17 de dez de 2018

Um Berlusconi é demais. Seis, então...

Durante os dez anos em que morou e trabalhou na Europa, o jornalista paulista Pablo Guelli via ''os desmandos dos jornais e TVs do Berlusconi - ou seja, praticamente de todo noticiário vindo da Itália", ele diz. Começou então a pensar em fazer e escrever o roteiro de um documentário, um filme que mostrasse a absurda concentração dessa indústria da informação nas mãos de uma oligarquia restrita como ocorre no Brasil.

Agora, quatro anos depois, Guelli, de 43 anos, chega à finalização do seu documentário sobre esse tema com o título mais do que inquietante: O país dos seis Berlusconis. ''Me pareceu uma analogia pertinente'', ele ressalta durante a entrevista à Carta Maior, por email.

O filme estreia no fim deste verão em cadeia nacional. Será mostrado em escolas, empresas, universidades, centros culturais, cineclubes e outros ambientes alternativos às salas de cinemas convencionais. Para tal, Guelli, que finaliza o filme em São Paulo, está levantando um crowdfunding* para conseguir verba e divulgar o trabalho em todo o Brasil; o que é importante.

O país dos seis Berlusconis estará disponível também no VOD do canal CineBrasilTV para onde o cineasta está dirigindo atualmente o documentário Casa Grande & Senzala: a desigualdade social como opção política.

Realizado através da produtora Salamanca Filmes, desde já o doc atiça a curiosidade sobre a oligarquia da mídia brasileira vista por dentro de quem trabalhou em diversas grandes redações. Afinal, o filme remete, em versão tropical e através de meia dúzia de famílias, ao mitológico Cidadão Kane.

Confira a entrevista:

Quem são seus personagens e como foram realizadas as entrevistas?

Todas elas foram feitas pessoalmente. Noam Chomsky, Luis Nassif, Laura Capriglione, Ricardo Melo, Xico Sá, Rodrigo Vianna, Glenn Greenwald, Jessé Souza, Ana Magalhães, Kiko Nogueira, entre outros. A trilha sonora é de André Abujamra.

O ator gaúcho Paulo Cesar Pereio, uma das grandes estrelas do cinema novo, nos anos 60, faz que papel?

Pereio personifica a mídia brasileira. E os entrevistados comentam e analisam a sua atuação.

E o que dizem seus entrevistados estrangeiros?

Os entrevistados de outros países falam com assombro sobre o comportamento da mídia brasileira. Alegam nunca ter visto nada parecido, em nenhum lugar do mundo. Já os brasileiros dizem que a imprensa nacional é simplesmente a pior do mundo.

Você, que já passou pela Globo, TV Cultura, Folha de S. Paulo, G1, Terra, Abril, CBN, Globo News, Media Pro, de Madri e TV NHK, do Japão, acha que o documentário brasileiro, no cinema, está ocupando, progressivamente, a posição que deveria ser da mídia, do jornalismo investigativo?

Sem dúvida. Como a chamada grande mídia abriu mão de fazer jornalismo por interesses econômicos, isso está abrindo espaço para que os documentários mostrem algo mais próximo da realidade.

O jornalismo de hoje, então, está sendo pouco a pouco desvirtuado em relação ao que ele era no passado?

A chegada da internet e as transformações na comunicação agiram como o meteoro que provocou a extinção dos dinossauros. O modelo de negócio foi extinto e junto com ele a credibilidade de toda imprensa - salvo raras e honrosas exceções. No Brasil temos a Agência Pública, o site The Intercept, os sites Jornalistas Livres e Mídia Ninja e diversos blogueiros que estão fazendo o que a mídia costumava fazer, ou seja, jornalismo de qualidade.

Tal como Carta Maior. Mas você enxerga responsabilidade também nos profissionais - editores, redatores, repórteres – que trabalham para os ''berlusconis'' em todo esse lamentável processo de desinformação e manipulação da mídia brasileira?

Na mídia brasileira existe um grupo de cães de guarda muito fiel aos donos. Merval Pereira, Josias de Souza, Miriam Leitão e por aí vai. A lista é longa. Sem dúvida, essas pessoas têm a parcela de responsabilidade nesse esgoto que é o jornalismo brasileiro atual. Mas é claro que a maioria dos profissionais são pessoas que têm contas para pagar e precisam trabalhar nesses conglomerados. Recentemente os jornalistas do portal R7 foram coagidos pela direção a fazer matérias pró-Bolsonaro. Alguns divulgaram textos na internet e fizeram o possível para mostrar o absurdo da situação. É o que conseguiram fazer. A maioria não pode se permitir o luxo de pedir demissão porque não concorda com a linha editorial da casa.

E quais são as ''seis famílias''? Marinho, Mesquita, Frias, Civita...? Descreva algumas das características de cada grupo.

Rede Globo, Record, SBT, RBS e os grupos Folha e Bandeirantes detêm juntos mais de 90% da audiência nacional. Depois de trabalhar durante 15 anos nesses grupos e entrevistar mais de 20 jornalistas para o filme, eu diria que a principal característica da imprensa nacional é a canalhice. Os grupos são uma versão moderna dos senhores da casa grande, principal traço da cultura brasileira, em minha opinião.

Vamos por partes.

A Globo é um império midiático que nasceu de forma ilegal e foi um dos pilares da ditadura militar. A sua história mais se assemelha à ficha de um criminoso de alta periculosidade. A quantidade de barbaridades que essa empresa comete não cabe nesse texto. Em qualquer país sério ela já teria sido processada por crime lesa-pátria e fechado as portas. Como dizem alguns entrevistados: o que é bom para a Globo é ruim para o Brasil. O Grupo RBS é um filhote desse império mafiomidiático.

Record e Folha?

A Record é a imagem e semelhança da Globo, mas evangélica. Inclusive contrataram sabe Deus quantos ex-funcionários da Globo para que a imitação ficasse mais próxima do original. Talvez agora, com Bolsonaro, a Record tenha uma chance de se destacar, já que o país está a caminho de se tornar uma teocracia militar. O grupo Folha de São Paulo é o que mais tenta parecer neutro, "plural". Uma ilusão. O Sr. Frias costumava emprestar os carros da Folha para que os militares chegassem disfarçados de jornalistas para prender e matar pessoas durante a ditadura - aquela que um dos cães de guarda do jornal chamou de "Ditabranda" em editorial. Quando os militares estavam deixando o governo, a Folha mudou a bandeira e passou um verniz democrático na sua fachada oligárquica.

E o SBT e Bandeirantes?

Os dois são os mais pitorescos. O SBT é aquele canal que transmite o programa do Chaves há 25 anos e cujo dono costuma humilhar mulheres ao vivo. Bandeirantes pertence à família Saad e são ligados ao governo estadual de São Paulo.

Em resumo?

Em resumidas contas: são grupos privados, cujos donos têm mentalidade de oligarcas e senhores de escravos do século retrasado, operando e fazendo negócios com uma concessão pública. Estão usando as concessões para ganhar muito dinheiro e amealhar mais poder. Não é ao acaso que a família Marinho é a mais rica do Brasil.

Grupos restritos de ''berlusconis'' também operam controlando a mídia em outros países Mas aqui, os oligarcas são bem mais fortes e organizados, não?

As oligarquias são fortes na América Latina pela história da região. Por conta disso há problemas de concentração de mídia em outros países, como na Argentina, que chegou a fazer uma Ley de Medios. Mas, sem dúvida, a mistura da pior concentração de renda do mundo, com altos índices de analfabetismo e uma cultura escravocrata, fazem do Brasil um lugar especial. Aqui, esses oligarcas atuam sem freios. Fazem o que lhe dá na veneta, destroem quem quer que seja e sabem que não serão punidos.

Qual é a sua percepção, depois de conversar com seus entrevistados?

Fica claro que deixamos de ser um país em desenvolvimento e nos convertemos oficialmente em uma república bananeira por conta desses oligarcas. Eles foram os pilares que sustentaram a imensa fraude de informação que tem chegado para a população.

Em 2012, Pablo Guelli e sua equipe ganharam o prêmio de Melhor Documentário no Festival de Castilla y León, na Espanha, com o filme Un instante en nuestras vidas, um doc que fala sobre a imigração espanhola na América Latina.



Léa Maria Aarão Reis
No Carta Maior

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