29 de dez de 2018

Vem aí outro Jânio Quadros?

https://www.balaiodokotscho.com.br/2018/12/29/acabou/

Após surgir como um furação, ele jogou tudo para o alto e afundou o país

Varre, varre, varre, vassourinha / varre, varre a bandalheira / que o povo já tá cansado / de sofrer dessa maneira / Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado” (jingle da campanha presidencial de Jânio Quadros, eleito em 1960).

Eu era menino ainda, tinha 12 anos, mas me lembro bem do tsunami que varreu literalmente o país durante a campanha presidencial. Meu pai, que era janista, morreu naquele ano.

Vereador, prefeito, deputado, governador de São Paulo, Jânio da Silva Quadros subiu como um furacão na política brasileira no pós-guerra da década de 50, entre o suicídio de Getúlio Vargas e os anos dourados de JK.

Por que me lembro de tudo isso agora?

Jânio não era um homem de partido, não pertencia a nenhum clã, combatia a velha política, andava em mangas de camisa, encarnava o moralismo autoritário e fez da vassoura seu símbolo numa campanha baseada no combate à corrupção.

“Não se desespere! Jânio vem aí para varrer a roubalheira!”, gritavam seus seguidores pelas ruas, em tom ameaçador.

Foi o primeiro político marqueteiro da nossa história. Aparecia em público com paletó ensebado de caspa ou com o quepe de motorista de ônibus. Comia sanduíches de mortadela para criar a imagem de homem simples do povo e em seus discursos abusava de próclises e mesóclises para mostrar erudição.

“Os palanques transformaram-se em verdadeiros palcos de tragicomédia... Muitos o tomaram como um Messias”, escreveu a historiadora Maria Victoria Benevides no opúsculo “O Governo Jânio Quadros” (Brasiliense).

Jânio se lançaria candidato à Presidência por uma coligação antigetulista de pequenos partidos. Logo conquistaria o apoio dos banqueiros e fazendeiros da UDN, e assim se elegeu com 48% dos votos de um total de 11,6 milhões de eleitores (hoje somos 147 milhões).

Apenas sete meses após a posse, ao perder o apoio da UDN no Congresso, Jânio renunciou. Jogou tudo para o alto, sonhando em voltar nos braços do povo num lance bonapartista que não deu certo, e afundou o Brasil numa profunda crise política que três anos depois desaguaria no golpe de 1964.

Em 1986, nos 25 anos da renúncia, numa longa entrevista que fiz com ele para o Jornal do Brasil, rememorou assim os fatos: “Eu nem sequer me lembro direito... Me lembro apenas de ter telefonado para Eloá e dito: ‘Arrume as malas porque eu não sou mais o presidente’. A minha displicência foi tal que, de Cumbica, eu fui para Santos, dirigindo meu fusquinha. E embarquei num cargueiro para Londres...”

Qualquer semelhança...



Acabou
Os idiotas vão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos…”
Nelson Rodrigues
Nelson Rodrigues nunca foi tão necessário para retratar o Brasil destes dias tenebrosos sem hora para acabar.

Foi ele quem criou a expressão “cretinos fundamentais” no século passado, antes que os cretinos fundamentalistas tomassem conta de tudo.

Acabou 2018, acabou o governo Temer, acabou a Nova República, acabou o sonho de tão cedo termos dias melhores para todos num país mais justo e fraterno.

Nunca um ano demorou tanto para acabar, mas agora está chegando ao fim.

Neste último fim de semana do ano da desgraça de 2018, estaria na hora de fazer um balanço, mas prefiro nem lembrar do que passou.

Esse foi certamente o pior ano das minhas vidas passadas, presentes e futuras, bem quando completei 70, e já não tenho muito tempo pela frente.

Tudo o que poderia dar ruim na vida de uma pessoa aconteceu comigo.

Mas, apesar de tudo, sobrevivi. Somos todos sobreviventes desse pesadelo.

E já que continuo por aqui, não me resta outra coisa além de continuar escrevendo, meu único ganha pão, pois não sei fazer outra coisa.

Passei o ano procurando boas histórias para escrever reportagens na rubrica “Dias melhores” da Folha, mas não está fácil.

Se alguém tiver alguma sugestão, agradeço.

Daqui a três dias teremos um novo governo. O que podemos esperar?

Todo mundo me faz essa pergunta e eu não sei o que responder. Quer dizer, até sei, mas prefiro ficar calado pra não estragar a festa de ninguém.

Em outras épocas, era um tempo de renovar esperanças, fazer para valer uma bela festa democrática, esquecer as querelas da campanha eleitoral, zerar o jogo e tocar o barco da vida, com novo ânimo, deixando a tristeza de lado.

Agora, o melhor a fazer é esquecer um pouco a política e os novos governantes, se possível, e pensar como cada um de nós pode melhorar a própria vida, sem depender dos outros para ser feliz.

Não se trata de ser egoísta, nem deixar de se preocupar com os rumos do país de todos nós, mas apenas a tentativa de manter um mínimo de saúde mental.

Sei que é difícil, mas não custa tentar.

Devem existir muitas outras coisas importantes pra gente se ocupar do que ficar lendo o noticiário que vem de Brasília, dos gabinetes, das delegacias e dos tribunais.

Perdemos muito tempo e energia nos pré-ocupando com o que pode acontecer.

Até porque, isso não vai mudar nada. Ganhamos mais jogando conversa fora com os amigos no bar da esquina.

Que cuidem disso os que foram eleitos e são regiamente pagos para apresentar soluções e resolver nossos problemas. Eles não prometeram que agora tudo vai melhorar?

A cada manhã, temos que reunir forças para ir à luta, matar um leão por dia para pagar as nossas contas.

Fazer cara feia e ficar reclamando do destino não resolve nada.

Essa é a realidade da vida, não temos como escapar.

Feliz Ano Novo!

Vida que segue.

Ricardo Kotscho

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