2 de dez de 2018

Um dia se saberá

O lema do governo Trump deveria bastar a Jair Bolsonaro para poupar o Brasil dos arreganhos e do espírito típico de colônia adotados nas relações do futuro governo com os EUA. "America first" transmite, entre outras coisas, uma mensagem imperiosa aos governantes atuais e vindouros, no sentido de que em tudo, nas relações com a "America", o ganho americano há de prevalecer sobre o equilíbrio das vantagens mútuas.

A política externa que se antecipa não será do Brasil. Mais do que caudatária dos Estados Unidos por ideologia, será uma ação a serviço dos Estados Unidos e praticada por imitações. Não e nunca a política internacional de um país soberano, ainda que em frangalhos.

O que se pode esperar do futuro ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, é uma figuração, ocupada com o desempenho burocrático do Itamaraty. A orientação de Bolsonaro em assuntos de política externa vem e virá do seu filho Eduardo. Mesmo o nome do futuro ministro pôde surgir de ou de mais colaboradores, mas a escolha coube ao filho. Já que apressada a ida de um representante do futuro governo a Washington, o indicado a fazê-lo seria o ministro escolhido. Não um deputado, que nem integra os quadros da nova administração. O deputado, porém, foi Eduardo Bolsonaro.

Nada disso é muito original. Eleito por meios duvidosos, Fernando Collor viajou a Washington. "Foi agradecer" ao presidente Bush pai, como explicado na ocasião. Agradecer o que, Collor jamais contou. Está subentendido. Depois dos minutos de encontro para fotografia, Bush fez para os circunstantes umas piadas gozativas de Collor, com ostensiva superioridade.

Bill Clinton mandou ao Brasil o seu marqueteiro para ajudar Fernando Henrique. Não é preciso lembrar como foi a política externa nos oito anos seguintes. A sobremesa é melhor: o Sistema de Vigilância da Amazônia, Sivam, foi entregue à americana Raytheon, em uma "licitação" que incluiu até o roubo dos projetos da francesa Thomson, forte concorrente. Bom de gafe até contra ele mesmo, foi o próprio Fernando Henrique a divulgar que, "vencedora" a Raytheon, telefonou para Clinton. Por quê? Fernando Henrique se entregou: porque Clinton pediu pela Raytheon. E então o Brasil pagou uma fortuna para dar aos Estados Unidos o conhecimento em tempo real da Amazônia brasileira.

O marqueteiro de Trump, Steve Bannon, foi na campanha aqui e é ainda um dos contatos de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Autor da manipulação eleitoral via internet em favor de Trump, Bannon foi o inspirador do uso da internet tido como decisivo para Bolsonaro.

As referências à participação dos Estados Unidos no golpe de 64 foram refutadas, aqui, por bastante tempo. Provocavam aquelas acusações de teoria da conspiração, comunismo, desconhecimento do patriotismo dos militares. Acusações reforçadas quando o embaixador Lincoln Gordon, convocado pelo Senado americano, cometeu a dupla indignidade, como professor de história e como cidadão, de mentir deslavadamente contra a participação americana. O primeiro documento comprovando-a abriu há 40 anos uma série ainda distante do final.

Além de mais revelações do lado americano, faltam as brasileiras. A Marinha, por exemplo, detém as fitas gravadas pelo embaixador Elbrick em seu sequestro, nas quais deu a identidade de agentes da CIA no Brasil, inclusive com nomes de militares. Democrata e diplomata digno, Elbrick negou-se a dar qualquer indicação sobre seus sequestradores, mesmo quando a ditadura valeu-se do dono de uma rede de comunicação, então amigo do embaixador, para pedir-lhe alguma colaboração.

Identificação ideológica não se confunde, necessariamente, com servilismo. Apesar disso, Jair Bolsonaro diz sobre a "grande aproximação" que quer de Brasil e Estados Unidos - diz aqui ao conselheiro de segurança nacional de Trump, e seu filho Eduardo diz a autoridades em Washington - coisas que submetem o Brasil ao lema "America first". Por que isso, não se sabe.

Se for o caso, um dia se saberá.

Janio de Freitas
No fAlha

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