os alimentos que são produzidos mundialmente, inclusive com qualidade, são desperdiçados, muitas vezes para manter os preços em uma escala lucrativa, ou mesmo apodrecendo nas prateleiras dos supermercados. Além disso, o consumo de alimentos industrializados aumentou cerca de 400% no Brasil e está intimamente associado às doenças crônicas como diabetes e hipertensão.

Assim se vê como o capitalismo é irracional quando se trata de garantir as necessidades mais básicas da humanidade, como é a alimentação. A superação desse sistema de miséria e irracionalidade para a ampla maioria da humanidade, acabando com os lucros de gigantes como a BRF, não deve ser encarado como algo utópico, mas como uma necessidade.

Simone Ishibashi
No Desacato
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A maldição da camisa amarela


Você já ouviu falar na “maldição da camisa amarela”?

Corre por aí que ela pega de político a delegado da Polícia Federal e não poupa nem mesmo pessoas comuns. Quem bateu panela ou saiu com a camisa da seleção para protestar contra a “corrupção” deve tomar cuidado. Sei lá, acredita quem quiser, mas dizem também que usar uma estrelinha do PT debaixo da roupa ajuda a afastar a urucubaca.

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maldição da camisa amarela

No Oficina de Concertos Gerais e Poesia
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A quem você está entregando o país ao se calar diante de um Cabral algemado

https://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2018/01/21/quem-voce-esta-entregando-o-pais-ao-se-calar-diante-de-um-cabral-algemado/


O ex-governador Sergio Cabral foi transferido do Rio de Janeiro para Curitiba algemado pelas mãos e tornozelos e conduzido por uma dezena de policiais fortemente armados, usando balaclava, a touca ninja.

A cena é, como acertadamente disse o deputado Wadih Damus (PT-RJ), um recado para Lula e aos que defendem sua inocência. Mas para além disso é a demonstração mais clara dada pelo grupo fascista que atualmente opera importantes decisões judiciais de que para eles não há qualquer limite legal.

Desde 2007, o STF estabeleceu que o uso de algemas só é lícito “em caso de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia, por parte do preso ou de terceiros, sob pena de responsabilidade disciplinar, civil e penal”.

Sérgio Moro, Marcelo Bretas, Deltan Dallagnol e os agentes da PF que fazem parte da organização que está levando o Brasil há um retrocesso histórico do ponto de vista econômico e institucional não estão nem aí para o que diz a Constituição. Para eles que importa é alimentar o desejo de justiciamento de uma parte da população.

E infelizmente uma parte da esquerda acha que isso é refresco, porque gente pobre e favelada vive isso no dia a dia.

Esse discurso compensatório é uma das chaves que abre a última porta para a instalação de uma sociedade ditatorial. Porque admite-se que já que é assim para alguns que seja para todos.

A defesa dos direitos humanos de Sérgio Cabral é também a defesa da democracia, por mais que alguns que se acham democratas pensem diferente.

É preciso defender os direitos humanos de quem quer que seja para defender a sociedade como um todo.

Aceitar que um bando organizado que se instalou em espaços de poder do meio midiático-jurídico-policial possa fazer qualquer coisa em nome de leis inexistentes não vai melhorar a vida do garoto negro que toma enquadro nas quebradas ou tiro da polícia.

Ao contrário, só vai piorar a vida dele.

Quem ordena e executa ações contra Cabral são os mesmos que defendem diminuir a idade penal, defendem pena de morte, são contra o bolsa família, são homofóbicos e dão sentença favoráveis a maridos agressores.

A eles que você está entregando a chave da ditadura quando acha que foi pouco o que fizeram com o ex-governador Sérgio Cabral. Não é ao tal de Jesus Cristo que eles dizem obedecer nos seus perfis públicos. É ao gosto de sangue que eles têm na boca.

Ou esse grupo é derrotado ou perderemos todos.
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No NY Times: ‘leão de esquerda’ e provocador disputam a Presidência


Da edição do The New York Times, com a clareza com que a imprensa brasileira não quer ver, sobretudo para que não se entenda o salto no abismo que pode se fazer daqui a três dias.

“A disputa para substituir o presidente Michel Temer em outubro está se transformando em um assunto turbulento e amargo, com os eleitores brasileiros confrontados com escolhas claramente diferentes.

Os dois principais candidatos estão em lados opostos do espectro político, e ambos trazem uma polêmica bagagem política para a corrida.

Ela é liderada por Luiz Inácio Lula da Silva , uma figura transformadora da esquerda da América Latina que governou de 2003 a 2011, está tentando retornar para um terceiro mandato, o que representaria um retorno dramático para o seu Partido dos Trabalhadores após o impeachment de 2016 da Presidente Dilma Rousseff.

O  principal problema do Sr. Silva: nos próximos dias, um tribunal de apelação pode torná-lo inelegível para concorrer ao cargo, defendendo uma condenação a uma pena de prisão de quase 10 anos por corrupção e lavagem de dinheiro que foi proferida em julho.

Bem atrás dele, em segundo lugar, o deputado Jair Bolsonaro, um deputado de extrema direita com uma longa história de críticas incendiárias e grosseiras, menosprezo a mulheres, negros e gays.

A ascensão do Sr. Bolsonaro atordoou os brasileiros, alguns dos quais o consideram como um sintoma de quão está aflita  a quarta maior democracia do mundo. Uma base de fervorosos apoiadores, no entanto, vê o impetuoso ex-oficial militar, como a solução radical necessária para virar a sorte de uma nação incomodada pelo aumento da violência, uma epidemia de enxerto e uma recuperação desigual de uma recessão econômica prolongada.”

O Brasil mudou mesmo com a Lava Jato, não é?

Fernando Brito
No Tijolaço
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Os rabinos e a progranação dos Golems

http://www.maurosantayana.com/2018/01/os-rabinos-e-programacao-dos-golems.html

 

Dos monstros da antiguidade aos ciclopes da Ilíada, passando pelos autômatos e outras máquinas mecânicas da Idade Média (há um divertido romance histórico - “A Máquina de Xadrez”, de Robert Löhr - sobre isso), e pela peça R.U.R - Rossumovi Uiverzálni Roboti- (Robôs Universais de Rossum) na qual o escritor tcheco Karel Capek cunhou o termo robot, de 1921, o homem sempre sonhou com seres e máquinas que o obedecessem cegamente.

Em alguns casos, chegou-se a antever até mesmo alguma espécie de relação entre a escrita e o movimento, séculos antes que se pensasse na possibilidade de programação matemática e alfanumérica de máquinas.

Sobre isso há um interessante exemplo no folclore judaico, em que a escrita dá vida a um ser mítico ligado à Cabala e à tradição mística do judaísmo.

O termo Golem, que, no Talmud, serve para se referir a um embrião ou substância incompleta - o salmo 139:16 usa a palavra “gal´mi”, significando “minha substância ainda informe” designa um ser inanimado, feito - como os soldados do Exército de terracota do Imperador Chi - de barro, que pode ser “ligado” ou “desligado” mudando-se simplesmente a palavra que está escrita em sua testa ou que está gravada em uma placa de cerâmica (pensamos imediatamente em um chip) colocada dentro de sua boca.

Embora hoje sejam mais conhecidos como personagens de jogos de computador, um dos mais conhecidos relatos de golems conta a estória de um rabino chamado Elias Balschem, que teria construído e destruído um desses seres no fim dos anos 1600.

Mais tarde, em meados do século XIX, essa narrativa é retomada com outro personagem, um rabino chamado Judah Loew, de Praga, que teria criado um golem também no século XVII, para defender o gueto de Josefov contra pogroms e atentados contra judeus praticados pela população local.

A primeira versão publicada dessa estória apareceu em 1847 em uma coleção de contos judaicos intitulada Galerie der Sippurim, publicada por Wolf Pascheles, e a segunda cerca de 60 anos mais tarde, em um conto de Yudl Rosenberg, em 1909.

De acordo com a tradição, esse golem teria sido feito, seguindo rituais específicos, com argila do rio Moldava.

Depois de modelá-lo, o rabino fez com que ele ganhasse vida recitando um encanto especial em hebraico e escrevendo na sua testa a palavra “emet”, que significa “verdade”.

À noite, o golem obedecia ao rabino, ajudando-o a proteger o gueto judaico, e durante o dia o rabino o escondia no sótão de uma sinagoga.

Porém, o monstro cresceu – os golems têm a propriedade de aumentar de tamanho absorvendo a terra do solo por onde passam - e tornou-se violento, começando - como o excluído monstro do Dr. Frankenstein de Mary Shelley - a atacar indiscriminadamente as pessoas.

A população de Praga prometeu então ao rabino que a violência contra os judeus cessaria se o golem fosse destruído.

O rabino Loew aceitou o acordo e deu fim à sua criação apagando a primeira letra da palavra “emet”, “verdade”, restando apenas “met”, que significa “morte”, na testa do golem, o que o transformou em terra novamente.

Quem sabe, perguntamos, em uma espécie de alerta figurado sobre uma certa pretensa ingenuidade judaica, a morte do Golem do rabino Loew não tenha condenado os judeus da Europa à violência e ao genocídio que atingiram seu ápice com o pavoroso holocausto hitlerista?

Durante o qual, com certeza, muitas crianças que conheciam essa estória devem ter rezado e sonhado muitas vezes, em Riga, Lodz, Terezin e Auschwitz e em outros guetos e campos de concentração da Europa, para que seu Adonai particular lhes mandasse um exército de golems para destruir seus carrascos e captores nazistas?

Em tempos de Trump, da defesa da transferência, por conservadores, da capital de Israel para Jerusalém, de “bots”, botsnets e de outros programas de inteligência artificial que disseminam “fakes”, mentiras e pós-verdades, a serviço, principalmente, da direita e do fascismo, será que todos nós - goys e judeus - não mereceríamos, caso orássemos, a volta de um golem poderoso e justo, que, com o vocábulo Emet novamente escrito na testa, nos restituísse o equilíbrio, a razão e a verdade?
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Arquivos secretos revelam como Alemanha nazista criou células na América Latina


O Arquivo Nacional do Chile apresentou na sexta-feira (5) mais de mil documentos secretos sobre a operação realizada pelo Departamento 50. Este organismo permitiu desmantelar células de espionagem da Alemanha nazista na América Latina entre 1937 e 1947.

Trata-se de 13 processos que se somam aos 10 cadernos desclassificados que, em meados de 2017, foram restaurados e digitalizados. Contêm imagens e informações sobre a forma como foram investigados os grupos nazistas.

Esses arquivos permitem conhecer como funcionava a rede paramilitar que entrava no território através da embaixada alemã para se estabelecer em diferentes regiões do Chile. A partir daí recrutaram jovens de origem alemã e espiaram os movimentos de tropas chilenas e de outros países da América Latina.

Segundo declarou a diretora do Arquivo Nacional, Emma de Ramón, estes documentos, que incluem relatórios, ofícios, telegramas, circulares, cartões de identidade, fotografias e passaportes, permitem compreender que "a Segunda Guerra Mundial também entrou na América Latina com recursos, tecnologias e pessoas".

O Departamento 50, parte da inteligência da polícia civil chilena, foi criado em 1941, quando se soube que alguns grupos nazistas se estabeleceram no sul do país. O objetivo destas organizações era controlar o trânsito pelo estreito de Magalhães, um ponto de comunicação estratégico. Em 1942, o Departamento 50 conseguiu desmantelar uma estação de rádio nazista que operava no Chile e que transmitia mensagens criptografadas para a Alemanha sobre os itinerários dos navios mercantes do lado aliado.

Os documentos do Departamento 50 tinham caráter confidencial por conterem informações de inteligência policial.
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Pela segunda vez em sua história de 80 anos, a UNE transfere sua sede


Pela segunda vez em sua história de 80 anos, a União Nacional dos Estudantes (UNE) vai transferir sua sede física de forma temporária para outra localidade. Um ato na próxima segunda-feira, às 13 horas, marcará a instalação da Executiva Nacional na sede do Diretório Central dos Estudantes da Ufrgs, em Porto Alegre.

“Vamos repetir um gesto que fizemos em 1961, durante a Legalidade. Entendemos que estamos vivendo um processo de ruptura democrática muito semelhante àquele e defendemos o direito de Lula ser candidato à presidência da República”, explicou a diretora de comunicação da UNE, Nágila Maria, estudante de psicologia da Universidade Federal da Bahia.

Em 1961, diante da renúncia do presidente Jânio Quadros, um movimento se opôs à posse do então vice João Goulart na chefia do Poder Executivo. Jango era uma liderança trabalhista, herdeiro político de Getúlio Vargas e defendia políticas públicas dirigidas aos movimentos sociais. A decisão da UNE de transferir-se para a Capital gaúcha, que concentrava as ações da Campanha da Legalidade sob o comando do então governador Leonel Brizola, ajudou a criar um clima de resistência e postergou o golpe, que chegou três anos mais tarde, em 1964. Em retribuição ao gesto dos estudantes, Jango se tornou o primeiro presidente a visitar a sede da UNE, após sua posse.

Na época, a sede da UNE era no Rio de Janeiro, em uma localidade apelidada de Casa do Poder da Juventude, que foi incendiada e posta abaixo pelo regime militar. Hoje a entidade batalha para reconstruir o espaço, e tem sua sede oficial em São Paulo.

Em 2018, a entidade se mobiliza para que o nome de Lula esteja entre as opções do eleitor na urna eletrônica. A estudante ressalva que a manifestação em apoio a Lula é também um símbolo das “arbitrariedades que vem sendo feitas pela Justiça no país” e cita, além da sentença de Sergio Moro que condenou o ex-presidente a mais de nove anos de cadeia – e que é alvo de críticas de diversos juristas no Brasil – as prisões de reitores das universidades federais de Minas Gerais e de Santa Catarina, este último que acabou em suicídio, entendido pela entidade como resultado da pressão judicial sobre o gestor.

Para o ato, a UNE espera contar inclusive com a presença do então presidente da entidade estudantil, Aldo Arantes, que esteve em Porto Alegre em 61 coordenando a transferência temporária da sede e a participação do movimento na Campanha da Legalidade. “Queremos ter aqui figuras que de fato representem essa história”, acrescenta a dirigente. Estarão presentes também os três membros da Executiva Nacional e cerca de 20 diretores estudantis.

Acampamento dos movimentos sociais

Os dirigentes da UNE que virão a Porto Alegre estarão acampados junto com lideranças e militantes de outros vários movimentos sociais que começam a chegar já no final de semana para prestar apoio à Lula. O local que abrigará o acampamento está distante apenas 500 metros da sede do Tribunal Regional Federal da 4ª região (TRF4), onde acontecerá a sessão de julgamento.

A intenção dos movimentos sociais era acampar no Parque da Harmonia, em frente ao prédio, porém uma decisão judicial de dezembro impediu a concretização da intenção. Este parque, inclusive, estará fechado ao público no dia do julgamento. A instalação do grupo – cerca de 30 mil pessoas, segundo estimativas do movimento – no Anfiteatro Pôr-do-Sol foi acordada após cinco reuniões ocorridas ao longo da semana no Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, com integrantes do Gabinete de Gestão Integrada, que reúne forças policiais e de inteligência.

O Ministério Público Federal participou das negociações e celebrou o resultado. "Trata-se de uma construção importante, que foi realizada com respeito aos Movimentos Sociais através do diálogo, garantindo-se a liberdade de manifestação e reunião em espaços públicos de Porto Alegre", enfatiza o procurador da República.

Os dirigentes sindicais e militantes também estão contentes. “Conquistamos um lugar bem adequado para as nossas atividades”, comemorou o presidente da CUT do Rio Grande do Sul, Claudir Nespolo.

Além de servir como local de acomodação dos militantes que venham de fora, o acampamento dos movimentos sociais sediará a vigília noturna e as manifestações durante a sessão de julgamento de Lula. Espera-se que o ex-presidente esteja na cidade na véspera e participe da marcha que começará na Esquina Democrática no final da tarde, com final no próprio acampamento.

O acampamento deve começar a ser montado no final de semana pelas equipes de infraestrutura do MST. O movimento sem terra, junto com a Via Campesina, chega oficialmente à Capital na segunda-feira pela manhã, em uma marcha que vai percorrer cartões postais da cidade, como a ponte do Guaíba, passar próximo ao Viaduto dos Açorianos e terminar na beira do rio, onde está o Anfiteatro Pôr-do-Sol.

Naira Hofmeister
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‘Não me deram o direito de ser eu’, diz Elisa Quadros, a Sininho

Em entrevista, a militante conta que a ‘Sininho líder dos black blocs’ foi um personagem criado por jornalistas e relata as violências que viu na cadeia: ‘A prisão é uma realidade paralela’

Elisa em ato do “Ni una a menos”, no ano passado, no Rio
Foto: Bruna Freire
Na semana passada, a ativista Elisa Quadros Pinto Sanzi, 32 anos, que durante as Jornadas de Junho de 2013 viu seu rosto e o apelido Sininho estampados em jornais, revistas e matérias de rádio e tevê, quase sempre associados a ódio e vandalismo, voltou a aparecer no noticiário, desta vez numa reportagem de capa da revista Istoé. Sem ouvi-la e usando uma foto de quatro anos atrás, a reportagem retratou “Sininho” como uma black bloc defensora da tese de que “a sociedade só muda por meio da violência”.

A reportagem é só mais um dos exemplos de como a personagem Sininho, fabricada por parte da mídia, se distanciou da vida real de Elisa Quadros. Mesmo afastada da militância política por questões pessoais, viu o seu nome aparecer em eventos que não tinham qualquer relação com a sua vida. Em 2016, o delegado Alessandro Thiers, afastado das investigações de um caso de estupro coletivo após desqualificar a vítima, sugeriu que a polícia deveria investigar uma possível influência de Sininho sobre a vítima. No mesmo ano, uma nota na coluna de Ancelmo Gois afirmou que o governo acreditava que “Sininho” atuava em uma ocupação de secundaristas na Secretaria de Estado de Educação (Seeduc). “Eu nem sei onde fica a Seeduc”, conta Elisa.

Presa em julho de 2014 com outros 22 ativistas, em uma controversa acusação de associação criminosa, Elisa e os demais aguardam em liberdade o resultado do processo. Segundo o advogado Marino D’Icarahy, que defende 11 dos 23 réus, as alegações finais do Ministério Público e da defesa foram apresentadas ainda em 2015 e o processo se encontra em condições de ser julgado desde então, mas o juiz Flavio Itabaiana não proferiu a sentença. D’Icarahy afirma que o  juiz estaria aguardando o resultado do julgamento, no STF (Supremo Tribunal Federal), de um habeas corpus que questiona a legalidade de uma prova obtida por meio de um infiltrado da Força Nacional. “Isso não tem prazo”, diz.

Buscando conhecer o ponto de vista de Elisa Quadros para além da personagem “Sininho”, entrevistei a ativista para minha monografia Oligopólio de imprensa, discurso e poder: a cobertura das “Jornadas de Junho”, com subtítulo “Sininho”: uma personagem construída estrategicamente e orientação de Cecília Moreyra de Figueiredo, apresentada no final do ano passado no curso de jornalismo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). É esta entrevista que a Ponte publica agora com exclusividade.

Por que você decidiu participar ativamente das Jornadas de Junho de 2013 e tudo o que veio depois?

Em 2012 eu já estava acompanhando a luta da Aldeia Maracanã [localizada no antigo Museu do Índio, a aldeia foi invadida e desocupada pela polícia em março de 2013]. Eu tive momentos de militância ativa já quando era adolescente. Participei de movimento estudantil, fui presidente de grêmio, mas sempre em períodos esporádicos da minha vida. Depois, tive uma decepção muito grande em relação ao PT, meus pais eram petistas e eu fui percebendo a podridão do meio institucional. Nessa época da Aldeia eu já não militava mais pelo partido e estava querendo me envolver mais no movimento e ao mesmo tempo estava conseguindo o trabalho dos meus sonhos, que era numa produtora de cinema chamada Gullane, com a Anna Muylaert, que é uma diretora que eu tenho uma admiração absurda. Meus sonhos estavam sendo alcançados profissionalmente falando, mas não conseguia me sentir completamente satisfeita. Nunca deixei de questionar a vidinha classe média, em que as pessoas parecem que colocam aquele “visor” de cavalo e não querem enxergar a realidade. Eu me sentia em uma prisão de luxo e comecei a questionar o que era liberdade. Sensibiliza-me muito a questão dos moradores da favela, dos negros, mas a questão dos moradores de rua é uma coisa que me toca profundamente. Eu estava cada vez mais ficando na rua com morador de rua e, quando veio 2013, eu mergulhei de cabeça. Passei a perder meus horários em relação aos trabalhos com cinema. Eu ia a todas as manifestações. São Gonçalo, Niterói… Onde tinha eu estava indo. Em junho começou a ter manifestação quase todo dia e aí, no dia da “Batalha da Alerj” [quando manifestantes tomaram a sede da Assembleia Legislativa do Rio, em 17 de junho], eu me senti completa. Pensei: “É isso, essa é a luta que eu quero”. Então, quando surgiu “junho de 2013”, eu me senti como se estivesse realizando realmente meu sonho de vida. Eu me sentia completamente realizada. Ali eu era feliz, aquilo era o que eu queria. Se tivesse que dar a minha vida por aquilo eu daria. Entendeu? Se tivesse que me colocar na frente pra levar um tiro eu me colaria. Eu não sentia nem medo, nem dor, nem nada. Eu dei meu corpo, minha alma e tudo. Eu dei cada porozinho, cada pelinho do meu corpo eu dei pra aquilo ali.

Foto: Ramon Moreira

Quando foi que você percebeu que a construção da imagem da personagem “Sininho” estava mais em evidência do que a de Elisa Quadros?

Desde quando a grande mídia me pegou para “bode expiatório”. No dia 15 de outubro de 2013. Desde a época do “Ocupa Cabral”, a grande mídia já estava procurando um bode expiatório. Mas o foco ainda era o aumento da passagem e lá o movimento estava muito forte. Foi o Ocupa Cabral que eu acho que deu uma reviravolta no movimento do Rio de Janeiro como um todo. Porque foi o movimento de ocupação que passou a ser muito divulgado, inclusive internacionalmente. E ali a grande mídia nacional começou a querer procurar nomes. Só que a gente deliberou em assembleia que não iríamos falar com a grande mídia brasileira, e com a internacional isso teria que ser aprovado em assembleia também. Justamente porque já estava acontecendo certa manipulação, o termo “vândalo” já estava mais em evidência. Só que quando veio a prisão em massa do dia 15 de outubro, já na Ocupação da Câmara, dentre as pessoas que a grande mídia podia pegar pra criar a personagem, infelizmente essa pessoa fui eu. E foi nesse dia que ocorreu a apresentação da personagem criada pela Globo (ai que horror, eu nunca tinha falado isso) pro Brasil. Na capa de O Globo do dia 17 de outubro. “Sininho do barulho”. E foi interessante porque eles usam aquela foto [uma imagem de Elisa abraçada ao namorado], e, ao mesmo tempo que eles me criminalizam me chamando “de grande líder baderneira”, eles colocaram aquela foto que tem todo um romance, toda uma mise en scène que atinge o romantismo da população. E eles fizeram isso, colocaram uma foto que é muito forte, mas ao mesmo tempo já jogando os “fiapinhos” de criminalização pra cima de mim, inventando uma suposta liderança que nunca existiu.

Quais foram os momentos chaves em sua opinião?

Então, teve a época que eu saí na capa do o Globo, como já disse, e que coincidiu com a minha primeira prisão. Depois, a morte do Santiago Andrade [cinegrafista da Band morto por um rojão disparados por manifestantes em 6 de fevereiro de 2014] foi tudo que a grande mídia precisava para dar o xeque-mate e continuar com a história da personagem Sininho, só que dessa vez com a criação de um sujeito terrorista. Você sai da criação de um personagem que tem quem ame e tem quem odeie e aí a grande mídia transforma essa personagem em uma terrorista, que foi o que aconteceu comigo quando saiu a capa da Veja, algum tempo depois desse acidente, intitulada “Os segredos de Sininho”. A terceira coincidiu também com a minha segunda prisão, com aquele vídeo da Polícia Civil me pegando na casa do meu amigo, em Porto Alegre.


Quais eram as principais pautas – ou as que mais te marcaram – defendidas na época do movimento do Ocupa Câmara, que culminou na prisão em massa de manifestantes e naquela Capa do O Globo?

As remoções que estavam acontecendo por obras relacionadas aos megaeventos no Rio e que eu comecei a acompanhar em 2009. Um caso que chocou todo mundo em 2013 foi a remoção da Aldeia Maracanã, e a partir daí começou uma luta, um contato direto dos manifestantes, do Ocupa Câmara, com as remoções em geral, relacionadas à moradia. Então essa era uma das principais pautas. Claro que o a principal pauta, entre aspas, que estavam falando era sobre o aumento das passagens. Só que foi interessante porque realmente “Não é só por 20 centavos”. Essa frase foi muito gritada e realmente não era. Acho que foi um acúmulo, como um vulcão mesmo prestes a entrar em erupção. A gota d’água. E a partir disso muitas outras pautas vieram à tona. No Ocupa Câmara, teve uma pauta que eu até achei muito engraçada. Um cara chegou dizendo que ele queria acabar com o horário de verão. A população de modo geral, não só militantes, passou a ver o Ocupa Câmara como um espaço pra divulgar as suas pautas, as suas ideias. Então teve um casal de idosos que perdeu seu único filho em decorrência daquele prédio que caiu atrás do Teatro Municipal. Eles iam todos os dias com a faixa deles pedindo justiça, porque o estado escondeu o corpo do menino falando que ele não trabalhava lá dentro, mas ele trabalhava lá dentro. O Ocupa Câmara virou um ponto de referência de luta pra população, mas pra mim o que mais me marcou e que era o que eu lutava muito pra tocar eram as pautas das remoções. Na época a gente falava muito do que estava acontecendo com a Aldeia Maracanã, na Dona Penha, no Metrô Mangueira. Começou com as obras relacionadas ao Pan, as olimpíadas, e em seguida a Copa do Mundo de 2014. Depois eu passei a me envolver bastante também com a questão dos moradores de rua, porque o Ocupa Câmara teve uma relação muito incrível, muito boa com os moradores de rua da Cinelândia e depois começou a receber moradores de rua do Rio de Janeiro inteiro. As pessoas em situação de rua começaram a ir lá e começaram a se sentir protegidas. E aí tem uma questão interessante porque hoje em dia o que pode te fazer ter o primeiro contato com pessoa em situação de rua é através da resolução de problemas imediatos, como a fome e a frio. Então ali eles tinham comida e cobertor, né, coisas pra se esquentarem. Mas eles começaram a participar politicamente, por causa das aulas públicas que tinham todos os dias. Eles davam opinião, panfletavam, ajudavam a passar o chapéu. Às vezes participando mais que muito militante que estava ali.

Imagem da ativista em reportagem da Istoé que não a ouviu
Imagem: reprodução

Como foi o período da sua prisão? 

Então, foram dois momentos diferentes em que estive presa. A prisão do dia 15 de outubro foi muito mais intensa pra mim, eu fiquei seis dias. Um dia na 15º delegacia de polícia e cinco dias em Bangu 8, cadeia feminina no complexo de Gericinó. Ela foi mais intensa pra mim porque a prisão é comum pra mais de metade da população brasileira, que é a população negra, a população pobre, favelada. É uma situação que acaba criando uma certa “normalidade”. Pra você que é classe média, branca, prisão é uma coisa que não entra na nossa realidade. Então é muito difícil explicar o que se passou na minha cabeça quando a advogada falou pra mim que eu iria pra Bangu. Mesmo depois que ela me falou eu ainda achava que alguma coisa ia acontecer e que isso não ia se realizar. Mas a realidade da prisão, nossa, eu tive que falar: “ok, isso é real”. Pessoas que são torturadas todo o dia. A prisão é uma realidade paralela. Então quando eu cheguei em Bangu, e aquele portão fechou, essa é uma cena que não sai da minha cabeça, eu estava dormindo porque era de madrugada. Quando aquele muro se fechou, eu tive a noção de que a minha vida não me pertencia mais. Mas, ainda assim, você ainda não tem noção da realidade que é uma cadeia brasileira. E aí, quando entrou uma menina junto comigo, eu encostei porque eu estava muito cansada, virada, a carcereira deu um soco na cara da menina, e a menina desmontou. E eu vi ali que aquele soco era pra mim, não era pra ela. Ela falou assim: “aqui a realidade é diferente, é mão pra trás e cabeça baixa, você não tá em casa”. Desse momento pros cinco dias que se passaram, parecia que eu não tava vivendo aquilo. Dessa vez eu fiquei numa cela que todas as presas ficam, com “boi” [buraco no chão que serve de banheiro], comida insalubre, um tratamento absurdo.

Bilhete de presa com pedido para Elisa
Foto: reprodução

E tem uma coisa assim: quando você chega, você vai ser espancada. Aquela coisa da lei do mais forte, de quem manda. Você tem que passar por esse espancamento pra você entender quem manda ali. Então todas as mulheres que entram no sistema passam por isso. E eu não passei. Na primeira vez eu me deparei muito mais com a realidade do dia a dia delas. Eu comecei a entender como aquilo é desumano, parece que você tá na Idade Média mesmo. A sua vida não te pertence, você pode ser assassinada lá dentro, você pode ser estuprada lá dentro, você pode ser torturada lá dentro. E é assim que o sistema penitenciário funciona. Quem manda lá dentro são as carcereiras, os diretores, a sua vida não te pertence, e você vai ser torturada lá dentro, não só fisicamente. A tortura se inicia desde quando você coloca o pé lá dentro, “cabeça pra baixo e mão pra trás”, a você passar frio porque não tem cobertor, mosquitos e bichos, você não consegue dormir, é muito frio de noite. Então a tortura começa desde o ambiente, da onde você tá, a comida é um negócio triste de ver, porque é normal pelo menos duas vezes na semana ter comida podre. Não tem água mineral, é água do cano, então a água do cano é a mesma que você toma banho, é a mesma que você dá descarga na tua merda, é a mesma que você toma banho gelado num frio do capeta. Não tem toalha, não tem produtos básicos de higiene, dizem que dão, mas não dão. Muitas mulheres não têm escova de dente, pasta de dente, sabonete. Tipo, isso é produto de luxo. Nesse período eu estava ouvindo muito as meninas pedirem guimba de cigarro e eu não estava entendendo. Aí uma delas me contou que é porque elas colocam como se fosse OB. Guimba de cigarro. Tem uma lojinha lá dentro, mas o preço das coisas é absurdo. Aí tem a opção de você conseguir receber coisas da sua família, mas muita coisa é extraviada, as carcereiras não entregam.


E uma coisa também que aí não fui eu que vi, falaram quando eu saí: as presas mulheres são muito abandonadas pelos namorados ou maridos. A maioria das presas não tem visita. Então assim, se você não tem dinheiro, você não come, você não escova os dentes, você não tem toalha, você não tem roupa, você não tem meia, você passa frio. Você passa muita necessidade. Fora isso tem a questão das torturas diárias, que são os castigos. Tem vários tipos: você tem esse espancamento “básico” de quando você entra. Você tem um negócio chamado “tranca”, que ai na segunda vez eu fiquei no corredor da “tranca”. Que era um corredor todo de concreto, fechado por duas grades, um banco assim de fora a fora e é um lugar que passa um vento absurdo. E aí elas são molhadas e passam a madrugada toda ali tomando aquele vento. E aí sim são torturadas, as carcereiras entram, batem, e é algo que acontece na frente de todo mundo, é uma coisa aberta, sabe. Todos os dias elas torturam as mulheres ali, e quanto mais a gente gritava, pedia pra parar, mais elas torturavam. E quando as outras mulheres começaram a criar uma força com a nossa presença ali, elas meio que começaram a encarar e a reivindicar seus direitos. Teve até uma situação em que a mulher falou assim, essa presa eu nunca mais vou esquecer, ela falou assim: “ a nossa diferença é o uniforme, mas eu sou humana igual a você. Eu sinto dor, eu sofro igual você”. Quando essa mulher falou isso, automaticamente eu e a Camila (outra militante que foi presa junto comigo) começamos a gritar. Ela estava apanhando durante a tranca. Aí a gente ficou com muito medo dela ser mais torturada depois. Pelo contrário, no dia seguinte essa mulher parou em frente a nossa grade e falou “muito obrigada, muito obrigada pela força”. E aí a gente começou a receber mil bilhetes, muito tocantes, e na verdade eu tenho esses bilhetes até hoje, que eu escondi no meu sutiã e disse que só saía da cadeia levando eles.


Outro dos bilhetes guardados por Elisa
Foto: reprodução

Como ficou a sua vida particular a partir disso? Como foi sair na rua? 

Eu tive que sair do Estado algumas vezes por conta de perseguição, tanto de milícias quanto da grande mídia. Eu saí em agosto, por causa das ameaças da milícia. Logo depois que saiu a capa da Veja, vários blogs expuseram meu endereço de novo. Eu comecei a receber carta no meu prédio, começou a ter imprensa no meu prédio. A minha vizinha de porta se chama Elisa, coitada, as pessoas começaram a bater na casa dela inclusive. E a terceira vez foi depois que sai da prisão de julho de 2014. Também foi a mesma coisa, muita exposição do meu endereço, da minha imagem. Então a minha vida ficou durante quase três anos girando em torno da exposição midiática, da criação dessa personagem. Eu acabei não conseguindo ser mais a Elisa, a Elisa se perdeu. Eu não arranjava emprego, não podia ir na padaria sozinha, eu dependia de todo mundo pra tudo. Todos os lugares que eu fui me reconheceram. Eu me lembro que quando eu saí da prisão em outubro, eu já era ranking do Twitter, saí em várias matérias e eu não sabia disso porque quem estava na minha casa me protegeu e não me deixou ver a internet. No outro dia eu acordei e sai na rua, quando eu cheguei na esquina da minha casa uma senhora me reconheceu e falou “Sininho!” e começou a chorar, me pedindo um abraço. Eu fiquei meio sem graça, dei um abraço nela, mas fiquei sem reação e ela falava que bom que você está bem e pediu desculpas também falando que não queria me assustar. Ai eu voltei pra casa e vi tudo na internet, toda essa exposição. Então comigo não teve reação negativa diretamente. No máximo as pessoas falavam que pensavam que eu era diferente, que na vida real eu era muito pequenininha. Também eu não dei o mole de ficar perambulando por aí pra ver qual seria a reação das pessoas. Nas favelas eu fui muito bem recebida. Mas assim, com essas exposições todas, foi tudo muito brutal. Eu não tive direito de ser eu. Não me deram o direito de ser eu. Não me deram o direito de resposta. O jornalismo corporativo brasileiro ao me expor daquela maneira colocou minha vida em risco de uma forma extremamente irresponsável. Eu poderia ter sido linchada no meio da rua, e ter sido assassinada no meio da rua, sim.

Você acha que as jornadas de 2013 marcaram um rompimento com antigos modos de se fazer política no Brasil?

Nossa! Lógico que sim! 2013 foi um divisor de águas. Mas isso ia acontecer naturalmente, porque é o que acontece na história da política. A gente vive um ciclo de mudanças conforme a sociedade vai mudando. 2013 foi um rompimento radical em relação à velha política, a representatividade. Até hoje tem gente que ainda não entendeu isso (rs) principalmente a política vanguardista, tipo partidos e ONGs mais de vanguarda. Não entenderam ainda, mas estão levando porrada pra entender. Não existe mais espaço pra esse discurso “precisamos instruir as massas”. Tipo, a massa não tem que ser instruída, ao contrário, enquanto a gente ficar nesse discurso a gente vai levar muito porrada e não vamos conseguir lutar por um espaço de igualdade, onde todas as pessoas tenham voz, dentro das suas realidades. 2013 pra mim foi um divisor de águas e você vê esses frutos aparecendo com essa molecada que começou a ocupar as escolas. Uma garotada completamente nova, que não aceita mais partido político. Você vê isso também na quantidade enorme de votos nulos, brancos e abstenções. Hoje a gente tá num momento interessante, de ver a esquerda institucional, principalmente o PT, se apropriando de discursos de 2013, dizendo que estavam nas ruas. Eles estavam nas ruas prendendo e criminalizando manifestantes, isso que eles estavam fazendo com a Dilma Rousseff no Governo Federal. Mas você vê essa tentativa de apropriação porque o discurso deles realmente não tem mais espaço. Então a esquerda partidária sempre vai tentar usar os discursos de massa pra tentar pautar, como se fosse deles. O que eu vejo hoje na história do “Diretas já” com o impeachment foi que não teve muita repercussão. Eles gritaram ali uma semana e acabou. Por quê? Porque não é uma “diretas já” que vai funcionar. Eu gostaria muito de votar, nossa, como eu gostaria, mas enquanto tiver esse sistema, não vou. Ai a esquerda partidária tenta te enquadrar como se seu discurso fosse vazio, como se o discurso de “precisamos pensar em algo novo, precisamos pensar o que a sociedade precisa” fosse vazio. Vazio é o que a esquerda partidária tenta te impor e o que a própria sociedade não aceita mais.

Como você avalia a Capa da Veja?

A capa da Veja pra mim é uma grande comédia. Não é uma matéria. Eu sou citada na matéria, mas o texto da matéria não é tanto sobre mim. Porque eles não têm o que falar sobre mim. Porque eu nunca estive envolvida no caso Santiago. Eu não estava nem no local. Eu estava dentro da Central do Brasil, presa por policiais que estavam prendendo as pessoas ali e batendo em trabalhador. O título da capa é “Os segredos de Sininho”. Tem dois parágrafos sobre mim, que me expõem pessoalmente, falam que eu sou de Porto Alegre. São cinco, seis páginas de matéria que focam mais no caso Santiago. Mas a capa é minha, e ela foi uma das mais compradas, mais lidas. Mas as pessoas não leram a matéria. Mais uma vez a gente fala do poder da capa, e tudo que a envolve, né? A capa tem mais poder do que a própria matéria, porque, de novo, se as pessoas com o mínimo de senso pegarem essa revista e lerem não vão ver nada. É uma piada. Tá bem explícito que quiseram mais uma vez me criminalizar a continuar com a criação do sujeito terrorista. Tanto que a foto que colocam na matéria é uma montagem. Pegaram a minha foto na porta da delegacia e fizeram uma montagem como se eu estivesse no meio de black blocs.


Fotomontagem feita pela revista Veja sobre foto de Armando Paiva
Imagem: reprodução

A grande imprensa tentou utilizar seu nome em outros casos que se tornaram midiáticos para além dos que envolveram as Jornadas de Junho e seus desdobramentos? Se sim, quais?

A partir da Capa da Veja, tudo que acontecia no movimento eu era citada de alguma maneira. Eu fui citada no caso do estupro coletivo aqui do Rio, pelo delegado titular da DRCI, Alessandro Thies, e isso apareceu em matéria do Extra. Esse delegado falou que precisava ser investigado melhor se eu tinha influenciado a garota a dar a versão de que o que aconteceu com ela foi um estupro coletivo. Logo depois aquele colunista do O Globo, o Ancelmo Góis, colocou na coluna dele que o governo do Rio acreditava que eu estava atuando na ocupação da Seeduc. Eu nem sei onde fica a Seeduc. Eu sabia que tinha secundaristas ocupando o prédio e jamais eles permitiriam que eu ficasse lá. Não que eles não gostassem de mim ou algo parecido, mas eu não sou secundarista, não tinha que estar na Seeduc. Eu sei bem o meu espaço, sei bem onde eu tenho que me posicionar.

Para encerrar, somando pós e contras, valeu a pena? Se você estivesse em junho de 2013, você tomaria as mesmas decisões como militante?

Eu faria absolutamente igual, com erros e acertos. Se tivesse um novo 2013 agora eu iria pra rua de novo. Não faria nada diferente. É uma posição, um sentimento que eu respeito. Esse desejo de mudança. Se tivesse de novo, eu faria tudo igual. Tanto que tudo que a gente denunciou lá veio à tona, tudo, tudo. Os escândalos envolvendo Sérgio Cabral, a Odebrecht por conta das obras no Maracanã também. Tudo. Tudo.

Bruna Freire
No Ponte
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Um desafio aos juristas que defendem a sentença de Moro

A sentença e o processo contra Lula, o do apartamento no Guarujá, não fazem qualquer sentido no plano jurídico.

Tenho pedido aos eventuais e poucos colegas que insistem em defender a decisão, a meu ver não encontro motivo que não o ideológico para tanto, que parem de polemizar em partes, que tragam argumentos defendendo processo e decisão como um todo. As principais peças, mais que suficientes para qualquer juízo, estão disponíveis na internet.

Que parem com argumentos de baixa envergadura, do tipo que os muitos juristas, que criticam abertamente a sentença como um todo, são " petralhas", "defensores de corruptos ", "detratores de um bom trabalho da Justiça" ( como se não houvesse o erro judicial e como se persecução a crime fosse função da jurisdição, numa sociedade que se pretende democrática).

Não somos "petralhas", nem aduladores de corruptos". Somos constitucionalistas, criminalistas, advogados, Professores de Direito e outros juristas, querendo alertar o país para o imensa agressão que esta decisão significa, ao próprio pais, à Constituição, às leis e mesmo à convivência civilizada entre Estado e cidadania .

Assim peço, com toda lealdade, que os colegas que, eventualmente, são favoráveis à decisão, que ajam com a honra e a dignidade dos que argumentam nesse tipo de situação pública, por razões de justiça e não de adulação das maiorias e do Poder.

Leiam a sentença no todo, a denúncia, a defesa e os principais depoimentos, facilmente encontráveis na net, façam uma análise desse todo, argumentem em favor da decisão de forma completa, face ao que determinam a Constituição, as leis e os valores mínimos inerentes aos direitos do homem e da democracia, assinem e publiquem como nós o fizemos e temos feito, para que possam ser cobrados no futuro, quando forem julgados, em situação juridicamente equiparável, os que gozem de sua simpatia, eles mesmos, seus parentes, entes queridos clientes e amigos.

Para que a história registre. Quem tem certeza da correção do que argumenta, não tem medo da história.

Digo que não terei pejo algum em voltar atrás, frente a argumentos que me pareçam sólidos, não seria nem a primeira vez nem algo meramente ocasional em minha vida, mas, francamente, duvido até a alma que eles sejam possíveis, não face a Constituição de 88, não numa democracia liberal.

O que está em jogo não é apenas Lula, sua candidatura, a esquerda etc . É a democracia, mas é mais que a democracia, é a vida civilizada em seus valores mais rudimentares e mais relevantes.

Nós, profissionais e acadêmicos do direito somos chamados, nessas horas, a expressarmos opinião,  e influenciamos o público leigo

O que convoco aqui não é a expressão de uma opinião semelhante À minha. É que se ofereça opinião de forma completa, meditada, jurídica, publicada e assinada. Ou se calem, para que não sejam indignos do grau que ostentam.

Esse não é um caso qualquer. É um caso simbólico. Não porque se condena Lula, mas pelo modo que se o faz, com integral desconsideração pela ordem Constitucional, pela democracia e pela relação civilizada entre Estado e ser humano .

Pedro Estevam Serrano
No GGN
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“La persecución a Lula es otra de las fases del golpe”

Dilma Rousseff aseguró que las persecuciones políticas a los mandatarios populares en Latinoamérica corroen la democracia

La ex presidenta será una de las figuras principales en la caravana de actos y manifestaciones en contra del enjuiciamiento a Lula da Silva, que describe como una pelea por la defensa de las instituciones en su país.

Dilma Rousseff encuadra la defensa judicial de Lula en la pelea por la defensa de la democracia en Latinoamérica. 
Imagen: Adrián Pérez
El centro de gravedad de la política brasileña se desplazó a Porto Alegre donde este miércoles un tribunal de apelaciones juzgará a Luiz Inácio Lula da Silva, condenado a 9 años y medio de prisión por el juez de primera instancia de la causa Lava Jato,Sergio Moro.

Desde esa capital sureña, en la que se aguarda el arribo de caravanas de petistas y campesinos sin tierra, la ex presidenta Dilma Rousseff concedió una entrevista a PáginaI12 en la que deploró la “persecución judicial” contra su correligionario, a la que inscribió dentro de “las fases del golpe dado contra mí hace dos años”.

Rousseff posiblemente será una de las oradoras en la vigilia precedente a la audiencia judicial, que se transmitirá en vivo por las redes sociales. Fuera del Palacio que alberga al Tribunal Federal Regional 4 (TRF-4) fue tendido un cerco policial apoyado por tropas de elite federales. Hubo hasta un pedido oficial para el envío de las Fuerzas Armadas, pero por suerte no prosperó. Esas medidas restrictivas del derecho de protesta suceden ante el auge de una serie de manifestaciones de respaldo al líder petista y la proliferación de pintadas con la consigna “Lula es Inocente”, aparecidas en varias capitales. El ascenso de la oposición es un dato de la actual coyuntura, destaca Dilma, para quien “la pelea por la democracia” será librada dentro y fuera de los estrados judiciales.

“En esta hora lo que la vida requiere es coraje”, se entusiasma durante el reportaje telefónico. Esa frase citada por Rousseff es la misma que dio título a una biografía en la que se repasaron su participación en la resistencia armada a la dictadura, los tres años de prisión a comienzo de los 70 y su llegada a la Presidencia, en 2011.

–Usted habló de un golpe continuado, cuyo inició ocurrió con el fin de su gobierno, en 2016. ¿El proceso de este miércoles es la última de esas etapas?

–No, los responsables del golpe están preparando otras... Pero antes de hablar de eso déjeme explicarle en qué consiste esta fase que tendrá lugar en el TRF-4. El objetivo de este proceso sin sustentación alguna, sin pruebas, totalmente inconsistente, es impedir la candidatura de Lula. Por eso está convocando a una audiencia en una fecha inusual como es el 24 de enero, cuando no ocurren estas actividades en el Poder Judicial. Están tratando de acelerar, pensando en las elecciones de octubre, por eso se acortó tanto el período entre la publicación de la sentencia de Moro (en julio) y esta revisión. Los golpistas están ante una verdadera encrucijada: necesitan ganar en octubre para dar legitimidad a su proyecto político, pero no lo podrán hacer porque ese proyecto tiene un monolito infranqueable. Ese monolito se llama Luiz Inácio Lula da Silva. En todas las encuestas aparece como el favorito, con un 40 por ciento. Tiene más del doble de su principal competidor (el militar retirado Jair Bolsonaro) y está creciendo. Ya hay sondeos que lo proyectan como ganador hasta en el primer turno. Está puntero en todas las franjas etarias y en todas las regiones del país. Este miércoles van a intentar derribar ese monolito, y no lo lograrán (...) Sería mejor que entendieran que Lula representa al pueblo brasileño y que está decidido a seguir adelante. El ya dijo que muerto o vivo, absuelto o condenado, preso o suelto, él va a disputar las elecciones.

–Lo más probable sería la condena de Lula. ¿Comparte ese pronóstico?

–¿Qué puede acontecer? Por un lado, puede que los tres camaristas del TRF-4 decidan condenarlo, y si se diera ese resultado esto sería agravar la persecución en una nueva fase de la “lawfare” (guerra judicial), buscando destruirlo, utilizando instrumentos jurídicos para lograr objetivos políticos. También está la hipótesis de la absolución, una hipótesis muy difícil, incluso porque uno de los magistrados ya se pronunció dando a entender su posición contra Lula (el instructor del caso, Joao Pedro Gebran). En fin hay toda una gama de probabilidades, también la de un voto condenatorio por 2 a 1. Quiero decir que no sólo para Lula, sino para Brasil sería muy bueno que el tribunal reconozca su inocencia. Sería algo bueno para las instituciones, principalmente para el Poder Judicial. Se tiene que entender que la inocencia de Lula no significaría automáticamente su triunfo en las elecciones. Las elecciones se ganan con los votos y no con una decisión judicial. Hace dos meses estuve en Argentina, con la presidenta Cristina, y precisamente hablamos de la “lawfare”. Por lo que sabemos, ella también es víctima de una persecución inquisitorial mediante acusaciones judiciales. Este es un proceso que tiene alcance regional, también lo sufrió el presidente (Fernando) Lugo en Paraguay. Creo que debemos tener una posición muy clara frente a esto, porque no podemos olvidar cuántos latinoamericanos cayeron en la lucha contra las dictaduras, no podemos consentir que a través de esta “lawfare” se corroan nuestras democracias.

–Si la condena fuera por dos votos a uno, esto permitiría más apelaciones.

–Tengo entendido que así es, pero cualquiera sea el resultado de una eventual condena, vamos a interponer todas las apelaciones posibles. Mientras tanto Lula seguirá recorriendo el país con sus caravanas (ya realizó tres muy exitosas el año pasado por el interior del país), y continuaremos trabajando los recientemente creados “Comités de Defensa de la Democracia”, que han tenido un resultado muy positivo. Nuestro plan de movilización no se agota en un acto. Este miércoles habrá uno imporante, pero estamos en movilización permanente.

–¿Descarta que determinen la prisión de Lula?

–Ellos no son locos... Son conservadores, reaccionarios, represores, pero no se arriesgarán a encarcelar a Lula para transformarlo en un héroe. Además, ¿con qué justificación lo detendrían? No pueden alegar que tienen dificultad de encontrarlo porque es un hombre público. Me parece que para ellos sería muy complicado detenerlo, siendo que la eventual sentencia del miércoles no agotará las instancias de apelación. Yo realmente descarto esa posibilidad.

–¿El PT trabaja con un Plan B ante la hipótesis de que Lula no se presente?

–No tenemos Plan B. Lo que nosotros tenemos es el Plan Lula, no hay otro candidato, esto significa que lo mantendremos sea cual fuere el fallo. Esa decisión política es irreversible, es la respuesta a los golpistas que quieren sacarlo de cualquier forma de las elecciones. Y nos tienden una trampa al inducirnos a que elijamos un candidato alternativo en caso de condena. Si nosotros, el PT, escogiera un candidato B, estaríamos legitimando que Lula sea quitado de la campaña... ¡No vamos a dar aval al juego sucio de ellos...!

–Algo parecido ocurrió en su último año de gobierno, cuando le pedían su renuncia.

–Esa analogía es apropiada, porque cuando me pedían que renunciara a la Presidencia lo que buscaban es que les facilitara el camino para el impeachment. Nosotros no aceptamos dejar el gobierno a pesar de las fuertes presiones que sufrimos. Luego, cuando comprendieron que yo no iba a renunciar, nos recomendaron que no fuéramos al Senado a hacer nuestra defensa final. Decían que mi presencia en el Congreso iba a ser terrible... La verdad es que no querían que denunciáramos el golpe. Finalmente fui al Senado y lo denuncié.

–¿Compararía estas movilizaciones con las que reclamaban elecciones directas ya en los últimos años de la dictadura?

–De alguna forma sí, pero no del todo, porque en la lucha por elecciones directas, que en realidad era la principal bandera durante la transición hacia la democracia en una época en la que había que reconstruir todo, se partía desde cero. En aquella época nosotros no teníamos un legado para presentar al pueblo (..) Diferente de lo que ocurre ahora, cuando tenemos el legado dejado por nuestros gobiernos...

Salvador de la patria

Ayer el expresidente Fernando Collor de Mello anunció su precandidatura, postulándose como una oferta “de centro”, luego de varias que hasta el momento no prosperaron. En 1989, Collor derrotó a Lula en segunda vuelta, luego de ser fabricado como candidato por la cadena Globo, que lo presentó como una suerte de “salvador de la patria”. En los últimos meses, esa misma empresa de noticias y entretenimiento ensayó candidatear a un animador de un programa juvenil, Luciano Huck, postulación que finalmente naufragó. También se presentó como presidenciable al empresario y ex presentador de reality shows Joao Doria, actual intendente de San Pablo, pero éste tampoco logró arrebatar intenciones de voto a Lula.

Dilma Rousseff habló de los riesgos que entrañan tales outsiders, entre los que incluyó, implícitamente, al diputado y militar retirado Jair Bolsonaro, que se consolidó como el segundo candidato con más aprobación, registrando entre 15 y 18 puntos de intención de voto.

–¿En Brasil puede sugir otro “salvador de la patria”?

–Es algo ante lo cual debemos estar atentos. Tenemos que considerar una seria de circunstancias estructurales que están ocurriendo, como la financierización acelerada, que en realidad es la cara verdadera del neoliberalismo, que consiste en la primacía de las actividades financieras sobre las productivas. Hay un drenaje de recursos que lleva a una brutal concentración de riqueza y renta, y con ellas un agravamiento de las desigualdades, y aumenta la desocupación, creándose así un ambiente donde surgen quienes justifican que se mitigue la democracia. Es así como se facilita la aparición de “salvadores de la patria”, defensores de posiciones intolerantes, de restricciones a las libertades. Son personajes como el presidente de Estados Unidos, Donald Trump.

–Usted habló antes de futuras fases del golpe. ¿Cuáles serían?

–Bien... La que está en curso ahora es impedir la candidatura de Lula, que sería invencible para ellos. Otra es la consolidación del retroceso que se heredará del golpe, como el congelamiento durante veinte años del gasto público aprobado como reforma constitucional poco después del impeachment.

Su objetivo es dar continuidad a la actual agenda, la de retirar al Estado como inductor del crecimiento económico y de agente que trabaja para reducir las desigualdades, esto es, Estado mínimo, con reducción prácticamente a cero de las inversiones, junto con la reducción de la soberanía y la apertura indiscriminada. Ellos están vendiendo el país a través de la entrega de Petrobras, de la cual ya vendieron varios campos, mientras intentan vender Eletrobras y están acabando con las inversiones del Banco Nacional de Desarrollo Económico y Social (Bndes), que es el banco estatal responsable de los financiamientos de largo plazo. Muchas veces no se sabe afuera de Brasil la magnitud del Bndes, que tiene una cartera de inversiones similar a la del Banco Mundial. Lo que están haciendo con el Bndes es otra demostración de la posición servil ante el capital internacional. Pero ese proyecto es inviable, es un pais ingobernable.

Dario Pignotti
No Página|12
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