10 de dez de 2018

Sérgio Moro confere fé pública à palavra de Bolsonaro


O juiz Sérgio Moro vive seus últimos momentos de jornalistas exclusivos. Ou seja, da fonte que pode escolher o jornalista para suas declarações. Como Ministro, terá que abrir mão dessas regalias e enfrentar perguntas incômodas, de repórteres que provavelmente não ficarão passivos ante narrativas inconvincentes. Algo sugere que Moro não dispõe do necessário jogo de cintura para responder a questões espinhosas.

Prova disso é a entrevista que concedeu a Fausto Macedo, do Estadão, um de seus repórteres exclusivos.

Sobre o caso do motorista, buscou uma saída esperta: livrar Jair Bolsonaro e exigir explicações da rapa (clique aqui). Segundo ele, o presidente já esclareceu “a parte que lhe cabe no episódio”. Faltaria o esclarecimento dos demais.

O juiz ladino, implacável, capaz de aceitar denúncias baseadas exclusivamente em delações premiadas, ignorar provas documentais, condenar sem sequer definir relações de causalidade entre benefício e concessão, aceita de pronto uma explicação que não convenceria sequer um leigo em temas penais. O motorista, que arrecadava R$ 1,2 milhão por ano, que recebia repasses de salários de pessoas lotadas no gabinete do filho, passou por dificuldades, recebeu um empréstimo e quitou transferindo dinheiro para a conta da futura primeira dama, porque ele, Jair, não tinha tempo de frequentar banco. Ou seja, uma explicação totalmente inverossímil.

Moro não só acreditou piamente, como achou desnecessária a apresentação de documentos, comprovação do empréstimo, nada. Seria simples para Moro lembrar que, para comprovar versão de Jair (perdão pela intimidade do primeiro nome, mas é que há tanto Bolsonaro na parada, que usar o sobrenome provocaria confusão), bastaria o futuro presidente apontar o depósito feito anteriormente na conta do motorista-arrecadador. Se existir, estará registrado em seus extratos bancários. Se não se lembrar, bastará solicitar ao COAF.

Nem isso lhe foi exigido. Aceitou a palavra de Jair como se já fosse dotada de fé pública.

Definitivamente, o ar seco de Brasília não facilitará a vida do futuro Ministro.

Luís Nassif
No GGN

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