14 de jan. de 2018

A malandragem viária de João Dória Jr


João Dória Jr não é um político esperto. Sua última jogada será desvendada em três tempos pela imprensa – que há muito deixou de blindá-lo.

Dória deu dois aumentos para as empresas de ônibus.

O explícito, foi o aumento da passagem para R$ 4,00.

O sub-reptício foi um remanejamento das linhas de ônibus e dos prazos de validade do bilhete único. Foi um aumento pelo avesso. As empresas rodarão menos e, certamente, receberão o mesmo. 

Valeu-se do período escolar e da cidade meio esvaziada para implementar seu plano. Agora, os passageiros começaram a montar o quebra-cabeças. Na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, por exemplo, os alunos começaram a mapear as linhas que sumiram.

Dado o primeiro grito de alerta, se seguirá uma atoarda infernal de uma população que se sentirá enganada.

Em Minas costuma-se dizer que o excesso de esperteza engoliu o homem.

É o caso de Dória

A assessoria da SPTrans entrou em contato para se defender. Segue resposta na íntegra: 

"Em atenção à matéria publicada pelo Jornal GGN, com o título "A malandragem viária de João Dória Jr", a SPTrans esclarece que: 

O reajuste na tarifa de ônibus foi feito após dois anos de congelamento. O valor atual de R$ 4 ficou abaixo da inflação acumulada no período. O aumento não tem qualquer reflexo na remuneração das operadoras do sistema municipal de transporte público coletivo. As empresas recebem de acordo com uma cesta de índices, que inclui custos como mão-de-obra, manutenção, material rodante, combustível, entre outros. Já a receita proveniente da tarifa é utilizada para cobrir os custos do sistema. Mais: o novo edital de licitação, que está em consulta pública, prevê que as empresas receberão por serviço prestado. Será a primeira vez em que a opinião do passageiro será levada em conta no cálculo da remunerarão das empresas.

Sobre as mudanças de linhas incluídas no edital de licitação, vale lembrar que o documento não é definitivo e está disponível para receber dúvidas e críticas da população. As sugestões de melhorias de trajetos estão sendo feitas para tornar o sistema mais racional e eficiente para os passageiros, reduzindo a sobreposição de linhas e, consequentemente, o intervalo entre os ônibus. As mudanças que forem efetivamente implantadas serão feitas de forma gradativa, em até três anos após a assinatura dos novos contratos.

Especificamente sobre a Cidade Universitária, qualquer eventual mudança proposta manterá o atendimento atual de transporte público no local. Nenhum ponto será desatendido.

Não houve qualquer mudança na validade do Bilhete Único durante o ano de 2017. Além disso, as empresas operadoras não tem qualquer gerência ou influência no funcionamento do sistema de bilhetagem eletrônica que é todo administrado pela SPTrans."

Luís Nassif
No GGN
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TRF-4 já disse que dono é quem tem nome inscrito na propriedade


Nem Lula nem sua família jamais tiveram as chaves do apartamento ou dormiram uma noite sequer nele. Isso está provado

Em decisão sobre imóvel da mãe do advogado Carlos Zucolotto, amigo do juiz Sérgio Moro, o Tribunal Regional Federal da Quarta Região (TRF-4), que vai julgar o recurso da defesa de Lula, escreveu o seguinte:


Dono é quem possui a propriedade no cartório como todo mundo sabe. E quem possui o tríplex do Guarujá é a empresa OAS Empreendimentos. Não existe lavagem de dinheiro com imóveis na propriedade de uma empresa, listado como bem da empresa. Não existe laranja de imóvel que é de uma S.A., com acionistas, listado na massa falida da empresa.

Nem Lula nem sua família jamais tiveram as chaves do apartamento ou dormiram uma noite sequer nele. Isso está provado. Não possuíam a propriedade apartamento, que a empresa tinha dado inclusive como garantia em operações bancárias. Isso está provado. Não podiam entrar nele, dormir nele, vendê-lo ou alugá-lo. O apartamento simplesmente não é de Lula. Isso está provado. O que Lula tem é a ampla liderança nas intenções de voto para presidente da República.

A lei é para todos, ou é uma contra Lula e outra para a família do amigo do juiz Moro?











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Saiba o que está por trás da polêmica nomeação de Cristiane Brasil por Temer

Impedida de tomar posse, parlamentar articulou apoio do PTB ao golpe e votou a favor de medidas austeras do governo

Cristiane Brasil (PTB-RJ) votou a favor do golpe de 2016 usando camisa da Seleção Brasileira
Antônio Augusto/Agência Câmara
O nome da deputada federal Cristiane Brasil (PTB-RJ) virou a polêmica dos últimos dias entre os assuntos que envolvem o governo golpista de Michel Temer (MDB), ex-PMDB.

Nomeada por ele no último dia 4 como nova ministra do Trabalho, ela foi impedida judicialmente de tomar posse por já ter sido condenada na Justiça do Trabalho por violação de direitos. O magistrado responsável pelo caso considerou que a nomeação da petebista ofende o princípio da moralidade administrativa.

Cristiane Brasil é filha de Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB e delator do mensalão. Para o líder da bancada do PT na Câmara, Paulo Pimenta (RS), a nomeação está relacionada à preocupação de Temer com o fortalecimento da relação com Jefferson.

"Isso revela que a relação que o Temer tem hoje com o Roberto Jefferson é de dependência, de compromisssos com certeza não republicanos cujo pagamento passa pela nomeação da filha ministra", diz.

Parlamentar de caráter conservador, Cristiane Brasil foi a responsável pela articulação que levou a legenda a fechar questão a favor do golpe que afastou a presidenta Dilma Rousseff (PT), em maio de 2016.

Seu partido, o PTB, pertence a um bloco parlamentar que reúne também os partidos Pros, PSL e PRP. Juntos, eles somam 26 deputados. Por esse motivo, a oposição entende que a nomeação é uma moeda de troca para que Temer consiga aprovar a reforma da Previdência, que deve ser votada em fevereiro.

Para aprovar a reforma, o governo precisa de 308 votos e hoje conta apenas com cerca de 260. Pelo menos cem deputados ainda estariam indecisos.

Para o líder do Psol na Câmara, Glauber Braga, do Rio de Janeiro, uma eventual desistência de Temer quanto à indicação da deputada poderia prejudicar a relação com vários partidos menores da base aliada: "seria uma demonstração pro 'baixo clero' de que o governo não está defendendo os interesses deles nesse processo de disputa pra fora da Câmara, então, ele tem que dar demonstrações de que defende o interesse dos deputados que dão sustentação ao governo".

Na Câmara Federal, Cristiane Brasil está em seu primeiro mandato. Nos últimos dois anos, ela votou favoravelmente às propostas do governo, incluindo o Teto dos Gastos Públicos, a reforma trabalhista e a terceirização para as atividades-fim. A deputada também se posicionou a favor de Temer na votação das duas denúncias criminais apresentadas contra ele pelo Ministério Público Federal.

O Brasil de Fato tentou ouvir a deputada através de sua assessoria, mas não conseguiu contato. Ela tem dito à imprensa que não irá abrir mão do cargo.

Cristiane Sampaio
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O que preocupa Bolsonaro




"Como eu estava solteiro naquela época, esse dinheiro de auxílio-moradia eu usava pra comer gente, tá satisfeita agora ou não? Você tá satisfeita agora?".

As palavras são de Jair Bolsonaro, pré-candidato à Presidência. Ele respondia a uma repórter da Folha que o questionou, de forma educada, sobre o uso de verbas da Câmara.

Não foi a única grosseria da entrevista, concedida na quinta-feira. Em outros momentos, o deputado usou palavrões após ouvir perguntas sobre a sua evolução patrimonial.

"Porra, você está enchendo o saco, porra", disse. "Vocês fizeram uma bomba de merda", acrescentou. "Sai fora que vocês não vão ter resposta nenhuma", concluiu.

Nos últimos dias, os repórteres Camila Mattoso, Italo Nogueira e Ranier Bragon mostraram como a família Bolsonaro multiplicou os bens na política - o capitão tem dois filhos deputados e um vereador.

O jornal também revelou que o chefe do clã nunca abriu mão do auxílio-moradia, apesar de ter apartamento próprio em Brasília. Ele ainda deu um cargo de assessora à mulher de seu caseiro em Angra dos Reis.

As reportagens mostraram que Bolsonaro segue o figurino padrão no Congresso: enriqueceu na política e aprendeu os truques para ampliar as vantagens de parlamentar. Isso explica o descontrole do deputado ao se ver sob escrutínio.

Embora esteja no sétimo mandato, o capitão sustenta seu marketing na ideia de que é diferente dos outros políticos. Ele se apresenta como um campeão da ética, imune aos escândalos que atingem os colegas. "Sou o diferente, sou o intruso do poder", repetiu, em vídeo divulgado na quarta-feira.

Esse discurso tem atraído eleitores que podem não concordar com sua pregação radical, mas veem nele uma alternativa à sujeira dos grandes partidos. Se ficar claro que a propaganda era enganosa, a imagem do "Bolsomito" corre o risco de derreter antes do previsto.

Bernardo Mello Franco
No fAlha
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Bolsonaro faz campanha com passagem paga pela Câmara

Não consegue deixar de mamar
O deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) viajou para Campina Grande, segundo maior colégio eleitoral da Paraíba, para dar palestras, falar com eleitores em praças e conceder entrevistas para rádios locais em 8 de fevereiro do ano passado. “Hoje estou perdendo a sessão em Brasília. Gostaria de estar lá, mas para quem tem pretensões outras tem de estar muito bem preparado para aquele momento em 2018. Vale a pena tudo isso aí”, afirmou em entrevista à época. A veículos de imprensa paraibanos, apresentou a meta de fazer duas viagens para fora da capital federal por mês: promessa cumprida.

Em campanha aberta para a Presidência da República, Bolsonaro aumentou seus gastos com passagens aéreas pagas com dinheiro público da Câmara dos Deputados. Levantamento feito pelo Estadão/Broadcast mostra que, nesta legislatura (entre 2015 e 2017), o deputado fluminense gastou 39% mais com passagens custeadas pela Câmara do que no período anterior (de 2011 a 2014): passou de R$ 261 mil para R$ 362 mil.

O parlamentar mudou o perfil de suas viagens nos últimos três anos, quando começou a ganhar força sua intenção de disputar o Palácio do Planalto após se reeleger, em 2014, como o deputado mais votado (464.572 votos) no Rio. Ele passou a visitar mais cidades de todas as regiões do País, fora do eixo Brasília-Rio, onde trabalha e mora.

Os deslocamentos para outros Estados saltaram de 23 para 83 – 2,3 por mês. Foram considerados apenas os bilhetes em que Bolsonaro é o passageiro e pagos por meio da cota parlamentar. A um ano para o fim da atual legislatura, ele já se deslocou 351 vezes, ante 404 dos quatro anos anteriores.

(…)

Experiência

Em panfletos para prestar contas do mandato, o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) justifica suas viagens como uma troca de experiências sobre a administração pública. “Minhas viagens, em consonância com a abrangência nacional de meu mandato, visam a obter e transmitir conhecimentos e experiências.”

O chefe de gabinete, Jorge Francisco, afirmou que a estrutura do Parlamento não se confunde com as atividades de pré-campanha. Ele disse também que o deputado viaja a convite para falar sobre segurança.

No DCM
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Livro relata colaboração britânica com tortura no Brasil na ditadura

Investigação aponta que militares adotaram métodos de repressão 'importados' do Reino Unido

http://editoraprismas.com.br/produtos/Segredos_de_Estado_o_governo_britanico__det.jpg

Uma carta enviada pelo então embaixador britânico no Brasil, David Hunt, ao Foreign Office, o Ministério das Relações Exteriores britânico, em 1972, comprova que o Reino Unido colaborou com o sistema repressivo da ditadura militar (1964-1985), e que a diplomacia do país sabia dessa colaboração.

O documento secreto, encontrado nos arquivos da diplomacia inglesa, é uma das principais evidências citadas por um livro recém-lançado que revela a conivência e ajuda britânicas com o regime militar. Em "Segredos de Estado: O Governo Britânico e a Tortura no Brasil (1969-1976)" (Ed. Prismas), o pesquisador João Roberto Martins Filho, professor da UFSCar, analisa a ainda pouco explorada relação dos governos europeus com a ditadura.

"Até aqui, havia relatos de empréstimo de técnicas britânicas de interrogatório ao Brasil, mas não havia nada detalhando o que aconteceu. Ninguém usava a palavra tortura, claro, mas a pesquisa prova que houve colaboração britânica com a tortura no Brasil", explicou Martins Filho.

Segundo ele, métodos de tortura psicológica como obrigar os detidos a permanecer em pé contra a parede com os braços estendidos, a privação de sono, uso de ruído contínuo e monótono, além da geladeira (uma cela com temperaturas baixíssimas), foram usados em presos políticos no Brasil por influência britânica.

O estudo, realizado durante passagem de Martins Filho pelo King's College de Londres, avaliou documentos liberados recentemente e outros adquiridos por meio da lei de acesso à informação do Reino Unido, além de depoimentos de presos torturados no Brasil e na Irlanda do Norte. Ele traça uma minuciosa cronologia do uso de técnicas de interrogatório britânicas, as chamadas "cinco técnicas do Ulster", no Brasil por pelo menos seis anos desde o início de 1971. O nome é uma referência à tortura usada pelos britânicos contra presos da Irlanda do Norte.

Isso indica que as técnicas foram empregadas no Brasil antes de serem usadas pelos próprios britânicos na Irlanda do Norte, explica. "Acho que os ingleses queriam testar a técnica no Brasil, onde conseguiriam acompanhar os testes sem ter que assumir responsabilidade pelo uso de tortura", disse Martins Filho.

Segredo

Segundo Martins Filho, um dos aspectos mais marcantes da descoberta é a comprovação de participação direta do Reino Unido na construção do sistema de tortura do Brasil, o que na época não figurava entre as suspeitas de grupos de defesa dos direitos humanos ou mesmo da esquerda brasileira.

"Durante a ditadura, os EUA assumiram o papel de principal colaborador com o Brasil. Ninguém acreditava que a Inglaterra podia estar envolvida." Sua pesquisa mostrou que nem mesmo na Irlanda do Norte se imaginava que os britânicos eram responsáveis por influenciar os brasileiros. "Nem mesmo os americanos ficaram sabendo."

Apesar da revelação documental da colaboração britânica e de a informação ter chegado ao Foreign Office, Martins Filho diz acreditar que o empréstimo de técnicas de tortura ocorreu sem o conhecimento dos primeiros-ministros da época.

Para o autor, o Reino Unido foi conivente porque viu a oportunidade de melhorar as relações comerciais com o Brasil – especialmente a venda de fragatas, helicópteros e mísseis ao país.

"O governo inglês teria caído caso fosse revelada a colaboração com a tortura no Brasil", disse. Para ele, nenhum dos primeiros-ministros do período devia ter conhecimento sobre essa ajuda. "A diplomacia sabia, mas é provável que deixasse isso escondido. Os governantes também preferiam não perguntar, pois era mais fácil não ficar sabendo", disse.

Segundo o pesquisador, o que houve foi uma colaboração "subterrânea. Uma ação supersecreta de grupos militares que agem à revelia do governo até hoje, como se viu no Iraque. É um conhecimento de técnicas de tortura que não é documentado, mas passado por tradição oral", explicou o autor.
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As silenciosas polêmicas da “tucana” Raquel Dodge

Tida como simpatizante do PSDB, PGR pega no pé do governo, investe contra rival “petista” e desperta comentários desabonadores entre colegas e no STF

Dodge: retirada de Wiecko do STF não teve aviso
O presente de grego que Michel Temer recebeu às vésperas do Natal do juiz Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), uma intimação para responder em 15 dias a certas perguntas da Polícia Federal (PF), acelera o fim das investigações de um decreto presidencial sobre portos.

Quando o inquérito acabar, caberá à procuradora-geral da República, Raquel Dodge, decidir se há razão para denunciar à Justiça o peemedebista, de notórias e históricas ligações com empresários do porto de Santos, por algum crime.

O que esperar dela, uma “xerife” tachada de tucana por alguns colegas e cujo estilo já causa tititi na PGR e comentários desabonadores no STF?

A procuradora-geral assumiu em setembro por escolha de Temer, mas um dos oito concorrentes dela à vaga hoje garante: Raquel não gosta do presidente. Algumas medidas tomadas por ela foram de fato um bocado indigestas para o peemedebista.

Em 27 de dezembro, acionou o STF para derrubar o indulto natalino tradicionalmente concedido a detentos pela Presidência. Achou o decretado por Temer o “mais generoso” em 20 anos e que o plano era salvar corruptos. Uma liminar da presidente da corte, Carmen Lúcia, anulou o decreto.

Uma outra decisão governamental foi suspensa por uma liminar do Supremo graças à tropa de Raquel Dodge. Em 24 de outubro, Rosa Weber barrou uma portaria do Ministério do Trabalho que dificultava o combate ao trabalho escravo. Reagiu a uma ação proposta pelo Ministério Público Federal por obra de Raquel.

Em 4 de dezembro, a PGR denunciou Geddel Vieira Lima (PMDB), ex-ministro de Temer, seu irmão Lucio Vieira Lima (PMDB), deputado, e a mãe deles, Marluce Vieira Lima, por lavagem de dinheiro e associação criminosa. Motivo: o bunker de 51 milhões de reais encontrado em setembro na Bahia, terra da turma.

Raquel pediu ainda a prisão noturna de Lucio e a domiciliar de Marluce. Dadas as relações próximas de Geddel com Temer, o encurralamento da família Vieira Lima poderá causar dissabores ao presidente, na hipótese de o ex-ministro tentar incriminar alguém para obter facilidades.

Qual seria a explicação para as investidas contra o governo do presidente que a indicou para o cargo, aquele com quem estranhamente se reuniu por horas no Palácio do Jaburu antes da cerimônia de posse? Um subprocurador-geral aposentado diz e repete: Raquel é “carreirista”.

Será que foi para compensar as iniciativas embaraçosas para Temer que a PGR tomou uma discreta porém simbólica decisão no escurinho de 2017?

Em 27 de dezembro, afastou Ela Wiecko de funções no STF. Agora a subprocuradora-geral atuará no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Com a mudança, não acompanhará mais casos da Operação Lava Jato a envolver deputados, senadores e ministros, autoridades processadas apenas no STF.

Ela Wiecko tinha sido um dos sete competidores da “xerife” na disputa pelo cargo. Entre colegas, é considerada simpatizante do PT, por suas posições em defesa dos direitos humanos, por exemplo.

Em 2016, era vice-PGR de Rodrigo Janot e foi exonerada por ele após surgir na mídia um vídeo em que aparecia em um ato contra Temer em Portugal realizado logo após o peemedebista assumir o lugar de Dilma Rousseff.

No dia da decisão de Raquel de tirar Ela Wiecko do STF, um jornalista de Brasília escreveu em sua coluna que a subprocuradora-geral teria dito a colegas que iria a uma manifestação pró-Lula. Em conversas reservadas, ela negou ter essa intenção.

Nestas conversas, comentou enxergar na coincidência cronológica entre a portaria de Raquel e a notícia do colunista uma tentativa de dar à “xerife” um argumento para usar diante de Temer, caso este reclame das investidas da Procuradoria.

Em dezembro, a defesa do ex-presidente Lula denunciou ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) um dos procuradores da força-tarefa da Lava Jato, Carlos Fernando dos Santos Lima, por usar as redes sociais e a mídia para atacar o petista e ferir o direito dele à presunção de inocência.

O CNMP limitou-se a recomendar a Santos Lima que parasse “de emitir juízos de valor, por meio de redes sociais e na esfera privada, em relação a políticos, partidos políticos e pessoas investigadas e/ou acusadas”.

O órgão é comandado pelo procurador-geral. Se quisesse, Raquel poderia ter articulado uma punição mais severa. É o tipo de situação que alimenta a impressão entre procuradores de que ela é “tucana”.

A PGR trabalhou no passado com o senador Antonio Anastasia (MG), fidelíssimo do senador Aécio Neves, presidente do PSDB até o fim de 2017. Nutre ligações José Roberto Santoro, subprocurador de estreitos vínculos com outro senador tucano, José Serra (SP), com quem trabalhou no Ministério da Saúde nos anos 1990.

Gilmar Mendes, ministro do STF de indisfarçável pendor tucano, vide suas decisões e opiniões, foi um dos padrinhos da escolha de Raquel para o cargo. Ao montar a equipe, ela nomeou um ex-sócio de Mendes, Paulo Gustavo Gonet Branco, como um de seus dez secretários. Gonet era acionista da escola de Mendes, o IDP, até agosto.

Haveria também na decisão da PGR sobre Ela Wiecko alguma disputa pela primazia em temas de direitos humanos na Procuradoria, assunto que é uma das paixões de Raquel Dodge?

A subprocuradora é coordenadora de uma das divisões da PGR, justamente aquela que cuida de direitos sociais (gênero, raça etc). Por atuar no STF, foi com ela que Rosa Weber negociou o andamento de uma ação a favor da descriminalização do aborto, relatada pela juíza.

Ali no Supremo, despontam comentários desabonadores para Raquel. Há quem diga que ela deveria ir mais à corte, conversar mais com os juízes. E botar de lado um certo gosto por aparições relâmpago nos julgamentos, dos quais sai de cena e deixa no lugar seu vice, Luciano Mariz Maia.

Em quatro meses no posto, o estilo da PGR já provoca tititi na Procuradoria. Em sua própria seara, também não faz questão de receber colegas e ouvi-los. Ela Wiecko não recebeu aviso prévio sobre seu afastamento de funções no STF nem explicações posteriores sobre a decisão, por exemplo. Gente da equipe de Raquel que fala com a imprensa costuma ser vigiada nesses contatos.

Um procurador que subiu na hierarquia após a chegada de Raquel ao topo da PGR queria a nomeação de algumas pessoas para seu gabinete. A nomeação dependia da “xerife”. Saiu, mas para a equipe da procuradora-geral, para espanto dele. A chefe é dada a “falsidades”, diz o procurador frustrado.

Rodrigo Janot costumava chamá-la de “cobra”. Acreditava que todos os atos dela tinham algum objetivo escondido. Haveria algo oculto em um presente de natal de 21 milhões de reais dado por Raquel Dodge aos seus comandados?

No fim de 2017, a PGR liquidou o pagamento de um passivo reclamado por procuradores desde o início dos anos 1990 referente a auxílio-moradia. Como uma lei de 1992 garantia a mordomia a parlamentares, os procuradores queriam a regalia via Parcela Autônoma de Equivalência (PAE).

Outra dívida paga no fim do ano, mas aí de forma parcial, foi a relativa à licença-prêmio em pecúnia, uma espécie de bônus salarial por tempo de serviço.

As duas dívidas (PAE e licença-prêmio) são controversas e ficaram um tempo sem ser pagas, por falta de liberação de verba pelo governo. No fim de 2016, mesmo com a crise fiscal, Rodrigo Janot retomou o pagamento das duas. Alimentava o sonho de um terceiro mandato e queria ficar bem com seu eleitorado.

O pagamento ordenado por Raquel Dodge contemplou 218 procuradores da ativa e 192 inativos. Os primeiros receberam 7,8 milhões de reais, uma média de 36 mil para cada um. Os aposentados, 13,4 milhões, 30 mil por cabeça.

Esse pagamento é visto na PGR como uma forma de a “xerife” agradar a ala mais velha da categoria.

Para os mais jovens, o mimo teria sido remover para cidades maiores aqueles procuradores admitidos no último concurso que tinham sido lotados em lugares distantes. Uns 50 foram removidos, ação que custa dinheiro, pois a turma recebe uma ajuda de custo para a mudança.

E assim la nave va na PGR de Raquel Dodge.

André Barrocal
No CartaCapital
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“A Sós”: Só um grande jornalista poderia fazer um documentário como este

Doc sobre relacionamentos entre moradores de rua é aula de bom jornalismo em tempos de crise da profissão


Vinicius Lima é um jornalista recém-formado pela PUC-SP. Há anos ele trabalha no projeto SP invisível, um movimento que conta histórias  de moradores de rua e de pessoas que vivem ou trabalham nas ruas de São Paulo. Veja a página aqui.

A experiência serviu para apurar o olhar do jovem repórter. Ali, onde as pessoas genericamente vêem “mendigos”, “vagabundos”, “vítimas do sistema”, “craqueiros”, “coitados”, dependendo de onde o observador esteja no espectro político, Vinicius encontra histórias de vida, alegrias, tristezas, amores, escolhas, os porquês de estarem onde estão e fazendo o que fazem.

Vinicius vai muito além dos estereótipos porque sabe que eles servem apenas para reforçar as barreiras da invisibilidade e, por que não?, justificar nossa insensibilidade diante da dor e do sofrimento do “Outro” — ele não é um ser como nós, dotado de sentidos como os nossos.

Já foi moda no jornalismo o repórter se fantasiar de morador de rua, de imigrante turco na riquíssima Alemanha, de miserável no Império Americano. Maquiagem, roupas esfarrapadas, sotaque fajuto, tudo para “vivenciar na própria pele” o que o Outro sentiria na condição de marginalizado e excluído.

Caô total. Verdadeiro estelionato.

Primeiro, porque esse método de investigação jornalística cassa a palavra de quem já tem a palavra, quando não a própria existência, negada. Quem fala é o repórter fantasiado.

Depois, porque nunca, nem com todos os artifícios, reproduz-se a singularidade das histórias de vida de quem acabou indo morar nas ruas. O máximo que se consegue é reverberar os preconceitos e clichês de quem se arvora a intérprete do “marginalizado e excluído”.

Bem mais difícil foi o percurso investigativo escolhido por Vinicius para falar do amor que acontece nas ruas, pela voz dos próprios amantes. Porque pressupôs um trabalho delicado de prospecção e seleção dos cases apresentados. E porque exigiu o estabelecimento de uma profunda relação de confiança entre entrevistador e entrevistado, algo sempre difícil de obter no território inóspito das calçadas.

Emocionante, delicado, veraz. Tudo isso poderia ser dito deste documentário, produzido como trabalho de conclusão de curso, sob orientação do professor Marcos Cripa, do jornalismo da PUC-SP. Prefiro dizer que é um pungente resgate jornalístico. Torna visível o que foi invisibilizado por camadas e mais camadas de estereótipos. Dá voz a quem sempre foi calado. Preenche com alma e amor os corpos desumanizados pelo preconceito.

Você não olhará mais para um morador de rua como olhava antes. É para isso que serve o Jornalismo, afinal! Assista agora:



Laura Capriglione
No Jornalistas Livres
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Eu quero meu país de volta!


No século XIX, Oliveira Vianna, Silvio Romero, Nina Rodrigues, Euclides da Cunha, todos "intelectuais", alguns médicos, escritores, parlamentares e etc. defendiam um Brasil "diferente". Todos "homens de bem", argumentavam que a sociedade era e deveria ser desigual, baseados numa leitura de Darwin e de sua teoria da evolução. Defendiam o branqueamento da população brasileira e como caminho de desenvolvimento o uso das nossas "vantagens naturais". Afinal, o Brasil seria o "celeiro do mundo". 

Industrialização para quê?

O sonho deles se materializa no século XXI. O Brasil vive um momento de extremo preconceito racial, acredita que quem é pobre é "vagabundo", porque, afinal "é só levantar e trabalhar", e vive o maior processo de desindustrialização do planeta.

Este é o resultado do "eu quero meu país de volta". Racistas e ignorantes do século XXI materializando o sonho de racistas ricos e cultos do século XIX.

Fernando Horta
No Esquerda Caviar
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Waack? Não, a autocrítica do dia é a de “O Globo”


Não pense que a mais importante autocrítica – mas nem tanto – do dia é de William Waack, na Folha,  por sua “tirada” racista que veio a público (e que, com outra pessoa, não tão arrogante e “superior” como ele sempre quis se apresentar, poderia ter terminado com um pedido de desculpas e um “eu não poderia ter feito isso, nem achando que era piada”).

Não, é a  da manchete de O Globo, invocando o seu próprio bordão jornalístico, o “Imoral, e daí“.

No Brasil de Sérgio Moro, falar em “juiz sem isenção” só pode ser um “mea culpa”.

Claro, o juiz da reportagem é outro, “proprietário de terras, que forçou sua participação na análise de uma disputa que envolvia seu próprio terreno”. Poderia ser, também, a Ministra Laurita Vaz, do STF, que julgou favoravelmente ação na qual está envolvida como beneficiária da não-incidência de UR sobre o abono-permanência que recebe.

Porém, é possível dizer que existe no Brasil um juiz mais parcial que Sérgio Moro em relação a Lula? Alguém que atingiu notoriedade e se erigiu em herói da direita brasileira porque está se desincumbindo, a ferro, fogo e mídia da missão de “matar” Lula, politicamente?

Ser julgado por um juiz que, mesmo antes de iniciado qualquer processo, tem a convicção de que o acusado é culpado e que ele próprio será “absolvido” por seus pares togados e por toda a mídia mesmo que dê saltos mortais para “provar” sua culpa,  como um verdadeiro juiz-militante, o qual  nem mesmo os seus admiradores podem dizer, senão da boca para fora, que é imparcial?

Sim, sim, é imoral. E daí?

Fernando Brito
No Tijolaço
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“Quero ajudar o PT a esquerda a promover uma ampla unidade democrática e social”

“Estamos vivendo o fim de um ciclo em nosso país e talvez um fim de época em escala nacional, latino- americana e global”.
O ex-governador do Rio Grande do Sul aponta as razões que orientaram sua decisão de não concorrer ao governo do Estado nas eleições de 2018 e analisa o cenário político nacional e global. Para Tarso Genro, estamos vivendo o fim de um ciclo político no País e, talvez, um fim de época em escala global.

A decisão de não concorrer ao governo do RS

O Partido estava unificado na minha candidatura e isso me honrou e comoveu muito. Ver antigos e jovens companheiros unificados em torno do meu nome fez tremer meu coração, confesso, um pouco cansado de contendas eleitorais, que aliás andam muito rebaixadas e desqualificadas, com velhos e novos corruptos se agarrando na onda anti-petista, promovida pela mídia oligopolizada, para chegar a Governos e cargos parlamentares. Nada mais significativo que aquela foto do MBL com Cunha, no Congresso, festejando a desgraça do país no processo de derrubada da Dilma.

No momento da escolha eu tinha, sim, e tenho problemas com a linha nacional do PT, no que refere às suas relações com as formações políticas que estão à sua esquerda e também no que no refere às escolhas, nas relações com o chamado “centro”. Mas, também, questões familiares que me envolviam muito… Por isso resolvi não aceitar a indicação e apoiar Miguel Rossetto, que é um quadro nosso de primeira grandeza e que “me representa”. Mas a minha militância não parou um minuto, embora um pouco recolhido da vida pública.

Mantive e mantenho uma ação política nacional e internacional, dentro da linha geral do meu Partido e vou colaborar com todos os candidatos do campo na esquerda, na campanha presidencial e, óbvio, preferencialmente com a candidatura Lula, se ela se apresentar com um novo sistema de alianças, e que, sem dúvida, é a minha candidatura.

Apresentar um programa de transição da economia liberal-rentista, para uma economia de inclusão produtiva com altas taxas de crescimento não é fácil, como não será fácil remontar o estado brasileiro, nas suas funções públicas, sem se subordinar à lógica das comparações. Como tenho algumas ideias sobre isso, quero ajudar o PT a esquerda a responder e a promover uma ampla unidade democrática e social, para nos retirar do caos político, econômico e moral que nos encontramos.

O fim de um ciclo político no Brasil

Estamos vivendo o fim de um ciclo em nosso país e talvez um “fim de época” em escala nacional, latino- americana e global. Quanto ao país, estamos vivendo um período em que proximamente se esgotará a hegemonia absoluta do PT, com sua liderança na esquerda. Isso só foi possível pelo surgimento de um quadro político extraordinário como Lula, que soube construir, inclusive por dentro das classes dominantes, um pacto politico conciliado, que colocou na mesa da democracia as classes trabalhadoras, os excluídos de todas as origens e amplos setores da intelectualidade. Esse pacto gerou uma coesão social “mínima”, em torno de uma ideia de nação mais democrática e com menos desigualdades sociais, sem maiores rupturas.

No plano latino-americano e em escala global, na minha opinião, trata-se propriamente de um “fim-de-época”, a saber, do período histórico em que se dissolveram as condições para o pacto socialdemocrata, de um lado, e, de outro, falecem os pactos jurídico-políticos, em torno das constituições modernas, que permitiram melhorias significativas nas condições de vida dos trabalhadores da segunda revolução industrial.

Quando digo, todavia, que se esgota, nos próximos anos, a hegemonia petista, não quero dizer que o PT se tornará um partido secundário no cenário nacional, mas que ele só voltará a este cenário com força política renovada, se compartilhar sua hegemonia com outras forças à sua esquerda, para reorientar um projeto de nação que, se tem o mesmo sentido de justiça social e democracia que tiveram os Governos Lula e o primeiro Governo Dilma, não terá o mesmo conteúdo econômico e político dos nossos governos anteriores.

Quero dizer com isso que a maioria dos políticos tradicionais de todos os partidos não tem interesse em dois movimentos de fundo, sem os quais não teremos “nação”. O primeiro movimento seria uma verdadeira reforma de Estado, incluindo aí uma reforma política que, de um lado, reduza radicalmente a força do dinheiro na política e, de outra, possibilite uma reforma institucional, que crie sistemas de controle – democráticos e sociais – de participação cidadã, capazes de reduzir a força normativa do dinheiro, dos ricos e muito ricos, sobre as políticas públicas, o uso do dinheiro público, e também sobre os verdadeiros privilégios que percorrem a alta burocracia do Estado, em níveis locais, regionais e nacionais. O segundo movimento seria a restauração de uma política externa, que nos retire da submissão à globalização tutelada pelo capital financeiro e compartilhe de uma relação nova, de cooperação interdependente com soberania, como vinha sendo encaminhado pelo ministro Celso Amorim, no Governo Lula.

O cenário pós-golpe

O que ocorre depois do golpe aqui no Brasil comprova que as elites políticas da direita, da centro-direita, do conservadorismo tradicional, ou não, que o oligopólio da mídia, que os moralistas sem moral de todas as espécies, não tem o menor interesse e estão se lixando para combater a corrupção, por exemplo. Suas metas políticas não são essas e nunca foram essas, pois sempre usaram o que chamam de “luta contra a corrupção” – que existe e deve ser fortemente combatida pelos meios legais dentro do Estado de Direito – para defender os seus privilégios, fazer suas reformas autoritárias e conservadoras, sem qualquer diálogo público, e para colocar mais fortemente o Estado a seu serviço.

Imaginem o que ocorreria se o Governo Dilma tivesse no seu Ministério este rol de culpados, ou vias de assim serem considerados, que hoje compõem o Governo Temer. O oligopólio da mídia, os centros de inteligência informal da alta burguesia e da alta classe média, em conluio com o que tem de mais fascista e atrasado no país, estariam chamando a insurreição e dizendo que “o gigante acordou”! Jessé Souza tem razão: a racionalidade escravista dos grupos políticos dominantes, dentro das elites econômicas do Brasil, não permite que eles sequer sejam coerentes com a democracia representativa, que tem pouco mais de dois séculos de existência e mudou muito pouco ao longo da sua história. Os avanços sociais que foram suportados por eles nos governos Lula não mais terão acolhimento por esse pessoal. Eles não gostam do seu país nem do seu povo e sabem que, a partir de agora, ou se reparte renda diminuindo os seus privilégios de classe ou não se reparte renda. Eles preferem a segunda hipótese.

As eleições de 2018 e o fator Lula

O tratamento ilegal e persecutório que Lula vem recebendo, de uma parte significativa do Sistema de Justiça, está relacionado com os avanços sociais que ele promoveu e que, para serem mantidos e ampliados, agora devem avançar sobre a redistribuição da renda, internamente, porque a dívida pública que deu sustentação àquelas políticas cresceu demais e a emergência da crise mundial gerou a necessidade, por parte das instituições “rentistas”, de apertar os devedores para tranquilizar os investidores no mercado financeiro. A forma com que o pessoal do sistema financeiro global trata isso, em termos políticos, é, de uma parte, controlando a formação da opinião, não somente através da disseminação dos preconceitos e do estímulo ou da indiferença em relação ao ódio fascista, mas também colocando os corruptos sob seu controle e usando-os para fazerem as suas reformas, contra as conquistas do Estado Social, sem colocar nada em seu lugar. A eleição de Lula em 2018 pode bloquear este processo, em alguma medida, esse é o temor do conservadorismo reacionário e da sua motivação, para tentar retirá-lo da disputa.

Por uma nova frente política de esquerda

Defendo que os demais partidos de esquerda lancem seus candidatos e que Guilherme Boulos e Manuela D’Ávila são novos quadros, importantes para a reconfiguração de uma nova frente política no futuro, capaz de hegemonizar um governo de centro-esquerda, de reformismo forte, como está ocorrendo ou tendendo a ocorrer em alguns países. Não se sabe até onde poderá ir a experiência portuguesa, por exemplo, e mesmo qual a sua durabilidade, mas se não ousarmos no sentido de compor uma esquerda plural, criativa e democrática, com um claro programa de transição de uma economia liberal rentista, para uma economia com altas taxas de crescimento e novas formas de inclusão social e produtiva, o futuro da esquerda será cada vez mais incerto e defensivo.

Temos à nossa frente um período difícil, complexo, de grandes instabilidades sociais e aumento das taxas de exploração e de violência estatal, para conservar privilégios, em todo o mundo. Mas, afinal, se olharmos para os últimos 100 anos, poderemos localizar nestas décadas, grandes experiências revolucionárias e reformistas, das quais poderemos tirar lições da experiência e do heroísmo de milhares e lutadores anônimos e centenas de grandes pensadores que, de certa forma, já alertavam para muitos erros, pelos quais pagaríamos muito caro.

Tarso Genro
No Sul21
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William Waack perdeu a chance de mostrar que aprendeu algo com o próprio erro

Ele
O artigo de William Waack publicado hoje pela Folha de S. Paulo não foi, propriamente, uma defesa. Foi um ataque.

Demitido da Globo, rejeitado pelo SBT, ele transfere a responsabilidade pelo seu infortúnio à militância na internet.

“O episódio que me envolve é a expressão de um fenômeno mais abrangente. Em todo o mundo, na era da revolução digital, as empresas da chamada ‘mídia tradicional’ são permanentemente desafiadas por grupos organizados no interior das redes sociais.

Estes se mobilizam para contestar o papel até então inquestionável dos grupos de comunicação: guardiães dos “fatos objetivos”, da “verdade dos fatos” (a expressão vem do termo em inglês “gatekeepers”). Na verdade, é a credibilidade desses guardiães que está sob crescente suspeita.”

William não deu nomes, mas pode estar falando dos sites independentes, como o DCM, que tem se contraposto à velha mídia, com artigos e coberturas que partem de pontos de vista muito diferentes, às vezes opostos.

Sem citar nomes, William critica seus antigos empregadores por não enfrentarem esses “grupos organizados”.

“Por falta de visão estratégica ou covardia, ou ambas, tornam-se reféns das redes mobilizadas, parte delas alinhada com o que “donos” de outras agendas políticas definem como “correto”.

Perversamente, acabam contribuindo para a consolidação da percepção de que atores importantes da “mídia tradicional” se tornaram perpetuadores da miséria e da ignorância no país, pois, assim, obteriam vantagens empresariais.”

É exatamente disso que se trata: a contribuição da mídia para perpetuação da miséria e da ignorância no país.

Faz muito tempo que notícia deixou de ser o principal negócio do que ele chama de mídia tradicional.

Mas William não reconhece. Ou finge não reconhecer.

E segue no ataque a quem, em síntese, o demitiu:

“Abraçados a seu deplorável equívoco, esquecem ainda que a imensa maioria dos brasileiros está cansada do radicalismo obtuso e primitivo que hoje é característica inegável do ambiente virtual.”

William exibe suas credenciais — viveu fora do Brasil como correspondente internacional — para dizer que os “canalhas do linchamento” querem tirar uma característica do povo brasileiro, a irreverência.

Será que ele acha que foi engraçado com seu comentário racista?

“Por ter vivido e trabalhado durante 21 anos fora do Brasil, gosto de afirmar que não conheço outro povo tão irreverente e brincalhão como o brasileiro. É essa parte do nosso caráter nacional que os canalhas do linchamento querem nos tirar.”

E não consegue evitar a soberba:

“Prostrar-se diante deles significa não só desperdiçar uma oportunidade de elevar o nível de educação política e do debate, mas, pior ainda, contribui para exacerbar o clima de intolerância e cerceamento às liberdades – nas palavras, a quem tanto agradeço, da ministra Cármen Lúcia, em aula na PUC de Belo Horizonte, ao se referir ao episódio.”

William parece querer dizer que tem algo a ensinar à patuleia.

Será que entendi corretamente?

Paulo Sotero, o jornalista a quem William dirige seu comentário, ficou visivelmente constrangido.

Teve uma reação que não é de riso nem de concordância. Mas de estupefação.

William já progrediu ao admitir que fez a piada racista, mas está longe de um gesto da auto-crítica.

Faço essa análise com tristeza, porque trabalhei com William Waack na revista Veja.

É um bom jornalista. Íntegro na reportagem.

Fizemos juntos uma das primeiras reportagens que escancaravam o submundo das empreiteiras — a capa “Por dentro da mala preta da OAS”.

Tenho para mim que William se deixou seduzir pelo ambiente da televisão e a vida enganosa que salários estratosféricos proporcionam.

Comprou um avião e, às vezes, viaja sozinho para o interior de São Paulo.

Já usou a pista de pouso da fazenda de outro jornalista que foi da Globo.

William perdeu contato com a realidade do povo brasileiro e, para um jornalista, isso é mortal.

Vai demorar para aterrisar.

Joaquim de Carvalho
No DCM







Não sou racista, minha obra prova

Se os rapazes que roubaram a imagem da Globo e a vazaram na internet tivessem me abordado, naquela noite de 8 de novembro de 2016, eu teria dito a eles a mesma coisa que direi agora: "Aquilo foi uma piada — idiota, como disse meu amigo Gil Moura —, sem a menor intenção racista, dita em tom de brincadeira, num momento particular. Desculpem-me pela ofensa; não era minha intenção ofender qualquer pessoa, e aqui estendo sinceramente minha mão."

Sim, existe racismo no Brasil, ao contrário do que alguns pretendem. Sim, em razão da cor da pele, pessoas sofrem discriminações, têm menos oportunidades, são maltratadas e têm de suportar humilhações e perseguições.

Durante toda a minha vida, combati intolerância de qualquer tipo — racial, inclusive —, e minha vida profissional e pessoal é prova eloquente disso.

Autorizado por ela, faço aqui uso das palavras da jornalista Glória Maria, que foi bastante perseguida por intolerantes em redes sociais por ter dito em público: "Convivi com o William a vida inteira, e ele não é racista. Aquilo foi piada de português."

Não digo quais são meus amigos negros, pois não separo amigos segundo a cor da pele. Assim como não vou dizer quais são meus amigos judeus, ou católicos, ou muçulmanos. Igualmente não os distingo segundo a religião — ou pelo que dizem sobre política.

O episódio que me envolve é a expressão de um fenômeno mais abrangente. Em todo o mundo, na era da revolução digital, as empresas da chamada "mídia tradicional" são permanentemente desafiadas por grupos organizados no interior das redes sociais.

Estes se mobilizam para contestar o papel até então inquestionável dos grupos de comunicação: guardiães dos "fatos objetivos", da "verdade dos fatos" (a expressão vem do termo em inglês "gatekeepers"). Na verdade, é a credibilidade desses guardiães que está sob crescente suspeita.

Entender esse fenômeno parece estar além da capacidade de empresas da dita "mídia tradicional". Julgam que ceder à gritaria dos grupos organizados ajuda a proteger a própria imagem institucional, ignorando que obtêm o resultado inverso (o interesse comercial inerente a essa preocupação me parece legítimo).

Por falta de visão estratégica ou covardia, ou ambas, tornam-se reféns das redes mobilizadas, parte delas alinhada com o que "donos" de outras agendas políticas definem como "correto".

Perversamente, acabam contribuindo para a consolidação da percepção de que atores importantes da "mídia tradicional" se tornaram perpetuadores da miséria e da ignorância no país, pois, assim, obteriam vantagens empresariais.

Abraçados a seu deplorável equívoco, esquecem ainda que a imensa maioria dos brasileiros está cansada do radicalismo obtuso e primitivo que hoje é característica inegável do ambiente virtual.

Por ter vivido e trabalhado durante 21 anos fora do Brasil, gosto de afirmar que não conheço outro povo tão irreverente e brincalhão como o brasileiro. É essa parte do nosso caráter nacional que os canalhas do linchamento querem nos tirar.

Prostrar-se diante deles significa não só desperdiçar uma oportunidade de elevar o nível de educação política e do debate, mas, pior ainda, contribui para exacerbar o clima de intolerância e cerceamento às liberdades – nas palavras, a quem tanto agradeço, da ministra Cármen Lúcia, em aula na PUC de Belo Horizonte, ao se referir ao episódio.

Aproveito para agradecer o imenso apoio que recebi de muitas pessoas que, mesmo bravas com a piada que fiz, entenderam que disso apenas se tratava, não de uma manifestação racista.

Admito, sim, que piadas podem ser a manifestação irrefletida de um histórico de discriminação e exclusão. Mas constitui um erro grave tomar um gracejo circunstanciado, ainda que infeliz, como expressão de um pensamento.

Até porque não se poderia tomar um pensamento verdadeiramente racista como uma piada.

Termino com um saber consagrado: um homem se conhece por sua obra, assim como se conhece a árvore por seu fruto. Tenho 48 anos de profissão. Não haverá gritaria organizada e oportunismo covarde capazes de mudar essa história: não sou racista. Tenho como prova a minha obra, os meus frutos. Eles são a minha verdade e a verdade do que produzi até aqui.

William Waack, 65, é jornalista profissional desde os 17; trabalhou em algumas das principais redações do país e foi correspondente internacional por 21 anos na Europa e Estados Unidos



William Waack prova que é racista

O texto de William Waack publicado em edição de hoje da Folha tem tudo para entrar para os anais das armadilhas psicanalíticas da escrita. Isso porque, no esforço de tentar convencer de que não é racista, dá demonstrações cabais de que é um - e dos mais tradicionais, rasteiros e óbvios.

Eu poderia me ater ao esforço do cara em construir uma cortina de fumaça para o que disse com todas as letras (e o mais irônico é que usou o "coisa de preto" num ato de defesa a Donald Trump, um racista notório) se fazendo de vítima do radicalismo persecutório das tais das redes digitais ou no simples fato de ser um cara na casa dos cinquenta e poucos anos incapaz de assumir um flagrante ato de racismo e se desculpar, mas me aterei à prova tão banal quanto definitiva.

Em dado momento do texto, o ex-jornalista da Globo afirma, com alguma gabação, que ao longo de 21 anos trabalhando no exterior, nunca encontrou um povo tão "brincalhão e extrovertido" quanto o brasileiro. E é isso que os "linchadores digitais" tentam nos sequestrar, fazendo o que fizeram com ele: nossa alegria e extroversão.

Para William Waack, afirmar e reafirmar, com galhofa, que um ato de protesto a Donald Trump só poderia ser "coisa de preto", nada mais é do que uma brincadeira típica da extroversão singular dos brasileiros. Waack é igualzinho àquele tio, fã do Bolsonaro, que fica indignado com quaisquer tentativas de suprimir seu direito de discriminar. É representante do que há de mais natural, tradicional, corriqueiro e perverso no racismo brasileiro: quem determina o que é racismo e discriminação nunca é o alvo da "brincadeira", mas seu autor. É o cara que discrimina que roga para si a determinação da natureza do que fez, nunca o sujeito ofendido e discriminado.

Não, Waack, o que você fez não é brincadeira nem extroversão, é a prática de racismo mais banal que ainda, como se vê, atravessa, quase intacta, gerações e mais gerações. Os outros países que você cita, meu caro, não são desprovidos de alegria e extroversão, são apenas países que, ao menos nesse nível de nojenta explicitude, não praticam seu racismo.

Bom, William, eu só tenho, muito, a agradecer por ter escrito esse texto. Não sobra uma dúvida sequer quanto a sua qualidade moral e intelectual, evidentemente incompatível com o exercício de uma profissão que deveria ser séria, social e politicamente responsável. Nesse ponto, seja lá se por razões virtuosas ou não, a Globo acertou. Minha torcida é pelo seu ostracismo. E não por ter cometido um erro detestável que poderia ser, em alguma medida, reparado, mas por confirmar que aquilo que foi dito, de fato, o representa.

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Comitês em defesa da democracia e da candidatura de Lula se espalham pelo país

Mobilizações vão ocorrer até dia 24, data do julgamento do ex-presidente em segunda instância

Sede do Diretório Nacional do PT em São Paulo preparada especialmente para o Comitê popular em defesa da candidatura de Lula
Alexandre Padilha
Mais de 500 Comitês Populares em Defesa da Democracia e do Direito de Lula ser candidato à Presidência da República foram lançados neste sábado (13), em várias regiões do país.

A ação marca o início da jornada de mobilizações contra a condenação do ex-presidente em segunda instância pelo Tribunal Regional Federal (TRF) da 4º Região, no processo relacionado ao “Triplex do Guarujá”.

“Nós tiramos um dia nacional de mobilização e luta em todo o Brasil para chamar atenção do mundo, da nossa militância, dos movimentos de esquerda que nós precisamos fazer a resistência. Porque o que vai acontecer aqui no dia 24, se não for uma sentença que absolva o Lula, é algo contra a democracia, contra o estado democrático de direito”, ressalta a senadora Gleisi Hofmann, presidente do Partido dos Trabalhadores.

Ela participou de uma aula pública nos Arcos da Redenção, em Porto Alegre (RS), onde vai acontecer o julgamento do ex-presidente. A senadora defendeu que independente do resultado da sessão no dia 24 de janeiro, Lula será registrado como candidato à Presidência pelo PT.

“Se eles condenarem [o Lula] é nada para nós do ponto de vista político e eleitoral e nós vamos registrar [a candidatura]. Aí é que podem embargar dizendo que Lula foi condenado pelo TRF-4. Só que nós também temos mecanismos jurídicos e vamos pelear na Justiça, não vamos ficar mansos. Nós vamos terminar de discutir esse processo do ponto de vista da justiça eleitoral na segunda quinzena de setembro. Até lá, Lula já fez campanha, usou o horário de rádio e televisão e já criou uma comoção pública”, diz.

Em São Paulo, o lançamento do Comitê ocorreu na sede do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores. Durante a atividade, a fachada do prédio, localizado no centro da cidade, foi grafitada pelo artista Toddy, que pintou o rosto de Frida Kalo, Paulo Freire e Chico Mendes como símbolos de resistência.

Durante o evento, a ex-ministra de Políticas para as Mulheres Eleonora Menecucci destacou a importância dos Comitês para organizar e dar voz a população na defesa da democracia.

“O Lula tem mais de 47% da preferência dos votos, onde estão essas pessoas? Elas não aparecem porque são pessoas anônimas, do povo e é por isso que esses comitês têm razão de ser. Tem um sentido político muito grande, porque toda essa população que vota no Lula precisa de um espaço político para discutir. E nós estamos organizando, nós estamos organizadas e vamos em massa para Porto Alegre”, defende.

Em Fortaleza, no Ceará, o Bloco “Tô com Lula” ocupou as ruas em defesa da candidatura do ex-presidente. Também teve marchinha nas ruas de Olinda, em Pernambuco, com o Bloco Sapo Barbudo.

Em Maringá, no Paraná o lançamento do Comitê em Defesa de Lula contou com a presença de lideranças do Psol, PCdoB, além de centrais sindicais como a CUT e vereadores. Na plateia, cerca de 500 pessoas participaram do ato.

Já no Rio de Janeiro, o vereador pelo PT, Reimont Luiz, participou da entrega de panfletos à população e destacou o apoio dos que passaram pela Praça Sáenz Peña, na Tijuca.

“Mais de 2 mil panfletos que distribuímos, nós podemos dizer que a reação contrária ao nosso movimento foi muito pequena. A maioria das pessoas está compreendendo que nós temos que defender a democracia e isso significa desenvolver um processo político que discute a retomada de direitos do povo brasileiro”, destacou.

Atos também foram registrados em outras regiões do país como Roraima, Mato Grosso, Santa Catarina, Sergipe e Paraíba. No dia 16 de janeiro um novo ato está marcado em São Paulo. Já no dia 18, a mobilização deve acontecer no Rio de Janeiro. Em ambas as datas é esperado a presença de intelectuais, artistas e cientistas.

No Porém
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Marcelo Bretas e os juízes linguarudos que gostam de ser reverenciados

Bretas recebe a medalha Pedro Ernesto na Câmara Municipal do Rio
Ainda sou de uma época em que juízes despachavam em autos e costumavam ser sisudos, pouco falantes. A satisfação que davam à sociedade estava na fundamentação de seus julgados. Não era preciso mais. Nunca se via Célio Borja, Paulo Brossard, Sepúlveda Pertence, Aldir Passarinho e tantos outros externarem palpites sobre tudo e sobre todos, apaixonando-se narcisistamente por suas próprias palavras.

O comedimento e o decoro público eram as marcas de um judiciário que podia ser falho, afinal era humano, mas que não era falastrão e nem espalhafatoso. Um judiciário que se dava o respeito e, de um modo geral, não infenso a crítica, mas respeitado.

Digo isso numa época em que juízes, eventualmente suas esposas ou esposos e seus auxiliares mais próximos mantêm perfis em rede sociais, onde, além de se exibirem de calção ou biquíni de férias, falam pelos cotovelos, seja para jogarem confete ou criticarem atuação de pares, seja para assumirem posição política em relação a fatos que estão ou podem vir a estar sob sua jurisdição.

Outros adoram ser procurados pela imprensa e apreciam ser por ela pautados. Falam para receberem aplausos. Fazem biquinho e cara de inteligente. Vão a estreia de filme sobre si e recebem galhardamente prêmios de empresários ou empresas de comunicação. São juízes tagarelas, boquirrotos ou simplesmente sem decoro. Juízes que não têm respeito pelo cargo e nem pelos jurisdicionados. De alguns pode-se dizer mesmo que são moleques.

Pois bem. Marcelo Bretas, o alterego de Sérgio Moro no piso do Rio de Janeiro, quer, em seu gorjeio virtual, que a justiça seja reverenciada por todos e temida pelos criminosos. Diz isso a propósito de declaração do presidente parlapatão do TRF da 4ª Região a parlamentares que o visitaram para tratar do julgamento da apelação de Lula no dia 24 vindouro, de que, com medo, juízes estariam a retirar suas famílias de Porto Alegre.

O mais curioso nisso tudo é que, quando o discreto e circunspecto Ministro Teori Zavascki vinha sendo ameaçado e tendo a casa de seu filho na mesma capital gaúcha cercada por fascistas celerados, não se ouviu uma única palavra de solidariedade ou, ao menos, de preocupação desse hoje presidente do tribunal.

Teori, o relator dos processos da operação Lava-Jato no STF, foi escrachado porque se recusava a ser juiz por graça da malta barulhenta, para se submeter silencioso a seus misteres constitucionais, com o decoro que o cargo lhe exigia. Seu filho não se mudou de Porto Alegre por causa disso e nem deixou, Teori, de manter sua rotina de vida entre Brasília e aquela cidade.

Aliás, resistia o magistrado enormemente a qualquer medida que lhe garantisse segurança às custas do erário. Foi preciso o não menos discreto Ministro Ricardo Lewandowski, então na presidência do STF, convencê-lo a aceitar a vigilância de sua casa e de seus passos no Rio Grande do Sul, bem como usar, para sua locomoção, o avião da FAB posto a sua disposição, dentro da lei e para salvaguarda de sua integridade, pela Presidenta Dilma Rousseff.

Não se via, jamais, Teori choramingando por aí, dizendo-se ameaçado. E olha que os tempos eram difíceis e estava, ele, no olho do furacão.

O tempora, o mores!

A dignidade com que juízes devem ser tratados, Sr. Bretas, não dá em árvore. A reverência de jurisdicionados muito menos. Elas podem vir a ser um prêmio, um galardão para a conduta exemplar, longe das controvérsias públicas e a uma vida dedicada à Justiça com jota maiúsculo, sem estrelismos e com profundo respeito às leis, à soberania popular que elas materializam e às instituições.

Dignidade não se cobra, Sr. Bretas, se pratica. Não é um direito potestativo de magistrados, mas um dever de caráter sinalagmático. Recebe-se tanto quanto se dá aos circunstantes, respeitando-os, tratando-os com a mesma dignidade com que se gostaria de ser tratado.

A reverência, por sua vez, não é prerrogativa majestática de julgadores. Não se obtém como a bela carteirinha preta de couro e brazão de alumínio da República que lhes é entregue na posse, após passarem em concurso público. A reverência é a homenagem que se presta aos bons, aos que sobressaem por seu exemplo de cidadania e de generosidade no cumprimento de seus deveres. Juízes ou não.

O ser humano que Teori foi, quando entre nós, merece ser reverenciado, mesmo sem nunca nos ter cobrado tanto. Sua generosa modéstia não lhe permitia tamanho arroubo. Era um justo e seu exemplo mostra-nos que reverência e dignidade têm isso em comum: resultam da modéstia e são avessas à exaltação, à vaidade, ao orgulho. Aquele que, mesmo supondo-se modesto, se gaba dessa qualidade, deixa de sê-lo, pois a autorreferência elogiosa elimina qualquer chance da modicidade recatada e decente.

Já o disse alhures que juízes precisam se submeter a rigorosa liturgia do cargo. Não se cuida de frescura. Trata-se de medida essencial para resguardo da própria segurança de quem julga os outros.

Magistrados julgam centenas de processos por mês e, em cada decisão, sempre há quem ganha e quem perde. Para o sentenciante pode cada caso ser apenas um número em sua estatística de produtividade, mas, para as partes no processo, o que é decidido pode ser o sentido de suas vidas. E o que faz um perdedor não reagir com despudorada violência contra aquele que decidiu contra si? É a aura de respeitabilidade que emana da obediência à liturgia do cargo. É a consciência da parte de que aquele que julgou seu caso o fez dentro de sua melhor técnica e longe de qualquer parti-pris. Só esse respeito é que faz o perdedor se conformar.

Já o juiz que gosta de aparecer, dá mostras de se achar o mais iluminado entre os seres do planeta, um eleito, um salvador ungido por graça de seu maravilhoso destino, provoca repulsa. O juiz que controverte com suas opiniões públicas sobre o que está para ser julgado se torna parte do conflito que deveria apaziguar. Por isso, pode se tornar alvo de bronca e de maledicência. Juiz que fala sobre as partes fora dos autos, toma posição preferencial sobre seus interesses, vira saco de pancada. Deixa de cultivar recatada distância da arenga e nela se intromete como mais um brigão.

Se distribui sopapos verbais, não pode se queixar de levá-los de volta. Não será jamais reverenciado, mas, sim, tratado como qualquer um que se imiscui partidariamente na vida alheia. É pau na certa. E se a corporação bate palmas para esse juiz brigão, como se fosse um agrupamento de alunos expectadores que se deleitam com uma ”porrada” entre coleguinhas no recreio da escola, também ela será tratada como um clubinho de meninos mau comportados, a merecem não reverência, mas puxões de orelha.

Deu para entender, Sr. Bretas? Ou quer que eu desenhe?

Mesmo para muitos iludidos que inicialmente viam na Operação Lava-Jato alvissareira novidade no trato das instituições para com o fenômeno das relações políticas e econômicas viciadas entre agentes públicos e a iniciativa privada, já está claro que juízes nela têm se excedido pela falta de tato num ambiente partidariamente contaminado.

Longe de cultivarem a modéstia, passaram a gostar de seu protagonismo inflado pela mídia. Para afirmarem suas posições políticas, passaram a patrol sobre garantias processuais da defesa, fizeram pouco caso da presunção de inocência, expuseram ilustres investigados à execração pública como troféus de uma guerra sem trégua, deram publicidade a informações sigilosas de seus processos, bateram boca com defensores e não mostraram respeito nem a decisões de instâncias superiores. Portaram-se feito símios ensandecidos numa loja de louças, uma ameaça à incolumidade pública.

E agora querem ser reverenciados por todos. Revoltam-se com o medo de seus familiares que sequer foram tangenciados pelas críticas aos magistrados (talvez com exceção daquela que se gaba de Morar com Ele). Nenhum desses senhores passou pelo que Teori e seu filho passaram com a serenidade que lhes é peculiar. Mas acham que merecem salamaleques. Merecem porque a seu ver lhes são incondicionalmente devidos. São belos, são fantásticos, são concursados. De joelhos, cidadãos!

Não é assim que se constrói um judiciário respeitado e digno. Assim se produz tão e só um estado falido, como a unidade da federação onde o Sr. Bretas exerce sua jurisdição de piso. Parece que esses juízes não estão à altura dos desafios que nossos tempos têm imposto aos tribunais.

Está na hora de o judiciário se superar, abandonar seu narcisista burocratismo autoritário e se democratizar, reconhecendo seu papel de guardião de direitos, muito mais do que de incentivador do conflito político. Quem sabe assim poderá um dia conquistar a admiração pública, não por fazer o que não deve, mas por cumprir rigorosamente com os deveres que a Constituição lhe impôs.

Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça
No DCM
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Emendas parlamentares são espécie de 'fraude oficial' na Justiça eleitoral

Os R$ 10 bilhões que Michel Temer vai liberar para indicações de deputados têm a finalidade divulgada pelo governo e uma segunda, de efeitos mais importantes, nunca mencionada. A primeira é a compra de votos na Câmara para tentar a aprovação do remendo na Previdência. A velha chantagem do "é dando que se recebe". A segunda é uma interferência nas eleições. Digamos, uma "fraude oficial", a primeira das fraudes que haverá na compra de cabos eleitorais e de votos, nas verbas partidárias e contribuições embolsadas e, claro, nas contabilidades para a Justiça Eleitoral.

O mecanismo é simples. A quota financeira liberada para um deputado pelo Tesouro Nacional, seguindo indicação de nome e montante pela Presidência, corresponde a uma proposta do parlamentar incluída no Orçamento da União, a chamada emenda. No Estado e no município recebedores, a liberação é festejada como vitória do deputado. Passa a ser a bandeira, ou uma delas, na propaganda do parlamentar. Assim é pelo país afora.

Em ano eleitoral, como 2018, esse mecanismo é um trunfo, com frequência decisivo, do parlamentar contra os concorrentes não agraciados pelo governo. Sobretudo contra os novos. E, portanto, contra a renovação do Congresso.

Os pacotões do "é dando que se recebe" são alvos costumeiros de repulsas fortes. Não o atual, porque está vendido à imprensa como recurso para a "reforma" da Previdência. Mas sua aceitação é também a do despejo antecipado e camuflado de R$ 10 bilhões na disputa eleitoral, favorecendo deputados (mal) escolhidos. E quando ações eleitorais ainda estão proibidas.

Diante dessa "fraude oficial", inabordável pela Justiça Eleitoral e efetivada com dinheiro público – o mesmo cortado para saúde, educação, saneamento, ciência, segurança – a palavra fraude hostilizada é a que se encaminha para as 200 mil assinaturas em seu apoio, como peça-chave do documento "Eleição sem Lula é fraude". Reduzida entre nós a mínimas notícias, essa argumentação está divulgada e assinada no exterior por intelectuais, artistas e professores (calma, de todos os gêneros, sim) com nomes expressivos.

Substituir a palavra é uma possibilidade para os desagrados. O que as evidências, em número enorme, não admitem a sério é negar que a ausência forçada de Lula na eleição presidencial resultaria de um processo em que não faltaram anomalias judiciais, arbitrariedades acobertadas pela alta hierarquia do Judiciário e do Ministério Público e uma campanha de opinião como poucas foram vistas. São fatos e ficaram com sua comprovação registrada para dirimir nossas divergências e para a história.

Tais fatores terminaram por fazer, acima dos processos judiciais, um processo político. Agora mesmo, Sergio Moro e seu grupo de procuradores dispensam-se de mandar à perícia a nova leva de recibos que exigiram. "É claro que são falsos." Mas a obrigação é mandar ao teste pericial. O que está usado na condenação é mero palpite, a denotar um tratamento que não é dado a outros processos e investigados. E se o dono do apartamento vizinho de Lula recebeu aluguéis e não os declarou ao Imposto de Renda, precisando negá-los? Plausível, a hipótese não foi investigada, por incompatível com a pretensiosa opinião do juiz e dos procuradores.

Ninguém pode negar que seja no mínimo suspeita a condução desse caso tão brasileiro, por suas afinidades judiciais, políticas e social-elitistas com o passado de nossas instituições ditas republicanas. E já, mal começado o ano eleitoral, com R$ 10 bilhões a contribuírem para sua continuidade, tais como são.

Janio de Freitas
No fAlha
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