9 de dez de 2018

Pior que Bolsonaro é quem o pôs lá


– Tá uma porção de gente ligando, mandando mensagem, todo tipo de ameaça. As mulheres tão no desespero, a gente

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– Não dá agora por aqui. Vamos encontrar naquele lugar. Nem sei como tá isso aqui.

– O papo é sério, garoto, se não tiver uma saída logo eu denuncio tudo. Pode avisar a eles. A gente tá há dois meses trancado, sem sair, nesse lugar, a noite é horrível, ninguém dorme naquela casa, nem os caras que fazem a segurança a gente confia. Olha aqui: Não pensa que vão usar o mesmo esquema da vereadora. Eu falo tudo. Qualquer sinal a gente fala.

– Suave. A gente tá no controle, só não dá pra vc falar direto com eles. Acham que ta tudo grampeado, uma noia. O pior é que um deles é muito esquentado, sem falar dos noia em volta do bagulho, gente que a gente nem controla.

– Perigoso mesmo. Mas amizade e fidelidade é tudo, na hora boa, na ruim.

Os caras também tão se achando cercados, vítimas dos milicos que tão sabotando eles. Já não confiam em ninguém e acham que até os economistas tá tão fazendo ligação direta com os fardados. Tá foda. Ninguém se entende. Nem eu tô conseguindo falar com eles. Mas fica frio, e olha bem, vocês tão na mira de uns caras que você conhece. Tudo maluco. Não custa muito pra eles surtarem. Se for na boa, tem tudo. Senão, nada. Mas fica frio, só não dá por aqui.

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A imagem do superministro indicado da Justiça, Sergio Moro, esgueirando-se das perguntas dos jornalistas ao final da entrevista em Brasília, espelham a acelerada deterioração do capital político do caçador de corruptos: o corpo torcendo-se, a cabeça travada ao pescoço em rotação panorâmica fazer o conjunto dar as costas, desligando-se dos microfones, depois das câmeras, as pernas num caminhar instintivo, o olhar autômato em diagonal; por último, atrasado, ocioso, o braço e no limite a mão, expressiva de um conflito em torno de que sinal emitir. O membro vai virando e erguendo, indeciso, o dedo indicador, primeiro, apontando para a frente, num gesto quase fuzilante, o que é ruim. Acode o dedo médio, tíbio, que evolui num V da vitória, o qual por sua vez tenta amenizar a mensagem do corpo que já deu as costas em fuga enquanto os gritos do lado de cá dos microfones se sucedem ecoando: Coaf, coaf, coaf...

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Pode haver vários desfechos e desenvolvimentos, mas jamais será possível esquecer que os atores por trás de Bolsonaro são os maiores responsáveis pelos estragos que ele já está causando. O capital financeiro, os grandes empresários irmanados em torno da direita, os meios de comunicação, a Justiça atravessada pelo fascismo político e moral: dominada pelo fascismo, as igrejas evangélicas, os militares degenerados, os bilionários prejuízos potenciais causados na presença brasileira nos mercados internacionais tão duramente conquistada junto à China, ao Mercosul, ao Oriente Médio. Como relata André Barrocal, na revista Carta Capital, ao menos um analista de banco já dedica longo tempo a explicar aos investidores as chances de Paulo Guedes e seu programa serem comprometidos por envolvimentos em irregularidades. As populações pobres de municípios médios e pequenos de regiões distantes e das periferias das grandes cidades que já estão sem o atendimento dos cubanos do Mais Médicos não devem cobrar apenas de Bolsonaro, mas principalmente de quem o levou a sair das franjas para o Planalto.

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É dos programas mais divertidos acompanhar sites pró-Bolsonaro, como o Infomoney. O Coafão, o Coafgate, o Motorista da Família, nem dão as caras nas homepages dos cheerleaders do mercado.

Mario Vitor Santos é jornalista. Foi ombudsman da Folha e do portal iG, secretário de Redação e diretor da Sucursal de Brasilia da Folha.

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