17 de dez de 2018

Uma mulher que é a tragédia brasileira


Gritos, lágrimas, alucinação, neo-evangelização total da política. Esta mulher que prega como quem precisa de ajuda psiquiátrica urgente será parte do governo de 200 milhões de pessoas.

1. Damares Alves conta que foi violada a partir dos seis anos, e isso determinou toda a sua vida. Aos dez quis matar-se, subiu a um pé de goiaba para tomar veneno, mas Jesus apareceu e salvou-a de Satanás, relatou ela, entre gritos e lágrimas, às massas que hoje a seguem. Damares prega como quem precisa de ajuda psiquiátrica urgente. Não é uma história rara no Brasil. Só que esta mulher será ministra a partir de 1 de Janeiro.

2. Nordestina de família pobre, como tantas no Brasil, Damares cresceu no Sergipe, filha de um pastor evangélico e de uma dona de casa. Ela resumiu assim ao “The Intercept” o que lhe aconteceu aos seis anos: “Um homem se hospedou na minha casa dizendo ser missionário. Ele enganou meus pais e me submeteu a várias sessões de estupro. Tirou minha inocência, achei que eu não iria mais para o céu. Mais tarde eu tentei me suicidar, mas tive um encontro com Jesus que me livrou da morte. A partir dali, resolvi fazer daquela dor a minha bandeira.”

O relato desse encontro com Jesus está num vídeo impressionante.



Sozinha, deambulando ofegante por um palco, entre gritos e lágrimas, Damares prega a uma imensa plateia, contando como aos dez anos se quis matar. No fundo da casa do pai havia um pé de goiaba, ela subia nele e chorava. Um dia em que estava lá em cima, já com veneno para se matar, aconteceu uma coisa: “Eu vi Jesus se aproximar do pé de goiaba.” Neste instante do relato Damares grita mais alto: “Eu tive uma revelação extraordinária!”, e “Jesus quer experiências extraordinárias com as crianças!”, e, de punho no ar: “Acreditem nisso!” Depois, Damares retoma a história do pé de goiaba: “Jesus olhava para mim, e ele era tão lindo, tinha uma roupa comprida, uma barba comprida, aquela visão que a criança tem de Jesus.” Aí Jesus começou a subir e ela esqueceu o veneno, preocupada com ele. “Não sobe Jesus! Você não sabe subir em pé de goiaba! Você vai se machucar! E já te machucaram tanto na Cruz!” Aqui, a voz de Damares é ainda mais lancinante, as lágrimas atropelam-se. “Eu amava tanto Jesus!” Mas “Jesus é tão poderoso, tão poderoso” que conseguiu subir no pé de goiaba até ao galho onde ela estava, e lhe deu “o abraço que a igreja não deu, o abraço que papai e mamãe não deram”. E “essa menininha que Satanás quis esmagar” se salvou. E hoje “está lá no Senado!”

Porque Damares, a menina abusada, se tornou uma pastora-política, como tantos no Brasil.

3. Aos 14 anos, ainda em Sergipe, Damares começou a trabalhar com organizações para a defesa das crianças. Deu aulas de alfabetização, experimentou dormir na rua para entender as crianças de rua, abrigou algumas temporariamente. Quando fala dessa época, faz questão de ligar o que lhe aconteceu com as suas decisões de vida. “Sou sobrevivente da pedofilia. Só quem passou por esse calvário é que sabe o que querem fazer com as nossas crianças”.

Entre o final dos anos 80 e meados dos 90, já advogada, Damares acompanhou a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente, enquanto assessora de políticos cristãos. Em 1998, mudou-se para Brasília e foi trabalhar com o deputado João Campos, que viria a presidir à Frente Parlamentar Evangélica. Foi sua chefe de gabinete.

O abuso na infância deixou sequelas que a impediram de gerar uma criança, diz. Tornou-se mãe adoptiva de uma menina indígena, hoje com 20 anos. E pastora neo-pentecostal, na Igreja do Evangelho Quadrangular.

Nos últimos tempos, além de assessora do pastor-cantor-senador Magno Malta, era também consultora jurídica das frentes parlamentares Evangélica e da Família e Apoio à Vida; secretária nacional do movimento Brasil Sem Aborto; membro dos grupos Maconha Não, e Brasil Sem Drogas; e figura cada vez mais conhecida das emissões evangélicas.

Fez campanha, antes de Bolsonaro, contra manuais escolares supostamente “ensinando homossexualidade”. Um dos seus alvos foi a ex-prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, que teria pago estudos para promover masturbação em bebés. “A igreja evangélica está deixando isso acontecer”, alertava Damares. “Vamos começar a reagir, porque estão detonando as nossas crianças.”

Manuais e estudos tão inexistentes como o “kit gay” que Bolsonaro continuou a atribuir ao PT, mesmo depois de estar legalmente impedido de o fazer.

4. No começo de Dezembro, Bolsonaro confirmou Damares como sua futura ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos. Uma promoção que deixou para trás os chefes dela no Congresso, como Malta. E que ela começou imediatamente a antecipar, desdobrando-se em declarações, por exemplo, sobre gravidez, aborto e violação.

“Se a gravidez é um problema que dura só nove meses, o aborto é um problema que caminha a vida inteira com a mulher”, disse Damares à imprensa, depois de uma reunião com Bolsonaro. Em outras ocasiões mostrou dúvidas sobre a quantidade de mulheres que morrem na sequência de abortos clandestinos, e insistiu: “Não considero tema de saúde pública.”

Mas nem estas declarações prepararam os mais pessimistas para a nova ideia de Damares: uma bolsa-estupro. Ajuda financeira para que as mulheres violadas não abortem.

Ou seja: uma mulher que foi violada, e se sentiu abandonada por família e igreja, e sente que toda a sua vida foi determinada por essa violência, torna-se pastora de outra igreja, e enfim ministra. E como ministra-pastora vai incentivar financeiramente mulheres a terem os filhos dos homens que as violaram.

5. Damares também fez várias declarações sobre o papel das mulheres: “Me preocupo com ausência da mulher de casa.” Ou: “A mulher nasceu para ser mãe, é o papel mais especial da mulher.” Ou: “As feministas [estão] levantando uma guerra entre homens e mulheres.” Ou ainda: “Costumo brincar de como eu gostaria de estar em casa a tarde toda, em uma rede, e meu marido ralando muito para me sustentar e me encher de jóias. Esse seria o padrão ideal da sociedade. Mas não é possível. Temos que ir para o mercado de trabalho.”

Quando, infelizmente, já estão no “mercado de trabalho”, Damares contudo faz questão de defender que ganhem o mesmo: “Nenhum homem vai ganhar mais que uma mulher nessa nação desenvolvendo a mesma função. Se depender de mim, vou para a porta da empresa [para ver se] o funcionário homem desenvolvendo o mesmo papel da mulher está ganhando mais. Acabou isso no Brasil.”

6. Damares também disse que “se precisar estarei nas ruas com as travestis, se precisar estarei na porta da escola com as crianças que são discriminadas por sua orientação sexual”. Mais, ao contrário da direita brasileira em geral, declarou-se contra a redução da maioridade penal: “Quem defende crianças e adolescentes não pode ser a favor de prendê-los”. E, numa altura em que pares de gays e lésbicas correm a casar-se no Brasil, com medo dos retrocessos, Damares garantiu que o casamento gay não está em perigo: “É uma conquista deles. Direitos conquistados não se discutem mais.”

Ao mesmo tempo, esta futura ministra é a mesma que pergunta: “O que nós estamos vivendo hoje? Uma ditadura gay. Há uma imposição, há uma imposição ideológica no Brasil e quem diz que não aceita, é perseguido.” Damares duvida da própria ideia de orientação: “Não há prova científica que o gay nasça gay. Se tivesse, já tinham jogado na nossa cara”, disse em 2013. “A homossexualidade, ela é aprendida a partir do nascimento, lá na infância. A forma como se lida com a criança. Mas ninguém nasce gay.”

Muito compatível com a visão de Bolsonaro sobre o assunto.

7. Finalmente, a igreja. “Eu oro com os meus deputados, eu leio a Bíblia com os meus deputados, eu vou na casa deles orar quando eles estão tristes”, explicou Damares ao “The Intercept”. Estado laico como princípio básico democrático, constitucional? Essa ideia, no mundo das ideias de Damares, Bolsonaro & Cia, está extinta. O que se tem vindo a construir no Brasil nas últimas décadas, por falhanços vários do estado, da política — várias esquerdas incluídas — é um fundamentalismo religioso neo-pentecostal. Um fundamentalismo que se alimenta do que os fundamentalismos se alimentam em geral, abuso, abandono, pobreza, ressentimento, fragilidade psíquica.

Instituições, escola, assistência médica? A futura ministra Damares Alves não confia em nada disso: “Todas as instituições que defendem crianças faliram e falharam na proteção da infância no Brasil. A escola falhou, não é mais um lugar seguro para as crianças. Os clubes não são seguros. Nem os consultórios médicos são mais seguros. Não existe lugar seguro. Todos falharam. Só há um lugar seguro: a igreja, o templo.” E, sendo Damares mãe adoptiva de uma indígena, declarada protectora dos indígenas, há indicações de que dará mais liberdade aos pastores para a conversão de indígenas. Uma protecção evangelizadora, pois.

Durante um culto, a futura ministra declarou mesmo: “Chegou a nossa hora, é o momento de a igreja ocupar a nação. É o momento de a igreja dizer à nação a que viemos. É o momento de a igreja governar.”

8. Contraditória, inflamada, sofrida, mas, de uma estranha maneira, genuína, empática, e por isso ainda mais perigosa, Damares parece concentrar em si a tragédia brasileira deste fim de 2018.

Já escrevi aqui várias vezes sobre como a fé evangélica no Brasil não tem de estar refém deste fundamentalismo. Como esse fundamentalismo não está na sua essência, tal como o fundamentalismo não está na essência islâmica. Nas últimas décadas, vi esse fundamentalismo reforçar-se no Médio Oriente ou na Ásia Central, por muitas razões: governos locais ineptos, autoritários, corruptos; interferência, ganância e asneiras múltiplas das potências “ocidentais”; a selvajaria financeira global. Como vi os evangélicos fundamentalistas crescerem no Brasil, e do Brasil espalharem-se pelo mundo, por exemplo na África de língua portuguesa (Guiné-Bissau, Moçambique, para citar os que conheço), mas também nas faixas mais frágeis da população portuguesa. Esta tragédia está em muitas partes da Terra.

Mas no Brasil há pastores e pastoras — como sempre houve padres e freiras — que todos os dias lutam contra o abuso gerado pelo abuso, e nunca atendido. Escrevi há algumas semanas sobre um deles, Henrique Vieira, e sobre como a esquerda tem urgentemente de mudar, de reflectir sobre o que falhou na sua relação com os pobres, os abandonados, os periféricos. Esses que hoje votam em evangélicos, que fazem com que a mais recente sondagem sobre o futuro governo Bolsonaro seja de 64 por cento de aprovação. E nessa esquerda estão incluídos os que não sabem o que fazer com os Coletes Amarelos de França.

Teologia da Libertação foi um movimento católico, mas continua a ser uma boa expressão para quem tem fé. Um grande mestre brasileiro, Paulo Freire, disse que quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é ser o opressor. Não sendo crente, imagino que isso se possa aplicar à fé.

O mais impressionante nos vídeos de Damares Alves, na forma desesperada como ela fala, talvez seja essa imagem de um ser humano prisioneiro: do sofrimento, da perturbação, de uma febre. E nessa imagem se projecta quem sofre.

Alexandra Lucas Coelho, jornalista e escritora portuguêsa
Do Sapo
No DCM

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