18 de dez de 2018

O testemunho de Damares sobre o estupro é como o kit gay: não fecha


Você sabe quem abusou do ator Anthony Rapp, quando este tinha 14 anos de idade. Foi Kevin Spacey.

Você sabe também quem abusou de Ashley Judd e outras atrizes famosas. Foi o produtor Harvey Weinstein.

Você sabe que João de Deus é acusado de abusar de fiéis da sua igreja.

Sabe porque as vítimas contaram, e João de Deus agora terá contas a ajustar com a Justiça.

No caso da pastora Damares Alves, futura ministra dos Direitos Humanos, você sabe, pelo que ela diz, que um tio a estuprou entre 6 e 10 anos de idade.

Mas não conhece a identidade do monstro.

Quem é tio dessa senhora deve ficar preocupado, porque todos são suspeitos de pedofilia e estupro.

Damares, como todas as vítimas de pedofilia, deve ter a solidariedade irrestrita de todos nós. Mas por que a futura ministra não conta quem é este homem?

Tio é genérico demais diante da gravidade do crime apontado.

Só Damares pode dizer porque ainda oculta o nome do abusador, e enquanto ela não apontar seu algoz é razoável duvidar da veracidade de seu testemunho.

Insensibilidade?

Não, mas o ceticismo necessário para analisar testemunhos dados em igrejas evangélicas, em cultos que são marcados por técnicas adequadas para emocionar.

No vídeo em que a pastora conta do abuso e de seu encontro com Jesus no pé de goiaba, ouve-se uma música melosa ao fundo.

Não é uma exceção na maioria dos templos.

Normalmente, a trilha sonora é uma técnica para emocionar o público, em momentos antes do apelo ou da coleta de ofertas.

O apelo é quando o pastor pergunta se há alguém presente que gostaria de aceitar Jesus e o convida a se aproximar do púlpito (ou palco) e fazer a declaração de fé.

Em tese, o objetivo é a conversão para o cristianismo, mas, na prática, funciona como estratégia para aumentar o público cativo e, consequentemente, a receita da igreja.

Quanto mais extraordinário for o testemunho, maior o número de pessoas que atendem ao apelo do pastor.

No caso de Damares, enquanto ela dava testemunhos nas igrejas, seu chefe, o senador Magno Malta, usava a tribuna do Senado para denunciar a pedofilia.

E, em pelo menos um caso, contribuiu para a prisão e tortura de um inocente, o cobrador de ônibus Luiz Alves de Lima.

Magno Malta fez da pedofilia e do discurso evangélico a bandeira para garantir reeleições até que começaram a surgir evidências de que, na prática, sua teoria era outra.

Damares, no caso do kit gay, é comprovadamente mentirosa.

Em um vídeo de 2013, ela apresenta fragmentos que induzem o público a acreditar que o governo de Dilma Rousseff estava empenhada em perverter crianças nas escolas.

Chega a dizer que a estratégia havia começado em São Paulo, em 2004, durante uma administração petista, com uma consultoria destinada a ensinar educadores a masturbar bebês de 7 sete meses.

Foi ela a primeira a mostrar nas igrejas o livro Aparelho Sexual e Cia e dizer que era uma obra distribuída nas escolas públicas.

Durante a última campanha presidencial, Bolsonaro mostrou essa publicação durante sabatina no JN da Globo e repetiu a farsa de Damares.

Fake news em estado puro.

No testemunho de Damares, há o relato de uma criança que se sentava com a calcinha suja de sangue na primeira fileira da igreja.

Mas os pais, segundo ela, não sabiam dos abusos, que se repetiram durante quatro anos.

Que mãe, por mais ausente que fosse, não estranharia se visse a calcinha da filha suja de sangue?

Ou Damares, para proteger o tio anônimo, lavava a calcinha antes de colocá-lo no cesto de roupa suja?

Esse testemunho de Damares, assim como o caso do kit gay, não fecha.

Há crianças vítimas de abuso em muitos lares no Brasil, inclusive atacadas por pais. É preciso punir esses monstros.

Mas, ao mesmo tempo, é prudente tomar com reserva a palavra de uma mulher que ajudou a fazer da farsa kit gay uma arma eleitoral em favor de Bolsonaro.

A mentira que contribuiu para fazer o capitão da reserva presidente e ela própria, ministra.



Joaquim de Carvalho
No DCM

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